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Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida. O impossível na raça humana são justamente as pessoas. Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes. Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida. Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka. Sempre teremos Paris.... Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues) Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes) A calma é inimiga da perfeição "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett "Toda mulher devia ser a Sandra Bullock" "A Tsunami é Aqui!" "Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real" "O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..." "A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite." "A Internet, repito, imbeciliza as pessoas." "O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow. "Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise." "Dormir de dia é um suicídio inconcluso" "O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo "A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues "Ser me ocupa bastante" A. Gide "Nada como a brancura cadevérica de um Pé" "Acordar é como um renascer com as cartas marcadas "A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia". "Matar-se é fazer poesia!". "'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee "Só o suicida morre dignamente". Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança. Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. . O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. . |
29.11.04
blues Um Entregar o volume para a moça foi o que me aconteceu de melhor no período de, pelo menos, um ano. Ela veio à minha livraria pelo menos umas nove vezes sempre insistindo, sempre implorando que eu conseguisse um volume daquele livro que ela não encontrava em parte nenhuma. E logo logo eu constatei que realmente o livro estava esgotado. Os compradores que eu conheço também não tinham. Nenhum livreiro tinha. Dois Quando soube que a biblioteca da maior cafetina da cidade ia ser vendida com a morte da velha aos 93 anos, resolvi ir até o apartamento na Avenida Atlântica. Um enorme apartamento com luxuosa e cara decoração ainda que de gosto duvidável (Não. De péssimo gosto). Quem estava cuidando da venda dos livros era uma mulher anã que parecia ter colocado toda a maquiagem que seu rosto suportava. Tinha buço e o cacoete de, vez por hora, ajeitar a dentadura, num movimento quase involuntário, mas nojento de ser visto. Usava óculos, desses que ficam caídos na ponta do nariz, uma das lentes estava rachada, mas ela não se importava. Me perguntou de forma direta se eu queria comprar aquela tralha e me mostrou duas paredes do piso ao teto de livros cuidadosamente alinhados. Fiquei olhando a biblioteca, cheguei mais perto, manuseei alguns volumes e constatei que a cafetina gostava de ler e tinha gosto refinado, principalmente para os clássicos. Três A mulher anã estava sentada num banquinho pequeno, mas mesmo assim suas perninhas não alcançavam o chão, balouçando como uma criança impaciente. Olhei por mais algum tempo os livros, talvez uns quarenta minutos. Todos os volumes estavam em bom estado e haviam livros sobre tudo: desde culinária até os textos apócrifos. Perguntei à mulher quanto ela queria. Não. O valor era muito alto. Até que daria lucro, mas se eu tivesse certeza de que tudo seria vendido rápido, mas para fazer estoque não dava. Fiz uma proposta jogando o preço lá embaixo. A anã se irritou, jogou-se do banco no chão e disse que não tinha negócio, que eu estava insultando, debochando, que, como livreiro, saberia muito bem o valor da biblioteca. Fiz, então, nova proposta, desta vez bem mais generosa, mas ainda muito abaixo do que a mulher pedira inicialmente. Sua irritação diminuiu e ela viu que teria que negociar muito comigo. Quatro Não vou perder tempo contando como foi a nossa negociação, basta de dizer que arrematei a biblioteca apesar da anã continuar se dizendo prejudicada. Perguntei se era filha da morta e ela disse que não, que era amiga e me levou numa escada em caracol para uma cobertura, um lugar aprazível, com muitas plantas e uma pequena piscina redonda. Mandou que me servissem um uísque com guaraná (de onde aquela mulher tirou isso?!) e pediu uma vodka pura para ela. Quando fomos servidos por uma mulher mameluca vestida com berrante estamparia na chita que usava, além de muitos colares, caiu uma pesada pancada de chuva. A anã não perdeu tempo: falou que precisava vender logo tudo aquilo, que a falecida era uma louca de juntar tanta porcaria, que era ciumenta de sua biblioteca e que passava pelos menos quatro horas por dia lendo. Os homens que freqüentavam o bordel não eram propriamente literatos e as putas, coitadas, umas bestas. Pra quê uma cafetina culta? Perguntava a anã com os olhos extremamente abertos, esbugalhados mesmo, como se fosse me comer com o olhar. Cinco Nada disso importa muito. Poucas coisas importam muito. No dia seguinte eu estava com um pequeno caminhão na casa da mulher e ajudei e coordenei a retirada dos livros. Procurei dar uma certa ordem na mudança para que eu não tivesse trabalho depois. A anã estava num canto, embriagando-se de vodka (fico imaginando que os anões devem se embriagar mais rápido, porque são muito pequenos, o sangue chega mais rapidamente ao cérebro). Já na segunda parede, numa das estantes, quando os carregadores tiraram uma fileira de uns trinta livros vi a pedra azul, resplandecente atrás de um livro. Coloquei-me entre a pedra e a anã para que ela não visse. A pedra era grande, um pouco maior do que um ovo e seu azul brilhava estranhamente. Discretamente peguei-a e coloquei-a no bolso. 23.11.04
porto seguro Um Fico me perguntando o que acabei indo fazer no cais do porto (se é que se pode chamar assim) daquela cidade tão pequena. Mal poderia ser chamada de cidade, era um escoadouro de produtos pela facilidade geográfica com o oceano. A cidade vivia em função do porto. Ele era o gerador de empregos e até mesmo ponto de encontro, muitas vezes de passeio para as pequena população local. Sim, havia bruma, como há em qualquer narrativa de porto. O homem estava encostado num dos suportes de madeira e fumava já o quarto cigarro desde que chegara. Olhou o mar. A iluminação era muito fraca e à noite como estava era impossível vislumbrar o óleo da água. Sim, acontecera um acidente uma semana antes, um cargueiro derramara parte de sua carga perto dali e, agora, o óleo vinha até as margens. Os grupos especializados já estavam trabalhando naquilo e logo o problema seria sanado. Aliás, para ele não era problema nenhum, pouca importância dava ao meio ambiente e toda essa tralha. Dois O outro homem ficara de encontra-lo às 22 h. pontualmente naquele lugar e já passavam vinte minutos do horário marcado. Não gostava de gente que se atrasava, nunca gostara, desde de os tempos de corinha na igreja da Sagrada Maria em sua cidade natal. Precisava conversar, saber o que realmente estava acontecendo e o lugar que acharam mais discreto e conveniente era ali, no cais. Uma mulher veio vindo, uma velha, a bem da verdade, seus oitenta anos, embrulhada em xale preto de qualidade inferior Três Era esse mesmo o recado: o homem não poderia vir por estar acamado e pedia que fosse ele na hospedaria, poderiam conversar mesmo com o doente deitado no catre. Pensou um pouco: mas não fora ele mesmo quem descartara de pronto o encontro na hospedaria por considera-lo perigoso, como dissera, onde as paredes têm olhos e ouvidos? Como mudara assim de opinião? E por quê? Perguntou à velha se era isso mesmo e, confirmado o recado, se não era conveniente esperar pelo seu restabelecimento, ao que a velha deu de ombros num claro sinal de que pouco se importava, estava ali para dar um recado e, feito isso, virou as costas e seguiu seu caminho penetrando nas brumas em direção a cidade. Quatro Bateu à porta do quarto e ouviu um pedido para que entrasse vindo do seu interior, voz fraca, bruxuleante. Entrou. O homem deitado na cama suja estava abatido, magro, ligeiramente sujo, olhos mortiços, embaçados. O ambiente tinha um bafio de doença, falta de arejamento e higiene. Agradeceu a presença do outro e desculpou-se por ter faltado ao encontro. De baixo do travesseiro, pegou um envelope pardo muito usado, completamente amassado e passou-o ao recém chegado dizendo que ali estava tudo, que conferisse por favor. O homem conferiu e lá estavam as cédulas perfazendo a quantia exata, a combinada. Pois muito bem, disse o enfermo, agora cabe ao senhor cumprir sua missão e vir aqui buscar a metade restante. Entretanto, solicitou quase arquejante, quero que me traga uma prova do trabalho. Quero as duas orelhas do defunto embrulhadas no papel de seda que envolve a maçã. O outro assentiu, virou-se a saiu, sentindo-se aliviado, louco por ar fresco. 17.11.04
O Óbvio Inesperado Um Eu não me lembro muito bem o porquê da necessidade de entregar o tarô e o envelope pardo para a mulher. Sim, ela era mística, bruxa que seja, e o tarô era, digamos, mágico. Mas o que tem isso a ver com a história? Realmente não me lembro e tudo o que escrevo aqui coloco num envelope e mando logo para Teresina, no Piauí, onde o editor cuida de publicar ou fazer lá o que ele bem entenda. Escrevo com caneta tinteiro (só sei escrever assim) e, portanto, não uso carbono motivo porque não tenho cópias. Sou obrigado a guardar na minha cabeça toda a narrativa, tentando ao máximo lembrar como de fato se deu. E a minha memória.... Quem me conhece, sabe. Dois Se tivéssemos alguém no apartamento do primeiro andar, veríamos a curiosa cena da velha magérrima se atracando com o cachorro que bebia o sangue da velha morta. Com sua bocarra negra, sem dentes (sim, com verruga no nariz), se atracou com o pobre animal caluniando-o, chamando-o de vampiro, vampiro vagabundo, vampiro brasileiro (já sei: o Chico Anísio pensou primeiro, mas eu quero escrever!). O cão rosnou sem entusiasmo para a velha e tentou voltar ao sangue, mas ela puxou-o pelo rabo e engalfinharam-se de tal forma que os policias tiveram que, ridiculamente, intervir na briga. Finalmente separados, estavam os dois sujos de sangue. Os policiais também ficaram com sangue na roupa, uma lambança absoluta, pastelão puro. Três Isso posto, vamos nos aproximar do grupo (podemos começar num zoom da janela do primeiro andar e ir aproximando e fazendo fusão para o rosto da mulher de cabelos verdes. Não é um big close, mas dá pra ver que usa batons também esverdeados e unhas pintadas de verde.) Seria, então, a senhorita Green. Pra falar bem a verdade, uma vez perto do metrô em Frankfurt eu vi uma moça toda de verde como essa descrita aí, só que a que eu vi estava completamente drogada e essa, a do relato, está levemente drogada, nada que se perceba ou cause grandes males à saúde. Ela se vira para ouvir um pouco o que a médica está falando, para responder qualquer coisa e vê o homem que possui os objetos. Deixa a médica falando sozinha e vai em direção ao homem perguntando se aquilo era tudo. Creio que sim, responde ele, passando-lhe a caixa contendo o tarô e o envelope pardo. Ele pergunta ainda aonde poderiam ir, mas ela não responde de imediato, está olhando as folhas do envelope, está entusiasmada. Despacha o homem dizendo que fará contato mais tarde, que ele não se preocupe.Puxa, tanto trabalho para uma recepção assim, pensa ele melancolicamente sem, no entanto, se afastar muito do local. Quatro Nossa ninfomaníaca volta à carga, dizendo agora que podiam tomar um refrigerante com todo o calor que estava fazendo (Nada. Não fazia calor nenhum, fazia frio, isso sim). A mulher recusa o convite da médica de forma abrupta o bastante para que aquela entenda que a cantada não colou e, dane-se, voltar para a ambulância. Quanto tempo levariam ali, indaga ao motorista. Já mandaram um carro para nos pegar. É uma loucura eu escrever isso porque nunca vi ambulância de Bombeiros enguiçada e muito menos sei se, nesse caso específico, o procedimento é esse. Se não for nada disso, tudo bem, será o que cada um souber de situações assim, inusitadas. Cinco Chega mais um carro da polícia (a coisa está crescendo, a velha está subjugada por um policial, mas continua xingando o cachorro de longe. O outro guarda espanta o cão, pra acabar com aquele salseiro (há anos eu não escrevo isso, salseiro). Bom, as mulheres de cabelos coloridas vão embora de mãos dadas e o cachorro estropiado mesmo também vai se afastando. Aos poucos a velha (a viva), se acalma e pára de gritar, sendo imediatamente liberada pelos policiais (que de encrenca já estão cheios). Uma das viaturas policiais vai embora e a outra fica lá, tomando conta defunto até o rabecão chegar. Por que a polícia, me expliquem, tem que tomar conta de defunto de/na rua? Será que existe gente que rouba defuntos de/na rua? O burburinho se dissolve, cada um seguindo seu caminho e, efetivamente, vem um carro buscar a médica e o enfermeiro do Corpo de Bombeiros. Fica lá ambulância e fica também um sentimento de vazio em quem acompanhou esses relatos. Seis Sabe porque fica o sentimento de vazio? Porque não estamos acostumados a participar de acontecimentos banais. Achamos sempre que qualquer relato terá um desfecho impactante, como se assim fosse a vida. Mas não é. A vida é da maneira que descrevi. Coisas que acontecem, pessoas que se cruzam, se conhecem e depois não terão mais contato umas com as outras, cantadas que não colam, carros que apresentam lá seus defeitos mecânicos, gente que é atropelada, situações que podem envolver um quê de mistério, mas esse mistério não tem que ser, necessariamente revelado. É preciso perceber que cada pessoa tem lá os seus mistérios, está envolvida nisso e naquilo, que sempre há mentiras, segredos, disfarces. É para isso, afinal, que nascemos e morremos. Acho que precisamos aprender a ler fatos cotidianos da Condição Humana. 16.11.04
O Capitão e as Labaredas Um É interessante para mim, narrador, estar deitado no chão entre as mulheres de cabelos coloridos. Minha câmera capta uma imagem estranha, como se as mulheres fossem gigantes. Acho que usei esse plano para mostrar mesmo a importância delas na história que, visto sob outro prisma, não teria importância nenhuma. Mas consideremos o primeiro tratamento do roteiro e deixemos que elas tenham importância e que a do cabelo verde seja mesmo uma bruxa e a do vermelho apenas uma analogia ao filme Corra, Lola, Corra. A de cabelos verdes dizia que como estavam as coisas não poderiam continuar, que tinham que dar um jeito naquilo de qualquer maneira. Qual seria? Eis a qüestão. A médica do Corpo de Bombeiros se aproximou e puxou conversa, aquela conversa sem graça, conversa mole, cantada de lésbica. Falou da fatalidade do acidente da velha, da ambulância estar com defeito, do tempo... Enfim, falou qualquer coisa. Dois O homem estava do outro lado da calçada e por sugestão do Paulo eu diria que o vemos num plano americano, com automóveis e ônibus de ora em vez passando e encobrindo sua imagem. Até que, após a passagem de um ônibus, ele não estava mais lá. Temos agora um close do homem com um olhar entre aborrecido e decepcionado porque as mulheres estavam na companhia da médica, uma estranha nesses casos metafísicos. Ele precisa tomar uma atitude e sai de quadro, o que nos leva a pensar que ele foi em direção ao grupo. Num plano geral, feito daquela janela do primeiro andar, confirmamos que ele realmente vai em direção às mulheres. Temos agora um plano geral que nos mostra os quatro, ele chegando e corta para ele em plano médio dizendo da fatalidade de que fora vítima a primeira velha, a da cadeira de rodas. (Pra dizer alguma coisa, ora bolas!) Três Esperando que os leitores tenham mais ou menos entendido como se dão planos gerais, planos médios, closes e etc. deixo à imaginação de cada um como cada personagem está enquadrado porque isso aqui não é último tratamento de script de cinema nem de televisão. O homem simplesmente diz à mulher de cabelos verdes que precisa ter uma conversa particular com ela, se não for incômodo, bem entendido. Aí sou obrigado a dizer que temos um big close da médica entre enraivecida e decepcionada já que seu objeto de desejo está sendo cooptado por outro e pior, por um homem! Quatro Precisamos aqui fazer um parêntesis para dizer que a médica é casada com um capitão do Corpo de Bombeiros (não, ela não entrou pela janela. Fez concurso diretinho!). É casada com esse Capitão Bombeiro há mais ou menos cinco anos, casaram quando ela ainda não tinha se formado nem, muito menos, ele era Capitão. Foi uma festa singela, mas cheia de alegria numa casa grande num subúrbio da Leopoldina. Uma festa sem grandes pompas é bem verdade, mas que trazia toda aquela singeleza que se pode imaginar naquela situação.) Os dois que se conheciam desde o ginásio, namoravam desde o científico (já sei que não se fala mais assim, mas acho que dá mais ênfase à imaginação do leitor e pronto!) Ela iria se formar no ano seguinte e ele já estava com a promoção prometida. Portanto, nada mais certo, mais correto, mais coerente do que casarem-se naquele momento. A bela senhora que deixava uma emocionada lágrima escorrer por seu rosto ligeiramente encoberto pelo véu do digno chapéu não se parecia em nada com a mulher esquelética de boca preta que gritava agora ao ver a outra morta na rua, mas sim senhores !, podem acreditar, são a mesma pessoa, tão, mas tão diferente agora que nem a médica parente reconheceu! Não, não achem tão impossível assim. Cinco anos é tempo suficiente para mudar completamente a vida de uma pessoa, é tempo de transformar um roliça senhora de classe média, numa esquelética velha enlouquecida e sem teto que vaga pelas ruas. Cinco A médica estava feliz com o buquê de flores na mão esquerda, feliz pelo casamento, pela festa, por tudo. Bem verdade que experimentara relações íntimas com uma colega no início do ginásio, verdade também que não esquecera nunca aquele ato, o quanto dera prazer. Mas a vida, os costumes, a família, o mundo, enfim, muitas vezes fazem com que enterremos sentimentos, opções, desejos e aspirações achando que aquilo foi e passou, não voltará porque assim é a vida. Ledo engano, percebeu ela quatro anos depois. Estava às vésperas de fazer o concurso para o brioso Corpo de Bombeiros, estudava como uma louca quando foi acometida de profunda crise de depressão. Chegou mesmo a procurar um médico que receitou lá as suas pílulas, mas não foi o que adiantou de verdade. O que adiantou foi a amizade com uma colega de curso, foram os jantares, as saídas para um chopinho, os cinemas e, finalmente (Salve! Salve!), caírem uma nos braços da outra e fazerem amor, muito amor, por muito tempo, muitos dias, muitos meses até se separarem, mas com ela tranqüila sobre o que queria da vida (O Capitão, coitado, iria apagar só as labaredas dos prédios e residências para o quê era pago). Seis A médica estava liberta daquilo que a angustiava e tinha todas as namoradas possíveis (nem se importava que desse na vista) porque queria sexo, sexo, e sexo. Muito, quanto mais mulheres melhor. Chegou a fazer com quatro ao mesmo tempo, duas delas também médicas. (Como? Ninfomaníaca? Dane-se!) O marido se conformou e a família fingiu que não viu. Por que não? O que havia de mais? Dois dias depois do concurso, quando ainda esperavam o gabarito, trepou muito com um médico também Bombeiro. Trepou com vontade, com raiva, quase violentamente como se exorcizasse todas as mulheres que conquistara. Talvez não fosse a sua preferência por mulheres, fosse falta de traquejo do Capitão com as suas labaredas, mas qual! No mesmo dia do violento ato com o médico ela tomou um banho, lavou-se, perfumou-se a caiu nos braços da namorada da época. Não vou me estender muito sobre a vida dessa médica do Corpo de Bombeiros porque temos outras coisas a contar, a vida sexual de cada um é (ou deveria ser), insignificante para a Condição Humana. 13.11.04
os esquizofrênicos e a doceira Um A mãe sempre aparecia. Nunca deixou de estar a seu lado. Ele não a via propriamente, mas ouvia sua voz que estava sempre opinando, aconselhando, dando sugestões nas mais variadas situações dessa vidinha chinfrim. Não era dessas mães comuns que, após a maior idade, abandonam o filho pelo mundo. Não. Ela estava a seu lado vinte e quatro horas por dia. E, se por um lapso transcendental, a mãe não estava ali para dizer-lhe o que fazer bastava ele gritar Mamãe! Que logo ela aparecia, sua voz invadia seu cérebro solucionando todo o pandemônio, organizando ações e pensamentos que, sem ela, não tinham lógica. Sua mãe era, então, sua lógica. Por isso, para espanto dos outros, incautos, gritava sempre: Mamãe! Dois Ele gritara pela mãe agora que fora roubado seu envelope pardo, mas a voz não apareceu. Imaginou que, como tinha irmãos, a mãe estivesse ocupada, dentro da cabeça de algum deles. Não tinha como pensar. Precisava reaver o envelope, mas o ladrão já ia longe e ele, vítima de tremendo enfisema pulmonar, não o alcançaria em nenhuma hipótese. Esse enfisema, é bom que se conte, iria ser a causa da sua morte, vaticinara um médico que tinha seu consultório na sala da frente de sua casinha no subúrbio da central. Estava ele fazendo o toque retal, o místico toque retal e o médico dissera: esse enfisema vai te matar. Ficou satisfeito. Assim, pelo que entendia, a próstata devia estar ok. Seria então a única coisa Ok em seu organismo. Gritou novamente pela mar e começou a ouvir a voz, a voz da senhora de meia idade que passou-lhe uma descompostura por ter fumado tanto e agora ser um inútil que não conseguia correr. Sentiu-se injustiçado nessa acusação, justo da mãe que morrera de câncer no pulmão, por fumar três maços de Camel por dia. Três Mas espera. Na parte cinco do tomo anterior, quem gritou três vezes Mamãe! Foi o outro homem e não ele. Será que também tinha essa espécie de mãe tão solidária? Lembrou que todo mundo tinha mãe e, portanto, nada mais justo que todos a chamassem na hora do aperto. Mas essa voz dentro da sua cabeça, voz rouquenha, com gorgolejos de catarro verde era uma particularidade da sua mãe. Não. Não tem nada a ver com a mãe do Psicose. Nada a ver. Ele não guardava múmia em casa nem era maluco. Apenas tinha vozes em sua cabeça que o ajudavam a tomar decisões, fazer isso ou aqui e, que soubesse, todo ser humano ouvia essas vozes (diziam que alguns animais também ouviam vozes e entre esses animais o cachorro e o tucano não estavam incluídos). Enfim, nessas micro histórias todo mundo chama a mãe e ponto final! Quatro Vendo que não estava mais sendo perseguido, o homem parou para descansar (atracado com o envelope). Não, o homem que estava com ele não poderia estar mais por ali. Assim resolveu voltar porque todas as coisas estavam lá atrás, junto da ambulância e da médica Nissei. A médica tinha cabelos ruivos (quase vermelhos), reparou quando voltou ao local do acidente. A mulher na calçada que falava com outra de cabelos verdes também tinha cabelo vermelho e a ambulância era vermelha. O que aquilo tudo queria dizer? Tinha que existir um motivo, nada acontece ao acaso. Aliás o sangue da velha também era vermelho, mas um vermelho bem mais escuro que não se comparava com o dos cabelos nem com o da ambulância. Cinco A médica já tinha terminado suas anotações, já batera a foto com a câmera embutida no celular e deveria não estar mais ali, o problema agora era da polícia. Mas estava ainda no mesmo local porque para desconforto de todos, ambulância não quis pegar, apresentou um problema mecânico qualquer e lá estava ela, imóvel como um modess em uso. A médica desceu do veículo e reparou no cão. Estropiado mesmo o cão avançara um pouco mais e lambia o sangue em poça da velha. O focinho do cão estava vermelho e ele bebia o sangue com prazer. Os policiais riram do acontecido, embora não tenha nenhuma graça. Foi nesse momento que chegou a outra velha, dessas bem magras, pele e osso, com uma bocarra negra. Ao ver a cadeira de rodas ao lado do saco de plástico preto correu, levantou o plástico e reconheceu a defunta. Ergueu-se como impulsionada por um tipo de mola gigante e deu um grito inusitado: Mamãe! Seis Vendo tudo com mais calma enquanto acendia um cigarro e olhava de soslaio para a mulher de cabelos vermelhos que conversava na calçada, mulher que lhe provocara um quase tesão instantâneo, a médica ficou pensando na Condição Humana daquelas duas velhas. A da cadeira de rodas era mais velha e podia realmente ser mãe da outra, da esquelética. Seria? Chegou perto e indagou: É a sua mãe? A esquelética fez sinal negativo com a cabeça, com o rosto molhado das grossas lágrimas que não paravam de rolar. Ainda assim chamou pela mãe mais duas vezes. O cão não se importou com o grito e continuou bebendo o sangue e o homem com o envelope e o tarô chegou um pouco mais perto. Ali estava ela! Tão perto estava agora a mulher de cabelos verdes. Já a tinha visto lá de cima, da janela, mas agora estava ali, ao seu alcance. Sete Porque o negócio era mais ou menos confuso, sua mãe dentro da sua cabeça estava gritando muito e acabava por não dar as coordenadas perfeitas. Mas ele sabia que as mulheres precisavam do tarô, precisavam voltar a um determinado banheiro que tinha rachadura no teto e ferrugem por toda a parte. A mulher seria substituta da prostituta oriental (que não era, era miscigenada). Ele queria saber se entregava o tarô à mulher de cabelos vermelhos ou à de cabelos verdes (que profusão de cores, meu deus!). Aquele tarô, pelo que sabia (dito por sua mãe num outro momento, mais calmo), aquele tarô era especial e uma daquelas duas mulheres deveria possuir as cartas mágicas, uma daquelas mulheres (ou seriam as duas?) tinha poderes, falava dentro de outras cabeças e ouvia vozes também. Sabia que a mulher de cabelos verdes era uma excelente doceira (o que tinha isso a ver com a história?), doceira requisitadíssima por seus brigadeiros, cajuzinhos e bolos maravilhosos. Resolveu agir por sua conta e caminhou em direção a mulher de cabelos verdes. A médica, já que não podia sair dali agora, caminhou em direção a mulher de cabelos vermelhos, agora com o tesão vindo pra valer. 12.11.04
a confusão Um Ele segura a respiração. Batem mais uma vez na porta já com exasperação. Ele procura um lugar para se esconder. Sim, tem um armário (nos romances e no cinema sempre tem um armário onde as pessoas cabem direitinho e se escondem quando necessário). Pois nesse apartamento também tem e ele entra e se esconde. Ouve o barulho na fechadura de chave ou gazua. A porta é aberta e ainda cinematograficamente, o armário tem frestas, venezianas que permitem que ele veja o que está acontecendo. Ele se sente aquele pobre coitado do filme Veludo Azul. Entra então o sujeito de terno branco com pinta de malandro da década de quarenta. Olha. Mexe numa coisa e noutra com um lenço na mão para não deixar digitais. Abre gavetas. O homem carrega embaixo do braço o envelope pardo que surrupiou do paralítico. Dois Esse camarada é o vilão, é o bandido da história, conclui o outra, dentro do armário, respirando mansamente para não fazer barulho. Vê o sujeito vir em direção ao armário em que se encontra. Esconde-se mais ainda, fica colado numa parece lateral. O homem abre uma porta do armário e não o vê. Ótimo. Igual ao cinema. Fecha a porta e continua procurando por cima das coisas, por baixo das coisas. O homem de terno branco fuma cigarrilhas, tem uma na boca que faz lembrar os gibis antigos, de vaqueiros, de bandido e mocinho. Ele é o bandido. Por fim, senta-se numa poltrona e fica pensando. Abre o envelope pardo e retira uma quantidade razoável de folhas. Olha os papéis e soluça, repetindo baixinho: Mamãe. Três A ambulância vinha vazia, retornando ao quartel, a base após um atendimento de emergência. Era o final do plantão daquela turma. Bombeiros e médica. Estavam exaustos, mas logo iriam para suas casas. Viram o amontoado de gente, imaginaram que talvez fosse um acidente, mas não tinham recebido nenhum chamado, com certeza outra unidade estava a caminho. Subido uma mulher de cabelos verdes vai para o meio da rua e fica na frente da ambulância, fazendo-a parar. Diabo! Quatro A médica oriental estava realmente exausta., Tinha orientação de voltar ao quartel e aquela louca ali na frente com seus ridículos cabelos verdes! O motorista buzinou, piscou os faróis, mas a mulher não se mexeu, não saiu da frente e, finalmente, a ambulância teve que parar. A médica oriental desceu e perguntou o que tinha havido com mau humor. A velha. A velha fora atropelada com cadeira de rodas e tudo. A médica calçou as luvas, os enfermeiros também. Atravessaram o bloqueio humano que formava uma roda em torno da acidentada. A médica se abaixou e fez um pequeno exame. Levantou-se: está morta. Não há mais nada a fazer, mas já que parou ali, tem todos os procedimentos: Preencher os papéis, as fichas, escrever dia e hora, sexo e condições do acidentado e por aí vai, uma maldita trabalheira. Chegou um carro da polícia. Os dois policiais trocaram breves palavras com a médica, foram até a rádio-patrulha e trouxeram um pedaço de plástico negro. Cobriram o defunto. Mais um. Cinco O homem pareceu desistir da busca no apartamento. Também ele chegou a janela que dava para o quadrilátero, para as esquinas e não gostou do burburinho de gentes e bombeiros e polícias. Era melhor sair logo dali por vias das dúvidas. Juntou os papéis no envelope pardo e ainda repetiu três vezes a palavra Mamãe antes de sair, ir embora. Pronto. Agora é possível sair do armário claustrofóbico. Mas espera! Se ele entrou no apartamento sem dificuldade, se a porta não estava trancada, por que o outro teve tanta dificuldade, necessitando até de uma gazua? Erro de continuidade, falha da Direção do filme Vida. Como cometemos erros tolos, inverossímeis no script quando contamos um fato da Condição Humana! Seis A médica do corpo de bombeiros era ruiva, muito ruiva e, num passar de olhos, viu a mulher de cabelos vermelhos na calçada. A médica olhou e gostou. Era uma garota e tanto. Se não estivesse com tanta raiva por aquele trabalho não previsto, sentiria tesão ali mesmo, naquela hora, pela mulher. Ela, a mulher de cabelos vermelhos, não se aproximou da confusão: acendeu um cigarro e encostou-se na parede de tijolinhos. Ficou olhando para o nada até sua amiga de cabelos verdes voltar com a noção de missão cumprida. Fez sua boa ação, pensou. Não exatamente assim foi o pensamento, mas algo equivalente. Voltou para perto da outra. Voltou a falar da prostituta, do apartamento e do baralho de tarô. Aquilo tinha que ser resolvido. Sete Voltou a janela. Viu o plástico preto, o sangue, os transeuntes, a polícia, a ambulância e as mulheres de cabelos coloridos. Já tinha vindo um revistar o apartamento. Daqui a pouco viria mais um, isso não ia parar. Ele precisava do envelope pardo que o homem levara. Precisava daqueles manuscritos, precisava entender o que o paralítico tinha escrito sobre o tarô. Que confusão. Tudo estava se perdendo. Talvez as indicações para o tarô que estavam consigo estivessem naquele envelope pardo. Não pensou mais. Saiu do apartamento atrás do homem e ainda o alcançou, andando devagar pela rua oposta ao acidente. Chegou mais perto por trás. Deus um encontrão no sujeito, pegou o envelope pardo e saiu e desabalada correria. O homem roubado, refeito o susto deu um grito estranho: gritou Mamãe! Com tanta força, tão alto que todos os que se ocupavam do defunto se viraram para olhar. Mas o outro já ia muito à frente, agora com o envelope e com o tarô. Oito Antes de retornar a ambulância para ir embora a médica-oriental-lésbica-irritada bateu uma foto da mulher de cabelos vermelhos. Tirou a foto com seu telefone celular que como tudo, tinha uma câmera embutida. 10.11.04
no primeiro andar Um Sabemos que os locais de crimes ou sinistros ficam interditados por um determinado momento pelas autoridades competentes. Já sabemos, não precisam criticar. Ele andou pelo quarto, olhou as coisas tais como estavam, procurou não colocar a mão em nada. Sempre viu na TV que não se deve mexer em nada para não atrapalhar o trabalho da perícia. Mas aqui tem perícia? Não pode ser como nos filmes, como no seriado Crosing Jordan. Por via das dúvidas não mexe em nada. Dois Somos humanos, curiosos, existem coisas que nos chamam a atenção de uma forma tão impactante que nos arriscamos a mexer, pegar, bisbilhotar. Quase embaixo da cama, numa parte do carpete que ainda está sujo de sangue, encontra uma pequena caixa de madeira trabalhada. Por que a polícia não levou? Impossível não ter sido vista. Pega a caixa. O que estaria ali? Correspondências? Não, muito pequena. Jóias? Não parece o lugar apropriado. O quê então. Ok. Reconhece que não suporta mais a curiosidade e abre a pequena caixa tão bem entalhada. Três Um baralho de tarô. A caixa contém um baralho de tarô. Ele pega as cartas, vira e revira, são lindas. Resolve de imediato que vai levar consigo a caixa e o tarô. Fica impressionado com todas as cartas, com toda aquela profusão de imagens misteriosas e cores fortes. Fica particularmente impressionado com a carta Temperança, com o Louco e o Demônio. Não importa. O baralho é lindo. Recolhe-o à caixa e a coloca no bolso do paletó. Seus pensamentos voam longe e se pergunta o que faria a prostituta oriental, assassinada como sabemos, ter um baralho de tarô. Não resiste e vai até a janela. Com cuidado olha a rua, protegendo-se entre as cortinas. Quatro Do ponto em que está, prédio de esquina e andar baixo ele vê o quarteirão inteiro, vê um cão caído ao chão e, forçando um pouco a vista, parece que há sangue no cachorro. Talvez esteja ferido. Mais na frente, na esquina, duas mulheres conversam de mãos dadas. Chamam a atenção porque uma tem cabelos vermelhos e a outra, cabelos verdes. Pressente que apesar do enlace das mãos não é uma conversa meiga, tem algo tenso, assustado, apavorado. Soltam-se as mãos e gesticulam bastante. A de cabelos verdes olha para esta janela e aponta. A de cabelos vermelhos olha também. Seu coração dispara. Será que o viram? Cinco Porque olharam exatamente para aquela janela e apontaram. O que têm elas a ver com o apartamento da prostituta oriental? Seriam mulheres policiais que estavam ali de tocaia? Pouco provável. Ele poderia ter entrado no quarto, feito o que quisesse sem ir na janela. Com cuidado, olhou novamente e as mulheres continuavam no mesmo lugar, agora sem olharem para a janela. Reparou que o cão, com muito esforço se levantou e seguiu pelo meio fio mancando. Na direção das mulheres. Elas olharam o cão. Ele não pôde enxergar qual era a fisionomia delas. O cão continuava se aproximando. Uma mulher idosa se aproxima da esquina onde estão as duas e para onde o cão claudicante também vai. A idosa está numa cadeira de rodas. Seis Por um momento fica uma situação engraçada. As duas mulheres continuam conversando, o cão continua se aproximando e a velha da cadeira de rodas está na calçada esperando o sinal fechar para atravessar a rua. Entre elas, passa um homem com expressão angustiada, homem que ainda há pouco, acreditam, tomava banho de banheira e pensava na rachadura do teto e pensava em fuligem. Também passa pela calçada um homem de terno preto e óculos escuros. Todos se encontram de alguma forma ali. Por segundos, todos estiveram juntos naquela esquina. Os homens seguem seus caminhos. O sinal fecha e a velha, com cuidado porém independente começa a atravessara a rua quando o inesperado acontece: Um carro avança o sinal e atropela a cadeira de rodas com a velha e tudo. Barulheira tremenda seguida de um silêncio cavo. Absoluto. Sete De onde ele está na janela, consegue ver claramente o sangue que começa a fazer poça em torno da velha que foi jogada um pouco adiante da cadeira de rodas. As mulheres de cabelos coloridos parecem olhar para a cena em câmera lenta. O cão pára sua aproximação. O homem da banheira e do ferrugem e o homem de preto que já tinham saída do ângulo de visão voltam, param na esquina para ver o acidente. Outras pessoas começam a chegar. Um guarda com uma enorme barriga e bigodes fartos também se aproxima. Aos poucos, a vida volta a ter ruído. A mulher de cabelos verdes, apesar de toda a confusão, olha novamente para a janela. Novamente ele se esconde. Não pode ser pego naquele local. Muito menos com a caixa contendo o tarô. Não. Jamais. E o destino? Batem fortemente na porta do apartamento da prostituta oriental (OBS: de onde começou, quem disse que a mulher de traços orientais era uma prostituta? Baseado em quê ficou ela assim conhecida?) Batem novamente na porta e ele sua frio. Não tem como sair, aquela é a única porta. E batem mais. 5.11.04
Lá fora... Um O cão sangra no meio do asfalto e os carros desviam. Não por pena do animal, mas para não sujar os veículos. Do outro lado, a mulher de cabelo vermelho caminha rápido entre latas de lixo e mendigos, o que infelizmente na opinião dela, são a mesma coisa. Ela caminha rápido, quase tão rápido quanto no filme Corra, Lola, Corra. Não. Não é Lola. Não é a Alemanha, é o Brasil. O Brasil que não tem marcos nem euros, não tem cruzeiros nem cruzados, tem reais, reais para poucos. Dois O cão tem o rosto coberto de sangue e não sei se ele matou a velha a dentadas ou algum motorista menos prevenido o atropelou. Não sei e não muda o fato. A mulher atravessa a rua, passa pelo cão, olha-o de soslaio e segue em frente. Segue porque está motivada pela perspectiva da melhora, está motivada com a possibilidade de não mais sofrer, agônica que estava. Três A namorada da mulher de cabelos vermelhos tem cabelos verdes e a espera na esquina mais próxima. Beijam-se e cruzam as mãos. Olham uma para a outra e vêm o mar de tatuagens nos dois corpos que se arrepiam com a sirene dos bombeiros próxima. Os bombeiros, como sempre, estão indo em sua gloriosa missão de debelar incêndios, nem sempre com sucesso, é bem verdade. Quatro O cão tenta, por três vezes levantar e, por outras três vezes, cai. Olha para cima, do chão em que se encontra e vê pés, pessoas, carros, nuvens, tudo que passa acima, mais acima, tudo o que ele já pôde olhar de outro ângulo. Percebe então o cão que as coisas não são exatamente o que são e sim o ponto de vista de que são observadas. Percebe ainda que não recebe mais o afago dos estranhos e possivelmente cause enorme repugnância. O cão, então, é repugnante. Cinco O cão se pergunta se as mulheres de cabelos vermelhos e verdes são repugnantes. Parece que não. Não nesse momento, não nessa circunstância, não nessa Condição. A Condição Humana nesse momento favorece as duas amantes, favorece as nuvens e os automóveis. A Miséria Humana é apenas dele, cão. Miséria Humana? Mas o cão não é humano! Pois então. Miséria Humana é a Condição Humana que lida com tudo: carros, nuvens e cães. Seis As mulheres continuam conversando ali na esquina, não se movem para lado algum à despeito do frio e da corrente de ar no local. Estão falando sobre o caso da prostituta oriental assassinada bem ali, naquele quarteirão, noite passada. A entrega não seria feita e elas não podiam se apresentar sem se comprometerem, não era possível entrar na casa agora, interditada pelos homens da lei. Era um problema. Problema maior do que o pai de uma delas (a de cabelos verdes) viu na sua opção homossexual. Agora a coisa era séria de verdade. Sete O cão tenta mais uma vez levantar e não consegue, mas cai numa posição onde vê as mulheres. O cão quer ajuda, precisa, mas elas não o estão olhando. Elas também precisam de ajuda (e como seria bom se os três pudessem se ajudar mutuamente!). Há um impasse no andamento da vida: o cão precisa de socorro e ninguém dá atenção. Elas precisam entrar na casa da prostituta oriental e não podem. Nada vai dar certo para nenhum dos três. O cão podia não estar estropiado. A mulher oriental podia ter deixado para ser assassinada vinte e quatro horas depois. Tudo se encaixaria, tudo daria certo, faria sentido e o mundo seguiria seu rumo sem problema para nenhum deles. Não aconteceu. Não deu certo. Falhou. O tempo teve uma espécie de fibrilação e mudou três vidas. E, apesar do cão, eu diria que a Condição Humana, mais uma vez, mostrou como é cambiante, como é falível. 4.11.04
Condição Humana Um Quando entrei na casa da mulher não sabia ainda que estaria morta. Não, não estava morta: estaria morta. A morte é um momento para depois do nosso ponto de vista, a morte virá, a morte será, a morte é o amanhã, o daqui a pouco. Não sei o que sou nem de onde venho, mas sei para onde vou, como de resto, todos sabemos. Vou no bar tomar todas porque só os que tomam todas estão aptos a suportarem a miséria humana. Não há nada que eu mais odeie, que eu mais tenha aversão, asco: a miséria humana. E não é a miséria comezinha, do homem andrajoso que empurra o carrinho com seus lixos e outros. Não. É a miséria humana maior, a miséria humana dos que tentam, dos que acreditam, dos que olham e sorriem sem ver, dos que não percebem a condição humana. A miséria humana está diretamente relacionada com a condição humana. A condição humana, em outras palavras, é a miséria humana, é a contradição, é a fome, é a sede, é o dissabor e principalmente, principalmente a ansiedade que não nos permite viver em paz, que não nos deixa dormir, que não nos dá a dignidade de um cão sarnento. Dois Entrei com ela e sentamos e falamos. Seu vestido tinha cores e padronagem vivas, flores grandes, como uma coisa quase nunca vista, como o que não era para ser. Sabe o que é uma pessoa que não é para ser? Não? Pois passe a reparar à sua volta. Repare bem na quantidade de coisas pessoas que não são para ser e são, mas são de um modo acanhado, de um modo envergonhado mesmo, um modo que quase pede desculpas por estar ali, por existir. Assim era a roupa da Mulher. Três Mais: assim era a mulher. Seu semblante que fingia uma alegria que não existia, seu sorriso forçado num rosto oriental, um oriental falsificado, miscigenado. Ela me chamara para falar, para contar e para fazer o que eu mais quisesse (sexo por exemplo que, diga-se, eu não queria). Ela entrou e logo reparei no abajur antigo, que tinha a estamparia de uma locomotiva que parecia estar andando, com fumaça saindo e tudo. Uma peça dos anos sessenta, me lembro de em menino ver aquele tipo de abajur. Ela tinha pequenas caixas antigas, todas cheias de jóias falsas como falso era o seu dente lateral, como falso, tenho quase certeza, era o aplique do seu cabelo. Quatro Não, já respondi, não adianta me refazerem a pergunta duas mil vezes porque a resposta será sempre a mesma. Ela me mostrou um livro meio ensebado, mal tratado, desses que as pessoas viram do avesso para ler, desses que dá nojo pegar e, ao mesmo tempo, pena. Não me disse nada importante não senhor. Me disse que ia preparar uma cuba libre (definitivamente essa mulher saiu dos anos sessenta!) para nós dois. Aceitei. Não que eu goste muito, mas aceitei. Cinco Estávamos como já repeti sentados no sofá de pés palito e ela sorria com seu baton exagerado (que logo deixou a desagradável marca no copo). Ela sorria e falava de coisas que me soavam como nada. Era um nada dizendo um monte de nadas para que eu escutasse, para que eu tivesse ainda mais vontade de ir embora. Foi quando surgiu o homem de branco. Sim senhor, repito mais uma vez que ele entrou pela porta da frente e, certamente, tinha a chave da casa. O homem colocou a mão no meu ombro e me disse que eu era muito bem vindo, que era ótimo que eu estivesse ali, naquele dia, naquela hora. Lembro dele repetir a frase porque aquela era a hora. Seis Fitou a mulher por um tempo e ela parou de sorrir. Não me pergunte porque novamente, eu lhe imploro porque está ficando monótono. Sim, chovia lá fora, como eu disse, e eu ouvia o barulho da chuva muito bem, ouvia e via a água que caía do lado de fora da janela aberta à minha frente. Ele disse alguma coisa para ela, ele disse e repetiu e ela estava visivelmente assustada, diga-se, com toda a razão, porque o tipo era desses mesmo que assustam. O mais eu já contei seis vezes e repito pela sétima. O homem ainda com a mão no meu ombro tirou uma navalha não sei de onde (provavelmente do bolso) e cortou a garganta da mulher de um lado ao outro, profundamente. Depois o homem se virou e foi embora. Eu me assustei e saí para chamar alguém e acabei dando com a viatura policial. Não tem mais nada. Não tem história. Não tem ardil. Não tem trama. É um fato. Fato e pronto. Eu é que lhe pergunto: não é a condição humana uma miséria? O que há em tudo o que eu descrevi? Nada. Nada importante. Um mero e simples fato da condição humana, da miséria humana. |