Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


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ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

22.1.04

De novo a TV Pública

Tenho lido alguma coisa sobre televisões públicas em alguns países do mundo, televisões que, apesar das dificuldades, conseguem estabelecer com a população uma cumplicidade interessante, onde verdades são ditas, fatos apresentados e discutidos por todos, democraticamente. No Brasil, atrvés de vários governos, várias gestões, não percebo essa sintonia produção/público espectador.
Brasileiro acha a sua televisão dita pública chata e não é o povo que está errado, ela realmente é chata ou, quando não é, tem apenas momentos interessantes e não uma programação, uma grade interessante. Daí, sem opção inteligente ou instigadora, o telespectador migra para qualquer outro canal, ainda que seja pior, mas que possui algum tipo de identidade. Nesse ponto, o telespectador fica discutindo a qualidade ou não daqueles canais que falam alguma coisa ainda que não seja a expectativa do público.
Existem vários exemplos de interação dos meios de comunicação públicos na sociedade e vou citar dois que considero primordiais. Primeiro, evidentemente, a internet. No mundo de hoje eu não conheço nenhuma criança, nenhum adolescente, nenhum adulto com interesse em informação que não tenha a internet como seu ponto de partida na busca, na pesquisa. Pensando assim, se essa afirmativa for realidade, um canal de comunicação pública tem que possuir um site que atenda a todas as necessidades do usuário tais como, informação (notícias e seus desdobramentos), entretenimento, cultura, etc. fazendo uma ponte com a televisão e rádio. O que deveríamos entender como sistema público de divulgação é isso, um meio e não apenas uma televisão ou apenas uma rádio: é um tripé que trabalha em igualdade de condições dando cada um deles aquilo que é específico do meio. A TV pública brasileira não tem investimento na área da internet, a internet é quase um favor da TV, o site não tem autonomia não é consultado, não participa nas decisões da empresa, é marginal. Daí não tão bem acabado, insipiente às vezes. A produção televisa não se reporta à internet, considera dar informações ao site como um fardo e não um estímulo, uma complementação do que é tratado em sua programação. Como resultado imediato, temos menos acessos ao site, este tem menos credibilidade e leva menos pessoas à televisão e à rádio. Um círculo vicioso de informação às avessas, de desinformação e desinteresse.
O outro aspecto sobre o qual não vou me estender é a falta de trabalho comunitário, de campo, dos produtores dos veículos com as comunidades, não ouvindo, não se mostrando presente e pronta a atender as demandas sociais.
Assisto apenas à mudança dos discursos, mas nenhuma ação concreta, nenhuma atitude, que definitivamente, coloque efetivamente a televisão, a rádio e a internet no seu devido lugar de serviço público, mas útil e atraente com o tripé de meios anteriormente mencionados.

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18.1.04

sonho com... religiosamente todas as noites.
é bom, mas é enlouquecedor ao mesmo tempo

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boa tarde

enquanto não editam o último Montalbán por aqui, aproveito para ler e conhecer António Lobo Antunes (aquele mesmo dos Cus de Judas)... seu último romance, o caudaloso, 'boa tarde às coisas aqui em baixo'... e tenho que confessar (ainda que esteja nas primeiras páginas)... é um autor forte, abrupto, contundente, mas muito, muito difícil de ler (para mim, mais do que Joyce ou Guimarães Rosa, por exemplo)... tudo bem, pode ser incapacidade minha, quem sabe? mas ele mistura vários personagens em vários períodos de tempo, sem pontuação, onde a gente acaba se perdendo... sempre quem está falando, quem está respondendo ou mesmo se aquela frase é uma fala ou uma descrição do autor... disse ele numa entrevista que escreve quando está no ponto máximo da exaustão, quando está há 16 horas sem dormir e as coisas brotam do seu ser com uma espécie de fúria... pode ser isso, mas o início desse romance (e já vi que vai assim até ao final das suas 565 páginas é árido, duro, faz a gente prestar uma atenção sobre humana e voltar parágrafos para tentar compreender... ainda não sei se é bom - ou se não estou intelectualmente preparado
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17.1.04

...a discussão ontem com s. resultou acalorada pelo excesso das coisas que queremos e sabemos que podemos e pelo pífio desempenho prático... a cabeça, cheia de idéias, pronta a dar a mim mesmo e aos outros aquilo que deve ser dito é sempre contida, contenho-me sempre no aguardo da próxima hora, do próximo dia para começar e esse começo não começa e a obra não sai... falamos com raiva um para o outro porque sabemos que somos consumidos por um excesso e não falta de idéias e elementos para serem exibidos, desnudados para quem quiser ver... e não é só isso não, é o sentimento triste, descrente de não ver realizada a grande obra, ainda que seja pequena para o mundo, mas o meu saber, o que eu tenho a dizer.... falamos muito da internet, de como ela pode ser emburrecedora ou não, em como pegamos textos que são, na verdade colagens de outros textos e assim sucessivamente e que, embora tenham assinatura, já não tem autor... porque eu copio e colo um texto aqui, mudo determinadas coisas e assino... outro copia e cola esse meu texto, altera o que bem entende, assina e publica e assim sucessivamente dando margem a um mar de coisas ditas de maneiras diferentes, com pequenas alterações, mas sempre as mesmas coisas, as mesmas propostas, propostas essas que invalidam a reflexão, porque não refletimos mais sobre o que estamos fazendo na pressa de fazer, fazer correndo, fazer primeiro, publicar e responder e dar conta de toda a carga que vem por trás e pela frente... e que artistas somos nós, afinal, que não paramos, sim, paramos e fazemos aquilo que realmente tem que ser feito, que está em nossas mente e em nossa alma, que nos sufocam porque desejam sair e não permitimos sempre dando uma desculpa aqui e outra ali com o nosso comezinho e ridículo trabalho que não é nada... porque essa é a verdade... eu não faço nada, nós não fazemos nada se entendermos esse nada como a ausência de alguma coisa completamente autoral, capaz de ficar, de marcar um ponto onde se diz: não, pode-se não gostar, mas aqui ele fez um trabalho, ele se expôs... e assim não se conhece verdadeiramente o homem que caminha com sua mala misteriosa, não se conhece as coisa que passam por sua cabeça, o mundo de personagens e situações que levam a atitudes às vezes radicais... tenho feito experiências muito tímidas, reconheço, publicando alguma coisa aqui que não seja o meu querido diário e as respostas sempre vem, seja pelos que não percebem o que se quer dizer e pretendem quase reescrever para você até os que adoram ou simplesmente não gostam... mas a maneira ainda é muito artesanal, ainda não existe um projeto maior, completo... acredito piamente que esse projeto tenha que ser fora da internet (e debatido, se for o caso, aqui)... e por que fora? porque nossos projetos pessoais não podem andar junto com o todo da rede... é necessário que a pessoa vá lá e compre ou vá à exposição, enfim... não importa... porque aqui todo mundo já ficou viciado nesse que permite tudo e a obra pessoal de uma pessoa não deve permitir tudo, deve ser algo inteiro que se goste ou não, mas inteiro, como um filme, um livro, um quadro... a discussão da obra é outra história, aí sim a internet pode ser um meio...
mas o problema não é esse... o que discutíamos ontem é o fazer ou não fazer... veja-se agora eu mesmo preso de minha própria armadilha a discutir uma não obra, uma não realização... esse é o grave problema desse veículo que nos permite dar conta da possível crônica diária, mas nos inviabiliza (a mim) a concretização do processo, do que está transbordando e buscando papel e parceria...
depois eu explico


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16.1.04

de uma vez por todas

...é curioso como as coisas escritas são 'absorvidas' pelas pessoas de um modo todo pessoal, como se cada frase, cada pensamento tivesse um endereço, tipo "olha, isso aqui é pra você que eu estou escrevendo"... em blog principalmente, acontece muito isso: você vai escrevendo as coisas que estão passando pela tua cabeça, os teus sonhos, teus delírios e as pessoas vão lendo e se identificando... 'ah', pensam, aqui ele está querendo me dizer isso, aqui ele está querendo me dizer aquilo... dia desses tive uma conversa com uma amiga que também tem blog sobre isso... e não é nada verdade.... blog nada mais é do que um texto que você resolve disponibilizar para que outros conheçam... quando você escreve dando nomes, dizendo fulano me fez isso ou disse aquilo, tudo bem... agora, as coisas genéricas, são genéricas mesmo, são coisas que estou pensando agora e resolvo dividir com o mundo, que amanhã posso mudar de idéia ou acrescentar ou subtrair... são palavras, são o meu 'self' em movimento deixando-se dividir, permitindo que outros conheçam... da mesma maneira que tenho outros tantos (muito mais) escritos que não são publicados porque não acho conveniente dividir, não acho que seja o momento ou acho que são barra pesada ou são babaquice... enfim... o meu blog, todo mundo já viu, não é dos bons, dos tradicionais.... eu apenas voui escrevendo e, muitas vezes (a maioria) no dia seguinte nem lembro o que escrevi... quando quero dizer alguma coisa para ela falo por e.mail ou telefone... sim, porque eu não apareço nunca, não quero, não gosto e não vou aparecer... eu sou aquela figura silhuetada de um homem só que caminha em chão molhado carregando sua mala... só.
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15.1.04

Completude
substantivo feminino
qualidade, estado ou propriedade do que é completo, perfeito, acabado

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acho que é essa a palavra que define o todo, que define o que o homem busca na vida... o adjetivo "perfeito" me parece exagerado ou um tanto distante ou, no mínimo, inconstante. . . a perfeição que eu consiga hoje ou esse mês poderá não estar presente depois como poderá ainda voltar, sabe-se lá quando... ele é a festa, o eventual ápice do completo e do acabado.
... encontro assim a possibilidade de ser completamente e poder doar-me ao outro, à arte, à contemplação e à reflexão...
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sendo então beneficiado e beneficiário da completude, cabe expandir, dividir o quanto possível esse estado entre as pessoas que me cercam e, se possível, através da arte, à grupos ainda maiores, distantes de mim, para quem seria uma referência, um ponto eqüidistante entre o labor e o prazer... ou ainda uma mostra de que os dois se completam num terceiro ponto que está em nós, como o (pai, filho) espírito santo, o ângulo superior do triângulo que sou. Esse ângulo/completude sustenta todo um processo cósmico de equilíbrio perfeito, no qual, giro e faço girar, algo como a dança em seu aspecto mais profundo e sensível, como a música e a arte plástica. ... tudo lembra equilíbrio universal e ele só existe se estiver contido em mim, sem que eu esteja em equilíbrio nada estará, será apenas aparência...
... e como existe atração recíproca dos astros...
... lua... lua fundamental...


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é preciso contar com as pessoas sempre e não só naqueles momentos especiais (bons ou ruins), mas sempre, o tempo todo, em momentos que às vezes nem a gente se toca, como um pensamento que atravessa assim, de repente.... você pensa que tá tudo super certo, sob controle absoluto e... será que está? Será que a gente pode se bancar o tempo todo? Claro que a gente se banca pra sobreviver, pra não cair, mas não é disso que estamos falando... é a gente com e gente mesmo, a gente se olhando no espelho e pensando no que é e no que poderia ser... e o que estamos fazendo para alterar sem fazer mal a ninguém, a caminhar, mas sem atropelar o do lado (e não ser atropelado, claro!)... são pequenas ações, diária, contínuas e infinitas (enquanto duramos porque também tem isso!)
... essas reflexões me vem dos últimos acontecimentos, das viradas que a vida vai dando e a gente começa a olhar para um lado, para o outro, para dentro... e não me custa nada deixar registrado por aqui...

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14.1.04

Quem?

.. ela me disse que não sabe o que quer, que tem estado confusa a vida inteira e não encontra um porto... eu digo que não se encontram portos assim, que estão dentro de nós mesmos, que é uma questão de atitude e, porra, atitude é barra pesada, eu sei, eu reconheço, entendo, também acho... mas não tem saída: é atitude o que a gente faz à cada segundo quando seguimos uma trilha... quando não tomamos as atitudes, somos levados, a vida vai se mostrando de qualquer maneira, nem sempre da maneira que poderia ser... mas é porque não estamos nadando, não estamos caminhando, nem pensando... respiramos apenas... não entende... não percebe e não tem atitude... fico triste e sigo em frente porque tenho que seguir, quero seguir...
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quando a gente se permite perder um pouquinho do nosso precioso tempo e resolve filosofar, quando a gente pára e olha em volta as coisas, os objetos e as pessoas... eu acho que a gente não olha as pessoas como deveria olhar... a gente mal dá tempo a nós mesmos de perceber, de sentir... a gente é embrutecido pela vida e perde a sensibilidade para o outro, para aquela pessoinha que está bem ali e não vemos... o que, realmente, vemos no mundo? Que temos que acordar cedo, tomar café, filhos na escola, trabalho, estudo, progredir... ótimo, mas aonde realmente queremos chegar? Tomamos uma série de decisões por dia, fazemos um monte de coisas, colocamos a máquina para girar... mas gira para onde? ... e isso o que fazemos é realmente uma atitude?
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ao final de cada dia, de cada mês, quando olhamos para trás... o que fizemos de verdade? ... cursos, promoções, perdas, ganhos... mas quem somos lá dentro, no fundo?... quem? ... quem? ....

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caminhei anteontem pela rua molhada de chuva... tava pensando no que fazer daqui pra frente.... fiquei agoniado vendo que as possibilidades são muitas, mas que os caminhos a trilhar são longos e íngremes... tudo bem, vamos lá...
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ontem me disseram que eu não sou gentil... tá.
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fazer site pra adolescente é um saco e eu tenho que fazer, tenho que ouvir aquela xaropada toda, dar palpites, dizer que tem que ter isso e aquilo... digo coisas que não acredito de verdade...
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são muitos papéis, muitas pastas, muitos lápis e canetas, muitas anotações valiosas e outras não, muitos livros enfileirados e outros bagunçados, além dos CDs e toda essa tralha que é a minha casa...
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ontem testei e funcionou: dá perfeitamente para secar a cueca no microondas...

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12.1.04

... o negócio é que falta tempo pra gente escrever tudo o que tem para dizer e acaba falando em conversas esparsas onde as pessoas vão pegando um trecho ali, uma frase acolá e vão traçando um pouco de quem é você... eu acho que a vida que a gente tem não permite uma escrita legal, bem feita, não vejo mais clássicos modernos... tudo bem, podem me dizer que eu estou super desatualizado que não tenho lido tudo (quase nada) e que a produção e a cultura traçam novos caminhos... não sei não... pode ser... sinto-me fragilizado para entrar nessa discussão agora... mas tudo bem, posso pegar e ler os gregos, muitos, que não li, mas aí não dá tempo pro jornal e se escrevo muito no blog deixo de pensar no site e os cadernos ficam abandonados... não tenho método é outra justificativa que busco para mim mesmo, mas será realmente isso? Tenho que namorar pelo telefone, conversar pela internet, tratar de trabalho só em reuniões que é para falar e ouvir um monte de gente de uma vez só, comer correndo porque o ato de comer é perda de tempo, como defecar... durmo tarde e acordo cedo e tento ver um pouquinho de televisão para não ficar completamente desatualizado, mas acabo ficando porque tenho cem canais à disposição... cinema quase não vou porque é a hora de ler a revista ou porque não vai ter onde parar o carro e quando vou meu filho tem prioridade na escolha da história...
falta de método, de organização... ta legal, reconheço, vou tentar fazer uma agenda (comprei quatro e até agora não decidi qual é a mais apropriada para mim), mas tudo bem, escrevo nas quatro e assim não erro... verdade que na maioria das vezes esqueço de olhar a agenda (até porque sei tudo de cor), minha cabeça fica quicando e não há tranqüilizante que dê jeito... parece que eu sou um homem que vive na modernidade, que come miojo como um manjar e toma coca cola como um porto... não, nem todo mundo é assim, eu sei... exagero um pouco em tudo, eu sou mesmo exagerado (sic)
fico pensando que tenho que escrever um livro, mas estou sempre parando na página 30 porque acho que já está de bom tamanho, não me entendo com computadores e critico a internet... e os babacas acham que é tipo... tem horas que mando mentalmente o mundo inteiro, sem exceção, à merda, mas ele não vai, ou melhor, vai, está nela e não percebe... mas eu recomeço...

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Anti Sísifo

Tanto a veja dessa semana quanto a época trazem capas banais, lugares comuns em inícios de ano... falam dessa coisa da gente mudar, de aproveitar a virada do ano para empreender novos negócios, uma nova postura diante da vida, enfim... eu acho engraçado primeiro porque é falta de assunto das revistas, é matéria mais do que requentada, mas vamos lá, jornalista não é super homem e no Brasil não acontece nada importante mesmo... penso então na minha vida e nas (possíveis) viradas que tenho que dar... mas comigo acontece o contrário: minha vida é virada e revirada como casca de noz em tempestade... eu nem tenho a chance de planejar alguma coisa, de dizer que vou mudar isso ou aquilo porque antes de pensar: Bum! As coisas mudam por mim... me deixam tentando juntar as folhas que foram jogadas para cima e quando eu estou quase terminando começa tudo de novo, sou um sísifo pós moderno que sobre e desce a pedra. Não subo apenas a ladeira para ver a pedra rolar... não... a pedra vem rolando em cima de mim e eu venho por baixo, aparando, tentando segurar pra não ser esmagado... melhor, talvez não seja um sísifo pós moderno, talvez seja a versão moderna de sísifo, um anti sísifo que se equilibra na lâmina afiada da vida para não cair e, caindo, tentando não me quebrar, não cair com a manteiga para baixo segundo aquela lei... portanto, constato que tenho que mudar sim muita coisa, que as revistas talvez tenham lá seu quinhão de razão, mas preciso só de um pouquinho mais de tempo, ta?... depois prometo que me transfiro para a biblioteca nacional, arranjo mais um emprego e procuro uma namorada mais ou menos normal... mas depois, ta?... deixa eu aparar essa rocha aqui...

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9.1.04

... tentativa de encontrar o livro mais uma vez fracassada... nem no travessão... comecei a pesquisa sobre o homem show... comecei devagar porque tem muita coisa e acho mais importante formar um grupo de trabalho primeiro... não é uma coisa simples e, atenção, sérgio cabral já andou pensando nisso antes... mas não é para esmorecer, tem espaço para uma visão nova, multimídia, essa é a diferença... agora depende da rapidez no contato com ele... é um trabalho grande e interessante, trabalho que eu gostaria de envolver pessoas outras, mas que não posso porque não conhecem nossa história cultural... tudo bem... tem a pesquisa e pronto.

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a conversa de ontem resultou em nada de uma maneira que me deixou meio triste, não por culpa do interlocutor, mas por minha mesmo que sempre quero mais de onde não pode sair e eu sei... deve ser uma espécie de tara às avessas... mas a turma da literatura comparada compensou (muito).... agora não sei porque tem a questão tempo nisso tudo e confesso que estou um pouco preguiçoso... virei o sebo brasil e não encontrei o que precisava, mas azar, tem outros...
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busco uma pessoa para me auxiliar no meu trabalho, no resgate da cultura e na continuação... e ainda tem que pensar direito o que fazer com o Tecnologias 2000 que, evidentemente, não está ainda bem definido e é uma ferramenta que não quero dispensar, sei bem o retorno que tenho dela.


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8.1.04

eu ia escrever uma coisa longa sobre esse negócio da compreensão ou não das coisas, mas me cansei antes mesmo de começar a digitar... comecei a pensar no todo, em como estamos tateando no escuro, em como falamos apenas para falar apenas alguma coisa e foi me dando desânimo... portanto, sorry periferia, mas desisto sem lutar... pensando um pouco no projeto do PDV sobre o nosso regente (segredo, eu já sei)... fiquei me lembrando de All That Jazz, de Roy Scheider, de Bob Fosse e me deu essa melancolia macunaímica, doença típica dos nossos tristes trópicos, como disse o outro... o ruim de escrever fazendo referências é que elas se perdem, certo P? mas fazer o quê? tá tudo aqui na cabeça, vem sem querer, eu acho que tem à ver com aquele tempo para a reflexão que a nossa geração foi a última a ter... e eu não acho o livro do raio do antonio antunes...
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7.1.04

o final foi rápido e pode ter decepcionado.
mas essa é a moral da história, eu acho... o que faz nos decepcionarmos?
o que esperamos das histórias da vida? e das pessoas?
e o que é verdade e o que é sonho?
e o sonho acabou?
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...quarto pequeno: olho o teto e percebo algumas rachaduras.... em volta não há ninguém, tudo em silêncio até um grito de pavor , próximo me alcançar... tem gente gritando por perto... minha vista está um pouco embaçada, como se eu estivesse despertando, mas de uma maneira diferente... não sei explicar... olho novamente pra cima e, à esquerda, em cima, vejo uma imagem... um saco plástico... soro... parece que estou tomando soro.... o que me aconteceu? ... a porta se abre e ela entra perguntando como estou passando.... como assim? ... não está morta? Seu uniforme de enfermeira está manchado de sangue exatamente onde foram as facadas, mas ela não se importa... olha uma prancheta aos pés da minha cama, me olha e sorri... o que está acontecendo? ... não está morta, pergunto novamente... o que é isso? Tenho um súbito ataque de pânico e quero levantar ... percebo então que meus braços e minhas pernas estão fortemente amarrados às grades laterais da cama... estou amarrado!.. ela sorri novamente, diz que eu devo me acalmar, que vai aplicar um sedativo (já com uma injeção na mão) ... com um dos pés ela empurra a porta, fechando-a ...
a porta bate e reparo que, atrás da porta, pendurado, está o chapéu de couro dele!... ele sou eu? (eu sou ele???) pergunto a ela... sorri... sorri novamente... gargalha e busca minha veia...

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6.1.04

... beco: ele está de cócoras lendo o diário... me diz que pode me contar algumas coisas, talvez não tudo porque ele também não sabe de tudo... ela não era quem eu pensava, ela estava entre nós sabendo bem o que estava fazendo, estava ganhando muito dinheiro e tinham ainda outras pessoas por trás dela... não, ela não dizia quem, ela nunca dizia tudo... ela escrevera no diário que os dois estavam fazendo confusão, que não estavam entendo e ela ia colocar um ponto final... havia também outra mulher na jogada... ele tomou um trago e acendeu um cigarro, ajeitou o chapéu... disse que era ele o decadente, mas o que era a decadência afinal de contas? Porque não viver completamente livre? Porque não assumir que a noite era eterna e chuva, fatal, infindável e que apenas se tornaria ácida uma hora dessas... esse é o mundo, ele me disse, e ela sabia disso... diz isso no diário e escreveu cartas para mim dizendo disso, da chuva ácida que cai sobre as nossas vidas e o que temos a fazer para resistir... então era verdade que eu não a matara? ... tomou mais um trago... achava que tinha sido eu... porque se não fora eu nem ele... tudo bem, claro que podia ser qualquer um... não fossem as facadas seria apenas morte morrida, indiferente para ele... pior tinha sido ver seu filho, à distância e Ter vergonha de se aproximar... e quem pode se aproximar de verdade dos seus filhos?... drogar-se? ...tanto fazia, ele era um homem do mundo, jogado no mundo, se protegendo da acidez da chuva e disfarçava com ana karenina... o homem revoltado, de camus, ele me disse... leia e entenda o homem revoltado... e o que tinham a ver livros com dois perdidos na noite chuvosa entre mendigos, indaguei-me...
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5.1.04

... eu era ainda uma criança quando minha mãe apareceu com aquelas idéias estranhas... não compreendia nada e meu pai ficou muito assustado... minha mãe nunca falara em nada daquilo e até ele me pareceu com medo... eu gostava muito do chapéu do meu pai e ele disse que, quando eu fosse um homem, ele me daria um... mas a gente perdeu todos os sonhos depois que a minha mãe começou com a aquilo... lembro que frei paulo dizia que o cemitério estava sendo violado e as mulheres da igreja choravam e falavam muito entre elas em voz baixa... eu queria saber o que estava acontecendo, mas ninguém me dizia nada... um dia eu me escondi à noite na entrada do cemitério, apesar de estar chovendo muito... levei o chapéu do meu pai para me proteger um pouco... em casa pensavam que eu já estava dormindo... lá pelas tantas vi os homens entrando e mexendo nos sepulcros... não entendi bem o que faziam... a única coisa que me chamou atenção foi que mexeram no túmulo de rosinha, que tinha sido enterrada naquela mesma tarde... e, de repente, me pegaram!
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...eu sou uma mulher e não é porque vim de uma cidade pequena que vou ser enganada... nem me prostituir, nem nada dessas babaquices que os homens sempre pensam da gente... em vim porque lola veio e se deu bem e se ela conseguiu eu posso fazer melhor... se o negócio é mexer com drogas, tudo bem eu faço, sei fazer o tipo caipira, vou andar sem dificuldade entre o pessoal... mas estão se enganando pensando que vão me enrolar, não vão não... e não sabem que eu vim instruída, que o coronel conversou muito comigo, na minha cidade... ele é um homem muito vivido, muito viajado, ele conhece o país quase todo e já foi até pra colômbia e para os estados unidos... ele conversou comigo, me disse que iam tentar fazer isso e aquilo... além do quê, eu tenho o corpo protegido, mãe chica fechou meu corpo, fizemos o ritual do bode... ah, ah, eles não sabem de nada, estão pensando que estão me enganando, que sou uma bruaca dessas que vêm do interior e eles prostituem, não sabem quem eu sou... pensam que na minha cidadezinha não tem cocaína, nem maconha, nem esctasy... não sabem de nada... não sabem da surubada que acontecia todo mês na casa grande do coronel, nem que ele tem até avião particular... esses homens de cidade grande são uns otários, acham que enganam todo mundo...
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4.1.04

...mas não adianta esconder... ele era um estuprador de cadáveres, sempre foi, desde a adolescência e apanhou muito da polícia por causa disso... menos daquele meganha que estuprava os cadáveres e a ele também...preciso ter isso mente sempre que lidar com ele... preciso estar atento à sua sordidez, já que não prestei atenção à do mundo...
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"... Ana, casa de todo o mal e sobre quem as conseqüências pesavam mais cruelmente, só aceitava aquela situação na certeza de que um desfecho próximo que, ao certo, ignorava como seria. Influenciado por Ana sem o saber, Vronski partilhava daquela convicção; sobreviria um acontecimento, independente da sua vontade, que suprimiria todos os obstáculos"
... fechou o volume de Ana karenina... já quase o sabia de cor e achava graça disso... sonhava, às vezes acordado ser o amante de Ana, às vezes ser o próprio tosltoi e outras, simplesmente não ser desse planeta, não ter que escrever suas anotações à lápis naquele papel vagabundo... tinha ainda que copiar trechos do diário dela... só assim as coisas se encaixariam na sua cabeça... pensou em escrever no próprio diário, mas parou, não teve coragem... sentiu-se o mais abjeto ser fazendo aquilo... era como estuprar um cadáver... mas afinal?... por que se estupram não cadáveres e se tem pudor com eles? Regras, regras, sorriu mexendo a cabeça... chegou perto do fogo mixuruca que os mendigos faziam naquele canto... assim talvez secasse um pouco as vestes, talvez o chapéu pingasse ou menos ou... bolas tinha companhia ali... aquela mulher gorda de meias de homem e sandália rider era engraçada falando sozinha com seu dente único no maxilar inferior... cheguei na hora em que ele se agachava e pensava que talvez ela fosse a responsável por tudo aquilo... como sempre me deu de beber e cigarro... confidenciou-me que talvez ela tivesse responsabilidade, ela sabia dele e de mim, nós sabíamos um do outro, todos sabiam de todos como sabíamos que estávamos irremediavelmente condenados ao meio fio, às sarjetas da vida... ela mesma rira disso uma vez falando da loja de chita da sua cidade, das histórias da irmã e das amigas, ela mesma dissera que era impossível, que nós não sabíamos fazer, que nós estávamos mortos, que não éramos nada, ninguém... fiquei ouvindo enquanto ele mexia o chapéu... não lembro dela dizer nada daquilo, nem de me escrever falando... no diário, talvez, mas pouco provável... muito estranho... eu estava ali por um motivo, ele por outro, os mendigos porque ali era seu habitat, mas o travesti velho de maquiagem borrada...











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... sua mulher mandou que ele saísse e não voltasse... não agüentava mais aquilo... ela não era um homem de verdade, era um nada, um personagem ridículo com aquele chapéu na cabeça, um verdadeiro palhaço... o que estava fazendo com as crianças, que exemplo... saiu, a porta batendo às suas costas... não sabia ainda aonde ir nem o que fazer, precisava se proteger da chuva, não gostava de chuva... andou um pouco para por a cabeça em ordem... seguidamente fumou um maço inteiro de cigarros... estava congelando e precisava de um trago... entrou no primeiro bar, pingando, e engoliu, seguidamente, três doses de gim... havia um espelho quebrado no banheiro imundo, olhou-se então... não era tão ridículo assim... apenas o chapéu agora estava molhada, com as abas para baixo, mas não era tão mau como ela dizia... não fazia diferença agora... saiu à rua novamente e, sem opção, parou de se importar com a chuva... andou quinze quarteirões e fumou mais um maço de cigarros... cansado, entrou num beco e sentou na sarjeta, ao lado de um gato vagabundo, sarnento que levantou os olhos para ele com enfado... sua mulher não queria, o gato sarnento estava enfadado, ele, exausto... o que estava acontecendo?... como começara?... quem colocava aquelas engrenagens para girar?... deus ou o diabo?


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...ela terminou de passar o baton e desceu apressada... os comprimidos caíram no chão do banheiro... azar... preferiu as escadas ao elevador, precisava chegar logo... trazia a bolsa, mas na mão carregava um cartão de visitas que olhava de relance com freqüência... andou apressada pela rua... podia tomar um táxi, com aquela chuva toda, mas preferiu ir à pé... apesar da pressa, não era distante e andar rápido parecia acalma-la (sabia que isso) não era possível. Virou duas esquinas, entrou em um beco, saiu na avenida, caminhou apressada, virou outra esquina... precisava botar tudo para fora, lembrou-se que o diário estava na bolsa, que talvez valesse à pena parar num café e escrever, escrever... não, não agora... olhou novamente o cartão de visitas... virou outra rua e entrou em outro beco... estava ficando mais aliviada, ia encontra-lo e esclarecer tudo e talvez pudesse retomar sua vida, talvez pudesse fazer os cursos que previra, estudar, trabalhar... tudo aquilo podia terminar logo, bastava que ela agisse rápido, que saísse daquilo tudo... nem sabia direito exatamente como começara, porque estava assim... claro, sua amiga apresentara... mas daí a .... não sabia, talvez fosse falta de experiência ou talvez o destino mesmo... não importava agora, bastava sair... e, com certeza, a saída podia estar naquele endereço, naquele beco... sentiu um pouco de medo, mas lembrou que estava protegida com a faca em sua bolsa... faria qualquer coisa para não afundar mais... ninguém mais ia entrar daquela maneira na sua vida, ninguém mais diria o que ela ouvira, nem fariam o que fizeram... não daquele jeito... nem entendia porque havia demorado tanto a agir, nem era do seu temperamento... mas agora a solução estava ali, a um passo... a chuva apertou...


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.... distraído, entrei em baixo do chuveiro com o cigarro aceso na boca... fiquei pensando no que estava acontecendo, toda essa seqüência de encontros que tenho tido nos últimos dias...o que está acontecendo não é mera coincidência, claro... passei os dois últimos dias lendo Ana karenina (que já havia lido na juventude), em busca de uma pista... por que aquele homem sempre recomeça o livro? E o diário? ... está em posse dele... é fundamental que eu leia tudo aquilo, que eu conheça o que ia na cabeça dela antes de... a água do chuveiro, abundante, cai sobre mim e não consegue me relaxar... no diário ela deve ter escrito muitas coisas, deve ter falado dela, de seus sonhos, da sua vida e... ela sabia que esse caderno ia acabar em outras mãos como um testamento... aumentei a potência da ducha... água fria... água pra fazer pensar... sim, eu ainda guardo as cartas dela, é preciso reler tudo... mas ela falava basicamente do amor, falava nele também e me explicava o sentido de tudo... eu não entendi, ou melhor, eu via que ela não estava mais compreendendo, estava se perdendo, sua razão se perdia em sentimentos difusos e oblíquos... disse a ela mais de uma vez... ela não compreendia o que era aquele homem (como talvez eu também não compreenda), mas eu sabia que nada daria certo, sabia que, quando não estava com ele, ela lhe mandava cartas, tal como a mim... e ele fedia a tabaco e gim baratos... mas era encantador, sim, agora eu reconheço... á água cai sobre minha cabeça e levanto os olhos, deixo a água entrar em meus olhos irritando-os, doendo... porque?... por que eu não entreguei a faca àquela triste figura travestida naquela noite? ...quem sou eu, afinal
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3.1.04

... achei em casa um chapéu de couro interessante e resolvi usa-lo ainda que fique excêntrico numa cidade como essa, mas e daí? Não combinei comigo mesmo que era a hora de começar a fazer as coisas que me dessem vontade, de viver cada dia da melhor maneira possível?... tentei trocar a marca do cigarro e me senti desagradável, por que não fumar a marca que gosto?... saio então pelas ruas, para minhas caminhadas noturnas... procuro as zonas mais perigosas, como ali em Copacabana na princesa Izabel, barata ribeiro... tudo ali é perigoso, os marginais, proxenetas, vagabundos de toda espécie se esparramam pela região marcando claramente seu território... foi ao sair de boate daquelas, um inferninho, como chamam, que troquei com um vagabundo drogado meu relógio pela faca... deviam ser quatro horas da madrugada mais ou menos, a chuva diminuíra e tinha pouca gente na rua... com a faca enfiada na parte de trás da cintura dei mais umas voltas e acabei sentando num banco da praça do lido para descansar um pouco... estava todo molhado, mas não sentia frio com todo aquele gim que havia bebido... depois de um tempo, não muito, creio, aproximou-se um vulto que logo distingui: um travesti... sua maquiagem estava borrada, não era jovem e sua figura era absolutamente patética... ele sentou-se no mesmo banco que eu, visivelmente esgotado.. estava um pouco embriagado e olhava para lugar nenhum... sou preconceituoso com travestis, acho que é ir além da sua opção sexual, é querer mudar sua essência, criar uma persona, como um ator em cena eternamente... mas tive pena daquele... a faca me incomodava um pouco, me fazia sentir um bandido, como todos aqueles daquela região e me perguntei várias vezes se sou, mesmo que em potencial, um bandido... se todas as pessoas, potencialmente são bandidas... e de que vale estar à margem de um mundo mais delimitado, mais ordeiro... eu e minhas filosofias... estava apenas embriagado na chuva com um velho travesti ao lado...
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2.1.04

... numa noite de insônia saí para dar uma volta quase quatro horas da manhã... definitivamente não havia conseguido dormir e não tem nada mais chato do que ficar rolando na cama durante horas... o céu estava nublado e fazia calor.. dispus-me a caminhar sem rumo quantos quarteirões agüentasse... tinha pouca gente nas ruas, mas tinha gente, o que me impressionou... não eram apenas os trabalhadores noturnos... tinha gente andando, indo e vindo sabe-se lá para onde ou, quem sabe, caminhando pelo mesmo motivo que eu... após caminhar quatro quarteirões em linha reta, dobrei uma esquina e vi o vulto parado, encostado num poste de iluminação... aproximei-me e reconheci-o logo por causa do chapéu e do casaco enorme ( o defunto era bem maior)... você não dorme nunca, não cansa de estar na rua, falei ao me aproximar... ele dobrou um jornal amassado que devia estar lendo, ajeitou os óculos e me encarou... quem dorme e quem não tem a rua como objeto do desejo?... objeto do desejo, sorri espantado... a rua, ele continuou, é a casa de todos, é o caminho entre os pontos, é o espaço dos homens e mulheres das cidades, a rua, disse ainda, é o local da morte, do desespero e do amor... o que você quer, afinal? Perguntei... não quero, eu sou, eu estou aqui e você vem porque sabe que vai me encontrar e precisa me ver para falar, para não se desesperar, para saber que existe alguém, ele concluiu... começou a chover... baixei a cabeça e aceitei o cigarro que ele me ofereceu... foi na rua, eu disse, que ela morreu... ficamos parados, sem dizer nada, fumando... olhando para o chão como quem olha o céu ele disse que a rua é o verdadeiro útero e também o ponto final... a chuva apertou um pouco, mas não saímos do lugar... ele retirou de um bolso uma folha de papel, deu uma longa tragada, levantou os olhos e me perguntou: por que você acabou com ela, por que a matou?
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... ela chegou na rodoviária e ficou perdida... enfim, encontrou o ponto do ônibus que tinham indicado... só conseguiu entrar no terceiro porque a fila estava enorme... disseram que era por causa da hora... mas de onde tanta gente? ...duas horas depois estava no saguão pequeno do hotel previsto, para moças, e só queria tomar um banho e descansar... mas a excitação da cidade grande... pena que chovia tanto... descansou e, como a noite ainda começava, resolveu andar um pouco pelas redondezas, cuidado moça, isso aqui é barra pesada... que nada, é a capital, não pode ser tão perigoso assim... o entusiasmo não foi bastante para impedir a decepção com as ruas feias e escuras, a gente feia e ameaçadora... não podia ser só aquilo... no dia seguinte iria procurar a amiga que incentivara sua vinda... ela saberia dar um jeito para tudo melhorar... aliás queria conhecer o tão falado namorado da amiga, o tal artista que só andava de chapéu de couro e fumava cigarros camel! ... o casal, com certeza, mostraria a ela o que era de verdade essa cidade maravilhosa, tão grande, tão chique, que já foi até capital federal!... mas hoje não dava mesmo para ficar por ali... voltou ao quartinho humilde e deitou no colchonete vagabundo... custou, custou, mas dormiu...
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Ele está sentado no meio fio lendo o grosso caderno... Algumas folhas estão soltas, mas ele toma cuidado em não perde-las... chego perto, sei que é o diário de M. ... venho sorrateiramente por trás dele a procuro ler... a letra é às vezes disforme, existem desenhos entremeando o texto e setas indicando parágrafos como que desejando altera-los... ele me percebe e fecha o caderno... enfia-o num dos bolsos do paletó... retira novamente o molhado e ensebado tolstoi e recomeça a leitura... digo a ele que preciso do diário, é importante para compreender o que aconteceu... ele finge não ouvir até que o sacuda violentamente... ajeita o chapéu e os óculos... o que quer, pergunta com mau humor... já disse, respondo... ele se levanta com certa dificuldade do meio fio, acende um cigarro e me encara... saia daqui, diz... em seguida empurra-me com toda a sua força e caio na sarjeta... ele se vira e caminha virando a esquina... rapidamente fico de pé e começo a segui-lo... ao virar a esquina não vejo ninguém... é noite, chuvisca e há um pouco de névoa no ar... estou num beco sem saída, portanto ele tem que estar por ali também... latões de lixo, caixotes grandes... percebo no chão uma folha de papel... pego: é uma folha do diário, com certeza... "estou cansada e com dor de cabeça... estive com J. durante a tarde... ele é frágil, fraco, infantil e carente... em sua presença sinto-me forme, mas ainda assim ele me domina, domina todo o meu ser, toda a minha mente, não há nada em meu psiquismo fora de J."... quais são, afinal os sentimentos dessa mulher, me pergunto... em seguida ao trecho que li vem o desenho de uma grande casa, quase um castelo, desenho feito à nanquim... ouço um barulho, uma lata, alguma coisa... é ele... corro e não o alcanço... na verdade não vejo nada, mas sei que ele tem que estar nesse beco, junto comigo... talvez tenha se dado conta que a folha do diário perdeu-se na corrida... baixo os olhos para a folha... no verso, com caligrafia trêmula e irregular (folha sem pauta) existem outras confissões...

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Encontrei-o sentado na escadinha do antigo porto da praça XV, lugar onde Lima Barreto deve ter se sentado também... o céu está nublado, com nuvens carregadas, mas não chove... perto dele há um carrinho feito com restos de caixotes de madeira, papelão e outros materiais comuns aos mendigos... ele empurra para trás um pouco o chapéu e me encara...
- O que você procura em mim?
- Nada, repondo.- Apenas encontro casualmente com você.
- Não é verdade, ele sorri, você me procura desesperadamente como se eu fosse sua última esperança, seu último sopro de vida.
- Que você está lendo?
- Ana Karenina, ele responde com um sorriso incompreensível.
- Pela sua idade, você já devia conhecer esse romance, provoco.
- E conheço, mas sempre que chego à última página, à última cena começo novamente. Eternamente. ¿ ele me sorri com os dentes apodrecidos.
- O que é isso? Loucura?
- Talvez. Eu canto... As rapsódias de Homero. Quer ouvir?
- Não ¿ respondo com um sentimento desagradável.
... começa a chuviscar, levanto a gola do meu casaco... ele, impassível, abaixa a aba de couro do chapéu e continua a leitura... as gostas caem sobre as páginas do livro e ele não se mexe, tranqüilo como se estivesse no aconchego de uma biblioteca... resolvo caminhar um pouco, ele não conseguirá ler onde está com a chuva... trinta passos adiante paro e olho em sua direção: ele está virando uma folha do romance, impávido como um deus... sigo meu caminho, mas sei que não terminou... sequer começou... minha trajetória está ligada à daquele homem estranho, sinistro... temos coisas em comum, inclusive uma mulher, uma mulher que se suicidou entre nós...
ela estava com um ou com outro, até hoje não entendo bem suas razões, seus sentimentos... ambos mandamos cartas a ela e fomos correspondidos... existiu uma vida em forma de textos cartas, uma vida triangular onde dizíamos o que queríamos, onde sofríamos a impossibilidade do ser... ela sabia tanto de nós quanto nós dela. Ela nos possuía e era por nós possuída. Estava bem assim... e não compreendemos eu e ele, como um dia, sem estar com nenhum de nós (talvez à caminho de um), entre nós, ela acabou tudo.
Hoje eu vejo que não são coincidências: ele me persegue, está sempre no meu caminho, com sua barba branca mal cheirosa e seus dentes enegrecidos de tabaco... se apresenta a mim como um destroço dela e de mim... e nunca mais parou de chover...



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... já amanhecia quando o fogo que fizemos na lixeira velha se apagou... era uma noite fria de junho e ele não demonstrava cansaço ou tristeza... estava de pé, mexendo nos bolsos do casaco folgado... virou-se para mim com uma foto na mão, uma fotografia em preto e branco... olhou um pouco e passou-a a mim... era ela, fotografada certamente de surpresa meio de lado, virando-se talvez... tinha um sorriso nos lábios e parecia estar falando alguma coisa... sim, eu havia batido aquela foto há muito tempo atrás... ele ajeitou o chapéu e iniciou a caminhada para fora do beco, dizendo-me apenas que era hora de ir, que não tinha mais nada a fazer, que precisava seguir em frente, que um trem o esperava na estação x... levantei e caminhei a seu lado... ele estava calado, molhado da chuva agora fina... quis saber o que mais havia dela com e ele e respondeu-me distraidamente que o diário... esse diário me pertence, eu disse, eu a carrego em mim e preciso saber todos os seus pensamentos, sou o carregador de sua alma... ele sorriu sem parar a caminhada e me disse que não, disse que ela, nas primeiras páginas do caderno já alertava que o diário era para ele, que ele deveria saber de tudo, conhece-la por inteiro... além do mais, acrescentou ainda, você a conheceu totalmente, ela te falou tudo, você tem o caderno que está em meu poder na sua memória... caminhava agora um pouco mais rapidamente, sempre buscando becos e travessas, evitando as avenidas principais e a chuva aumentava um pouco... andando a seu lado eu ia recordando meus últimos momentos com ela, seu jeito calmo, com olhar distante, como os dele... não é justo, insisti, mas ele não deu atenção: já te dei o agostinho da silva, lê em paz, respondeu... vou ler, mas quero tudo dela, preciso saber mais, entender o que aconteceu e para onde ela foi, quero saber se você está indo encontra-la... ele parou um instante e virou-se para mim... vou em frente, disse ele, sempre em frente e encontro pessoas, como encontre você e ela, mas agora tenho apenas um bilhete para o trem e o rumo não está determinado, finalizou... mas como se pode entrar num trem sem rumo, sem previsão de desembarque, isso não pode ser verdade, deve haver um plano que está escondendo de mim, insisti... ele voltou a caminhar, com a chuva castigando seu chapéu, seu paletó meio encharcado dizendo-me apenas que não estava preso a nada e nem eu, que eu queria prender-me ao abstrato a um sonho impossível... e virou em outro beco...
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1.1.04

... ele tirou um maço de folhas de papel de um bolso do enorme paletó... eram todos manuscritos, de maneiras disformes, ora na vertical, ora na horizontal.... à primeira vista parecia um manuscrito completamente incompreensível... perguntou-me se eu lembrava daquilo... eu não lembrava... são os textos, são os sonhos que colocamos no papel naquele ano de 68, me disse... você escrevia cartas para ela, mas ela não as abria, não queria saber de mais nada a não ser escrever comigo nosso romance e escrevíamos freneticamente, escrevíamos até no corpo um do outro... perguntei porque ele me dizia aquilo agora, naquele bar imundo, na mesa colada a janela com a chuva a correr pelo vidro... para que você entenda, respondeu, que não somos dois, mas apenas um, que quando ela não estava com você estava comigo e falava de você e quando estava com você falava de mim... limpou os óculos... você entende? Perguntou... e o que tem isso agora?... agora estamos unidos pela distância, não nossa, mas nossa para ela... nossa mulher de avental com sua cesta de roupas retiradas do varal se foi e eu sou o dentes podres e você, quem é?...eu não sabia quem eu era nem o que estava fazendo ali, naquela madrugada com ele, que agora me encontrava sempre, todos os dias ou noites, mas à cada esquina que virava, lá estava ele com seu chapéu de abas caídas, seus óculos grosseiros e seu ar de cansaço e enfado... disse a ele que melhor seria não nos vermos mais e ele sorriu passando a minhas mãos algumas folhas que, ávido, comecei a ler... não havia muita lógica no que estava escrito... numa mesma folha haviam caracteres díspares escritos com canetas diferentes, com certeza em épocas distintas... por que eu estou lendo, perguntei-me e ele, adivinhando, respondeu que eu precisava saber mais de mim e só saberia lendo o que ela escrevera com ele enquanto eu mandava cartas seguidamente, duas, três por dia... amassei algumas folhas e joguei no chão, mas haviam dezenas ou centenas delas ainda em seu poder e ele sorriu com os dentes podres... limpou os óculos e repetiu que era preciso que nós dois entendêssemos quem era ela para entendermos quem éramos nós e que nós éramos um, uma alma, um coração e um amor com dois corpos usados por ela... sim, ela que lavava as roupas no tacho e as punha a secar no varal enquanto cantava melodias antigas... e eu aquiesci olhando o trem que passava não muito distante da nossa janela... ele virou-se para ver o trem também... e eu acariciei a centena de folhas manuscritas em meu paletó, folhas como as que ele tinha e não sabia que eu também tinha.... e talvez eu devesse mostrá-las também a ele... mas seria a hora?
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... o homem caminhava no meio dos trilhos do trem... o horizonte estava deserto, não havia perigo, pensei... seu chapéu estava baixado para a frente quase a cobrir-lhe o rosto... chovia pouco e as vestes estavam molhadas de maneira peculiar, como se molhadas fossem todas as vestes, como se estranho fosse a roupa seca... em determinado ponto havia um espantalho, desses comuns, que vemos em filmes, próximo a um sinal da ferrovia que cortava a estrada... não anoitecera ainda e me aproximei... as lentes de seus óculos escorriam a chuva que, não sei porque, pareciam lágrimas... fumava um cigarros meio molhado e torto... perguntei para onde ia e me respondeu que vivia... sei que vive, estou vendo, retruquei e ele sorriu... seu casaco era grande demais para o físico, parecia algo dado por alguém maior, mas a ele não importava... tinha a ferrovia para seguir, caminhava ora pisando nos batentes de madeira, ora na brita... vem de longe? perguntei... nada é longe nem perto, apenas sigo meu caminho porque não posso mais parar, respondeu parando um pouco... do bolso interno retirou a pequena garrafa, tomou e me ofereceu um trago que aceitei de bom grado... seus dentes eram escuros e alguns apodrecidos... vendo que eu os percebera, disse-me que eram nada, apenas parte do todo e que podre era tudo o que existia, pois tudo se decompunha... e a mulher? Me perguntou com seu olhar agudo e estranhamente cansado... foi-se, eu acho. Usava um avental sujo, branco, sobre um vestido azul... mas não era tua mulher? insistiu ele... era, ou melhor eu achava que era porque ninguém é de ninguém, respondi com a cabeça baixa... nem sempre, ele sorriu, tenho os trilhos que são meus, porque não vão embora e ninguém preocupa-se em tira-los de mim... e de que valem os trilhos? perguntei... de quem valem? ele repetiu... valem mais que a mulher de avental que se foi com sua cesta de roupa tirada do varal... dito isso, ele recomeçou a andar, deixando-me parado, na encruzilhada com a chuva aumentando...
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... surgiu do nada, de um beco ou ao dobrar uma esquina... a névoa não permite ver bem seu rosto parcialmente encoberto por um chapéu de aba... caminha claudicante, um defeito físico qualquer... chego mais perto agora e percebo que por trás das lentes de seus óculos existe um olhar profundo, embora soturno... me aproximo nessa noite de chuva e vejo quem ele é... com certeza quem eu imaginava e procurava há muito... não nos falamos quase (já dissemos quase tudo pelas cartas que trocamos)... estamos agora na última estação de trem do lugar... chove bastante, mas não nos importamos... ele bebe de sua garrafa de bolso e acende um cigarro e outro para mim... ele me diz que estou abatido e respondo que tenho dormido mal, que acordo várias vezes à noite banhado em suor... ele sorri... diz que sabe, que já esteve assim, mas agora não está mais, agora não tem destino apenas o bilhete para o próximo trem que parte em menos de meia hora... sentamos no banco da estação que só tem na plataforma mais três pessoas... olha para os trilhos e para o nada... sem se virar, me pergunta como ela está... não vejo há uma semana, respondo... ele sorri: ela faz isso mesmo, desaparece e volta inúmeras vezes até que não tenhamos mais noção do tempo...quero que ele não pegue o próximo trem, que fique mais um pouco, podemos beber um conhaque na estação... ele não responde... um tempo depois me pergunta o que é mais um tempo, que tempo é esse... não sei o que responder... ele enfia a mão no paletó folgado e tira um volume: reflexão, de agostinho da silva, filósofo português e estende-o a mim... sim, conheço o autor, wally me apresentou a ele, me fez comprar alguns títulos... ele acende outro cigarro e me oferece; não, recuso... não existe muito tempo nessa estação com essa névoa, ele me diz, estamos aqui porque não temos mais caminhos, procuramos os trilhos para nos guiar... respondo que não, que procuramos os trilhos exatamente para nos tirar do rumo, do rumo que poderíamos tomar e não queremos ou não temos coragem... ele sorri e tosse... eu folheio o agostinho da silva, volume que ainda não possuía... ele me pergunta se vou atrás dela e toma mais um trago... não sei, respondo, não sei se adiantaria... um trem se aproxima, ele me olha e pergunta o que adianta de verdade em nossos caminhos... penso antes de responder, quero dizer alguma coisa que o impeça de embarcar... ele se levanta e ajeita um jornal dobrado, enfiado num bolso do paletó... fica olhando a composição se aproximar... o trem diminui a velocidade ao entrar na estação, diminui mais, quase parando... a chuva cai um pouco mais forte e, curiosamente, não pára... o trem passa bem devagar pela estação, quase parando, mas não pára e começa a ganhar velocidade novamente... ele sorri e a água escorre da aba do seu chapéu... olha para mim com seu olhar profundo e apaga o cigarro... o trem não parou, ele sorri, parados ficamos nós que não possuímos trilhos, me diz... eu olho, quero responder... ele vira as costas e sai caminhando lentamente para fora da estação, de volta ao beco...
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