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Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida. O impossível na raça humana são justamente as pessoas. Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes. Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida. Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka. Sempre teremos Paris.... Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues) Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes) A calma é inimiga da perfeição "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett "Toda mulher devia ser a Sandra Bullock" "A Tsunami é Aqui!" "Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real" "O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..." "A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite." "A Internet, repito, imbeciliza as pessoas." "O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow. "Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise." "Dormir de dia é um suicídio inconcluso" "O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo "A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues "Ser me ocupa bastante" A. Gide "Nada como a brancura cadevérica de um Pé" "Acordar é como um renascer com as cartas marcadas "A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia". "Matar-se é fazer poesia!". "'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee "Só o suicida morre dignamente". Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança. Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. . O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. . |
27.10.04
os porquês? Um A luz vermelha é trêmula. O homem na banheira, esse homem que carrega toda a ferrugem do mundo, é trêmulo. A mulher pálida tem um ar distante, assustado consigo mesma, em transe por algo que não aconteceu. Se aproxima da banheira e diz todas as coisas que ele precisava ouvir. Diz que o fim chegou, não para eles, mas para todos. Dois Quem são esses todos, pergunta ele chorando. Ele não compreende que possa haver um fim para algo tão perfeito, tão dentro do universo. Só consegue pensar na autofagia, nada mais, só consegue imaginar que são eles dentro deles e fim. Fim! O que ela diz é nada, o que ela pensa é dúvida, o que ela se aliena é tudo. Quem ela pensa agora que é? O que fizeram com sua cabeça? Não vê a rachadura da sua cabeça? Não. A rachadura do teto. Não vê? O tempo é agora, diz. Três Ela foi mandada pelo homem de preto. Um homem de chapéu, óculos e terno nigérrimo. Ele disse que ela tinha que ir. O que estava em jogo? Sua vida. Era preciso encontrar aquele homem naquele banheiro e executar o que estava determinado por Deus. Não somos impunes. Somos instrumentos de Deus, ele reafirmara. Ela vê a ferrugem e vê a goteira e vê a luz vermelha e vê o homem trêmulo e trêmula está ela também agora. Quatro É possível não fazer nada. Esquecer tudo como um sonho mau, como um pesadelo desses que a gente fica agoniado querendo acordar e não consegue. Ela pode desafiar até mesmo Deus porque Ele é bom e se compadecerá, compreenderá sua atitude. Ela pode colocar a cabeça desse homem em seu regaço e dizer que sim, que entende a rachadura, a goteira porque, antes de tudo, ama. Cinco O homem de preto está atrás da porta do banheiro, ainda pelo lado de fora. Tem o ouvido colado à madeira para ouvir tudo o que dizem, que fazem. O idiota aleijado quase coloca tudo a perder. O cartório sabe muito mais do que ele pensa, arrogante em sua cadeira de rodas. Apenas ele, ele está fazendo o serviço, apenas ele tem o comando. Apenas ele aguarda o desfecho no banheiro. Porque o mundo sempre termina num banheiro. 25.10.04
Enquanto isso... Não encontro os papéis para levar ao escritório. Faltam poucas horas para o final do expediente e não encontro nem as fotocópias nem os originais. Tenho que levar tudo para ser registrado porque é o registro de um novo homem, tudo está contido naquele envelope pardo. Todas as procurações, petições, despachos, deferimentos e indeferimentos de todo o processo por onde tramitaram aquelas folhas amarelas que falavam de algo tão simples, tão óbvio. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Mas depois da França, o Brasil é o pais mais burocratizado do mundo. E suponho que esteja no Brasil, não porque acredite que essas terras tenham esse nome, mas por causa da burocracia. Tento me lembrar dos últimos passos ontem a noite (me lembro de estar com o gordo envelope pardos nas mãos). Nada. Nenhum sinal. Hoje é o último dia para a entrega e não encontro, não encontro. Posso ter guardado em alguma gaveta, mas como se já as revistei todas e nada? Dormi pouco. Será que algum ladrão esteve aqui durante o meu sono e levou? Não seria possível. Essa coisa toda de células-tronco só interessam mesmo a mim. - - - - - - - - - - - - - - - - Deixo o tempo passar um pouco e procuro me acalmar, que em algum lugar dessa casa hei de ter deixado os malditos documentos. Começa a chover (mais preocupação, menos tempo, mais trânsito). A chuva aumenta muito, é um verdadeiro dilúvio, a cidade vai encher, as ruas vão ficar intransitáveis. Fumo meu cachimbo de opiáceos porque é necessário, porque não consigo mais ficar com cara limpa numa altura dessas. Ópio e bom e não engorda (dizem). A cadeira de rodas esbarra em algo sob o tapete. Tem alguma coisa embaixo do tapete e não tenho como me abaixar, levantar o tapete e retirar. Tem até volume, retangular. O envelope! Ele está ali, debaixo do tapete. Como foi parar é um mistério, mas não tenho mais dúvidas de que o envelope está ali. Não tenho como apanha-lo, cairei da cadeira se tentar e não consigo voltar sozinho. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - A maçaneta se mexe e entra no hall um homem de chapéu e óculos pretos. Terno nigérrimo. Um homem de preto, daqueles que a gente vê no cinema. Me pergunta por alguém e eu digo que está no andar de cima, tomando banho de banheira com a mulher que ele mandou antes. Ele me olha, desconfiado. Reafirmo tudo e ele começa a se convencer. Me pergunta a quanto tempo a mulher está lá em cima e respondo que mais ou menos vinte minutos. Quer ainda saber se eu preparei a luz vermelha, fundamental para o plano e eu respondo que sim, a luz é vermelha, está tudo como planejado. Peço ao homem de preto que pegue o envelope em baixo do tapete para mim. Ele se abaixa e pega. Lá está ele, o envelope. Peço que me entregue e ele diz que não. Hoje não. Explico que hoje é o último dia, o tabelião e o advogado me avisaram. Ele responde que só pode entregar quando a operação no banheiro de luz vermelha terminar. Insisto: não vai dar tempo! Ele não se importa. Põe o envelope embaixo do braço e vai subindo as escadas. Dou um grito e me jogo para fora da cadeira tentando alcançar-lhe as pernas. Ele sacode a perna, aperta meu pescoço de encontro ao chão com seu sapato negro e manda eu esperar. Quem manda é ele. 22.10.04
do banho Um Há um estrado de madeira como um estrado de cama no chão do banheiro. Ele está deitado no estrado olhando a pequena rachadura no teto. Pensa um pouco no autofagia de Oswald de Andrade (tão festejado agora na mídia). Pensa que há uma cultura não dita, não escrita nem esculpida, existe uma cultura sensorial, uma saber que inunda de prazer determinadas partes do corpo e que só alguns alcançam. Não é meditação, não é concentração. É um processo que o homem pode entrar, pode caminhar em seus labirintos, pode abrir portas e janelas (sempre muitas janelas, nunca mais nos livraremos das janelas). Dois A banheira está se enchendo de água ao lado e a luz vermelha produz um resultado estranho nos ladrilhos grandes e brancos, antigos, do banheiro. Parece ouvir um bolero, som que entra por uma janela pequena, de vidros quebrados, um pouco à direita da pia que tem a torneira que pinga. Essa torneira sempre pingou e sempre pingará. Ele reconhece que a existência humana é acompanhada de pingos, que em todas as casas sempre uma bica pinga, sempre se conserta e sempre acontece de novo. Pensa então que a vida é um eterno pingar, não de conta-gotas, mas de torneiras velhas, enferrujadas. Três O mundo está enferrujado e não há nada além da rachadura no teto, mais uma rachadura como tantas que vemos através das horas dos dias, nos mais distintos lugares. A rachadura como a torneira pingando é um elemento simbólico da vida, de um mundo que enferruja lentamente e que se come, daí a autofagia dita lá em cima. O que tem a rachadura com a autofagia? Tudo. Ou nada. Depende de como olhamos para a ferrugem e para a rachadura. Essa rachadura será a brecha e depois o buraco, o rombo e a terra que se abre sob nossos pés devorando-nos. Quatro A banheira está cheia e é preciso levantar do estrado para entrar na água. Água que também reflete o vermelho da luz que difundiu-se pelos ladrilhos originalmente brancos. Não há nada a fazer a não ser entrar na banheira. Há que deixar o bolero sim senhor porque ele faz parte da ferrugem ou do pingo eterno desse mundo que tentamos sem sucesso descobrir. Um mundo novo. Não. Um mundo velho e enferrujado, mas que é novo do ponto de vista de quem consegue inundar-se dessa arte impalpável, desse prazer quase místico que uns poucos alcançam (e entendem). Cinco Enquanto entra vagarosamente na banheira ele vê a fechadura se mexer. Ela entra com sua toalha cor de rosa choque, com seu rosto muito branco, muito maquiado de branco e seus lábios extremamente vermelhos de um baton que já não há. Essa mulher pode trazer a mesma dor do mundo, o mesmo fetiche dos homens, o mesmo ferrugem da terra porque ela é mundo e é terra. Ela é o que há, o que ele espera porque sabe que é o que tem. A luz vermelha deve ser a luz vermelha que se acende no mundo, o alarme total. (continua?) 21.10.04
Chegando e.mails que me fazem balançar. Não pensei que as pessoas que vêm aqui tinham esse carinho. Que me convenceriam (ou tentariam) a não parar verdadeiro drama? Ela acendeu mais um cigarro e ficou me olhando por algum tempo. Eu disse tudo, tudo que uma pessoa pode dizer sobre si mesma e sobre a outra, todos os sentimentos, percepções, tudo. Não quero continuar, eu disse, vivendo essa vida que estou levando, não quero mais ser o que sou porque na verdade nunca fui isso sempre enganei todo mundo e mim mesmo e o fim com certeza está chegando. É justo que eu me dê uma chance, é justo que eu realize alguma coisa importante para mim. (pausa) Ela não respondeu. Continuou me olhando. Continuei: o que se espera de uma pessoa que já passou há muito da idade da razão, que caminha a passos largos para a velhice, para o início da terceira idade? Preciso sair dessa caixa claustrofóbica, continuar a caminhar, deixar esse legado que eu falo tanto e mostro tão pouco. Por que eu mostro tão pouco? Onde estou errando? Eu sei. A vida, a minha e a de outros, são a caixa preta do teatro, eu nasci num teatro, sou teatro puro (não importa se bom ou ruim). Como peça, como dramaturgia tenho atos, mas já cheguei no dilúvio do quinto ato do Rigolleto, não há mais porque ficar na chuva do silêncio, na tempestade que cala a tudo e a todos. É necessário sim fazer mais alguma coisa que mexa comigo e com as pessoas. Ela continuava me ouvindo e fumando. (pausa) O mundo não vem mais em ondas como cantávamos antigamente, digo, não existe mais esse ir e voltar que preconizávamos em setenta e oitenta. Não. A arte agora é outra. A arte é difícil de se colocar como arte por causa do aparato tecnológico. A vida, a saúde são difíceis de se mensurar por causa desse aparato tecnológico, tudo mudou e as pessoas não se prepararam. Repare como muitas coisas a gente faz sem saber bem o porquê, como as máquinas nos vigiam, tomam atitudes por nós, nos esvaziam. Pode ser isso, não sei. (Pausa) Mas não importa. Eu tenho que parar esse processo pelo menos em mim. E parar em mim significa parar em você, em te mostrar que estamos caminhando para o mesmo fim, para a mesma perda de sensibilidade, de humanidade mesmo. Eu sei que eu não tenho as respostas, não sei como mudar, mas quero mudar e preciso de você. Ela apagou o cigarro e se levantou. Foi até o som e pulou algumas faixas do CD. O néon vermelho do prédio em frente refletiu-se nela. Olhou-me atentamente e buscou sua bolsa. Abriu-a e enfiou a mão procurando algo, algo que ajudaria nosso processo. (continua) 19.10.04
blogs Essas coisas que as pessoas ficam escrevendo em seus blogs, essas angústias existenciais, esse lado meu querido diário, essa vontade de sempre estar colocando uma idéia nova ou um pensamento novo sobre uma idéia velha vem constituindo o motor dos blogs. Ao contrário do que dizem os menos informados, os blogs aumentam sem parar em todo o mundo. Trata-se de leitura fácil, rápida e, vejam só, apesar de afogado em informação, o povo não se contenta mais com o que lê nos jornais ou vê na televisão. Quer tratar com o pequeno, quer ler coisas que são escritas para ela. O blog é personal, não há dúvida. Quando você encontra um que satisfaça lá ao que você se interessa, ele passa a ser interessante para você. É como se o autor e o leitor estivessem tendo uma conversa íntima. Por que? Não sei ao certo. Existem algumas opiniões como a que o leitor se identifica com o autor e precisa estar em contato diariamente com ele. Muitas vezes dá-se o contrário: justamente por não se identificar, o leitor vai lá para ver qual foi a sandice que o autor escreveu. Enfim, isso não importa muito. O que importa é que é uma escrita comum, feita por qualquer um, não é uma coisa profissional, mas está ali, está publicada e você pode repensar algumas coisas, pode se identificar com umas e não com outras. Se o que vale são os números, aí está: os blogs não param de crescer mundo afora. Dei uma folheda na biografia do Paulo Francis que está nas livrarias e não me interessei muito. Posso ter feito sem atenção, não sei. Vem se afirmandocada vez mais a figura do Diogo Mainardi como intelectual capaz de fazer comentários, críticas, colunas e análises sérias e importantes. Muito interessante sua entrevista no programa da Marília Gabriela de domingo passado. O PT vai perder a eleição municipal em São Paulo e em Porto Alegre. cada dia esse prognóstico se afirma mais. Quem sabe não é o início do fim? Me chega uma amiga que vem de uma pequena estada em Portugal. E conta, entusiasmada, como o país está se desenvolvendo principalmente no sentido artístico. Me diz ainda da enorme quantidade de artistas brasileiros (atores, cantores, bailarinos) que se apresentam por lá. Não são apenas as novelas da Globo não, é teatro, é show, é tudo. Temos mesmo que fazer arte fora do Brasil. Temos que deixar aqui o Ministério da Cultura com as suas Ancinavs e outras baboseiras e ir embora, ir mostrar ao mundo o que o Brasil produz culturalmente. (respire) Aqui você praticamente não consegue montar uma peça de teatro, não consegue montar um show, não consegue nada porque é tudo burocratizado, tudo estatizado, tudo contra para que realmente não se consiga produzir. Antes falava-se que São Paulo era uma beleza, que produzia muito mais do que o Rio, que tinha dinheiro por lá e etc. Falácia. As pessoas de São Paulo reclamam da mesma forma de não existirem políticas públicas para a cultura. Tudo bem que São Paulo possa fazer um pouco mais porque é maior, tem um pouco mais de dinheiro, mas nada relevante, nada que desmereça os esforços dos cariocas. (respire) O problema da cultura no Brasil não passa pelo Rio nem por São Paulo, o problema tem endereço certo: Planalto Central, Brasília. Um lugar, um conglomerados de Ministérios que só metem os pés pelas mãos, que só se atrapalham, uma Secretaria de Comunicação que todo dia tem que corrigir as informações de sua home page e vir a público dizer que se enganou. Fala sério. Não dou mais nenhum crédito ao Brasil nem aos brasileiros que continuam caminhando de cabeça baixa sem receber seus vales-fome ou sei lá o quê. Povo sem tutano, sem vergonha na cara. A grande manchete nacional é a foto do Herzog preso, faça-me o favor! Em vez de ficar procurando esqueleto nos armários do passado deveriam estar pensando, produzindo, fazendo. Não. Contentam-se com a propaganda ufanista que Brasileiro faz. (quá quá) (expire) 18.10.04
Já saiu o novo livro (e dizem que excelente) de PHILLIP ROTH nos Estados Unidos. Resta esperar ser lançado aqui. A gente aqui tem sempre que ficar esperando, tem que ficar à reboque dos países desenvolvidos. Bom, não conseguimos (o governo não consegue) nem distribuir vale-refeição para famílias carentes! sobretudo Me perguntaram hoje sobre o fim desse blog. Eu não quis ser direto nem responder por impulso, sem pensar. Mas realmente há uma grande possibilidade de terminar. Ele, mais do que tudo, representa um tempo, uma época, um sentimento, que não existem mais. de tardinha Essa multidão me incomoda, esse monte de gente que caminha para lá e para cá como se o mundo fosse acabar hoje ou amanhã. Não gosto de lugares vastos nem de multidão e sou logo taxado de sofrer de agorafobia. Tudo bem, a gente tem mesmo que ser alguma coisa nessa vida, não é? Mas vou caminhando mesmo assim, mesmo com as palmas das mãos molhadas de suor (quem nunca as teve?), vou caminhando porque estou perseguindo um crítico literário que vai logo ali na frente. Quero mostrar-lhe umas coisas que andei escrevendo, ouvir sua opinião, suas sugestões. Ele anda rápido, já avançado em anos, ainda que apoiando-se numa bengala. Anda tão rápido que eu não consigo alcança-lo. (pausa) Por que temos sempre que mostrar o que estamos fazendo para alguém? Não é realmente necessário. O que interessa a mim o que os outros pensam ou que me interessa mostrar aos outros o que estou pensando? Cada um deve cuidar lá da sua vida, procurar vive-la da melhor forma possível e pronto, nada para os outros. O que são esses outros na nossa vida? Parece que precisamos de uma aprovação tácita de um determinado grupo para continuarmos ou revermos nossa trajetória. (pausa) Não me interessa o que pensam de mim. Sei que não é coisa muito boa, mas não me importo, credito isso à ignorância dos maledicentes e não a qualquer desvio meu. E se não for assim também, o que se há de fazer? O que não se pode, acho eu, é ficar mudando e procurando posições que agradem ao vizinho, o primo ou a mãe. Não. Sou o que sou e me basta. Gostem de mim se quiserem. Serão muito bem vindos. Para os outros, Rodox! Nunca ao Rio As favelas continuam em guerra. A polícia continua dando proteção para que as pessoas honestas saiam de seus barracos (é isso mesmo que você leu), o tiroteio continua na zona sul (e norte). Nada mudou, nada melhorou. Não há planejamento. Fica o Viva Rio fazendo festa no Aterro do Flamengo, falando em Natal sem Fome e essas bobajadas todas pra inglês ver). Viver no Rio de Janeiro é como brincar de roleta russa. Não se engane: não faça turismo no Rio de Janeiro, vá para a Faixa de Gaza, mas não venha para o Rio, não se deixe iludir pela propaganda enganosa das belezas e tal. De que adiantam as belezas naturais se você vai sair daqui tungado se não sair morto??? quatro anos no lixo O governo paralisou o trabalho na Câmara dos Deputados e no Senado. O Brasil parou por causa das eleições. Depois pára por causa das festas de fim de ano e depois pára por causa do carnaval. É um país parado, sempre festejando, sempre cantando e rebolando, sempre com suor, cerveja e trio elétrico. Para quem olha de longe pode até parecer, digamos, excêntrico. Na prática não é nada disso. É um povo indolente que o governo agora resolveu mostrar numa propaganda ufanista dizendo que Brasileiro tenta outra vez, faz. Mentira. Bobagem. Brasileiro não tenta outra vez nunca. Brasileiro não quer saber de nada, só de futebol. Logo futebol que não tem importância nenhuma, que é um nada ao cubo. Essa é a preocupação do brasileiro: a taça, se vai ganhar a taça ou a medalha. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - País que pouco produz, que deixou de privatizar com o (salve, salve) governo Lula e, portanto, como todo mundo que quer ser estatal e estatizante está cada vez mais parado. Mais: um país de gente desinformada, que não sabe o que está se fazendo nos bastidores do poder, o quanto estatizante é a coisa. (O Globo tem hoje grande matéria sobre a famigerada Ancinav, mas ninguém presta atenção ou então finge que não viu). - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - O que parece é que o Brasil terá um enorme trabalho pela frente em 2006. Se não for reeleito, Lula deixará o país em frangalhos e o próximo presidente da república vai ter que catar os caquinhos e começar tudo de novo. Estamos vivendo um momento histórico de impotência de inércia, de nada. Estamos soltos no espaço, vendo o governo metendo os pés pelas mãos dando um passo para a frente e dois para trás, sendo truculento e, ao mesmo tenpo, tentando disfarçar... enfim, um caos. E a grande pena de tudo isso é que não é surpresa, já se sabia que ia acontecer o que está acontecendo (e o que não está). O povo se deixou levar pelos intelectuais e pela mídia comunista. O povo realmente não sabe votar. P.S. Tem uma chance de dar uma bordoada no PT, tirando-lhe a prefeitura de São Paulo e Porto Alegre. o governo Se você olhar bem à sua volta ou ler os jornais ou perguntar a amigos, verá que não há nenhum indicador de melhora, em qualquer nível, de vida para qualquer cidadão brasileiro. Não houve nenhuma ação governamental importante para a melhoria de vida, nenhum incentivo fiscal, nenhum aumento significativo de salário, nenhum aumento nos postos de emprego. Absolutamente nada. Já se passaram quase dois anos de governo. O que o Presidente da República está esperando? Até agora, de concreto, que chamasse mais a atenção foi apenas a tentativa de expulsar um jornalista estrangeiro no país e agora a tentativa de lei que amordace a imprensa. Coisas de países totalitários. O governo Lula é um governo totalitário. Não chega a ser uma ditadura não por falta de vocação, mas pela exposição que o país tem no mundo e os reflexos que viriam daí. Vivemos uma espécie de ditadura de coleira, que está ali, amarrada, mas ali, rosnando para nós, de olho em cada coisa e mordendo quem ousa passar mais perto. E o que se ganha em um país totalitário, país onde há poder demais na mão no governo e de menos nas mãos da sociedade? Acho que já era hora do povo começar a se unir, começar a avaliar, a pensar em tudo o que foi dito e o que realmente está sendo feito. FORA LULA Quem viu a foto da página 3 no jornal O Globo de ontem tem a obrigação de ficar chocado com a incompetência do atual governo. Quem lembra de Lula chorando durante a campanha e dizendo tanto da sua prioridade para exterminar a fome? Já se passaram 21 meses e a gente vê crianças andando em esgoto a céu aberto, casebres sobre palafitas, fome absoluta, doenças endêmicas, tudo o que um país sem governo, sem a presença do Estado tem. A matéria falava de regularização de moradias (praticamente nada foi feito), mas o importante é a foto, o importante é a miséria absoluta, a fome e a desgraça em seu ponto mais desumano, mais vergonhoso. Você pode imaginar crianças andando ao lado de esgoto a céu aberto, de ratos, de tudo, homens e mulheres sem emprego há anos, a linha mais baixa, mais degradante da miséria? - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Aí vem aquele papo que herdou do governo passado, que é um país pobre e tal. E daí? Não quis ser presidente? O mote da campanha não era acabar com a fome (e a miséria)? Então, por que não fez nada, NADA? Esse governo não fez nada, está preocupado com as eleições para a prefeitura de São Paulo porque elas podem se refletir na reeleição de 2006. Quer dizer, a patifaria, a infâmia, o engodo querem se instalar de vez. O lula e sua camarilha querem ficar lá, aumentando impostos, cagando para a fome e a miséria, seguindo a política econômica (não esqueçam) deixada pelo Malan e pronto? Eu já sei que os intelectuais e jornalistas são todos comunistas e pra eles, fazer disso aqui uma Cuba Continental, está ótimo. Mas e o povo? E a classe média? E os pobres, as pessoas com fome, as pessoas desempregadas, as pessoas que não têm acesso absolutamente nenhum à saúde, à alimentação, à segurança o que pensam, o que fazem? Será que dois anos de um governo que não fez nada, ao contrário, achacou ainda mais, não está sendo visto, julgado? Será que a cegueira é tanta que não se percebeu o que foi o engodo Luis Inácio da Silva? Dizem (como sempre) que parte da responsabilidade é da sociedade. Muito bem - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - E o que nós, cidadãos podemos fazer a não ser protestar com veemência, mostrar nosso descontentamento, dizer um basta a esse desgoverno? Um país que é conhecido no exterior pela violência do Rio de Janeiro, pela ausência de Estado, de Segurança Pública era para o presidente da República agir. Fazer alguma coisa para dar um basta. Mas não. É a sociedade, foi uma psicóloga que colocou uma faixa em sua janela com a palavra Basta e agora a coisa vai virar mais uma ONG, mas a gente sabe que isso não vai resolver nada. Tinha que haver intervenção federal, séria. O Presidente tinha obrigação de tomar para si a responsabilidade pela ordem no país que governa. Não podemos sair de casa despreocupados no Rio de Janeiro porque assaltos e tiroteios comem feios em qualquer bairro, a qualquer hora e o que o Lula faz? Nada. O mesmo rotundo nada que ele faz para erradicar a miséria, o mesmo rotundo nada que ele faz para acabar com a fome. Não é a hora da sociedade, fazer como ele fez no governo passado (O insistenteFORA FHC) e criar definitivamente o slogan FORA LULA? 16.10.04
do correio Recebi uma correspondência eletrônica que fala, entre outras coisas do blog. Diz que não tem certeza se sou eu mesmo ou um personagem. Respondi que é um personagem, sem dúvida é um personagem, mas não posso negar que de vez em quando, aqui e ali, entrem algumas coisas minhas mesmo, algumas convicções e tal. E essa coisa que em muitos momentos podem parecer niilistas, mas fazer o quê? É preciso que eu descreva os caminhos porque vou (vamos) passando e as impressões desse e daquele lugar, dessa e daquela pessoa são assim, o mundo é assim. Mandei uma longa carta em resposta e já recebi a tréplica que responderei logo mais à noite. A pessoa me disse uma coisa que eu por do sol Meu caros amigos, nessa mesa de bar da Urca eu vejo o por do sol e ele toma uísque com prazer. Falamos um bocado das coisas, falamos do que não falamos normalmente, dessas coisas que a gente vai guardando, vai guardando até explodir. Contei o processo que estou passando de olhar para dentro de mim mesmo e ver o que encontro e, podem ter certeza, não tem nada de bonito num ser humano por dentro. Esse papo de ser bonito por dentro é uma grande enganação, deve ser coisa da Igreja. Somos corredores escuros e empoeirados, portas que rangem muito para abrir, tacos de madeiro soltos no chão. Somos escadas em caracol sem corrimão, somos tetos rachados e cheiro de bolor. No escuro escondem-se morcegos de variadas espécies e nos lugares onde entram réstias de luz encontramos muitos esqueletos. Fico impressionado nessas viagens para dentro (que na verdade são para trás). Como encontramos esqueletos! Como encontramos pessoas mortas, enforcadas e mumificadas, como vemos as baratas que andam entre restos de comida e cadáveres que não resolvem se apodrecem ou não. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Enfim, nosso lado de fora é melhor, temos o sorriso, o olhar interessante, a fala mansa e rouca, temos a roupa e hora de tirar a roupa. Temos as falas, os discursos, o pensamento, as idéias, esse monte de coisas que ficamos falando (planos também!), que ficamos discutindo mesmo que muitos deles sejam inviáveis e saibamos muito bem disso. O uísque e a Coca Cola fazem a gente não ver muito bem as coisas, fazem a gente achar que tudo vai dar sempre certo. Otimismo pessoal! A inflação está baixando (li num jornal de manhã) e vejo as crianças andrajosas caminhando em bandos por todos os bairros da cidade. Disseram uma vez que era pessimismo meu, pode ser. Mas o outro concorda comigo ou então fazemos aquela brincadeira de ver de que lado da discussão ficaremos (dia desses coube a mim discutir defendendo o PT. Acho que me saí bem, mesmo ele sendo indefensável). - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Bom, a noite caiu e ele tem que voltar para casa porque combinou com a mulher de ir ao cinema. Eu não combinei nada, mas acho bom mesmo a gente ir, já tínhamos visto tudo. Ele me disse que de agora em diante nunca mais vai dizer que ninguém é bonito por dentro. Eu sorri. Acho melhor ser bonito por fora, concordei. Ele vai, mas não está feliz, vai porque é obrigado, porque não quer mais se aborrecer, porque tenta ainda conviver com as coisas como estão. Eu também. Todo mundo, eu acho, tenta. E ninguém consegue de verdade. 15.10.04
no bar improvisado "Esse monte de figuras montadas em cavalos brancos que se afiguram para mim prometendo isso e aquilo não me enganam mais. Acho que me iludiram na distante juventude. Hoje sei bem o que está acontecendo, sei bem qual é o resultado das coisas que estão sendo tentadas. Sei da nulidade das tentativas e não falo mais nem para o profissional que está incumbido. Deixo pra lá, deixo acontecer, deixo o mundo correr frouxo porque já sei onde estou agora e onde estarei amanhã." - - - - - - - - - - - - - - - - - Muito bem, isso é o que ela me diz enquanto estamos sentados nos barris, nesse arremedo de barzinho. Fico olhando para a rua poeirenta. Não sei se tem razão, deve ter. ela deve realmente saber o que está acontecendo e o que vai acontecer. Como na história anterior, talvez eu devesse fazer alguma coisa, mas não farei nada, não ditei nada. O meu silêncio sobre essa dor da vida se impõe acima de tudo da mesma forma que esse mesmo silêncio representa a compreensão, a aceitação do que vem pela frente. A resposta está na estradinha de terra. Estradinha onde não trafegam ambulâncias, onde apenas o gado pasta, onde alguns lagartos correm fazendo um show à parte para quem presta atenção. Foi a outra que um dia me mostrou... o lagarto (grande) corria bem na frente do carro, mostrando-se, fazendo gracinha para turista ver. Imagino que se você não é lagarto, é turista. - - - - - - - - - - - - - - - - - - Mas voltamos aos barris e ao barzinho improvisado. Ela pede mais uma cerveja enquanto termina o último copo desta. Pede também uma pinga da região, pinga famosa por ser saborosa e forte. Toma tudo junto e me olha. Sei que está pensando na cocaína. Sei que vai voltar para o Rio por causa da cocaína, eu sempre soube, não posso agora ficar me lamuriando, fingindo que não é aquilo que é. Ela voltará para o Rio por causa do pó, talvez não imediatamente, mas a médio prazo. E sou impotente, não posso fazer nada. Nem devo fazer. Tomo também a minha cerveja e o casal amigo nosso pede um sorvete (esqueci o nome). O sol também já está indo embora. E toda aquela vida e todos aqueles projetos também já estão indo embora, ainda que eu insista em não querer ver. nós Ele me perguntou assim, de chofre, quando eu menos esperava, porque deveria agüentar os ditames de dessa vida. Achei muito estranho: ditames dessa vida. Bom, respondi, acho que ninguém tem que agüentar nada embora todo mundo agüente muita coisa o tempo todo. Fiquei pensando que talvez fosse esse o preço de estar vivo, de poder aproveitar tudo de bom que a vida nos oferece. Cortei dele para a velha no hospital, na cama com grades, os pulsos amarrados com ataduras e o câncer comendo solto. Ela está presa à vida pelos outros, não querem deixar ela morrer, não querem ter culpa, querem dizer que fizeram todo o possível. Todo mundo faz questão o tempo todo de dizer que faz ( e fez) todo o possível. O menino me perguntou dia desses porque temos que fazer todo o possível e eu respondi a verdade, que não temos que fazer, que temos que deixar as coisas acontecerem. - - - - - - - - - - - - - - - - - O sonho não foi premonitório como queria minha ex-sogra, mas eu era arrastado para um buraco negro, para uma espécie de boca do inferno que me sugava com toda a força, eu me agarrava nos móveis, mas estes também eram sugados.... me agarrei num canto de parece enquanto a boca negra fazia seu serviço. Foram impactantes onde pensei seriamente se não devia me deixar levar. Quem sabe o que haverá do outro lado, quem sabe não será o próprio paraíso que se esconde por trás dessa bocarra negra que baba, ruge e suga? Acabei não indo, me lembrou um filme poltergast se não me engano. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Comi alguns cogumelos da minha casinha lá longe. São alucinógenos e não são. Acabei tendo que deitar no pequeno gramado e ali sonhar que as nuvens faziam sinais para mim, muitas vezes escreviam mesmo palavras. Do que me importo? Sinto muita vontade hoje de entornar um litro de uísque goela abaixo e ficar completamente enlouquecido. Conheci um médico que bebia e me dizia que só valia a pena beber para ficar bêbado, tinha que ter coerência. Ele bebia. Acho que era homossexual enrustido, sempre achei. Mas o tal médico veado não me importa em nada, o que me importa são essas visões que fico tendo aqui na casa ou andando mesmo pela estrada de terra. Todo mundo foi lá, todo mundo viu, todo mundo tem sua opinião. Eu não tenho. Me reservo a não ter opinião nenhuma porque amanhã ou depois eu vou morrer e não quero que fiquem imaginando o que eu achava. - - - - - - - - - - - - - Por que morrer? Já tenho muita dificuldade de respirar quando estou deitado, meus pulmões já estão muito tomados, a tosse é constante e também uma renitente dor nas costas. Evidente que não vou querer saber, não vou perguntar a ninguém nem fazer nenhum exame. Eles que vejam na autópsia, se quiserem. Como já disse um milhão de vezes antes, não tenho nenhum apego a essa vida, ela que faça o que bem entender desse meu velho e desgastado corpo. Porque aí vem aquele papo do cigarro que eu já sei (e acredito), mas não tem solução. Fico trancado dentro da cela vendo pelas folhas o que vai pelo mundo e não vejo coisas boas, não vejo nada muito agradável não. Fingir que ta tudo bem é patifaria de quem fala, é mentir para os outros e para si mesmo. O que posso ir fazendo é ir me entupindo de soporíferos pra ver no que vai dar, até quando vai. - - - - - - - - - - - - - - - Acabei escrevendo mais do que pretendia. Queria falar apenas dessa boca negra que suga tudo, das alucinações com cogumelos, da moleza dos remédios, da mentira de quem lê os jornais e sai otimista e, finalmente, ela que inspirou todo esse pensamento. Ela que está tentando se iludir, embora, ao mesmo tempo, não consiga. Os ditames dessa vida é a questão. Sinto, não tenho a resposta pronta para você. Tenho para mim, mas seria muito complicado explicar, passa por velocidade, corrente de motocicleta, sexo duas vezes por dia, drogas e uma cabeça alucinada que vai vivenciando tudo. Não basta anotar e deixar rolar. Não. Tem que ir vivenciando tudo. Sinto, não tenho resposta, mas acho que se você olhar bem, a resposta estará bem na sua frente. 13.10.04
de um papel De nada adiantou a visita ao homem que tinha os tais poderes. Nada mudou no ponto de vista dele. A coelha ou galinha continuava lá. Tudo como antes, o mesmo sangue, a mesma impossibilidade de falar tudo, de contar todos os segredos que vem guardando há tanto tempo e não quer mais guardar. Agora é ou tudo ou nada. Hora da cartada final. Hora do homem que brigou pela paz na plantação, pela igualdade racial e religiosa, hora desse homem ser visto e ouvido. Não se pode mais deixar o tempo passar. Porque tem essa história do tempo não passar, não ir pra frente nem pra trás, você ficar preso dentro dessa bolha existencial. Acontece eventualmente com as pessoas mais sensíveis, mas é perfeitamente possível sair. Pode até demorar um pouco até as turbinas estarem completamente ativadas, mas o homem sai e caminha com suas próprias pernas e procura os subúrbios e olha a maneira daquela gente viver e vê que é bom, que vivem em paz apesar da fuzilaria das metralhadoras, dos fuzis, de tudo. O que acontece é que um tiro disparado onde não era esperado, agride muito mais onde são esperados mil tiros e ouve-se apenas quatro. A velha fábula do bode: coloque um bode por um mês e depois tire o bode e veja como tudo fica muito melhor. É uma fábula tolinha, dessas que os leitores de auto-ajuda do PT (segundo o Mainardi), usam no seu dia a dia. O homem dos poderes é o homem que acertou uma vez por coincidência e ficou afamado. Famélicos ficamos todos nós outros. Guimarães Rosa pode ser hoje, Joyce também, mas falta alguma coisa, falta conhecimento, falta estímulo, falta coragem. Falta disposição para colocar Guimarães Rosa na ordem do dia e entrar de cabeça. É mais fácil ver a lombada e tentar lembrar de tudo aquilo. Não. Não dá para lembrar, tem que vivenciar de novo mesmo. E faz o quê enquanto isso, ele me pergunta. Não sei responder coisas difíceis, repito eu mais uma vez na esperança de que ele caminhe por sua próprias pernas ou aprenda a pescar (outro ditadozinho pueril e idiota) O que acontece é que ele leu todas essas páginas e não entendeu. Pediu pra eu colocar aqui, para deixar exposto on line. Ok, está. Acho que só agora ele se tocou que não adiantou nada, que essas coisas só tem valor quando estão anotadas em um caderno particular. Aqui soa tolo, sem lógica. 12.10.04
o primeiro fim o bruxo não tem mais o que dizer. não quer mais falar nada que interesse a alguém. está vazio, murcho. bruxo murcho. e ninguém que mais estar perto ou ouvir o que ele tem a dizer. nada. silêncio total. desterro. hora final. terra vazia, terra árida para qualquer coisa. esvaziamento. incapacidade de dizer e de ouvir. fim. próximo do fim. sem vontade. sem força. o que se vê é o que não era para ser visto. é o abandono total. a terra abandonada. a terra vermelha, o barro. molhado, barro molhado. nada por perto. nada que interesse a ninguém. estrela morta, apagada. sem sinalização, sem nada, sem aviso, sem olhares, sem vozes. a voz calou. não adianta insistir nem usar o que se coloca ao nosso alcance. é pouco. o fim é mais forte. ninguém percebe. mais piadas É absurdo ter que ouvir de autoridades e outros esse papo furado que a violência é também responsabilidade da sociedade que tem que se organizar, etc. E esses movimentos de desarmamento, Viva Rio, Basta e outros são caça níqueis. Sei lá para onde vai o dinheiro arrecadado por essa classe alta, esses burgueses na melhor acepção da palavra, que embarcam nessa e além de abraçar lagoas árvores (e outras demências mais) ficam aporrinhando a gente, falando em sociedade organizada e tal. Organizada? Que sociedade organizada? O governo, os governos municipal, estadual e federal metem a mão no meu bolso, levam o que bem entendem e, na hora de devolver em serviços como saúde e segurança, dizem que a responsabilidade é minha, que a sociedade tem que se organizar. O pior é o governo federal, instância máxima que vê a praça de guerra, a terra sem lei que é o Rio de Janeiro e não faz nada, não intervém, não quer nem saber. Aqui a bandidagem corre solta e os patifes dirigentes não estão nem aí, são risíveis, querendo comprar meu revólver por cem reais (os traficantes me pagam 500 ¿ quá, quá). Aqui pra eles!. Enquanto nossos filhos morrem aqui a qualquer hora em qualquer bairro, vítimas da guerra do tráfico, da desordem, do desgoverno que permite a guerra civil dentro da cidade, o Presidente do País (triste figura) fica lá costurando alianças para a (já fracassada) campanha Suplicy em São Paulo. O desgoverno patifóide do PT é vil e tolinho ao dizer que o Casseta e o Mainardi baixam a auto-estima do brasileiro. É uma vergonha! E não esqueça: se você está em outro país, não venha ao Brasil, se está no Brasil, não venha em hipótese alguma ao Rio de Janeiro 11.10.04
as festas Foram ao baile funk porque toda a galera ia. Foi ali que ela aumentou seu consumo de cocaína. Tinha até mais barata e mais pura. Começou a cheirar muito, até o dia em que teve uma convulsão no meio da festa. Ninguém quase percebeu. O pessoal da manutenção de som, arrastou-a para fora e ela se recuperou. Não cheirou mais durante dois dias. Em casa, ele disse que era melhor pararem, que aquilo não ia levar a nada, que iam ficar doentes, que podiam morrer. Ele cheirava pouco, contentando-se sempre com seus enormes baseados. Precisava se acalmar, precisava conseguir dormir. Não dormia sem fumar um e, se dormisse, acordava assustado, uma hora depois. A verdade é que ele não dormia. Nunca dormira desde pequeno (nessa época o médico receitava Gardenal). - - - - - - - - - - - - - - Depois seguiram todo o processo, toda a rota dos viciados: roubaram em casa, traficaram, foram presos (e liberados pelos pais), pararam de estudar. Só fumavam e cheiravam. O tempo todo. Foi ele quem primeiro acordou um dia sem se reconhecer, sem saber quem era e, numa crise de fúria incontida, quebrou tudo o que encontrou pela frente em sua casa. O pai levou-o a um médico e acabou internado. Ela sempre tomava Valium depois de cheirar e, quando soube que ele estava num hospício, tomou a caixa inteira do remédio. Também foi parar no pronto-socorro e depois, internada na clínica. Esses mesmos acontecimentos se repetiram quatro vezes: saíam e entravam nos hospícios. Quando saía, ela cheirava mais e gostava de ficar em baixo da mesa de jantar em casa. Passava dias ali, encolhida. Quando ele saía, não esperava nenhum dia: ia direto para a boca buscar mais pó. Porque só o fumo e o pó aplacam essa dor no peito, esse desespero, essa angústia que não passa, essa vontade de não ser aquilo, de ser outro, outra coisa. Essa é a melhor parte: fumar e cheirar e não ser mais a gente, ser outra coisa. - - - - - - - - - - - - - - - - - - Viver em outro mundo, um mundo melhor, com menos dor. E por que? Porque nem sempre as pessoas nascem certo, nascem sendo aquilo que querem ser, nem sempre viver é suportável. É muito difícil explicar pra quem não é igual a gente como é viver uma vida que é insuportável. Os médicos internam a gente, enchem a gente de remédios e acham que vai acontecer um milagre, que a vida vai se ajustar. Não vai. Não muda nada. É só uma questão de tempo. Um dia ele cansou e, no hospital mesmo tentou se enforcar. Foi nesse dia que o colocaram num quarto acolchoado e sem nada. E foi no dia seguinte que ele descobriu o barato do eletro-choque. (continua) 10.10.04
o início de tudo O vapor está para zarpar. Apita. Última chamada. Ela está no convés que cheira a peixe e mijo. Não vai desistir, se é para ir naquele barco nojento, vai, não tem problema. A noitinha vem chegando e o mar está indócil, jogando para cá e para lá. Não tem complacência, ela pensa. Não tem nada, ele vai fazer o que bem entender, pensa que fará sempre assim, que comigo também será assim. Ele vai se arrepender quando eu... acorda! Molhada de suor. Onde ia? Que barco era aquele? Para onde estava indo? Efeito do remédio, com certeza. Ele disse que ia dar pesadelos. Ele avisou e me deu a injeção mesmo assim. Mesmo eu estando menstruada como avisei antes. Ele sabia de tudo. Ele trata do meu namorado que está internado no quarto abaixo do meu. Só que o dele é acolchoado e o meu não. Só que a cabeça dele foi raspada e a minha não. Já nos encontramos no pátio e falamos um pouco (embora quando ele fale, escorra um pouco de baba do canto da sua boca). Não estou assim. Só trêmula. Muito trêmula. E os pesadelos. O dia em que ele abriu as minhas pernas e encostou a navalha, o dia que queimou o bico dos meu seios com pontas de cigarro, o dia que defecou na minha boca. Muitos e variados pesadelos. Acho que é bobeira ficar contando esses detalhes mais sórdidos meus e do meu namorado. Melhor contar a história inteira, do início. (continua) 7.10.04
seu primeiro bidê Não é o excremento que me incomoda. É a maneira como ele come, como ele põe na boca, passa na cara, se lambuza. A sala é acolchoada e tem banheiro, já rasparam sua cabeça, a comida vem num prato de plástico com colher de plástico mole, mas ele não quer, não quer usar aquele banheiro que lembra o banheiro em que viu sua mãe se masturbando, sórdida, no bidê. O pai não era nada, aquela vagabunda gostava mesmo era do bidê, era lá que se satisfazia, que tremia, rebolava e gemia. Ele assistia a tudo pelo buraco da fechadura e se masturbava vendo a mãe, sentindo tesão por aquela mulher gozando no bidê. Disseram que foi por isso, mas não provaram. Isso aconteceu, não deve ter sido a primeira nem a última vez nessa vida que as mães ficam rebolando para o bidê diante do olhar furtivo dos filhos. Claro que não. Talvez fosse até mais comum do que se pensava. Eles não sabiam de nada, faziam lá seus diagnósticos baseados em meia dúzia de regras escritas por um poeta cocainômano. E agora era ele quem estava na sala acolchoada, era ele que tomava lítio, era ele que levava aqueles incontáveis eletrochoques (nem vem, está grafado assim no Houaiss). Aliás, engraçado, gostava muito dos eletrochoques, era o momento de grande barato do dia. Uma vez propôs ao doutor: dois eletrochoques por dia e parava de comer cocô. Não houve acordo. Eram todos muito teimosos, muito ruins de jogo. E se era guerra, merda para que te quero? eu, humano Pedro passa a noite em frente ao computador. Desde o tempo da tela de fósforo. É um maníaco. Só conhece pessoas na internet, só fala on line, só compra pela rede, só come o que os restaurantes entregam. Suas casa é despojada de quase tudo. Tem um fogão de duas bocas e um colchão jogado no chão com um lençol sujo, velho. Foi na internet que ele conheceu Amanda. E quem ela é? Ela é tudo: o início, o meio e o fim. Ela hoje em dia já é a razão dele viver, sem exagero. É ela que diz o que ele deve fazer, o que deve comprar, quem edita os seus textos (fazendo muitas vezes modificações e cortes drásticos), diz o perfume que ele deve usar mesmo estando sozinho naquele apartamento. Ela disse que ele tem que ficar só e perfumado e ele obedece. Amanda é a mulher por excelência, inteligente, culta e extremamente sexual. Fazem sexo todas as noites (às vezes de tarde também), evidentemente que sempre via internet. Não há mundo que não esteja conectado em rede, não existe vida do lado de cá dos zeros e uns. O que existe aqui são pessoas, cérebros que pensam e escrevem ou desenham ou não fazem nada. Assim ele vê o mundo. Assim é o seu mundo. Procurado pelo psiquiatra de um conhecido respondeu que era isso mesmo, que não queria viver no mundo presencial, que tinha mesmo nojo das pessoas, que o máximo de contato que conseguia era com o teclado (o dele é extremamente asséptico. Claro que toda a sessão com o psiquiatra foi on line, o pagamento foi on line e o psiquiatra conseguiu, para sua surpresa, uma enorme clientela, toda ela em rede. Começou ele também a pensar bem e a ver que o mundo, a sociedade em rede poderia ser mesmo melhor, muitas angústias e neuroses não encontram solo fértil em bites e bytes. Começou então a telefonar para alguns pacientes e a desmarcar as sessões presenciais que tinha agendado, trocando-as por chats ou outros programas de conversação. E que lição podemos tirar dessa história toda? Eu não sei, até porque não abandono meus cadernos de papel de verdade, com canetas tinteiro, não deixo de falar com as pessoas, mas alguma coisa tem por trás de tudo isso. E, diga-se de passagem, eu vejo hoje, é muito diferente do mundo de matrix, não é nada aquilo, aquilo foi um desculpe foi engano. As pessoas jamais existirão como partes de um programa. Não, as pessoas jamais deixarão de existir nesse mundo, jamais deixarão a solidão de seus apartamentos desmobiliados, jamais deixarão de serem loucas. A sociedade em rede apenas aprofunda e dá tecnologia à loucura geral, ampla, irrestrita, loucura crônica desse mundo que um dia teve verde, mar e gente. Pedro é redator de um novo mundo. 6.10.04
privada Ele sentou-se à privada e leu o jornal. Na verdade, o jornal o leu. Ele era a exposição, ele era a figura patética e não o jornal. Não existe nada mais patético do que uma pessoa sentada na privada defecando. As pessoas vão, sentam, enchem os vasos sanitários de merda, se limpam e saem, mas sabem que aquilo não é interessante, que quilo não é agradável, que aquilo é anti-estético e sem graça. Ele me disse que lê para se distrair, para não voltar sua atenção para a massa que se move em seus intestinos. Cagar é como se não fosse. Como se não tivesse havido. É a banalização do ser. É a vergonha que carregamos do primeiro ao último minuto de vida. É a não santificação possível. É o momento de vergonha e baixeza. Ninguém é um virtuose na privada. grand circo Não tenho terreno para correr. Tenho vontade, sei que posso ainda correr muito, mas não tenho terreno. Corro e dou de cara no muro. Estou preso nesse espaço que percorro voltando sempre ao mesmo lugar, nesse labirinto, tal e qual um minotauro... quantas coisas poderiam estar sendo feitas, que prisão mais estranha é essa? Qual o motivo. Tudo bem que está sendo tudo devidamente anotado, que em algum momento as coisas vão mudar e a verdade virá à tona, mas quanto tempo falta? Por quanto tempo pode existir a tentativa de massacre? Quem é o inimigo que insiste em se manter nas sombras, invisível? Quem é o verdadeiro fantasma da ópera nesse mundinho chinfrim? A mulher barbada dá granes gargalhadas e solta fogo pela boca, chamuscando a ponta da barba. Eu acordo e durmo e os lençóis não param quietos. Eu sou o homem que leva o minotauro, sou o perdido das noites e dos dias, sou o buscador. Quem mais se submete a ser buscador? Quem mais se arrisca sob essa lona vagabunda em Niterói? Quem mais quer fazer graça? Por quanto tempo exposto à crítica de uma gente desqualificada? O palhaço é exatamente isso? Um artista que expõe seu trabalho a uma crítica desqualificada. Nunca fui bom de malabares. O que me salva é essa rede (carcomida). gincana Participar da gincana não era particularmente a sua vontade, mas o fez para atender a mulher e os filhos. Caçou a rã e o sapo gordo. Caminhou pelos charcos e fez pescaria à noite em seu pequeno barco à remo. Fez tudo o que pode para ajudar, para trazer alegria e felicidade aos outros. Não a ele. Não pensou em si, não foi egoísta, não se importou em estar numa atividade que não o agradava em nada. Fez tudo com boa vontade e na certeza de estar fazendo o bem da sua família. Sabia que não era também nada de extraordinário, mas era alguma coisa, era ceder de seus desejos em troca dos risos, das brincadeiras, da alegria dos filhos. Quando entrou no bangalô na quarta noite e encontrou sua mulher na cama com o crioulo nativo, não quis acreditar. Primeiro pensou que estivesse tendo um surto qualquer e vendo coisas que não estavam acontecendo. Mas era tudo real. Enquanto ele estava fazendo as palhaçadas para agradar todo mundo, sua mulher divertia-se a valer no sexo do negro. Não havia uma explicação lógica, não tinha um porquê. Eles tinham uma vida sexual boa, eram felizes. E onde, afinal, estavam as crianças naquele momento. Não deviam mais estar andando sozinhas pela aldeiota. Deu um passo atrás para não ser visto. Os dois, na cama, estavam entusiasmados demais para se darem conta da sua presença. Afastou-se. Foi ao outro cômodo e abriu a parte superior do armário. Pegou o revólver e checou se estava carregado. Só então percebeu que estava chorando, estava sentindo dor, estava ferido. Não queria trazer todo aquele sofrimento consigo. Era preciso fazer alguma coisa. Entrou novamente no quarto e atirou na mulher deitada na cama. O tiro pegou no peito, um pouco acima do seio esquerdo. Ela estava sentada na cama e arregalou os olhos quando o viu e sentiu a bala entrando. Colocou a mão na ferida com os olhos esbugalhados. Queria entender o que tinha acontecido, o porquê daquele tiro. Não conseguiu saber, morreu antes. Ele revirou o quarto, abriu o armário, olhou em baixo da cama. Nem sinal do negro. As janelas estavam trancadas por dentro. Com o barulho, as crianças vieram de suas camas, com o sono ainda atrapalhando. Que barulheira fora aquela? Viram a mãe caída na poça de sangue na cama. O pai com o revólver na mão. O que estava acontecendo? O que ele vira de verdade? O que acontecera de verdade naquela noite? Ele não tinha bebido nem tomado LSD. Rebote? Talvez. O que aconteceu de verdade naquele bangalô, em meio à gincana que ele não queria participar? (continua) plágio Tudo bem que é muita grana em jogo, mas é muita babaquice Michael Baigent e Richard Leigh, entrarem na justica, dizendo que é plágio de seu livro "O santo Graal e a Linhagem Sagrada", o romance "O Código da Vinci" de Dan Brown. Claro que Dan Brown pesquisou muito no livro O Santo Graal, mas e daí? Não é um livro de pesquisa mesmo? Não é para ser consultado? E, considerando que os autores do livro estejam certos, o que há de mais num autor escrever um romance com as informações colhidas no primeiro, um livro de pesquisa? Aliás, o livro de Michael e Richard foi reeditado em várias partes do mundo graças ao Código Da Vinci. Estão vendendo mais na esteira do romance. 5.10.04
novamente Bullock Reli o post que fala na Sandra Bullock, naquelas palavras que dizem que ela é tudo de bom. Pó, você quer ter uma impressão, um sentimento, qualquer coisa melhor do que achar uma outra pessoa tudo de bom? Não existe. Esse é o grande barato da vida, esse é o não definitivo ao suicídio, esse é o momento em que vejo o verde mais verde em todas as matas, que o céu é mais azul, mais demais, onde o carro do Mickey (Mickey Mouse?) é engraçado com seus pneus remendados com esparadrapo. Esse é o momento legal em que eu me toco que não preciso ver o tal João Gordo, que aquilo não existe, é um pesadelo acordado, que as fases ruins são exatamente isso, nada mais do que isso: fases ruins. Agora tem essa coisa super que é você olhar uma pessoa e dizer: ela é tudo de bom! sonhos Acordo com meu próprio grito de pavor. Não medo, mas pavor de imaginar que tudo acabou. O sonho chega ao final, ao momento derradeiro em que ela se vira e segue o caminho e eu grito, um grito que ecoa pelas montanhas, meu sonho chega nesse ponto, nesse grito e reproduzo aqui, nessa cama banhada de suor o grito. Acordo sofrendo como sofri no dia, como se o tempo não tivesse passado, como se não houvessem mais as cicatrizes e eu estivesse vivenciando tudo aquilo novamente. Quando eu parei de fumar, durante quatro anos sonhava eventualmente que estava fumando e sofria por estar cedendo ao vício depois de tanto sacrifício. Acordava e via que fora um sonho, que eu não fumava mais de verdade. Pois esse sonho é igual, ele volta, é recorrente e no sonhar vão-se todas as amarras, todas as proteções para a dor que, ao longo do tempo, construí. Ao contrário do fumo, quando acordo vejo que é verdade, que tudo aconteceu e continua no mesmo ponto. Ponto sem volta. O sonho é o diabo do homem, sua pena perpétua. lama Não há garrafa que alivie esse homem de pele vermelha e esticada, inchada de álcool. O que ele perdeu foi não só a mulher e a filha, mas a vontade de ser,a vontade de continuar porque esse mundo é injusto, duro e mau. Não consegue trabalhar, nem ler, nem escrever. Pensa na casa que deixou no campo, na erva daninha que se alastra por toda a parte, pensa na sua impotência diante dos acontecimentos em Tóquio. Como pôde acontecer algo tão devastador? Não tinha esse sentimento quando o médico falou da próstata, quando deu a notícia. Achou ruim, foi para um bar e bebeu quase uma garrafa inteira de uísque barato, mas saiu dali e foi para casa e a mulher o consolou e compreendeu tanto álcool, tanto mar. Agora tudo era diferente, era indiferente o quanto bebesse, o quanto o pâncreas suportasse, o quanto os carros desviassem dele quando atravessasse trôpego as avenidas, porque atravessava de nada para lugar algum. Ia em frente, mas não tinha rumo, podia dar voltas, podia cair e ter delírios, podia ser recolhido ao albergue, chutado e jogado novamente nas ruas. Nada se alterava. Lembrou-se que uma vez sua avó contara a história de um tio que não queria nada na vida e andava por aí, ninguém sabia dele direito. Mas não era o caso dele, pensava, olhando o céu enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto. Ele não fizera nada de errado. Empenhara-se em todas as coisas que os homens mandam as pessoas se empenharem. Ele agora estava sentado no beco, na sarjeta com a garrafa pela metade, mas não fora sempre assim. Já caminhara de terno, trazendo sua pasta com documentos importantes, jogara moedas aos mendigos e comprara uma casa pela Caixa Econômica. Até o câncer, ele enfrentara com bravura! Mas agora era demais. E esse é o problema total, o final. Vamos fazendo, lutando, enfrentando, mas, via de regra, a carga é pesada demais e vergamos sob toneladas de dores que a vida impõe. De que vale? - pensa ele. De que vale? ¿ nos perguntamos nós toda vez que vamos ao banheiro. 4.10.04
argila de noite Telha. Barro. Mais telha. Muitas telhas, até não mais poder. Tijolos, alguns. Entrou nesse descampado, olhou os modelos de telhas, curtiu cada formato.Uma olaria? Talvez, mas em sonho com certeza. Descobriu que existem muitas mulheres nas olarias e viu os caminhões chegando com o barro da ribanceira próxima, ribanceira que desaba na estrada em dias de chuva forte, impedindo o tráfego de automóveis. Os tijolos, ao contrário, das telhas são uniformes. - - - - - - - - - - - O que um homem faz visitando uma olaria nesse dia de chuva? Na verdade, nada. Na verdade, ele não sabe que está ali, parou seu carro naquele sítio e resolveu entrar,mas não tem juízo perfeito sobre o que aqui (não) representa. Reconhece, entretanto, que existe arte na olaria, que se mexe com responsabilidade, com profissionalismo no barro. Porque do barro viemos todos, não é assim? O barro é sagrado. Sagrado é o homem que mexe com o barro e a mulher que fica no torno, trabalhando suas peças, seus potes, suas jarras, já aí em outro lugar que não a olaria. Eu conheço uma que tem seu estúdio em casa. Ela mexe com argila e faz adereços de todos os tipos. Eu tenho no meu baú, adereços feitos por ela. - - - - - - - - - - - - - - O conde não diz nada ao motorista e deixa todos esses sítios passarem, não pára em nenhum. Tudo é seu mesmo, o conde não se interessa por barro, nunca quis nem mesmo chegar perto. Herdou tudo do seu avô e tem lá quem cuide, a coisa parece andar sozinha. O que interessa é o dinheiro e esse vem facilmente, interessa também a cocaína e os rapazes de programa. O conde gosta desses rapazes de programa que fazem grandes festas com ele. Não dispensa as bandejas de prata com as carreiras já preparadas que recebe de um e outro. - - - - - - - - - - - - - - - - O conde não entra em avião. Tem medo. Quando era pequeno, sua mãe morreu num desastre de avião. Estava indo para a Europa fazer um tratamento contra o câncer nos ovários e o avião caiu? O avião caiu com o câncer dentro. Em seu corpo, em suas entranhas o avião levava a mulher do câncer, mas tinha ele próprio, o avião, seu câncer mortal. Matou a todos e a ele, que irrecuperável ficou. Por via das dúvidas, o conde não anda de avião. Se há câncer nele também? Não sabe e nem quer saber. O que tiver que ser, será. O importante é o momento, é o agora. Vive o seu agora à cada segundo. - - - - - - - - - - - - - - - - A empregada doméstica limpa nos dias seguintes toda a bagunça das festas que vão até pela manhã. Ela sabe de tudo, mas não se interessa. Pensa no filho que trabalha ali perto, na olaria. Seu filho vai viver aquela vida para sempre? Não seria melhor roubar e matar o conde (que não presta para nada mesmo) e ir embora, com muito dinheiro para viver uma vida melhor? Por que o conde não tem que se preocupar com nada e o filho tem que trabalhar tanto na olaria. O filho é apaixonado pela artesã que é apaixonada pela sua companheira de ofício. Formam um casal as duas. O filho sofre. A mãe sofre. O conde, no fundo, é infeliz. Moral da história.... 1.10.04
desabafo Por que ele me chama de doutor? Não sei. Mas se aproxima de mim e diz: Não é que eu não durma, doutor, eu durmo. O que me angustia é que eu durmo errado, durmo durante o dia, durmo no início da noite e acordo... depois vou dormir de madrugada e acabo acordando às 4:30 h. da manhã. Acho que estou acordando cedo demais, queria acordar às dez. queria ser mais parecido com as outras pessoas, achar que é bom dormir até tarde no final de semana. Esse sono desencontrado não descansa e desencontra a gente da gente mesmo. A gente perde o contato com o mundo. Eu perdi esse contato há muito tempo, mas faço tudo pra ir me compensando (e tenho conseguido). O negócio é que cada hora me descompensa uma coisa, um lado e estou sempre nesse desequilíbrio, fazendo força para caminhar no meio dos viventes sem chamar muito a atenção. Sei que não consigo, de qualquer forma. Sei que estão olhando exatamente para mim, para o meu jeito de andar, para o meu jeito de falar, para onde estou olhando. Estão procurando sempre esse descompasso entre eu e os outros. Querem que eu seja os outros e não sou. Não sei se fazem isso com cada um dos outros, de cada outro é uma unidade autônoma que também é patrulhada assim. Talvez sejam. Talvez eu esteja achando que é só comigo e não seja, pode ser que todo mundo esteja sendo controlado. Não sei. Não sei mais nada de mim nem do mundo que me cerca, doutor. quem? O limpador de pára-brisas não funciona direito, não dá conta de toda a água que cai, da água que bate de encontro, que escorre mais parecendo querer lavar o mundo e não o meu carro. Enxergo pouco à frente, apenas as lanternas vermelhas dos carros e ainda teimam em cortar e correr e se arriscar e não dar atenção para o tempo. Quero parar numa esquina qualquer, desligar o motor e chorar, chorar muito por tudo isso que desejamos e não conseguimos ser ou o contrário. Em muitos momentos somos mais do que era para ser e o sentimento de ser mais é igual ao de ser menos, não se iludam. De ter demais também. Estamos sendo expostos a uma quantidade de coisas que queremos, uma quantidade de coisas que querem que a gente queira, uma quantidade de penduricalhos que vão pespegando na gente, uma quantidade de maneiras de ser, de atitudes, de conceitos, uma quantidade de tudo o que simplesmente não somos. Eu não quero ser nem ter isso tudo, vivo com menos, preciso de menos, preciso das minhas drogas e dos meus conceitos certos ou errados. Quero e não quero ter o celular de última geração. Será que realmente eu quero? Acho que sim, que esse eu quero, embora não precise absolutamente. Talvez seja mais importante assistir aquele programa do GNT com aquela senhora de idade falando sobre sexo ou então encontrar uma ração maneira pro meu gato Arthur II. São essas as coisas que compõe a vida, que me dão ânimo, que nos empurram dia a dia para fazer isso ou aquilo para comprar peixe na praça quinze, ver aquele peixe fresco embrulhado em jornal velho e pensar que vai dar uma trabalheira para transformar tudo isso em comida. Não. Melhor uma lata de sardinha. Melhor não ter telefone. Melhor assistir um filme B, velho na TV. Melhor não ter compromisso com essas coisas que querem que eu tenha, melhor sair de sistema que me leva à loucura, que me empurra para um abismo sem fim, me empurra, repito, porque não é nada disso o que eu quero. Não quero escrever essas coisas, não quero atualizar isso aqui todo dia nem quero receber correspondência comentando. Não quero que gostem nem que não gostem. Sou apenas eu, uma pessoa, perto das sete bilhões de outras pessoas. O que isso significa? Nada. Somos um nada com uma cabeça que é tudo. Não pode dar certo. Temos que, necessariamente, enlouquecer. Toda Sandra desse mundo Ele bateu na minha porta e entrou. Tinha a aparência de quem não está bem. Tomou um uísque comigo e falou que estava sendo perseguido e que sua personalidade estava sendo trocada, que estavam fazendo isso com ele, tudo por causa de um segredo que descobriu num site pirata. Eu tentei dizer a ele que isso era mais ou menos o enredo de A Rede, com a Sandra Bullock e ele disse que sabia disso, mas fazer o quê? Estava acontecendo com ele também, ali, na vida real, não era um filme. Tudo bem, eu acreditava. Por coincidência sonhei às 21 h. que estava amarrando os pés de Sandra num coqueiro e os pés dela eram tão lindos como seu nariz, como ela toda. Sandra Bullock é tudo de bom, é a coisa mais linda que eu já vi, ele me disse, e eu posso estar com uma espécie de síndrome de Sandra, não é verdade? Pode, concordei. O que mais eu poderia fazer para acalmar aquele homem que já tinha tomado até Valium na veia antes de estar ali falando tudo aquilo comigo? Não, eu não tinha mais nada a fazer. Deixei-o deitar e dormir que era o que ele precisava e fiquei eu pensando no velho filme A Rede e nessa mulher fantástica, amor da América e meu também. Existe um movimento, que antigamente se chamava fã clube, mas hoje é composto de forma diferente. Existe um lugar onde todos os adoradores de Bullock se reúnem e falam da coleção de carros antigos dela, que falam e salvam imagens de seus olhos, de seu nariz, de sua boca. Toda mulher deveria ser Sandra Bullock, penso eu. Como as mulheres devem se sentir ao pensarem nela e se olharem no espelho? debate O debate dos canditos à Prefeitura ontem foi morno. Teve só aquela briguinha, aquele descontrole do Conde. Achei o Cesar Maia o melhor, o mais preparado O Crivela perigoso pelo discurso (falso, mas enganador, perigoso) O Conde me pareceu o mais simpático, o mais centrado (mas também não é verdade, não podemos esquecer das ligações dele com o Garotinho) A Jandira uma chata insuportável O Bittar chatinho e bobinho. Cesar Maia vai ganhar sem dúvida nenhuma pra quem ainda não entendeu Gente escrevendo por causa do negócio que falei dos hermafroditas. Não entenderam nada. Aliás, essa é uma das desvantagens de escrever as coisas na internet ao invés de publicar e ler: as pessoas não estão entendo, não sabem nem do que a gente está falando e lêem. O livro é mais dirigido, como tem que pagar, a pessoa só compra se estiver interessada no tema e, normalmente tem uma formação melhor. A internet é para os sem formação. No futuro, eu acho, a internet terá formado algumas pessoas (algumas porque outras são burras mesmo), que estarão mais polidas para compreenderem o que está escrito. Por enquanto é isso, é be-a-bá, é tentar explicar mesmo pra todo mundo. O que eu falei dos hermafroditas tem a ver com muitas coisas, até com a história da criação de Eva com uma costela de Adão ou seja, um formado com um pedaço do outro. Então tem essa dualidade, de qualquer maneira, até na Bíblia, o dois vem do um (Adão) o que seria uma maneira menos clara de falar que os dois são um e um em dois é o que eu disse: em essência todos somos hermafroditas. Não vou publicar o e.mail porque o leitor não sabe escrever direito. Espero não ter que continuar muito tempo explicando essa coisa da dualidade. Enfim, vamos lá |