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Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida. O impossível na raça humana são justamente as pessoas. Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes. Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida. Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka. Sempre teremos Paris.... Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues) Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes) A calma é inimiga da perfeição "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett "Toda mulher devia ser a Sandra Bullock" "A Tsunami é Aqui!" "Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real" "O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..." "A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite." "A Internet, repito, imbeciliza as pessoas." "O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow. "Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise." "Dormir de dia é um suicídio inconcluso" "O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo "A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues "Ser me ocupa bastante" A. Gide "Nada como a brancura cadevérica de um Pé" "Acordar é como um renascer com as cartas marcadas "A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia". "Matar-se é fazer poesia!". "'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee "Só o suicida morre dignamente". Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança. Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. . O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. . |
30.7.04
acho que é do sobradinho do subúrbio que pode nascer a grande coisa, pode nascer a grande idéia e o homem que não tem luz própria e muito menos é cultuado... sim, esse homem pode escrever a coisa mais genial... ele não bebe e fuma com muita moderação [câncer só aos 65], criou a filha com sacrifício e agora acompanha o noivado com atenção... não sabe o que pensar do noivado... o que é um noivado? ele se interroga? é o camarada passar a mão na bunda da filha dele no sofá de casa ou dentro do carro.... ele pensa mais, quer entender o noivado: noivado não pode ser apenas o compromisso... não... noivado tem que ter mão na bunda e essa mão na bunda da filha dele é mais ofensiva do que o que vai acontecer depois do casamento... pra falar a verdade, continua ele pensando, era melhor nem casar, era melhor nem ter essa história de promessas, de festinha de família [com o bolo ofertado pela tia ninfomaníaca], era melhor não ter tido nada... era melhor o cara passar a mão na bunda da filha dele impunemente.... porque aí ele teria o benefício da dúvida... quando a menina subisse as escadas para ir se deitar ele olharia aquela bunda [branca] e pensaria: será que alguém passou a mão na minha filha hoje? agora não. agora ele mal dormia, mal podia olhar a filha... fechava os olhos e via o cafageste com a mão lá, espalmada na bunda da filha.... ele resolve então pedir que desfaçam o noivado e escreve um manifesto. descobre na escola em que dá aula que ainda existe um mimeógrafo...sim! ainda existe um mimeógrafo e que funciona... roda o manifesto em folhas mimeografadas... o manifesto é curto, de um simplicidade quase santa.... de noite, ele sai pelas ruas do subúrbio, sempre perto de casa e cola nos postes seu manifesto... aconselha, pede aos pais para que não deixem suas filhas ficarem noivas.... é melhor não falar nada sobre esse assunto em casa... elas que façam o que bem quiserem das suas vidas [e das suas bundas] - mas, jamais ficando noivas.... o noivado, conclui ele, é a oficialização da mão eternamente na eterna bunda, da patifaria, patifaria, patifaria... hoje sua filha não está mais noiva nem casou... ela faz o que quer e ele não sabe... quer dizer, sabe, mas não sofre. Mas o melhor é que se livrou da angústia que o afligia... ele hoje olha sua filha com tranqüilidade, com amor... hoje ele pode sentir amor e carinho... aquela que ele viu criança, que ainda é uma criança afinal de contas... ele dorme em paz porque a bunda dela está em paz [se bundas têm paz]... que todos os pais tenham o direito à paz . . . e todas as filhas não precisem ficar noivas para o cafageste da esquina passar a mão em suas bundas.... tenho dito [em nome dele, o pai] nosso último contato não foi numa sessão de análise, mas num telefonema. ele me disse que não estava muito bem, mas que poderíamos conversar por telefone mesmo [imagino que uma pessoa que não se sente bem e está ao telefone, deve usar um robe vermelho - ou, pelo menos, um lenço vermelho]... fiquei me perguntando porque ele não estaria bem, quem deveria não estar bem era eu, quem não tem que estar bem é o outro... o que se propõe a ouvir e encaminhar tem que estar bem mesmo com pneumonia dançando na chuva porque se não for assim, seria melhor ser um catador de conchas, desses que a gente vê nos filmes e são tão belamente*** descritos nos romances, mas que na verdade são mendigos do mar... não tinha pensado antes num mendigo do mar, mas eles existem, a gente vê e não presta atenção até porque os mendigos do mar estão sempre iguais aos não mendigos do mar.... digo a ele essa história do catador de conchas e do mendigo e ele me responde que não é nem mendigo nem catador de nada, que é um analista que está adoentado e está ouvindo por telefone com boa vontade, porque não quer me deixar falando sozinho... mas eu, respondo a ele, não falo sozinho. falo com pessoas ou então fico calado.... na verdade até gostaria de falar sozinho [em breve vou experimentar para ver como é], mas definitivamente não falo sozinho, nunca falei [um dia vou falar, já sei, já sei!]... digo a ele que, para não falar sozinho, nessa madrugada saí de casa e fui até o arpoador e também ao posto seis e que no negrume da noite encontrei homens que... não não catavam conchas, catar conchas só em livros, mas catavam moluscos, catavam qualquer coisa que fosse útil para... matar a fome por exemplo... um desses homens era velho ou parecia velho - nunca sabemos se uma pessoa quando chega no último degrau da degradação humana é velho ou parece velho... são todos velhos de alma, são espíritos velhos que não sabem mais em que praias, em que mares devem se acostar... nem sabem com que pessoas devem falar - portanto falam com todas porque assim não ficam em dívida com nenhuma delas nem, principalmente, consigo mesmas.... essas pessoas têm muita dignidade, eu digo ao telefone, essas pessoas ficam entre o mar e o rochedo, com os pés dentro d'água mesmo sabendo que não vão encontrar nada, que a vida não reserva mais nada, que nada é nada... repito ao telefone para ele que nada é nada, faço questão que ele entenda que nada é nada e que a doença dele é nada e que a ajuda dele é nada, que muito mais me ajuda o catador de conchas da ilha do farol, ilha deserta, do romance que li recentemente, que mais me ajuda o mendigo do mar que tem sua sabedoria numa garrafa de cachaça, porque ele bebe toda a cachaça, escreve uma mensagem, bota na garrafa e joga ao mar.... essa garrafa passa pela minha, pela sua janela e nós encontramos a mensagem que é um mapa que nos diz onde eles estão catando moluscos e nos fazem levantar da cama no meio da noite e ir lá.... digo tudo isso ao telefone e ele me ouve em silêncio, sem ter o que responder... fico com a impressão que ele vai se suicidar. mas é só uma vaga impressão 24.7.04
caminhamos hoje pela manhã por um bom tempo conversando, lembrando coisas de tempos que não vivemos, mas que estivemos presentes porque esse é o grande engano que a vida nos impõe: estamos presentes em tempos que não poderiam ser os nossos, estamos em lugares com pessoas que não estão verdadeiramente aqui, mas lá, distantes, muito distantes de tudo e todos, numa era e num momento que não sabemos... mas o que realmente sabemos? o que é verdade nesse caminho que trilhamos dia sim, dia não? não sei mais quais são as verdades nem quais são as mentiras, sei menos ainda quais são os sonhos e devaneios o que, juntando, mostra que não sei onde estou e, muito menos, quem sou realmente... mas não é essa a questão: caminhamos hoje pela manhã´, pelo final da manhã, quase hora do almoço, nesse dia de sol fraco e temperatura fria, fria mesmo no sol, temperatura e estrela de quinta grandeza fracassados de antemão... caminhamos e falamos de todas as sacanagens que vimos ontem no filme, que estamos vendo hoje, que essas pessoas que passam por nós e não nos cumprimentam, que todos esses automóveis que buzinam sem necessidade.... todas essas possibilidades de encontros que não acontecem.... jurei que não ia mais usar a palavra 'possibilidade' nem ' possível', mas acabo voltando atrás, caindo, fracassando...[ "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett ] Brincadeira....é que eu queria usar essa frase.... Eu disse para ele nessa nossa caminhada do meio dia que é simplesmente o máximo um cara virar e dizer uma genialidade dessas: "Fracasse outra vez, fracasse melhor".... tudo bem, não vem ao mérito a história do fracasso, o que vem é essa coisa do gênio.... porque, ele me diz, tem isso, as pessoas vão andando pela vida, vão vivendo e morrendo, mas não estou antenadas nos gênios... a vida da gente não precisava de mais nada para ser boa se a gente ficasse ligado nos gênios passados, presentes e futuros... Futuros? - eu pergunto... Ele abre o guarda chuva furreca e me olha sério: Sim, os gênios futuros... Descemos essas ruas de copacabana e vamos comprar uma coisa aqui e outra coisa ali, sempre nesses vendedores ambulantes que tomam toda a cidade... no final, ele senta na mesa do bar vagabundo, na mesa de plástico bem vagabunda e pede uma cerveja e uma cachaça... eu peço uma coca cola e ficamos vendo os passantes correndo com seus cachorrinhos pimposos de banho tomado na loja ali da esquina... Reparo que os bigodes dele são uma cópia muito mal feita dos bigodes de Salvador Dali 23.7.04
ele usa uma roupa, roupão, avental branco, de pano grosso... tento lembrar de onde esse traje me traz lembranças... não consigo ao certo... talvez com a roupa de um cirurgião da década de 30, 40.... aquelas roupas brancas (e não verdes e azuis como as de hoje) e tudo não descartável, de pano grosso para agüentar o sem número de.... como se diz quando as roupas são colocadas para ficarem assépticas? não me vem a palavra, mas é isso... antigamente as roupas eram colocadas numa espécie de forno para ficarem limpas... tem aquela cena final do All That Jazz também com as efermeiras "tocando" claquete... não sei se é uma coisa ou outra ou nenhuma delas... o importante era a história que eu ia contar, que ele estava ali, na minha frente e não usava nenhuma dessas roupas... usava uma calça e camisa comuns, como toda a gente e eu fiquei pensando nessas roupas, pensando assim "e se ele usasse aquelas roupas assim e assado?"... eu não tinha porque pensar isso, não tinha porque reparar nas roupas dele, se me perguntam porque isso tudo se passou na minha cabeça eu não tenho a menor explicação... mas por que eu tenho que explicar essas coisas que me vêm à cabeça? claro que não tenho que explicar... mas que é engraçado, é, essa coisa das roupas dos médicos...a roupa do médico é mágica, eu acho mágica, todo mundo acha... os objetos de trabalho do médico - até um banal estetoscópio - ou a máquina mais moderna de ressonância magnética... tudo é bacana nos médicos... e é engraçado porque tem gente que tem verdadeiro pânico, verdadeiro pavor de médico, da palavra médico, medicina e toda essa coisa... não sonhei com a imagem clássica do dr. freud em seu terno, com sua barba branca e charuto entre os dedos... não, hoje não sonhei com nada ou não quero me lembrar do que eu sonhei... deve ser porque não importa.... ficou na minha cabeça a imagem do travesti morto na igreja, assassinado, caído perto do confessionário substantivo masculino 1 Rubrica: religião. local, nas igrejas católicas, reservado às confissões e onde o confessor se senta para atender aos penitentes 2 Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: mobiliário, religião. espécie de armário largo de madeira, fechado na frente por cortina, situado em local tranqüilo nas igrejas, com janelinhas laterais cobertas por cortina, tela ou treliça, por onde o padre, sentado no interior, ouve as confissões dos penitentes, ajoelhados em um degrau externo 3 Derivação: sentido figurado. oportunidade em que se confessa algo Ex.: aquela amizade foi o seu c. 4 Derivação: por metonímia. Rubrica: religião. sacramento da penitência; confissão Ex.: 5 Rubrica: religião. Diacronismo: antigo. tratado doutrinal em que se encontram as regras para confessar(-se) ....com aquele monte de velas acesas no chão... essa imagem ficou na minha cabeça, como ficou também a do padre ruivinho, de cabelo liso, penteado para o lado e pedófilo, claro.... eu não sonhei com isso, essa é a imagem clássica da igreja católica pedófila e não deixa de ser, estéticamente, uma imagem bacana, do travesti novinho, das velas, do padre.... meio que tudo combina num ambiente chic macabro... dá pra colocar nessas revistas de design... 21.7.04
caminhei por umas três horas sem encontrá-la, conforme havíamos combinado naquele mesmo dia.... ela me pedira o encontro em caráter de emergência, alegando que precisávamos falar do assunto sem falta naquele mesmo dia, que recebera uma nova correspondência, essa ainda mais recheada de mistérios. Mesmo não entendendo muito bem o que ela estava querendo dizer, concordei, achei que ela estava se sentindo ameaçada, que estava com medo e nossa conversa poderia render alguma coisa nem que fosse alguma tranqüilidade para aquele estado de espírito à beira do pânico... fui então de metrô e andei um bocado para chegar ao local combinado.... olhei em volta para ver se tinha alguma coisa que sinalizasse já a sua presença e não vi nada. não havia ninguém por ali e acabei me convencendo que ela estava mesmo trasada... dei uma olhada na revista que comprara no caminho, e acabei por ler várias repostagens mesmo sem prestar muita atenção à leitura, olhando sempre em redor, na esperança de vê-la chegar. Não chegou. - - - - Cristina me conhecia há dez anos, sabia que eu era pontual ainda mais numa situação daquelas em que nos sentíamos expostos a algum perigo que não conseguíamos compreender bem qual era nem de onde vinha. Ela sabia que eu estaria lá na hora combinada! Nessa época de telefones celulares não existem mais as hipóteses de trasos inesperados, acidentes de percurso, contratempos: tudo pode ser avisado pelo telefone onde quer que nos encontremos. portanto, sua ausência me parecia uma coisa mais séria, não atinava bem com o quê, mas era alguma coisa que a impedira de ir, de telefonar, de dar qualquer satisfação. Três horas de atraso não re´resentavam um atraso possível, casual. Não. Ela estava impedida de me ver, mesmo tendo sido ela que me chamara com tamanha agonia e urgência. De qualquer forma eu não tinha nada a declarar, não tinha com quem falar, não tinha a quem me queixar nem, muito menos onde procurá-la [já telefonara para seu celular e para seu telefone fixo um sem número de vezes]... e foi assim que me vi envolvido na trama que se desenrolou à partir do dia seguinte, trama que me enriqueceu e me empobreceu, me fez ascender e decair, morrer e renascer... (retirado do caderno 3B) não sei dizer quem está com a razão, se eu ou meu detratores... acho que um pouco cada um... dizem que eu não tenho paciência e não sou bom no trato pessoal o que é absolutamente a verdade. tenho lidado com muita gente burra e ignorante nos últimos tempos e vi que realmente sou impaciente, irritadiço e mal humorado. não consigo mesmo ser afável com os boçais. tenho uma grande amiga que tem a capacidade de tratar a todos com respeito e equanimidade... invejo isso nela, mas definitivamente não consigo. e, para dizer a verdade, também não creio que ela seja querida por causa disso... para ser querido, é necessário um jeito todo especial de ser, na maioria das vezes falso, mas que funciona... é uma espécie de 'jogo social' onde as pessoas sabem que você não está sendo sincero e você sabe que elas sabem... ainda assim todos comemoram ao final de cada dia. - - - > não sei se feliz ou infelizmente não tenho esse dom e, para dizer a verdade, não me esforço, não quero ser assim. prefiro ser mesmo odiado pela maioria e muito querido por uns muito poucos... (tirado do caderno de anotações passado) confissões sempre fico angustiado quando penso que posso morrer daqui a vinte anos ou amanhã... se for amanhã, não estarei preparado, as coisas não estarão organizadas... [precisava perpegar uma etiqueta em cada uma das coisas]... talvez a única coisa que tenha algum sentido, alguma ordem seja justamente o que está na net... o problema é que cada dia mais acho a net uma babel ao quadrado, acho que as coisas aqui tem um valor muito menor... talvez seja besteira, talvez seja apenas pela democratização da publicação de idéias.... pode ser que eu não aceite ou não compreenda como as idéias [uma coisa tão nossa] possam ser tão democratizadas. não sei. a internet me parece uma coisa menor, uma coisa que uma hora vai começar a se reproduzir sozinha, não será autoral [já se reproduz! já não é autoral!] - eu sou qualquer um, bem sei, mas não sei se o mundo é para qualquer um. gostaria de não ser qualquer um, de ser um eleito, um à parte, um dândi em qualquer coisa e não sou... essa é a essência do meu drama pessoal [psicologia de almanaque? talvez] mas o que está manuscrito me parece infantil, tolo e o que está digitado também.... minha obra nunca será completa porque um m~Es após concluir alguma coisa, acho que ela é meio infantilizada, meio tolinha, meio boba... pode ser pura insegurança, pode ser verdade... prefiro, então, não arriscar. ordem? muita gente me pergunta pelo livro - que eu mesmo alardeio - mas não tenho respostas concretas, acho que porque não sou concreto. tenho tudo escrito, ou muita coisa escrita, mas é tudo esparso, tímido e desorganizado... como eu sou desorganizado tambpem. como poderia organizar esse material? não sei, talvez com muito trabalho, muita atenção [que não possuo}... de vez em quando penso que sou um vagabundo, desses que sai rabiscando folhas soltas e depois diz que tem tudo escrito. Pode ser verdade como pode não ser. . . o fato é que não tem nada pronto, nada revisado, nada que esteja a altura de uma produção mais ´seria'... de qualquer maneira sou cobrado porque falo demais, acho que, na verdade, sonho demais, sonho com coisas que eu gostaria, mas não são efetivamente... não acredito que eu esteja mentindo, absolutamente não é isso, mas não tenho mesmo os pés no chão... não quero ser um blefe também, quer dizer é tudo muito propício ao caos, ao bom e belo caos, mas sempre um caos. não posso nem dizer que não tive o tempo necessário para fazer as coisas, para organizar... acho que é do meu temperamento mesmo.... desde muito pequeno sempre imaginei, sempre sonhei mais com as coisas do que propriamente as realizei... não, não sei se é nada disso (tirado do caderno de anotações passado) quando eu trabalhei na MR conheci uma mulher talentosa, PAD, mística lá a seu modo [que eu não entendi bem] e que falava, conversava e debatia sempre tendo à mão um grande caderno de capadura preta. - - - > nesse caderno tinha de tudo: ela escrevia palavras soltas, frases que lhe vinham à cabeça ou que ela construía ali, na hora, anotações sobre o que efetivamente estávamos tratando... mas principalmente desenhava sempre, repetidamente um boneco de formas arredondadas...o rosto era uma bola, o nariz, uma bolinha e tinha olhos sempre muito obscuros.... sempre me fascinei pelo olhar dos bonecos que PAD rabiscava... ora estavam atentos, ora voavam por outros mundos, ora estavam com raiva, ora nem tinha olhos... eu tinha a impressão que ela estava querendo dizer coisas através dos desenhos, na maioria das vezes rabiscos mesmo, feitos de forma apressada ou lenta, dependendo do seu estado de espírito... nunca consegui decifrar esses rabiscos ou desenhos completamente... às vezes eu achava que poderia ter esse ou aquele significado, mas eu não tinha certeza... nunca perguntei também, com medo da minha curiosidade parecer idiota... P.A.D. invariavelmente tinha nas mãos um desses pequenos terços árabes que me foge o nome agora. Ela passava o terço de uma mão para a outra e outra vezes concentrava-se em cada uma das contas como se estivesse se concentrando ou rezando... também nunca perguntei e nunca soube direito... ainda que não deixando de ir trabalhar, ela ficava doente com muita facilidade, tinha um corpo magro e frágil e eu acho que toda a 'energia' do lugar, das pessoas ou dos assuntos a a atingiam de forma brutal... era dona de um talento execepcional para as artes plásticas, para a estética e embora nem sempre se desse a atenção devida num primeiro momento, ela sempre surpreendia com um trabalho de qualidade superior e agora, não sei porquê, em sonho a vejo como uma sharazade moderna, talvez às avessas, que mais ouvia do que contava, mas que tudo transformava em estética... o que sei é que sua alma era inconstante & irrequieta [e entendo bem isso] - - - como! hoje ela me veio em sonho, como a personagem das 1001 noites parece-me que ainda insatisfeita por serem apenas 1001 e não 1002 ou 1024 noites... 20.7.04
abandonar neruda dormir pouco, cada vez menos, cada dia mais tarde e ver o dia clarerar cada dia mais cedo.... ter mais tempo para ler essas coisas todas que me cercam com olhar de cobrança por esse atraso de milênios, coisas que esperam ser digeridas e comprendidas e comentadas, coisas que tomaram tempo e trabalho de quem as produziu, coisas que povoaram o imaginário dos poetas insones e agitados, coisas que foram revistas e revisadas, impressas e distribuídas, que custaram o [pouco] suor do meu rosto... coisas que se amontoam em estantes, mesas, mesinhas e chão.... letras pequenas e garrafais, letram que contam verdades e sonham o impossível.... todos esses livros estão aqui, com sua lombadas como que soldados em posição de ataque...soldados imóveis que aguardam a ordem de serem devorados.... quem vai se dispor a organizar a eles ou antes, organizar a mim mesmo para que não seja tão inconstante, tão ignorante, tão desavisado... noites insones eu tenho...mas, ao ver o neruda jogado, cabeça.... não sei se tenho [ou tive] | urca e chuva tarde de muita chuva nessa cidade... não auqela chuva ácida que cai de vez em quando, aquela chuva que me faz sentir pós moderno, que me mostra o fim do mundo ou o final de um tempo... não. A boa e velha chuva de água molhada, chuva forte e persistente que dura a tarde a e a noite inteira molhando, como se diz até os ossos da gente.... saí de onde estava [naõ vou contar onde não!] e fui para o encontro na urca... paro meu novo e possante carro branco ao pé do morrdo da urca e fico lá dentro, vendo a água bater forte nos virdos do carro. fumo feito um desesperado apesar das janelas fechadas e o interior do carro fica com uma grande pulmmão, cheio de fumaça... o encontro era para uma determinada hora, mas um atraso me faz esperar por mais uns trinta minutos... acho que por não ternada para ler nem nada para olhar [só chuva, chuva e chuva - além de ninguém na rua salvo um ou passante apressado que, guarda-chuva em punho vai para seu automóvel estacionado].... fato é que, não tendo nada de mais atraente começo a perceber um bondinho que chega do morro da urca ao solo, enquanto o outro chega ao morro [ eles sempre fazem caminhos contrários ao mesmo tempo].... fico pensando em quem, em sã consciência numa tarde de segunda feira, debaixo daquele aguaceiro, vai ao pão de açúcar... penso ainda que talvez um grupo de turistas que já tinha feito reserva com dias de antecedência e deu o azar do dia péssimo.... mas não é assim. - - - - > parado que estou ali, a água batendo no meu carro meio embaçado e totalmente enfumaçado, reparo que os bondinhos sobem e descem ininterruptamente, no espaço, chego cúmulo de marcar, de dez em dez minutos.... bondinhos vazios, sem ninguém, apenas com o motorista ou motorneiro ou lá o nome que se dê a quem leve o bonde de um lugar ao outr [penso também que não seria necessário ninguém, já que ele vai pendurado em cabos do solo ao morro, não há, imagino, o que se dirigir nesse trajeto]. agora me digam os mais bem informados, os que conhecem os meandros [turisticos?0 da cidade o que faz aqueles bondes subirem e descerem vazios, debaixo de tanta chuva num intervalo regular tão pequeno. tudo bem que tenham que fazer o trajeto para manutenção disso ou daquilo, levar coca cola por exemplo para os bares do morro [e para isso não´precisam turistas, ao contrário].... mas de dez em dez minutos cronometricamente? naquele temporal? sem ninguém? observo atentamente pelo menos umas quatro viagens.... penso num motivo e não consigo perceber... não fosse o morro da urca lugar puramente turístico, mas um morro qualquer desses que temos aos mosntes pela cidade e eu diria que era entrega de drogas, de armas, desova de cadáveres [ sim, os bandidos fariam cronometricamente de dez em dez minutos, organizados que são...talvez mais do que a polícia].... mas aquele morro não me parece uma boca de fumo [pelo menos não tão ativa assim]... fico então, parado no carro olhando e pensando, querendo entender, avaliando todas as possibilidades sem encontrar resposta até a chegada de R., meu verdadeiro intuíto de estar ali e aí sim, começamos. 17.7.04
"fim III a médica me parece muito nova para uma carga tão pesada como o meu caso, mas isso é pura bobagem... antigamente é que se achava que os bons médicos eram os mais velhos e experientes. não creio nisso. ela é séria e comptente com seus óculos com aro de tartaruga. pergunta como estou passando e como vão as dores.... pede que eu me vire para auscultar os pulmões, o que eu acho risível [embora entenda que ela não tem alternativa, tem que fazer o trabalho dela]... falo das coisas, do que tenho sentido, principalmente da dor.... ela está acompanhada de dois médicos residentes e eles me olham e para minha ficha como que me comparando ao que deve estar descrito ali... ora, eu sou eu, a ficha é a ficha..... eu sei que existe piora, piora, piora e deve ser meio frustrante para eles também... peço que aumentem a dose de remédio para a dor... ela concorda e faz algumas anotações na ficha... falamos mais algumas bobagens [na verdade não temos assunto, ela está esperando eu morrer] e ela sai sempre companhada dos novatos, prometendo voltar no dia seguinte... ela é a auxiliar de enfermagem que, de certa forma, deu certo" (também retirado dos cadernos póstumos) "fim II o que mais me incomoda nessa enfermeira da noite é o seu ar de enfado... fico pensando que ela gostaria que todos nós morrêssemos de uma vez para ela descansar... mas ela não descansaria porque viriam outros, imagino que ela pense.... então o enfado não deve ser conosco, deve ser com ela mesma de ter que aplicar tantas injeções, limpar tantas bundas sujas de merda, trocar tantos soros, trocar tantos lençóis, fazer tantas coisas sujas para uma gente que está suja por dentro, que vai morrer dentro em breve... ela não quer que a gente morra, ela é que quer morrer, ela tem inveja de mim que estou aqui deitado e ela me traz comprimidos de três em três horas, me dá suco com canudo revirado na boca, liga e desliga a televisão para mim... é isso o que ela quer... não quer ser ela, quer ser eu... mas eu sou eu e ela é ela... eu sou o doente, ela a sã, eu posso tomar morfina e não ver o tempo passar, ela tem que enfrentar os trens superlotados e as ruas de terra batida, eu sou examinado diariamente por vários médicos, ela não tem um médico que olhe seu filho quase morto... eu sou um quase morto bacana, ela é o chão, o debaixo do chão, é a serviçãl dos que não servem mais para nada... eu não a recompensarei a não ser com a minha morte e meu leito será imediatamente ocupado por outro inútil... todos nós entramos e saímos, todos nós damos trabalho e ela nunca tem recompensa, ninguém nunca pensa no que ela está sentindo... ela é um eu que como eu, não deu certo - mas vive" (ainda retirado dos cadernos póstumos) "fim o quarto é pintado de azul ou verde.... acho que é azul, mas sorrio: que diferença faz? estou ligado a alguns aparelhos, alguns monitores, mas não ao respirador. pelo menos não agora. sinto a dor, não a maior, a dor de sempre, constante, a dor que eu sei que é eterna. quero descansar, pedir mais um pouco de medicamentos, mas espero.ela está ali, parada em frente ao leito, me olhando meio distanciada. não é mais bonita [ou eu não vejo assim] - não é o que importa agora.reuno forças para falar para explicar o mais clara e lucidamente que não existe retorno e que não estou mesmo preocupado, estou contente.mas é o fim. breve fecham-se as cortinas e seria o momento do aplauso que, sei, não virá....o que fazer agora? não tem mais nada. já percorri o caminho e agora é questão de tempo, muito pouco espero e acredito. - - - - -> ela não quer ficar ali, não tem porquê ficar, não tem nada mais com tudo aquilo [e é verdade]. procuro me recostar um pouco para que a voz saia, ainda que débil. peço que fique. que fique mesmo não havendo motivo, nem necessidade, nem obrigação. que fique. ela pensa em argumentar, sei que pode e não dou tempo. o tempo. falo do tempo. exíguo. o tempo é exíguo, não há quase mais tempo, é pouco, não fará muita diferença para ela... pode é claro e com razão não aceitar, não querer e não ficar... mas quem ficaria, que rosto eu olharia até o momento? explico que preciso olhar um rosto que é importante, que não se vai olhando paredes azuis ou verdes porque elas não piscam, não respiram, não têm expressões - quaisquer que sejam... ela continua olhando, certamente pensando, avaliando... lembro do filme beth blue, do olho revirado no hospital... quem viu beth blue com o mesmo entudiasmo que eu? ela continua parada. não diz nada. eu continuo parado experando" (retirado dos cadernos póstumos) 16.7.04
estive com elizabeth ontem à tarde para conversarmos sobre a juventude como vimos nos programando à tanto tempo... nunca esqueci a beth querida nem ela me esqueceu, como não esquecemos tudo o que fizemos no sobrado do centro ouvindo aqueles discos de vinil e fumando.... sentamos numa lanchonete e falamos, falamos, falamos... não piude deixar de reparar em como ela está matrona [ embora pouco mais nova que eu!que efeito deletério o tempo exerce sobre as mulheres façam elas o que fizerem], mas beth continua sendo a gracinha de pessoa que sempre foi, alegre, engraçada e com o olhar atento e ´pavido de ouvir e apreender tudo o que pode do outro e de mais quantos estiverem à sua volta... me disse que não está mais casada e fiquei com aquela cara de árvore quando me contou que enviuvou cedo, há mais de dez anos. beth, pra quem não sabe, foi a minha grande paixão aos 17 anos, daquelas paixões arrebatadoras que hoje em dia não existem mais... hoje em dia os jovens são pobres de espírito e o máximo que conhecer é 'ficar' com fulana ou beltrana perdendo a oportunidade de conhecer 'o amor demais'... enfim, são os tempos e não sou eu que vou mudar nada... beth me contou que não teve filhos por opção e agora é professora universitária [ de literatura comparada], o que me deu grande prazer [principalmente quando metemos o pau no Machado bem baixinho para que ninguém nos ouvisse]... seu rosto continua belo apesar das marcas do tempo, seu sorriso continua cândido e seu olhar continua ávido comaqueles olhinhos de mar.... tomamos chá na colombo e depois andamos um pouco pela orla... acabamos sentando ao lado de Drummond [a estátua] e ali ficamos até o sol se por... à noite comemos pizza e fui até o leme onde ela mora e mais não preciso contar porque beth é amiga de verdade, daquelas que a gente guarda no lado esquerdo do peito [e que!] a mulher que me falou tanto em sanidade estava parada na soleira da porta que dá para a cozinha e me disse que não havia mais açúcar na casa, nem no prédio, nem na região... me disse ainda que tinha feito uma experiência inovadora e descobrira que o café pode ser servido com sal, sim com sal, ressalta ela e que o resultado é muito diferente do que imaginamos, que o resultado é bom e que o vafé [fica diferente é claro], mas muito gostoso... ofereceu-me um pouco, mas eu declinei achando melhor também não discutir porque já tudo nesse mundo, já vi café com creme, até com rapadura, para os irmãos da caatinga, mas sal... enfim, como é grande o número de neurastênicos sem tratamento por aqui, fiquei quieto e segui meu caminho, chapéu na mão, preparado para a viagem de trem que faço hoge às gerais, a viagem na velha maria fumaça que me leva a minas [não interessa qual a cidade] o que interessa é o estado de minas que influencia tanto minha cabeça porque ela é natural de lá e quero ver com meus olhos as coisas que ela me falou do estado, assim como quero ver em são luís as coisas que josué descreveu nos 'Tambores'... tudo isso poderia ser mais facilmente encontrado e compreendido na bibliografia mínima que cheguei a ousar colocar por aqui, mas as patrulhas ideológicas e estúpidas me convenceram a tirar... mas isso não vem mais ao caso, águas passadas não movem moinho, quero apenas chegar na estação e pegar o trem para minas, saber que vou nos trilhos em que um dia planejamos ir juntos antes do tão desastrado fim... PDV, a droga é VLR... ainda está em experiência porque parece que ainda vão acrescentar um outro composto. de qualquer maneira o resultado já me parece muito bom, anestesia mesmo (e olhe que ainda não misturei com vodka, como recomendado).... não é romântica como os copos de leite daquele filme, é uma pílula, mas os tempos são outros e tudo agora tem mesmo que ser pílula. já indiquei para o P.D. e indico para todos os que querem ficar drogados [sim, o termo certo é esse, não adianta a gente disfarçar dizendo que toma isso ou aquilo para relaxar ou pra qualquer outra coisa!]... as pessoas querem mesmo é se drogar, então que se droguem e não tenham vergonha. eu não tenho porque aturar esse mundinho furreca, com essa gentalha mais que furreca, só muuuuito drogado... esssa nova pílula, pelo que me disseram [vem sem bula por enquando], é um composto de outras tantas que já faziam lá os seus efeitos ingeridas em separado, acompanhadas apenas de vinho ou uísque (e rum pelos piratas)... fizeram uma mistureba e deu essa que parece inicial de presidente norte americano, mas não é. sua procedência é a suíça pelo que me disseram também... não vou contar aqui o efeito porque não sei se age da mesma maneira em todas as cabeças e, de qualquer maneira, estaria quebrando o encanto da coisa, não é verdade? vi uma menina com cabelos pintados de verde [ ficaram muito bacanas, por sinal ] completamente chapada com a droga... ela estava na estação do metrô aqui de C. - - - -> não há muito para falar, apenas que já existe, que está sendo experimentada por todo mundo e que eu aconselho na falta de coisa melhor... ah, antes que eu esqueça, cuidado com a lipo que C. queria (ou quer fazer), veja bem os resultados que estão dando, os perigos... um abraço K., já recebi 'O dia em que getúlio matou allende' e já comecei a ler. você tinha razão, é muito legal. depois do programa ontem não vim diretamente para casa. já estava na lapa, afinal de contas. o que me facilitou um pouco a vida foi que S., mulher de G. estava comigo e me fez companhia até bem tarde. andamos pelos bares que dizem da moda e adjacências. Nada! lixo! porcaria! num deles, de cara, vi duas ratazanas que caminhavam tranqüilas entre a mesa até que um travesti deu o alarme. encontrei também Paula que vive no mundo da lua coitada, não fala lé com cré e estava lá achando que estava sendo assediada... não vi assédio nenhum. minto, um mendigo velho que deu-lhe uma olhada de soslaiocom aquele olho de alcóolatra de último estágio. Nada além disso. Ela tomou duas garrafas de vinho e eu três Coca Colas. Aproveitei o refrigerante para esperimentar o barato novo [é muito , muito bom, recomento!!!]... no mais, minha cara, não tem nada, a lapa é decadente, está decadente desde o meio do século passado e não tem nada de revitaçização... as meninas e os meninos legais estão todos na gávea, ipanema e leblon, o resto é basófia... muita gente velha, isso sim, muita gente com quarenta, cinqüenta anos ou mais... para mim, portanto, a coisa assentava-se como uma luva velhusco que sou. - - - - > tudo bem, não deixou de ter um momento ou outro mais engraçado, mais movimentado com aquele grupo de chorinho que fazia a gente chorar de desespero ( sim porque agora os de meia idade descobriram o chorinho, ignorantes que sempre foram dos nossos ritmos)... teve isso, teve o episódio do travesti com as ratazanas e teve uma mulher que ia processar o garçon porque uma conta veio errada... já se vê por aí o que é andar por aquelas bandas... se é para ser original, prefiro o cais do porto, para onde fomos em seguida não me venham encher o saco com essa história novamente do mar de isopor que está se formando na Antuérpia! não quero saber de nada disso por enquanto, já que minhas fárias acabaram e não posso viajar. O Sr. T. me disse que está indo para lá com um grupo de pesquisadores. Muito bem, que o façam e dêem notícias depois. Não há nada que se possa fazer e não vou me juntar a nenhum grupo de defesa desses que se vêm à três por dois aqui e no mundo inteiro. Não acredito nessa palhaçada, convicto que sou de que o homem saberá muito bem lidar com os 'lixos' do planeta'. Não tenho preocupação de nenhuma espécie, não me venham com essa história do que 'será o mundo para os meus netos', já que comungo da simples idéia que '0 mundo dos meus netos' será problema deles, os netos e não meus, o avô. Estamos lidando muito bem com o mundo que nos legaram, a medicina está avançando, as doenças possíveis estão sendo curadas, a natureza está sendo domada, os peçonhentos estão sendo exterminados.... o difícil é lidar com a peçonha gente, com as pessoas peçonhentas. esses é que infelizmente, demoram a morrer. mas isso sempre foi e sempre será assim, desde que a raça humana ocupou o planeta. - - - > o que realmente mal estar é saber que há peçonhentos e peçonhentas à minha volta, na rua, nos préduios, nos supermercados, nas igrejas - nas católicas principalmente! - isso sim é preocupante e esses sim eu me empenho em de alguma forma exterminar. .. paulo francis fez um trabalho muito bom, descobrindo que Rodox é mortal para eles.... tenho, então, vários tubos do aerosol aqui em casa e ando com um na mala. - - - - > o mais é bobagem, coisa de jovem saído da adolescência [alguns nem isso], coisa de estudantes... uma das integrantes di grupelho me escreveu e respodi-lhe recomendando ler "A Mulher de Trinta" de Balzac. Agora indico esse livrinho para miríades de pessoas sem simancol. Srta. F. espero que esteja tudo bem. recebi todo o material e os anexos para a a complementação da tese, mas não achei suficiente. tratei eu mesmo de começar uma pesquisa mais apurada para subsidiar a questão. não é nada demais, entretanto a imprensa no brasil, sofreu mais revezes do que está anotado ali. dei uma olahada na interte, como s srta. deve ter feito e não vi um material muito maior do que já me mandou, mas tenho um livro que será fundamental para a sua bibliografia: A História do Fotorrepostagem no Brasil. Lá, acredito terei material bastante além de um outro livro que ainda tenho que achar, sobre a imprensa do início do século XX. De qualquer maneira estoiu já trabalhando e logo logo mando material de volta. Acrescentei algumas fotos que não devem ser digitalizadas, portanto, vou enviar tudo por sedez. G** falamos ontem ao telefone sobre como andava nossas vidas... parece que não mudou nada, parece que continuamos fazendo as coisas de sempre, ela feliz pela espanha. confirmamos noso encontro para amanhã, agora que queremos nos ver com mais regularidade. falou-me das editoras de lá e como é fácil editar. tudo bem, eu ri, vou batalhar mais aqui também. 15.7.04
caminhei mjuito hoje quando o dia estava amanhecendo e não olhei muito para as pessoas de jogging que pretendem se eternizar... pra essas eu não ligo a mínima... havia um homem, entetando fazendo seus castelos, sereias e outras esculturas na areia que chamou minha atenção. parei para ver e esperar ele falar porque eu tinha certeza de que ele queria falar... contou-me de como é dormir na praia, como é roubado por outros mendigos, contou-me do frio, da fome e da sede. do desprezo das pessoas pelo seu trabalho... sim, aquilo é uma trabalho, não é - quis ele confirmar comigo. - é claro que é um trabalho.falou-me ainda das crianças que procuram desmanchar seus castelos de areia, que procuram desmanchar a única coisa que ele sabe fazer, que dá orgulho e prazer. contou-me da polícia que quer dinheiro, dos turistas que dão [pouco] dinheiro e me perguntou porque ninguém pára e fica olhando, porque ninguém fala, conversa... olhei para ele procurando uma resposta convincente e animadora, mas não encontrei... sentei-me um pouco a seu lado e disse que eu também não entendo porque as pessoas não páram nem conversam... .. todos correm com fones de ouvido, embriagados numa música doentia, uma espécie de morfina moderna, por assim dizer... rimos os dois. e olhamos os castelos sabendo que são de areia, que, com o tempo irão desmoronar, como tudo desmorona... que vão se tornar nada, areia mole, sem forma, sem tempo, sem razão... e ele me diz a areia é irremediavelmente solitária, me diz que à noite ninguém a quer, que ela se ressente de só ter vida quando há pessoas, jogos e brincadeiras...depois.... a areia dorme sempre só a luva com dedos cortador e a barba de duas semanas são apenas pequenos de talhes da composição do personagem do mendigo que não é mendigo, que é um professor universitário que perde a razão e começa a ser perseguido po uma 'cavaleiro de fogo'... a história parece ser a de um caso clássico de esquizofrenia onde o homem bem dotado culturalmente e financeiramente cai numa espécie de mendigagem, num ambiente que não é o seu e nunca foi... há um amigo, entretanto, que deixa tudo para trás para tentar resgatar esse amigo, tentar trazê-lo de volta para um mundo que já não é mais o dele... acho que era mais ou menos esse o enredo do filme que assisti pela metade num canal qualquer numa hora da tarde que também não sei dizer qual era.- - - - > essas histórias meio comuns que à primeira vista parecem chinfrins são, na verdade, histórias da vida cotidiana, histórias que estão sempre acontecendo mesmo ao nosso lado e não damos atenção... teve um diretor de programas que trabalhava comigo que, de repente, caiu preso do mais profundo e degradante alcoolismo e as pessoas não se preocuparam muito, chegaram mesmo a se irritar com ele, não percebendo que por trás daquele oceano de cachaça havia a tentativa última de aplacar uma ansiedade sem fim, uma ansiedade não tratada com ansiolíticos tradicionais, mas que era, em si o resultado de uma doença, de uma loucura que estava lá dentro, pronta pra sair, como de fato aconteceu... esse homem andou rolando pelas ruas, vivendo como mendigo e acabou levado por alguém da família se não me engano para minas, sua terra natal, nunca mais voltando e nunca mais se tendo notícias dele... pelo que eu vi,acho pouco provável que tenha se curado... então eu tive essa história do meu lado e não fiz nada, não me despojei para tentar ajudá-lo, salvo com umas palavrinhas fáceis do tipo 'pare com isso rapaz, você está estragando a sua vida'... só isso, nada mais. não fui solidário, não tentei de verdade, como os outros também viraram as costas... e para quantas pessoas a gente não vira as costas nesse mundo... acho que a gente não olha o outro, tem vergonha e medo de olhar o outro, tem medo de ser malvisto, de ser estigmatizado, tem medo das nossas próprias fraquezas tem medo de ver em nós aquilo que o outro está mostrando... talvez eu seja aquele louco alcóolatra que trabalhava junto comigo e caiu na mandicância, talvez eu esteja muito perto dele, talvez seja uma qüestão de tempo para eu cair também... e, pior, todos nós possivelmente estejamos caminhando num fio de navalha, pronto a cairmos do lado de lá, prontos a não sermos mais aquilo que pensávamos ser, prontos pra que a vida nos atropele como um trator faz com uma latinha vazia... eu acho que ninguém fez a sua parte, mas o que me dói é que eu não fiz a minha parte... e esse filmezinho de ontem me mostrou bem isso 14.7.04
O sonho é recorrente. Ela está na varanda, sentada nos degraus que levam ao gramado. Fuma e olha para a frente, para o nada como quem tem todo o peso do mundo às costas. Sento-me ao seu lado certo de que há algo a ser dito, a ser escutado. Acendo também o meu cigarro e espero. Sem me olhar, com o olhar para a frente ela dá a notícia, diz o que aconteceu, como e o que será feito a seguir. Por instantes fico calado fumando. Acontecem-nos sentimentos muito estranhos às vezes, quando sabemos que algo vai acontecer ou vai ser dito e, mesmo sabendo, procuramos acreditar que não será aquilo, que aquilo que sabemos verdade pode não ser, pode ser apenas da nossa cabeça, quando toda a lógica diz o contrário. Só posso dizer que eu já sabia e concordava [não podia não concordar], que a coisa tinha mesmo que ser resolvida, mas que talvez encontrássemos uma situação intermediária, que num golpe só seria muito dura, mortal mesmo. Ela me olha com olhos cansados e olheiras de quem não dormiu. Continua carregando todo o peso do mundo, pois a nossa vida é o nosso mundo e quando vivemos carregamos o mundo, não sendo isso uma licença poética e sim a verdade absoluta embora muitos não percebam assim. Afasto-me um pouco e recosto na cerca da varanda. Queria ter alguma coisa forte, importante para dizer, alguma coisa que mudasse aquele tempo parado, aquele ar que não circulava, aquela dor que dilacerava. Nada. Não tenho nada para dizer ou assim me parece. Serão muitas as providências e grande o trabalho, mas não é isso o que me incomoda, nós dois sabemos. Estamos dando o passo para o penhasco que sempre esteve ali, à espreita e insisti em não olhar e nem sequer pensa-lo. Vou eu, sozinho, em direção ao penhasco. Srta. F. Estou já para escrever há dois dias, mas outros afazeres acabam sempre por me afastar dessa correspondência. Recebi sua carta datada de uma semana atrás e fiquei imensamente impressionado com o que relata. Não imaginei, em momento algum que pudesse acontecer aquilo ao pobre homem! Como pode? Depois de tanto sacrifício. Não escrevi a ele também e, confesso, nem sei muito o que vou dizer-lhe. O livro de Florbela também me chegou em perfeito estado. Desculpe, estava falando do pobre homem. Ele está inclusive adoentado, pelo que ouvi dizer. E não poderia ser para menos com golpe tão rude vindo assim, do nada, de repente mesmo sem que ele nem ninguém pudesse imaginar. Dentro de uma semana retorno, queria ver se vou de navio pra ver como é, nunca viajei num e isso é uma vergonha para um homem com a minha idade. Ainda não comprei o exemplar de Negociando com a Morte de Margareth Atwood porque não encontrei no dia que fui à livraria e também, devo admitir, estou deixando mais para o final do mês. As finanças, como sabe, vão mal e agora não tenho muitas alternativas para me safar. Terei mesmo que esperar acabar esse período terrível, de inquisição mesmo que estamos passando. Talvez eu tenha sido um tanto leviano em não me preparar para essa possibilidade porque, afinal, havia essa possibilidade. Por outro lado deliciei-me com o Campos de Carvalho que o P. me indicou. A princípio não sabia bem a quem compara-lo, mas aos poucos fui vendo um traço de Pessoa, um traço de Lispector fora ele mesmo que em si, faz incursões novas na forma da narrativa. É bom de vez em quando ler um pouco essas coisas não convencionais que mexem com a cabeça da gente, mostram que sempre há uma possibilidade nova a ser explorada, sempre um jeito novo de contar, de se expressar. Tem outras coisas na fila, como o Aliende que K. vai me emprestar hoje ou amanhã. Não tenho mesmo saído tentando organizar os escritos, deixar a coisa mais ou menos pronta para o que der e vier [sei que não tem nada que der e vier, enfim...]. Bom, acho que te informei de alguma coisa. No mais estou bem de saúde que, dizem, é o que interessa. Os filhos vão bem e os sonhos continuam os mesmos, continuam sendo com ela e acho que sempre serão até o final. Já te contei quais são e como são recorrentes. Forte abraço, M. rabino de noite [tarde] conheci finalmente o tal rabino que R. me falava tanto... um cara legal. velho e de longas ( e tome longas nisso!) barbas brancas além daqueles cachinhos nos cabelos que só os judeus sabem fazer (além de tudo o que eles fazem e a gente lê no jornal lá pras bandas de israel)... mas esse me pareceu uma pessoa mais calma, pouco radical e com grande sabedoria... para minha surpresa, falou comigo favoravelmente da obra de philip roth que trata da diáspora dos judeus para a europa... confesso que isso não contava... falamos mais algumas coisas interessantes [parece que ele conhece um bocado de todos os assuntos do mundo rs) talvez essa seja a vantagem de ser velho pra caramba de montão... ia de um ponto ao outro: falou muito d'A Mulher de Trinta' de Balzac o que, não posso deixar de contar, me fez fazer algumas analogias tragicômicas... falamos ainda um pouco da Cabala, mas de uma forma simples, para leigos, por assim dizer... quando não podemos alcançar determinados pontos, quando estamos presos em determinadas sefirahs... enfim, ele falou como um oráculo embora de oráculo não tenha nada. ao contrário, traz junto a si a Torá. esse é o seu livro, o seu ensinamento e acabou, me disse quando tratávamos de grandes livros e grandes ensinamentos. pra minha surpresa, disse que muito de vez em quando lê um pouquinho desse espaço aqui, o que me causou grande surpresa, mas não é ele que procura.... Um sobrinho, pelo que me contou, imprime algumas passagens e leva para ele..ah, bom. Falei do mosteiro que freqüento e ele achou interessante, disse que aquele ele não conhece, mas conhece outros aqui e em outros países e que todos são análogos. falou muito de uma escadaria e de um labirinto, falou longamente sobre essa escadaria e esse labirinto, [o que me fez pensar que ele estava falando de alguns contos da obra de borges sem me dizer o autor...] não sabia se era para eu dizer que conhecia os contos que tratam disso ou não e, por via das dúvidas, achei melhor ficar calado, se ele me achar burro, fazer o quê? falou um pouco também sobre erudição e conhecimento e nesse ponto ele mudou o tom da voz e até mesmo a linha de raciocínio ao afirmar categóricamente que as pessoas que não sabem não são apenas incultas, são burras mesmo. Eu também sempre achei, mas não tenho autoridade pra dar esse tipo de opinião. Quando viu minha terceira latinha de Coca Cola pediu vinho para ele. O encontro foi arranjado, mediado e fotografado [viu que chique?] pelo Filipe (com i mesmo) que me prometeu mandar as fotos em breve. Dormi bem mais tarde do que gostaria [não sabia que rabinos deitam falação pela madrugada], mas valeu a pena. Valeu sim. pela manhã é a melhor hora de escrever por aqui... tanto aqui quanto no word. acho que a cabeça está mais fresca, as coisas são mais puras... de noite e madrugada tudo já é meio viciado, cansado, entupido de nicotina e outras cositas más. por falar em word, minha amiga, o texto no word, o selecionado, já está em trezentas páginas. acho que vou ter que resumir, que cortar mais coisas ainda acordei meio assustado sem saber bem o porquê. esperei um pouco para lembrar do sonho. lembrei: eu tinha sofrido uma interminável cirugia no coração [dessas tão em voga hoje em dia]. o que achei curioso é que no sonho, minha preocupação não era com a cirurgia em si e sim que eu inha que apanhar na locadora do dvd do 'All That Jazz' para assistir umas dez vezes. Se vou operar eu não sei, mas o filme vou assistir ditados ontem uma pessoa me xingou [não chamou, xingou] de doente... Só aí é que eu compreendi bem os ditados tão populares que dizem: "Deus não dá asas a cobras" e "Os macacos não exergam seus próprios rabos" Ah, bom. Agora eu entendi 13.7.04
absolutismo. desço ao centro da terra vindo diretamente do céu. não me surpreende a diferença [não há diferença] não me surpreende a dor [só há dor] não me surpreende o trajeto [tanto faz subir ou descer] não me surpreende o vazio [ onde não esta?] - - - - - - - - - porque não posso mandar todos os e.mail.s, todas a correspondência, todos os endereços eletrônicos. ***tenho caixas, cadernos, pacotes, amarrados de folhas, pastas abarrotadas, escaninhos cheios, guardanapos sujos. tenho muito mais do que esse mundo que não é, que é uma representação de. quero sair dele para me mostrar super homem ou gaia ciência. quero levantar vôo e subir como um foguete doido, como o InSaNo que não vê Como o cego louco Como a homeopatia tomada de uma vez só. Quero ainda, se deixarem, matar o homem dos gás Esquartejar aquela outra pessoa Beijar a prostituta e refazer toda a vida. (ENFIM) encontrei com ele na esquina dos desolados, dos descasados, dos assaltados... não tem como não falar, ele que fala tanto dessa maldita dor que o aflige, dessa dor quea morfina [em pequenas doses] não aplaca nem que nada mais faz efeito... ele quer efeito e o efeito está nele, no seu cérebro carcomido pelo álcool e pelas drogas, por todas as substâncias que tomou, fumou, cheirou, aplicou... tudo está no cérebreo que agora não é mais, mais parece um intestino com suas reviravoltas. não pode dizer nada porque sua boca não reage, seus músculos não obedecem e sua filha corre. não pode mais gritar pois o grito não sai, a dor não aplaca, o inimigo não morde, o cão não ladra e a mulher... essa não volta... e é ele que quer falar, que quer que eu expliquei, que quer ouvir o que há, mas não há. já houve, não há mais. não há mais nada nem mais nenhum tempo. baixei então o meu chapéu e deixei-o amargando sua dor, sua bile seu fel não me venham falar das suas dores nem dos seus desânimos, nem das suas insônias... não me venham apenas trazer a tpm e a incontinência... não venham trazer apenas as obrigações de aceitar e compreender e aceitar... porque o mundo e a vida são feitos de outras coisas também e eu não posso apenas ovir, ouvir & ouvir... tem esse mundo todo lá fora que clama por mim, que espera pela palavra, pela palavra escrita ou dita mesmo, não importa, tem o mundo lá fora com seus sóis girando como fogos juninos, tem as mães da praça de maio a avós da praça de junho... não me venham! o homem das medalhas é o santeiro que não se vê, procurado sim por todos... o homem das medalhas é o que eu persegui a vida inteira, o que eu deixei anúncios chamativos, o que eu clamei pelos jornais [e não apareceu] - - - - > o homem das medalhas é quem traz a luz que reflete na prata e no alumínio, é o deus solar que anda pela terra, que caminha refletindo a minha e a tua luz... o homem das medalhas não aparece para o escuro, nem o marrom nem o preto nem o roxo... ele navega pelos sete mares e percorre os quatro pontos do mundo levando a insígnea da luz... ele persegue os que são desorientados, os que são perdidos e os que se arriscam mais, os que admitem o absurdo... só quando admitimos o absurdo estamos plenos. só quando estamos plenos recebemos o homem das medalhas que come do nosso pão e bebe do nosso vinho. deixemos então que ele venha. sempre | a noite não foi feita apenas para dormir. a noite é bela, via láctea em cima, capim embaixo, cão do lado e espírito voando... espírito que voa em todas as direções, rosa dos ventos, rosa que desabrocha, que se mostra [embora, não se engane nem se iluda leitor: as rosas não se mostram inteiras jamais. nunca] - - -> a noite foi feita para o amor, mas foi também para o intelecto para a decisão do dia que se anuncia. nessa noite eu penso sobre o tempo para a produção e entendo que ela vai diminuir, não haverá mais tanto tempo. quem me dera ter o tempo disponível, ter o tempo do poeta. não. não há poeta sem tempo porque o material dele, sua ferramenta é o próprio tempo - que é, segundo caetano, o senhor do destino - o porta é essa antena sensível que gira em todas as direções e em todo o tempo para transformar o nada em tudo. se não for assim, não será poeta, será escrevinhador, será um mequetrefe metido a isso e aquilo que no fundo não é nada. posso sim fazer uma performance, posso sim ser performático porque artista o sou. mas apenas isso, nada mais do que isso. deixar para eles as páginas em branco que se apresentam sempre convidativas nas escrivaninhas [altas ou baixas]... deixar ao poeta o que é do poeta. acordo no meio da madrugada. os olhos abrem devegar e, na posição em que me encontr, vejo o relógio: 04:07 h. - - > não clareou portanto. posso dormir mais um pouco, mas é preciso sono. não tenho sono, nunca tive e jamais terei sono. sono é matéria para os tranqüilos, para os abençoados... devo ser um maldito que não tem sono - - - -> mas os malditos também amam, me disseram, e são amados, complementaram. - - -> verdade: é motivo para júbilo então estar acordado porque posso ainda aproveitar algumas horas antes do dia... antes do dia que trará o trabalho, o lazer, a desigualdade, a opulência, a chacina, a produção, os negócios... num dia o mundo torna-se um mercado persa... ou istambul, não sei bem... desdobro novamente a carta que recebi ontem e que li à exaustão. lá estão todos os momentos que K. viveu últimamente, pelo menos no último dia, escreveu uma carta, mas não que, no papel, estivesse contida a mensagem completa. não. o papel era um guia, uma orientação onde eu buscaria suas informações, nomes de livros, de cidades, de pessoas [com o devido telefone], listas de coisas, endereços na internet, tudo... tenho a missão [que já comecei a executar] de fazer toda essa busca e, pelas pessoas que falei ontem à noite e pelos livros que dei uma olhada rápida já entendi que ele queria me contar muito mais do que a carta comum do suicida. não, ele queria me mostrar os mistérios do mundo, os mistérios que devemos conhecer para que a vida seja vivível. minha vida estará completamente mudada quando eu completar a missão. poderei partir em busca de outras coisas, poderei tornar-me mais forte e menos previsível. eis a grande qüestão que ele me lançou: o homem não pode ser. o homem previsível é desprezível. fui prisioneiro durante todo o dia, durante quantos dia e quantas noite dessa garra que aperta, mas não mata? por muito tempo fui prisioneiro. não sou mais, não tenho que ser, não quero ser. quero seguir adiante, rápido, que voltar ao casario pobre e decadente para acertar as contas, para matar o gigolô e espancar a prostituta... quero mostrar o que é capaz um homem ensandecido, um homem que foi aprisionado. agora estou livre e vou pra lá, agora escapei da prisão... espacapei da terra de ninguém e que, portanto, ninguém conhece e que é inenarrável porque é de ninguém e só os ninguéns de lá podem avaliar. tenho esse peso morto nos meus olhos, nas minhas pálpebras, mas posso lutar, posso destruir todo aquele lugar, incendiar todo o casario porque incendiando tudo estou imolando a mim, eu que tenho que permanecer salvo, salvo nos sete pecados capitais, não os conhecidos, mas os outros os pecados que são o inverso dos conhecidos. depois de caminhar árduamente por todo o paraíso perdido, pelo purgatório e pelo inferno tenho aqui esse café fresco à minha frente... como haverão muitos cafés recém passados a essa hora por todoo país, por todo o planeta [salvo nos lugares do outro lado do mundo]... o café preto de manhã é essa coisa avassaladora que cria e destrói vidas, pessoas e mundos, é esse l´quido com ares de petróleo que nos embriaga de vontades inacessíveis e maníacas.... nas grandes crises de mania fernando toma bules de café e uma coisa puxa a outra e ele vai assim até não poder mais, até estourar ou estourar o outro... desde a colheita que o café exerce seu misticismo, sua magia sobre as pessoas e vai transformando-as, cada uma que pega nela, que transporta, que revende, que bebe... o feitiço do café arrebata os corações e mentes e cérebros e omoplatas...tudo fica impregnado de café e o assassino se enche de café antes de cada missão... da mesma forma o drogado se enche de café para fixar mais sua viagem à loucura e louco puro, so simples, toma café de A a Z apenas para não estar, para não participar, para se revoltar contra o que pode e o que não pode. 12.7.04
o que há é um falso jardim que convida e espurga ao mesmo tempo, uma flor que abre e se fecha, uma miríade de estrelas nesse céu preto... lembro quando jardim olhávamos a via lactea e acompanhávamos o trajeto das constelações, desse céu que não é mais, desse capim que não tem mais cheiro de molhado nem de capim... agora não tem nada, só o nada absoluto, não tem a terra de verdade, não tem a fogueira, não tem o cão... tudo não tem. o que uma pessoa faz com tanto não tem? sai pelo meio da rua carregando a cabeça cheia de nãos, sai pela vida, errante, claudicando, se machucando pra amenizar a outra dor... para amenizar as outras dores que passaram, as que estão e as que virão... tenho um projeto, mas ele é futuro e futuro não é porque está naquela escala do nada.. passado já passou, presente escorre entre os dedos e futuro não é... é apenas uma possibilidade que possivelmente não acontecerá... vi o homem vendendo laranjas e lembrei das laranjas e tangerinas da minha terra, do café da tarde com queijo minas... coisas simples. não. muito auto-análise. tem que ser mais literário [ou mais literal?] sei lá eu... o que eu sei de mim? absolutamente nada. mas antes eu achava que as pessoas também nãosabiam delas mesmas e hoje estou revendo isso: tem gente que sabe de si sim, que faz os projetos e os realiza depois, que planeja e acontece. tem sim. eu tô fora acordei assustado pela manhã...sonhei com giuseppe, pobre rapaz italiano que é beijado por uma modelo internacional que ele só conhecia de revistas e da televisão... ele tenta dizer que ela está se confundindo, mas não consegue... pouco depois, em outro lugar, ele é confundido com alguém por uma linda mulher negra que beija-o languidamente... ele está metido em alguma coisa que não sei dizer e não quero esperar o fim do sonho com medo de esquecer... acordo e levanto correndo para fazer as anotações, depois verei o que eu faço.... agora que fiz as anotações estou que rumo dar a tudo... não darei, portanto, rumo nenhum não somente dizer o que foi minha visita ao sanatório vai me aliviar um pouco. todas aquelas pessoas que não sabiam quem eram me convenceram de que eu é que não sei quem sou, sou um apelido, sou uma imagem que se pode imaginar, nunca constatar, sou uma brincadeira que não se pode brincar... tentei explicar todas essas coisas ao grande homem do lugar que não quis entender, não quis... apresso-me então a sair para a praça que mesmo com seus corvos e urubus me permitem respirar melhor... para onde vou agora e o que faço eu não sei? alguma coisa está sendo tramada para mim, alguma coisa fora daqui, alguma coisa que vai atingir meu corpo e meu cérebro - - - > mas não entrei aqui definitivamente, não escolhi esse como o meu lugar, a minha morada final? sim e não. não posso afirmar por enquanto... nunca posso afirmar, essa é a verdade, não possuo a capacidade de ter as certezas que o mundo tenho... caminho esse caminhar trôpego apenas esperando a hora de ir ao encontro dela na espanha - - - > e isso é um sonho recorrente... a espanha e os nomes das flores. não todos os nomes. não posso querer muito numa hora como essa, tenho que me ater ao possível, às migalhas, que sejam, que me são ofertadas... tenho um compromisso desde ontem maior, compromisso com a ... revendo V o homem sentia os pedaços caírem de si, como terra molhada em cova recém aberta em cemitério clandestino... caíam torrões de si mesmo, como se fosse terra ou lepra... não era bem isso. o que seria, então? não sabia. pedaços de alma? uma possibilidade [se acreditasse nas almas]... pedaços do consciente? do inconsciente? nada explicava bem... tomou um pouco de soporífero, não para dormir totalmente, para para ficar quieto, mais lerdo ainda... num estado de semi-consciência talvez... mas do que adiantaria... nesse estado não conseguiria ler nem escrever, nem pensar... ficaria apenas anestesiado... anestesiar-se é a solução não necessáriamente dos fracos, mas dos que não têm coisa melhor a ser feita, ou dos que não entendem o mundo tal como é e não querem participar de um jogo que não gostam ou não concordam ou não qualquer coisa... pensa no pai, como teria sido a vida do pai, fora esse lado folclórico de mulherengo que todo mundo conta? aliás, o que tem de engraçado num homem mulherengo? ele não via nada. tinha outras preocupações, outras expectativas... dia desses tentara falar com uma mulher da diferença entre o passado concreto e as expectativas do futuro. dissera, à época, que o futuro não era nada, era éter, material de pensamento, de anseio, mas ainda assim muito menos concreto do que o passado [ainda que este também estivesse num outro terreno que não o presente] riu ao pensar que nem falara da fuidez do presente, que instantaneamente viraria passado... aí a interlocutora teria vomitado... não, ele não falaria, seria ir longe demais com ela... o jeito era continuar a leitura... descansava o corpo e a mente [que ignorava toda a besteirada escrita ao longo das centenas de páginas]... a esquisofrênica do andar de cima estava atacada novamente.... se pudesse dividir com ela os suporíferos... a noite chegava e, logo, a hora de adormecer novamente... ninguém por perto... nem um conhecido nem um desconhecido... nada... eis o que é a vida...real. um nada... de resto, as pessoas se amontoam e conversam, fingindo que não estão sós... revendo IV quando ela entrou no quarto não disse nada...olhou e chegou perto... o que diria, afinal? não fala muito mesmo...nem eu. sabemos o que é para ser dito e o que não precisa...sabemos ainda da impossibilidade imposta não por um ou outro, mas por uma série interminável de ações, momentos.... enfim, tanta coisa que nem adianta falar porque parece que está justificando o injustificável e não é nada disso..... o que rola é que algumas coisas acontecem de maneira inteira, outras não... é assim... é porque é... absolutismos existenciais.... possivelmente não rolaria o mesmo carinho em outra situação [que dizer, não sei - como saber? ] mas não é isso o que realmente conta nessa história toda... o que importa é essa coisa que já existe, que meio não morre [claro que pode acabar, ainda mais estando expostos aos 'possíveis']* e daí? nada. daí é olhar a chuva e ler ou ver tv ou olhar pro teto. porque lá dentro somos uma mar de ilusões, de realidades, de pensamentos, sonhos, ódios e amores que simplesmente não se explicam, não se traduzem, não têm lógica... nada.... revendo III estou suspenso no ar - sem atmosfera - nem paredes ou pontos concretos onde me possa apoiar. - - - -> não consigo o impulso necessário nem pra cima, nem pra baixo, nem pra frente nem pra trás. o corpo vaga lentamente e sou apenas ou observador do cosmo. Pergunto-me o que é ser um observador... Parece, antes de tudo a sitação do não-ser, dessa pessoa que vive e vê, mas não age, é rigorosamente incapacitado de reger qualquer tipo de ação. Mais ou menos como desejar definir o movimentos dos astros ou a batida do próprio coração: somos, na verdade, completamente incapazes, nada temos a ver com essas coisas que seguem lá fora [ou aqui dentro] independentemete da nossa vontade. E, pensando com um pouquinho mais de apuro, vejo, dia a dia mais, que a vida é, de forma geral, completamente independente... nós somos uns e a vida é outra... cada um pro seu lado - Tudo bem, nós fazemos parte da vida porque estamos vivos... mas ela, em si, é uma coisa, uma entidade que independe de dós, os vivos, os que [de alguma maneira] fazem a vida. E é um paradoxo. O que seria da vida se não fôssemos nós que a vivenciamos, nos damos conta, procuramos influir, melhorar [ou piorar], enfim, que interferimos. Não seria nada. Vida para quem se não houvessem viventes? Mas a vida, desprovida dessa sensibilidade, desconhece a tudo e a todos e, de braços dados com o tempo, caminha, independente, sorridente e, inábilmente 'senhora de si'. revendo II os cartões, as cartas.... numa fase mais louca, escrevi muito para mim mesmo, postando no correio e tudo o mais... e receber uma carta mandada por mim era uma experiência interessante e misteriosa. Essa fase terminou e hoje não sei, com certeza, se é melhor ou pior. os diários são formas de cartas catalogadas, que escrevemos para nós mesmos e para aposteridade.... mas a internet com seu e.mail e icq à reboque altera por um lado esse tipo de relação [de correspondência], enquanto, por outro, reativa algo - a escrita - que foi por um tempo abandonada - trocada mesmo pelo telefone e outros modernismos. - - - - - - - o que faço ao lado dessa mulher? concretizo, percebo, realizo e confirmo tudo o que ela me disse em longas cartas [e eu a ela] nossas conversas por icq - para os não terráqueos [ou perdidos no tempo]: "uma espécie de telegramazinho ainda mais rápido"... e, se o que fazemos não tem mais o caráter de missiva (porque nos temos - um ao lado do outro), mas - ao mesmo tempo - sabemos que tudo começou pela escrita, tudo foi lido e escrito antes. muito lido e muito escrito. - - -- - - - - - e essa ambiência meio literária, meio de receita, meio de almanaque, meio anárquica, aventureira... desacreditada [até por nós - em momentos de fragilidade] e pelos outros em todos os momentos.... isso tudo está em nós... nos nossos papéis, livros, referências... estamos cercados de correspondências por todos os lados [ainda que hoje sejam olhares ou recados deixados apressados sobre a mesa].... - - - - - e por que falava tudo isso? porque acredito na correspondência, nas cartas, missivas, bilhetes... nas linhas e entrelinhas... no dito, escrito e não escrito, mas pensado e percebido. e chega. revendo existem determinadas atitudes e maneiras que demonstram nossas contradições entre palavras e ações bem como entre intenções e verdadeiras atitudes. mas isso me parece normal. é humano... sobretudo, humano. não deveria espantar nem mesmo causar quaquer tipo de reação [embora exista a reação sim!] - não sei explicar o porquê. aliás, dentre as minhas inúmeras fraquezas, 'não explicar os porquês' ocupa um lugar especial. - - - - - - - hoje descubro autores que demonstram com leveza, humor e tudo o mais, essa coisa toda de você querer, sentir, mas simplesmente não conseguir dizer. e como é legal, essa confusão contada num romance.... e como é pífia na vida real.... escrevo isso por uma série de motivações - que por sua vez, geram outra série de debates internos (entre meus eus) - o que provoca certa angústia [tudo bem que irrelevante quando colocada em confronto com a vida inteira...] voltando: o que provoca certa angústia é essa caminhada em círculos que dou [e damos, todos]. procuro fazer uma relação geográfica, imaginando às vezes que, por ser a terra redonda, - - - - - -> tudo aliás é redondo ou arredonda do universo - que além de curvo me cheira a redondo <- - - - - - - - provoca essa vida de emoções circulares. cérebro e intestinos são dispostos em forma de lombrigas inertes - se não redondas - pelo menos sem formas retas, sem quinas. - - - - - - ->se meu cérebro não tem quina, minha vida não pode ser reta. - - - - - daí voltaria para a conversa que tive à tarde. a vida não é reta. nada deve ser reto e esse conceito de retidão e certeza é tolo e babaca.< - - - - - - - - - tem esse enorme caminho de histórias mal contadas. reconheço que as histórias mal contadas são sempre as da vida e não as da literatura, o que objetiva o paradoxo, o que estimula a esquizofrenia - isso é uma capítulo à parte, a esquizofrenia - de que falo depois. porque se a literatura é a história do homem bem contada em contraponto à sua própria história que é sempre [ou quase sempre, vá lá], mal contada, alguma coisa está.... talvez não propriamente errada, mas, no mínimo, invertida. - - - - - - - - - algo como se a vida fosse a literatura com personagens que estivessem por fora dos livros. personagens que estivessem 'pensando' que 'estavam' escrevendo o que há. porque o que 'está aparentemente escrito' não está. É. O que, aparentemente é, não existe salvo numa cabeça que faz pequenas anotações de projetos que se concretizam ou não, mas sempre salvaguardados pelo possível do 'encaixe literário'. - - - - - - se a metafísica explica o inexplicável - ainda que de alguma maneira - então não existe o inexplicável, apenas o que não se vê. ora, um cego nada vê e seu mundo é outro, distante do meu. - embora o neguem cegos ou não o meu tem óculos não escuros. então de que me adianta tentar entender tudo isso? o que pergunto é: estou aqui ou não estou? quem está andando? eu ou o tempo? - - - - -> posso pensar de maneira inversa: eu não existo: sou uma invenção do tempo que necessita de seres para ser, ele, tempo. não havendo pessoas, não há tempo. e para sobreviver [ele] existem pessoas que sofrem [sua] ação. assim, o tempo é absoluto, só ele existe. eu sou apenas o rio por onde ELE desliza. 11.7.04
"Desejo primeiro que você ame, E que amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer. E que esquecendo, não guarde mágoa. Desejo, pois, que não seja assim, Mas se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos, Que mesmo maus e inconseqüentes, Sejam corajosos e fiéis, E que pelo menos num deles Você possa confiar sem duvidar. E porque a vida é assim, Desejo ainda que você tenha inimigos. Nem muitos, nem poucos, Mas na medida exata para que, algumas vezes, Você se interpele a respeito De suas próprias certezas. E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo, Para que você não se sinta demasiado seguro. Desejo depois que você seja útil, Mas não insubstituível. E que nos maus momentos, Quando não restar mais nada, Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé. Desejo ainda que você seja tolerante, Não com os que erram pouco, porque isso é fácil, Mas com os que erram muito e irremediavelmente, E que fazendo bom uso dessa tolerância, Você sirva de exemplo aos outros. Desejo que você, sendo jovem, Não amadureça depressa demais, E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer E que sendo velho, não se dedique ao desespero. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e É preciso deixar que eles escorram por entre nós. Desejo por sinal que você seja triste, Não o ano todo, mas apenas um dia. Mas que nesse dia descubra Que o riso diário é bom, O riso habitual a insosso e o riso constante e insano. Com o máximo de urgência, Desejo que você descubra, Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos. Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta. Desejo ainda que você afague um gato, Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro Erguer triunfante o seu canto matinal Porque, assim, você se sentirá bem por nada. Desejo também que você plante uma semente, Por mais minúscula que seja, E acompanhe o seu crescimento, Para que você saiba de quantas Muitas vidas é feita uma árvore. Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, Porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano Coloque um pouco dele Na sua frente a diga "Isso é meu", Só para que fique bem claro quem é o dono de quem. Desejo também que nenhum de seus afetos morra, Por ele e por você, Mas que se morrer, você possa chorar Sem se lamentar e sofrer sem se culpar. Desejo por fim que você sendo homem, Tenha uma boa mulher, E que sendo mulher, Tenha um bom homem E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes, E quando estiverem exaustos e sorridentes, Ainda haja amor para recomeçar. E se tudo isso acontecer, Não tenho mais nada a te desejar ". Victor Hugo | lamento o que é essa luz intermitente nos olhos, dentro de mim... existe uma luz, um facho, um holofote dentro dos meus olhos que me incomodam e me cegam, mas vêm de dentro, de dentro do meu ser, não é dos olhos, vêm do plexo solar, desse lugar onde nasce a ansiedade, onde o mundo parece que tem seu fim, sua borda... sinto-me na borda do mundo e não sei se quero cair lá fora ou não... não tenho certeza, posso vir a ter, mas não tenho e sei que preciso de mais tempo para pensar... como tomar decisões assim, na beira do terraço, na beira do mundo... o mundo é reto, não é redondo... ele tem beiradas sim, parece que os navegadores antigos tem razão... depois do horizonte vem o nada, vem o fim... e eu estou lá... ela está no meu plexo e não me agüento com ela, peço socorro e ele vem... mas será sempre assim? por quanto tempo mais estarei na beirada do precipicio, por quanto tempo mais estarei dando tudo de mim para me manter compensado? quanto de mim anda compensado... ele já me disse que pouco. mas não vem ao caso agora. agora quero apagar ou diminuir esses holofotes nos meus olhos de dentro, quero a paz que todos suplicam nas catedrais, quero a possibilidade de caminhar nessa chuva com meu guarda chuva preto... meu gurda chuva me protege não dessa águatola que insiste em cair, ele me protege do mal, das forças que existem e rondam cada um de nós... espectros que nos seguem esperando a melhor ocasião para o ataque...não sei quando serei atacado [nem se serei atacado], mas os espectros estão por toda a parte, principalmente dentro de mim sabedores que não posso fugir de mim... afasto, desesperado, todas as folhas da minha escrivaninha, todos os cadernos e lápis... não era nada disso o que eu deveria estar fazendo, deveria ter produzido de verdade para agora poder estar prisioneiro das luzes que me tomam, da ansiedade que me vem e me arrebata... não quero muito mais desse planeta, nem dessas pessoas nem de nada... quero encontrar logo essa mulher que quer ser encontrada e deixa senhas e deixas em todas as partes como num quebra cabeças do tamanho do mundo... e faz isso porque eu escrevi que estou sozinho no meio do mundo... ela se aproveita do que eu disse, descobriu o meu ponto fraco e agora corre atrás de mim em busca de algo que não está comigo, está com o Sobretudo e ele abandonou esse sítio faz tempo já... quanto tempo? não sei.... e quanto tempo mais vou precisar para mostrar ao mundo o que realmente vim fazer, o que desejo, o que sei... o que sei eu? acho que tudo porque em criança decorava dicionários...hoje esqueci o significado das palavras, de todas... fico horas tentando lembrar a palavra mais simples para comprar um café ou comida para os gatos, meus bons companheiros... apaguem essas luzes, peço pela última vez porque se não o fizerem irei definitivamente para a borda do mundo... e se chegar lá, provarei que tudo estava errado, que gagarin estava errado, que o cerrado não é o que dizem e que a caminhada no parque faz é mal ao coração... me deixem, por favor... terceira idade se não tivesse os sessenta e sete anos que tenho, procuraria o dr. carpesão e proporia sociedade para transformar isso aqui numa revista literária. não sei é quem eu iria chamar, conheço poucos literatos de plantão que talvez topassem... teria o geraldinho carneiro com certeza e talvez o joão ubaldo para falar nos de mais nome... os outros eu não sei... ele ia me perguntar se estou fazendo isso para ganhar dinheiro, ele odeia todo mundo que quer ganhar dinheiro... responderia que sim, que tenho contas pra pagar, que estou sem dinheiro nenhum e cheio de contas para pagar... aliás, a minha vida inteira eu andei cheio de contas´para pagar [porque nunca tive quem as pagasse para mim]... nem sei como é isso... tem aquele livrinho no ênio silveira "o conselheiro come", não é verdade? fazer uma revista, então é a questão: sim ou não? tudo rimadinho. acho que sim, acho que deveria fazer para que as pessoas pudessem ler enquanto estão no banheiro jogando o jantar de ontem fora... como levar esse trambolho para o banheiro... aliás, eu escrevi num papel qualquer que deveriam haver mesas com dobradiças que ajudassem a tirar e a colocar uma mesinha com um computador junto ao vaso sanitário.... ia aumentar o número de pessoas sofrendo de hemorróidas, mas ia facilitar muito a vida dos usuários... fazer a revista implica num capital inicial que não possuo, não tenho nada nos bolsos e mando minha mulher se virar em dinheiro... ela não liga, ri e nem presta atenção... isso é outra coisa: as pessoas passam a não prestar mais atenção nas outras quando ficam velhas... não devia ser assim...pois eu mesmo não estou indo em busca do carpesão embora ele tenha já quase oitenta? os velhos só são chatos nos supermercados... fiz um artigo uma vez para um amigo falando disso, falando que deveriam criar supermercados para a terceira idade... só entrava quem tivesse mais de setenta anos... ia ser uma loucura... para completar, os gerentes, atendentes, balconistas, caixas e seguranças também seriam bem velhinhos... acho que ia reinar muita alegria e solidariedade num lugar assim... posso escrever um artigo sobre isso aqui, se isso realmente virar uma revista. vai depender mesmo do carpesão poste o livro não termina. estou lendo sem parar e ele não termina. é verdade que é muito pesado, mas clarice lispector também é uma leitura pesada, mas termina. o que está acontecendo então? estarei lendo menos, me enganando, achando que estou lendo o suficiente, mas não estou? é uma possibilidade. esse é o problema: tudo é uma possibilidade. deveriam acabar com as possibilidades... se o mundo fosse de sins e nãos talvez fosse mais fácil. não sabia com quem eu deveria comparar o autor [estava o tempo todo pensando em borges] até que me veio o estalho: não é, é clarice. não que se copiassem, mas o estilo, o estilo tem alguma coisa em comum... a gente tem estilo? não sei. acho que eu não tenho estilo, mas é bobagem, podem achar que eu tenho, que meu estilo é uma merda ou é maravilhoso. se acharem que é maravilhoso é sinal que eu enlouqueci. por que? ora, como uma pessoa pode ter um estilo maravilhoso sem o ser. só louca. se acharem, entretanto, meu estilo uma merda, tenderei a ficar triste porque se meu estilo é uma merda, merda inteiro serei e ninguém gosta ser merda [talvez nem ela]. então acaba que eu não sei, fica o dito pelo não dito. por que eu tenho que acabar esse livro rapidamente? por que os livros tem que ser acabados rapidamente? os livros poderiam inclusive não serem acabados, como tantos não são começados... mas se começarmos a ler um monte de livros e não acabarmos nenhum isso não será vida, será ficção, estaremos apenas imitando calvino, estaremos dentro do Se um Viajante. não estou dentro do Se um Viajante. não estou. estou num dia muito frio falando com algumas pessoas e dando presseguimento às anotações... agora mesmo estava escrevendo sobre a ida ontem aos arcos e a explicação que o mendigo me deu... ele me disse que os arcos não foram feitos à toa, foram construídos por orientação de d.pedro para dar abrigo ao bisavô dele [ que também era mendigo]... depois eu conto porque a conversa com o mendigo foi grande, mas pelo menos já tenho uma nova tese para os arcos [talvez não tenha sido realmente para trazer a água do rio carioca]... vou voltar ao livro que não termina... água viva e a paixão segundo gh terminaram, mas esse não termina [bem verdade que esse não é um, são quatro]... pode não ser nada disso, pode ter a ver com o prenúncio da descarga que eu tratei aí embaixo... e pode não ser nada tambpem... vou ficar bastante atento a essas possibilidades para escolher uma delas... a vencedora será premiada com um post. post e não poste. elevador de ponteiro Contei a ele o estado em que fiquei naquela tarde.... completamente paralisado, imóvel na cadeira sem nem piscar... a mão não se mexia nem braços nem pernas... ele me olhava, ouvindo e procurando entender... os médicos têm que dar diagnósticos, que situação a dos médicos: dar diagnósticos.... deve ser terrível uma pessoa começar a contar uma coisa para você e, no fim, você ser obrigado a dizer que foi isso ou foi aquilo, que esse ou aquele remédio [pode] melhorar... os médicos falham porque a medicina é uma profissão muito ousada... é brincar de deus com as pessoas e deus não perdoa, deus faz as pessoas sofrerem ainda mais por causa dos médicos... os médicos provocam alguns alívios, é verdade, como o vinho aliviava há três mil anos atrás... como a gente se alivia cheirando cola de sapateiro ou tomando vodka até não mais poder... eu não tomo vinho e, portanto, provoco os médicos... provoco a ira sagrada que paira sobre as mentes dos médicos... eles devem ser meio amaldiçoados pelos arcanjos [porque deus não deve se dar sempre ao trabalho]... tem a possibilidade deles pedirem exames para ganharem tempo, mas não adianta porque os exames são feitos e voltamos lá com aquele monte de papéis e radiografias... cada vez mais modernos, diga-se passagem, os médicos não sabem mais diagnosticar apenas por si, com seus exames... contei a ele o estado, a paralisia... como pode minha cabeça estar funcionando perfeitamente e os músculos não responderem? Como pode um pobre homem viver sentado, mudo, travado sem cheirar cocaína nem nada, apenas ali, travado?... o médico olha e toma o cuidado preventivo de não usar jaleco... quando o médico não usa jaleco ele está se escondendo dos arcanjos, fica um alvo menos fácil para a ira divina... ele passa batido no meio de tantos, ele escapa não por merecimento... e agora? Agora ficamos assim, trocamos isso por aquilo para evitar uma nova descarga... sim, foi uma descarga, veja só, eu agora tenho descargas... posso ter outras [pouco provável, me acalma ele, mas possível, para se livrar do peso da decisão] se sim, ele disse que era possível... se não, ele disse que achava que não... o importante é não ficar mal, é deixar todas as possibilidades em aberto... só não negam ainda a morte... ainda não ouvi nenhum me dizer que é possível que eu não morra. . . ainda não... todos são categóricos em que eu morrerei... devem pensar sobre eles mesmos, de manhã, fazendo a barba no espelho... eu sou um médico que vou curar não sei quantas pessoas e, muito possivelmente, morrerei antes delas... então ficamos assim, a paralisia passou, novas químicas [sempre muita química] e vamos ver o que vai acontecer... melhor darmos um tempo pra ver... que tal quinze dia?... sim, me parece um bom tempo... quinze dias para ver... saio pelo corredor sujo, com todas aquelas portas de madeira velha... minha muleta de metal faz toc toc à cada passo que vou dando e o elevador é antigo, ainda tem aquele ponteiro em cima, 4, 3, 2 , 1... 10.7.04
sonhos não pretendia mesmo dormir, ia ver televisão e talvez tirar esse cochiclo que realmente aconteceu... acordei agora com o coração batendo forte e a respiração tão ofegante que mal conseguia respirar, o ar não me entrava direito... estive sonhando, claro, agora adormeço e tenho esses sonhos diabólicos... nesse de agora eu ia nascer pela boca da minha mãe ou talvez não fosse bem isso, eu ia nascer de mim mesmo, pela boca, algo complicado e desconhecido da medicina, tanto que era necessária uma cirugia de urgência... não me importa mais o que foi, agora que já me dopei de tranqüilizantes o coração começa a voltar ao normal e a respiração também... mas essa opressão continua, essa certeza de que não é para eu estar aqui, é para eu estar em outro lugar, com outra gente... não faço idéia que gente eu quero estar, talvez anões chineses ou alguma coisa assim, um pouco diferente, que me mostre o que é realmente a vida, que a vida não é só a desse quarto entupido de papéis com esses gatos indolentes para lá e para cá... saio e o ar esta lento, quente, viscoso como uma placenta velha... tudo está amarelado como se... não tem areia e terra por toda a parte nessa aldeia em que moro, nessa praça deserta... não sabia que era tudo tão vazio por aqui, não sabia que as pessoas não apareciam nem sabia que o feno rolava igual aos filmes de bang bang que assisti quando era pequeno... há um dia sentado numa calçada, mas é um índio americano, da américa do norte bem entendido... talvez seja por causa do feno, talvez tudo tenha que ser americano, mas esse índio velho é.... não me olha nem eu olho para ele.... ouço ao longe um barulho difícil de identificar... aos poucos vou identificando como o ruído de um trem, de uma locomotiva, é isso... a estação está a menos de cinqüenta passos de mim... vou até lá, quero ver quem vem nesse trem, quem vai... e se eu tiver vontade de embarcar assim sem contar nada a ninguém? o que me impede, não tenho nada que me segure a esse lugar os gatos acabarão por serem encontrados e o resto... não tenho resto, sou uma pessoa absolutamente sem resto, sem nada... vou então até a estação e agora o barulho está bem mais perto, não há nenhuma dúvida de que um trem vem chegando... existe uma mulher sentada no banco lateral da estação... traz uma criança no colo e viro o olhar porque não gosto de crianças, acho que têm parte com o demônio.... olho para o outro lado e no outro banco, igual vejo um rabino. minto: dois rabinos, um velho e um não tão velho. o não tão velho fala sem parar, gesticulando muito como quem quer convencer o velho... pode não ser isso, não escuto o que dizem... tem uma máquina de café expresso raxzoavelmente moderna para aquela estação, para aquele lugar e pego um expresso para mim...o barulho do trem se aproxima, mas não me parece que esteja diminuindo a velovidade... antes mesmo que eu termine o café avisto a composição se aproximando e realmente não parando... não é um trem com locomotiva e essas coisas próprias de trem... é um metrô, um metrô vazio... consigo ver com bastante clareza, num dos vagões minha mãe e um homem de óculos escuros... lá de dentro eles me observam enquanto o metrô continua. caminho pela orla da praia nesse dia de sol forte e pessoas bonitas... como tem gente bonita, bonita e imprestável... eu acho que vou mudar esse conceito de beleza padrão e vou preferir falar com pessoas ditas mais feias porque todo mundo que se acha lindo é insuportável e o que adianta uma coisa sem a outra? fico pensando que uma pessoa pode ter a beleza que for, ainda assim é insuportável estar em sua presença ou flar com ela (normalmente têm mau hálito). então, além de usar drogas e repensar sobre a possibilidade do suicídio, faço campanha pelos feios e feias, pelos, mancos, coxos, gordos, anoréxicos e tudo o que se for encontrando pela frente.... quando eu encontrar uma pessoa bonita vou soltar um pum e sair correndo de novo trem é recorrente a situação do trem, com certeza o melhor veículo de transporte na minha opinião... quando paramos na estação deveriam estar fazendo uns 9 graus e havia muita névoa... acho que fui o únicopassageiro a descer... espere: um casal desceu também de outro vagão mais à frente. como não era tarde o barzinho estava aberto. tomei duas doses de conhaque e comprei mais um maço de cigarros embora o meu ainda estivesse pela metade. o camarada que atendia não estava de muito bom humor, negando um sorriso ou qualquer tipo de prosa... serviu e acabou. o efeito do conhaque aliviou o frio que estava sentindo apesar do casaco de lã que usava, casaco que me foi presenteado por shihiro. abri meu caderno/agenda para ver bem o endereço de srtur a quem eu devia procurar... havia um homnem sentado no banco lateral da estação e, com olhar injetado, ele me indicou como fazer para chegar ao endereço... agradeci e segui em frente, logo dando na pequena praça que o homem citara. ali não havia nada de interessante... rema rema e balanço, tudo quebrado... lembrei da minha infânciam quando encontrava numa praça um desses brinquedos quebrados... senti a lâmina ameçando furar minhas costas e o aviso para seguir em frente, calado e sem chamar atenção. mas já? assalto aqui também? fiz o que me era ordenado e o homem me fez sentarnum banco de pedra. ficou permanentemente atrás de mim... disse que estava ali justamente me esperando, que eu não ia encontrar com A. porque ele estava morto, que eu devia entregar a agenda a ele mesmo e que ele me pagaria... não gosto de coisas mal explicadas e muito menos de surpresas desagradáveis e num arroubo de coragem respondi que não tinha agenda nenhuma, que não sabia do que ele estava falando. o sujeito parou de apertar a lâmina nas minhas costas e, ordenando que não me virasse, acendeu um cigarro. depoism com calma de avisou que pegasse o próximo trem que passaria na estação em 45 minutos, mas antes fizesse o que ele estava dizendo, vendesse a agenda... pensei um pouco enquanto ele se calou: por que deveria entregar a ele uma coisa destinada a outra pessoa? mais: quem me garantia que ela estivesse morta? sim, ele me respondeu, está morta porque eu mesmo o matei, matei há 3 horas atrás... e por que matou? porque ele não pode saber do trajeto a san juan, não podia conhecer a caverna secreta, não podia saber dos segredos que ali se ocultavam. ele sim, ele era a pessoa indicada a ir ao local... e por que? porque ele era o verdadeiro homem das sombras, A. era um impostor e eu, todo o tempo, me correspondera com um impostor... não estava mais entendendo nada, que história era aquela? olhei num canto da praça e pude ver a motocicleta preta que estava ali preparada para mim, à minha espera como combinamos... não, eu disse. vou pegar a motocicleta e seguir meu caminho, quero ver se A. está morto, quero fazer o que combinei... o sijeito atrás de mim, riu e me chamou de idiota. você pensa que é o sobretudo, mas não é mais, está se descaracterizando, está sumindo, você não existe mais, me disse em tom jocoso... conto isso aqui porque não sei se é efeito da medicação, se foi sonho ou se tudo pode estar acontecendo em algum lugar. terei que dar notícias depois. o dia não quero nem pretendo ficar assim indefinidamente senhoras e senhores. sei que existe a essa hora gente caminhando pela orla marítima, faça frioou calor, sei que existe gente já trabalhando embora seja sábado e sei que nos hospitais muitos pacientes terminais lutam com seus tubos e máquinas contra a morte... nada disso me passa desapercebido, não sou um alienado, essas pessoas merecem toda a consideração e respeito... da minha parte fazem jus a mais, fazem jus à admiração a uma certa inveja boa.... eu poderia estar lá agora, no meio dos que começam a sair de casa para fazerem isso ou aquilo e não vou, mas também não estou parado em estupor e sim contando aqui o que me vai e essa talvez não seja a mais nobre das ações, mas não deixa de ser uma atitude porque eu sei que vem gente a este sítio vez por outra e lê, e se entretém. queria eu ter um berrante para chegar ali agora no corredor e tocá-lo bem alto, para com o seu mugido, dar a ver aos vizinhos que estou aqui, que não morri, que estou fazendo alguma coisa, que estou fazendo a parte que me toca, que escolhi... um dia estarei na orla caminhando também de mãos dadas com uma velha e estaremos tão felizes que não daremos conta disso a que chamam velhice, como bem me disse ontem uma médica geriatra qua conheci num desses acasos, desvãos da vida... estarei talvez entregando jornais aos assinantes ou arrumando a carne que será vendida mais tarde à mulher que sai em busca de compras para o almoço em família... tudo isso eu sei, para tudo isso estou atento... e quando digo isso talvez esteja estimulando outros a o fazerem, talvez esteja mostrando que essas coisas existem e são boas, que essa é a vida que deus nos oferece e devemos acolher... aqui e na espanha. | cats meu gato sabe mesmo como está o meu humor, se estou triste ou alegre, se sorrio ou choro... e quando a tristeza se abate, quando estou sozinho, quieto, pensando nas coisas que vêm acontecendo e imaginando as que virão meu gato vem para o meu colo e a seu modo, me consola... encosta sua cabeça na minha, como a me reconfortar, força sua cabecinha de encontro à minha como a dizer 'estou aqui, companheiro [como odeio essa palavra]'... meu gato não é excepcional... uma mulher já me contara que sua cadela fazia o mesmo com ela e eu, na época não quis muito acreditar... o que faz os animais consolarem seus donos? eu posso compreender que eles gostem das pessoas, reconheçam que as pessoas lhes dão comida e carinho, mas como podem eles, nos momentos dos nossos sofrimentos, estarem prontos para consolar, dizerem que não estamos sozinhos, que são solidários, que são amigos e sabem muito bem o que estamos sentindo, que se pudessem ajudariam, mas que, por não poder mesmo fazer outra coisa, pelo menos nos emocionam, pelo menos nos dizem que estão solidários que temos a eles para o que der e vier? não sei explicar, mas agora sei que é verdade, que a velha mulher deveria dizer a verdade da sua cadela e que fui injusto em na época não acreditar e mesmo fazer uma certa galhofa dos seus relatos garrafas andei por quase toda a madrugada e encontrei poucas pessoas, daquelas que sempre encontro ... deve ser por causa do tempo frio e dessa insidiosa chuva que nos incomoda a todos, molhando roupas, pele e ossos... o senhor david estava no beco, guardando ou aguardando alguma coisa e parei um pouco junto a ele... tinha um fogo, fogueirinha, mas que dava para o gasto e me contou que um bando passara por ali mais cedo e fizeram ameaças e disseram que são os donos do pedaço... veja só - ele me diz pensativo - até esses pedaços aqui tem dono... não há de ser nada, procurei aliviar, porque em breve talvez não precisemos mais estar aqui, já estão terminando a abertura da próxima estação do metrô onde poderemos ter mais conforto e carlor... ele me sorriu desiludido e perguntou se 'eles' não iriam tomar conta também do 'pedaço'... acho que não, respondi sinceramente, porque o espaço será muito maior e, conseqüentemente, muitas pessoas irão para lá e a união faz a força, todos sabemos... ele me olhou e não disse nada, deve ter ficado pensando se o que eu dizia tinha lógica ou não [eu mesmo não sei]... com os utensílios que ele dispõe conseguimos pasar um cafezinho, o que foi muito agradável ainda mais acompanhado da quase meia garrafa de aguardente que nos restava... ele sentou um pouco, como se estivesse pensando alto ' teremos que aguardar ainda um bom tempo para as coisas melhorarem, se é que vão melhorar, me disse olhando fixo para o fogo... não há mesmo o que fazer, continuou tomando o café, não há mais nada que possamos fazer, agora é esperar que o país mude.... olhei para ele com desânimo, o mesmo desânimo dele porque sabemos que o país não vai melhorar, as pessoas não vão melhorar e a vida continuará sendo merda, sendo essa merda que estamos vivendo... ele não quis falar muita coisa e passamos parte da noite juntos comentando algumas notícias do jornal de três dias atrás... não sei pra quê jornal todo dia, ele disse, se a coisa é sempre igual, se lemos hoje o que aconteceu há três dias e, de lá pra cá nada mudou como não mudará nos próximos três... concordei com ele... acho, disse, que estamos muito desanimados também e assim nada ajuda, talvez tenhamos que ser um pouco mais otimistas, falei... otimistas? riu e otimistas para a quê, para receber a morte sorrindo, para passar desta para melhor com um sorriso nos lábios? não, prefiro ficar como estou, pessimismo, chame como queira... não posso me conformar em deixar de ser o que fui para ser o que não sou hoje, para ser esse nada sem ter culpa, sem ter feito nada para tal sorte me bater, concluiu... não dissemos mais nada por um longo período, olhando apenas a fogueira que agora aumentava um pouco com o jornal sendo queimado senhor dr. aproveito para escrever agora que alguns já estão acordando, mas nem todos, daqui a pouco todos estarão de pé e serão chamados para tomarem lá sua medicação. aproveito ainda que não descobriram cá a esferográfica que venho mantendo bem escondida porque sei que aqui pode virar arma [pergisosa] e quando a mulher de branco ver, vai na certa tomar de mim. sei que o senhor quer saber como foi essa primiera noite e não quero reclamar muito não, já que dormi boa parte dela, ainda que um sono agitado por sonhos sobre o assunto recorrente que ontem tanto falamos. os momentos que estive acordado eram os momentos quem que o sonho não era sonho,mas o assunto me vinha com a clareza dos despertos e nos momentos em que dormi, tudo não era tão claro porque era sonho, mas sempre a mesma coisa. de qualquer forma, não fiz uso do estoque particular que tenho comigo para uma emergência. vou tentar mais um pouco, pode ser que o organismo acabe por se acostumar... acho que muito pior do que isso é a incerteza que me corrrói, a incerteza de que dias melhores poderão vir ou não. estou fazendo a minha parte e o senhor bem deve saber e compreender isso. a ambiência aqui é das piores, ouço gritos noturnos e gente que dorme falando alto [não sei como conseguem]... a a flição de todos é enorme por aqui e acho mesmo que todos preferem o dia, todos preferem o céu claro e a possibilidade de caminhar para lugar nenhum e ter com quem falar ainda que não compreendidos... todos eu não sei, mas a maioria com certeza. pensei em fazer uma descrição diária de tudo isso que estou começando a viver, mas confesso que tinha intuitos literários e, relendo o que por aqui vai, vejo que é lixo, é só relato mesmo... pude observar pela janela [alta] que havia no pátio uma ou mais velas acesas de onde concluí que os pacientes vêm para cá mas não perdem sua fé nas religiões afro-brasileiras, nas suas macumbas e mandingas... bobagem eu sei e o senhor também, mas não deixa de ser curioso como essas coisas ficam arraigadas nas pessoas mesmo estando [e reconhecendo] doentes, mesmo quando vêm para cá de boa vontade, reconhecendo que aqui estarão melhores, mais protegidas... a mulher de branco passou por mim agora e escondi a caneta. ela não viu, mas save que estou aprontando das minhas, sabe que sou mais inteligente do que ela, sabe que eu vou sair daqui e ela não, que está irremediável presa porque esse é o seu trabalho... já chamam para a formação das filas à busca dos medicamentos matinais... vou lá para não despertar suspeitas e continuarei a lhe contar as coisas na medida do possível. daria a mim mesmo uma nota cinco nesse primeiro dia. saudações insônia quase seis da manhã e foi assim a noite inteira, dormindo e acordando, suando e com pesadelos, levantando e dormindo de novo... desisto, então e levanto-me de uma vez 9.7.04
lápis&madrugada Os cadernos estão jogados em cima da mesa e não me anima nem a arrumá-los nem continuar o que estava escrevendo... escrevendo a lápis que é a minha nova mania... acho que de tanto ler livros onde os personagens escrevem à lápis acabei pegando a mania também [na verdade, devo estar querendo imitar por pura falta de talento]... mas os cadernos estão ali e os lápis também.... fico pensando que eu poderia estar escrevendo, dando vazão a essas coisas todas que me passam na cabeça, mas não hoje... amanhã talvez... ou depois de amanhã... tenho todo o tempo do mundo... não me incomodo que o vizinho aqui do lado fume maconha a tarde inteira... é verdade que o cheiro entra pela minha casa, pelo meu nariz, invade meu cérebro, mas não me dá nenhum barato... da próxima vez que sentir o cheiro vou bater na porta dele e pedir para dar uns tapinhas também, pra me drogar um pouco mais porque o que tenho feito não tem bastado. Na verdade eu não me dopo nem sou dependente, fiquei sabendo hoje, não sou dependente químico, sou dependendo do efeito... ah, ta bom, agora entendi... não me importa o que ele ache nesse sentido, já tenho minha opinião formada a muito tempo sobre todas essas coisas... chego, então, à escrivaninha, pego o lápis e começo a escrever lembrando sempre de swann, não o que vocês estão pensando, mas um romance que não fez muito sucesso, mas eu adorei...o livro tem tantas reviravoltas que acabamos confusos sem saber se foi a mulher realmente que escreveu o livro. Retomo então a minha escrita e dou por mim que a noite vai alta, que logo aqueles pássaros que cantam um pouquinho antes do amanhecer vão entrar em ação... bom, não tenho mais tempo para escrever porque pretendo estar entorpecido, quase dormindo ou dormindo mesmo quando o sol nascer... não quero ver o sol nascer eternamente, não quero a madrugada deprimente me atormentando sempre, para o resto dos meus dias [minhas noites]... correspondência a essa hora você está se preparando para sair, para ir naquele lugar que não gosta porque é aniversário de não sei quem... puxa vida, que chato. eu consegui me livrar desse problema não indo no aniversário de ninguém, se não fui no de beltrano não tenho que ir no de sicrano e ninguém mais me convida pra porra nenhuma [graças a deus]... estou aqui terminando de escrever umas coisas que deixei para a última hora e agora tenho que fazer correndo... vai ficando tudo cada vez mais atrasado, cada vez mais para trás... não te acontece isso não? não deve acontecer porque você tem as coisas organizadas... eu não... existe um livro chamado Ligações Perigosas que é composto apenas de cartas, cartas daqui pra lá e de lá para cá... você devia ler, embora seja meio chato....porque eu tenho mania de correspondências, essas cartas que mando pra você são especialíssimas, são os momentos em que estou falando com você ... sabe a história do faroleiro? pois eu seria aquele velho que mora sozinho na ilha do farol... e como é que a gente pode lidar com um velho que mora sozinho na ilha do farol... porque você quer o barco, quer o veleiro que singra os mares, quer pulular de ilha em ilha para conhecer novos povos novas pessoas e dançar ao som de seus ritmos nativos.... e isso é normal. Mas como junto com o faroleiro se ele é justamente o único que não pode sair, se é o único que tem que ficar na ilha, sinalizando os veleiros e as potestes lanchas??? fico pensando que você deve também estar pensando nessas coisas e tentando uma solução embora acredite que não há... e, se não há, como me dizer? mas que camarada mais complicado? não, nada de complicado.... vou escrevendo e vou dirigindo o seu pensamento, pensando junto com você e te mostrando que eu estou acompanhando o que te pode passar na cabeça e te dando razão e entendendo a situação difícil que você se encontra... acho que de todos os personagens do mundo, o faroleiro em sua ilha deserta, deve ser o mais interessante... e por isso eu sou interessante... interessante por sinalizar de uma ilha deserta... sim, mas e daí? você vai se mudar para a ilha deserta e ficar escrevendo cartas e mais cartas que são colocadas em garrafas e jogadas ao mar? não, não é isso o que você espera da vida, eu sei... e, novamente, você vai me perguntar o que eu estou querendo dizer com isso e novamente eu vou responder que nada, que não quero dizer nada... que apenas digo o que digo... são pensamentos de agora que podem não ser de daqui a dois dias porque eu, como tudo na vida muda.... o que eu estou querendo com essas correspondências longas e chatas é apenas pensar alto, falar para você que estou pensando também, estou alerta e entendo muito bem o que pode passar na tua cabeça... e o que eu quero dizer? nada. apenas o que vou escrevendo porque sou um escrevinhador nato e não tenho outro meio de chegar até você, a não ser por essas garrafas jogadas n'água... e porque aqui eu falo muito mais, tenhoi mais capacidade de explicar o que estou percebendo, tenho mais capacidade de te entender e pensar junto... bjs busca não quero depor, quero meu advogado... tenho que falar mesmo? de qualquer maneira? então espera que eu vou tomar dois comprimidos de uma vez só...um comprimido é para não depor, se tem depoimento, são dois comprimidos... do que eu tenho que falar? mas não fui eu o traído? não? a escumalha são os outros, faço questão que fique nos anais sim senhor... muito bem, não vou ficar deitando fora falação à toa, o senhor pode interrogar agora que tomei as pílulas azuis. sim, azuis, por que? vermelhas não, azuis. minhas pílulas não levam onde neo foi levado, minhas pílulas me prendem mais aqui, me deixam assentado nessa terra como o abacateiro da minha casinha... quando ela cuidava, o pé vivia cheio de abacates e a roseira cheia de rosas... agora não tem mais nada disso, agora só tem um terrenos baldio, árido e mal tratado, mas não é disso que o senhor quer falar, pois não? quero falar o que estou fazendo, quero contar que estou reunindo todos os papéis, todos os documentos para o dia da fogueira, para o dia de wicca, para a festa da deusa e dos duendes... tudo tudo vai virar fogo não como em alexandria [quem sou eu, meu amigo?], tudo vai virar brasa... eu estou queimando, estou com febrem estou quente, estou morrendo... mas quando eu morrer vocês não vão me tratar dessa maneira... por enquanto vamos ao interrogatório, pode perguntar... não, não terminei a leitura proposta e talvez nem venha a terminar porque minha cabeça está confusa, deve ser efeito da falta dos abacates, não sei... é falta de alguma coisa, falta de uma coisa enorme, de uma coisa profunda do tamanho do mundo... teria que me enfiar em baixo da terra e procurar pelos labirintos [´sem ratos, por favor], teria que procurar pelos labirintos até encontrar o que me falta... acho, para falar bem a verdade, que o que me falta sou eu mesmo, esse homem que eu procuro nos livros, que eu procuro da psicanálise, que eu procuro na química... acho que me falta encontrar esse homem e tenho medo de não encontrá-lo pelo mais simples dos motivos: porque ele não existe... mas pode comecar o seu interrogatório que agora eu já estou pronto. alienista r. está sentado atrás da escrivaninha e suas olheiras são profundas... ficamos nos encarando como dois sobreviventes da guerra passada... estamos velhos, digo a ele que sorri concordando... temos uma vida inteira para trás, tentando equilibrar, tentando me deixar compensado... não estou... mas quem está, ele me pergunta... me surpreendo vindo logo dele a pergunta que me repete: 'quem está?'... acho que ele quer dizer [e depois diz com todas as letras] que ele também não está, que o mundo não está, que nãpo dá mais pra agüentar, que a pressão é muito forte, que não poderemos mais suportar po muito tempo... já perdemos as esperanças, ele perdeu as esperanças de me salvar porque ele entendeu que não existe salvação, que foi um delírio, um entusiasmo de juventude dele achar que um dia seríamos realmente felizes... não há nada... apenas alfarrábios em sua mesa que ele nem se preocupa em consultar, alfarrábios empoeirados como eram os do pai dele... todos nós temos os nossos alfarrábios e deles nos servimos boa parte da vida, a outra parte abandonamos, deixamos pra lá, dexamos quieto... onde está a esperança de salvarmos nossas cabeças? não temos mais, a guilhotina é certa e certeira, nossa cabeça vai para o cesto, vai sem sangue porque não é essa a forma de decapitar... já nos decapitamos há muito tempo e não sabíamos, já tomamos toda a química que os laboratórios nos jogam em cima... somos o entulho, o rebotalho de um projeto que não foi avarandado tenho a impressão que vou me desfazendo que nem sorvete em rua de subúrbio em dia de sol... vou me desfazendo e não me refaço de novo, coisa mais curiosa, essa... rua de subúrbio ainda tem casa e tem vizinho... eu não tenho vizinho, você não tem vizinho, ninguém mais tem vizinho... eu queria ter vizinho que falasse comigo, apenas a cerca viva a nos separar, que fasse da torta de maça que não ficou tão boa, sobre a atitude do pai daquela menina que foi exagerada, a gente já pode deixar essas meninas namorarem, pelo amor de deus! queria ter vizinho que me emprestasse um pouco de açúcar, que me pedisse um baseado mesmo sabendo que eu não tenho... eu teria lá as minhas coisas para oferecer... um dia eu acho que vou ter vizinho que vai me emprestar o ancinho pra varrer a grama que está acumulada depois da poda do jardineiro, voiu chamar esse vizinho para tomar um café [eu café e ele uma pinga da boa] - - - - - > essa vida simples que a gente não tem e nunca vai ter a menos que enlouqueça... estou pensando seriamente em enlouqcer, mas não uma loucurazinha dessa furrecas que todo mundo tem por aí... uma loucura daquelas, brabas pra me botarem na casinha e me darem um vizinho que nem vai reparar em meinhas doidices porque ele vai ter lá as suas e via estar preocupado com a chuva que se anucia para aquela noite e todo o material está do lado de fora da garagem [eu vou ajudar a guardar, é claro] correspondências n°4 puxa vida, parece que a gente não se encontra mesmo... vi um e.mail seu dizendo que leu correndo minhas 50 laudas e não exergou porque a letra era pequena demais... perdeu os seus óculos? eu não vivo sem meus óculos... esse e.mail você não vai ler na sexta porque não sabe de sua existência e não enxerga direito... o pior é que aqui não tem opção do tamanho de letra, tem que ser assim mesmo... disse que era legal, mas se enganou, acho que se enganou, acho que pareço muito mais legal do que realmente sou... posso ser meio diferente dessa mediazinha que tem por aí, que você encontra a cada esquina... você vai pensar que eu fui futucar, procurar contradições, mas não é verdade, eu não fui procurar... mas olha bem: sou daqueles que nadam não em direção ao mar revolto e sim ao porto seguro...e de novo você vai perguntar porquê estou dizendo essas coisas, o que estou querendo dizer... e novamente vou eu responder que não quero dizer nada além do que está escrito e se escrevo é porque gostaria de estar falando, mas aessa hora você deve estar dormindo... amanhã, sexta feira você vai a um aniversário e eu vou estar trabalhando, como devo estar no sábado também... que deslizes, que metáforas, que mundos estamos vivendo que não nos encontramos... não vou á missa, vou ao psicanalista em quem acredito muito mais e com certeza vou contar pra ele essa nossa breve historinha e os desencontros dela.... pode ser que seu computador fique pronto [eu não acredito], mas pode ser... e de que serve um computador?... acho que a gente pose falar um pouco numa hora em que os dois estejam disponíveis... eu ia perguntar se você voltou atrás para desfazer as coisas que tinha que desfazer, assim como terá que desfazer com o seu marido também...e o que eu tenho com isso? nada. eu não tenho nada a ver com a vida de ninguém... descobri noutro dia que não tenhoa ver nem com a minha vida, que posso fazer a barba de costar pra não me ver feio, na frente do espelho.... agora eu te pergunto: tem algum narcótico homeopático? ia ser engraçado, não ia? a gente usar narcóticos homeopáticos...isso daria uma boa história... bom, vou parando popr aqui porque você já deve estar de saco cheio [se é que chegou até aqui]... tenho muita vontade de pegar um trem e ir para uma cidade próxima... não tenho o hábito, mas tenho certeza de que adoro viajar de trem, que no trem é que a gente resolve a nossa vida, numa estação perdida, dessas que a gente chega e não sabe se vai voltar... 8.7.04
defecar no jardim sim senhor estava explicando para sir que duas rodas são melhores do que quatro, porque em cima de duas rodas vou mais aonde eu quero, parece que fica mais fácil [parece não, fica] encontrar os meus mendigos e oa meus decadentes, minhas mulheres desdentadas e meus homens de calça rasgada, com a bunda completamente de fora... tenho vontade às vezes de andar com uma calça completamente rasgada na bunda porque a bunda deveria ser mais mostrada... não tem que bater no miserável nem levar para a prisão ... tem que ver aquela bunda mulata, suja, aquela bunda de quem já não tem mais preconceitos, de quem já perdeu todo a dignidade humana... pode ser que o homem só se torne verdadeiro quando consiga chegar ao chão, embaixo do chão, quando perca isso que chamam de dignidade humana, quando enfia a mão nas lixeiras e come alguma coisa lá de dentro, quando defeca nos jardins públicos, quando chora de verdade pedindo esmola para tomar cachaça... o novo homem, o homem moderno é sujo, tem a barba de 6 dias e a fome de 3... o homem moderno abandonou as roupas porque não tem mais dinheiro, ele só pode se mostrar, ele não tem nada para mostrar, então mostra a si mesmo e diz: olha, estou aqui, eu sou o joão e tive já minha carteira de identidade sim senhor e não adianta vir esse meganha querendo me assustar porque ele não tem mais nada pior a fazer comigo do que os deuses já fizeram, não pode me degradar mais do que a vida degradou... o meganha é um pobre coitado de uniforme que chora todo dia no ônibus quando vai para casa no subúrbio... todo policial chora de tristeza... chora porque prende e bate, chora porque seu filhinho chora e porque sua mulher olha, absorta e não vê que pai e filho estão chorando... a mulher não vê nada porque é cega, tem uma cegueira amarela, vê tudo amarelo, como se o mundo fosse impiedosamente amarelo. decadência paratodos a lâmpada era fraca e o fio antigo, ainda encapado com pano...sim, os fios eram encapados com tecido... lúgubre, triste, deprimente, essa era a sensação que tivemos ao entrar... fizemos o que tínhamos que fazer [não posso contar o que era] e saímos, fomos na velha farmácia, farmácia ainda grafada com ph e compramos os entorpecentes... já fui abrindo minha parte na rua mesmo e tomei logo dois compridos no primeiro bar que me serviu uma lata de coca quente... o efeito começa mais ou menos trinta minutos depois, mas agüentamos firmes porque só o que queríamos era estar entorpecidos, entorpecidos dessas pessoas caretas e chatas que a gente vê em cada esquina [eu vejo muito no espelho], essas pessoas que não querem mesmo saber da gente... toda aquela região da cidade é escura, meio sombria ou algo assim, talvez seja assustadora e eu não me assusto porque vou pra lá sempre dopada... as ruas são mal iluminada [com trechos sem luz nenhuma] e eu espero o assalto, a faca ou o canivete que pra me assaltar não precisa revólver não senhor.... entrei numa rua pequena, que fazia esquina com a maior... nessa rua pequena as pessoas dormiam no chão, cobertas com pedaços de papelão e vi restos de crack e cola de sapateiro... cola de sapateiro é a coisa mais bobinha que eu já tive notícia... por que as pessoas não freqüentam casas onde se fuma ópio com toda aquela opulência que a gente vê no cinema e lê nos livros? mas aqui é miserável, aqui não se dorme na rua com roupa puída e cobertor velho, dorme-se quase nu coberto com papelão, aqui não se vai à casa de ópio, o pessoal cheira cola... qualquer dia desses vou cheirar cola também pra ver se faz algum efeito, de repente é uma coisa muito boa e eu é que não estou sabendo... já começa a fazer o efeito o medicamento que tomei e já me sinto relaxado [logo estarei dopado mesmo] e continuo caminhando até o bar onde duas prostitutas velhas e um homem magro, feio e miserável tomam cerveja... me esbaldo nessa decadência...meu prazer agora é ver a decadência humana... o retorno de jasão dois Jasão senta em frente a mim para contar suas histórias, ele tem vindo de dois dias para cá e eu escuto, calado, calado não, respondendo para ele, falando com ele porque ele merece minha atenção... não foi por causa do que ele relatou ontem que eu vou ficar agora de pé atrás... não... procuro ouvi-lo, mas ele está calmo, está assustado, tem alguma coisa dentro dele que não está igual, não é como era antes, não é a mesma coisa... pergunto e ele me diz que está com medo, que não está conseguindo se concentrar, que não está entendendo bem o que está se passando em volta dele... diz que as pessoas falam e ele entende, mas não completamente.... de completo mesmo só o medo de ficar grudado de novo na cadeira, como ficou na peça dos anos 70... eu entendo, ele, entendo o que é ter medo porque também já tive medo e todo mundo já teve e tem medo... ele está ressabiado, é o termo, está ressabiado esperando pra ver o que vai acontecer, o que o futuro está preparando, diz, só que o futuro nunca esteve tão perto, é como se a morte e a desgraça [pior que morte] estivesse falando com ele com seu bafo forte, bafo podre e ele fica ali, parado, fazendo que sim com a cabeça e com todo o medo do mundo... diz que resolveu me contar porque só eu poderia ouvi-lo [por que?], que tentou falar com outras pessoas, mas não deram crédito, não ligaram a mínima e que eu ligava [e quem disse a ele que eu ligo mesmo?]... mas nada disso vem ao caso, o que vem é que hoje não está como ontem, hoje está melhor, mas não ficou bom, é como se a paralisia de ontem tivesse deixado alguma coisa nele, alguma coisa que não voltou para o lugar... ele me disse que quer muito voltar para o lugar, que está com medo de ficar assim para sempre, que está com medo de sentar [porque quem senta pode não levantar]... não sei, acho que jasão pode ser exagerado, pode estar mentindo, mas por que mentir para mim, por que inventar uma história só pra mim? Para me impressionar? Eu não me impressiono... diz que está andando devagar, pensando devagar e não quer nenhuma agitação do lado dele, como não quer também que o tempo passe, me pergunta que artimanhas eu tenho [sim, porque segundo ele, eu conheço as artimanhas] para fazer o tempo parar, para fazer o tempo andar em outra órbita, para eu fazer o tempo ter um movimento circular e, se já o tem, para fazer tem um movimento reto ou oblíquo ou qualquer coisa que a minha sapiência dite, ele faz qualquer coisa para enganar o tempo, como fez a menina morta em goiás [teresópolis], ele quer ser aquela menina que brinca com o tempo, que se torna um defunto leve... no fundo é isso o que ele quer... ser um defunto leve [mesmo levando a poltrona junto]... antes de ir embora, conta que ficou muito sensibilizado com a história da menininha e que deus não é bom, que deus cospe sempre... ele me chama de sobretudo [de brincadeira, imagino]...diz: bom, seu sobretudo, eu vou andando porque hoje é dia, hoje tem que tomar mais cuidado que nos outros dias da semana [não sei porquê], hoje a bruxa está solta, ela se soltou ontem e não parou de esvoaçar ainda, está esvoaçando em cima das nossas cabeças até falar com a senhora das cabeças amanhã [e não garante que a senhora tenha a solução]... o que eu sei é que ele está estranho e eu não tenho muita coisa pra responder... fico olhando para o relógio discretamente, olhando e pensando que minha motocicleta está parada lá embaixo esperando que eu monte, esperando que eu saia pela cidade para fazer a ronda, esperando minha companhia para vermos como estão as ruas e depois contar aqui... digo a jasão que tenho um compromisso, preciso sair e ele levanta [com medo e cuidado] da cadeira e vai embora também, andar devagar, olhando onde pões os pés e pousando o próximo depois de levantar o outro, se me entendem deu no globo, senhoras e senhores! Ana Vida nasceu e morreu... além de ter vida no nome, teve uma vida muito peculiar... a mística do tempo fez com ela a brincadeira do aqui e ali, do vai e volta, do pega, mata e come... Ana Vida nasceu e morreu como todos nós nascemos e morremos, e desafiou os magos e os céticos, a natureza e as marés porquanto navegou num mar escarpelado de noite sem lua... sem luar... a mãe é vida também [e continua viva], símbolo do que pode ser e não é, do que teria sido se tudo fosse de outra maneira... tinha um padre velho e rubicundo de batina surrada, dessas que não são mais pretas como a morte, são dessa cor sem cor que não sabemos como chamar, podemos apenas ver que é padre porque tem aquela aparência de corvo, [os corvos sim são pretos]... teve e história do padre que achava a mãe da menina uma louca e queria que ela dessa a luz a Ana Vida, mesmo sabendo que ana não teria vida... a morte anunciada é a morte de todo mundo, dizem para mim, quem não tem lá a sua morte anunciada? Quem não sabe que daqui a uns minutos vai não ser, vai ser corpo morto e fedorento, com moscas e tudo o mais? Todo mundo tem morte anunciada e ana também tinha e foi assim que aconteceu só que dessa vez com a anuência do sr. Tempo que resolveu dizer antes do nascimento, quantos minutos ana vida teria vida... a igreja tocou bumbo, o juiz de preto não fez nada porque pra tudo não há tempo... porque eu corro junto com todo mundo para ver o não tempo de ana que a mãe de gozação chamou de vida... ana vida não tem vida porque para ela o tempo foi menor, para ela a vida foi mais dócil, disse que era uma passada rápida, não daria tempo nem do arcanjo se dar conta do que estava acontecendo... foi só pra esvaziar mesmo a barriga [murcha] da mãe e dar alegria ao corvo de batina sem cor, tentando ser preta e sendo nada... no final da brevíssima [e mótrbida] história o jornal diz que ana vida tinha anencefalia que não ia sobreviver... mentira, mentira, pegadinha do ratão, quem tinha anencefalia era o pároco falcão, diapasão, corvão que deixou tudo acontecer... ele também vai morrer, mas viver mais do que sete minutos, ele viveu para atrapalhar a vida da mãe de ana vida que sabia que não teria vida a paralisia de jasão - primeira parte A cadeira não é uma cadeira, é uma poltrona confortável como a que sentava o ator no fim de jogo [anos 70]... no início eu achei que ia ler alguma coisa mais específica, como o livro que venho devorando, mas não conseguia sair daquelas duas páginas, indo e voltando como uma bateria de automóvel que não quer pegar... achei que ler o jornal seria mais proveitoso, ocuparia menos atenção e essas coisas todas que a gente sabe que não consegue fazer em determinados momentos... minha boca estava um pouco aberto e meus olhos úmidos, como quem vai ou já chorou muito [mas não chorou]... pensei que era alguma coisa passageira e pensei [apenas] em pegar o jornal... não entendi porque o meu corpo não respondia, como se a cabeça mandasse e ele não escutasse...fiquei assim por alguns minutos, esperando a novidade passar... senti vontade de fumar e o cigarro também não estava perto... não consegui me levantar para apanhar o maço nem o jornal, o corpo todo paralisado... só então percebi, aos poucos, que estava paralisado que eu estava grudado na cadeira como um boneco de pano velho e não ia sair dali... fiz mais algumas tentativas e não consegui, nada me fazia sair daquele lugar, daquela posição... minha cabeça continuava a funcionar normalmente o que me fez pensar que devia ter tido um derrame [como nunca tive não sei como é, pode ser assim]... mas se tive um derrame, como vai ser? Podia ser que, por algum motivo, estivesse catatônico [nunca estive catatônico antes e também não sei como é...] e assim o tempo foi passando, de vez em quando eu fazendo algumas tentativas de me mexer sem nenhum sucesso até a hora que me conformei que não ia mesmo conseguir, que estava mesmo completamente paralisado e não importava o que a minha cabeça mandasse, o corpo não ia atender mesmo... assim fiquei por horas seguidas, umas quatro, creio eu, nessa história do corpo não respeitar a cabeça.... de noite, muito aos poucos os movimentos voltaram e liguei correndo para a médica que trata de mim... ela disse que não sabia o que me tinha acontecido e marcou uma consulta para dali a dias.... depois, um pouco depois dormi, um sono entorpecido e acordei e dormi de novo e acordei de novo com o barulho das dobradiças da porta que ia e voltava com o vento... escrevo correndo aqui porque não sei se vai voltar, ninguém sabe o que aconteceu e pode voltar agora ou não voltar nunca... pode ser que nunca mais eu escrevesse aqui e se eu não escrever, saibam todos e usem as fanfarras, posso estar morto, é bem verdade, mas posso simplesmente estar ali, sentadinho na cadeira como um boneco de pano, com a cabeça mandando e o corpo rindo e posso também ir na minha médica e ela dizer que não sabe o que foi por não saber mesmo ou para não me assustar para eu continuar assim, dócil como uma criança 7.7.04
eu tenho a impressão que existem algumas 'não horas' em nosso dia... são momentos em que passamos parados sem conseguir pensar em nada direito, sem saber o que queremos fazer e olhamos para o jornal [ainda fechado], para o último auster [já relido] . para o outro livro que vamos começar e para o que estamos lendo... esse movimento [não movimento?] é vácuo, não acontece... o que eu posso dizer dessas horas, o que eu fiz, onde trabalhei, o que estudei? nada, absolutamente...tenho a impressão que nesses momentos deixo de ser eu e passo a ser outro, passo a ser um personagem de mim, eu "eu" vagabundo, o meu duplo que não sabe onde está, em que consciência cósmica... isso acontece diariamente entra ano sai ano, durante muito tempo seguido e já começo a me acostumar.... tenho então que aumentar o meu tempo, aumentar o meu dia, ter um número de horas maior... acho que os meus dias estão tenho 29, 32 horas cada um... mas isso não é tudo... o que impressiona é que esses momentos de ausência [daqui] estão se tornando mais úteis, acontecem mais coisas nesse não acontecer do que no acontecer...o não dia é mais que o dia, não fala é melhor do que o discurso, a inércia produz e traz algumas coisas de bom, alhumas coisas que podem ser trabalhadas, conceituadas nesse outro.... aviso então que, pouco a pouco o outro toma forma - esse se apaga, morre, deixa de ser ele mesmo para dar espaço ao que não tem espaço, ao que não faz [e acaba fazendo]... e se este outro que não sabe o que faz, que fica parado, está fazendo, então não há mais o que discutir e tudo o que escrevi nesse post não é... esse é um post que não devia existir porque ele se nega, ele se anula, ele fala do que pensava que não existia, mas existe... ele é, então um texto para ser colocado em outro sítio, em outro blog ou para ser jogado fora, para não ser lido, considerado... é preciso que o eventual leitor esqueça que existiu, que leu, que foi escrito... vizinha Quando me encaminhei pelo corredor [normal] para o andar aqui de cima não imaginava nada, parecia mais um ataque de sonambulismo ou alguma coisa metafísica [os fantasmas desse prédio], alguma coisa que me levava para lá... eu sei também que o vou narrar já foi visto num filme [terá sido mesmo ou esse filme é imaginário?], mas fui, firme à principio e cambiante depois rumo às escadas de incêndio que me levaram ao andar superior... lá, todas as luzes estavam apagadas e eu nada via... não podia divisar as portas dos outros apartamentos... não tinha um propósito muito firme, mas algo me diz que ia falar com a minha vizinha, a aeromoça. A lourinha de olhos de mar que vejo chegar em horas adversas ainda no seu uniforme... mas não via as portas, parecia mais que não haviam portas e tudo era breu... caminhei um pouco, pé ante pé como fazem aqueles que não enxergam e não têm a experiência do cego... já não me preocupava com o que tinha ido realmente fazer quando bati a cabeça em alguma coisa que vinha do teto, algo com uma quina viscosa [que não coloquei a mão por nojo]. Sei que minha testa ficou viscosa também e só muitos dias depois lembrei que bem poderia ter sido sangue, mas segui tateando no escuro, andando sem saber onde nem porquê... minto: onde eu sabia, era no andar acima do que eu moro, porquê realmente não lembrava mais [brindado mais uma vez pela minha amnésia recente]... muito tempo depois me dei conta do forte cheiro de queimado e lembrei daqueles filmes B, filmes de incêndio, tal como se o prédio tivesse pegado fogo, nesse caso não o prédio, mas como por mágica, apenas aquele andar... segui mais adiante até ouvir a mulher [seria uma criança?] me perguntar o que eu queria... queria uma lamparina, respondi entre irritado e assustado e ela me disse que não havia nada para ser visto ali, que ali não era o meu lugar e sim no andar de baixo, que retomasse às escadas para baixo.... nem ela atinou que, à essa altura eu não sabia mais onde se localizavam as escadas e continuei tentando acostumar a vista ao negrume [intento que fracassei cabalmente]... se fosse realmente o tal impossível incêndio, estaria então minha vizinha aeromoça morta? Com toda a certeza a menos que, na hora do sinistro ela estivesse trabalhando, voando, porque voar era o seu trabalho, mas não, ela poderia estar morta mesmo assim, enquanto aquele andar inteiro pegava fogo o avião dela poderia ter explodido sobre o oceano atlântico [em mil ou mais pedaços] e os operadores de vôo poderiam ainda estar dormindo ou tomando café e de nada saberem... assim lá se iam trezentos e tantos passageiros e minha vizinha para o espaço [literalmente]... queria continuar essa narrativa, mas não posso porque o computador, essa máquina mil vezes maldita está com algum defeito que não me permite ir em frente o telefonema da madrugada faz o tempo mudar seu rumo, tornando a noite dia e o dia noite [como de fato é].... sei que me reverto, seguindo o caminho proposto e não quero fazer, mas faço talvez por fraqueza, talvez justamente pelo contrário, por sentir-me forte e bravio o bastante para vivenciar essa experiência esquizofrênica e sobreviver a ela [até o dia em que não sobreviva} - mas o que posso fazer? com certeza é o bule de café que tomo até a uma da tarde que faz seu efeito retardado jogando-me de encontro a essa cama e a essa poltrona repetidamente enquanto o relógio segue seu rumo bovino... bom, não sei explicar e não tenho mesmo porque explicar, apenas falar que não achava a noite tão atraente assim e agora acho porque me ocupo disso e daquilo e, cada dia mais, consigo acordar mais cedo...com isso, estou atrapalhando todo o projeto do R., mas ele deve me entender [já teve tempo para isso] ou então desistiu de vez... não importa. cartas I aqui vai a terceira e essa eu prometo bem curta para não te atrapalhar mais do que venho fazendo durante esse dia [chuvoso?]... na verdade apenas para contar que vou indo com minha leitura de vento em popa, que a madrugada não me assusta, ao contrário, estimula... me faz ver que em breve você estará levantando para mais um dia normal, um dia dos normais quando eu estarei entorpecido de soporíferos, de pensamentos e desejos [ou nenhum dos três, simplesmente sono]...como disse não vou mesmo demorar, apenas insistir nos bules e pipetas, te dizer para que tome cuidado, para dizer que pensei nos papelotes de homeopatia [acho que sonhei com isso] e não consigo mesmo voltar atrás naquilo que, carrancudo, acredito [quer dizer, não acredito]... não, tudo isso é uma brincadeira com você lembrando sempre que este deve ser o terceiro a ser lido, o último, digamos assim [bem verdade que agora você já o leu praticamente na íntegra]... a azia me incomoda e vou me embebedar de leite [embora um médico certa feita tenha me dito que, embora alivie na hora, o leite faz mal a azia]... bem, vou ao leite e deixo você finalmente em paz para a jornada de trabalho, espero que agora sem curiosidade, vendo que era mesmo coisa sem importância, que eu escrevo só por escrever [embora escrever para você tenha um significado especial que está nas tais entrelinhas que falamos mais ou menos... mas não. as verdadeiras entrelinhas não estão no que está escrito, as entrelinhas estão no olhar, estão no abraço, estão exatamente no que não consigo nem conseguirei dizer bom trabalho 6.7.04
possibilidade de correspondência [tirada da real] não, não, não.... você vai ler ao contrário porque esse vai estar em cima na sua caixa de mensagens, mas esse é o segundo e.mail, tem um antes.... resolvi escrever esse porque a gente falou no telefone e muitas coisas que eu disse no primeiro perderam um pouco o sentido ou perderam mesmo todo o sentido.... primeiro que ele está escrito muito certinho, parece carta de repartição pública e eu não sou assim, acho que estava te [me] enganando... não esse engano babaca que os homens fazem que é enganar com outra mulher ou enganar trocand de cueca... não é um enganar muito mais profundo, um enganar cerebral, um enganar que vem da filosofia [alemã?] ou da psicanálise [vienense?].... não sei.... não sei se era exatamente aquilo que eu queria dizer, com certeza em parte era e em parte não era [como tudo na vida, não é?]... o outro escrevi no word, esse escrevo aqui mesmo direto, na veia feito heroína....tinha uma música assim, não é feito tatuagem, que é pra te dar coragem, quando a noite vem.... por falar nisso eu tenho duas tatuagens nos braços, um dragão e um tubarão, só que são tatuagens chinfrins, descoloradas que eu fiz quando era jovem, quando não se faziam tatuagens [e ontem não estava de brincos porque estou sem barba].... mas voltando à correspondência anterior, não sei se era bem aquilo, acho que estava um pouco bem comportada demais para mim, eu não sou um menino bem comportado, sempre fui mal comportado, desde que era adolescente [como hoje o meu filho é].... fiquei pensando em você na cidade, você pensando nas piranhas e eu nem ligando, pensando na cafonália, no lixo, na escória humana que se reúne no centro da cidade depois do expediente.... é a coisa mais horrível, mais inominável que se pode imaginar... tem até um nome que você falou e eu já esqueci porque tenho amnésia [não esqueça nunca!]... você naquele lugar.... sabe quando eu iria a um lugar como esse? nunca. n-u-n-c-a... não pelas prostitutas que essas não me incomodam, mas pelas pessoas e vi que você falava ao contrário , pensava nas prostitutas... será que a gente pensa tão diferente assim? será que você também não conseguiria me ver de brincos e tatuagem, teria preconceito.... já imaginou, estou escrevendo e rindo porque a coisa é engraçada, eu com um livro de poesia aberto, andando pela praia e lendo poesia do meu amigo wally, eu de brincos e você envergonhada, você comentando depois, viu só o que era aquilo e tudo o mais... no dia seguinte no centro do rio, o sub gerente, o vice gerente, o gerente e o gerente-mor... todo mundo em volta e você contando que eu andava pela praia com uma flor enfiada nos cabelos, de brincos e bradando uma poesia doida... pois esse sou muito mais eu do que aquele de ontem - bem verdade que aquele de ontem também existe, auqle de ontem é o do dia a dia... aquilo é o meu 'terno e gravata', eu não posso ir trabalhar de bata [quando o caetano usava bata, eu, tiete, usava também. verdade!]... mas aquele de ontem sou o eu executivo, o eu que trabalha, o que transita na cidade sem chamar atenção, mas tem um outro, como também tem outro que não vou falar agora porque você não pode levar tudo assim de uma vez no plexo solar, porque eu sou muitos, nossa, quantos eu sou... tá, essa correspondência tá mais verdadeira que a anterior [não esqueça que você tem que ler ao contrário]... eu fiquei aqui pensando no espanto de eu não dormir ou dormir às quatro e acordar ao meio dia e produzir pra caramba de montão.... quando você vai ao cinema, ao teatro, quando liga a televisão não tem umas coisas lá que te entretém, que você paga para ver? pois então, se você vê é porque alguém faz e quem faz somos nós, esses eu que eu te represento e assusto... acho que vou assustar demais e você não vai agüentar, mas não se incomode que, nesse caso, eu vou entender muito bem.... sabe? no fundo eu sou bom camarada, sou bom entendedor...e pra bom entendedor... nenhuma palavra basta, não é mesmo? meu deus, eu aqui falando de mim [é verdade que de vez em quando eu dano a falar de mim] e você aí perdendo o seu tempo, as fórmulas aí por cima espalhadas...sim, porque vejo você no meio de pipetas, tubos de ensaio, bicos de gás, líquidos multicolores e essas coisas todas que os alquimistas usam... porque você não deixa de ser uma alquimista não é verdade? caramba, quando eu contar pra alguém que conheci uma alquimista de verdade!... depois as pessoas duvidam de mim!.... é isso é só pra mostrar a possibilidade de correspondência n° 2.... se tiver tempo, mando a possibilidade 3, a 4, etc. que você vai acabar não lendo, de saco cheio e sete sub gerentes em volta de você mostrando o relógio o telefone fixo é um objeto em extinção completa... não tem mais porque falar no telegone que é chato, caro e babaca... muito melhor as pessoas se falarem pela internet e usarem os celulares que vão ficar quase de graça e ter múltiplas funções... não me lembro de outra coisa que eu tenha visto desaparecer [ tudo bem, o telefone fixo ainda não desapareceu e eu posso morrer antes que isso aconteça].... lembrei: vi desaparecer as garrafas bojudas de leite vigor que a gente deixava diariamente na porta de casa antigamente tinha ali aquele bar com a roda d'água e a garotada ( eu no meio ) íamos muito para lá. isso já tem muitos e muitos anos, eu devia ter meus 14, 15.... era ali mesmo na urca... será que ainda existe? uma mulher [amiga] que sempre me foi enigmática escreve que até o final do próximo mes vai morar dentro da internet. fico pensando nisso dois dias e duas noites porque aindei falando e pensando nesse negócio dia desses... acho que já existe gente demias morando dentro da internet, existe mais gente dentro do que fora... tudo bem que elas não percebam, como a gente não percebe quando está embriaagad nem doidamente apaixonado (de verdade)... não importa. vou escrever uma correspondência eletrônica para ela avisando que não fale nem pense nisso [nem de brincadeira], que não existem mais as catedrais nem as babéis dos nossos sonhos... a internet é clean, mas é fria, não, não é clean não, é suja, é borrada de tinta pixerizada e prende as pessoas da maneira mais covarde porque não há sonho nem poesia que possa resgatá-las... ela escreve que não está lendo correspondência eletrônica e se for assim mesmo vou até a casa dela pra falar pessoalmente... minha missão nesse mundo de agora em diante será salvar a humanidade da internet, tal como fez dom quixote, talvez sem toda aquela verve [quantos cervantes existem? dois: o escritor e o bar dos sanduíches - que já foram muuuuiito melhores - que se percam na loucura que bem entedenrem, que me procurem ou me abandonem de vez, mas não entrem para morar na internet, essa é a minha volta, sobretudo, a missão No inicio do caderno tem a cena mais do que manjada do paralítico na cadeira de rodas, num penhasco em frente a um mar bravio... o terreno é em declive, fazendo-nos supor que a cadeira está travada para não cair penhasco abaixo... a mulher vem por trás, aproxima-se vagarosamente... não vemos o paralítico na cadeira...corta para um close do olhar malévolo da mulher... já vi em mil filmes essa cena, ela vai jogar a cadeira com o infeliz lá embaixo no mar bravio que se choca com as pedras... insisto em que já vi essa cena vinte vezes em filmes A, B e C... ainda assim estou fazendo essas anotações no caderno... a mulher chega, finalmente à cadeira e [susto!] o paralítico se levanta rapidamente: corta para seu semblante perspicaz e vem abrindo para plano médio onde se vê um revólver em sua mão.... ele vai reverter a situação e vai matar a mulher.... mas esta também pode empurrar a cadeira rapidamente não dando tempo para que ele puxe o gatilho... sabemos apenas que alguma coisa vai acontecer... e nesse exato momento a garota entra na frente da televisão e muda de canal porque quer ver o jogo de futebol... eu grito dizendo que ainda não está na hora, que estou vendo um filme, mas ela quer ouvir aqueles comentários idiotas do narrador sobre o tempo, sobre o público pagante e blá blá blá... eu não agüento e aperto o pescoço dela, aperto com mais força e vai me dando uma alegria danada ver aqueles olhos aterrorizados para mim, aquela pele do rosto ficando roxa, os olhos lacrimejando... paro então de escrever porque recebo um telefonema... R. me convida para sair, pra gente se encontrar... não sei o que fazer, sei que tenho que tomar um banho e ir... vamos na urca, tem um barzinho em frente à praia vermelha e lá estão as ondas se despedaçando nas pedras...conto para ela que estava escrevendo exatamente sobre isso, conto a história da cadeira de rodas, mas vejo que ela não acredita em uma palavra que eu digo... acha que estou fazendo tipo.... estou? 5.7.04
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tudo bem sir montanha de buscas... pensei no papo a noite inteira e de manhã já estava pesquisando onde encontrar o livro... loucura...tá esgotado em todo lugar, caiu mesmo na boca do povo... mas eu sou chato [todo mundo sabe] e consegui um [último] exemplar.... também já sou feliz possuidor de um campos de carvalho só meu... agora me agüenta alguém já viu a insígnia da polícia de nova york? parece uma careteira de cigarros e muitos policiais usam numa correntinha pendurada ao pescoço... bom não sei se é exatamente assim, mas que vê bastante filme policial tipo lei e ordem sabe do que estou falando... pois bem: arranjei um bloquinho mínimo [que cabe na palma da mão] e pendurei no meu pescoço com uma correntinha... assim tenho como anotar as coisas que eu penso e lembrar até chegar ao local... porque já cheguei nesse nível... vou no banheiro apanhar a tesoura... chego lá: o que eu vim fazer aqui? sem título específico....pode ser...gatos quando eu acordei hoje de manhã com o ruído infernal do meu despertador, depois da noite complicada, dos papos complicados que eu tenho de madrugad... quando acordei os gatos aqui estavam em polvorosa... não corriam brincando como fazem de vez em quando... corriam desesperados, com os pelos eriçados, rosnando para mim e um para o outro.... acordei shiriro e falei para ela que estava acontecendo alguma coisa estranha mas ela me fez um bah com mal hálito e nem ligou... o rabo dos gatos estavam enormes, com os pelos em pé... tenho a impressão de que aluém já se suicidou nesse apartamento... há muito tempo eu tenho essa impressão e nunca falei nada para me manter distante da clínica psiquiátrica do meu terapeuta... mas esse negócio dos gatos me deixou assustado... porque o negócio é o seguinte: eu tenho um medo de fantasma que me pelo... pro pessoal eu nego, digo que é tudo bobajada, mas na hora em que me vejo com eles aqui, ave maria... acendi um incenso por via das dúvidas... na casa de campo, minha bruxa particular acendia sempre para os espíritos da floresta e dava certo [pelo menos até onde eu sei] - eu é que não dei certo... santo? uma e dez da manhã e sono zero.... a sorte é que tem alguém que posso ligar...descobri uma pessoa que não dorme à noite, que não tem compromisso com nada, não quer saber de nada, não quer ler, trabalhar,estudar.... não quer nada... diz pra mim na maior cara de pau que é isso mesmo, que é assim que quer viver, que enquanto a mãe sustentar vai continuar assim... eu na hora fiquei meio com raiva, lembrei desses empregos chinfrins que a gente tem, mas....pensando bem, o que eu posso querer mais da vida do que uma CVV particular, do outro lado da linha, à noite inteira? eu encontro essas peças por aí, por esses buracos onde ando, por esses lugares de gente perdida igual a mim, por essaspartes da vida que são proibidas para moças de bom trato... eu sou um gato velho e sem bom trato e vou me juntando aos meus, vou dando vazão a tudo isso com meus iguais que [dizem] não serem legais... mas pera aí? quem é legal, afinal? eu quero saber exatamente o que é ser legal porque eu já ouvi de tudo e todo mundo acha legal.... viviado em crack acha legal, neo nazista acha legal, prostituta e travesti acham legal, ladrão acha legal, padre acha legal....ontem encontrei uma mãe de santo... pode? mas essa eu conto depois... agora vou para o meu CVV particular um bom canivete ele me chamou e eu quase não percebi porque metrô é uma coisa muito confusa, é uma coisa de maluco....fui até ele, cheguei bem perto mesmo, sem medo... perguntou se eu tinha estado com ela e respondi que não... tudo bem, foi a mais deslavada mentira que contei nos últimos anos, mas por que eu tenho que ficar dando satisfações se eu estive com ela ou não para um cara que eu sei que é o gigolô [sim, gigolôs ainda existem - e aos montes!].... não estive com ela, repeti com o olhar desafiador e ele acreditou... andamos um pouco juntos e paramos para comer uma empada... ele me disse que não a vê há muito tempo e que "está preocupado"... nunca vi gigolô preocupado [pelo menos nesse sentido], mas encarei: "ela não tem aparecido em casa?"... ele me disse que não, que não tinha contato com ela há mais de dois meses e que ninguém sabia informar nada [quem seria o louco de contar?] falei que era uma questão de tempo, que ela ia aparecer e eu falei isso com uma cara tão séria, tão compungida que acho que ele acreditou... talvez sim talvez não... olha, deixa eu explicar logo uma coisa para a história não ficar mal contada... esse papo de gigolô sou eu que digo, não sei se é verdade, não deve ser, porque ela não precisa de gigolô, ela é legal, boa gente... é burra, tudo bem e, pior, não é loura, mas é burra... de qualquer maneira ela tem estado comigo regularmente e o bigodinho fino e ridículo dele é que me inspirararam a chamar de gigolô, mas agora estou vendo que estou começando a escrever a sério, estou começando a pegar pesado e resolvi agora falar as coisas aqui um pouco mais claras, falar para valer, falar só pra deixar alguma coisa escrita, alguma coisa que possa ser conferida quando eu bater as botas [quanto tempo tem um cara de 49 anos, fumante inveterado e vida sedentária?]... comemos as benditas empadas e saímos em direção à av. chile....chovia e e eu comprei um daqueles guarda chuvas pretos que custam cinco reais e só duram uma caminhada... saí com ele em baixo da chuva e tudo, andamos até a rua da carioca porque eu estavaèm busca de uma cutelaria discreta para comprar um canivete... porque isso é verdade mesmo, se não posso andar com meu trinta e oito na cinta, pelo menos um bom canivete, vou levar tava conversando aqui com sir montanha de buscas....é isso, ele é uma montanha de buscas... e entendi algumas coisas que têm andado erradas no que tem que ser dito... pode ser que eu acerte ou não, mas não custa tentar... contei a ele que ontem dei um giro pelo cais do porto...aquilo lá está completamente modificado [para pior]... não tem mais o contêiner que sonhamos um dia fazer um bar para os motociclistas, não tem mais espaço pra gente andar e as putas são cibernéticas.... [não me lembro onde escrevi sobre o travesti que sentava sempre no banco da praça do lido ao meu lado], mas isso não vem ao caso... aquela região é outra... não tem mais a sujeira verdadeira, hoje é uma sujeira clean, bobinha, sujeira pra madame inglesa ver... nada de interessante... não tem aqueles camaradas barrigudos e cheios de tatuagem, não tem puta velha, não tem rum... decido então que lá não é mais o meu lugar nem o do sr. montanha de buscas... já avisei a ele... lá, não mais... vou tentar novamente aqueles becos, aquelas vielas ali da saúde... aqueles lugares escuros que não tem bonde de traficante, que ainda tem batedor de carteira.... é isso o que eu quero, eu quero um batedor de carteira [atrás de mim]... Fim do Dicionário Facilitador ´Comprem um Vibrador tentei explicar mil vezes mas ninguém entendeu nada... ficam só me mandando essas cartinhas indecentes, dizendo que sou pedante e não sei mais o quê por causa do dicionário facilitador que publiquei aí ao lado... antes, me escreviam perguntando a que eu estava fazendo referência nessa ou naquela crônica... cheio de boa vontade, procurei na memória algumas coisas que fizeram a minha cabeça e coloquei lá... não adiantou nada... aí as pessoas [que tem preguiça de ler me vêm com essa de que eu sou pedante ou então que eu sou difícil... portanto, retiro o que disse, esqueçam o que eu escrevi... se entenderem as referências, ótimo. caso contrário: fodam-se! 4.7.04
P. tentei falar um pouco com P. sobre o labirinto que é a internet e sobre como vamos nos viciando e entrando nela sem podermos sair, tornando-nos prisioneiros, tornando-nos não-pessoas, apenas pixels e uns e zeros.... falo dela como de outros, como de mim... falo de todo mundo... a internet só pode ter como função a publicação de obras e a pesquisa, nada mais... o entretenimento e a interatividade são completamente frágeis num ambiente em rede... é verdade que acontecem, é verdade que eu conheço um homem que se despersonalizou completamente, deixando de ser ele para ser apenas um apelido, um nada.... umas letrinhas.... esse homem aos poucos abandonou tudo e todos, pais e filhos, amigos e trabalho, abandonou tudo e virou uns e zeros, esse homem deixou de existir, passou sua vida para o lado de lá... o computador caseiro tem a capacidade de levar um homem para dentro dele, não permitindo seu retorno porque, pela modernidade, ainda não se pensou nisso, ainda não existem "salvamentos" nem tratamentos nem terapias... os outros ficaram olhando esse homem ir embora, sumir no bueiro do seu PC como sumiria da privada de sua casa... esse processo aconteceu a não muito tempo e imagino que muitas outras pessoas já tenham sumido... acho mesmo que deve existir um número enorme de pessoas desaparecidas, dadas como desaparecidas que não o estão realmente... estão em algum lugar, atrás de um PC, relacionando-se, fazendo transações bancárias, alimentando-se, tua via rede... essas pessoas não mais apareceram nas ruas nem para seus parentes nem amigos... a polícia logo se desinteressa desses casos achando que a pessoa morreu, mas sem corpo, não há morte... então... o que fazer? nada: esperar aparecer a pessoa [desmemoriada talvez] ou o corpo em tal estado de decomposição que não se terá mais como avaliar a causa da morte, se foi morte morrida ou morte matada... centenas, milhares de pessoas nessa situação... são não-pessoas, são zumbis do universo em rede e que nem lá poderão ser achados já que buscam outras identidades e mudam essas identidades a seu bel prazer... porque tem isso.... existe uma regra não escrita, um mandamento de um deus punk cibernético que manda as pessoas mudarem constantemente seus nomens, suas senhas-identidades e tudo o mais... essas pessoas então vão mudando e mudando e se perdendo e se afundando num processo sem volta... a pessoa de quem falo não é mais encontrável.... sei dele porqu, quando não tem nada para fazer, não tem nenhuma atividade em rede, me manda correspondência [eletrônica} contando como está vivendo,,, quando leio, tenho a impressão de ser uma pessoa despersonalizada, uma pessoa que não é aquela que eu conheci nem mesmo um arremedo daquela... tenho certza de que se a encontrasse na rede não a reconheceria... seus modos, suas ações, suas opiniões, sua filosofia, seu palavreado, tudo mudou radicalmente e fico imaginando que não seja apenas uma mutação, acredito que ele continua mudando de tempos em tempos, cada vez sendo um e cada vez mais sendo o nenhum referente àquele que conheci... sua família não tem onde procurá-lo porque nesse universo não há rostos e os que hão também são mutáveis via photoshop ou falsos porque se usam retratos falsos... não há como ter as mães da praça de maio na internet... e que mundo é esse sem aquelas mães chorosas por seus filhos sternamente sumidos, sugados pela ditadura... não sabiam elas [e morreram sem saber] o que é realmente a ditadura... a ditadura da internet é muito maior, muito mais potente e inexorável do que qualquer outra já chegou perto de ser... sim, porque o universo em rede é um processo extremamente ditatorial.... quando se fala na liberdade da internet, na capacidade de interagir, não se está levando em conta o ônus, o preço a pagar... isso que chamamos aqui liberdade tem um preço caríssimo, um preço impagável... só podemos pagar com a nossa própria despersonalização, com a nossa vida ainda borges O jardim das veredas que se bifurcam é a minha mais nova aquisição a preciosidade que mais admiro.... trata-se de um pequeno conto de jorge luis borges e posso dizer que [agora] o considero melhor do que o aleph... tenho que confessar entretanto que não o descobri na leitura laboriosa da obra completa de borges... não. Estava lendo um trecho do ¿porque ler os clássicos1 de Calvino e ele cita esse conto... fui então às obras completas de borges e o achei... a idéia do labirinto e do livro interminável lá estão deixando-me estupefato com tamanha beleza e complexidade em tão poucas páginas... borges se supera sempre e me surpreende cada vez que recorro a um de seus livros.... na verdade não conheço borges há muito tempo... conheço a menos de vinte anos e conheço muito pouco de sua obra... acho que falo mais dele do que realmente o leio...conheço alguma coisa como todo mundo deve conhecer... pois esse é o meu mistério eu conheço apenas o que todo mundo conheço talvez um bocadito mais e falo dessas coisas que conheço e prezo dando aos outros a impressão de conhecer muito... seria covardia manter essa imagem... tenho dezenas de livros que nunca abri, tenho outros tantos que comecei a ler e parei pelos mais diversos motivos... mas os livros estão na minha casa [ na verdade eu gostaria de ter um bruta biblioteca] simplesmente porque gosto da presença dos livros, gosto de colecionar livros como poderia gostar de colecionar selos ou miniaturas... mas os livros têm uma coisa mítica e quando você vê centenas, milhares deles alinhados acha que o proprietário é um erudito... isso não é verdade... eu até entendo que num país como o brasil em que ninguém lê nada eu acabe conhecendo alguma coisa, mas é muito pouco... tenho que fazer essa confissão, esse depoimento nessa tarde de domingo em que me encanto com esse novo conto de borges [logo eu que falo tanto dos imortais e do aleph]... conheci borges numa mesa de bar, tomando vodca e vendo B. me falar dele... comecei a ler uma coisa e outra a comecei a me interessar por seu universo mágico... porque eu vivo num universo mágico, minha cabeça é labiríntica à maneira de borges e isso tudo foi fazendo eu me afeiçoar, eu citar e mesmo, confesso, desprezar um pouco as pessoas que não o conhecem...na verdade o que eu tenho é uma puta inveja dele, inveja da sua capacidade de escrever sobre o improvável, sobre o mítico, sobre o sem fim e escrever muito e ler muito e ter um conhecimento de literatura brutal... sim, tenho que confessar aqui minha inveja de borges que em tudo era surpreendente até ao casar com sua enfermeira... esse desprendimento das coisas terrenas em troca de dar asas à imaginação, em troca de entregar todo o seu tempo à leitura e à escrita... quantos homens fazem isso de verdade... tenho inveja da cegueira de borges porque se fosse cego poderia atribuir a essa deficiência minha ignorância, mas nem isso... continuo escrevendo os intermináveis diários em cadernos que estão aqui e ali, mas neles não há nada de genial. Sequer de interessante... as histórias também me saem, mas chochas, sem sal, sem amoção... o realismo fantástico vem de borges e não dos autores que escreveram eram os deuses astronautas... tenho muita coisa a ler de borges e acho que um homem pode dedicar toda a sua vida apenas a conhecer a sua obra e mesmo assim corre o risco de não compreender tudo... não ler tudo ou não dissecar tudo... sobre o livro interminável, de forma circular onde a última página seja sempre a primeira é uma criação borgiana, mas fico pensando aqui nesse blog se ele não é uma versão moderna desse livro porque quanto mais eu escrevo, mais espaço me aparece para escrever e o escrito vai sempre ficando para baixo, juntando-se posteriormente em arquivos que podem se amontoar à exaustão... a finitude do blog pode estar apenas atrelada à minha própria morte e, mesmo assim pode ser continuado por outra pessoa, basta que eu encarregue alguém muito mais novo do que eu [e que se interesse] a continuar o sobretudo de lona e ele se tornará eterno, um eterno escrever, um eterno repositório de sentimentos e experimentações ou ainda, um eterno espaço onde escreve-se por escrever, escreve-se nada, escreve-se besteira, nada útil ou estético... é bom pensar nisso... por enquanto, recomendo a leitura de O Jardim das Veredas que se Bifurcam, de borges. 3.7.04
estética Mesmo a falta eventual de dinheiro não me impede de ir ao livreiro de costume e adquirir o novo lançamento de jorge zahar editor da série filosofia política (série 3 ¿ número dois) com o título de Ética e Estética. É mais um conjunto de ensaios interessantes de professores como karl heinz bohrer, dieter henrich e wolfang welsh entre outros... tem trabalhos interessantes sobre estética em teatro, artes plásticas e tudo o mais.... são ensaios complexos, de difícil leitura, mas que, com atenção tem grande interesse para que se compreenda melhor como a estética está entrelaçada com a ética Estou dormindo em horários desencontrados [de tarde ao invés de à noite], acordando assustados com coisas que eram para ter sido e não foram e vice e versa... tem alguma coisa errada e eu sei e não sei o que é... claro que não posso falar aqui (mais uma vez não é o fórum certo), mas o importante é falar dessas sensações estranhas, dúvidas sobre o que ainda não está escrito nesse momento de corrida contra o tempo... estou fazendo, numa espécie de delírio, exatamente o que não acredito, o que questiono tanto que é exatamente esse embate com o tempo... os embates com o tempo são perdidos antes mesmo de começarem pois já não é o tempo em que pensamos neles... e a vida que sempre foi e sempre será muito curta pode se apresentar longa demais em determinados períodos: explico melhor. Em determinadas épocas a vida corre muito e em outros anda devagar quase parando... não há equilíbrio nem no comportamento do tempo em relação à vida... somos surpreendidos por coisas que já passaram e outras que não deveriam ainda ter passado... expliquei isso mais ou menos à P. numa madrugada inteira porque P. faz parte desse jogo de espelhos onde andamos para frente e para trás... P. não tem perspectiva, sabe que não tem e leva toda a vida ilhada num espaço que chamou de seu mundo, não sabendo muito bem o que acontece no mundo produtivo... não produz e também não cobra a produção, vive como lhe é dado viver e espera que alguma coisa mude em algum momento para que possa participar... não percebe que, não estando inserida no sim e no não, não existirão sins e nãos, não existirá nada... é uma espécie de abstração de rebote, uma espécie de vida não vivida onde apenas o ontem conta, não há hoje nem amanhã porque tudo está restrito a um mundo onde o único reflexo é ela mesma e ela não é porque aguarda o momento de ser... é verdade que o dinheiro ajuda numa hora dessas porque não se passa fome, mas o mais importante, a meu ver, é a capacidade de olhar no espelho e não ver, a capacidade de olhar o espaço e o mundo e não temer, saber simplesmente que alguma coisa vai acontecer. reflexão sobre a madrugada Estou dormindo em horários desencontrados [de tarde ao invés de à noite], acordando assustados com coisas que eram para ter sido e não foram e vice e versa... tem alguma coisa errada e eu sei e não sei o que é... claro que não posso falar aqui (mais uma vez não é o fórum certo), mas o importante é falar dessas sensações estranhas, dúvidas sobre o que ainda não está escrito nesse momento de corrida contra o tempo... estou fazendo, numa espécie de delírio, exatamente o que não acredito, o que questiono tanto que é exatamente esse embate com o tempo... os embates com o tempo são perdidos antes mesmo de começarem pois já não é o tempo em que pensamos neles... e a vida que sempre foi e sempre será muito curta pode se apresentar longa demais em determinados períodos: explico melhor. Em determinadas épocas a vida corre muito e em outros anda devagar quase parando... não há equilíbrio nem no comportamento do tempo em relação à vida... somos surpreendidos por coisas que já passaram e outras que não deveriam ainda ter passado... expliquei isso mais ou menos à P. numa madrugada inteira porque P. faz parte desse jogo de espelhos onde andamos para frente e para trás... P. não tem perspectiva, sabe que não tem e leva toda a vida ilhada num espaço que chamou de seu mundo, não sabendo muito bem o que acontece no mundo produtivo... não produz e também não cobra a produção, vive como lhe é dado viver e espera que alguma coisa mude em algum momento para que possa participar... não percebe que, não estando inserida no sim e no não, não existirão sins e nãos, não existirá nada... é uma espécie de abstração de rebote, uma espécie de vida não vivida onde apenas o ontem conta, não há hoje nem amanhã porque tudo está restrito a um mundo onde o único reflexo é ela mesma e ela não é porque aguarda o momento de ser... é verdade que o dinheiro ajuda numa hora dessas porque não se passa fome, mas o mais importante, a meu ver, é a capacidade de olhar no espelho e não ver, a capacidade de olhar o espaço e o mundo e não temer, saber simplesmente que alguma coisa vai acontecer. 2.7.04
a outra no filme A Outra que citei no post abaixo tem uma cena interessante, onírica, em que a personagem principal entra no consultório de um psicanalista [porque ela escuta tudo o que os pacientes falam]... entra no consultório e o psicanalista diz a ela que a paciente que acabou de sair está se apressando e ele precisa correr para evitar o suicídio dela... ele diz que ela já está andando rápido rumo ao suicídio... o importante do diálogo, entretanto, é a observação sagaz no psicanalista quando diz que não é um suicídio melodramático, mas que ela vem já se matando há muito tempo... é preciso pensar muito sobre isso... porque é isso, não é? temos o suicídio melodramático que envolve caixas de remédios, tiros na cabeça, saltos do vão central da ponte rio-niterói e os suicídios discretos... aqueles que podem ser cometidos devagarinho, sem pressa, sem chamar a atenção, sem escândalo... são essas pessoas que morrem por suicídio, mas não viram manchetes de jornal... aliás, acho que essa pode ser uma definição legal: tem o suicídio mansinho e eficaz e o melodramático, o manchete de jornal tenho uma caixa de DVDs que minha mãe me deu a tempos e não tinha visto ainda. ontem vi Zelig e não achei muito bom.... hoje assisti A Outra [que já tinha visto no cinema], filme que gosto muito... gosto muito dos filmes onde as pessoas olham para suas vidas, fazem balanços, desconstroem e reconstroem [ou não] toda a sua existência... A Outra é um filme assim... profissões que dão certo e outras não... casamentos que começam e acabam porque a paixão acaba e não se fica casado por ficar... engraçado que hoje S. me disse que não se acostuma com a cama grande e ela sozinha... li e não entendi ou entendi e não concordei.... do que se tem medo afinal? da solidão, da falta do corpo do outro?... será realmente melhor manter um casamento de conveniência para não acabar nas salas procurando um outro neurótico solitário? não sei....M., que conheço há três anos teve experiência diversa, rigorosamente ao contrário....exatamente por freqüentar as salas, descobriu que sua vida era um fracasso e terminou tudo e hoje é feliz ainda que tropeçando nos seus desequilíbrios... são suicídios em vida, suicídios que não resultam na morte propriamente, mas em mortes pequenas, comopequenas varizes que vamos juntando no mapa corrugado que chamamos vida... não quero me alongar muito nisso tudo porque os posts são passageiros como a respiração... mal acabam de ser escritos vão sendo colocados para baixo, à cada nova coisa que escrevemos, a antiga vai descendo, sumindo, desaparecendo até um ponto que cai numa espécie de buraco negro, 'arquivo morto', lugar que as pessoas raramente vão.... vida como vontade de representação quando eu escrevi aí ao lado a frase do vinícius "fez-se da vida uma aventura errante", eu estava falando de toda a vida... não das nossas vidas, a minha e a sua, mas a vida como instituição... a vida como instituição é uma aventura errante e não importa se a estamos vivendo como passantes ou como figuras centrais nesse demoinho em que somos jogados de um momento para o outro com a árdua tarefa de crescer e agir... agir é um movimento doloroso e complexo porque não agimos soxinhos, não agimos por nós e para nós... à cada ação observamos uma série de reações em cadeia que retornam à nossa pessoa - muitas vezes deturpada - mas voltam... e eu acho que esse é o nosso grande problema humano... não ações, mas reações... o como volta aquilo que fizemos atrás e fizemos porque de uma maneira ou de outra fomos obrigados a fazer, porque o simples ato de estar vivo, de respirar, nos faz agir, caminhar, colocar um pé na frente do outro, emitir juízos, pensamentos... não podemos passar pela vida, nem ter uma vida [é preciso entender bem a diferença entre a vida megalópole, onde entramos e saímos e vida ilha, que é uma vida só nossa vida cercada de nada por todos os lados] as duas são vidas e as duas são as mesmas coisas apenas vistas sob prismas absolutamente contrários.... e só aí já existe um dilema primordial, um dilema religioso, um dilema existencial... em que vida queremos nos colocar, em que vida podemos nos afirmar como habitantes [passageiros vá lá, mas habitantes] cervantes as longas conversas madrugada adentro me levam aos labirintos de mentes doentias e neuróticas... tento compreender como essa neurose se faz presente nas coisas mínimas, como se insere numa armentação tão farta e ágil... o neurótico é um ser normalmente com inteligência privilegiada embora não produza na prática o equivalente... o que há é um pensamento contínuo, argumentativo e com varios vieses que nos levam por labirintos de lógicas e contra lógicas, de preceitos e tendências que parecem não ter mais fim... não se chega a um ponto final... o ponto final do neurótico é a briga, o encerramento em si mesmo por não estar sendo atendido ou compreendido... eu percebo essa reação em mim e em todas as pessoas com quem me relaciono, vendo que o mundo é composto de pessoas com vesvituamentos absolutos de lógica e firmeza...e são todas... ora, sendo todas podemos dizer que não é nenhuma e que basta não darmos atenção a essas coisas que poderemos conviver numa certa paz, num mundo que sabemos não ser sólido, mas admitindo que o mundo - essas pessoas - não são sólidas mesmo e que, portanto, a solidez não existe de fato e sim como uma abstração filosófica impensável de se alcançar. ora... de que solidez de pensamento posso estar falando se, ao mesmo tempo, admito que ela é uma abstração filosófica? entendo assim que a solidez é uma criação doentia, uma percepção distorcida que tenho de fatos, pessoas e da própria realidade... se é assim, como posso falar no comportamento neurótico de outras pessoas quando, na verdade, é um sentimento meu, uma visão distorcida minha... ou não? admitindo ainda que não seja isso, seria necessário um trabalho minuncioso de busca filosófica e, principalmente, de atitudes diversas da que estou tratando, sendo essas aqui mais apropriadas a um cervantes que, pelo menos, com seu dom quixote, deu forma a uma expressão única na literatura.... cervantes percebeu do que estamos tratando aqui, mas não deixou uma anotação rasa, criou talvez a mais monumental obra que trata do desequilíbrio humano e ainda assim muitos eruditos discutem até hoje qual foi a verdadeira intenção do autor ao nos deixar o dom quixote... quem era ele? o autor ou toda a humanidade? voltando às conversas pela madrugada vou me apercebendo que elas não produzem nada a não ser posts incompreendidos e dezenas de áginas manuscritas que serão atiras ao lixo em muito breve... a conversa exaustiva com pessoas com esse temperamento é circular, se enrodilha em si mesma e em suas variantes tal como um cérebro ou um intestino.... não vemos o início nem o fim... como minotauros loucos, caminhamos por seus labirintos apenas por caminhar, sabendo que, assim como não houve começo, não haverá fim estava com versando sobre o livro de auster em que o autor está escrevendo do seu quanrto o livro que a mulher está lendo à beira da piscina... ele não pára de escrever para que ela não pare de ler... pensei que era trilogia de nova yorkm mas não é... como também não é 'a noite do oráculo', nem 'o livro das ilusões1.... será em leviatã ou estarei completamente enganado e essa cena não acontece num livro de auster? eu me considero um inocente de carteirinha quanto às relações pessoais... pessoas que considerei minhas amigas por anos se mostram agoras distantes e sem a menor disponibilidade para atender à qualquer reivindicação.... esse purismo tolo meu é resultado de uma formação diferente, de uma expectativa diferente em relação à vida e às pessoas... reconheço em mim ainda o defeito de ver de forma ampliada problemas que para outros seriam mais palatáveis.... bom, eu posso ficar aqui por horas, escrevendo laudas e laudas dos meus defeitos e não diria todos... coerção cultural do pt Conversando com p. sobre o verdadeiro significado da palavra artista em nosso meio.... existe todo um processo mítico na arte e ela está em todos os pontos, está recolocado num processo inconsciente da população e dos próprios artistas. Para a população em geral, artista é todo aquele que tem uma profissão um pouco diferente das tradicionais (médico, engenheiro, advogado).... já cansei de ver jornalistas serem chamados de artistas e não tenho uma opinião muito bem formada sobre essa designação.... mas no meio artístico mesmo existe uma crítica da crítica onde uns acham que os outros não são... o pintor acha que o dançarino não é, o ator acha que o escritor não é, o compositor acha que o escultor não é e assim sucessivamente... o que há na verdade, é uma ciumeira absoluta, cada um querendo ter somente para si a alcunha de artista por entender que esse nome, por si, trás uma mística, uma áurea quase divina ao indivíduo... não é verdade. O artista é aquele que percebe no cotidiano o diferente, que percebe no simples, o belo, que percebe no comum o fantástico... existem então artistas de todas as matizes fazendo sua arte por aí, ainda que ela não seja reconhecida, ainda que não seja uma arte acadêmica, talvez até mesmo menos nobre.... isso vem de uma conversa (que tive) sobre as classes que usam a comunicação... o cineasta acha que o homem de televisão não entende de cinema, o publicitário acha que o cineasta não percebe a publicidade e por aí vai... por isso o artista é a classe mais desunida que existe, a classe mais pobre e menos prestigiada... não falo do prestígio fácil do ator de novela, falo do prestígio sério pela comunidade que produz arte... a tudo isso eu somo uma certa pobreza cultural mundial e uma pobreza absoluta, terrível que está ocorrendo nesse governo brasileiro... quem são hoje os nossos artistas, o que estão fazendo, onde existe verba? As respostas são não, não e não... além de todas as áreas - até mais importantes - como das necessidades básicas, governo petista está enterrando definitivamente o artista brasileiro... esse governo, não pela censura, mas pelo cerceamento de verbas é mais coercitivo para o mundo artístico do que foi toda a ditadura militar. A verdade, em suma, é que há menos afervecência cultural nesse ano e meio de Lula do que houve nos 20 anos da ditadura.... ou seja ainda: também para as artes, esse governo é pior e mais truculento (à sorrelfa) do que o governo militar. |