Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


English




ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

30.9.04

olhar
Fico pensando se é isso mesmo o que eu quero. Há um tempo atrás eu tinha certeza de que não era o que eu queria e batalhei para conseguir uma outra coisa, um outro lugar, uma outra vida. Mas quando surge a possibilidade de tomar a decisão e ir, eu retrocedo e me permito mais um pouco te tempo para pensar, eu preciso pensar bem, pensar mais porque pensar não quer dizer pensar bem. Não pensamos bem. Pensamos apenas e, muitas vezes, achamos que estamos pensando bem. Eu, pelo menos, sou assim. Não gosto de rever muitos pensamentos da mesma maneira que não gosto de revisar textos (prefiro que saiam grafados errado do que eu ficar ali consertando). Não tenho saco de olhar para trás, não tenho saco para deixar a minha cabeça parar, para deixar ficar dando muitas e muitas voltas em torno de um mesmo assunto para ter certeza de que pensei bem. Sempre que eu penso, entenda, eu penso bem. No dia seguinte eu posso pensar outra coisa e no terceiro dia ainda uma outra. Mas é porque as coisas estão acontecendo, a vida e o tempo estão passando, quer dizer, o conjunto vai mudando e, diante desse novo conjunto, o que pensei bem há três dias atrás não vale nada para hoje. Mas não poderia deixar de ser assim, acredito. Isso acontece muito em relação a arte, fico pensando. Um texto, um livro, uma escultura que são feitos assim têm um fim ali, mas no ano seguinte podem ser vistos de outra maneira ou, na mesma hora, podem ser compreendidos diversamente por pessoas diferentes porque também tem isso: o mundo gira, o tempo passa, a vida muda e os olhares são diferentes: são vários olhares sobre uma mesma coisa e várias são as interpretações do que parecia óbvio para o autor. Tudo o que eu faço, penso e falo é óbvio. Não me interessa se é óbvio para você ou você. Não é mais problema meu depois que gerei determinada coisa, depois que pari esse mastodonte.
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a fala
O líquido parece viscoso e ele avança devagar. Parece não haver gravidade ou estar numa bolsa com líquido amniótico, uma bolsa monumental, do tamanho do mundo. Tem medo. Não quer nascer de novo. Pelo amor de Deus: duas vezes é demais. A luz é difusa, fraca, mas ele sabe que tem mais alguém naquele espaço e tenha acenar, fazer sinais para estabelecer contato. Tenta algumas vezes e não consegue. Resolve falar, mas, ao abrir a boca, o líquido entra e fica impossível dizer uma palavra sequer. Porque ontem ele concluiu isso. Que não há possibilidade de viver sem uma palavra. O som, o dom da palavra da comunicação, expressão, sentimento. Pegar na mão e acariciar pode ser uma palavra sem letras, olhar carinhoso ou de ódio, a expressão como um todo basta a ele como meio de comunicação, mas tem que existir alguma coisa. Nada é impossível. Nessa bolsa com essa espécie de goma translúcida não há nada. Se existe realmente mais alguém naquele lugar, essa pessoa também está impossibilitada de se expressar. Talvez isso dê um sentido à não expressão: o não ser, o antes de nascer. Sem comunicarmos não nascemos ainda, não somos nada, não temos nada, não existimos. Não se comunicar é não existir
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29.9.04

Brasil com Z
David Latterman entrevistava e mostrava as coreografias de Bob Fosse.
Jô Soares entrevistou e nos mostrou a coreografia do Jaime Arôxa.
Sem comentários.
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Bravo!
Não me conformo em viver nesse novo mundo sem ter sido preparado para ele. Perceba que você vive uma vida num mundo que não tem a ver com você, que não foi o que você aprendeu nas escolas e faculdades, não foi o que seus pais ensinaram. Não. Temos um novo mundo. Um mundo de vinte anos para cá. E somos obrigados a reaprender tudo, reaprender a andar e a olhar, a se proteger e a caçar, a trabalhar e a dormir (com um olho aberto ou em meio a pesadelos). Nossa geração caiu numa espécie de conto do vigário existencial. Foi jogada aos leões quando a proposta inicial era outra. Alguém nasceu para viver sob um domínio Lula, por exemplo? Não. Alguém nasceu para ser assaltado no mínimo trimestralmente? Alguém nasceu para ter que ficar discutindo a relação? Alguém nasceu para lidar com pessoas que são a ralé, a escumalha? Não, não e não. Nós fomos preparados para sermos seres humanos mais ou menos normais e somos uma raça sem nome, desterrada, sem norte, sem esperança. Eu não tenho esperança e não conheço ninguém sincero que tenha. Quero um outro mundo, uma outra forma de vida, ambígua, claudicante, cambiante que seja, mas outra, uma vida que se possa criar e gritar Bravo!, uma vida que seja parecida com a ribalta, que tenha brilho e emoção também, que a gente chore de alegria, que se comova pelo barato do mundo. Esse mundo não tem um barato e isso mata qualquer artista e qualquer platéia. É um não mundo. Chato. Impossível de viver.
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sogros
Meu ex sogro dizia que nas relações devemos ter a mesma atitude que temos com um cálice de cristal trincado. Não precisa despedaçar para jogar fora, se trincou pode se desfazer porque você jamais usará ou oferecerá a uma visita uma bebida num cálice de cristal trincado
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nova era
Tenho que falar que não realizei o que pretendia, dormi o sono dos injustos, o sono da fuga fácil, do abandono de si mesmo. Recebe uma correspondência estranha da Escola de Música. O que eu tenho com um Conservatório? Nada. Não toco nem tamborim em bloco de sujos. Não quero tocar e tenho raiva de quem toca. Quero desfazer o que estabeleceram na minha cabeça desde pequeno, quero ser outro. Cada dia que passa nessa vida de agruras me desconstruo para me reconstruir mais na frente, para refazer o edifício de vivente, criar novas perspectivas, possibilidades, mantendo talvez a alma a e anima. Não sou nada, sei. Mas desse nada quero fazer um não ser que atue, que diga e pense e escreva e interfira no mundo porque as pessoas passam desapercebidas, não têm nenhuma interferência com nada no seu entorno, não sabem o que dizer de nada, nada. O arrastão no Leblon, manchete do Globo, não foi nada. Cinqüenta facínoras levando tudo de todo mundo. Nenhuma novidade. Bandido bom é bandido morto. Enquanto não matar vai ser assim: você não pode ir à praia, não pode ir às compras, não pode nada porque o morro está descendo. Eu ando armado mesmo sem porte de arma. Faço a minha parte: desobediência civil, vá lá, mas se deixar, passo fogo. A sociedade na é unida, é burra, acéfala. A sociedade devia estar organizada e andar ostensivamente armada. Todas as pessoas. Não ia ter cadeia para todo mundo. Todo mundo com revólver na cintura (é facílimo comprar um revolver legalmente), todo mundo pronto pra matar, a cidade inteira. Então tem mais essa possibilidade: além de hermafroditas e drogados, devíamos andar sempre ostensivamente armados. É um novo homem que nasce, que aparece por ocasião dessa época de mutação sociológica. Um homem mais puro, com origens mais consolidadas, de certa forma, mais perto de Focault.
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28.9.04

Nós, hermafroditas
Tem o Hermafrodita Virtual. O que eu escrevi foi tão forte que o word deu pau e deletou. Mas eu tento novamente. É a questão do duo, de ser dois, duas pessoas, dois sexos e, virtualmente me espalhar infinitamente como num jogo de espelhos borgiano. Eu posso ser um executivo em Xangai e uma puta na praia de Copa, eu posso ser um espião na Rússia e uma vendedora de churros na Malásia, eu posso tudo porque eu tenho o mundo nas minhas mãos e a dualidade em mim. O Hermafrodita Virtual é a consagração do possível, é a verdade escarrada na cara exatamente porque pode não ser verdade. Pior, porque toda verdade pode não ser verdade ou a verdade é a não verdade ou a verdade não existe, o que existe é exatamente a sua antítese. Eu agora estou numa sala conversando sobre televisão e computador com um executivo que está em Miami e estou me oferecendo para um programa, com outro sexo e tudo para um camarada em Ramos. Sou (somos) o renascer de uma nova era, nem nesses sentido bobinho de Nova Era, mas uma possibilidade ampla, real, verdadeira do que talvez sempre devesse ter sido. Na verdade, Adão e Eva foram uma deformação genética. Era para ser só Adão ou só Eva, não importa, mas era para ser um e hermafrodita. Deus, imperfeito, gerou o aleijão da dualidade pretensamente hetero que foram Adão e Eva e deu no que deu. Eu sou o Super-Homem, sou a realização, sou (somos) tudo o que Deus pensou, tentou e fracassou.
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repensar

Lata. A lata. Lata sim, lata não. Chuto a lata porque eu queria chutar a cara, mas como não pode resigno-me e chuto a lata. A lata é a cara. É a minha cara. Cara de lata. O que é isso que estou escrevendo? Não sei, não me faça pergunta difícil. O que importa na amplificação do sentimento de revolta no homem é sempre chutar, mais precisamente, chutar a cara. Eu chuto caras (latas). Minha cara lata. Não é lugar comum que você esteja assim tão estressado, parece que todo mundo está. Isso, vai tomando Valium desse jeito descontrolado que você vai ver onde vai parar.

Consideração dois:
PDV está alerta e me dá a dica do livro. Não sei. Não sei se gosto desse autor. Gosto mais ou menos, li um outro livro. Mas não me faça falar porque eu leio e esqueço. Esqueço o que jantei ontem e o jornal que li hoje de manhã. Esqueço tudo o que faço, tudo o que falo. Esqueço as coisas que eram para serem ditas. Sou um demente esquecido (que esqueceu de ser demente).

Consideração três:
Releio determinados capítulos específicos de A Cultura da Interface e vejo que as coisas não batem, tem ruído na comunicação e esse ruído não é meu. Estou aqui fazendo o meu papel, estou aqui escrevendo, batendo à máquina. Se sai publicado na net, isso é outro problema, já falei disso aqui antes. Quero falar, mas não sai, está entalado na garganta. Quero falar que estou infeliz com a prefeitura, com o governo, com o Estado. Não é nada disso o que queremos. Nós queremos diversão e arte. E onde está a arte, alguém sabe me dizer? Disseram que eu escrevo porque tem público e é verdade, tem mesmo e daí?

Consideração quatro:
Não seja subserviente, não abaixe a cabeça jamais, morra em pé, olhando de cima para baixo porque o mundo e os viventes estão abaixo de nós e não acima. Um ou outro (raro) num plano de igualdade. Soberba. É preciso exercitar muito a soberba e não parar por aí. Não se contentar em ser padre. Quero ser, no mínimo, o bispo dessa brincadeira. Pedófilo, vá lá, mas sempre o bispo. Não tenho nenhuma modéstia. Nunca tive. Sempre me considerei acima da média, sempre mais inteligente e mais perspicaz. E não é só isso. Mais muitas outras coisas. O máximo que posso relevar é que talvez não seja eu o mais e sim os outros o menos. O que fazem os burgueses das cidades? Onde está a burguesia? Eu sou um burguês, um pequeno-burguês sim e daí? Quero saber onde andam os burgueses de guarda chuva furado como eu, os burgueses que penduram o cigarro no botequim, os burgueses que como eu, pedem dinheiro emprestado pra pagar o metrô. Não estranhe nada disso porque é normal. É uma questão de classe(anotei isso um caderno e agora não sei em qual foi. O que anotei? Que sonhei com a minha mãe limpando as tetas da vaca antes da ordenha. Gritei e acordei suando em bicas.

Consideração cinco:
Existe uma nova tendência sexual, eu acho. Uma tendência ao bissexualismo. Não conheço ninguém que não seja, em essência, bi sexual. Tem tri, quadri, hexa, eu sei, tem de tudo, mas do bi, meu amigo, desse você não escapa. Pode negar à vontade. Negue tanto quanto afirma que não precisa de Viagra. Mas é bi. Deus não poderia criar um homem que fosse heterossexual, não teria razão, não teria lógica, seria um mundo sem motivações, sem dúvidas, questionamentos, sessões e mais sessões de análise, os garotinhos no colégio não iam ter como fazer meia com os coleguinhas. Seria um mundo amorfo, tolinho. Todo mundo é bissexual e todo mundo se droga. É só uma questão de ponto de vista, de ângulo, de coragem de falar, de peito pra se olhar no espelho com soberba. O homem é um animal que se droga, se dopa e fica procurando diabruras sexuais. Quem fica só no papai e mamãe, enlouquece de vez, vai pro manicômio e acaba expurgado por Deus. Em suma, somos todos hermafroditas com má formação dos órgãos.

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26.9.04

Senhorita Walker
Acuso o recebimento de sua carta. Você talvez não tenha observado, mas eu te mandei outro e.mail com o texto no corpo da mensagem e não atachado. Com isso acaba o problema de pau no word. Eu sei que tem umas coisas repetitivas. É isso que tem que ser tirado. O que acontece é que acaba eu escrevendo demais e depois tendo que garimpar o texto que sempre deixo pra amanhã, pra amanhã e assim vai. Não faço. Me reconheço um preguiçoso, um vagabundo mesmo. Mas como não ser? Sabe lá o que são mil páginas no word? Eu vou lendo e deixando para cortar depois. Aí chega uma hora que eu já esqueci o que era pra cortar lá atrás e começo de novo. Mas me vem uma coisa nova e eu tenho que escrever correndo porque senão esqueço, tal está minha amnésia. A coisa está cada vez mais séria, não ando mais sem um bloquinho na mão.
Aproveito e te mando outra correspondência. Se você não deu conta do outro de mando mais para te atulhar a mesa de papéis assim como é a minha mesa, cheia, cheia. De qualquer forma só confio em você para dar ordem a tudo, não importa o quanto esteja atarefada e quanto tempo leve. Esse trabalho não pode simplesmente ser feito por outra pessoa que não seja você, que conhece meus escritos de longa data e sabe o que eu quero dizer e o que eu não quero dizer (embora escreva). Se você não fizer... Bom, aí não acontecerá nada, você joga tudo fora e pronto, a maldição de Kafka se realiza.
Da minha parte, só posso mandar para você. Sempre.
Beijo

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doninha
Não consegui compreender direito o que Ana C. queria dizer numa determinada carta e nem percebi nenhum aviso nas entrelinhas do que estava por vir. Pelo contrário, a visão era otimista. Eu não quero ter essa visão otimista porque não acho quimicamente justa. Sou um corredor dos cem metros rasos, mas não passo no antidoping. Elisa fica aqui do meu lado rindo dessas coisas que eu escrevo aqui, diz que eu não tenho coragem de transcrever os cadernos. Não é verdade, menina, não é falta de coragem é falta de paciência mesmo. Vi ainda a pouco uma pessoa tendo uma crise de tosse (pulmão e coração detonados), ela vai morrer logo e isso me deixou mal. Não queria que nada fosse assim, mas a vida não tem hora ou a hora não tem vida, né? Tem essa simbiose tempo/vida que ora se aproximam, ora não têm nada a ver. Eu não sei.
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Não quero ficar em pé como a outra, como um espantalho numa plantação, num espantalho contra a morte. Tipo: eu estou aqui, portanto, morte, você não passa por essa porta. Não quero ser porque não adianta porque o espantalho acaba desfeito pelos ventos e chuvas, pela natureza e é essa mesma natureza que abre a porta para a morte e diz bem vinda, entre e sente-se por favor, vou já preparar o corpo para a senhora levar. Não quero ser isso, deixa pra lá, quer levar leva, eu não vou lutar contra, não vou fazer nada. O que eu tenho que fazer é seguir essa trilha, escolher nessas bifurcações, me arrepender da que escolhi, ser esse olheiro do mundo, olheiro da vida, esse tocador de gado, que gado é o meu povo, que faz circunferências ao meu redor e cai de cara no chão como as doninhas. Uma vez eu ouvi sobre a queda das doninhas, acho que foi no Hannibal, não tenho certeza. Mas fiquei impressionado com o camarada pegando o pássaro ferido e cuidando dele até a chegada da morte. Ele sabia que o pássaro não tinha salvação, eu sei que a pessoa não tem salvação, que estou apenas caminhando de frente, mas para trás, de costas, portanto. Ela vai ficando mais e mais longe de mim.
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Seu olhar não tem mais brilho, sua pele não tem mais viço. Vejo a morte ali, em pé, ao seu lado, olhando constantemente o relógio, agoniada talvez, para levar essa vida. Mas por que não leva? O que está esperando? Não sei. Ninguém sabe. Quem sabe o que a morte está esperando para nos levar? Por que, às vezes ela é tão rápida e apressada, levando criancinhas de colo, por que? Não me faça perguntas difíceis logo agora que não estou preparado. Volto para meus livros de filosofia, mas não entendo quase nada porque não sei alemão. Sinto falta do poeta que gritava aos ventos, sinto saudades de um tempo que não vai voltar, nunca mais. Devia fazer uma elegia à saudade.

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Me casei muitas, muitas vezes. Mas devo confessar aqui que só tive três paixões: quando tinha 17 anos, a Beth. Quando tinha 22, a Helena. Quando tinha 48, a Érica. O resto não representou nada.
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trilhos II
Ela entrou (subiu) finalmente no terceiro bonde a passar naquela rua. Já perdera os dois primeiros e acabara pensando em como perdeu o bonde da história, o bonde da vida. Agora ela está sentada nos bancos de madeira. Paga ao trocador. Olha a paisagem e não pensa mais nos tempos de menina. Pensa no amante e seu chapéu panamá. Ter um amante que usa sempre chapéu panamá é, no mínimo, excêntrico. Esse amante é daqueles meio velhos que usam suspensórios e que precisam ouvir determinadas músicas para ter uma semi-ereção. Mas ele é engraçado, gosta de tomar vinho e ouvir ópera, fuma charutos de bom odor e é educado. Houve tempo que ele montou uma garçoniere, mas foi mais uma coisa excitante do que propriamente necessária porque ela se separou logo do marido, ele viajou para longe e o apartamento dela estava sempre sem ninguém. Sim, ele usa suspensórios. Hoje usa porque é meio balofo, barrigudo, mas sempre usou (da mesma maneira que, eventualmente, usava gravata borboleta). O bonde segue seu rumo nessas ruelas estreitas e ela se distrai vendo os meninos correndo para pegarem carona nos estribos e depois pularem com o bonde em movimento. Também fizera aquilo quando era criança. Mas é engraçado que o bonde não é mais igual, as propagandas não são mais iguais, a classe das pessoas não é amesma. Antigamente andava-se de bonde com classe, no meio de gente normal. Hoje não. É um povo pobre e feio. Aliás, ela pensa, nós somos um povo pobre e feio. O casario vai passando, os postes de iluminação, as ladeiras, as curvas. Não sei se ela está dando muita atenção para tudo isso não.
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Sei que estou fumando para ter um infarte ou um câncer de pulmão. Eu sei.
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culpa
Acho que o que estou fazendo nos quatro posts abaixo é uma reflexão sobre o que escrevo aqui. Não um elogio, ao contrário. Sou um aprendiz, sou indisciplinado e, como artista (bom ou mau), alienante e provocador. Mas é uma reflexão para mim mesmo (desculpem o egocentrismo), mas pouco estou me interessando com o que um leitor ou outro vai achar. Não quero que concordem nem discordem de nada, pouco se me dá. O que me interessa mesmo é pensar alto, pensar escrevendo aqui (porque hoje tudo o que se pensa e o que se escreve está na internet), pensar nessas mil páginas de blog que escrevi nesse tempo. Primeiro engatinhei fazendo como todo mundo fazia, depois aprendi determinadas técnicas e teve um tempo que foi muito bom, criativo. Depois caiu de novo e ficou chato e maçante porque a minha vida (ou a parte que eu quero que seja) já estava toda contada. Então resolvi enveredar pra essa coisa mais literária (pouco me importa o que acham da qualidade), mas essa coisa mais literária, coisa que eu vou escrevendo mas não vivenciei, não aconteceu ou aconteceu apenas uma parte, ou aconteceu parecido, ou poderia ter acontecido. Eu acho que é um caminho diferente do que experimentei até agora. Se está dando resultado? Sei lá. Tem blogs com mil e quinhentos acessos por dia, o meu tem quarenta. Isso é bom? Mau? Muito? Pouco? Irrisório? Mas esse espaço não é patrocinado, eu não tenho obrigação de ter uma audiência determinada, posso escrever só o que eu quiser. Aliás, é bom que se diga, eu escrevo mesmo é para mim, escrevo o que me vai na cabeça e quando estou no computador escrevo aqui, quando não estou anoto num caderno. Tanto faz. Não sei. Tenho que pensar melhor, fazer um mea culpa e ver se é isso mesmo, se esse é o caminho. Posso adiantar apenas que é muito melhor do que o meu querido diário ou então ficar copiando e colando letras de músicas pra cá (já fiz isso ocasionalmente)
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dias não
Eu tento fazer nesse espaço um lugar para alguma reflexão. não é questão de ser bem ou mal escrito, de ser importante ou não. mas eu não quero dizer sempre Bom dia querido diário, hoje fui às compras e... Não quero. quero escrever coisas que venham mais de dentro de mim, coisas que eu ache que as pessoas podem se interessar. Podem, claro, não gostar, achar babaca e tal, mas pensaram sobre aquilo. sabem que estou pensando ao escrever. se eu só penso merda e não vale nada, aí é outra história, fica à critério de cada um.
Mas é isso, eu estou gostando de escrever esses fragmentos da vida das pessoas, esses pequenos momentos em que elas pensam em alguma coisa ou fazem ou desejariam pensar ou fazer, nada, nada disso importa. E se tudo o que está escrito aqui é um lixo, eu concordo numa boa, numa ótima, se interessar me escrevam, critiquem que eu posso tentar mudar, tentar fazer alguma coisa um pouco melhor (o que não quer dizer que eu vá conseguir). Mas voltando, é isso, são fragmentos de vida, são micro-contos onde está ali um personagem, está ali uma pessoa vivenciando determinada situação e eu vou e conto aqui. Ninguém acaba ficando saber de onde veio aquela pessoa nem para onde vai. Acho que falo pouco da psicologia dos personagens, deveria falar um pouco mais. Não faço porque não quero alongar a coisa, quero que você leia e saiba que aconteceu aquilo com aquela pessoa. Posso dizer uma outra coisa engraçada: tudo o que escrevo é baseado em mim. Outra coisa curiosa: nada do que escrevo tem a ver comigo, com minha pessoa. Dias sim, dias não. Sempre pensar assim, em dias sim, dias não.

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idiota
Recebi uma correspondência eletrônica dizendo que poucas vezes lê o Sobretudo porque ele é muito cerebral, porque os outros blogs são mais leves, mais fáceis de ler. Isso mesmo, meu senhor, faça isso, me faça o favor de não voltar mais aqui.
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sobre a ignorância
Eu estava realmente assistindo o Abujamra na TV Cultura e enquanto ele ia falando eu ia pensando na cultura, nessa enorme falta de cultura que grassa entre os gentios e os não gentios. Graça entre o povo, o povo esse que a gente convive, esse que só vai ao teatro assistir comédias e vê muito filme na televisão e nada mais.
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Acontece um movimento anti-cultural pelos menos nos últimos vinte ou trinta anos. Não há renovação na música, no cinema. O que é o cinema hoje? Efeitos especiais que qualquer idiota nerd faz num computador ou dois? Onde estão os grandes a atores, a geração de grandes autores? Vago pelas livrarias da vida e folheio esse ou aquele livro e nada me seduz, não tem uma coisa que você leia um trecho e diga: sim! Esse livro é importante, eu quero ler. O que mais temos são biografias ou livros contando a História. Será que vale tanto conhecer a História?
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Não temos televisão pública no Brasil, não temos uma televisão cultural, educativa. A TVE é um lixo, nada presta, talvez tenha uma coisa ou outra interessante no Comentário Geral e na TV Cultura tem o Provocações que eventualmente nos faz uma provocação. E é só. A televisão é a coisa mais emburrecedora, menos importante, menos, menos. E a televisão é cultura do povo.
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Literatos. Onde estão os literatos? Quero conversar um pouco sobre literatura (a pouca que eu conheço) e não tenho com quem falar. Conheço gente formada em tudo, mas ninguém lê, ninguém consegue falar de Borges, de Canetti, de Homero. O máximo que conhecem é o Paulo Coelho. Que país é esse de um autor só? E aquilo é, por acaso, literatura? O que eu faço aqui? Por que eu procuro entender tanto Gilberto Freyre se depois não vou ter com quem trocar? As pessoas fogem de Calvino, trocam por uma caminhada na praia. Fogem de Caio Prado Junior em troca de andar de bicicleta...
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É um culto ao corpo, é uma preocupação exacerbada com a musculatura, com o disfarce do envelhecimento, é uma grande merda isso tudo. Tem horas que a gente tem vontade de desistir, de não falar mais nada com ninguém, não escrever mais nada, deixar tudo pra lá. Eu não consigo lidar com gente burra e estou ilhado de gente burra por todos os lados. Você fala uma coisa pra uma pessoa, não precisa nem ser nada muito profundo não, mas fala uma coisa e vê aqueles olhos te olhando, aquele olhar de quem não entendeu, de quem devaneia, de quem pensa em outra coisa (sei lá o quê).
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A internet por sua vez é perigosíssima porque tem muita coisa interessante, tem trabalhos sérios publicados, tem home pages interessantes, mas junto tem um lixo brutal (incluo o Sobretudo de Lona nesse lixo). As pessoas não sabem acessar o saber na internet, lêem qualquer coisa e acham que estão sabendo das coisas. Não estão! A internet é um mar de lixo. Tem lá as suas coisas louváveis sim, mas tem que garimpar, tem saber procurar, tem que comparar, estudar. Comparar principalmente antes de admitir um texto como definitivo. E agora se fala na junção da televisão com a internet. Isso está próximo de acontecer e os rabos vão crescer e as pessoas vão andar de quatro com toda a certeza!
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25.9.04

lápis
Veridiana, meu amor, não saia de casa nessa tarde de nevasca, não se aproxime do precipício que é propício às grandes desgraças sem retorno. Olha apenas o farol da ilha a girar, fica olhando fixamente porque alguma verás de estranho já que há um encantamento no farol (mesmo com névoa ou apesar ou justamente por ela). Faz teu pranto da soleira da porta enquanto eu te olho de costas e escrevo com esse meu cotoco de lápis à luz dessa vela grossa que já cobriu de cera toda a garrafa verde que serve de castiçal. Vou escrevendo porque tenho que deixar anotado tudo o que nos aconteceu nesse tempo em que estivemos sozinhos nessa cabana. Foi para isso que viemos, para que eu escrevesse tudo e depois analisarmos o escrito junto com o doutor. Portanto, não saia para o precipício agora. Chove, está vendo? Faz tuas grossas lágrimas misturarem-se à chuva que cai, fica tranqüila que não me confundirei com as gotas, sei que está chorando. Está anotado, pronto. Como está anotado também que desfizeste a trança dos cabelos por raiva, para ocupar as mãos enquanto falávamos, porque descarregavas esse sentimento daninho que te corrói, te dá olheiras e, muito possivelmente, essa mão encarquilhada que tens. Fica aí, meu amor com os cabelos quase batendo na cintura ou na bunda se assim preferires, fica aí quietinha porque não quero levantar daqui, não vou largar o que faço nem que você se jogue abismo abaixo. A única diferença é que, pela emoção da coisa, vou ter que escrever muito mais, vou ter que apontar outro lápis, pegar outra vela e mais uma resma de papel. Portanto, meu amor chora, mas chora muito mesmo, mas aí, no portal. Eu te agradeço muito.
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por cortesia
Passamos a noite quase inteira acordados. Ficamos naquele botequim onde haviam mulheres muito maquiadas e ele tomou umas sete cervejas. Contou-me a história da recente separação e eu ouvi, ouvi como que houve uma coisa absolutamente nova, uma dessas coisas que só acontecem de tempos em tempos. As separações acontecem todos os dias, só ele já se separou quatro vezes de quatro casamentos diferentes, mas não disse nada, não estava ali para polemizar e sim ouvir. Quando estou com disposição sou um bom ouvinte, acho que as pessoas acreditam que eu estou mesmo interessado no que dizem. E é tudo mentira. Sou capaz de ouvir horas, fazer comentários, dar conselhos, me emocionar até as lágrimas com o meu interlocutor e por dentro estar pensando no livro em que estou lendo ou no filme que assisti ontem à noite. Porque as pessoas não te tocam de como é chato ser ouvinte, quer dizer, quando a gente conversa é legal, as pessoas acabam aprendendo alguma coisa, dando também alguma coisa, agora ouvir... tem que ter saco. Então o sujeito me elegeu para ouvir, para escutar mais uma vez toda aquela baboseira, aquelas histórias sem graça nenhuma, aquelas brigas de casal que são universais, acontecem aqui, na Noruega, no Congo, Xangai ou Amsterdã. Tudo igual, não muda uma vírgula: o motivo das discórdias os ciúmes (falsos na maioria das vezes), as questões familiares e descaso de um ou do outro, a falta de companheirismo e por aí vai. Não muda uma vírgula. Mas o cara, logo após a separação precisa contar aquilo tudo em detalhes, fazendo parênteses, explicando pormenores que envolvem isso ou aquilo, é uma loucura. Devia ser assim: uma pessoa chegava para você e dizia: casei. Pronto. Depois falavam do tempo, das variações da bolsa, do campeonato de xadrez, etc. ou então dizia; olha, me separei. Ponto. Depois conversava sobre a pescaria que fez na semana passada, na visita que a tia chata fez de surpresa, ou nas boas notas do filho. Pronto, assim devia ser. Acho mesmo que isso devia ser divulgado, se possível, tornado-se lei: não se conta detalhes de separação porque todo mundo sabe como é e ouve apenas por cortesia (cara cortesia, diga-se de passagem).
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24.9.04

a teus pés II
De Tina:
Você é meu homem e sempre será. devotei a você toda a minha vida, cada segundo da minha existência e só me interessa a tua felicidade. Não, por favor não faça isso nem me olhe assim, eu digo apenas a verdade, digo apenas o que o meu coração manda. Talvez você tenha nojo de mim porque não sou o que você queria e acho mesmo que tem razão, mas mesmo assim eu tento, mesmo assim eu continuo indo em frente, continuo enfiando o alfinete de fralda onde você mandou pra que eu sinta a dor, pra que eu conheça a dor e posso te confessar que estou feliz por você ter me ensinado isso. Talvez agora eu possa fazer outras coisas ou mais coisas, basta você me dizer. Eu faço pra você ver, eu sei que você gosta de ver, principalmente quando são coisas que não saem muito sangue, eu sei. Pode dizer, pode mandar que eu faço e ainda digo de mim mesmo aquele monte de coisas que você manda eu dizer, digo que sou isso e aquilo, que gosto de disso ou daquilo, eu não valho nada mesmo. Só que foi preciso eu te conhecer pra entender todas essas coisas, essas coisas de não valer nada, nunca tinham me dito antes, nunca tinham sido tão sinceros comigo. Sabe? Escrevi uma carta para minha mãe que mora longe e contei a ela o que eu sou, o que você descobriu e viu em mim, contei a ela que agora eu estava feliz porque a gente é muito mais feliz quando sabe exatamente o que é. Não sou aquela garotinha que ela pensava e me dizia, não, não sou. Mas não vamos perder tempo, você disse que ia comprar uma coisa nova, grande, uma coisa que ia me fazer sentir uma dor boa. Estou ansiosa. Você trouxe?

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sobre as culpas (correspondência)
Nem tentem dizer que utilizo esse espaço para qualquer tipo de propagando nazi-facista porque é exatamente o contrário. Mandei esse e.mail para esse blog porque sei que será publicado, porque já publicaram outras coisas minhas, assinada por senhor K. O autor do espaço sugeriu que eu abrisse meu próprio blog, mas não, não seria interessante, ia demorar um tempo para que as pessoas descobrissem, essas coisas. Ontem fui abordado por um grupo de meninos de rua, desses que são pequenos, mas possuem um olhar mau, um olhar que dá medo. Levaram meu celular, algum dinheiro e documentos. Mesmo depois de entregar tudo, um deles ainda me cortou com um caco de vidro por puro prazer. O que são eles? Meninos de rua que não tiveram oportunidade na vida, que não puderam estudar e que ficam cheios de ódio ao me ver passar, eu, um burguês que tem as coisas que eles queriam ter. Dizem que sim, que é literalmente isso, que eu sou do asfalto, que eu desequilibro divisão da riqueza, que eu faço parte daquele grupo pequeno que concentra muito dinheiro em detrimento deles, que não têm nada. Quer dizer, eu mereço mesmo ser assaltado, deveria ser assaltado todos os dias e, se possível, mais de uma vez ao dia. Eu e toda a classe média baixa, a classe média e os ricos. Esses então deveriam ser trucidados em praça pública, deveriam ser enforcados e seus corpos deveriam ficar ali, pendurados nos postes, apodrecendo para virar logo carniça, para atrair os urubus. Quem manda ser rico, andar em carro do ano e ter tudo do bom e do melhor se há quem não tenha nada? O que eu estou pensando da vida então se fico aqui nesse bem bom, escrevendo um monte de besteiras na internet, nos blogs, se existe tanta desgraça e miséria?( nosso presidente Lula, por exemplo, está mais preocupado com o Haiti, uma causa nobilíssima)
Mas eu digo: o olhar daquele menino era mau, havia ódio e maldade em seu olhar, ele não hesitaria em me matar se fosse necessário (e se não fosse também), não hesitaria em fazer nada. Porque ele tem alguém que olha por ele, que o ensina a viver a vida, a usar as armas, a dar o bote na pessoa e na hora certa. E se alguém pode punir e eliminar esses adolescentes são seus próprios professores, os traficantes mais velhos, essa turma que oscila hoje entre os 20, 25 anos (que é a sua idade média). Tem uns que vão para a cadeia e acabam durando mais, mas não por muito tempo. Viu como deram um jeito de eliminar o Escadinha matando-o numa arapuca dessas convencionais? Pois é, ninguém vai durar muito mesmo. Por isso esses nossos meninos excluídos não têm medo de nada porque têm a cultura de que não vão, como ninguém, na sua visão de comunidade, vai durar muito. Então é isso, fica o dito pelo não dito e tenhamos um pouco mais de complacência quando nos cortarem com seus cacos de vidro ou quando nos assaltarem com seus AR-15. A culpa é nossa.

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a teus pés
Não me diga, por favor, não, não, não, não me repita senhor o que é para fazer porque já sei e mais parece um mantra em meus ouvidos que não me deixa trabalhar. Pare de dizer faça isso ou aquilo porque já sei tudo, já entendi tudo, já entendi por exemplo que se quiser que vá reclamar ao bispo, aqui não se escuta nada, aqui não é lugar de se trazer problemas. Não, senhorzinho, eu imploro que não me diga a tarefa porque já fiz e refiz trezentas vezes e outras trezentas ainda hei de fazer, se possível hoje mesmo e se não der... bem, se não der é porque desmaiei antes, mas continuarei tão logo recobre o sentido... já vi a lenha toda ali, já vi o carvão amontoado, já entendi o que é para fazer um com o outro e essa água que cai do meu rosto não é suor não senhor, não é para fazer fita. Imagine só! Claro que não, claro que estou mais do que satisfeito de ter me colocado aqui, claro que tenho respeito ao senhor, aí do alto do seu banco, tão próximo à escrivaninha. Queria eu poder fazer mais para ajudá-lo, queria eu fazer todo o meu trabalho e dividir, dividir não, fazer todo o seu também. Mas o que fazer, sou um ignorantão e o que o senhor faz é só para os cultos e letrados, para os homens inteligentes, de boa índole assim como o senhor. De qualquer forma, sobrando um tempinho posso engraxar-lhe os sapatos que daqui do chão mesmo, do meu lugar, posso fazer e o farei com enorme orgulho e louvor. Louvo o senhor todos os dias pela manhã e nas minhas orações antes do sono é para o senhor que mais peço ao meu bom deus.
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do tempo
A empregada não sabe nada, não estudou nada, tanto tempo ficou ela na sua vida cuidando da minha avó. Ela não dançou nem cantou, não saía quase de casa (só para ir à Igreja), não namorou.... quer dizer, namorou e casou, mas voltou para a casa da velha, a trabalhar para ela, a ver se lhe faltava alguma coisa, algo que não tivesse sido pedido, mas devesse estar em determinado local em determinada hora. Eram assim as empregadas, faziam as compras, faziam a comida, lavavam, passavam e engomavam as roupas, cuidavam da casa, passavam o escovão que era um ferro pesadíssimo preso a um cabo. Por baixo desse ferro colocava-se palha de aço e os infelizes ficavam esfregando aquilo para a frente e para trás, pra que tudo ficasse bem limpo, bem ao gosto de nhã nhã. Ela mal sabe ler e escrever. Aprendeu porque alguma tia velha resolveu ensinar, mas não é nada além disso, é só pra escrever o nome mesmo. Porque a contabilidade fica por conta do português da venda que anota tudo o que é levado num caderno amarrado de barbante. No final do mês sinhá ou o doutor vêm acertar tudo. A empregada não tem nenhuma utilidade nesse processo que não seja o de apanhar as coisas e leva-las para casa (e escolher bem escolhido!). A empregada é um não ser, é uma peça de engrenagem para que as coisas materiais da casa funcionem dia a dia, rotineiramente durante anos e anos. E estou falando só de setenta anos atrás.A empregada de menina, hoje é uma velha de quase oitenta anos que recebe uma magérrima pensão do marido falecido, a empregada hoje passa fome e vive na fila do SUS. A empregada é abjeta e vai morrer sem deixar vestígios, essa é a verdade.
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azul?
Sempre tive certo fascínio pelo azul, ela me diz. Tudo podia ser azul, o azul combina com tudo, é útil numa cena de romantismo extremo da mesma forma que num ambiente de mistério. Não acho que a mistura de todas as cores seja o branco como dizem por aí com aquela circunferenciazinha de papelão multicolorido para provar. Não, o resumo de tudo é azul, como é a terra azul vista do espaço, como o mar é azul, como céu é azul, como as roupas dos bebês meninos são azuis, como o windows é azul, como a saia daquela mulher do Auto-de-Fé do Canetti é azul, como teus olhos são azuis, como é azul a pedra misteriosa do filme do Paulo Auster sem, falar nos jeans, uniforme mundial do século XX, que originariamente é azul. Meu caderno tem capa azul, tenho uma coleção de cadernos de capa azul, idênticos, etiquetados para que eu não me confunda. Bill Clinton escreveu o livro dele em 22 cadernos grossos. Imagino que fossem de capa azul. Quer mais? Azul é a chama mais quente, é o temor mais profundo. Quando olho para dentro de mim e encaro meus demônios me percebo entrando num mundo azul, estranho, como o filme Veludo Azul, sem perspectivas, sem que eu entenda bem o porquê. Não posso me estender muito sobre o azul (nossas artérias!), não posso falar da nobreza do sangue azul sem lembrar de infinitas outras coisas que iam tomar muito mais tempo e não posso, tenho que ir à papelaria, à papelaria, entendeu bem?


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22.9.04

a caixa azul
O corredor era aperta e cheirava mal. Haviam escadas de tábuas frouxas, inseguras, cambiantes, havia uma lâmpada fraca pendura em cada andar e pareciam haver quartinhos, baias, com portas de madeira frágil verde... em alguns lugares nem porta havia e sim cobertores pendurados para que não se visse o que ocorria lá dentro. Em tudo e por tudo parecia ser um prostíbulo, daqueles da pior espécie, coisa mais de ficção. Mas não era. Ela estava lá, estava subindo os degraus, ouvindo o ranger da madeira velha, vagabunda e mal tratada. Tudo ali era maltratado, tudo ali cheirava a bolor ou não sei bem o quê, mas sempre um cheiro abafado, úmido, ruim, um cheiro que sufocava mesmo não se sabendo dizer exatamente o que era.
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Era bateu numa porta de compensado caiado de verde e abriu um homem de camiseta e cueca samba canção. Fez que ela entrasse. Hesitou. Entrou. E então, perguntou ele, trouxe o material. Sim, tinha trazido, respondeu, mas acontecera um acidente no caminho, um homem esbarrara e caixa azul fora ao chão e, no meio daquela multidão foi pisoteada, achatada, quebrada, chutada, o que havia dentro se espalhou e por tantos sapatos, tamancos e sandálias pisado, acabou que não restou nada, meros farelos espalhados pela calçada para seu grande desespero. Tinha vindo até ele, continuou, não para fazer a entrega, mas para contar a história, para dizer que estava desesperada, que deixara quatro filhos em casa, o maior tomando conta do segundo que tomava conta do terceiro e assim por diante porque na barriga ela tinha outro, mas esse quem tomava conta era ela. Voltando, estava tão desesperada sem saber o que fazer diante de tamanha fatalidade, desgraça, usemos a palavra mais correta. Não era de apanhar dele que tinha medo, afinal já apanhara tantas vezes que nem se importava mais, o medo era maior, o medo era que além da possível surra, não recebesse nada e não podia voltar para casa sem levar alguma coisa para se comer.
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Ele acendeu um cigarro e bateu a cinza num cinzeiro enorme atulhado até a boca de pontas de cigarros, Olhou para aquelas pontas e lembrou de um ninho de passarinhos, com os filhotinhos todos com a cabeça para fora. Os cigarros, as guimbas lembravam isso? Não sabia, a ela tinham lembrado. O homem alisou o bigode alourado e meio sujo e ficou olhando, como que a absorver a história. Devia estapear aquela vagabunda imbecil sim, ela bem o merecia, mas isso era muito pouco, isso era nada diante do todo, diante da estupidez que fizera ao deixar a caixa e tudo o mais se perder. Ele mesmo seria cobrado e, muito possivelmente, estapeado também. Gritou com ela, disse que aquilo era uma estupidez, que ela era uma estúpida, boçal, ignorantona, que se não servia nem para isso, que fosse catar papel na rua. Catar papel. Por um momento essa idéia se fixou nela, por um momento pensou nisso como uma alternativa válida possível para uma vida que estava se tornando mais e mais impossível. Sim, ela cataria o papel, faria o que os senhores mandassem, faria qualquer coisa com o seu corpo, com o corpo de outro, roubaria, mataria até apenas para garantir o sustento dos filhos que estavam em casa esperando (igualzinho àquele cinzeiro cheio)
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O que mais, meu Deus? O que mais dizer aquele homem que agora, para sua surpresa, nem batia, andava apenas de um lado para o outro, angustiado ele próprio. Se aquela fortaleza, se aquele homem forte e valente, que batia, que socava, que tinha dinheiro estava preocupado, o que dizer dela, mera transportadora de caixas daqui pra ali dali pra acolá. De repente ele se sentou e ficou olhando-a, com o cigarro entre os lábios, a densa fumaça azul subindo, como quem não quer. Disse então que ela mesma teria que contar isso ao chefe, que teria que se haver com ele, que resolver com ele como fazer. Deus! Até ele estava com medo. E quem era esse chefe? Não precisou que ele respondesse. A porta se abriu e entrou uma mulher de buço, com vários traços masculinos carregando uma pasta 007. olhou em volta. Olhou bem dentro dos olhos de cada um deles e soube, de imediato, que algo havia saído muito errado. Era hora, portanto, de agir. (continua)
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21.9.04

De conversa
Almoçamos pizza numa pizzaria muito bacana no shopping. Falamos, falamos e falamos. Sempre nos falamos muito eu e ela, há exatamente vinte anos que nos encontramos e falamos das nossas vidas, pensamos sobre o que podemos fazer, sobre o que poderíamos ter feito, sobre o quê e onde erramos e acertamos. Na maioria das vezes nossa conversa não tem um ponto final, uma conclusão. Como num jogo, avançamos um pouco, retrocedemos outro tanto, pesamos prós e contras, ela sempre mais com os pés no chão, cartesiana que é, do que eu. Sei que, de vez em quando, ela vai nos meus delírios e dali tira coisas para ela, para ela se sublimar, digamos assim. Temos experiências parecidas e diferentes ao mesmo tempo o que pode parecer inverossímil. Eu trilhei um caminho na vida e ele trilhou outro, mas foram caminhos meio que paralelos, temos a mesma idade praticamente e sonhos, muitos sonhos. Ela me ensina muito que as coisas, que nada é para sempre. E ela é quem tem o pé no chão. Eu que sou mais, digamos, aéreo, etéreo, quero certezas absolutas, decisões fechadas. Ela ri muito quando fala das suas coisas do que aconteceu aqui e ali, de como esteve nessa ou naquela situação e sempre ela consegue uma certa linearidade de raciocínio e de postura mesmo diante da vida. Tanto diante das boas coisas quando dos infortúnios. Eu não tenho linearidade nenhuma, absolutamente nenhuma e digo e desdigo as coisas, penso e repenso, vou e volto e ela (que é muito inteligente) sorri para mim e absorve o que eu tenho de bom e descarta os meus desequilíbrios. Nossa conversa é sempre muito agradável, nós gostamos muito um do outro. Diz que sou como um irmão para ela e eu digo um mesmo. E, ao longo desses vinte anos, temos aprendido muito um com o outro, temos dado muito ao outro.
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19.9.04

trilhos
Ela caminha pelo piso de pedras portuguesas. Chega ao grande arco que precede a escadaria. Os saltos dos seus sapatos atrapalham e ela pensa em seguir descalça, mas não o faz. Atravessa o grande arco e põe-se a subir a escadaria, degrau por degrau (de dois em dois ficaria cansativo), não tem mais fôlego para isso. Leva dois cadernos consigo. Um deles já está completamente manuscrito e o outro está quase até a metade. Tudo está dito ali. Todos os motivos, razões, tentativas, tudo. Tentou deixar tudo da forma mais clara possível para não haverem dúvidas nem discussões nem culpas. Principalmente culpas. Ela sabe que quando uma pessoa parte como ela está partindo sempre ficam recalques, dúvidas e, principalmente, culpas nos que ficaram. Ela não quer.
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Por isso, dedicou-se nos dois últimos meses a fazer não exatamente um diário, mas um levantamento de tudo, do que aconteceu, do que deixou de acontecer, do que agradou ou deixou de agradar. Concluiu que, se houve culpa, foi dela mesma, mas agora não há como voltar atrás, o tempo não volta. É uma mulher de quase quarenta anos e não soube encaminhar a vida como deveria até chegar naquela situação inconstante e desagradável que para ela chega mesmo a ser degradante. Continua subindo (são muitos degraus) pensando que deve ainda sentar-se num vão qualquer e terminar o segundo caderno, arrematar toda a história. Em seguida, vai procurar uma agência dos correios e enviar os cadernos para seu tio que parece a pessoa mais centrada, mais capaz de entender tudo. Tudo não porque não se justificam determinadas coisas. O quarto que ficou vazio, vai continuar vazio e o sentimento dos outros não vai mudar pela leitura de dois cadernos manuscritos, não vai alterar a solidão da casa, a perda absoluta da sua presença. Mas não agüenta mais, não tem mais nada a fazer senão caminhar, ir buscar o caminho que restou.
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Teve, no passado, várias opções de caminhos, várias bifurcações nessa estrada e parece que escolheu sempre a menos plausível, a menos lógica, a pior. Agora não tem mais o que fazer. E essa sensação é dela, é um sentimento muito íntimo que pode não ser o de todos. Sabe que a prima sempre encontra uma solução alegre, feliz para os momentos de agrura. Essa prima não entenderá o que vai nos cadernos. O tio vai compreender. Pode não aceitar, mas vai compreender, vai ler mais de uma vez, vai examinar as entrelinhas, vai colocar-se no lugar dela. Chega, enfim, ao topo da escadaria e o que vê é uma rua estreita, de paralelepípedos com trilho para o bonde. Aqui ainda existem bondes, parece que é o único lugar da cidade que permaneceram. Apertando os cadernos contra o peito ela recorda que andou muito naqueles bondes junto com sua avó quando era criança. Saía muito com a avó, passeavam muito e o bonde.... Puxa, que recordação interessante. É importante colocar isso no segundo caderno, contar que sente muitas saudades de passear de bonde com a sua avó, que sente saudades das procissões que ia com a avó, segurando sua vela com copinho de papel. Era um tempo bom, um tempo em que a vida não era dura, um tempo em que sua avó dançava com ela no espaçoso quarto à noite, ouvindo rádio. Sentia-se querida, amada e não existia mais nada para pensar a não ser rir e rodopiar no colo da avó. Foi um tempo que passou, um tempo que não voltará mais, um tempo que a felicidade estava ali, constante e, tão constante, que ela nem se dava conta que era felicidade.
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De uns anos para cá não restou mais nada, não restou mais nenhum momento sublime, não teve mais paz, não deixou os vícios, não foi compreendida nem amada. Não ser amada é mortal para ela. Não sentir-se amada, querida, procurada. Os remédios que o médico prescreveu não fizeram o efeito desejado, não afastaram esse sentimento ruim, essa sensação de perda total, absoluta. Pára ao encontrar um degrau alto o bastante que dê para se sentar, abrir o caderno e continuar a escrever. O tempo passa e deve ter ficado escrevendo por mais de duas horas, pois a tardinha começa a cair. Colocou mais informações, contou mais coisas deu mais motivos. Não sabe se isso vai adiantar alguma coisa, mas já está decidido, não voltará atrás. O bonde passa. Ela pensa que perdeu o bonde, que esse não foi o primeiro, perdeu muitos bondes. Esse pode ter sido o último bonde.
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a velha a fiar
Não me peçam, meus amigos, para descrever a sensação dessa moléstia. Não me peçam para falar do tratamento nem da cura porque não sou médico, não sei nada. Sei que meu vizinho tem e é apavorante imaginar o que ele está sentindo, principalmente na calada da madrugada quando escuto seus urros abafados (porque ele, com certeza, não quer incomodar ninguém). Sua respiração é ofegante, ele geme, grita, mas percebo que coloca alguma coisa na boca, como um travesseiro para que seus berros não sejam escutados. Sua doença é terrível, ele não pára de sofrer dia e noite e torço por sua morte, rezo para que ele morra de repente, para que se livre desse sofrimento, dessa vida degradante. Mas ele não morre. Pode levar anos assim sem morrer, apenas sofrendo, apenas abafando seus gritos, apenas chorando baixinho, apenas limpando as grossas lágrimas que devem escorrer dos seus olhos. E tudo por quê? Em nome de quê? Pergunto a um conhecido o que está acontecendo com meu vizinho e ele me responde que pode estar pagando seus pecados de vida passadas. Mas seria assim, um deus tão sem misericórdia? Tem a velha que mora com ele, que berra com ele, que reclama dele. Parece que ele não sai da cama ou alguma coisa assim. Ele é prisioneiro da velha. Velha má como o diabo. Velha desdentada que fala cuspindo com seu lenço sebento amarrado na cabeça, velha suja, de unhas sujas, com verruga cabeluda no nariz. O homem e a velha. Só os dois. E ele grita na madrugada, acho que ela não escuta, porque ela grita com ele de dia, repreende-o. de noite ele deve sentir dores, deve sofrer e a velha deve dormir, não deve querer saber o que está acontecendo, deve roncar e peidar em seu catre sujo. Esse homem é médico (ou foi médico, como se diz?), falam que foi um grande médico e um dia foi adoecendo, adoecendo, afastando-se das pessoas. Deve saber qual é a sua doença. Ou talvez não saiba. Talvez não saiba de nada, saiba apenas da sua dor, talvez não compreenda tanta dor, talvez entenda agora o que os seus pacientes sentiam. Mas os pacientes tinham a ele para tratar, não tinham a velha maldita, a velha que tem moscar que voam em torno da sua cabeça, a velha que tem um tente inferior que sai para fora da boca mesmo esta estando fechada. Não me façam explicar porque tudo isso acontece que eu não sei mesmo. Sei apenas que é triste e degradante. Que é a parte suja da vida, que vida tem partes limpas e partes sujas.
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Sai a matéria falando que volta a moda em todo o mundo os cadernos para anotações, que não se toma notas das coisas mais só em blogs e palm tops.... sim, mas sempre foi assim, os cadernos nunca foram abandonados. Aliás, esse o tema do último romance de Paul Auster.
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no asfalto
Quando vi o crioulo sendo atropelado pelo carro vinho perolado, quando o vi batendo na frente, subindo, rachando o vidro e caindo do lado tive a sensação de que estava assistindo a um assassinato. O carro deu ré e voltou ao local do atropelamento. O homem estava caído ao chão, o sangue saindo da cabeça, escorrendo para o meio fio. O motorista do automóvel, Marcos, já estava no celular, certamente avisando a família, pedindo um advogado, sabe-se lá. O acidente foi em frente a uma cabine policial que nesse dia tinha realmente um policial de plantão. O homem no chão teve duas ou três convulsões e sangrava muito. Era um tipo pobre, bermuda e tênis vagabundos. Cheguei um pouco mais perto para olhar,mas não perto o suficiente para ver detalhes do que tinha acontecido com a sua cabeça. O policial chamou a ambulância (que chegou em quinze minutos mais ou menos) e ficou ali, olhando porque não há nada para fazer mesmo. Curioso como todos se sentem absolutamente impotentes, não há o que fazer. Há um homem caído no chão, não se pode mexer porque pode piorar, não se sabe o quanto está ferido, não se sabe se vai morrer. Não fossem as convulsões poderia parecer que já estava morto. Ficamos pensando às vezes que gostaríamos de morrer dormindo, como passarinhos. Não creio que ninguém morra dormindo, acho sempre que a pessoa acorda no momento derradeiro, que sabe que está morrendo. Temos também muito medo de morrermos afogados ou num incêndio, essas coisas trágicas, onde sofremos muito antes de morrer. Mas e o asfalto? Sabe-se lá o que é estar com ossos partidos, corpo ensangüentado, caído num asfalto à vista de todos? Como os elefantes, acho que devíamos ter privacidade para morrer. Se aquele homem atropelado estivesse consciente estaria vendo aquela roda de curiosos olhando para ele, algumas pessoas mais nervosas, outras nem tanto. Flagrei um rapaz que estava rindo! Como é possível rir diante de uma desgraça dessas? Pois ele ria. A chegada da ambulância afastou um pouco as pessoas. Os enfermeiros e o médico puseram logo aquela tala no pescoço, colocaram o acidentado na maca e na ambulância que partiu imediatamente. Mas o que iria acontecer depois? Seria entregue no setor de emergência de um hospital público e lá, com certeza ficaria muito tempo numa maca de aço esperando ser atendido. Esperando horas e muito possivelmente morreria ali, junto com outros atropelados numa espécie de engarrafamento de macas, todos querendo entrar, todos querendo um médico que cuidasse, que salvasse. Mas não há salvação. Os hospitais não atendem rapidamente. Fico pensando que é triste sofrer um acidente no meio da rua, é triste não ter plano de saúde, é triste ser pobre. É uma vida desgraçada seguida de uma morte mais desgraçada ainda.
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17.9.04

chuva
Essa mão surrada, enrugada e cheia de manchas. O que é esta mão a não ser a comprovação absoluta, sem desvios pensantes da idade que corre por fora, que corre independente da vontade como riacho insistente de vida, vida a caminho da morte? Não há mais como retroceder, como não olhar o espelho e ver o reflexo da calva e das olheiras de quem não dormiu hoje, nem ontem, nem antes de ontem?
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O que há por aqui é a imagem do alegre, do palhaço que furtou poucos sorrisos de poucas crianças idiotas, palhaço que, sem cuidado, retirou a maquiagem, deixou aparecer a face velha, como velha e desgastada é a próstata esse mal dos homens, esse pavor inútil. Não me venha você agora com discursos vãos porque o tempo passou, eu bem te avisei, eu bem te avisei, mas você não deu atenção, não quis ver e ouvir tudo o que te disse, tudo o que te escrevi em cartas intermináveis que, com certeza sequer lestes até o final. Pois estamos agora no final e agora não temos mais portos seguros, a ressaca é bravia e o céu ruge em desespero me deixando criança indefesa e assustada que olha as mãos de velho. Porque não há exercício, não há boa alimentação ou qualquer tipo de vida saudável que esconda as mãos. É nas mãos que estão as marcas da velhice (principalmente nas mulheres). Quando me dizem que estão bem, que possuem a alma juvenil, eu baixo o olhar até as mãos e ali está a catástrofe imposta pelo tempo.
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Minha mulher julga-se saudável e muito bem conservada e não julgo aqui se concordo ou não com ela. Mas suas mãos... Ah! Ali estão as veias velhas, a carne enrugada, as manchas, a deteriorização de quem viveu, de quem teve já o seu tempo e agora caminha célere para a morte.
É o cume, o momento em que chegamos ao ponto mais alto, que subimos o que poderíamos subir e agora olhamos a descida que será como pedra abaixo na montanha, como carro de montanha russa, como homens e mulheres que passaram da meia idade (não devo sorrir porque a média de vida estimada é de sessenta e cinco anos e, portanto, aos trinta e cinco já ultrapassamos a meia idade). Eu passei muito da meia idade e olho para trás e vejo cabanas, alojamentos, pequenas fogueiras apagadas e outras ainda extinguindo-se. Deixo brasas no passado, deixo casas que morei, mas não entrei, deixo casebres, deixo ravinas, pastos, sim, pastos com bois magros e esparsos*, bois que também não sabem a que vieram e me vêem como eu a eles, que não percebem nada dessa vida, mas são bovinos e não se desesperam enquanto eu e você nos desesperamos e nos achamos superiores porque entendemos. Mas entendemos o quê, meu Deus? Nada. Somos sim tão bovinos quanto bois e vacas e pastamos anos a fio, assistimos A Velha a Fiar e achamos bom, genial. Será que era? Será que Visconti era genial? Será que Machado era mesmo assim tão bom?
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Não, não tenhamos tantas certezas vãs, não vamos mais correr a comprar fatos e vestidos com a esperança fútil de não ver o que está aqui, exposto. Deixo o comboio passar porque perdi os bilhetes há muito. Eu sou a exposição de mim, tal como apareço, tal como sou, como fui, com tudo o que fui e o que sou. Entro nessa casa agora e chove muito lá fora, chove tanto que as goteiras dentro da casa são intensas, é intensa toda a balbúrdia da minha cabeça das vozes desconexas que dizem para que eu faça isso ou aquilo (eu não dou ouvidos, não faço nada). Sei que tudo caminha para um mesmo ponto convergente, a mancha na minha mão, as veias na tua mão, minhas entranhas, meu pulmão preto de cigarros, minhas vísceras tão, como dizer, viscerais. Sou, então, esse ser visceral que olha o espelho e que olha para si, que te mostra o espelho e olha para cima, para o céu onde não vê as estrelas por causa das luzes e da poluição da cidade. Não vejo, mas sei que lá tem um céu, tem estrelas, tem sabe-se lá o que, quantos monolitos negros rodando como no filme, quantas pedras, asteróides, satélites feitos pelos homens. Sei lá eu se deus está lá ou cá ou, mais provável, se não está em lugar nenhum? E se não sei de deus que tão reverenciado, tão falado desde a tenra infância, se nem dele eu sei, o que sei então? O que fiz? O que fizemos?
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Chega, não adianta mais escrever muito sobre isso porque ficarei dando voltas em torno de mim mesmo. Paro de olhar o espelho também, deixo as minhas mãos enrugadas para lá e pouco me importa a calva que avança. Saio nas ruas, nesses dias chuvosos e deixo a água cair, me molhar, me mostrar que ela está ali, impávida na sua queda eventual, mas infinita. E penso que sou (somos) como a gota da chuva que cai.


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Não faz nenhum movimento interior ou exterior em qualquer sentido. Quem o vê, percebe apenas uma massa humana, parada em inércia. O que acontece com o homem desse mundo distante, dessa raça que já foi humana, que já teve direitos deveres, anseios e etc.? não temos a explicação exata. Sabe-se apenas que tudo está ligado ao meio ambiente, à vida moderna, aos novos problemas e às novas doenças. Temos um mundo extremamente enigmático onde a medicina e todas as ciências caminham rapidamente, onde as descobertas acontecem com maior freqüência, as curas, as soluções, mas, em contrapartida, os problemas e os sentimentos humanos se deterioram, existe cada vez mais, em algumas circunstâncias, um empobrecimento mental, um embotamento que impede a felicidade, que diminui a necessidade da busca de outras possibilidades, de outras coisas, essa ansiedade boa que sempre fez com que a humanidade caminhasse. Acontece uma pasteurização humana, social onde tudo caminha rotineiramente sem gerar agrados e sentimentos de expectativa em relação a um futuro (mesmo imediato) melhor. Trabalha-se, come-se, paga-se e só. O divertimento é pífio e, na maioria das vezes, quase imposto por uma necessidade em que nos vemos envolvidos e cobrados socialmente. Quando não estamos em eventos sociais somos considerados estranhos, excêntricos ou, mais gravemente, loucos. O que me dizem é que a vida perde um pouco do seu brilho, que vida se e nos robotiza. Não vale se alongar muito sobre esse processo de robotização, entendendo apenas que não é um sentimento natural nem saudável, mas, por outro lado, não se pode mais considerar doentio hoje em dia já que tudo e todos vivenciam esse momento estático, sem viço sem expectativa. Tem muito a ver com a palavra Esperança, com a Solidariedade, com o Amor. Dizem que essas coisas (essenciais para uma vida boa e saudável) perdem muito com toda essa chamada modernidade. Ouvindo esse relato, ainda que fragmentado, fico me perguntando o que fazer, que atitudes tomar, como devemos nos comportar diante de desafios que sequer são vistos pela maioria, que estão dispersos como pensamento crítico, que a população sequer toma conhecimento embora seja partícipe constante, estando ela mesma em mutação para esse modelo. É preciso, me parece, reinventar as formas de vida, principalmente nas relações interpessoais para que a media prazo se desconstrua o modelo atual de sociedade e se busque nos moldes até mais antigos uma forma de relação social mais saudável.
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16.9.04

eu, robô
Ele entrou na lanchonete e pediu um hambúrguer com coca cola . Normal. O revólver 38 na cintura e os óculos escuros prenunciam o sentido ou o desejo de ataque. Esse homem vai atacar alguém logo, muito em breve. E por que vai atacar? Porque atacamos o tempo todo, das formas mais dissimuladas possíveis, das maneiras mais incongruentes, sem razão, sem dó nem piedade. Esse homem vai matar outro homem, outro homem que não está de acordo. Não se aceita mais o desacordo, não se aceita mais a opinião contrária nem mesmo uma leve divergência. Temos que eliminar tudo e todos que estejam no caminho que entendemos correto porque o mundo não pode ser de contrários. O mundo, cada vez mais, torna-se reto único, como um exército que marcha sem trégua sobre tudo para que, em breve, marche por marchar, para caminhar, para dar voltas ao redor da terra com todos, todos os homens, mulheres, velhos e crianças pensando e agindo de maneira uniforme, igual nas vestimentas, na alimentação, no acesso a informação, a tudo. Um mundo sem contrastes, um mundo sem dúvidas, sem indecisões, sem discussões. Um mundo onde a vida passe reta como uma flexa no ar, que a vida passe sem nenhuma alteração, sem nenhum retrocesso ou mudança de posição, sem opinião.
O homem que come hambúrguer de revólver na cintura é um potencial soldado no novo mundo, um soldado da robótica que falhou, da idéia de humanóide que errou na previsão. O robô e o humanóide não serão construídos, não serão produzidos em série, em fábricas. Não: será muito mais óbvio e simples. Será a própria raça humana. Inteira.

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O Fantasma da Ópera em cinema? Sei não.
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as bobagens em nome dos blogs
Denise Schittine escreve uma tese de mestrado sobre os blogs (mais uma pessoa se dedicando a isso) e aproveita para publicar o livro Blog: comunicação e escrita íntima na internet.
Pela resenha do jornal ela tenta compreender e falar sobre o que faz as pessoas escreverem blogs, falando até um pouco num certo narcisismo.
Não li o livro nem vou ler porque esse assunto já cansou e a explicação é tão simples que chega a ser idiotizante uma pessoa fazer teses de mestrado sobre o assunto. (Uma tese assim não deveria ser aceita pelas bancas, que também não sabem nada e caem nesse conto do vigário). É um assunto exaurido, pra lá de analisado, virado do avesso. O que é um blog? Porque as pessoas escrevem sobre suas vidas e publicam na internet? Quanto de narcisismo existe em tudo isso? A resposta é simples: nada, não tem mistério nenhum, não é fenômeno nenhum. Para se pensar em blogs e tentar compreende-los (embora não haja o que compreender), é muito mais útil entender o mundo em que vivemos, entender a época e o meio de comunicação internet. O blog é uma conseqüência mais do que natural, não há nada de espantoso. O que é preciso compreender é o óbvio: tudo o que se faz, tudo o que se escreve, o que se lê e o que se pesquisa está relacionado com a internet. Hoje, e cada vez mais, tudo o que se escreve vai para a internet. Não são diários bobos que se escrevem nos blogs. Verdade que existe gente idiota que escreve idioces, mas o fenômeno aí está na idiotice da pessoa e não na ferramenta blog nem no meio internet. Até porque, é muito bom lembrar, nem tudo o que escrevemos, publicamos em blogs.
A escrita manual, em caderno, com caneta e tal é um luxo hoje em dia, é um hobbie. Quando a gente pega uma caneta e um papel é que está sendo diferente. Quase sempre temos que afastar o teclado do computador para poder fazer alguma coisa manuscrita.
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O teclado do computador está em nossa frente em casa, no trabalho, nos bancos, em todo o lugar. O homem moderno sobrevive teclando, comprando pela internet, tirando dinheiro do banco, mandando e recebendo correspondência eletrônica e por aí vai. A diferença é que talvez não se soubesse o quanto as pessoas escreviam antes da internet porque elas escreviam e guardavam numa gaveta. Hoje escrevem e publicam na internet. E por que publicam na internet? A internet é gaveta do nosso tempo, uma gaveta absolutamente devassável, porque devassáveis somos todos nós. Não há mais o que dizer, pensar ou escrever fora da net. Por nada de especial, porque a internet está aqui, na frente da gente o tempo todo. Devemos entender que daqui a não muito tempo tudo será feito na internet: proclamas de casamento, sentenças (já são não é?) de crimes, avisos fúnebres, convites para festas. Tudo enfim estará publicado na internet porque simplesmente a internet é o meio de comunicação da sociedade (Passamos mais tempo junto a um computador do que a nossos filhos, nossos cônjujes). Basta compreender definitivamente que não é modismo, que realmente a sociedade hoje é em rede. Voltando ao blog: as pessoas sempre escreveram, mas não tinham computadores nem internet. Hoje as pessoas continuam escrevendo e, em vez de guardar seus escritos nas gavetas ou nos baús, publicam na internet (como tudo é e cada vez mais será publicado). Imagino até que num futuro muito próximo o processo tenha que ser ao contrário, ou seja: tudo o que digitamos será automaticamente publicado na rede. Para não publicarmos alguma coisa teremos que nos valer de alguma ferramenta especial.
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Agora, a mulher escreve um tese sobre blog e eu tenho vontade de escrever sobre essa bobagem. Escrevo. O que faço depois? publico na internet, é claro, porque a internet é um meio de comunicação, porque tudo o que penso e escrevo, naturalmente é para ser publicável, porque o homem, dia a dia, está perdendo sua privacidade, não querendo mais essa privacidade. Não querer privacidade em função do meio ambiente não tem nada de narcísico.. O que deve ser mais percebido é a perda absoluta (e cada vez mais) da privacidade e como isso se incorpora em todos nós, como torna-se a realidade em que vivemos. Resumindo: escrever e disponibilizar na rede é um encaminhamento óbvio da sociedade moderna. Achar isso um fenômeno e ainda estar preocupada com essa besteira é realmente muita falta de percepção do mundo ao seu redor.

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12.9.04

e por falar
Cai a tarde e vem o frio. Ele batuca as teclas do computador deixando textos caudalosos no word, como se fosse uma espécie de salvação, catarse. Não é. Na verdade, fala consigo mesmo, vendo todos aqueles pensamentos aparecendo na tela do computador. Sabe que, publicado, todo esse sentimento vai ser dividido com umas poucas pessoas que vão aceitar ou não, que vão gostar ou não. Essas pessoas também têm suas coisas a serem ditas, seus pensamentos inconclusos, suas dúvidas e angústias. Muitas buscam no casamento a divisão de sentimentos, outras no álcool, outras na alienação das drogas. Pessoas hão também que não pensam muito nas coisas, não ficam querendo analisar tudo, ver tudo, entender o incompreensível, pessoas que entendem que as coisas são porque são, porque assim foi disposto e só resta viver. Só resta viver? Sim, pode parecer simplista, reducionista, mas é isso mesmo, esse é o pensamento geral, é o sentimento da maioria dos viventes e não o questionamento de cada ação, de cada não ação, de cada respiro do mundo.
Ele não se contenta não. Quer compreender cada respiro do mundo, cada vento sudeste, cada queda de temperatura e os humores das poucas pessoas que conhece. Não abre mão de analisar coisa por coisa, filosofar em cima de cada uma delas para ver o que foi, como foi e porquê foi. E para que serve toda essa curiosidade, todo esse possível conhecimento causal? Ele não sabe responder. Muito possivelmente para nada, para saber e pronto. Mas ele é assim, fazer o quê?
Deixa então o computador e vai se entreter a ler a biografia do velho Da Vinci.

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olhos de mar
A traineira está ancorada pouco distante do porto. Para chegar a ela é necessário o uso de um bote qualquer, desses que se vêem às dezenas por ali. Na traineira tem o homem com barba de cinco dias usando seu gorro e fumando um cigarro atrás do outro. Em todo o ambiente prevalece o cheiro forte de óleo. Está ancorada já há dez dias, parece que não há trabalho e o homem também não se importa muito, está mais interessado em tomar suas doses de conhaque constantemente, ficar nesse estado de tontura, de remanso que não sabe se é provocado pelo mar ou pelo álcool. Talvez os dois ou nenhum dos dois. Nesse momento lê um jornal de três dias atrás e pensa que nada mais deve ter mudado porque as coisas não mudam, a gente passa pela vida e vê muito poucas mudanças. Tem os entusiasmados de plantão que dizem e alardeiam que tudo muda o tempo todo, que nada é como ontem, que se descobre isso e aquilo e o mundo caminha assim e assado. Pode ser verdade, ele conjectura, mas que importância prática isso tem para quem está no convés olhando essa tarde de tempo nublado, fumando um cigarro quase atrás do outro e olha o horizonte e não vê perspectivas? Pense bem, sem fingimentos nem falsas auto-promessas: o que está avir por aí que seja realmente interessante, que seja importante para a maioria dos homens, para os homens comuns, desses que a gente vê passarem para lá e para cá, ora com guarda-chuvas abertos, ora com o sol a reluzir em suas calvas? Não há mais penicilina para ser inventada, a coisa toda deu uma parada. Deus freou o mundo, disse para esperar um pouco porque não pode ser tudo assim, como se quer. Disse para se ter um pouco mais de calma ou não restará nada para as gerações futuras. Claro que é questionável, basta ver a entrevista sobre o projeto genoma e outros, mas quem vai discutir com deus? Portanto, deixemos a traineira embalada por esse mar que não se decide, como não se decide o marujo que nela habita.
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barafunda
Ela sentou em frente a escrivaninha e colocou todos os papéis em ordem. Eram cadernetas, blocos e muitas, muitas folhas avulsas. O que havia ali era o conteúdo descrito e não analisado de um anarquista que procurou deixar sua marca em tudo, escrevendo desordenadamente em vários lugares (até a história de pequenos textos em guardanapos é verdadeira). Tudo está ali completamente desorganizado em meio à lápis com pontas quebradas, canetas que escrevem e outras que não escrevem mais. Resta saber o que ele queria dizer, qual seria realmente o seu legado. Talvez fosse necessário antes entender o que ele havia sido em vida, o que tinha proposto, a que tinha se proposto e o que alcançara realmente. Não havia um ponto de início, não havia um ponto zero. Tudo estava escrito, havia anotações por toda a aparte, mas elas se enrodilhavam dando curvas e cambalhotas, ora voltando para o ponto de partida, ora parecendo que haviam terminado. Não era verdade. As anotações não terminavam nunca ou pelo menos nunca de forma clara, se aconteceu um ponto final, não se sabe onde ele está, em qual disco rígido, em qual disquete, em qual caderneta, em qual folha esparsa. Ela quer saber se ele fez assim de propósito, esse legado labiríntico ou se foi mesmo pura falta de organização na hora de escrever. Sim, existe um legado. Não se consegue ver se é bom ou ruim, se tem valor ou não, se á autobiográfico ou autofágico, se tem fumaças literárias ou debocha da sua própria incompetência para tal. Existem desenhos também e pequenos mapas que tratam dos escritos que dizem que o que está escrito ali foi baseado no livro tal e o que está dito acolá, no livro assim e assado. Os livros também se encontram em completa desordem, não pssuem nem mesmo a aproximação de autores nas prateleiras ou a aproximação de assuntos, enfim, nada que lembre qualquer catalogação. Então, será um longo e árduo trabalho dizer no que ele trabalhava, o que pensava realmente (dada a quantidade de vezes que mudava de opinião) e o que pretendia fazer. É preciso ver também o que realizou, se foi muito ou pouco, se foi útil e ou desprezível, enfim, fazer um levantamento de toda essa barafunda que ele fez questão de criar em vida.
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Querida L* II
Ele fala-me de história tristes, cada vez mais tristes que são contadas hoje nos blogs ou na maioria deles e como essa ferramenta pode se tornar uma arma para atiçar ódios e rancores e tudo o mais. Parece que fiz tudo isso no passado e talvez ainda esteja fazendo agora (dessa vez inconscientemente). O que eu queria era realmente retratar a vida para mostrar que se pode ler a visão de uns e outros, pode-se ver que há vida inteligente por trás dos teclados. Mas nem sempre essas propostas, essas expectativas dão certo, muitas vezes acabamos enfiando os pés pelas mãos e fazendo uma salada que não temos como sair depois. Acho que foi o que aconteceu. Vontade de me calar definitivamente (me parece o mais acertado), mas não sei se consigo, falastrão eu sou. Tenho essa imodéstia de não guardar para mim, de querer registrar e dar aos outros a compartilhar tudo o que me vai (sem entrar em pormenores mais barra pesadas). Não sei. Fico parado. Tomo mais um café e acendo mais um cigarro. A tarde prenuncia esse tempo nublado que trará chuva com certeza. Penso na ditadura da alegria. Existe um movimento que é uma espécie de ditadura da alegria, que me soa muito engraçada porque inócua. De tempos em tempos o mundo cria lá as suas modas. Nos tempos atuais há duas bem características: o anti-americanismo, o ódio mortal aos Estados Unidos e a alegria de todos, por todos, uma espécie de felicidade geral. A distância é grande para eu telefonar e argumentar. Resta-me argumentar comigo mesmo e com o espelho oblongo que foi descrito num desses micro textos. Resta falar. Resta não falar. Silenciar para não passar tristeza nem amargura nem sofrimento nem nada. Qual o caminho? O jornal caudaloso (sem dizer nada) dos domingos? Não creio. A poltrona. O gato modorrento.
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acho que é preciso a fama, a fama avassaladora que nos leve aos píncaros, mesmo que depois voltemos ao solo e nos estatelemos como um tomate grande e podre.
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Querida L*
As manhãs de domingo serem foram as mais difíceis para ele, acostumado que está aos dias de semana (talvez por serem mais numerosos). Olha a pilha de papéis ao lado da máquina de escrever e vai revisando, lauda por lauda. São pequenos contos, pequenas crônicas. Textos tão pequenos que podem sem chamados micro textos. O que está ali escrito não é depressivo ou alegre demais, é o cotidiano da vida, o cotidiano das coisas, dessas pequenas coisas que, somadas, chamamos vida. Ele entregou esse material a amigos para que criticassem. Por que? Porque é importante saber o que os outros acham daquilo que se está fazendo. Em baixo da porta de entrada da casa pequena encontra um ou dois envelopes, cartas de amigos, cartas que trazem as respostas. Cartas sempre trazem respostas, sempre vêm a nos dizer aquilo que é, a visão do outro, muito possivelmente mais lúcida do que a nossa. Lê as folhas manuscritas e sente o carinho de quem escreveu, percebe que as linhas foram traçadas com amor e sinceridade, com isenção, sem paternalismos. Fala a carta que o manuscrito enviado para análise tem muita amargura, tem muita dor e que, em suma, é melhor observar-se o quanto as pessoas são belas.
Ele não concorda nem discorda, deve ser isso mesmo. Observa calado as novecentas páginas que estão ali na escrivaninha, páginas se sentimento, mas, principalmente de observação do dia a dia, de como as coisas se apresentam naquele vão momento. Pensa ainda que já foi um anarquista de direita com opiniões próprias, mas que isso foi antes, num passado que não sabe quando e a vida era outra, o tempo era outro. E o que fazer para recuperar esse tempo, para resgatar esse momento perdido? Não há o que fazer. Não há o que dizer. Não tem como reescrever aquele calhamaço até porque sairiam as mesmas coisas. Olha em torno, tenta escrever algo na máquina de escrever e não sai nada. O que fazer então por ser assim? Senta na poltrona e observa o gato.

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11.9.04

Reminiscências
Eu sou do tempo que pegava o bonde 54 (não, 54 era o n/ da casa que eu morava. Bom, não importa) se não me engano e ia da rua André Cavalcanti até a praça Tiradentes. Ia no "Manoel da Cera" com a minha avó, católica praticante comprar lá suas velas de variados tamanhos e feitios. Naquele tempo (há 40 anos atrás) as velas eram de cera mesmo, o pavio era mais grosso fazendo uma chama maior, mais generosa. Antes que eu esqueça, uma diversão dos meninos na rua era colocar chapinhas de refrigerantes no trilho do bonde e esperar que ele passasse. As tampinhas ficavam retas, não tinham mais curvatura (e quentes também por causa do atrito entre as rodas do bonde e o trilho). Tudo o que se comprava naquele tempo era embrulhado num mesmo tipo de papel que tinha a variante de cor verde e rosa. Eram rolos de papel que o comerciante possuía (nem se pensava em saquinhos plásticos) e embrulhava nossa compra com o papel rosa ou o verde. Depois, amarrava-se com o bom e velho barbante (que também não vejo mais há muitos anos). E por que escrevo essas coisas? Em primeiro lugar porque estou sem sono e em segundo porque fico me perguntando se era um tempo melhor ou pior do que os dias que correm. Eu morava nessa rua André Cavalcanti perto do bairro de Fátima e caminho para Santa Teresa e nunca esqueci o dia que uns usuários ou traficantes jogaram por cima do muro da minha casa um embrulho de jornal contendo certa quantidade de maconha. Meu padrasto pegou o pacote e foi entregar numa delegacia policial. Como as drogas não eram comuns, esse fato foi assunto na família durante meses. Com certeza os meliantes estavam sendo cercados pela polícia e, para livrarem-se do flagrante, jogaram a a droga por cima dos muros da minha casa. Acho que a minha mãe ficou temendo muito tempo que eles um dia tentassem entrar para recuperar a maconha, fato que nunca aconteceu. Porque era tudo muito calmo, a violência, a bandidagem era menor, havia o medo. Então, imagino eu agora, se o cara tinha conseguido se livrar do flagrante isso já bastava, ele não ia ousar entrar numa casa para recuperar.
Lembro ainda que muitas coisas eram vendidas nas portas das casas, não existiam super-mercados, apenas vendinhas, comprava-se peixe na Praça XV e a gente deixava todo dia á noite na porta de casa duas garrafas de vidro vazias de leite Vigor ou CCPL (a do leite Vigor era mais baixa e bojuda e a do CCPL, mas alta e delgada. No dia seguinte de manhã estavam lá as garrafas cheias tampadas com alguma coisa tipo alumínio. Ninguém roubava o leite, por exemplo. Fico pensando o que aconteceria se eu hoje deixasse uma caixa de leite longa vida na porta do meu apartamento. Claro que no dia seguinte um simpático vizinho teria recolhido o leite para si. Eram, então tempos melhores? Tempos do início da televisão em que, aos domingos, eu pegava um ônibus e ia para a casa da minha tia na parte da tarde onde assistíamos a TV em preto e branco. Nas famílias de classe média baixa como a minha nem todos tinham aparelhos de televisão (muitas vezes ninguém possuía uma). Tempo em que o uniforme escolar era camisa, calça curta, paletó e gravata, tempo em que batedeira elétrica era um luxo e fazia-se a barba no barbeiro. Tempo em que a gente sonhava em entrar para um curso para aprender datilografia (embora eu, no colégio, escrevesse com caneta de pena. Tinha a Parker, mas tinha uma outra marca mais popular que não me lembro o nome agora).
Aos domingos ao meio dia minha mãe me levava no cinema Metro Passeio, ali na Cinelândia para assistir as sessões do Tom & Jerry.
Continuo me perguntando porque escrevo essas coisas, acho que um certo saudosismo misturado com a consciência de como sou velho.

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10.9.04

Fausto?
Dia enfadonho. Não é necessariamente caminhar pelo centro da cidade que faz a vida ficar melhor, a gente ficar mais entusiasmado. Dizem que você andando bastante, acaba se sentindo mais vivo. Ele sentia-se apenas mais cansado. Aliás, que ninguém nos ouça, ele é mesmo uma personalidade estranha, desses que seguem vivendo como quem não quer. Uma vez teve aquele boato horrível de que tinha vendido a alma ao diabo, numa espécie de Fausto tupiniquim. Sempre me perguntei pra que o diabo, ora, o diabo é o diabo, não é pouca coisa, pra que o diabo ia querer a alma daquele camarada. Um sujeito fuinha, pode acreditar. Devia ter uma alminha mixuruca, dessas almas de camelô, que você usa uma vez e pronto, não serve mais para nada. O diabo, eu sempre imaginei, havia de querer grandes almas, almas nobres, almas de gente importante, gente premiada nisso e naquilo, famosa por isso ou por aquilo.
Mas o boato não levou muito tempo e sumiu porque o camarada sumiu também. Ganhou na loteria e foi fazer uma viagem pelo mundo afora, uma viagem dessas que a gente não tem pressa para nada, que pode ficar quantos dias quiser em cada país, pode até ficar morando uns tempos aqui e ali. Pois foi o que aconteceu: ele foi numa dessas viagens e levou muito, mas muito tempo mesmo para voltar. Como sempre foi muito insignificante, as pessoas não repararam praticamente na sua ausência, quase ninguém ficou sabendo. Pois foi esse fulano que andou muito ali pelo centro da cidade durante o dia, com um sol escaldante e teve vontade de comprar um guarda-chuva pequeno, desses de camelô para se proteger um pouco do sol inclemente. Não comprou, mas lembrou de uma encenação que assistiu na televisão há muitos anos atrás d¿O Triste Fim de Policarpo Quaresma, do Lima Barreto, onde o ator usava um guarda chuva também. Não sabia bem de onde vinha aquela lembrança, mas sabia que tinha visto e conhecera inclusive o sujeito que dirigira a encenação, no tempo em que dava vontade, entusiasmo fazer essas coisas naquela televisão. Bom, não vou esconder mais que realmente esqueci porque comecei a contar essa coisa toda, sei que tem a ver com sol escaldante e com o sujeito que, dizem, vendeu um dia a alma ao demônio, satanás, coisa ruim, diabo. Acho que é por causa do post escrito abaixo. Essa coisa do blog só postar nessa ordem tem a desvantagem de, às vezes, você não entender que uma coisa vai desencadeando a outra. Aliás, é bom que eu registre o e.mail que recebi falando da alusão ao Fausto. É isso mesmo, claro que é uma brincadeira, quem sou eu para escrever um Fausto? Claro que não. Mas é uma brincadeira sim. Só queria te corrigir quanto ao Fausto ser de Goethe. Não, ele não é, é bem mais antigo. O de Goethe é talvez o mais famoso, mas todo mundo pode escrever sobre Fausto, viu?

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9.9.04

a alma
Não sei mais o que fazer para que ele não tente o suicídio. Essa já foi a quarta vez e, do jeito que está indo, vai acabar morrendo mesmo. Ele quer morrer por um motivo justo, tenho que concordar em tese com sua morte, com seu suicídio. Ele não quer mais viver. Não quer. Cansou da vida, cansou de todas as coisas da vida, não espera, não almeja, não quer mais nada. Deitado nessa cama penso muitas vezes em deixá-lo morrer. Penso mais, penso que o justo seria deixá-lo, ajuda-lo a morrer porque não se nega uma vontade a um amigo. Ainda mais uma vontade banal que não me traria nenhum prejuízo, nenhum trabalho maior. Ele já me explicou um sem número de vezes que não concorda com o mundo tal como se lhe apresenta e, não podendo mudá-lo radicalmente, prefere então deixar tudo para trás e ir de encontro à morte, repouso certo, segundo ele.
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Repouso? Como pode a morte ser repouso se ela é a expressão máxima do não ser? Como se pode repousar se não há o que repousar, se não há nada e nada havendo, perde-se a alegria do ócio? Ele me responde que não entendo, mas, ao mesmo tempo, não tem explicação melhor. Sua irmã mais velha suicidou-se há alguns anos e partiu como quem não quer nada, sem chamar a atenção, sem dar motivo para alarde nem angústia, como quem troca o sutiã. Morta, ela não atravessa mais os períodos de alegria, mas, tampouco, os de sofrimento, angústia e tristeza que vivia quando estava entre nós, ele tenta me explicar ao que eu respondo que sim, é verdade, mas isso não significa que ela esteja num lugar melhor nem mais iluminado nem com menos problemas. Ela apenas não está e não ser é nada, deixa-se de ter vantagens e descansos, sofrimentos e alegrias. O que se pode nessa vida, continuo, é lutar para que as coisas sejam melhores, para safar-nos dos problemas, para minorarmos a dor que nos aflige, para, enfim... Ele diz que me compreende, que eu é que pareço não compreende-lo. Não? Não.
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O que eu quero, me explica ele, é justamente não ser porque não sendo estou fora de todo esse processo de alegrias e tristezas. É verdade, concordo, mas não sendo, você não saberá do processo de alegrias e tristezas e não sentirá a tranqüilidade de não estar vivo, não terá o ócio, não terá as tristezas nem as alegrias. Não terá nem a opção de querer viver ou morrer. Pense, explico ainda, que morto você não tem a oportunidade de se desesperar e se suicidar, não tem a oportunidade de matar aos que te fazem mal, não tem a oportunidade de ser santo ou pedófilo.
Ele me olha por alguns instantes, pensando no que estou dizendo. Conclui após uns segundos: mas eu não sou pedófilo, tenho nojo deles. Sim, concordo, tem a opção de não ser e ainda, de quebra, a opção de ter nojo. Não sendo nada, não existindo você não terá opção nenhuma, será muito menos do que um zero à esquerda porque esses sim, não interferem, é verdade, mas estão lá, presentes nas operações, estão nos papéis e nos pensamentos dos outros. Todos sabem que ele não vale, mas ninguém pode ignorá-lo e você não quer ser ignorado, você consegue apenas falar em não ser.
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Ele me olha de soslaio e diz que minha argumentação é irritante e inconsistente, que nem o psicanalista dele que é uma besta entende tão pouco seu pensamento como eu. Sim, respondo, mas sou eu que tenho a forca em que você pode se enforcar e sou eu que tenho a força para pegar teu corpo inerte e jogar pela janela. Portanto, você tem que me ouvir, tem que dialogar comigo e me convencer que seu pensamento está correto, coisa que você não fez absolutamente até agora.
Sim, essa obviedade ele não consegue perceber. Muito mais do que viver ou morrer, muito mais do que ser ou não ser, ele tem a mim, a minha pessoa que se interpõe a tudo porque sou eu o seu algoz, sou eu que tenho poder de vida e morte sobre ele e mais, sou o seu inferno astral e, obviamente. Quando ele me contratou para fazer tudo o que desejava, quando possuía um milhão de desejos, muitos deles escusos, quando não se preocupou com o preço da materialidade das coisas, quando.., Ele me procurou e o que mais desejava era a vida, o sol e a chuva, a juventude e a meia idade, o dinheiro, as mulheres, as façanhas. Agora que tudo se esgotou, que gozou todos os seus desejos, que fez tudo o que bem entendeu, que estuprou quantas ninfetas desejou, que nadou em dinheiro... Agora esse infame me procura novamente como se escravo dele eu fosse para tirá-lo disso tudo, dessa confusão, dessa barafunda que ele criou. E o pior: o sacripanta não apenas quer que eu continue a fazer-lhe as vontades, mimado que é, como quer ainda convencer-me como se soubesse alguma coisa desse mundo ou do outro. Vou ensinar-lhe umas tantas coisas.

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Cidade Pequena
O novo livro de Lawrence Block, Cidade Pequena, é completamente diferente de todos os seus outros romances. Tudo bem, é um policial, as pessoas vão morrendo e tem um suspense crescente , mas, ao mesmo tempo, é literatura mais complexa (não genial), diferente de tudo o que ele já fez. Completamente. Quem ler sem saber qual é o autor, jamais vai identifica-lo com o velho escritor dos livros policiais. Os personagens têm mais profundidade (embora os personagens de seus velhos livros também tivessem um perfil psicológico), o livro tem mais sexo (muito mais sexo), as situações são quase reais (muitas são reais como o 11 de setembro). Seria quase uma reportagem romanceada. Não, talvez nem tanto, mas poderia dizer que pode, longe, lembrar Tom Wolfe. É melhor do que Om Wolfe? não sei. Eu gosto mais deste Lawrence, mas já vi gente dizendo que prefere o autor de "Um Homem por Inteiro". Nesse caso, só lendo.
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emprego
José andou por mais de dez quarteirões olhando todas as placas indicativas de ruas sempre com a esperança de encontrar a rua que tinha anotado num pedaço de papel. O sol, inclemente, fazia o pobre diabo suar feito cão danado, mas ele não estava disposto a desistir porque bom cabrito não berra e porque lá estaria sua possibilidade de emprego. Chegou, enfim ao local e a mulher loura que parecia ser a gerente era bonita como o diabo gosta. Cabelos lisos, olhos azuis, pele clara contrastando com a camiseta preta, o jeans preto e o par de tênis branco. Ela não deu mais atenção a ele do que aos outros vinte e sete homens que se acotovelavam na sala. Havia cadeiras com braços em forma de mesa, dessas cadeiras escolares, cadeiras, diga-se de passagem que são a coisa com menos estética que o homem pôs na face na terra. Estavam todos sentados escrevendo nas folhas de papel que se dispunham em sua frente, com certeza uma prova, dessas provinhas tolas que se propõe para homens tolos que esperam encontrar um emprego tolo. Todos usavam o lápis em vez da caneta. É bom registrar que o lápis, em determinadas circunstâncias (como essa), humilha, acaba com um homem. Dê um cutuco de lápis a um homem e estás colocando-o na escala mais débil, mais acachapante a que se pode chegar. Se ele lamber a ponta do lápis antes de escrever então aí não tem jeito porque é o objeto certo para o animal correto. José pegou com a loura um punhado de folhas,um lápis e sentou-se ele também nas tais cadeirinhas ridículas e, sem pensar muito começou a ler e a responder as questões que ali se punham. Não era nada de difícil, mas fácil não havia de ser porque o mundo é cruel e sempre nos coloca perguntas como decisões difíceis pela frente. Parece mesmo que a vontade do mundo é nos humilhar todo o tempo, dizendo que não somos capacitados para isso nem para aquilo e o que resta então? Resta a morte que não vem assim, que hoje em dia vem cada vez mais distante deixando nossas barrigas mais tempo sem ter o que comer. Minha barriga não come o que quer e a de José nem mesmo come quando quer, quanto mais o que quer. A loura estava insistentemente atrás dele e não dava para saber se desconfiava de alguma mutreta, se estava interessada em alguma coisa ou se era por nada, se estava ali por estar como poderia estar em outro lugar qualquer, lugar era o que não faltava naquele ambiente de morte. Aos poucos uns e outros foram se levantando e entregando suas folhas que ela recebia com uma ponta de desprezo no olhar porque ela era a examinadora, estava muito acima deles, era a chefe, a pessoa que inspirava medo nos caipiras e mais: ela ia pra cama sempre com Juvêncio, o dono da empresa. Isso sim! Ela tinha todo o poder do mundo. Era feitora, patroa e, de certa forma, madrasta de todos aqueles miseráveis que andavam ali como ratos tontos, como baratas que não sabem se estão a entrar ou sair de armadilhas. O que era aquele lugar, afinal? Era um posto de avaliação para possível emprego como bóia fria numa terra distante, num lugar que eles não sabiam um nome, com um salário que eles desconheciam e em condições que eles nem sequer imaginavam. Estavam ali simplesmente porque não queriam mais ficar nas ruas, seus corpos não agüentavam mais tanta fome, seus filhos já haviam morrido quase todos de inanição e o presidente aprecia na televisão que eles viam nas lojas de eletrodomésticos dizendo que o crescimento estava bom e que o país ia bem. O país vai bem? E essa fome toda que eu sinto, e meu filho que cheira cola pra se alimentar e minha filha que se prostituiu aos dez anos e morres aos treze de sífilis? Não duvido do senhor presidente que homem de muita sabedoria, de muita cultura e não mente nunca para nós porque na campanha, eu lembro bem, ele disse que não mentia, que só dizia a verdade e que só queria o nosso bem. Não tinha provas de que algumas coisas estavam dando certo? Não precisava ir longe, bastava ver a moça loura que aplicara a prova. Com certeza ela um dia começou por fazer também a prova e foi subindo, galgando posição dentro da empresa e hoje mandava em nós ali como se manda em filho pequeno.
Com esses pensamentos José deixou a pequena sala sem saber se era bom ou mau ser o último a entregar a prova. Não tinha certeza se acertara aquelas perguntas confusas, tão confusas que muitas ele não respondeu porque não entendia nada do que era perguntado. A prova era difícil assim pra gente não passar e não ter o tal do emprego? Perguntou a ele a moça loura.
Ela olhou para ele longamente, deixou-o sem graça, não sabia o que aquele olhar representava, mas susto mesmo tomou quando ela levantou a camiseta e ficou ali sem a parte de cima, com os peitos à mostra porque sutiã também não tinha. Essa foi a resposta dela. Tirou a camiseta. Deveria ter um significado, ela com certeza estava querendo dizer alguma coisa, mas o quê, meu Deus? E assim ficou José, sozinho na sala, olhando para a moça bela e loura que mostrava os peitos e não fazia mais nada. Não tinha olhar de quem quer fazer aquele negócio, não se aproximou do homem, não fez carinho, nem mesmo tocou nele. Apenas, como ela podia tudo, mandava mesmo, ficou sem blusa (que deve ser um direito de todo o mundo que manda). Ele não fez nada porque não era para fazer nada. Quem quer um emprego não faz nada, apenas olha e faz o que os outros mandam. Se não mandam, não faz. Ficaram ali por intermináveis minutos, olhando-se de vez em quando, nem sempre. E aquilo, como isto, não tinha

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o analista - purgatório VI
Minha escada continua descendo. Muito lentamente, é bem verdade, mas continua descendo. Não sei mais se é julgamento, se é purgatório ou se é inferno, mas alguma coisa faz com que eu desça sem parar numa velocidade irritantemente constante. Olho para um lado e o outro e vejo pessoas conhecidas, a maioria descendo em outras escadas que estão paralelas com a minha... Existem algumas que sobem e nessas também vejo pessoas,vejo até animais. Minha descida não pára, a descida de ninguém pára. Pergunto a uma mulher que está a uma distância razoável, a umas três escadas de mim para onde estamos indo. Ele responde e eu não compreendo. Pergunto novamente e novamente a resposta me vem frágil, dúbia. Pareceu que ela respondeu Purgatório, mas não tenho certeza. Fico pensando então se é esse o mistério. O purgatório (e agora pensando com mais atenção, reconheço um certo sentido) não é um lugar, um espaço onde... enfim, onde é o purgatório. Não. Ele é a descida aos infernos, a descida lenta, a descida que nos faz pensar, avaliar e reavaliar um milhão de vezes. Essa escada que desce sem parar, essa escada meio holográfica, que não tem um solo seguro, táctil, que parece virtual... sim, essa escada é a poltrona do meu psicanalista vienense... é a mesma poltrona. Nesse degrau que desce sem parar vejo as pessoas distantes e as próximas, vejo as atitudes que tomei aqui e ali, as que deram certo e as que não deram, pergunto-me por deus e continuo sem resposta. Faço um milhão de perguntas ao mundo e à morte e continuo sem resposta porque respostas não hão, foi um blefe vienense... Por que insisto em colocar Freud como um blefe vienense? O que está em desacordo nessa afirmativa? Não me importa. É como vejo. O que realmente está me interessando agora é a escada/degrau/poltrona. Refastelo-me na poltrona, não aceito o charuto e observo a corrente do relógio de bolso. Sim, as barbas brancas e os óculos. Estava tudo lá o tempo todo e eu fui mais uma vez absolutamente cego, não vi o que se mostrava tão claramente para mim. O que eu fiz então durante todos aqueles anos tentando entender um pouco mais de mim foi um ensaio, uma preparação para essa descida? Os dois são a mesma coisa só que agora estou em cena e o público está lá, atento? Era isso o tempo todo?
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8.9.04

o manicômio - purgatório V
Não tem problema, vou fazendo uma espécie de ensaio geral, ensaio daquilo que vou dizer quando estiver frente a frente com o Todo-Poderoso, com Aquele que vai selar o meu destino. E ironia maior é falar e me preocupar com destino, logo eu que nunca acreditei nessa história de destino. O que é o destino perto de um hospício? Acho que todos nós temos pela frente não um destino e sim um hospício. Pode não ser hoje, pode não ser amanhã, você pode até começar a envelhecer e achar que se safou. Nada. Ninguém pode se safar. O hospício está lá, impávido, monolítico, sinistro com seus urros e silêncios, com seus poderes e suas fraquezas, mas está lá. O que é o hospício? Creio que seja nossa última morada, não aquela que usufruímos antes da tumba fatal, mas após caminharmos pela vida amando homens e mulheres, ganhando e perdendo dinheiro, trabalhando e aprazendo-nos do ócio, depois ainda de morarmos em uma dezena de casas diferentes, talvez também em uma dezena de países diferentes, lá está ele. Parado. Silencioso. Tranqüilo. Na verdade, à nossa espera. O hospício. Louco, completamente alienado é aquele que vê o hospício como uma instituição para os mentalmente insanos. Esses, os que pensam assim não sabem das verdades da vida porque não sabem sequer qual o limite da sanidade ou, pior, do que o outro achará sanidade. E quem é esse outro que teria tanto poder. O outro. Os outros. Todas essas pessoas que vemos nas ruas diariamente, em nossos trabalhos, no colégio dos nossos filhos, em nossa alcova, fritando os bolinhos que degustaremos mais tarde achando que tudo é normal. Esses simplórios são nossos algozes, esses humildes detém o chaveiro, possuem todas as pesadas e antigas chaves das celas do hospício. São esses os que decidem a hora em que seremos tratados, em que seremos compensados, como dizem, que seremos colocados da maneira correta, da forma que o mundo nos quer. Porque não se iluda, meu caro ouvinte, nós não somos do jeito que o mundo quer. O mundo nos quer mansos, nos quer cordatos e serenos como quem tomou uma longa injeção intravenosa como numa pré anestesia. Então, se não estamos assim, estamos em desacordo com o mundo. E, felizmente acho, a maioria de nós está em desacordo com o mundo. E por isso, um dia, todos nós seremos levados a um estado de sensatez, um estado de tranqüilidade em relação a nós mesmos e a tudo que nos cerca. Por isso e muito mais, um dia, seja pelo tempo que for, entraremos todos num hospício e, acredite, não desgostaremos absolutamente de lá porque lá seremos ensinados, lá compreenderemos o verdadeiro sentido da vida e nos sentiremos felizes e santificados. Eu vos prometo.
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o julgamento - purgatório IV
Tenho mais deveres do que direitos, sempre pensei assim, desde que saí do útero praticamente. Esses deveres incluem esse comportamento exemplar que procuro ter diante da vida, essa maneira simples, forte e vibrante diante dos acontecimentos e dos fatos mais importantes. Não sei porque justo agora que estou de partida, vem essa conversa toda de acerto de contas, de ver o que foi realmente feito e tudo o mais. Quer dizer então que não fiz tudo? O quê? Não fiz nada? O que era para ter sido feito então? Eu deveria saber? Bom, deixa então eu entender essa história de uma vez: toda a retidão, toda a maneira como conduzi tudo não valeu de nada e estava completamente errada, é isso? Ah, ta. Vou ter que retornar à vida para fazer tudo novamente, dessa vez dentro das normas que estão escritas há milênio (nas escrituras, inclusive)? Não é na relação com o papel que se vive as verdadeiras relações, você me diz, e sim com as pessoas que estão ao nosso redor. Não concordo, mas posso concordar para não aumentar a polêmica (porque de ser polemista estou cansado), mas não vejo pessoas ao redor nunca as vi e não posso ser acusado por uma coisa que não fiz, por uma atitude que não existiu por, digamos, falta de matéria prima. Se estou sendo julgado (nem sei porque temos que ser julgados), mas se estou sendo julgado acho eu que devo ter direito a algum tipo de defesa, pois não? E não vejo nesse recinto, nessas escadas paralelas, transversas, confusas, enfim, não vejo nesse ambiente ninguém interessado em mim e muito menos na minha defesa. Imagino então que deva ser eu mesmo que deva exercer essa nobre atitude: a defesa. Defendo-me então de tudo. Não acho que tive culpa de nada. Não acho que fiz nada de mal propositadamente, se algum erro houve foi sem a menor intenção e erros sem intenção devem ter perdão mais fácil, estão de acordo? O que? Estou me precipitando? Não é aqui o local propício para a defesa? Estou apenas no caminho?
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purgatório III
Como qualquer alienado quero apenas transcender, me imiscuir e passar para o lado de lá daquele espelho. Se ele sou eu e eu ele então não há porque estarmos na posição que estamos e sim um dentro do outro com alma e corpo. Sou a alma desse espelho, tenho agora a certeza, sou a alma que fugiu um dia, numa festa de druidas e que agora, nessa longa jornada ao purgatório reencontro. Reencontro meu corpo nesse espelho ovalado com moldura de madeira de boa qualidade. Esse espelho poderia ser a minha mulher, minha mãe ou um objeto sexual para mim e não tenho certeza de que não seja. Não tenho certeza de nada, nunca as tive. Mas não quero me afastar mais dele, quero transpor o aço que me reflete e estar lá dentro como de fato já estou um pouco, como de fato já apareço vestindo somente um sobretudo sobre a pele cansada. Quantos eu tive que ser através de todos esses anos, com quantas mulheres sem graça tive que casar, com quantos homens tive que trabalhar e quanto não me dopei de tudo que havia à minha frente, qualquer coisa que realmente dopasse. Agora não tenho mais nada, meu organismo se acostumou a tudo e não tenho mais com o que me entorpecer, minha cabeça está entorpecida o bastante, não possuo mais memória, não sei se já fui ou voltei, se ingeri as pílulas ou não, se escrevi ou não. Já não sou dono de mim, já não atravesso a avenida na motocicleta preta, já não procuro a mulher entre as barracas da feira livre. Não, já não faço mais essas coisas não porque tenha perdido a vontade, mas por não acreditar mais nelas, pelo menos não da forma como são, eu sem um corpo, trajando apenas esse sobretudo surrado e meus óculos indefectíveis.
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Não. Não quero mais ser assim, quero ter corpo de espelho como outrora, quero fazer com que se reflitam em mim as mazelas e as dores do mundo, quero que se reflitam em mim as necessidades e as doenças do meu país que ousam dizer ser abençoado. Não, abençoado sou eu que depois de tantos anos, de tantas dezenas de anos encontrei novamente meu espelho/corpo, coisa que nunca imaginei que pudesse voltar a acontecer. Não sou mais um caçador de mim, não sou mais um sem corpo, podem me internar agora à vontade, podem me colocar em quantas camisas de força acharem necessário e podem ainda inflingir-me quantas sessões de eletro choque acharem por bem que nada disso vai alterar meu humores. Não. Sou a negação em pessoa como sempre fui, agora rediviva, com uma imagem, aço e vidro para que todos se vejam, vejam suas carnes esverdeadas, vejam seus dentes escuros e quebrados, vejam que não são mais o que foram na juventude, sou aquele que mostra a todos que sua juventude se foi, como a minha se foi, que estamos todos caindo aos pedaços, como esse casario do século retrasado e, por que não dizer, desse planeta em vias de extinção? Passa por mim, numa escada que corre ao meu lado, só que a minha para baixo e a outra para cima, passa por mim a figura de uma mulher que chora, uma mulher que olha para baixo e chora um chorar que vai inundar o mundo sem terminar, um chorar que é a dor das dores, é a dor daqueles que pensam não ter dor, é a dor daqueles que acreditam que suportam a dor. Ela chora e cria uma poça suspensa em torno de si, uma água que fica ali, sem se saber bem porque, uma água de lágrimas, assim como existe água de rosas e leite de rosas. O dela é apenas água. Ela chora e sua cabeça está abaixada (embora sua escada suba), como se a ela só interessasse olhar o degrau que está ocupando. Nosso movimento de descer e subir é muito lento e, portanto, tenho tempo de avaliar e pensar em todas essas coisas, coisas mesmo que não faria numa outra circunstância ou se não estivesse, como de fato estou, discursando para alguém. Não quero que me falem mais dessas coisas de discursos longos ou curtos e de que tamanho eu posso escrever as coisas (escrevo-as do tamanho que me aprouver).
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Olho, então, eu também para o degrau que estou. O que é aquilo? Nada. Um degrau. Mais um degrau desses que a gente conviveu, subiu e desceu a vida inteira e eu só venho dar atenção aqui, justo nesse momento em que acredito estar indo para o purgatório (se a descida continuar por muito tempo talvez eu pense que estou indo direto ao inferno embora não faça a menor diferença entre um e outro nem nunca tenha feito mesmo quando tinha tempo para pensar nessas coisas.)
A figura do espelho, à despeito da mulher com que cruzamos aos prantos, olha para mim e diz que está demasiadamente literário, que pode ocasionar uma fuga em massa, que ninguém mais suporte. Eu reconheço que é verdade embora não devesse estar conversando com ele porque isso é a mesma coisa de estar conversando comigo ou de estar falando sozinho e os enfermeiros em seus trajes brancos com suas eternas seringas transbordando de valium para uso intravenoso não querem saber de história do que é corpo e do que é alma. Não. Querem saber apenas se estamos nos comportando da maneira que todos os espelhos e todas as pessoas devem se comportar. A mulher que chora, por exemplo, não está livre de ser procurada pelos homens de branco para saber que tanto choro é esse, qual o motivo de tantas lágrimas. Uma lágrima ou outra sabemos todos que as pessoas deixam escapar de vez em quando, quando nada por um cisco incômodo, mas esse mar de lágrimas, essa choradeira sem fim precisa ser justificada sob risco de ser levada para uma consulta onde se avaliará seu estado d¿alma. Não há mais como permitir nesse nosso mundo de tanta felicidade pessoas que ainda andem por aí a se debulhar em lágrimas, tal qual esta rapariga.










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mímicos do outro lado - purgatório II
No reflexo vejo o ser inanimado que parece estar se conhecendo, procurando se conhecer. Em priscas eras buscava-se o conhecimento com os psicanalistas que faziam uma espécie de lavagem estomacal no cérebro do que chamavam analisando até que esse colocasse os bofes pela boca e confessasse que, sim, tinha prazer anal. Era a teoria de Viena que perdurou durante séculos, muito após até da Laranja Mecânica. Mas não. Não era mais assim aqui nesse espaço de escadas e espelhos. Talvez seja porque se passou muito tempo e as técnicas mudaram, talvez seja porque não devemos mesmos colocar todo o nosso pensar na mão de um só analista que vê o que nós próprios não vemos. O reflexo traz a possibilidade de enxergarmos o que está ali, defronte ao espelho oval. Se está inanimado não é por nenhuma tristeza que lhe vá na alma, ao contrário, mas por estar parado, muito atento a esse objeto de análise. Procura no reflexo a imagem da mãe, sempre tão falada, sempre tão importante também no método vienense, mas não aparece nenhuma mulher que se pareça com mãe, não existe mesmo é nenhuma pessoa a não ser aquele eu que está ali refletido.
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Ele se sente pequeno como se estivesse à bordo de um barquinho de papel, desses que a gente fazia quando era pequeno e colocava na correnteza pequena que a chuva promovia na nossa rua, correndo ladeira abaixo. Fico pensando se, na verdade, o que está em frente ao espelho oblongo é uma pessoa ou um barquinho de papel. Talvez não haja diferença entre os dois. Mas existe uma enorme diferença, toma logo consciência. Quem está em frente ao espelho sou eu, de sobretudo, pronto para cavalgar o mais potente dos motores, pronto para me embriagar no mais rés dos prostíbulos, pronto para trocar a minha casa por uma sarjeta molhada e suja de lama porque nada mais assusta. Continuo num degrau de escada que não se move nem para cima nem para baixo, num ponto eqüidistante entre a normalidade e a loucura, entre o certo e o errado. Estou certo mesmo querendo estar errado, estou parado mesmo querendo estar pairando acima do bem e do mal. Esse é o meu purgatório e aguardo silenciosamente o veredicto do espelho à minha frente, agora bem próximo de mim, agora quase com seu vidro refletor a encostar na ponta do meu pequeno nariz. Minha respiração embaça o espelho, mas ele parece não se dar conta e fica ali, incólume, refletindo tudo, que no caso sou apenas eu vestido também apenas com um sobretudo (sim, estou completamente nu, não uso nenhuma roupa a não ser o sobretudo).
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Penso em subir alguns degraus e o faço com a intenção de mostrar-me acima do espelho, superior, portanto, a ele. Mas, fato curioso, acontece pois quando mais vou subindo na escada ou os degraus sobem (já não sei mais tal é a embaralhada dessa história), mais o espelho também sobe porque ele, apesar de seu contorno em madeira não está apoiado em nada, como que pairando, como que uma santinha daquelas de Lourdes. Quem sou eu? Pergunto de forma arrebatadora e ele permanece mudo, refletindo-me apenas como se não estivesse ali (não estivesse eu ou não estivesse ele). E, de repente, sem que eu tivesse a intenção ou mesmo pensasse em algo, começa a engrenagem das escadas a se mover para baixo, descendo agora com certa velocidade e junto me vai o espelho à frente e, à medida que descemos, nessa mesma medida muda a minha imagem refletida que não tenho um sobretudo e sim uma roupa preta dessas que os mímicos de segunda usam nos shows mambembes das cidades do interior e me vejo como um homem rústico e simples como os do interior, porque, meu deus, como não vi antes? Sou mesmo esse homem simplório que agora vejo refletido, sou esse homem humilde que sempre se travestiu de outros, dos que não era e sempre sofreu e pagou. Não. Sou esse simplório mímico mambembe que desce as escadas rumo talvez ao inferno, talvez simplesmente à vida que antes insistira em não olhar de frente.
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agorafobia - purgatório I
Desço a escada com a intranqüilidade dos recém mortos e no caminho percebo que não estou descendo e sim subindo. Quando descia, imaginava que estava indo para o inferno e, ao subir, num lampejo, imagino que, numa mudança louca de rota, resolveram me encaminhar para o céu. Pode ser isso ou um engano no sistema de passagens, como saber? O importante é que estou subindo e me incomoda não existirem corrimões para aquelas escadas porque sofro de agorafobia e percebo-me solto, com a impressão de fragilidade de quem pode cair a qualquer momento. Pouco a pouco a inclinação da escada vai diminuindo, começa a subir menos e chega mesmo a ficar horizontal, como uma esteira rolante, o que me deixa incomodado porque não sendo céu nem inferno, seria uma visão chinfrim do purgatório. E, em seguida, começa novamente a descer. Não posso me furtar à irritação porque não estou aqui para brincadeiras de um Deus que não acreditei enquanto estava vivo e, talvez por isso, resolve me sacanear, agora que estou morto. Talvez ele tenha esquecido apenas que, ainda que morto, não perdi minha capacidade de blasfemar, blasfemo convicto e orgulhoso que sou. Vou ficar subindo e descendo como quem está num elevador louco, desses das casas Bahia? Por causa daquela música dos Mamonas, um dia eu me encantei por uma empacotadeira das Casas Bahia, mas isso eu conto outro dia. Volto então a descer na escada e fico imaginando que, tendo em vista o quanto subi essa descida não é uma descida verdadeira, mas uma descida a uma espécie de plano médio onde todos devemos estar, não é mesmo? Desci, subi, desci novamente e subi.... Quer dizer fica difícil saber se estou no alto, embaixo, na linha do mar ou lá o que seja. E é isso com que se ocupam os anjos, arcanjos e o próprio deus quando morremos, não terão eles ocupação mais séria, mas digna de respeito? Por outro lado, penso, estou morto há pouco e pela primeira vez e não posso estar querendo entender muito dessas artimanhas de quem acabou de deixar de viver. Esse balé das escadas que sobem, descem e andam horizontalmente pode ter um significado todo próprio que eu não esteja percebendo. Seria mais inteligente se eu ficasse quieto, prestasse mais atenção nessas coisas. Nada é por acaso em vida e, tenho fé, nada deve ser ilógico na morte. Ainda mais, continuo a raciocinar, se mortos continuamos aqui seguindo esses caminhos coisas que nunca pensei, jamais acreditei. Não sei dizer se eu subo as escadas ou se ela sobem, como escadas rolantes, mas percebo que, subitamente há um tranco e a coisa toda pára. Não sobe, não desce, não anda, nada. Uma pausa para a meditação? De quem? Minha ou de Deus? E vejo, vindo em minha direção um espelho oval, grande, quase de corpo inteiro. O espelho é bonito, vê-se que é uma peça de qualidade, cara (se é que por aqui existem preços também) emoldurado por madeira escura.... o espelho vem de longe, mas vem se aproximando de mim e vejo-me refletido nele. E acho que essa é a primeira surpresa desde a minha morte. (continua)






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6.9.04

terrorismo
Meus caros ouvintes, tenho hoje uma notícia bombástica para dar, mas estou impedido. Isso, impedido. Queria falar da campanha para a prefeitura do Rio, mas como estamos aqui no Brasil num estado censurado (e se olharmos bem,m CENSURA BRABA), acho melhor não dizer as coisas claramente para não ser prejudicado mais na frente. É bem verdade que nos tempos áureos da ditadura o pessoal conseguia escrever nas entrelinhas no Pasquim, na revista Senhor e tal, mas aqueles eram caras feras, escreviam bem pra caramba, o que não é o caso desse humilde redator.
Acho que posso falar do terrorismo cometido na Rússia, naquela escola. Não pára de crescer o número de mortos, não pára de crescer o número de feridos. Parece que o governo e a imprensa em momento nenhum trabalham com números reais, nem perto dos exatos. É a praga do século XXI: o terrorismo. E não vai parar, pelo contrário, vai aumentar cada vez mais. Fico pensando que daqui a um tempo serão tantos atos terroristas em tantos pontos do planeta ao mesmo tempo que não haverão forças que dêem conta de todos. Então estaremos (todos) marcados para morrer, andaremos pelas ruas sempre esperando uma bomba explodir, sempre esperando que nossos filhos não voltem para casa, que nossos parentes morram em atentados. Explodirão metrôs, trens, prédios, tudo. Não existem meios de deter o terrorismo, ao contrário do que alguns pensam. Dizem que com espionagem, inteligência, dá pra parar. Não dá. Terrorista também tem espião e também tem serviço de inteligência. Podem anotar: vamos morrer numa explosão.


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a moradora do prédio (continuação)

Não suporto mais essa ansiedade que me corrói, que nem os dois comprimidos de Valium com uísque aplacaram. Nada aplaca em mim, nunca. Desde criança sou assim. Retorno à janela com o copo mais cheio. Fazia um minuto ou mais que não nos olhávamos mais fixamente, um dentro do olho do outro. Encosto na janela e coloco um pouco meu corpo para fora. Olho para ela e pergunto se não quer dar uma volta. Ela me olha, surpreendida. Não chegou a esboçar alegria ou descontentamento, mas espanto, como se fosse uma coisa tão absurda que ela jamais pensaria. Estou parado, olhando-a, esperando a resposta e ela está parada, me olhando e sem responder... por fim diz que não, que está cansada, já se banhou e vai dormir. Não acho que seja tão cedo para dormir, mas não preciso dizer isso. Digo outra coisa, digo que estou me sentindo só, irremediavelmente só e que meu convite não foi o que pode ter parecido,mas apenas a possibilidade de conhecermos mais um ao outro e podermos falar um pouco. Lembro a ela que as pessoas que moram sozinhas não falam, passam dias em casa sem falar porque não têm interlocutor. Ela fica parada, me olhando, me ouvindo. Não está analisando prós e contras, não, está apenas me olhando, ouvindo o que eu tenho a dizer e eu não tenho muito porque não sei falar direito, não sei explicar muito bem o que me vai pela alma.
Ela me diz que sim, que podemos vir a sair sim, quem sabe quando, em que dia, num dia que seja mais cedo. Não está alegre nem simpática, está respondendo a um convite, como quem responde a um e-mail comercial. Por que ela diz todas essas coisas se sabemos os dois que não são verdade, que podemos muito bem sair, sentar, conversar.
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Pergunto se posso falar um pouco e ela topa, diz que sim com seu rosto sem expressão. Digo a ela que não devíamos desperdiçar a oportunidade de nos tornarmos amigos, conto que acompanho sua vida mais ou menos desde o tempo que tomava aulas de tuba durante a madrugada. Não, a mim não importava não.
Perguntei se tinha família no Rio. Não, respondeu, ninguém, não sou daqui. Contei pra ela que eu também praticamente não tinha família só uma tia que já caminhava nos noventa anos e, portanto, logo logo eu estaria completamente sozinho... Contei que trabalhava num escritório de advogados que eu fazia várias coisas, era uma espécie de pau pra toda obra, mas que estava cansado daquilo, daquela vidinha medíocre. Ela me olhou e acendeu mais um cigarro. Dessa vez sim me olhou com atenção, dentro dos meus olhos e perguntou quem não tinha uma vidinha medíocre.
Verdade, concordei, a vida da gente acaba sendo medíocre, mas é a gente que faz, é a gente que torna as coisas medíocres.
Não, ela respondeu vivamente, isso é o que a gente faz, a gente se culpa de tudo sempre. Tudo o que não dá certo, tudo o que falha, tudo o que é ruim, tudo é culpa nossa. Não é verdade. É a vida que é medíocre mesmo, não a fazemos, ela é porque é porque as rotinas nos tornam escravos de uma máquina supra planetária que dirige a todos sem distinção, sem avaliação, somos como números, apenas seres que nascem, vivem e morrem para nada, sem razão, como uma minhoca ou um dinossauro.
Ela para de falar. Pergunto se ela quer vir para a minha casa, pra não termos que ficar os dois debruçados na janela e ela concorda desde que seja só para conversar.
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Quinze minutos depois está sentada num pequeno sofá que mantenho em L com a parede oposta à janela. Fuma. Ofereço um uísque e ela aceita dizendo que está com vontade de se embriagar e completa dizendo que as pessoas deveriam o tempo todas viver embriagadas porque assim seriam mais felizes, assim teriam mais paz de espírito, dormiriam melhor e não se espantariam tanto com as mazelas do mundo.
De uma certa forma, retruco, todo mundo vive já um pouco embriagado de alguma coisa, de cigarro, de trabalho, de pílulas para o humor, de um sem número de atividades que fazemos mais para não ver, não sentir e principalmente, não pensar. A maior desgraça, concluo, é pensar. Ela concorda acendendo outro cigarro. Fuma quase um cigarro atrás do outro, pouco falta para que acenda um no outro, penso. Não será uma forma de se drogar? Mas eu não sei de nada. Ela me diz que era viciada em cocaína e que parece que cheirou toda a cocaína do mundo, parece que passou toda a sua juventude cheirando carreiras e mais carreiras, umas atrás das outras, de noite, de manhã, na privada do banheiro, na bandeja de prata nas festas, no pedestal de uma escultura. Não, agora não cheirava mais porque percebeu que estava quase morrendo e tinha medo de morrer, não queria morrer. Acabamos rindo dela não querer morrer. Acho que você vai ser contrariada um dia, brinquei e ela riu mais.
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Tomamos mais uísque com moderação. Fumei eu também mais um cigarro e ela me contou que logo que chegou ao rio tinha dezesseis anos, dezesseis que é a palavra mais difícil de escrever, de grafar, podia ser quinze, mas não, não daria mole para o autor. Saiu de loja em loja procurando emprego e, ao mesmo tempo um lugar para dormir e logo na primeira noite, conseguiu um lugar perto do cais e ficou ali quieta até aparecerem três homens que a estupraram e deram-lhe umas boas bordoadas para deixar de ser putinha. Mas não era putinha, era uma menina que queria um lugar para trabalhar e um lugar para viver e estava andando os dias inteiros se oferecendo, dizendo que sabia trabalhar como balconista, saber fazer faxina, sabia tomar conta de criança e de velhos também. Mas parecia que ninguém queria nada, parecia que a cidade estava saturada, que a cidade queria mandar as pessoas embora, que as pessoas não voltassem mais. A cidade, pensou ela, queria voltar a ser um povoado. E o que faço eu? Ela me perguntou de repente. O que mais eu poderia fazer? Já estava suja e cansada, já estava a quase um mês andando e me oferecendo e ninguém aceitando. Sentia tonteiras, provavelmente de fome. Dali em diante, a prostituição foi um passo e é bom que se diga, um passo salvador. Ia com os homens sim, no início sentina nojo, repugnância, mas aos poucos foi se acostumando. Era sua única chance e ela não podia deixar de comer nem de dormir. Uma hora apareceria coisa melhor e ela mudaria. Será? Ela riu e me olhou.
Acho que sim, respondi, acho que pode mudar sim porque as coisas sempre mudam
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Ela deu um longo trago e disse que seu pai tinha matado a sua mãe bem ali, na frente dela, que ela nunca ia esquecer aquilo, aquela faca, aquela quantidade de sangue, aquilo tudo. E por que ele a matara? Por nada, porque estava completamente bêbado, porque não sabia o que estava fazendo, porque queria agredir, queria destruir alguma coisa e esse alguma coisa foi a sua mãe.
Fiquei olhando para ela sem saber o que dizer. Não conseguia avaliar o que era aquilo, o que uma criança poderia sentir vendo uma coisa daquelas, não sabia se devia perguntar a ela, como ela via hoje aquilo tudo, mas reparei que ela contou com o olhar fixo num ponto e não derramou nenhuma lágrima. Olhou de novo pra mim e disse que eu devia estar me sentindo angustiado, devia estar querendo saber o que ela sentia. Não tinha resposta, não sabia. Mas dois meses depois fora atrás do filho da puta que matara sua mãe e passou-lhe também a peixeira, bem ali, naquele caminhozinho escuro logo na saída da birosca. Depois foi embora da cidade. Se as pessoas sabiam que ela tinha matado? Mas é claro, todo mundo haveria de saber, mas ninguém veio atrás dela, ela conhecia a polícia da cidade também e acha que os policiais fingiram que não acharam o assassino e pronto, com certeza os policiais acharam justo o que ela fez, todo mundo sabia que tinha sido ela. Principalmente o bandido que, antes de morrer, ficou olhando para ela com os olhos muito arregalados enquanto a lâmina da peixeira revolvia seus intestinos, estômago ou seja lá o que for.
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Fico pensando se, de uma maneira ou de outra, não somos todos essa mulher. Podem mudar pequenas situações, podem ter dramas maiores ou menores aqui e ali, mas todos nós somos a mulher do prédio ao lado. Estamos a vida inteira numa tentativa sem fim, numa busca desesperada, numa angústia fatal. Eu acho. Não. É isso e pronto.
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Rocinha&Delfim Moreira
Os jornais de ontem traziam notícias da iminente guerra entre a favela da Rocinha e outras em seu entorno. É a guerra pelo controle do tráfico, é o desmando, é a lama, é a lama. Fico com vontade de escrever longamente sobre isso tudo, sobre essas centenas de pessoas mortas na Rússia, nesses atos terroristas, no terror que é andar pelas ruas do rio de janeiro, algo semelhante a caminhar pela Faixa de Gaza, mas tudo isso me dá enjôo, fico cansado, meus dedos parecem negar-se a teclarem o computador. Dizer mais o quê? Hoje assisti a uma entrevista antiga do delegado Hélio Luz quando ele era secretário de segurança e ele disse uma coisa engraçada, mas que tem a ver: por que não vão à Colômbia e destroem toda a plantação de coca? Por que os estados Unidos não fecham a fábrica que produz o AR-15? Sim, essa é a questão: já não caiu o muro de Berlim? As fronteiras do mundo inteiro já não estão dividas, pra lá de demarcadas? Por que continuamos fabricando mais e mais armas (e pesadas)? Pra quê? E a polícia? É brutal? É sim. Porque mete o pé nos barracos do morro, barbariza, mas não mete o pé nos apartamentos da Delfim Moreira, onde estão os consumidores? O judiciário não permite que se arrombe os apartamentos de Ipanema nem do Leblon. Então, ainda na fala do Hélio Luz, do que adianta arrombarmos essa ou aquela boca de fumo se outra logo ali adiante abrirá outra? De que adianta prendermos bandidos e traficantes se não há distribuição de renda e, portanto, novos traficantes aparecerão?. Queremos uma sociedade justa, uma polícia honesta ou não? A sociedade está preparada para isso?. A sociedade está preparada para a polícia agir em TODOS os lugares, em qualquer camada social??? Ele concluiu. Ele tem razão. Desliguei a TV e fui vomitar.
P.S. Por essas e outras é que eu não canso de alertar: não venham fazer turismo no Rio de Janeiro. É bonitinho e tal, mas a barra é pesada, é uma terra sem lei.
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sobretudo
Um homem vestido estranhamente com roupas nada típicas para o clima do Rio de janeiro foi visto rondando o campus da UFRJ no Fundão. Quem será?


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bico calado
Espera aí. Eu estava assistindo uma mesa redonda nesse finzinho de domingo e um dos participantes confirmou a indagação de outro, dizendo que não se pode falar das campanhas eleitorais. Eu ouvi errado, foi uma brincadeira ou a censura se instalou de vez? Porque eu me lembro, quando era criança pequena lá em Barbacena que em plena ditadura militar podia-se falar das eleições. Evidente que não podia ter grandes manifestações e tal, mas podia-se falar sim. E das nossas eleições aqui? É verdade que estamos definitivamente censurados? Cartas para a redação.


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5.9.04

o prédio

Se a prostituta do prédio ao lado do meu chega em casa no início da madrugada fazendo barulho, marcando sua entrada como se fosse triunfal num palco mambembe eu não posso fazer nada. A janela do meu minúsculo, mais do que conjugado apartamento, dá de frente para o outro prédio e vejo e ouço tudo que se passa lá, como se aqui se passasse, como se fosse prédio único, mas não é. São dois edifícios, duas construções, duas entradas, dois porteiros parvos, dois tudo. Mas voltando ao assunto, imagina que ela tem problemas com a vida porque não tem apenas a sua, ela atente ao público, teve que aprender a lidar com o público de uma maneira geral e eu não posso intervir em nada agora quando não pude nas noites em que ela fazia aulas de tuba com aquele sujeitinho sem graça, sempre todo de preto, que vinha ao seu apartamento trazendo a tuba. No início achei que ele só se excitava tocando tuba ou vendo a mulher tocar tuba. Só muito tempo depois entendi que ela estava tendo aulas. Acho que não chegou a aprender nada porque a vizinha dela numa das noites arrumou o maior qüiproquó , desceu as escadas de madeira gritando, dizendo que ia chamar a polícia e tudo o mais porque tuba só se toca na banda e de dia, de dia minha senhora e não na madrugada quando as pessoas honestas querem conciliar o sono para estarem prontas para mais um dia de trabalho, trabalho duro, não sei se a senhora conhece. A coisa foi mais ou menos nesses termos e a mulher do apartamento de baixo, a que todos dizem que é prostituta não trouxe mais o se homúnculo de preto com a sua enorme tuba. Tenho para mim que ela procura ser discreta e viver a vida como as demais. Acho que não é feliz. Desde o dia (há anos) que nos cruzamos na portaria, naqueles armariozinhos mal colocados para a correspondência, desde que nos cruzamos e trocamos algumas palavras eu soube que ela não era feliz. Creio mesmo que as pessoas felizes têm um viço diferente, todo especial como uma letreirozinho em nenhum pendurado na testa piscando sem parar a frase Sou Feliz. Acho que é isso, mas ela... Não, coitada, sempre soube que ela carregava as coisas, suas compras humildes de comida, sua correspondência quase nenhuma, sua cabeça em cima do pescoço, carregava tudo isso com sacrifício cansaço e enfado.
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Se realmente ela é como dizem uma prostituta, deve ser diferente enquanto trabalha, deve ser alegre e sorridente, sensual e essas coisas todas que a gente vê nos filmes e nas revistas (sim, porque as mulheres dos filmes e das revistas são muito diferentes, muito mais atraentes do que as mulheres de carne e osso na vida real.) Não sei, vou pensar melhor. Mas essa mulher há de ser alegre e risonha, sempre com uma maquiagem discreta e uma roupa provocante durante o período de contratação de seus préstimos. Quando dispensa o cliente seu mundo deve vir abaixo, atriz sem palco que vê a cortina cair a cada uma ou duas horas. E fico pensando na história que eu estava falando noutro dia da rotina, de não se querer rotina quando em tudo, tudo, tudo existe a rotina. Vejamos essa mulher se por acaso, tudo isso acreditando que o que dizem é fato, imaginemos essa mulher a fazer três, quatro ou mais vezes todas as noites as mesmas coisas. Dirão que as pessoas, os fregueses no caso são outras, mas qual! Que outros? No fundo não serão todos os homens iguais, uns com mais barriga, outros com menos cabelo, uns com mau hálito e outros ainda com pinto excessivamente pequeno? Sim, esses são os homens que minha heroína convive, são os homens que passam por sua vida diariamente e no final tornam-se uma rotina, como se todos fossem um só, como se ela só fosse para a alcova com um homem só. Deve ser assim.
Levanto, pego um pouco de uísque e coloco no copo. Sento na poltroninha em frente a janela quase na altura da janela dela. Suas janelas estão abertas, mas as cortinas fechadas o que só me deixa perceber sua silhueta. A silhueta dessa mulher também é comum demais, é simples demais, nem tem tanta nitidez assim a silhueta. Aliás, as silhuetas da vida real também são infinitamente mais frágeis, vulgares, vagabundas mesmo do que as do cinema e a das revistas ou mesmo as descritas em livros. Bom, se eu der continuidade a esse pensamento acabarei por concluir que na vida real tudo é frágil e mal feito, que apenas o cinema, a televisão os livros e revistas são bons o bastante para se ver e, portanto, para se viver. Não se preocupem porque minha loucura não chegou ao ponto de dizer que devemos viver dentro de um filme ou livro, mas acho que podemos fantasiar tanto as nossas vidas, podemos dar tantas cores e formas e tons a tudo o que vemos, participamos ou sei lá o quê, que muito bem temos como, em nossas cabeças transformar tudo, acertar tudo, dar um acabamento mais estético à própria vida. Sim, é o que penso. E pensando assim não sei se é justo chamar a moça do prédio ao lado de prostituta ainda que ela seja. Não parece um termo pejorativo demais? A mim me parece. Agressivo, inclusive. Não. Definitivamente direi que ela não é uma prostituta.
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Ela é uma mulher bonita que veio de uma cidade do interior tentar a vida aqui, cidade grande. As coisas não eram bem como ela sonhara, como imaginava que podiam acontecer. Ela precisa de dinheiro para morar e comer e se o único meio é vendendo o próprio corpo o que se há de fazer? Aposto que prazer ela também não tem. E todos nós, digam-me aqui em segredo, todos nós não vendemos nossos corpos durante a vida inteira? Não vende suas mãos e seu cérebro o médico ao realizar precisa cirurgia? Não vende sua cabeça e sua alma o advogado que defende, em troca de dinheiro, aquele que é sabidamente culpado, assassino? Não vende seu corpo, seus músculos o carregador, o estivador do cais do porto. E assim, de pouquinho em pouquinho vamos vendo que todo mundo vende seu corpo dessa ou daquela maneira. Se concordam comigo, é necessário admitir que minha vizinha não é prostituta , mas se assim for conveniente chamar, ser prostituta tem o mesmo status de médica, advogada, bióloga ou psicanalista (que vende ser tempo).
Mas eu ia a dizer no início que ela chegou fazendo barulho, que chegou contente de parece, toma um banho (também me parece) e volta para a janela, desta vez abrindo as cortinas. Acende um cigarro. Existe um néon muito próximo das nossas janelas e somos banhados por luzes azuis e vermelhas que piscam sem frenesi (ainda bem). Estou eu também na janela e me rio pelo absurdo que são as cidades grandes e suas construções. Por muito pouco, se esticássemos as mãos eu e ela, seríamos capazes de nos cumprimentar, cada um do seu prédio. E ainda assim estamos irremediavelmente sós. Fumamos nossos cigarros assim, um olhando para a cara do outro, como se o outro não estivesse ali, mas não é verdade, mentimos ambos para nós mesmos porque sabemos perfeitamente que estamos de frente para o outro e que pensamos um no outro. Ambos vamos demorar a dormir, ambos vamos pensar na tristeza da vida, ambos vamos imaginar que amanhã começa tudo de novo. Ambos vamos sorrir ao lembrar um fato agradável (temos? Não, não temos). Vou então até a mesinha próxima e trago meu caderno e a esferográfica. Poderia escrever uma mensagem para ela, fazer da folha de papel uma bolinha e jogar bem dentro do seu apartamento, mas para que, se posso muito bem falar com ela sem ter nem que elevar muito a voz por causa do silêncio da madrugada?
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Não quero ir pra cama com ela, queria mesmo conversar, queria que ela me contasse porque chegou fazendo tanto barulho, se era por irritação ou por contentamento. Olho agora para seu rosto, mas sua expressão não diz nada. Nem se estava alegre ou triste. Nada. É apenas uma mulher numa janela fumando um cigarro. Olho para o lado, para o beco e vejo o corredor formado por vários prédios e penso em cada um deles e depois penso na cidade inteira, no país... meu deus, quantos homens e mulheres não estarão agora acordados, bem ali, de frente um para o outro, bem ali querendo conversar e não conseguindo, bem ali fumando mais um cigarro tão cancerígeno como dizem. Quantas pessoas estão nessa mesma situação exatamente agora? Quantas pessoas estão se sentindo absolutamente, exaustivamente solitárias e cansadas e quantas pessoas não se dão conta dessa solidão e solitárias estão, mas não sabem porque não vêem, porque sua loucura já deu mais um passo, a percepção do mundo real já está mais longe. Deixemos isso para lá. Voltemos para minha mulher (sim, posso chamá-la de minha pela simples razão de, não importa com quantos homens ela esteve, é sempre pra cá que retorna, pro mesmo apartamento, a mesma janela em frente a minha, o mesmo cigarro que eu consigo identificar o cheiro) Ela bebe alguma coisa, talvez um drink para relaxar e seus olhos se fixam nos meus. Nos olhamos sem sorrir, sem dizer, sem desviar. Acho que nos olhamos porque estamos dizendo um ao outro que não estamos mais solitários. Ela deve querer dizer com o seu olhar que chegou com espalhafato para que eu levantasse e viesse até a janela olha-la, talvez quisesse dizer que hoje um cliente a agrediu ou não quis pagar ou pagou mais do que o combinado.
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Talvez não seja nada disso. Talvez até ela não esteja me olhando, esteja vendo apenas um ponto no vazio, olhando para si mesma e estar fixando meus olhos não passe de mera coincidência... Sim , pode ser isso. Fico pensando, meu deus, que essa mulher e esse lugar podem nem mesmo existir, posso estar já no estágio dos delírios ou então algo mais brando como um sonho. Nunca vou saber.

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4.9.04

Sem fim
Não me quero perfeito. Nunca me quis. Porque a perfeição é tão abjeta quanto o seu contrário, mas também não me venham com essa lenga lenga de caminho do meio porque eu detesto essas coisas, detesto os caminhos do meio e as coisas bem pensadas. Não, não sou um pensador nem um datilógrafo. Nunca fiz o curso TED e até hoje brigo com esse teclado maldito, essa não solução que inventaram para os computadores ou seja lá o que for. Mas não é isso. Sou o extremo, o extremo do ponto cardeal (porque eu queria mesmo era ser bispo). E a minha extremidade é coerente com o que eu vivencio todos os dias, com o que eu quero para mim, quero dessa vida interminável. Repare caro senhor e senhorita que por aqui pararam: já perceberam como a vida não tem fim? Como podemos viver numa coisa chamada vida, sabendo que tudo é finito, mas ela, a vida, não tem fim. Um ignorante ou outro corre a dizer que estou louco, que morremos todos e tudo acaba. Imbecil! Anta! Não estou falando de morte, não me interessa a morte, me interessa o fim. E para que haja um fim em que eu acredite, um fim confiável é preciso que eu sinta, que eu veja esse fim. Não tem. Repito que não me venham com delongas sobre a morte porque a morte não é o meu fim, é o fim (de mim) para os outros e não para mim mesmo. Meu fim para ser óbvio teria que ser assistido por mim, eu teria que chegar a uma encruzilhada, a um ponto onde as coisas terminassem onde eu batesse na parede e dissesse: sim terminou. (como no filme O mundo de Trumam ). Trumam, vejam bem, foi o único personagem que viu o seu fim... foi remando, navegando e pimba! Bateu numa parede. Ali acabava o mundo, era o fim. Agora eu morrer não é meu fim mesmo porque simplesmente eu não vejo. E se não vejo não reconheço. Não posso depois da morte dizer que chegou meu fim. Então está tudo errado, vou escrever tudo de novo (dessa vez manuscrito nos cadernos), vou começar a pensar tudo novamente, tudo como não foi e não é. Tentar explicar à esse bando de incautos tudo o que é referente ao fim, final, the end... essas coisas bobinhas, xangai, tolices, crianlices que as pessoas não vêem.





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os pecados do mundo
Chego em casa muito cansado, e no banho penso na mulher louca com quem estive até agora. Mulher mais louca não há, pode me acreditar. Estivemos andando por ruas travessas e avenidas e ela me falou da sua vida, me contou que não queria mais ser prostituta porque prostituta é a vida. Minha vida de prostituta, disse-me ela, destoa da vida que é prostituta em si. Então, ela continuou, eu não sou puta, não sou nada, sou uma colagem da vida, uma cicatriz, no máximo ou talvez uma tatuagem no corpo da vida. E eu não quero, quero ser algo diferente, algo que saia um pouco da rotina e eu achava que ser prostituta era ser fora da rotina apesar da prostituição em si.... não, não vou te explicar todas as coisas que você deve estar cansado de saber. Só quero dizer que tenho que ser diferente, que tenho que me distinguir do que há porque eu não sou o que há, sou pedra rara, pedra cara, de toque, de maravilhas em bolo de casamento.
Eu continuei ouvindo, tentando acompanhar.
Sou, disse, essa mulher que o mundo perdeu, que o mundo precisa que a vida fez um dia existir, não sei se deus com Eva ou se alguém mais depois. Eu sou, aliás, o depois. Querem fazem de mim o que há de vir e não é isso, eu sou o depois, sou a que não disse ainda ao mundo tudo o que ele quer ouvir porque eu não tenho a dizer nem a promoter, sou o remanso, sou o depois de todos os instantes sou a bem amada de todos os quadrantes, de todos os céus e dos sete mares. Sou o final do gozo e o início do relaxamento, sou a droga que os faz cair deitados olhando aquele quadrado no teto do quarto. Eu sou isso, o teto do quarto, o que é possível ver e assim posso também me tornar no céu estrelado e no nada negro da tábua do caixão. Em todo o caso, prosseguiu, deixo você com seu guarda chuva seguir seu caminho porque eu sigo o meu, porque eu promovo a festa do trio elétrico sem caetano, eu sou o que deixou de ser, sou o ontem e, se você pensar bem, sou automaticamente o amanhã porque os dois são a mesma coisa, basta você se embriagar até cair para perceber. Eu não sou mais a prostituta do mundo, sou o mundo que carrega essa enorme prostituição da alma nas costas, sou esse personagem mitológico, sou o que não devia ser. Sou por fim a dor que você e você um dia irão sentir.
Não respondi. Achei melhor só contar aqui.

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Sobre nada

Não vou morrer porque querem os outros ou porque quer deus. Quem é deus? Não sei, me perguntava na infância, agora não me interessa mais. Me interessa agora saber o que fazer nessa zona mental. Não. Não essa zona metal que está grafado erroneamente, mas a mente borbulhando numa zona, numa incapacidade de se regular. O que é isso? Não a loucura que todos queremos, que todos desejamos ardentemente para nosso fim.... não sei quantas pessoas podem acabar a vida sozinhas, drogadas pelas ruas de Paris.... parece que Sarte conseguiu. Eu não vou conseguir. O que eu vou conseguir? A expressão e a palavra estão erradas. Conseguir? Por que temos que desejar conseguir alguma coisa? Pra quê? O que eu faço com aquilo que consegui? Nada. Não sou mais um perseguidor de sucessos, um perseguidor de realizações. Realização é a vida, realização é olhar para o lado e ver que uns nadam em dinheiro e outros morrem à míngua, realização é estar vivo com cinqüenta anos sabendo que muitos morreram com trinta e, engraçado, saber que m trinta fizeram muito mais do que em cinqüenta ou oitenta. Tudo tanto faz. Tudo gira (como a minha cabeça), tudo gira e volta sempre aos pontos iniciais, primordiais que não levam a parte alguma, que nos fazem portadores da síndrome da rotina. Eu sou um rotineiro. Sou um nada a que acorda e dorme todos os dias. E quem é diferente? Onde se vê esse entusiasmo todos por essa ou aquela realização... quá quá...não há mais nada a fazer, meu rapaz, tudo já foi feito (só Da Vinci fez quase tudo). Portanto, não sofra nem se entusiasme demais, não pare nem corra, não diga sim nem não. Pare. Olhe. Veja o que vai acontecer em alguns anos se chegarmos lá. Veja sem medo.
Conte-me depois.

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2.9.04

Informe: Vem aí PENSAMENTO DIGITAL
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entre sístoles e diástoles, meu coração titubeia
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nós, vós...
A protagonista é a mulher de rua, que mora e dorme e come e chora na rua. Ela estava na portaria do meu prédio e seu olhar tinha toda a tristeza do mundo hoje pela manhã. Era cedo, o dia mal começava e ela carregava toda a dor dessa vida. Fiquei pensando naquilo que ela poderia estar pensando, tentando fazer uma espécie de sintonia com a cabeça dela. E por que não? Por que é pobre e suja? Sintonia é só com mulheres lavadas (às vezes mal), mulheres que têm salário, que tem herança? Não senhor, quero fazer sintonia com todo mundo, quero entender como nasce o sofrimento, de onde nasce e para onde vai. Para onde é canalizada a dor daquela mulher? Será que apenas a cachaça aplaca? Será que o fato de se embriagar e esquecer momentaneamente, será que isso tira a dor do mundo de cima dos seus ombros? Acho que não. Dia desses escrevi também sobre um mendigo da minha rua e talvez estejam se perguntando porquê estou falando dessas pessoas que moram na rua. Eu também não tenho certeza absoluta, mas acho que gostaria de traçar um paralelo entre eles e nós. Nós que choramos na cama, que sofremos e ficamos felizes dentro de um espaço reservado, que não somos os palhaços do mundo. Eles são os palhaços do mundo, eles brigam e todo mundo se mete, ri, caçoa. Eles mijam e defecam na nossa frente que passamos ao largo com nojo. Comem em gamelas e latas ou papéis, mas a comida chega ao estômago como chega a nossa. Quem são então esses seres que estão diariamente se mostrando pra gente? São espelhos de nós mesmos? São a nossa essência travestida de andrajos? São nossa outra face, a mostra, a ameaça constante do que podemos ser amanhã? São loucos, quase todos? E nós? Não somos também? Nossa loucura é pior, é avara, nossa loucura tem a desfaçatez podre do mundo...Que linha tênue nos afasta dessa população de rua que insistimos em não olhar?


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1.9.04

Fidel&Fidel
Pelo que entendi, o presidente Lula está fazendo uma campanha mundial, principalmente na América do Sul, para que seja dado mais apoio a Fidel Castro. Fidel é o mais antigo ditador do mundo, mantém a população na mais absoluta miséria e mata qualquer dissidente. Usa o embargo dos Estados Unidos como para justificar o fracasso do seu sistema comunista. Mas tudo isso a gente já sabe, o mundo inteiro sabe. Quem gosta muito de ir gastar dólares em Cuba é o nosso Chico Buarque, Castrista de primeira hora e chico tem mais talento do que lula. Se já temos Chico fazendo propagando de Fidel, o que pretende Lula? E por que o Brasil quer agora ser o defensor de todas as poucas ditaduras do mundo? Ele já esteve na áfrica, levanta a bandeira da venezuela, faz o que pode para mostrar a que veio.
A verdade é que lula singra os mares tranqüilos deixados por Fernando Henrique principalmente na política econômica. Diz a lenda que o Brasil está crescendo, que há um aumento de emprego. Será? E que salários são pagos nesses empregos? Não, o brasil é um país miserável. O governo não fez nada de importante em nenhuma área fundamental como saúde, segurança, educação. Não acontece nada, é um marasmo absoluto.
Agora, com as eleições municipais, deve acontecer um aumento expressivo de prefeitos petistas. Com isso, acham que estão fazendo a plataforma para a reeleição de Lula. Será? Lula pensa na reeleição, é claro. O núcleo duro do PT também. Mas e o povo que tem sido seguidamente enganado por este governo. O que pensa o povo?

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