Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


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ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

31.10.03

Não pode ser da maneira que esperam os pobres diabos. O fogo nas latas de lixo do bairro da saúde (que nome!), os negros com colares de metal imitando prata, os pais de santo com sapatos brancos e unhas pintadas...toda essa fauna que desfila sobre meu olhar (apenas dos óculos escuros e da baixa velocidade da motocicleta) não me impressiona mais... essa é cidade, a urbis que a terminei por me render, esses são meus viciados em cola e éter e eu os invejo por ficarem nessa viagem constante... qual seria a outra alternativa? Terninho da ducal e andando na rua do ouvidor? Melhor serem eles ouvidores de vozes, de explicações metafísicas de um mundo que não vemos, da percepção de uma vida que sem chá não conhecemos... chega a hora da pílula novamente, chega a hora da decisão, de parar com essas dúvidas e esses existencialismos xangai... agora não, agora eu sou realmente neguinha, como neguinha é a motocicleta, como neguinho é o sangue no asfalto que vai nascendo por baixo da base do crânio estatelado e vai se espalhando devagar, grosso, quente... chato? Pode ser, mas stephan king é pior e é o que me restou, a conclusão a que um arquiteto como o da matrix pode chegar no meio ou fim da vida... que estamos todos andando solitários, catando os restos que a burguesia nos joga... da mesma maneira que damos nossas filhas à prostituição com dez, quinze anos e ninguém vê... é a decadência final, o último de degrau... falta luz em florianópolis e talvez o vampiro de curitiba tenha dado umas voltas por lá... cá também temos os nossos vampiros e nossos lobisomens e passamos o tempo todo fingindo que não estamos vendo...
Quem não já foi seguido pela madrugada no passeio público? Quem já não sentiu o pavor, as mãos suadas e não se mijou um pouquinho que seja de pavor, de saber que o monstro está bem ali, brincando com você porque não pula na tua jugular, não arranca o bico do teu seio à dentadas?
Quando a chuva cai e lava a lama & o sangue & o esperma do chão & o catarro dos garotinhos prostitutos, quando a chuva leva tudo, nós ficamos iludindo, fingindo que nada daquilo existiu.... por isso eu entendo o homem jogado na calçada fumando a última pedrinha de crack

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30.10.03

procuro a esquizofrenia sadia... sim, acho mesmo que é possível você transitar entre todas as irrealidades, todas as alucinações e manter-se na vida social, intelectualmente produtivo. porque a vida normal, tal como se entende, é insuportavelmente chata e deprimente, traz muito mais aborrecimentos e dissabores, quase nenhum prazer maior, digno de atenção, orgástico mentalmente.
o que rola é você correndo para cima e para baixo, andando na corda bamba dos dias, observado por um monte de idiotas que se acham legais... esses idiotas estão na tua família, no teu trabalho, na tua rua, pode ser o teu marido ou a tua mulher, teu porteiro, qualquer um... e você fica ali, de vitrine, feito um bufão doido de calça de tergal e cinto marrom. tô fora. quero ser mesmo isso a que chamam louco, isso a que chamam incompreensível ou lá bestice que for... quero ser o estranho que pode respirar, que pode pensar e, principalmente, que ainda pode sonhar

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O caminho transacional do homem em seu processo migratório pelos meandros emocionais e geográficos da vida me fazem pensar em possibilidades outras, em como, - sabe a casca de noz? -, podemos atravessar mares binários e geográficos e ainda processar mudanças internas de despersonalização A para personalização B, algo como hoje ser um mercador na Turquia, amanhã um garçon no So-Ho e depois um cineasta B no afeganistão.
Tem um período da vida que a gente não sabe que todo esse entrecruzamento de ações e reações podem acontecer e acontecem mais amiúde do que se espera, mais ou menos como a mulher que, de um dia para o outro perde as pernas e diz que vai viver o melhor possível assim. Viver o melhor possível é o óbvio, basta acreditar-se que viver o dia de hoje bem vivido, certo de Ter distribuído amor a quem merece, Ter sido duro com quem não tem nada a ver, indiferente com os que nada são ou nos dizem... o melhor, eu acho, é ser benevolente e compreensível com o outro, saber que o outro não está na sua vida, que ele é, em si uma vida, são conjuntos de vidas que interagem... acho que é isso... não são pessoas se relacionando, agrupando ou afastando, são vidas que convivem uma com a outra encapsuladas nisso que convencionou-se chamar corpo, vulgo pessoa... e essas vidas acabam vagando na geografia do mundo, das coisas, de infinitas possibilidades que não vislumbramos enquanto estamos cegos.

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Mulheres? Só as homossexuais.

As mulheres (de forma genérica) historicamente serviram para a procriação apenas. Nasciam, eram mal amadas por seus pais justamente por serem do sexo feminino e, passado o encanto da fase ninfetas tão claramente descrito por Nabokov, esperavam ansiosas junto à família o momento, a possibilidade, a sorte de casarem. As que não casavam eram (mal) absorvidas pelas famílias como aquela tia útil (?) que cuida dos bordados, dá banho nos sobrinhos, cumpre os ritos da religião (por toda a família) e acabam morrendo esquecidas (Ah, morreu tia fulana). Eram, portanto, parias humanas salvo um servicinho doméstico ou outro.
Quando casavam, as de sorte, como diziam, iam para a casa dos senhores, dos maridos e aí começavam sua vida de donas de casa (vá lá saber o que é isso) e cumpriam sua função biológica de ter filhos para a reprodução da espécie. Em 99% dos casos não davam prazer aos maridos que iam buscar fora, com mulheres mais novas e mais interessantes. Diziam que criavam os filhos (na verdade, trocavam-lhes os cueiros porque o financiamento de tudo vinha do marido senhor).
Com o advento do feminismo, nossas mulheres resolveram dar uma espécie de basta, resolveram trabalhar fora (dizem que não faziam antes porque eram impedidas, o que é uma mentira deslavada das fêmeas da classe média. Mulher pobre sempre trabalhou, sempre dividiu com o marido as despesas)... resolveram nossas novas fêmeas acabarem os casamentos, libertarem-se e etc., etc., etc.
Passado o primeiro momento em que o homem se assustou vemos agora milhares, milhões de mulheres matronas, de meia idade que dizem libertas, assumidas, donas de suas vidas e tal (entupidas de plásticas e maquiagens inúteis) vagando pelas ruas, pelos botequins e, principalmente, pela internet. Como não são descerebradas, vêm conseguindo alguma realização profissional e se agarram a isso como se fosse tudo. Não conhecem a área afetiva, têm mesmo uma deficiência cognitiva para o afeto, não sabem o que os homens são e, diante dessa ignorância, pululam de cama em cama, ficando com um e outro e colocando defeito em todos, gritando sempre que em primeiro lugar está a sua liberdade, a sua individualidade e todos esses chavões tolinhos... no fundo (se auto nomeiam lobas) são pobres solitárias que se reúnem em grupos os mais variados para atividades mil ( excursionar, ginástica, religião, filantropia, para rodar pelas noites tomando chopinhos e sendo sinceramente desdenhadas, etc.). Eu poderia especular que a instituição mulher acabou, mas vou pegar leve e dizer que a instituição casal acabou. Acho que a única mulher sozinha verdadeiramente assumida e com possibilidade de felicidade verdadeira é a homossexual. No terreno dos solitários, acho que os homens sabem viver melhor (de verdade) do que as mulheres. Estas, ao largarem o marido, o conceito de parceria e família, viraram sobreviventes solitárias, buscadoras eternas de algo que, com a passar do tempo e seu triste, mas óbvio envelhecimento, está condenado a não ser encontrado jamais.

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29.10.03

hoje durante a tarde fui ao mosteiro. conversei com frei C. durante muito tempo (como há muito tempo não fazíamos). falamos do tempo (ele adora falar de sóis e chuvas) e muito dos pecados, da origem do pecado e da palavra pecado. é gozado porque a religião católica, ele me disse, tem em seu arcabouço toda a lei necessária aos homens, todas as normas para o convívio pacífico e humanístico... a história da camisinha e do aborto é besteira, foi logo me dizendo, porque seguindo todos os preceitos não haveria necessidade nem da discussão... falou ainda de quantos homens maus existem na igreja, quantos homens invejosos e deturpadores, mas, salvaguardou ele, são homens e não santos, não são a igreja... ele sabe que sou ateu e respeita, brinca, ri, diz que eu acredito com tanto fervor na não existência de deus quanto ele acredita na existência... somos, ele me abraça, pessoas de fé.
andamos um pouco pelo pátio e olhamos, de cima, o largo da carioca, vemos multidões passando, gente correndo, gente pregando loucamente suas crenças, uma fauna que parece uma praça qualquer da idade média... eu falo de solidariedade, conto a ele um gesto solidário grande, sério que uma pessoa teve comigo hoje... conto tudo para ele. frei C. sorri sempre que falamos disso, não haveria humanidade sem solidariedade, ele me diz, a bondade e o desprendimento é muito maior do que a maldade no homem, os seres aparentam uma maldade que não têm, é pura defesa. o que vemos de ruindade pura é mais doença, completa ele. falamos em suicídio & ele sorri & me pergunta se acho que ele, no convento se suicidou... falamos dos poetas e artistas suicidas e ele encolhe os ombros... aprendi, diz ele, que só deus pode nos tirar a vida, mas se deus está em nós...(*) - pisca o olho para mim e olha para o vazio... pergunta se estou de posse da minha espada, da linhagem sagrada*. estou, respondo.
vamos para o interior. ele abre uma gaveta e tira um volume [dos seus, meio secretos] de teologia. 'quer?' - 'quero', respondo e pegando o livro antigo... vai chegando o entardecer, sei que é hora das suas orações e me despeço... ele elogia a minha longa barba - lembra Victor Hugo, diz. sorri. 'qualquer dia desses, me leve para dar um passeio de motocicleta, irmão'. - - eu prometo e saio... com a alma leve, pensando na minha espada que me espera em casa, na brevidade do tempo e na simplicidade da vida.

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27.10.03

ana C. fala dos diários e da necessidade que temos de mantê-los. em determinado momento, em 80, ela fala em alguma coisa como escritos de mulher, o que não é uma inverdade, apenas uma forma parcial e datada de ver as coisas... hoje ela não diria a mesma coisa, conheceria uma nova atitude dos homens, muito mais próximas das reações femininas... mas não é o caso em questão... o problema é que você começa a escrever muito mais por necessidade de contar as suas coisas, de contar o que anda fazendo, pensando, o que anda planejando para uma outra pessoas que, em determinado momento vai ler tudo aquilo e você não mais estará ali para dar resposta... você terá partido e o que vai restar de você serão aquelas páginas, aquelas agendas, aquelas folhas soltas aqui e acolá... claro que vão lembrar também das coisas que você dizia, das coisas que você imaginava e pensava... se a gente morre, as pessoas são mais condescendentes, ou melhor, fingem que são.
eu não costumo ser condescendente com os mortos, prefiro ser, na medida que consigo, com os vivos.
aí teria que falar de um outro tipo de diário que é o blog, que já foi estudado, já foi tese disso e daquilo... tudo bobagem, uma besteirada danada... porque os que são considerados blogs bons não são os diários pessoais que eram para ser, ficam sendo metidinhos a bem escritos e comportados e antenados e politicamente corretos... você não pode ter um blog considerado bom sem deitar erudição ou notícias, ou ter um comportamento padrão, bem aceito... se você não escrever dessa maneira teu blog é desconsiderado e se é desconsiderado, porque valeria a pena dizer as tuas coisas, as tuas opiniões verdadeiras e fundamentadas na internet? por que não num caderno?
então essa coisa de você falar as tuas opiniões, descrever os teus sentimentos na internet vai sendo, cada dia mais, uma coisa furada, entende? ana C. não passou por esse desprazer. se matou antes.

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26.10.03

- - - > acho que nem sempre os dias de sol são necessariamente apropriados para passeios de motocicleta. seriam, é verdade, mas não são. porque rodar pela cidade, ver as belezas e os desmantelos do metrópole, ver as pessoas bronzeadas e atiçadas pelo sol pode causar mais um sentimento de tristeza do que apenas o óbvio, que está ali... a fauna que circula nesses domingos ensolarados quer mostrar um mundo que não tem que ser o mundo nosso, o mundo que vivenciamos... isso não é uma visão depressiva da vida, mas sim realista... existe um mundo de televisores, de computadores, de papéis de DVDs, de pessoas enfim que têm alguma coisa melhor e maior do que as turbinadas de copacabana. a barra é brega, vem gente de todo lugar, gente essa que também não entende que poderia estar mais feliz lá na sua origem, encontrando prazeres que não encontrará nessa ostentação de cá, falsa, cansativa... porque eu não tenho que ficar me mostrando para as pessoas nem quero vê-las exibindo-se pra lá e pra cá... eu estou aqui, tem gente que sabe que eu estou aqui... então, se gostam, me procuram, se não gostam, azar... a motocicleta também é um calmante parada na garagem, ela é, antes de tudo, o que todas as coisas são, a possibilidade de. ela é a possibilidade de passeio, de transporte, de dar um pulinho na livraria, de correr e sentir o vento na cara ou de me espatifar de vez... possibilidade é o que ela é, como todas as coisas o são. mais interessante, por exemplo, é continuar escrevendo o caderno (exemplar único) da carta aos viventes, a explicação, a expiação & a avaliação do que foram meus dias, meus meses... porque esse caderno que será lido por tão poucos trará (ou não) a revelação necessária, a explicação última, ou quase, do que não foi nunca compreendido.
ou então dar mais atenção à Ana C., Florbela Espanca e Virgínia Woolf, meu projeto mais recente

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25.10.03

o que vocês não vão ler

considerando tudo, andei relendo algumas observações, anotações que fiz a respeito de pessoas que, de uma forma ou de outra estiveram, em algum tempo, presentes na minha vida. pessoas que vieram e foram, que vieram e não foram ou nunca estiveram de verdade.- - - gente com quem falei, com quem conversei, contei de mim e quis saber, gente que namorei, me apaixonei, acusei... gente que foi só amiga ou nem isso... gente, gente, esse mundéu de seres que andam pra lá e pra cá e que a gente esbarra nesse mundo de viventes... vendo essas anotações tão esparsas geograficamente e, muitas vezes, com uma visão tão incisiva, de momento...
*pensei em algumas delas e achei que era hora de amainar tudo, de dizer que foi bom conhecer, de dizer que eu não era tão ruim assim e reconhecer que também não eram como eu, às vezes falava... todos são gentes do meu mundinho e preciso dar a cada um uma certa coerência.
- - - - > pensei em escrever uma "carta aos viventes" *** e publicar na internet, mas abandonei logo a idéia. acho que não se pode tratar o ser humano com a frieza do teclado, gente não é píxel... além disso os outros xeretas iam ter acesso com facilidade. - Não - resolvi então escrever uma carta longa, num caderno, caderno dos cadernos, caderno das folhas esparsas, caderno da idade madura, caderno onde me rendo, onde perdôo e espero ser perdoado, entendo e espero ser compreendido, penso de mim e dos outros com a cabeça de hoje que, imagino, será a cabeça eterna.
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meu futuro e o de j. chegou

quando eu tinha vinte e dois anos era imortal... tinha a certeza de que estava certo em tudo e podia tudo... beber, fumar, casar, descasar, me apaixonar, comprar, vender... a velhice era uma coisa tão, mas tão distante que eu não conseguia enxerga-la mesmo que me esforçasse... conhecia J. [de July] , filha de H. Ora, H. era paixão, amor, tudo de bom, tudo o que naquele momento se me mostrava como a vida de verdade... e eu, claro, fui em frente, de uma maneira absoluta, completa, tão completa que da nossa união nasceu o joão. o meu João***.- - - - > J.[de July] já existia, era uma menina bonita, com menos de cinco anos, agarrada a mim e eu a ela. Desenhávamos muito juntos... gostávamos de desenhas abelhinhas estilizadas, de óculos, com charutos, bengalas, um mundo de fantasia que nos divertia, animava e prometia um futuro como se imagina todos os futuros, distantes e perfeitos. J. via em mim um pai e eu nela uma filha e fomos assim por muitos anos. lembro de sairmos de manhã cedinho para ver desfiles e modas e coisas, enquanto sua mãe dormia. - - - > tínhamos, nós dois nosso mundinho à parte, impenetrável. Meu João era um bebê amado por nós todos, era um bebê... trinta anos depois o tal futuro chegou. o pai biológico de J. morreu de câncer, em meio às dores lancinantes do câncer no pulmão... eu segui outros caminhos, outras experiências, tentativas, acertos e erros... H. vive sozinha no mato, vê ets e fala com árvores e gatos... J.[de July], mulher, tem uma filha e vive também no mato, não é mais a minha menina, é uma mulher como disse e tem o seu homem que, soube, a espanca regularmente e ela é resignada a isso, a essa vida vivida, a esse destino, aos desígnios desse deus malvado... gostaria que J. tivesse tido melhor sorte, gostaria que H. também tivesse melhor sorte e meu João também... mas não foi assim... estão todos por aí, espalhados, carregando suas vidas, seus filhos, seus gatos, suas surras, seus ets.... eu sou como eles, sozinho, estranho... faço parte desse mesmo livro que começou e se despedaçou... o futuro chegou... tenho minha motocicleta que não fala que gira, que roda como o mundo... que me leva a outros lugares (que são sempre os mesmos), que não me promete mais futuros, apenas estradas, apenas asfalto a ser percorrido sempre enquanto estiver por aqui olhando a absurdidade disso a que chamam mundo e vida...
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23.10.03

estamos vivendo um período de inferno - não astral - mas resultado do disparate absoluto que reina em todos os lugares, instituições e corações... as pessoas estão perdidas sem reconheceram seu grande erro e tentando se iludir. não há mais ilusão, baby, agora é na veia, agora é over e tem que segurar (ou cair). fico imaginando o que passa na cabeça que não tem a alternativa de fugir para o campo, de ir embora, refugiar-se da chuva ácida humana que cai e cai e cai. não tem, cara, vai cair e pronto... tem horas que eu tenho pena de mim e do meu povo sofrido, mas não é a maioria do tempo...no mais e não sinto pena, acho que é bem feito, que merece agora suportar toda a ira dos deuses - porque eles se rebelam sim! - as noites de terror como aconteciam na idade média, as outras, as de são bartolomeu e tantas outras... tudo bem, não conhecem porque não leram, não sabem o que acontece quando se mexe com as forças ocultas... ontem eu disse que queria ser um cardeal e fico pensando que, de certa maneira sou sim o cardeal e tenho cá minhas convicções e que tudo é uma questão de hora, de momento, entendo porque a alemanha, a áustria, a suiça e outros suportam tão bem as agruras... porque passaram por outras, sabem o que pode acontecer, conhecem as guerras, têm história... a gente não tem história, tenta fazer história, um continente de meninos maluquinhos, de pererês, de lobatos que já erravam no seu tempo, de tementes às curupiras e que se dizem afro-brasileiros...
sou cardeal porque independo dessa experiência que vão ter de passar (ainda que eu vá passar também)... porque eu já sabia, antes, o que viria, sou cardeal porque conheci e vi o que aconteceu com quem tentou... o esforço dos patriotas daquelas terras de então... esse esforço foi quebrado agora e quem vai pagar são os fiéis e não os cardeais... mais ou menos como as pastorais da terra, como as teologias da libertação, como os oprimidos no poder e toda essa chanchada afro-brasileirinha... agora, baby, é suportar a tentativa de fazer história com um sistema já testado e fracassado, é mais uma vez comprar o que não serviu para ninguém, é comprar pneu velho...

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22.10.03

até hoje meu nome era grafado de uma maneira.
agora é de outra.
interessante demais, né?

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... uma das descrições (que eu conheça) mais bem feitas da burocracia é a do livro todos os nomes do saramago. há um personagem, mais humilde não poderia, sr. josé que arquiva e desarquiva nomes de pessoas... as que nascem e as que morrem.... o homem anda em meio a corredores e mais corredor atulhados de papéis velhos até o teto, papéis e pastas e cartolinas que registram quando casam, quando se divorciam, enfim o que são e como estão os viventes... e como os viventes não param sossegados, os papéis lá dentro também não sossegam... para não se perder, o sr. josé, humilde barnabé como eu, serve-se do fio de ariadne que o faz voltar ao ponto de partida quando, perdido nos lambínticos entulhos de papéis, não mais encontra sua própria mesa... esse entulho burocrático português foi a maior herança que nossos descobridores nos legaram... tal como na ficção de saramago, temos por estas plagas que andar de prédio em prédio, sala em sala, sempre a enfrentar terríveis filas* a buscar o carimbo deste, a estampilha daquele, sempre homens e mulheres velhos, de oclinhos à ponta de narizes verruguentos e, para nosso maior azar, mal humorados, mal comidos, certos da sua importância já que são oficiais, que têm carimbo, só a sua boa vontade, sua assinatura e seu convencimento farão com que nosso pleito entre numa outra fila.
dirão que não sou justo, que hoje o mundo é informatizado, globalizado e a informação é ágil...realmente estamos informatizados, mas o computador é não a solução, mas apenas mais uma ferramenta a ser usada pelo nosso barnabé. ele antes escrevia à tinta, hoje digita, mas um ou outro servidor digita errado e espalha-se pelo mundo aquele dígito enganoso. com isso, todos os cartórios, todas as certidões virtuais, toda a vida do infeliz é bloqueada e, para tentar resolver, não existe um terminal, existe uma fila terminal, fila esta que vai dar na velha escrivaninha do nosso burocrata, já não mais português, mas descendente desse ou herdeiro da sua cultura burocrática. a tudo isso, nós brasileiros, temos a mistura do índio e no negro que são, salve, salve, a nossa raça, a nossa cultura... tem então o deixa pra mais tarde, fui tomar o cafezinho (de lei) e o desculpe senhor, mas não é aqui e sim acolá, outro bairro, outra fila* e outros computadores.
(continua - sobre as filas e o atendimento eterno aos idosos, sim porque existem mais idosos do que jovens e, tendo os idosos prioridade, quem tem menos de cem anos nunca chega a ser atendido*
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21.10.03

*não adianta correr mais do que já corremos, ele me diz. agora, cara, é na veia. é a hora da verdade, a hora em que a gente se encontra com o destino, com a possibilidade de morrer, de deixar isso tudo pra trás... não, pra trás, não, já que não existe nem atrás nem na frente nem para o lado... é a mão errante... a mão errante que adentra (daquela música, lembra?). falamos mais um pouco no corredor velho com poucas luzes frias acesas... vamos ficar nesse lugar por mais quanto tempo? e a longa viagem para o sul? não fizemos e podemos amanhã não fazer mais... amanhã podemos não ser mais... o momento é hoje, agora, na veia e a gente esqueceu disso, soube disso na juventude e depois com essa tal maturidade esqueceu, ficou planejando, achando que estava falando sério e a terra girou... e agora? cabelos e barbas brancas, olho baço, pálpebra caída, próstata a meia bomba, é isso o que a gente é... é assim com 20, 40, 60 anos... a gente acha que pode ser mais prudente como se a prudência valesse alguma coisa na hora do acerto... tem o livro do matrix porque eles não se contentam em ganhar com o cd e o filme e o cd pirata, tem que ganhar mais, levar a grana dos meninos porque eles são fãs, são tietes como eu já fui tiete da jannis jopin que efetivamente nunca cantou nada, o barato era só se drogar pra gente ver... e todo mundo sem entender nada do que eu digo e eu cada dia mais sem saco de falar, de explicar, não vou mais repetir mesmo... tem que entender tudo ou nada e gostar ou não.
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20.10.03

cachaça embrulhada em saco de papel... empurrar carrinho de super mercado pelas ruas.... catar latas velhas para vender... meios de ganhar a vida tão nobres quanto assinar e carimbar papéis... conceitos e estereótipos que carregamos e não sabemos como nos livrar (nem deixam muito)... escrever em folhas de papel em vez de computador.... trocar a caneta de pena por uma bic... não aceitar jamais a prepotência da ignara que assume provisóriamente... para não fazer como faziam, lambendo botas de coronéis...
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o mais angustiante é que os amotinados não estão percebendo, não estão vendo o que está acontecendo, não estão vendo como o perigo corre ao lado, não estão se tocando que é uma questão de sobrevivência, que a atenção é fundamental para não ser atingido... e nesse não 'estarem vendo', tudo pode se perder...
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chego em minha mesa de madeira velha e com alguns cupins renitentes. o computador é mais do que velho (melhor seria uma boa máquina de escrever!), mas tem a coisa da internet, né? dou uma andada pelo corredor e todo mundo está mais bonitinho, mais arrumadinho, cavando seu lugar ao sol. olho pra mim e me vejo meio velho, sujo, com uma cara de quem tomou um puta pileque na noite anterior.... existe descontentamento por todo lado e um clima de medo, de pavor, toma as pessoas que não sabem exatamente o que está acontecendo (e o que pode acontecer). não sei... prefiro não pensar em nada, tudo o que eu digo agora é tomado como outra coisa... como se eu estivesse brigando uma briga que não estou. --- > verdade que estou brigando uma briga sim porque sempre estive e sempre estarei não pelos preceitos mais éticos e morais, mas por uma espécie de sobrevivência "pensante" que julgo ser necessária nesse universo onde as pessoas se refugiam mais do que pensam, preterem mais do que escrevem...
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breve história da invasão e resistência
(prólogo)

os homens esfarrapados se reuniram no planeta lixeira (idéia de um filme B de ficção científica). são os sobreviventes, os que um dia foram os meninos, os sonhadores, os cientistas que iam revolucionar o conceito de informação naquela comunidade... não foram totalmente dizimados e, com medo de serem destruídos (como foi o outro núcleo de criação), tornaram-se guerrilheiros, caíram na clandestinidade. não foi uma tarefa fácil porque estavam dentro de um organismo viscoso, gelatinoso que engole, sufoca corações e mentes... eles seriam sufocados (muitos de fato foram seduzidos e caíram, acreditando que a invasão dos bárbaros era séria e duradoura).
esse grupo, entretanto, marginal, seguiu pela floresta levando disquetes, discos rígidos, levando bules e chaleiras, sacos de trigo e garrafas de uísque. levavam também algumas pílulas, pílulas de chaplin, de morpheus, de borges...
enquanto isso, formavam-se novos departamentos e estruturas nas cidades satélites recentemente criadas. o expurgo continuava e os resistentes eram sumariamente eliminados. a matança não foi maior porque não haviam muitos centros de mudança, como eram chamados os que desejavam criar um mundo novo. a maioria não acreditava mais na criação de mundos novos e, preocupados apenas com a tosca sobrevivência, aceitaram a ideologia dos sulistas, o grupo invasor. foram, então, para as cavernas. não havia luz e a água era escassa, mas o lugar parecia seguro, o pensamento central, o ideal estava preservado porque as pedras protegiam as idéias do grande sugadouro. o líder estava muito enfraquecido, rasgado, pobre, solitário. uns poucos conseguiam ver com clareza o que estava sendo feito, o ideal da resistência. ele esperava a tempestade diminuir. Sabia que o grande líder inimigo estava mal, doente e era ele o responsável pela tentativa de reestruturação do planeta. ele pretendia aplicar o que aprendera em suas viagens místicas por uocsom e abuc. colocara seus smiths para trabalhar nesse planeta. e o líder resistente, com a longa barba e o sobretudo rasgado de lona propôs a uns poucos a resistência.
aqui, vai se contar a história dessa resistência.

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19.10.03

óleo 90 na cabeça e na corrente... até secretário de moto. Cento e dez quilômetros pra ir e outros tantos pra voltar. é uma volta, não é? estava um dia bacana. Fui, claro, sozinho, mas tudo bem... aproveitei pra ir pensando, olhando a paisagem & a vida & o asfalto das rodovias... muitas montanhas também...
fiquei pensando que a vida é essa viagem, você marcando mais & mais quilômetros, as rodas girando, rodando... saquei que a gente vai ficando rodado, que já não é mais 0 km. que nada será como antes. casaco de couro suado, bois, vacas, lagartos (também suados), poeira, asfalto, sol, montanhas... tudo passando por mim & eu me sentindo mínimo, sentindo um ponto preto que se movimenta diante de tudo, se movimenta sem razão (como os astros, né?), apenas pra rodar, da mesma forma que as coisas estão todas ali sem razão, estão porque estão, uma hora não vão mais estar... ali o ar é puro, a expectativa é menor, a expectativa é natural, do tamanho da vida. não se quer mais do que tem ou do que é, apenas se tem & é. enquanto é. fiquei pensando porque estou aqui & não lá, porque estava lá & não aqui... o que determina onde a gente está & porque está se tudo é tão mais simples... afinal, onde estou? quem sou? e, porque diabos, estou e sou?

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18.10.03

ele e o outro louco
(primeiro tratamento)

pouco antes de enlouquecer de vez, ele juntou um grupo à sua volta e foi para a montanha. aos poucos, aquilo que era um casebre tosco, virou um lugar razoavelmente habitável, apesar das goteiras, da lama e do cheiro de urina. mas não era isso o que importava. Eles tinham um projeto e era ali que desenvolveriam. tudo bem, não era muito fácil, ninguém tinha dinheiro, o material é sucatado, eram pedaços de fios, latas de sopa enferrujadas, telefones de baquelite para conexão, alguns radiadores em péssimo estado, válvulas, pipetas, máquinas de escrever faltando teclas e todo o tipo de esquisitices: rabos de lagartos, dedos e olhos em formol. Os meninos, como eram chamados, formavam o que havia de mais estranho possível: bêbados, loucos, bissexuais, proxenetas, poetas, saudosistas: uns fãs de stálin, outros de hitler... uma fauna, é verdade.
Mas tornaram-se um grupo. brigaram, bateram, debateram, beberam, fumaram, cheiraram, não dormiram, bateram com o carro, cuspiram e, tudo regado a um fétido queijo ralado, criaram a usina que, por sua vez produziu o hall 3000.
o hall 3000 foi o resultado de um sonho impossível, de uma proposta ousada e louca de fazer alguma coisa realmente interessante e inteligente na montanha.
depois, muito tempo depois, aconteceu a invasão. todos foram dispersos, dispensados, subjugados, pasteurizados, uniformizados... o hall 3000 foi quebrado e em seu lugar, colocaram uma máquina bonitinha e bem comportada. os dois velhos idealizadores foram expulsos e, tal como jean paul, acabaram os dias bebendo e loucos pelos cantos... e rindo, rindo e ninguém sabia de quê.

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na av.atlântica, próximo ao copacabana palace (sentido posto 6) tem um carro parado e um defunto no chão. defunto limpo, sem muita sangueira, sem muito escândalo. coberto pelo plástico preto, ao anoitecer ele quase não aparece. não tem gente em volta, só o PM, coitado, guardando o morto. a cidade flui normalmente, não há nada de novo. morreu um aqui (como tantos outros estarão morrendo agora em tiroteios, outros com câncer nos hospitais - haja morfina! - outros ainda de enfartes fulminantes). por outras bandas estarão, é também certo, nascendo seres de todas as espécies (inclusive humanos!). nascendo em hospitais, em casas, em barracos e em baixo da ponte. nascem como moscas, sem terem pedido, sem saberem o que os aguarda nem o porquê. Quando nascem a vida se inicia e tome crack, tome faculdade, tome fila pra concurso pra gari, tome torre Eiffel... paro então a motocicleta perto do meu defunto e fico olhando aquele volume embaixo do saco preto, aquele volume que foi gente (não sei se mendigo, remediado ou rico -- quer dizer, não acredito que ricos fiquem sozinhos no meio fio na companhia de um PM triste) o soldado não liga pra mim, deve me achar um tolinho de ficar por ali... não sabe no que estou pensando... não sabe ele que todo mundo é esse volumezinho chinfrim embaixo de um saco preto. uma questão de tempo, tenho vontade de dizer a ele, mas não digo. esse não vai mais sorrir, nem beber, nem sonhar, nem roubar nem ser roubado. porque todas essas coisas são da vida e ele não é da vida. ele, simplesmente, não é, não existe, como se jamais tivesse nascido, não sabe que está no asfalto, não sabe nada porque não precisa saber. o PM é que pensa que está tomando conta do defunto. o defunto não precisa disso porque ele não é, assim como eu & o PM que me olha não seremos. ***somos agora por uma circunstância, um átimo no universo (mesmo finito). Nós não somos, eu digo ao soldado, nós estamos. & estamos de passagem e tanto faz o que pensamos ou sentimos ou rimos ou sofremos porque... porque o que são 60, 70 anos numa contagem de milhões de anos? nada, meu amigo. e, mesmo assim, essa contagem é do lado de cá, não do outro, não há tempo, não existe urgência: nem calma nem pressa, nem fobia nem amor, nem dia nem noite. & eu fico parado mais um pouco. eu posso ficar mais um pouco. depois, pego a moto & sigo em frente. ficam para trás o defunto e o PM, seu prisioneiro. pela avenida as pessoas estão gargalhando, os carros buzinando, os vendedores de cerveja atravessando as pistas, desesperados para ganhar mais algum, as mulheres de vestidinhos xangai, os namorados pensando em comer mais tarde... aproveitem, meninos, aproveitem...
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17.10.03

*** de forma insidiosa, como óleo que se espalha e entranha, vai se articulando um poder político estranho, doente, fracassado de nascença, tentativa fadada ao fracasso pelas experiências anteriores. o país vai se dando conta da grande lambança, do tiro na água que deu e agora começa a temer. não há dinheiro circulando. os preços estão subindo. as beneditas continuando aprontando (agora com chancela oficial), a cultura cai, tudo vai caindo aos poucos.
o brasil está mais feio, mais ditatorial, seu povo mais sofrido e, agora, mais assustado. quem vai pagar essa conta, baby? mussolini & hitler & stálin deram sua contribuição à história. agora não tem mais desculpa, é na veia. fez, levou, sentiu. povo com responsabilidade? melhor deixar pra responder daqui a um ano ou dois.

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15.10.03

... porque tem um hora que a tua cabeça ameaça estourar ( e estoura mesmo, feito uma melancia acertada por chumbo grosso) e nessa hora não tem uísque, não tem som alto, não tem nenhuma droga que te faça baixar, sabe como? você pega a moto e sai pela cidade e roda e roda e roda e vai a todos aqueles lugares conhecidos, deixa ela te levar pra não ter que prestar atenção... e acaba que rolam os mesmos lugares, as mesmas coisas... porque não adianta você levantar um dia e dizer que tudo mudou porque não mudou, ta lá dentro, feito um micróbio, feito tatuagem, não sai de maneira nenhuma, você não olha, usa manga comprida, lê a bíblia e o corão ou os versos satânicos, mas nada adianta nada... toma banho ou deixa de tomar, se dopa de todas as maneiras com todas as coisas que inventaram, viaja, trabalha, finge que trabalha, sai de barco, troca os filhos, troca os dias e as noites... e tudo por quê? Não era muito mais fácil rodar pela cidade mesmo chovendo, mesmo na lama, mesmo na merda, mesmo com os mendigos e os travestis? não era mais fácil você encarar essas noite de luzes alaranjadas da cidade? Todas as coisas estão lá... tudo está no mesmo lugar, o universo (teu) fica ali, olhando os teus movimentos, meio rindo dessa tua correria, dessa camisa fingida que você usa, rindo de tudo porque sabe que você não é nada disso e não vai conseguir continuar com isso por muito tempo, não vai agüentar... ninguém agüenta, só mesmo quem é... e cada um é o que é... não tem análise que resolva, não tem penitenciária nem igreja: você é uma coisa (e não importa o julgamento ¿ se é bom ou ruim). porque tudo pode ser qualquer coisa e daqui a pouco você vai estar morto, dessa ou daquela maneira, e quem viveu? quem fez o que sentia e o que era? quem vai arranjar uma nova vida pra você? puxa, é duro querer ser isso ou aquilo... a gente não deveria mesmo querer ser nada porque somos já muita coisa, não importa o conceito nem o ponto de vista... importa apenas lá dentro da cabeça o que está acontecendo, o que você está enterrando (?) todo dia... porque enterra e no dia seguinte está insepulto, no dia seguinte está insepulto, no mês seguinte está insepulto e quem fede, meu irmão é você, quem vira carniça é você porque você não está enterrando, você está se enterrando nessa maneira, nessa aparência certinha.
na ronda noturna a gente volta aos mesmos lugares e percebe que tudo está lá e você é que brinca de se enterrar.

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- - - - essa chuva tem enchido o saco de todo mundo. quando você está à pé, fica todo molhado, quando está de carro, engarrafado, quando está de motocicleta, molhado, derrapando, cheio de lama. Inferno mesmo. o rio virou são paulo e não o sertão virou mar***... tava falando com a simone sobre a produção literária brasileira e lembre um pouco do guimarães rosa que tem umas coisas geniais e outras insuportavelmente chatas... como pode? guimarães meio que criou um tipo de linguagem, uma forma de escrever diferente, bacana, especial. j. joyce também, talvez mais complicado, talvez mais genial (será?) ... parece que o glauber andou tentando fazer essa coisa, mas eu não gosto (pode ser implicância)... muita gente já me disse que o glauber é um gênio e eu não consigo alcançar essa genialidade. qualquer dia vou me colocar de castigos e vou passar um fim de semana assistindo uns filmes do glauber com toda a boa vontade... quem sabe eu não deixei de idolatrar um gênio nos meus cinqüenta anos? pode ser. Não acredito, mas posso tentar...
entrevista do saramago no roda viva: assisti alguns pedaços, mas eu estava com muito sono. eu já discordei muito dele, das opiniões dele, das intervenções dele... curiosamente, essa semana, achei ele mais coerente, gostei mais (talvez eu estivesse dopado)... li quase tudo dele e sempre gostei muito (quer dizer, aquele negócio da caverna de platão eu achei meio chinfrim, prefiro ler platão no próprio platão). o resto do saramago eu gosto. ensaio sobre a cegueira é o melhor, na minha opinião.... o último ainda não li, tive a pretensão de achar que phillip roth em operação shilock escreveu o texto definitivo sobre o homem duplo... posso rever, posso ver o saramago também... afinal, não é apenas o fausto de goethe que se deve conhecer, o doutor fausto de mann também é um clássico.... e o que isso tudo tem a ver com a chuva? nada. fiquei muito angustiado lendo sobre meninos e lobos de dennis lehane... muito angustiado mesmo.

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14.10.03

tava falando sobre a possibilidade do universo ser finito e essa coisa toda... o assunto, claro, sempre mexe com nossas cabecinhas, mas nem ousei falar de outra coisa, que o universo somos nós, ele é finito porque morfologicamente nosso cérebro é assim e assado... mas considerando os neurônios, as sinapses & o que eles produzem & fazem & são***... bom, toda a discussão, toda a vida é a conseqüência (invisível) da produção do cérebro e ele possivelmente não é infinito (suas conexões), mas estamos muito longe de compreender coisas mais ou menos óbvias... isso eu falo depois pra não complicar: estou falando agora é que a questão do universo ser finito ou infinito é pequena diante da possibilidade deste mesmo universo ser uma criação, uma projeção do material produzido por um órgão desconhecido praticamente. se ele é desconhecido, toda a percepção que temos do mundo é, no mínimo, distorcida, fantasiosa, onírica mesmo. assusta mais saber que o universo é finito para cada um de nós (pois está contido na caixa craniana) do que em termos macroscópicos, visto que todas as teorias, provas e concepções estão em mim, finito e sem controle
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10.10.03

eu e pdv conversamos sobre nossas necessidades estruturais de uma viagem de motocicleta, de alguns dias na estrada, comendo poeira sozinhos [como todos somos do nascimento à morte]... não que resolva nada porque não existe fuga, carregamos a nós mesmos onde vamos, nossas cabeças, nossos universos pequenos.... mas pelo ronco dos motores, pela conversa no bar de beira de estrada sobre peças, sobre canos de descarga... pelo puro prazer de ter cheiro de óleo pelo corpo todo, marcas de graxa e bandana na cabeça... por saber que vamos encontrar malucos no caminho tomando cerveja e aparafusando suas velhas harley...
famos dessas motocicletas que ficaram da segunda guerra e ainda estão por aí rodando (um amigo nosso tem uma)...
eu não sei se é um papo legal ou não.... talvez não seja... mas ele não carrega - em si - nada de ruim... dois homens que já viveram parte da vida (a maior parte) e que descobriram que existe uma estrada, existe uma possibilidade de rodar, rodar, rodar e não sofrer....
mas também é possível que nada aconteça, que não façamos a viagem e fiquemos reclamando da vida merda, da vidinha xangai, jeca, babaca que levamos...
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8.10.03

em casa, pensa no aparelho de telefone antigo [ainda não será nesse mês]...
pensa no homem de chapéu de feltro que cruzou no postigo...
recolhe as folhas caídas do crime e castigo [[que está se despedaçando] - - - > o que não está se partindo? parece que tudo.
foi um grande engano a leitura prematura de a idade da razão. uma interpretação errada que norteou uma vida errada. mathieu tinha 34 anos, mas jean paul, não.
essa idade é agora, com o corpo cansado, com a pálpebra caída.
ou não?
será que não é ainda a verdadeira razão? - - ou será que o engano é maior, o engano é achar que se está ou se vai chegar nessa idade? talvez nunca se chegue ou, pior, talvez, a idade da razão seja todo o tempo, todas as idades, todas as casas, todas as mulheres, todos os gatos, todas as expectativas...
a idade da razão não passa de uma expectativa.
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joga o copo plástico fora. - apaga o cigarro. - liga o motor.
segue por toda a zona portuária. parece tudo deserto fora uns poucos desocupados e meia dúzia de travestis pobres...
de soslaio, observa os guindastes contra as nuvens de chumbo.
a iluminação da cidade agora é toda alaranjada, perceberam?
está frio. parou de chover há pouco. o asfalto ainda está molhado, reflete o veículo, as duas rodas e o piloto. só.
sempre só, como é a vida.
a vida é um passeio de motocicleta pela zona portuária à noite, após o temporal.
segue para a zona sul. passa por "aquele bairro".... vai até o final. depois volta e se tranca em seu apartamento.
está molhado, com frio e insone. liga o computador, o som, a televisão (lei & ordem) e faz um café,
final do terceiro ato
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7.10.03

participar de um grupo de estudos com pdv sobre a aplicabilidade da internet, principalmente em educação pode ser interessante ou não. fico sem saber. talvez seja legal, se concordarem que eu funcione meio que como um advogado do diabo, um problematizador... falei pra ele que não quero participar de um projeto que vai colocar mais crianças em frente ao micro, tardes ensolaradas inteiras, recebendo zeros e uns e 'acreditando' estarem vivenciando algo que não é, que é uma abstração, um reflexo torpe do mundo... mas, tudo bem, entendo que a realidade da rede não pode mais ser qüestionada... então caberá rever as maneiras, os modos, rever o conceito para utilizá-lo... vejo muito, por exemplo, pelo seu oposto, ou seja, utilizar o meio como estímulo a outra coisa. se nas escolas, nas casas e nas igrejas, estamos todos em rede, pelo menos que encontre-se ali um estímulo legal, bacana, sério, a sair dali, ir a um museu, ler um livro, ver um filme, criar um grupo de conversação não virtual, ao contrário, presencial ao extremo, um grupo de toque, um grupo que cante, dance, pinte, debata....
porque a educação estaria aí: no drible, na diáspora da internet: entrarmos em rede para ver a diversidade, a quantidade de possibilidades, descobrir onde estão as coisas boas e sair do computador em direção a elas, ao humano.

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- - - - > A internet, muitas vezes, condiciona a um comportamento idiota e idiotizante em que o homem perde o contato consigo, com suas possibilidades, com o seu em-si, tornando-o parte de um todo, de uma rede burra e auto sustentável, onde todos acreditam que lá está o saber... esse lá é distante de todos, portanto, não está em ninguém... desconsidera-se a idéia individual, o conhecimento, a cultura em troca do conhecimento da ferramenta de acesso. Quanto mais se sabe informática, quanto mais se conhece um computador, mais se está capacitado para várias áreas de mão de obra (porque todas estão interligadas, em rede) e a individualidade vai se desfazendo, se pasteurizando sistematicamente, dividida com milhões de pontos, de micros de empresas, de residências, pagers, celulares, etc. Um homem não vale mais pelo que ele pensa ou faz, porque ele não é um homem, é um login.
E por que emburrecedor? Porque você não discute ballet, nem sheakspeare, nem tolstoi. Você fala de bits e bytes, pixels, bandas, hardware, software, uns e zeros à exaustão.
Uma hipotética pane na internet hoje faria o mundo parar: não teríamos luz, gás, água, telefone, transportes, nada! A economia ficaria paralisada, nem um bife poderia ser comprado ou consumido!
E o que resta do velho homem, das suas idéias, dos seus projetos, do que construiu, estudou, propôs? E as mulheres, o que são as mulheres agora? Das crianças, então, é melhor nem falar. Não há futuro.
(Continua)

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6.10.03

tomar cuidado ao falar é uma atitude que a sociedade nos impõe, restringindo o grande barato que é pensar alto... porque a verdade verdadeira é que está tudo parado demais, é preciso mexer em alguma coisa cultural, já que esperar de quem deveria vir...o jeito é ir fazendo o que posso, é só aguardar....
- - - - - -
quatro homens de macacão branco, trabalham com suas ferramentas silenciosamente. Corrente, carburador, acelerador, faróis... todos estão atentos ao que fazem, tensos.
do outro lado da rua, um velho de barba branca aguarda...observa....acende outro cigarro.

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enquanto eu escrevia ontem, alertando que não se fizesse turismo no rio de janeiro, - enquanto eu postava - uma mulher levava um tiro na linha vermelha. - - - > os tiroteios continuam, a desordem é absoluta, lei da selva mesmo!
rosinha e garotinho.... isso aqui é o pais do presidente paz e amor, do lulinha, da rosinha... dos inhos....
e querem que a gente não ande armado*
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5.10.03

Turista: não venha ao Rio! Se vier, não vá a Copacabana.

Ontem tive o desprazer de rodar por toda a av. n.s. de copacabana. parece aqueles lugares de bombaim, aquela raça de vendedores sujos, jogados pelo chão, com suas mercadorias no chão... vendem pilhas, tapetes, calcinhas, relógios de parede, perfumes, raticidas, tudo. a forma como os produtos são dispostos ordenadamente não parece a de quem está preocupado com a fiscalização. mais parece o que de fato é, camelotagem, antro, picaretagem. até aí tudo bem, a picaretagem no brasil não está só em copacabana, começa lá em cima, onde a grana corre solta... o que me impressiona realmente é o césar maia; no primeiro mandato como prefeito ele limpou a cidade. dessa vez ele parece um fantoche de deus, como se tivesse broxado, parece um híbrido de brizola e rosinha. Mas se não dá pra votar nele, quem sobra?
copacabana é um lixo. lixão. Podrão. dizem que os subúrbios são ainda piores, mas subúrbio é subúrbio, eu não conheço, desconsidero, nunca fui e espero não ter que ir... se lá as pessoas são sujas e indecentes ou não, desonestas ou não, camelôs ou não, enfim, o subúrbio com seu pagode aos sábados, sua gente feia e pobre estão distantes de mim, não me interessa. Eles lá e eu aqui. mas copacabana é o fim. é um bairro imundo, cheio de gente velha e feia, cheio de mendigos, classe média baixíssima, nível zero. gente feia, jeca, jequíssima, ignorante. nos quesitos de pessoas interessantes, inteligentes, cultas e informadas, eu, com toda a certeza estou entre os dez mais de todo o bairro. tudo bem, o Josué Montello também mora aqui, mas não sei como ele está. E para aqueles ignaros que dizem que sou pedante eu respondo: não, não sou. copacabana é que reúne o que há de pior.
e não adianta dizer que eles vêm de longe não. a verdade é que essa gentalha toda mora bem aqui, nessas quitinetes da barata ribeiro. copa fede. deviam colocar placas de aviso aos turistas no posto de seis (para quem vem de Ipanema) e no início do bairro, logo após o túnel:
Mal vindo! Volte! Lugar sujo e perigoso! O quadrilátero da boate help, aquela coisa que chamam feirinha e quiçás... putz!!!! deviam isolar com aquelas fitas amarelas que a polícia nos países normais usam para isolar cenas de crimes. aquele pedaço recende a tráfico, prostituição, aids e gonorréia, além do que nem a argentina quis.
Então, caro turista, se você tem miolo mole e insiste em vir ao Rio, vá ao Flamengo, Laranjeiras, Botafogo, Ipanema, Leblon, Urca, Lagoa, Jardim Botânico, Gávea, mas JAMAIS, JAMAIS a Copacabana!


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3.10.03

EXTRA

Ontem à noite, em desabrida cavalgada, foi visto novamente o cavaleiro negro.
Boa sorte ou...cuidado!
O Sobretudo de Lona voltou!

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2.10.03

Eu recebi uma correspondência questionando um pouco esses posts que fiz por aí criticando um pouco a internet, da maneira como ela vem sendo usada/conduzida... o camarada que me escreveu (não reproduzo aqui porque ele não autorizou) diz que o homem não existe mais sem a internet. Bom, é possível, mas isso não o subtrai da boçalidade . Quando estivermos totalmente em rede, seremos tão boçais que não precisaremos mais levantar de frente do teclado, não precisaremos mais pensar (quase não fazemos mesmo) e a arte e a cultura terminam... ficarão esses aí, bando de jecas em frente a computadores poderosos, Pentium 4, 5, 6, cagando goma que sua máquina é isso e aquilo. Você pode imaginar Freud num computador? Pode imaginar dostoiévsky num computador? Claro que não. Você desmaia, tem uma crise com essa porcaria dessa tela acesa que não me permite ter um abajur de contraluz, não me permite prescindir da porcaria da energia elétrica, que me reduz a um cervo capenga de um composto de modernismos (luz, telefone, etc)... bom, e aí eu não vou mais ao teatro nem a um museu porque posso ver por aqui... e ainda me falam dos excluídos digitais? Ora, ora, minha senhora! E quem são os excluídos digitais? O excluído digital pode ir ver ópera gratuita no municipal, pode ir ao projeto aquarius, pode ler esses livrinhos mal impressos que o globo e a abril despejam nas bancas de jornais dos italianos no Brasil... ora, tanta coisa sem ficar teorizando em cima do mundo em rede e essa patacoada toda.
O que falta é conhecer Roberto campos, delfim Netto, Carlos Lacerda, Alceu de amoroso lima, Paulo Francis, Carlos Lacerda, carpeaux e tantos outros... e não tem nada disso na internet. Você não acha aqui direito nem um nome de remédio nem uma rua no Cairo... a internet deveria ter continuado para uso militar e pronto... no máximo pras nossas criancinhas se distraírem e não encherem nosso saco jogando esses joguinhos jecas (mas que, ao contrário do que os politicamente corretos tentam impingir) que não fazem mal nenhum. Esse papo de que joguinho aumenta a violência é falta de assunto, é excesso de internet na cabeça de psicologistas jecas que andam aí desempregados. Portanto, eu continuo sim com meu pezinho atrás nesse papo de infovia e de acessar o saber na internet. Saber está no balé, no teatro e na literatura. O resto não é cultura, é sub-cultura, coisa de americano babaca que os macaquitos brasileiros adoram imitar.
Aliás, eu não agüento mais ser patrulhado só porque antes eu era entusiasta da internet e agora não sou mais. Não sou e acabou o assunto.
P.S. e aquelas salas de bate papo são redutos de homens e mulheres (principalmente mulheres) frustrados, deprimidos (turma dos sem prozac) que fracassaram em tudo na vida e ficam lá, naquele eterno "de onde teclas".

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1.10.03

Jangada de pedra ou
Não sou um ser fiel de forma clássica ou
Fábula das marés

gosto de mim, o que tenho é um compromisso comigo.
gosto da forma como a vida se apresenta e as soluções que vou dando, dos remendos que vou fazendo aqui e ali. gosto da nossa condição de marujo e maruja e de poder dizer que não somos marinheiros de primeira viagem, que tentamos antes, mas não deu certo. felizmente. nesse barco meio furado, mas muito querido, estamos todos... nessa nau (pequena e tão grande) singrando de lá pra cá. um dia, quando menos esperar se espatifará em recifes. enquanto isso, não existe espatifar, existem dias azuis com mar ameno, onde me banho, me exponho, me dou aos olhos do outro ele aos meus. comemos um ao outro num movimento circular, espiral, que vai se ampliando até que nau, mar, sol, sal, eu & ela estejamos num estado de harmonia que, de tão perfeita, não percebemos, apenas somos.
dias hão também nublados, mar encrespado, cinza chumbo com muita escuma e chuva & trovão & desequilíbrio... eu quero uma coisa, ela, outra. grito que deve ser assim & ela assado. pra mim, ela está agindo completamente errado, só diz asneiras, vai nos levar ao fundo... tenho ímpetos de mata-la... surpreendo-me que ela sinta a mesma coisa em relação a mim, ao que eu digo, penso... tenho quase certeza de que estou certo. mas como sabe-lo? Com tantas vagas a lavar o podre convés e a chicotear nossos corpos, acabo por não ter certezas. passam sim outras naus, aparentemente mais belas e/ou seguras. até acenam para mim. não, fico na minha nave, com a minha parceira. se outra nau me seduz e é verdadeira essa sedução, se estou convicto, porque estou nessa e não naquela? e ademais, não há tempo para maiores perdas, precisamos um do outro, precisamos lutar juntos para alcançar porto seguro; lá tratarei dela, de nós. se eu estiver certo, não retorno com ela ao mar; procuro outra ou vou sozinho.
e também me surpreendo de que ela pense o mesmo...
como o tira de filme americano, marujo da vida que sou, não gosto de sair com outro parceiro. - - - > o que a vida me reserva de melhor é saber com quem estou, quem é, definitivamente meu companheiro nessa viagem. talvez por isso, em porto seguro, sempre resolvamos voltar ao oceano juntos, somente nós.

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- - - - > fico pensando muitas vezes que eu estou na contramão da história. pior: entrei nessa contramão há pouco tempo. anos atrás eu era um entusiasta da internet e, ainda não percebendo o produto multimídia, eu falava da interação internet/televisão. na estréia do programa observatório da imprensa eu quase tive um orgasmo na sala de corte.
os anos passaram, a informática evoluiu, as bandas de transmissão de dados aumentaram, as gerações mais recentes dominam a técnica e a estética (?) das ferramentas da imagem... muita coisa se concretizou e outras tantas não.
eu, com certeza, me desiludi. é preciso ter bem claro que eu não estou tão louco à ponto de refutar os novos meios de comunicação, sua importância, seus benefícios. não é isso. alguma coisa, entretanto, trincou, se rachou e eu uso os meios, a internet principalmente apenas para buscar o que dela necessito; entro, busco e saio. não tenho mais o entusiasmo de antigamente. ainda não me conformo, por exemplo, em digitar textos no word, sem ver o papel, vendo uma corruptela digital de papel, mas sabendo que estou produzindo num "nada" verdadeiro (sim, porque, o escrito agora está impalpável, é quase uma abstração, mas ele não se perde, vai, depois para outros processos, como o impresso, a narração, o livro, a telenovela...). todos essas coisas começam num computador, certo? não sei. será que todo mundo aboliu mesmo o papel? eu, por exemplo, não aboli. escrevo (em quantidade e qualidade)mais com a caneta e o papel do que aqui; por outro lado, aqui publico, me "dou voz", o que é impossível nos escritos em cadernos e nas folhas esparsas onde apenas eu e uns poucos e eventuais "eleitos" terão acesso...

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