Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


English




ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

31.8.03

quando a encontrei achava que era uma coisa, depois vi que não, que era outra. Mais tarde achei que era fraca, débil fisicamente... continuo achando que é, mas ela não acredita --- ela só acredita naquilo que imagina, não ouve, é incapaz de ouvir, acha que estaria perdendo sua individualidade se cedesse... então não cede, não ouve, não reavalia, vai em frente...continuará indo em frente sempre porque não tem parâmetros, não tem norte não tem nada, é apenas visitante dessa vida 'a que veio a passeio...' não existe nada nesse mundo que a demova porque demover seria perder e não quer perder nada, acha que sabe (e na verdade sabe muitas coisas), portanto não há como mexer, como desbaratar, como desenrolar... tem que ficar parado na beira do cais ou na estação ferroviária olhando, vendo o movimento que faz, certa de que está no rumo... e me dá medo, temo por esse rumo, mas entendo que a vida só é percebida enquanto se vive e não importa o que estarei pensando nem sentindo (culpa?? Não...)
em determinados momentos penso que parto em meu avião antes e, assim, não saberei do seu destino, já que não sei do meu.... e o que é isso agora de querer saber de destinos se nem sei se destinos hão.
.... é só uma dorzinha aqui dentro....

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Deixa eu ir colocando por aqui mesmo parte das coisas que andam pelos cadernos e folhas soltas... não é por nada, é só uma fase de desprendimento daquilo que chamo de meu, considerando que o que escrevo não é meu nem seu, não é de ninguém... deverá caber ao próximo achar razoável ou não perder tempo com essa coisa toda:
Carta de Manoel:
querido amigo, te escrevo hoje porque não consigo parar quieto, já andei de um lado ao outro, pela sala, pela rua, pelos bares e nada me acalma, nada me faz parar, é como uma ânsia que dá aqui, olha, na boca do estômago e somente o vinho aplaca (mesmo assim por pouco tempo)... quero te contar que fui ao tal doutor que trata desses neurastênicos. Ele não me deu muita bola, mandou tomar um chá e fazer bastante exercício... expliquei-lhe que não estava mais nem conseguindo trabalhar e ele me olhou por cima dos óculos, mas como? Se exatamente não sentes essa vontade toda de fazer alguma coisa?pois trabalha que te fará bem! ¿ resolvi não discutir com o homem, saí à rua e quase fui atropelado por um bonde, o que me colocou o coração a galopes! Fui depois ver Maria e não consegui ficar com ela, fazer a coisa, você me entende....abraços de teu confrade, M.

O mesmo acontece no e.mail de Fred:
oi, cara. A coisa aqui tá braba... parei realmente de fumar unzinho porque não estava adiantando... o cara da clínica disse que eu ia melhorar, me deu alprazolam, mandou eu tomar 1,5 mg ao dia.... porra estou tomando 8,0 mg ao dia, chego a cair, mas não passa, cara, não passa, os caras chegam a me carregar, mal me coloco de pé, mas a ansiedade ta lá, insidiosa, escapando entre as fibras, descontrolando tudo, não me deixando dormir nem trepar.... ler então nem pensar! Leio, leio, leio e não sei dizer pra você nem sobre o último parágrafo... estou fadado a ler caras (e prestando muita atenção). Até o cara da clínica me olha desconfiado, acha que estou exagerando... por isso te mandei esse mail. quando der, responde. F.

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= = = > eu gosto de dar uma olhada em mim mesmo sempre, ver como estou indo, como estou agindo em relação às pessoas e a mim... tô escrevendo isso porque em muitos momentos eu fico triste, fico com raiva mesmo de algumas atitudes, de uma certa maneira de pensar que os outros têm e não me agrada, mas no fundo, quando estou tranqüilo, pensando em paz, vejo que tenho encontrado pessoas legais, que fazem sim um monte de coisas que acabam me prejudicando de uma maneira ou de outra, mas são pessoas como eu, que também tem qualidades e defeitos, mas não são do mal. As do mal estão longe de mim, bem longe. as que gravitam no meu entorno são pessoas legais, que eu às vezes quero impor o meu modo ou que eu não aceito como são. Tudo bem, eu tenho todo o direito de não aceitar, mas revejo os momentos em que sinto raiva... estou errado... todo mundo tem seus limites, suas possibilidades e leva a vida da maneira que quer, eu não posso mudar isso. Só me resta ir eu, levando o que tenho de mim... sem rancor.... de verdade.
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marina w, do Blowg, dá um depoimento sério sobre a depressão. ***não sei escrever como ela, mas aproveito para falar um pouco da doença e da reação das pessoas: a depressão é uma doença terrível porque não "exibe"mostras externas, a dor que se sente não é tratável com novalgina e não temos explicação para o que estamos sentindo. - - - - > no livro o demônio do meio dia, o autor faz um relato fantástico da depressão. As pessoas, até os amigos, até os familiares ficam te censurando por 'não curtir o dia maravilhoso de sol', por não ''estar feliz pelos filhos, por não dar graças a a deus de não 'ter câncer' e outras idiotices. ninguém consegue entender qual é o problema. você fica sendo apenas o chato, aquele camarada que não quer nada, que não se ajuda, que vive triste (e sem razão). Se você tem sinusite, corisa, perna curta, enxaqueca, gastrite, se é cardíaco ou diabético está tudo bem... as pessoas entendem que você sofre de uma doença e, de vez em quando vem a crise, normal, toma remédio e se cuida. ficar de cama porque está com enxaqueca ou labirintite pode. Com a depressão não, é frescura, é coisa de gente chata, de gente que 'não ama a vida', que não sabe sentir a 'beleza da natureza, do sol' e tudo o mais. as pessoas se irritam com você, mesmo as mais próximas. Então chega um ponto que a gente não tem mais com quem falar, pior, tem vergonha de falar e, além de estar sofrendo, de estar doente, tem quase que fingir que está bem pra não ser detestado.
claro que isso é prova cabal da boçalidade das pessoas. Eu que não sou bonzinho nem nada fico possesso com essa ignorância coletiva (inclusive de médicos)... milhões de seres no mundo sofrem de depressão, cada vez mais (porque essa baixa da serotonina também está ligada a alguns fatores externos da vida moderna)... e não adianta, você tem que agüentar firme vinte, trinta, quarenta dias até os remédios começarem a fazer efeito... e, às vezes, esses medicamentos perdem o efeito e você tem que trocar e começar tudo de novo...***

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30.8.03

ela caminha na lâmina, no fio da navalha e às vezes não vê. . . fico de olho, não quero que caia, não vai cair... me vejo enredado de uma forma estranha, distanciada e aproximada porque posso e não posso fazer e falar... não sei bem que descaminhos rolaram e como as coisas aconteceram... agora é rever ponto a ponto, circuntância objetiva do ser** isso importa. não adianta falar das coisas que não foram ou foram de maneira complicada porque eu sei bem o que é essa coisa toda que a gente vive e sei bem o que a gente encontra por aí...
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fui a secretário*** pagar a empregada e ver como andam as coisas - - - - > é uma droga porque sempre que vou até lá volto mal, volto com sensação de fracasso, de derrubada... já estive mal por tudo isso...hoje superei toda a sacanagem e vou transformar aquilo em outra coisa, legal, da vida nova...
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29.8.03

*caminhar na chuva pode ser um momento propício para refletir sobre eu e o outro, mais exatamente sobre eu, essa coisa concreta que se baseia nas abstrações do órgão (complexo) mais concreto: o cérebro. Talvez o desconforto não se deva às ações, aos sentimentos, às dores, carências e alegrias e sim à origem delas que é um nada concreto, um órgão que existe mas seu produto é abstrato.... *se digo que a idéia, o pensamento e o sentimento são abstratos, no sentido de não serem tácteis, confirmo para mim mesmo, com espanto, que o meu todo é muito mais abstrato do que concreto, já que o corpo após a morte é concreto, é corpo, mas todo o sentimento, toda a vida não está mais ali porque não existem mais sentimentos, alegrias nem dores, não existe o produto do cérebro... o sangue continua, ainda que parado, nas veias e no coração, a bile,a urina, etc. continuam no corpo, mas o eu não está mais, quer dizer o corpo não é nada sem a possibilidade de.
essa possibilidade se caracteriza exatamente pela impossibilidade, pela abstração do pensamento que, a rigor, não seria nada, seria impulso que, puro, não gera nada; pensamento não oxigena pulmão, nem substitui um simples fêmur - - - > sem o fêmur não ando nem produzo materialmente, não posso ser um estivador ou um atleta completo, por exemplo, mas, morto, o fêmur continuará lá... esse mesmo fêmur, entretanto, não existe como entidade no corpo morto porque ele está como coisa morta, como um nada concreto.... poderia seu um vaso ou uma medalha ao invés de um fêmur, qualquer um deles não é nada, não é gente, não existe no mundo da vida. Existe sim na visão de outra pessoa que, por sua vez, também não é ela mesma e sim o produto abstrato do corpo de transporta seu cérebro. Imagino então que o homem não é um, é dois. O material (que na verdade é percepção do abstrato verdadeiro) e o abstrato (que na verdade é a possibilidade de ser justamente por sua abstração, por olhar e reconhecer e prescindir ou não de.)
O esquizofrênico, por exemplo, que é diagnosticado pelo psiquiatra (ou melhor, por esse ente abstrato que o psiquiatra traz junto a si) como tendo uma cisão do seu eu, sendo esse eu um duplo, é na verdade um triplo e já que a parte que se dividiu é abstrata ele é um três que assume e percebemos com características de um dois.
Se um indivíduo recebe por transplante um coração novo, entendemos que ele é o mesmo indivíduo, doente, mas o mesmo porque não lhe reconhecemos o outro, o abstrato (que é o verdadeiro eu)... não o tratamos como dois. Agora, havendo a cisão da personalidade desse transplantado, entendemos que ele pode assumir a característica da personalidade A ou a característica da personalidade B, tratando-o como um doente, um possível dois, quando ele é um duplo doente com um possível quatro (outro coração e outro eu abstrato)
esse mesmo paciente se olhando no espelho vê quantas pessoas? Uma: o corpo que, por refletido, não reflete a abstração do pensamento. Mas uma terceira pessoa vendo esse mesmo paciente no espelho e colocando-se atrás dele, vê três corpos (o do transplantado à sua frente, o reflexo dele e o reflexo de si mesmo além da sua verdadeira condição de abstrato e (imagina, portanto vê) essa mesma condição do transplantado (a que não é refletida). - - - - > Vê, então, cinco pessoas.
Correto?

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28.8.03

- - - - - >encantar-se com a obra de van gogh é um prazer que poucos se dão. preferem a pintura comezinha das vielas, feitas em fundo de quintal, camelôs que são. ...mais importante é ler a obra literária que van gogh deixa nas cartas a seu irmão théo. não basta, é claro. - - - - - > temos todos o rigor do sublime de espírito, do louco que se interna e sai e entrega a orelha a uma prostituta... quantos de nós não entregamos nossas orelhas pela vida, quantos não entregamos, muitas vezes o corpo inteiro e o espírito amiúde em busca de um reconhecimento que não vem... mas não há a quem culpar, falta o conhecimento de estética no outro para perceber o que estaria sendo, o que poderia ser feito e sem estética não há gentes, não há mundos, não martes[nem os tão próximos]...
sou um buscador de estética e a reconheço não por formação acadêmica, mas por uma espécie de instinto, uma espécie de atração que não sabe explicar nem analisar nem discutir... mas essa pobreza acadêmica nem me dói tanto porque me regojizo em ver, ler, sentir, vibro com o que percebo e não com o que me oferecem por algum dinheiro... tendo em mim essa massa disforme que transforma em visível aquilo que a outros não é, que me possibilita, ainda que ao preço de alguma dor, ver, sentir e crer e assim viver dias seguidos, anos, vidas... estarei não onde o povo está, mas onde eu estou e me cerco de eleitos e curiosos, cada um me vendo como pode.< - - - - - - -

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- - - - > chove muito o dia inteiro, a noite inteira e fico pensando nesse monte de gente caminhando sob a água... gente pra lá e pra cá, ora meio correndo, ora devagar, entregue ao que vier, gente que caminha dentro da grande bolha não importando se a água vem de cima ou de baixo ou se é, ele mesmo, a própria água ou se o mundo é placenta pobre, placenta jogada na lata do lixo ainda sem estourar como o são tantas coisas na cidade grande que viram dejetos sem quê nem porquê, somente porque ninguém pára e olha, ninguém quer ver o que estamos fazendo, ninguém quer se tocar da lama que está em baixo da chuva e quem olha vê gente e lama e não sabe mais o quê é o quê... passa o carro e molha a gente com a água da poça da praça da bandeira (que nome!) e o pessoal de cima do viaduto ri e o viaduto cai e todos caem na pista... no leblon o hotel marina se acende e eu me acendo também não por nada de especial, mas porque está escurecendo mais cedo nesse inverno tenebroso e não tem lata que não seja chutada, mendigo que não seja chutado, boca que não seja beijada, boca que não cuspa em cima de outro que está atrás, embaixo... não importa nada do que se escreve, o importante é atulhar a infovia, me disseram, atulhar pras pessoas se assustarem logo de uma vez e voltarem a seus mundinhos de telefone preto, de sobretudo, de carro 55 conversível e néon, muito néon.
um mundo de vestidos dourados, histórias em quadrinhos em branco e preto, neon e jazz, muito, muito jazz. < - -

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27.8.03

acreditei que a grande mudança foi no final do ano passado. Não.
A grande mudança é agora.
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26.8.03

*** Traçar retratos psicológicos é próprio dos psicanalistas e não dos desocupados, mas temos uma tendência de procurar compreender o outro, o que o outro faz, porque faz ainda que, para isso, precisemos voltar no tempo, entender sua história, sua vida; não ganhamos nada com isso (na maioria das vezes, desprezo), mas o fazemos por um motivo maior, mais nobre que não cabe aqui. Sofro pelos seres que se dedicam a essa profissão e vêm o pífio resultado no outro daquilo tudo que ele percebeu (ou pensa que percebeu), quando ele diz e não é ouvido, quando vê o movimento perigoso à caminho da derrocada final no outro, porque outro é uma pessoa, como ele, como seus filhos. Pode ter isso esse o motivo do esmagamento da psicanálise há vinte anos. Não parece que tenha sido um engano de Freud, foi, antes, a impotência do homem perante outro, a impotência do convencimento não coercivo, mas através do diálogo. o que temos são pessoas sem diálogo, sem família, sem amparo sem esperanças, pessoas que só visam o resultado imediato como o traficante de droga que vê na venda o dinheiro aparecer na sua mão e esse dinheiro virar barato na sua cabeça. não importa o quanto vai durar porque depois repete a operação e assim indefinidamente, até morrer na rua e acabar. não existe convencimento para ele porque ele entende que é assim, tem a liberdade de ser assim e não abre mão dessa autonomia. qualquer coisa além disso implica em projeto concreto, compromissos com a sociedade, compromissos com o outro e, em sua rasa visão, não existem outros, existe ele, ele e mais ele. esse ele não é individual, é nada, é uma impossibilidade num mundo de possíveis, esse ele é a negação dos eles que andam pelas ruas e é bom renegar o que há porque vai aí o rompimento com o todo tão necessário a quem não quer participar de um jogo vital; - - - - - - > o que ele não percebe é que ele também está jogando, também faz parte do mesmo jogo, que segue as mesmas regras, ainda que inflingindo-as, porque quando se fecha não está sendo mais individual nem mais livre, está somente sendo diferente como o coringa do baralho com sua cara pintada ou anda no tabuleiro fora da trilha, mais sempre no tabuleiro; atrai sim eventualmente o jogador desavisado, mas o tempo termina por ensinar e, passada a aventura, a curiosidade, acaba sempre descartado: num jogo velho então, nem é mais jogado, é descartado de antemão....
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- - - - > procuro na caixa de papéis soltos durante vários dias, horas seguidas até encontrar o maço de folhas enroladas com barbante vagabundo. são folhas velhas, em alguns pontos a tinta está borrada e sorrio dessa mania de escrever à pena. deve ser essa coisa que conheço tão bem, tão profundamente e que é só minha, a de pertencer a outro tempo, outro lugar talvez, mas não aqui, não a essa época, não a essas pessoas, de pertencer a um mundo que dizem esquizofrênico porque se dissocia daquilo que chamam modernidade, independência, individualismo... nessas folhas existe o relato de histórias várias, mas uma em particular me toca mais pelo amor, pela capacidade de crer no amor e não ter vergonha, de ver a mulher e o homem quando eram independentes de verdade, independentes o bastante para serem um só, para estarem juntos, individuais, mas de mãos dadas de verdade não olhando um para o outro porque cada um tem sua cabeça, seu coração, mas livres o bastante para, de mãos dadas apenas olharem para a frente, para um ponto ainda que distante, mas comum aos dois. *sabem eles que existe um ponto no horizonte, ponto de equilíbrio de verdade, de normalidade e pergunta o que é essa normalidade, onde ela está nesse ponto e ele não responde, aperta mais a mão da mulher de verdade, da mulher que é mais do que o sexo diferente, que é pessoa, que leu 'tornar-se pessoa' na época adequada, mas cresceu e viu o mundo tal qual é, com todas as possibilidades e entendeu que a liberdade completa é, antes de tudo, saber quem é, para onde e com quem vai, percebeu que a sinceridade com o outro é antes de tudo a liberdade da verdade consigo mesma, com seu espírito, que correr para ver tudo é como não ver nada porque está num útero rosa (como michelle*) e nesse interior existe mais do que...
...chora, chora muito por não ver, não entender o que está escrito, por rir do que não percebe (ou percebe mas não se permite) e volta, rosa murcha para a praça (que é do povo como o céu é do condor) e se encharca de chuva suor e cerveja (até o fim)
- - - > e longe pensam eventualmente porque tudo foi assim e não há resposta lá < - - - -
a resposta está dentro dela mesma e ela mesma não tem mais dentro < - - -

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24.8.03

escrever nem sempre é um ato prazeroso. muitas das vezes as pessoas o fazem simplesmente por não serem capazes de fazer alguma coisa melhor, alguma coisa mais útil a si mesma ou ao próximo. é ilusória a idéia do escritor como artista. existem, com certeza, artes mais nobres e os escritores de verdade sabem disso. a maioria inclusive renega suas obras, tem medo de editar, manda queimar e essa coisa toda... não é à toa... agora escrever sem talento, escrever por escrever então é pior, é um ato de pura solidão, de pura incapacidade de trocar com o outro suas idéias a respeito de. quando não se consegue mais entrar em contato com as pessoas, quando elas te olham de maneira estranha e desconfiada, quando acham que você está fazendo tipo ou é excêntrico demais, aí, babau, meu caro, o que te resta é o maldito computador e pronto. mas a gente não se contenta com isso, a gente quer mais, quer essa fama tolinha que a internet proporciona (porque 90% do que está na internet é lixo), todo mundo sabe[?]***, mas a gente que fazer parte desse lixo acessível a todos, quer mostrar que pensou isso, almoçou aquilo outro, leu o livro tal e viu o filme não sei o quê num processo narcisista tão comum aos depravados do espírito.
... de qualquer maneira pode ser menos danoso ao próximo do que sair por aí dando tiros a esmo ou destroçando corações inocentes (existem?) ou chutando canela de velho ou apertando pescoço de bebê... essas coisas todas são antigas, são do tempo da laranja mecânica... hoje temos coisa melhor, mais violenta e real, temos os árabes, os al isso e al aquilo, podemos dizer que o americano é, antes de tudo, um culpado e assim por diante. quando a gente chega ao ponto de se impressionar mais com tiros em columbine do que com apocalipse now, quando a gente preza mais a individualidade do que o amor, quando fala em cultura afro-brasileira, quando renega o pensamento puro pela fé abstrata...
...nessas horas é melhor você encher ainda mais a lixeira da internet sabendo que vão ler e desprezar (porque é pra desprezar mesmo!), até porque desprezando esse lixo a gente não olha o quanto pode estar sendo desprezível.

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- - - - - > dizem que eu escrevo besteira para ser polêmico. claro que quem diz isso é uma minoria xangai e ignorante. ****porque pra você meter o pau em outro cara tem que conhecer mais do que ele (o que não é, absolutamente,o caso)... ficaram rindo porque eu disse que, se eu não conheço é porque não existe... ora, essa frase nem é minha, é do paulo francis e é completamente compreensível se for ouvida com parcimônia e carinho: se eu leio três revistas semanais, dois jornais diários e leio todos os livros que são lançados, estou muito bem informado e posso falar sobre as coisas ainda que não ache o que os outros convencionaram que tem que ser achado, isso é outra coisa... podia fazer igual ao gerald thomas e mostrar a bunda, mas não ia ter impacto porque minha bunda é muito bonita e a dele, branca e murcha. o impacto foi na bunda feia e não na bunda (além dele usar cuecas e eu nem sempre). < - - - - -
... deixo isso de lado pra reclamar do cinema brasileiro: ou eu tenho que ver o guel arraes (que quem viu um, viu tudo) ou então tenho que me render às penitenciárias... acho que nenhum país nunca filmou tanto suas penitenciárias, nunca mostrou tanta gente inocente, boa e caridosa injustamente presa e nunca defendeu tanto a violência... e eu tenho que sair dos cinemas sempre culpado, sempre vendo que fui eu quem criou aquela violência toda por lá... porque eu tenho carro, casa, fumo meus cigarros, almoço quando tenho vontade, tenho emprego... eu sou uma infame, eu tinha que trabalhar numa fábrica, andar de trem, tomar pinga de manhã e fazer parte do sindicato... quem manda eu seu burguês?
... eu tinha que rir para o sol e agradecer a deus por estar vivo e saudável, mesmo sem saber o que pode estar me corroendo silenciosamente por dentro, tinha que dizer: ai, que lindos os meus filhos e como sou abençoado por todos os bens, todas as benesses que a vida me dá... mas eu sou um maluco que reclama de tudo, que acha isso tudo um tédio, que prefere ana c. a machado de assis, que prefere john fante a proust e isso não pode, não pode, não pode.
... eu detesto o feminismo, não sei se posso ser chamado de racista, mas me dou o direito de implicar com quem achar que devo e isso também não pode... como não pode deixar de comer alface, não pode fumar, nem tomar remédio pra dormir...o que pode é visitar a família e passear no bosque rindo apalermado, fazer bilu bilu praquelas crianças chatas em seus carrinhos azul marinho e dizer pras mães "que gracinha"....
...tudo bem, mas eu não vou tentar
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pra falar a verdade, esse negócio do sérgio vieira de mello está enchendo o saco porque as pessoas não param de falar nisso, fazem bandeira e tal e isso irrita, irrita... e tem sempre os otários vendidos que acabam, de uma forma ou de outra, chegando ao bush, colocando a culpa nos estados unidos... por que ninguém tem pena dos meninos de dezoito anos americanos que estão sendo massacrados dia a dia lá no Iraque? e os nossos meninos cheirando cola e enfiando facas e metendo trinta e oito na nossa cara? ah, já sei, a culpa é minha que sou burguês... é a sociedade que não faz a divisão de renda.... lá, nos famigerados estados unidos, tem divisão de renda, não tem essa choldra que infecta as ruas....por que tem esse papo todo que o embaixador brasileiro só andava pelos países pobres? ele andava porque queria, porque aceitava (opção caramba! humanitária, nobre sim, mas opção!), assim como outros do itamariti só fazem o circuito elizabeth arden (o itamar até nisso escorrega, claudica e ninguém diz nada)... ora, jogaram aquela quantidade de explosivos na sede da onu porque deixaram ainda gente capaz disso viva... se não tivesse sobrado ninguém, não teria explosão (diga-se de passagem, explosivos russos!)...*
ficar nessa lenga lenga que antes a américa do norte apoiou o iraque e depois detonou (pouco) não leva a nada.... todo mundo uma hora está de um lado em a seu bel prazer, muda de lado, é um direito dos homens (e dos presidentes também)... essa complacência com o terrorismo no mundo inteiro só aumenta o poder de fogo de todos eles... veja o brasil que tem farc por todo lado, que as farc ajudam políticos, ajudam a quem interessa: ninguém fala, ninguém viu.*** quando começarem o terrorismo aqui vai ser aquele espanto, aquele ooohhhh dos verdes (com roupinhas brancas de grife) enquanto abraçam árvores e a imunda Rodrigo de Freitas a metralhar aqui, vai ser a mesma história se bem que aqui eles já fazem o que querem, a droga corre solta e o poder político é mais forte do que nunca. Bush errou só em não fazer o serviço completo.

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- - - - - > dormi muito mal (não é sempre), com muitos sonhos, principalmente um: que estava numa CTI entubado... puxa vida! que coisa mais chinfrin que é você ficar com aquele tubo enfiado na traquéia! eu acho que devia ser proibido por lei, não tem nada mais indigno do que uma pessoa entubada... se o pulmão não funciona mais, deixa o desgraçado morrer! o entubado sofre, é indigno e toda pessoa, mesmo doente, mesmo na hora da morte tem o direito de não perder sua dignidade, sua estética, seu modo de ser, não é possível se permitir que as pessoas num hospital percam toda a sua forma, todo o seu ser, tal como ele é...é muito fácil, muito bonito para os parentes, para os amigos, etc. olharem pra gente naquela cama de grade, cheia de sensores e entubado e ficarem com aquela carinha nojenta, compungida e tal....quando eu estiver mal gostaria de ser largado às traças, ficar no mato e morrer em paz, nunca estar na CTI, nunca sentir cheio de éter, jamais estar entubado: é indigno e, principalmente, não é estético! < - - - - - -
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23.8.03

podemos também ficar lendo Como se um Viajante numa Noite de Inverno* eternamente... acaba e começa de novo, acaba e começa de novo....
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- - - - - >a leitura seguida de romances de ação parece uma espécie de fuga, fuga da vida, do sol, dos dias bonitos e das pessoas que sorriem sem muita coisa para dizer...pessoas como tantas outras que estão ali, vivendo suas vidas e isso é o que importa: viver a vida porque a morte chegará, a qualquer momento, na circunstancia menos esperada... mesmo no suicídio, cara, a morte é inesperada porque ela é apenas uma possibilidade, não é uma verdade absoluta e quando se concretiza você não vê porque não está mais ali pra constatar... sabe lá o que é ter a certeza absoluta, irremovível de que você não pode constatar a própria morte? e é isso o que acontece. como não pode constata a morte, o homem vive, vive desesperadamente buscando sempre mais dinheiro, mais felicidade, mais mulher, mais homem, mais qualquer coisa que aplaque essa dor interminável, cavernosa que vem de dentro para fora e não há remédio capaz de abater, não há nada para fazer... a vontade é acelerar mais e mais, correr a cento e setenta, sentir o vento no rosto, o vento frio da madrugada misturado com a roupa preta porque ninguém está mesmo prestando atenção, ninguém sabe mesmo de quem se trata, o que você é, quem passou por ali naquela velocidade toda, não tem necessidade de saber porque ele vai se foder ali na frente seja com a polícia ou com um poste, tanto faz. não importa também se a tensão está forte demais porque sempre teremos os diazepans da vida, sempre teremos qualquer coisa que alivie, pode ser a noite inteira pulando, pode ser trepar com qualquer um ou com o preferido, isso tudo passa, isso tudo é momentâneo, a gente não sabe mesmo o que vem ali na frente... então eu posso montar a motocicleta negra possante mesmo sem dinheiro porque não sei o que virá logo depois daquela curva e temos vivido só curvas, só curvas, só curvas, só curvas de uma vida que parece serpentear um floresta negra e molhada e triste e fria e chuvosa e aterradora... nada mais, baby, nada mais, todo mundo sabe disso, mas disfarça, finge que tá tudo bem com o apoio sórdido dos sórdidos seguidores de Freud que enlouqueceu porque não era besta nem nada...olha o livro e compra mesmo sem poder, entra na farmácia e compra mesmo sem precisar e se entope de chocolate porque alivia, todo mundo sabe que alivia... como também alivia pegar um trem noturno e seguir por aí, seguir em frente, fazendo baldeação atrás de baldeação, trocando depois por um metrô ou coisa que o valha, chegando na periferia e apanhando por não ter dinheiro nem drogas para o marginal que vive lá, então a gente volta e prefere o marginal de cá porque ele é mais familiar, é isso... não importa o que faça, a gente sempre quer um marginal mais familiar, que dá menos medo, como se morrer perto de casa fosse mais aconchegante...e é... morrer perto de casa é mais aconchegante, sempre vai ter alguém que ouviu falar, ou viu uma vez e vai dizer ah! coitado! e você não vai mais se sentir tão só, vai ver que morrendo o outro olha e diz coitado ou então diz que você foi um otário porque se arriscou demais, sabia que era perigoso, que estava andando com gente perigosa, mas aí você não tem que dar satisfação e vai, politicamente correto...***
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quais são os nossos limites?
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22.8.03

"... bate nas calças para tirar o pó. Caminha pela rua quase deserta da cidade pequena. Não há mais com o que se preocupar... ninguém tira a paz que conquistou depois da luta de tantos meses. Não sabem explicar o que aconteceu com ele, não sabem... mas aconteceu e agora é apenas aquela pessoa excêntrica meio conhecida de todos mas que, afinal, não tem muito a dizer nem a escutar.
... na cidadela um ou outro ainda tenta se aproximar na esperança de trocar umas palavras, cada um sem saber bem o porquê, cada um sem muita vontade também... parece que é um mundo estranho, afastado do cotidiano, de um certo modo de viver... mas não é.
--- na metrópole é a mesma coisa, troca-se apenas a motocicleta preta por uma outra, menos potente, menos impressionante... impressionar a quem? Mesmo aqui, nessas ruas escuras e perigosas, desse vai e vem neurótico não somos mesmo vistos, somos mais um barulho, mais uma sombra negra que passa deixando rastro de fumaça e ruído e só e quando se olha, lá foi ele, tem alguma coisa esvoaçando, pode ser um lenço, pode ser impressão, são apenas impressões de gentes que vivem trancadas em cubículos e descem de noite, no escuro, e andam perambulando em busca de outro alguém e voltam sós, embriagadas, convencidas de que estão impiedosamente condenadas à solidão e que, portanto, não existe mesmo a solidão que baixa deixar rachar por dentro, basta não querer de verdade pertencer a esse mundo em que se compartilha tudo, basta compreender que não compatilhamos nada, que a vida é essa passagem, essa caminhada tranqüila (ou não), como o caminho de compostella... "

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21.8.03

... ninguém precisa me falar da prisão que, via de regra, crio para mim mesmo. É a mais absoluta verdade. Mas não é bem assim, como parece a quem olha de fora, de uma maneira distanciada.
... porque as redes que teço no entorno e que me engendro são tênues e quentes e úmidas (algo com o útero ou o coito carinhoso)
... assim, me permito uma variedade de sensações exposições que diferem em muito do problema ordinário que atormenta o homem moderno. Não sou, diga-se de passagem, um homem moderno. Ao contrário. E sei disso e não me incomodo.
... essas teias são na verdade nascedouros de idéias e terreno fértil para viagens psicodélicas ao fundo do meu poço... dia desses estava explicando que o fundo do poço não é necessariamente essa imagem ruim, estereotipada, que se tem por aí. Não. Via de regra, o fundo do poço é um estágio melhor, maior, mais amplo e seguro, onde podemos nos deter com mais vagar em questões antes impensáveis.
... quando me permiti temer a manhã ou vivenciar verdadeiros terrores noturnos? Quando consegui me abster do vinho para olhar de frente para mim mesmo e me reconhecer fragmentado sem Ter uma crise em seguida?
... quando fui eu, assumidamente, custe o que custar, ganhe ou perca (sabendo que a possibilidade é sempre de perda)?
... quando troquei o uno pelo palio, o palio pela s10, a s10 pelo astra, o astra pela moto, a moto pela casa e agora, a casa por uma moto?
... quando me olhei e não vi ninguém assim, tal como se pretende?

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Pixel ambulante

Eu estava escrevendo num outro espaço sobre a necessidade que temos de sair fora dessa mesmice chata, dessa vidinha xangai*** que a gente vai levando, fingindo que tá tudo bem ou que está passando por uma fase, uma coisa difusa que ninguém define bem o que é, mas que sabe que vai passar, vai se resolver. Não é isso, acho, é uma questão mesmo de tomar a pílula vermelha de uma vez, de entrar num mundo (outra) que não seja assim, que a gente possa escapar de toda a rotina (rotina é feito colesterol: tem a boa e a ruim). < - - - - - - -
Teve um tempo em que se acreditou que as drogas poderiam ser uma alternativa, mas deu no que deu: um bando de gente fodida, caindo, sem neurônios, alimentando o exército do tráfico e não resolvendo nada. Não tem drogado feliz (quando rolar uma droga da felicidade, eu juro que tô dentro). Chamaram infantil e ridiculamente Prozac de droga da felicidade. Claro que só falou isso os idiotas de sempre, que se metem, falam do que não conhecem, não experimentam. Toda a história oficial, toda a literatura, tudo fala o tempo todo de uma droga que faça a gente.... Dia desses até lembrei dos copos de leite (drogas) que os meninos da Laranja Mecânica tomavam. Mas é sempre no campo da fantasia, da literatura. Não existe a droga que te faça sair, descansar de verdade (não me falem em diazepam!).
Acho que uma droga razoavelmente possível (real) é a nossa transformação, desmaterialização na binariedade que nos tornamos por aqui. Deixo de ser eu e torno-me zilhões de uns e zeros (possivelmente disrítmicos), sou não células, mas pixels ambulantes (serão mesmo ambulantes?).
Talvez seja isso. O Outro errou: não tem nada de metamorfose ambulante. Sou pixels ambulantes.


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Fiquei falando hoje de manhã sobre o que a gente faz para viver bem, se feliz de verdade. Porque o que eu tava falando é que não adianta só vivenciar as coisas boas que a vida pode, por caso, nos oferecer. Sim, a vida oferece sim, mas existe um movimento interno, intelectual que é, em alguns casos, mais instigante, mais completo até mesmo pela impossibilidade dele se concretizar, parar. Quero dizer que você chega num ponto e fica feliz, mas esse ponto não pára no teu espírito. Você percebe que ali que é, deixa de ser (assim como o tempo presente é, na verdade, passado), a realização é efêmera quando o espírito e o intelecto trabalham mais ativamente do que a possibilidade da realização. Com isso, você, por um lado padece por não alcançar a plenitude, mas por outro é instigado a conhecer mais os outros e a si mesmo (processo também de padecimento), mas que pode não ser de frustração. A frustração ocorre quando a gente percebe que chegou num ponto e não está conseguindo ir adiante, diferentemente de não pensar em ir adiante. As duas formas embutem alguma dor, dirão, como se a dor não fosse parte da vida, da mesma maneira que a felicidade. Esse tipo de sofrimento pode ser encarado de vários ângulos. Não acredito que possamos fugir da busca porque alcançamos o prazer e a busca pode trazer em seu bojo um punhado de dor. Essa dor, seria, à rigor, uma não-dor, um movimento de angústia ou melancolia como nos fala Scliar, por exemplo, no seu recente trabalho.
Não é isso também. Não é a melancolia do ser. É a melancolia que vem na busca interna incessante, na insegurança da obra realizada, sabendo-se sempre que ela pode ser melhorada, aumentada, mais bem acabada. De saber-se que não foi colocado tudo ali, que a gente poderia Ter pesquisado mais, estudado com mais afinco, escrito com mais elegância, glamour, que o outro fez melhor e, portanto, deveríamos estar fazendo também. É o livro ou a tela ou o filme eternamente inacabados. Obras que só terminam com a vida, ou melhor, obras que sempre serão melhores e apenas a morte interrompe o processo de aprimoramento do que o homem é ¿ o que ele deixa é o que ele foi e se não deixa nada. Tudo bem, que deixarei sempre a minha impressão no outro, mas não me basta. Não me basta que haja uma avaliação passional, pessoal de mim, sem a crítica profissional, sem que a vida seja criticada esteticamente, eticamente, psicologicamente.
( Realmente não me refiro a ninguém em particular. Continuo depois)

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19.8.03

Numa breve conversa difusa e confusa, apareço como uma pessoa não solidária, que se enerva com os velhos que estacionam os carrinhos no meio dos corredores apertados dos supermercados e ficam ali, patetizados olhando para as gôndolas como se não soubessem o que querem ou não soubessem nem porque estão ali. Apareço também como o sujeito que se irrita com as pessoas ignorantes q e atravancam os caixas, procurando sempre facilitar o troco, buscando moedinhas pífias no fundo de seus sacos plásticos (os ignorantes inferiores, sempre carregam uns malditos saquinhos plásticos em suas bolsas (também de plástico). E pareço uma pessoa má. Porque maldade nesse caso é não ter paciência, não ter saco para nada disso, é preferir estar em casa lendo Baudellaire. Eu realmente sou assim e me chamam egoísta, egocêntrico e todos esses adjetivos inventados pelo pessoal "tudo de bom", que abraça a lagoa e faz passeata pela paz. Eu não faço. Faço passeata (se deixarem) pelo armamento, pelo direito de andar armado, de revólver na cinta (e, se deixassem, escopeta). Porque não me interesso realmente pelos desvalidos (desvalido sou eu e "o inferno são os outros"). E sabe o porquê de tudo isso? Porque escrevo e digo sempre o que penso, não fujo de mim, não quero nada que não seja verdadeiro (embora permita-me mudar de idéia no minuto seguinte). Por isso fui, sou e serei só. Em troca da liberdade e bem sei que o homem é prisioneiro da sua liberdade. Eu sou um prisioneiro de mim mesmo e de todas as coisas em que acredito (e, momentaneamente, deixo de acreditar <---> ou não***). Não me acho contraditório porque não penso uma coisa e faço outra. Sou coerente comigo no momento em que estou agindo) e minha ação é muito pequena - minha ação ocorre apenas no meu mundo, meu cérebro, onde carrego tudo *** ver Auto-de-Fé de Elias Canetti***.
Porque é preciso compreender também (não que me importe se compreendem ou não) que sou o resultado de uma compilação de eventos, histórias, novelas, personagens, personas mesmo que se misturam, duplicam e suprimem como em espelhos e espelhos que se quebram e tornam-se milhares de cacos.
Não escrevo com o intuito de me explicar para ninguém (por isso os cadernos são minha ferramenta, meu recipiente favorito - - - > o ultimo é a internet). Penso em Dalton Trevisan e queria revisitar Curitiba. Como ele, me acho muito mais vampirizado do que vampiro.
O tempo é curto, não pára de passar (e hoje reconheço que isso me incomoda - amanhã pode não incomodar mais).
Quando puder, juro que vou desencavar a máquina de escrever e abandonar os computadores. Se não mudar de idéia, é claro.

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Encontrei esse texto perdido no computador..... acho que era pra ter postado dias atrás. Talvez não se contextualize mais, enfim...

"Precisando reencontrar o governo da vida, busco não o caminho do meio (em que não acredito), mas um outro, radical, mesmo radical ao extremo onde se processe uma modificação brusca, brutal e violenta que não me reconheça eu mesmo que dirá os outros daquilo (que fui). Porque não há como explicar para ninguém (pois se não explico a mim mesmo!) o momento presente. Aliás, não há um momento presente. Há um vácuo enorme de referências, de encontros (ou desencontros), de percepção em relação às pessoas, ao que elas são, poderiam representar como (não suporte), mas complementação das relações a que chamamos vida. Não existe responsabilidade de nenhuma pessoa nesse processo (senão eu mesmo) que justifique nada. É como um mergulho num espaço desabitado, numa bolha de ar morno, num universo sem estrelas. Acho que seria mais ou menos isso: o que incomoda não é as estrelas serem independentes, o mau é não existirem estrelas quando se olha para o céu (se isso fosse uma realidade, que não é).
Porque por mais que se filosofe a respeito, não existe escapatória de que somos parte de um universo de referências, tal como todas as cadeias biológicas (até as células!)."

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falarei também que ainda não tenho certeza de nada que "concluí" nos cadernos.
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preciso explicar a ele que o pânico é da insônia, mas, ao mesmo tempo, é de dormir também. Nem uma coisa nem outra. O que eu quero é uma coisa que não existe: não estar dormindo nem estar acordado. Uma espécie de "abolição" da madrugada.
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prometo que amanhã vou conseguir dormir cedo.
tudo tem que ter um limite, custe o que custar
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Livros**

Se eu tiver que destacar uns livros, falo da crônica de José Castello em seu Inventário de Sombras sobre Ana Cristina César (Ana C) A cena dos dois preparando a pífia sopa Maggi é muito bacana. José fala muito da Ana poeta, esquece o lado da Crítica (que me fascina) Ana "só iria se entregar à bolha de ar abafado que, antes do chão de pedra, carregou-a para a morte".
Diria que Cães de Riga, de Henning Mankell é bom, mas sua A leo Branca é muito melhor.
Falaria ainda que A Protegida de David Baldacci me decepcionou profundamente.
Em troca, fui presenteado com o fantástico UM AMOR de Dino Buzzati.
Volto para o meu 'Conversações' de Gilles Deleuze
E chega.

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18.8.03

Uma imagem que lembra muito partes do meu cérebro




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Tirado do Geraldo Iglesias:

"uma vez, quando era era um militante do PT, comecei a paquerar uma canditada a vereadora. Era bonita. E me dava a maior bola. Acabou que eu só ia nas reuniões, assembléias, aquela papagaiada toda do PT (sempre em Santa Teresa) por causa dela. Iam outras pessoas da família. Primos... o marido dela mesmo... Não sei o que é que eu fazia, que voltas eu dava, o que rolava de fato. O que aconteceu é que um dia acordei pelado na cama da mãe dela. Aí eu olhei assustado (na verdade, achei que era um pesadelo)... ela me abraçou, beijou... e disse: "O que você tem? Não lembra? Eu sou a mãe da..."
Meu Deus!
Quase viro padrasto de candidata não eleita a Vereadora! "

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TIRADO BLOG DO OLAVO:
"...Quem vê a prontidão das minhas respostas não imagina a lerdeza e a complicação do meu processo mental. É que não me meto a discutir senão assuntos longamente metabolizados, tornados familiares não só à minha memória mas ao meu modo de ser. Então as respostas vêm fáceis, parecendo improvisos, lampejos gratuitos de um dom natural de compreender num relançe. Mas não são nada disso: são frutos de um trabalhoso "saber de experiência feito", de uma complexa e lenta ruminação bovina. Não que esta me seja desagradável e dolorosa. Ao contrário: ela sim me é natural, é meu autêntico ritmo interior, o modo de ser arraigado e renitente de um típico "secundário" da caracterologia de Le Senne. " - Olavo de Carvalho



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Aprender a ver o outro

Acordo cedo, meio tonto com a noite mais ou menos insone. Mas não me sinto mal, ao contrário. Sinto que estou aqui, vivo, olhando para a frente e vendo alguma possibilidades que se apresentam e descubro uma coisa importante: o que vem é bom. Porque me foi dada a oportunidade de ver, de sentir e, ainda que me descabele e grite e chore, o faço porque posso, porque fui beneficiado com a possibilidade de.
Se não fosse assim, estaria seguindo o caminho, como todos seguem, mas vazio por dentro. Tenho expectativas sim. Muitas vezes maiores do que é possível realizar. Mas percebo que, apesar do desconforto em alguns momentos, sou estimulado num ponto muito maior do que a conta bancária, a casa ou o sol: no meu ser absoluto. Esses lugares são um só, compõem o meu eu único, absoluto. E se reconheço que sou uno, por que achar que só eu devo ser?
Se a vida é o dia ou hora que vivemos, posso muito bem entender que hora ruim, quando passada, precede a hora boa (presente).
Eu sei quem anda lá por fora, quem fica no entorno, conheço lá dentro e, conhecendo de verdade, acreditando de verdade, só posso me reconhecer um iluminado.

< - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - >

P.S.
Lobo e Flora queridos:
gosto muito de vocês (nem sabia o quanto gostava!). Espero de verdade que sejam muito felizes (seus filhos também) e não me esqueçam, lembrem de mim com carinho, como lembrarei sempre de vocês.

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17.8.03

- - - - - > Precisando reencontrar o governo da vida, busco não o caminho do meio (em que não acredito), mas um outro, radical, mesmo radical ao extremo onde se processe uma modificação brusca, brutal e violenta que não me reconheça eu mesmo que dirá os outros daquilo (que fui). Porque não há como explicar para ninguém (pois se não explico a mim mesmo!) o momento presente. Aliás, não há um momento presente. Há um vácuo enorme de referências, de encontros (ou desencontros), de percepção em relação às pessoas, ao que elas são, poderiam representar como (não suporte), mas complementação das relações a que chamamos vida. Não existe responsabilidade de nenhuma pessoa nesse processo (senão eu mesmo) que justifique nada. É como um mergulho num espaço desabitado, num universo sem estrelas. Acho que seria mais ou menos isso: o que incomoda não é as estrelas serem independentes, o mau é não existirem estrelas quando se olha para o céu (se isso fosse uma realidade, que não é).
- - - - - - >Porque por mais que se filosofe a respeito, não existe escapatória de que somos parte de um universo de referências, tal como todas as cadeias biológicas (até as células!).*** < - - - - - -
E a busca é interna mesmo. Ela corre entre os neurônios, busca apoio no espírito (meu), navega em artérias necrosadas até o coração, volta ao cérebro. Esse é o percurso da busca desenfreada que rola. A resposta não está fora, está em mim. Ou sou eu que não vejo as constelações por elas não se me apresentarem da forma que desejo exatamente? Por que o universo deveria estar de acordo com a minha idealização de? Que a vida é minha eu posso afirmar, mas o universo, tal como é, pode dizer também que é assim, que pode ser assim e assim pode ser é bom. Se isso for uma verdade, serei eu o instigado a mudar sob pena de não ter céu nem terra.
** Ou seja, é preciso repensar tudo. Principalmente eu mesmo **
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16.8.03

Tomar decisões. Todo mundo toma decisões diariamente à cada minuto até. Mas não sabe que está tomando, ou sabe, mas é coisa tão ordinária que não importa em nada. Tomar decisões sérias, daquelas que vão repercutir no todo: no almoço, no sono, no sexo, no cinema, na (não) solidão, no trabalho.... aí sim você dimensiona o que é realmente uma decisão. Dizer não quando se quer dizer sim (e vice e versa), abdicar de horas de prazer que rebocam dias de angústia... Trocar de vez a postura diante de.
Entender que, definitivamente, não precisamos estar sós, que individualidade levada ao extremo é a prisão eterna à liberdade...
- - - > eu discuto e falo e penso e volto atrás e choro e grito e durmo... < - - -
uma hora vem.

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Tratado contra chatos

Certamente haverá o momento da renúncia total (que pode se dar de várias maneiras), mas importante nunca são as formas e sim a atitude que nelas vem embutida. A renúncia não é um ato de fraqueza, ao contrário, é um ato libertador não para si próprio, mas para os outros, os que sofrem por não compreender ou, pior, se incomodam, se irritam mesmo (oh! E com tanta razão!) por perceberem a diferença, sendo esta muito mais desagradável do que ver uma ferida, ou um membro amputado. Creio que fazem essa renúncia um enorme grupo de seres sobre a terra e quase não o percebemos porque eles estão afastados, não chateiam, não são diferentes exatamente por pertencerem a uma espécie de confraria, lá, deles, muitas vezes chic ou excêntrica. São os monges, os eremitas, os convictos solitários, os bruxos, os mendigos, os apaixonados, alguns poetas e criaturas outras, várias, que são simplesmente estranhas. A esses tudo é perdoado por que estão acima da crítica, da análise. Estão, pra resumir, longe, distantes da rotina de nossas vidas tão certinha, com tantos amigos, tantas rodadas de chope, tantas danceterias ou igrejas. Estão distantes do nosso terno e gravata do dia a dia, da visita aos pais no final de semana e do chá com as amigas no fim de tarde. Estão distantes ainda do programa que vemos na tv à cabo. Tudo é perdoado antes, por não estarem presentes, por serem objetos de comentário passageiro (até admiráveis desde que eles lá e nós aqui!).
O mundo deve mesmo ser dividido entre esses (de alguma maneira, coitados, irremediavelmente chatos) e nós que buscamos no sol, na música e na individualidade sadia a maneira normal de viver.

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E agora, rapaz? E agora?
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14.8.03

Fiz todos os experimentos possíveis comigo mesmo em busca de encontrar um possível. Claro que seria viável se eu estivesse disposto a ceder muito, muito além daquilo que posso dar, que posso me permitir. Ceder mais do que é o limite é abstrair-se de. Se eu me abstrair serei apenas um não ser, com uma não história e um não prazer (nem desprazer). Não posso seguir o caminho dos que não vêm, dos que não sentem, como se estivesse eu mesmo anestesiado. Eu não tenho controle sobre os que se perdem de si mesmos e dos outros. Continuo sendo o enunciado de mim. Não tenho como renegar tudo o que fui, sou e serei apenas para atender a um nada, a uma abstração egoísta, ainda que, momentaneamente prazerosa. O preço é caro demais. Não sei dizer o que acontece com o córtex demasiadamente anestesiado e o quanto isso fica impregnado de uma espiritualidade rasa (falsa mística, própria dos AA e dos bárbaros), como isso pode traduzir-se no humano. Entretanto, não posso impedir que as pessoas, sentindo-se perdidas, ansiosas e prisioneiras de certa incognoscibilidade participem de um jogo que não é análogico, não é filosófico, não é fruto de nenhum pensamento concreto (nem abstrato). O que eu vejo muita vezes é uma certa dureza marginal, uma certa agressão ao outro não pelo outro, mas como forma de suprir, de aliviar sua própria fraqueza e incapacidade de lidar com o eu mais oculto, mais inconsciente

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12.8.03

com a autorização do autor, publico a correspondência que recebo de A. V,:

"Jaz em mim tremenda angústia, tremenda perplexidade em todo o ser que acabo perdendo-me em mim e nos cômodos desse ambiente. Procuro (sem encontrar) um sal (ou placebo) que me aquiete a alma e não encontro... procuro alguém com quem falar, alguém que possua as respostas, que tenha, pelo menos a capacidade de ouvir se não como uma amante, pelo menos como um amigo... mas não. Não existe essa pessoa tão preparada, tão capaz de perceber. Porque falta cultura, informação e, principalmente, atenção. Falo com o gato que olha e torce o rosto como quem indaga o porquê da angústia estampada no olhar. Me esfolo a alma e sorrio da cidade escura lá embaixo.
Não existe a solução, o bálsamo ou o milagre para"


Legal, né?

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VIDA DUPLA OU TRIPLA, UMA CONTRADIÇÃO EM MIM

Não me contento com uma opinião só, com uma rota ou com uma decisão só. Porque a minha cabeça vai e vem e eu preciso agregar outras coisas ao que disse, porque repenso as atitudes e aquilo que me parece tranqüilo num determinado momento, torna-se atormentador demais no dia seguinte. Dia desses escrevi um post (com três adendos) falando de decisões, de reencontros comigo mesmo principalmente. Meu espírito, entretanto, não se contenta com partes em separado, é uno, busca unidade e possibilidade de estar pleno. E para tornar-me pleno preciso caminhar por caminhos sem fim dentro do meu coração e do meu cérebro. Este sempre me dá uma rasteira, assim com deus dá nos que buscam o desconhecido com arrogância demais. E somos deuses para nós mesmos, todos sabem. Portanto, quando vou além de mim mesmo ou ainda quando me subestimo, achando que me contentarei com determinada atitude percebo que estou traindo não a mim apenas, mas ao meu deus particular, aquele que fala ao meu espírito e à minha mente. E o que acontece em seguida? O desespero. Não conseguir me situar nem conceitualmente nem estar pleno no campo da convivência desperta terrores noturnos, medos de dormir e de ficar acordado, de agir e não agir. Devo, de uma vez por todas, tomar A Atitude com A maiúsculo já sei, mas ela é tão grande, tão além de uma simples tomada de decisão, tem tantos desvãos, tantas reentrâncias, tantas possibilidades que termina por se perder nos labirintos do cérebro, essa parte física tão propensa a falhas e enguiços.
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11.8.03

estava ali agora lendo as resenhas de cinema da revista bravo. fico impressionado com essa coisa babaca de cineasta brasileiro, com essa coisa obcecada de achar que a arte tem que imitar a vida (ou o contrário), mas que a vida é só a marginalidade, só os desvalidos, veados, prostitutas e travestis.
É uma enxurrada de livros contando essas historietas abjetas da vida dessa bandidada e tentando sempre ¿justificar¿ tudo por causa da mãe, da galinha, da puta que o pariu. E contribuem para isso jornalistas como Caco Barcelos e médicos como Dráuzio Varella que seguem esse dogma que, parece, tomou força com o advento do Betinho.
Carandiru, Cidade de Deus, Amarelo Manga... putz, é crime em cima de crime, suor, cerveja e macumba... presídios e travestis... como se o mundo fosse isso.
eu detesto essa coisa torpe, essa coisa marginal, abjeta... Pfui!! tenho nojo dessa coisa "bacana babaca" de ser marginal, de estar à margem de.
Como se a vida não tivesse amor, honestidade, parceria, amizade, solidariedade, família... e depois vão pro Leblon tomar uísque e falar mal do Bush.


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Retirado do Geraldo Iglesias Comenta:


"- - - - - - - -> Levar adiante decisões difíceis de lidar é muito complicado. Eu sei o que quero e sei o que posso. Sei que é melhor ter o que posso do que nada. É claro. Mas como lidar com essas coisas ainda é uma incógnita pra mim, meio inexperiente na vida. Meio assustado com a dureza da vida, com sua frieza diante dos homens que, afinal, são a própria vida, não é isso? Quero dizer, a vida não seria vida se eu não estivesse vivendo. Não para mim. Então a vida não pode ser vista como uma abstração onde "estou de passagem" mas como a minha própria essência, a minha própria extensão. Não existe dessa forma pragmática "a verdade" ou "o certo", mas sim a verdade tal como ela é para mim e o certo tal como é para mim. Assim, como o olfato me diz o que sinto e percebo o azul aniz tal como minha retina e cérebro o capturam e não "como é" de uma forma genérica.
- - - - - - - > Experimentar a aceitação da vida como uma coisa eqüidistante do meu próprio ser é uma negação de mim mesmo e não um ato de prepotência ou egoísmo, como é comum se pregar porque estaria falando de uma coisa distante, como um país em outro continente: lá (a vida) é assim ou assado e temos de dirigir do lado direito do banco porque a convenção é assim, ou falar tal idioma porque é o nativo (da vida).
- - - - - - - > Definitivamente não. É um equívoco. Ainda que eu precise seguir determinadas orientações para o convívio geral, a vida nada mais é do que a extensão do meu ser e, não sendo, me é estranha, distante e inóspita.
Diante dessas óbvias constatações pareço eu um alienígena egoísta e egocêntrico, porque a sociedade cria essa possibilidade vil do homem não poder ser ele genuinamente; antes, ser um conjunto de regras e padrões previamente determinados (como se o cérebro e a alma pudessem ter para si, como verdadeiras, verdades de outrem!). E quem é essa sociedade criadora de regras absurdas e patéticas? Ela não existe. Ela é a disritmia e o descompasso dos anseios de homens que capitularam diante de seus próprios desejos e sentimentos e, fracassados eles, decidiram que o fracasso era virtude e quem não a seguisse estaria, esse sim, capitulando ante a vida (essa coisa, esse Estado, para onde migramos involuntariamente [???] e onde devemos omitir e pavimentar nossos sentimentos, esses sim, abstrações e devaneios de quem "só vê o próprio umbigo").
Tô fora. Pode me expurgar, expulsar e não me deixar falar, mas, definitivamente, não concordo. "



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10.8.03



- - - - - >Tento me compreender no meio dos papéis e livros... e me encontro e me desencontro....percebo que não se pode tentar me perceber apenas por aquilo que pareço, aquilo que é mais ordinário em mim. existe um ser dentro do homem que busca, buscador, desses, peregrinos, desses andantes e caminhadores que sonham com a pedra filosofal ou o santo graal ou... a mim mesmo. Esse percurso é cheio de atalhos, percalços, cheio de riachos que correm, ora translúcidos, ora barrentos ou nem uma coisa nem outra.... atravesso vales e florestas e por todos os lados existem florestas onde espelhos curvos e convexos aparecem aqui e ali confundindo os desavisados [e me incluo sempre neles]. Sou o que não sou, sou o que busco, o que me retrato como numa fotografia utópica do outro. < - - - - - -
então escrevo e desenho e vejo e leio não por uma intelectualidade vã [?], mas pelo compromisso de fechar um ciclo em mim e por mim, com um deus que mora em mim e que não tinha aprendido ainda onde era essa morada... agora ele e eu sabemos. O tempo passou e se, de certa forma o perdi, reencontro na placidez não da vida, mas do coração que é além do músculo pulsante, é compreensão de que a luta só é a verdadeira luta quando aprendo a sentar em lótus e receber [e dar ] mas da maneira que me vem, com a placidez da luz e não com o desespero da posse. ( Posse?)
Levei quase cinqüenta anos para chegar.***
Outros chegaram aos trinta e outros ainda chegarão. [ou não]
Que meu coração possa enfim habitar, de verdade, em mim.


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8.8.03

porque as coisas e, principalmente, as pessoas são insubstituíveis.
[ao contrário do que se pensa ordináriamente]
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perceber que se a vida não acontece como planejamos não quer dizer necessariamente que não deu certo, mas sim que temos outros meios, outras possibilidades de vivenciá-la.... não se pode perder o que é de mais caro, o que é insubstituível apenas por uma questão de forma.... tá certo, já sei que é muito complicado.
é meu mesmo
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acho que uma das coisas mais difíceis é ter coragem... mas coragem de verdade. - - -> porque pra gente conseguir estar bem, ser verdadeiro, tem que assumir uma série de coisas, de posições, tem que compreender... aceitar... < - - - - coisas que nem sempre são simples.
e não são simples porque a gente não consegue ver a simplicidade da vida, a simplicidade do que é poder ser... de como é possível sim viver de verdade....
- - - -> e acho que estou começando a aprender depois de tão velho... < - - - -
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4.8.03

tenho uma certa inveja da vida de picasso.... mas de Neruda também.... acho que eu queria ser qualquer um desses grandes caras [mania de grandeza, né? Tenho sim].... mas não tem problema porque acabo não sendo nada de muito importante... um escrevinhador de blogs - - - - > que é essa ilusão de que você realmente é capaz de publicar alguma coisa < - - - - aliás, pensando bem, a internet, ao mesmo tempo que abre espaço, pode nos fazer pensar que somos algo que não somos.... queria ver eu estar escrevendo e publicando alguma coisa nos tempos de guttemberg.... é bom pensar melhor...
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como fazer renascer o sobretudo de lona sem a motocicleta?
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recado

marina w deveria dar mais atenção aos livros de Henning Mankell....
[a leoa branca e os cães de riga], por exemplo....
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insistindo em Fernando P.:

"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime. "

Bárbaro !


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primeiro parei de riscar.... depois tive vontade novamente, mas não me lembrava como fazia.... hoje, Marina W., sem saber, me ensinou...
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não se espera muita coerência do homem porque a coerência é uma abstração e se altera de pessoa para pessoa, de cérebro para cérebro. Existem perspectivas intelectuais, sociológicas e mesmo químicas que determinam essas diferenças. Existe uma tentativa de equilíbrio, de médio, mediano, apenas isso... todos procuram balizar-se por essa média, mas é muito estreita a margem, muito tênue a linha que define o que é verdadeiramente coerente do ponto de vista do outro.
Tudo bem que podemos falar também de meta elementos, de outras dimensões e tantas outras possibilidades que não se enquadram nos padrões médios. A maioria procura deixar quieto, não mexer... eu procuro revolver, ainda que não tenha resultados muito confortadores. mas de que vale estar confortável se?

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1.8.03

Fico pensando se continuo escrevendo por aqui... ontem eu tava conversando com uma amiga sobre as coisas da vida e percebi, mais uma vez, que não adianta muito você falar de coisas mais suas, coisas que vêm mais da alma.
Não é por mal. No fundo, ninguém quer mesmo o mal. Todas as pessoas querem se explicar, querem defender suas idéias e esperam a paz e a leveza do ser. Normal.
Fico pensando em como tratar da morte, do existencialismo e essas coisas com leveza. Tinha aquele livro 'A Insustentável Leveza do Ser', lembra? Todo mundo leu, era moderno ler e gostar. Não gostar também era moderno. O Kundera ainda deu uns dois ou três tiros e sumiu. Sumiu porque a modernidade acabou e a leveza ficou inviável. Bergman se saiu melhor. Sartre também. Tá, já sei que ele acabou sozinho e drogado nas ruas de Paris, mas e daí? Qual a diferença de parar de respirar drogado nas ruas ou numa CTI classe A?
E eu estou me comparando a eles, tenho essa pretensão? Sim! Claro que tenho! Penso igualzinho, sinto as mesmas coisas e quero vivenciar fundo tudo nessa vida. Sou igual a eles, como milhões de anônimos o são. Aliás, eles é que se espelham em nós para pensar e sentir. Nós somos o Bergman e o Sartre puros. Não sei se somos o Kundera.

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