Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


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ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

31.12.04

"Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual a insosso e o riso constante e insano.
Com o máximo de urgência,
Desejo que você descubra,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos.
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente a diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar".

Victor Hugo


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17.12.04

os imbecis de ocasião
ou
o tempo é senhor da razão

O grande problema da imprensa, do jornalismo mais precisamente, é justamente sua falta de autonomia. Tudo é dito e falado de acordo com os interesses dos grupos empresariais que empregam os jornalistas. Com certeza isso não é ensinado nas universidades de fundo de quintal às quais só os incompetentes têm acesso.
Com os cargos públicos não é diferente. O patrão é sempre alguém indicado por um governo. Como estamos num governo exceção (ainda que não explicitado), numa (quase) ditadura do proletariado (que eles tentam, tentam) branda, as coisas podem, eventualmente, ser mais complicadas. Nesses casos é necessário mais cuidado, mais atenção, mais tranqüilidade no agir porque a virulência e o revanchismo são sempre maiores.
Ainda assim acontecem pequenas insurgências, pequenos golpes e motins. Estão acontecendo agora. No varejo, o que se vê e lê é que apadrinhados incompetentes, gentinha de ocasião por exemplo, conseguem desestabilizar projetos sérios na busca desesperada por cargos (até os insignificantes). Esquecem que talento e conhecimento se adquire estudando e trabalhando, não vêm por decreto. Mas, infelizmente, essa é a marca do governo Lula. De toda a sorte já se trabalha 2006 febrilmente e os que hoje se acham vencedores cairão fragorosamente quando a ordem for restabelecida. É tão óbvio que só um patife incompetente não vê.

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13.12.04

notas
Pura bobagem, ela me diz depois de oitava lata de cerveja e da terceira dose de vodka. Não é para ser assim, eu sei que você não é assim, você é bom, ela completa. Fico parado olhando, pensando no conceito. C-O-N-C-E-I-T-O. O que as pessoas pensam, afirmam e juram que é, não é. Ser é muito mais complexo, muito mais dinâmico e tem mais variantes do que o ser que fingimos que vivemos no dia a dia.
Ela fala assim porque toma cerveja, bebedora impiedosa que bebe sem parar, todos os dias, quinze horas por dia e que não toma nenhum remédio porque faz mal. O que faz mal, cara-pálida? Ela não sabe responder e eu dou minha risadinha anti-Freud interior.
Assim poderia fechar o editor de texto, baixar o pano ou rolar os créditos, como vocês preferirem, mas não, tem muito mais a ser escrito porque pensado. Alguma coisa está corroendo tudo, anote o que estou dizendo.

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674.666°

O velho caminha vagarosamente, apoiado pela bengala. Tem passos trôpegos como a esperança. Sabe que o sol não morre nem se apaga, que apenas deixamos de ver. Acha o velho que o mesmo acontecerá com ele: um dia, simplesmente, deixarão de vê-lo. Mas por que tem que ser assim? Ele insiste para consigo mesmo. Não temo o olhar odioso que ele dirige a mim. Sei que está odiando não a mim propriamente, mas a minha juventude. O que ele entende de juventude?
O que nós entendemos de juventude? Nada. Sequer sabemos realmente quando começa e quando acaba. Talvez a juventude termine aos quinze anos. O que o velho viu em mim foi uma alucinação, só pode.
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S. ontem me disse que tem pavor de pensar que é mortal. Seu medo não é propriamente do deixar de ser, mas do corpo morto, do corpo mesmo, fisicamente, de estar no caixão, da escuridão e, principalmente, dos bichos, vermes que estarão devorando-a. Ela tem certeza de que, morta, estará sentindo os bichos entrando através de todos os orifícios do seu corpo, estarão devorando-a por dentro.
Desliguei o telefone e pensei um pouco; não, é uma neurose branda apenas. Nada de mais. Todo mundo deve ter lá os seus medinhos relacionados a morte. Hoje em dia o personagem que usa uma espécie de capuz de feltro verde e habita em mim disse que preciso tomar chá de capim bravo. Nunca ouvi falar. Nunca falei do ser que habita em mim.
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Ele é pequeno, deve ter um metro de trinta mais ou menos, fala muito e tem péssimo hálito em sua boca negra de um dente só. Não confia em ninguém e me diz para ficar atento à cada coisa que vai se passando. Explico a ele que não é possível, que preciso confiar em alguém, no enfermeiro que troca minhas ataduras quando o pus vaza dos curativos por exemplo. Meus braços são enrolados em ataduras que, vira e mexe, soltam-se nas pontas próximo das mãos. Fico andando então andando para lá e para cá com aqueles pedaços pendurados, andrajos, farrapos, sujos, nojentos.
Sei que minha aparência é repugnante, mas ele diz que não, diz que somos o que somos e não devemos ter nenhuma vergonha, devemos andar de cabeça erguida ostentando quantas pústulas nosso corpo apodrecido for capaz de produzir.
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Não tenho dormido. Ele senta na minha barriga durante a noite e me conta histórias, casos que aconteceram com ele em outros mundos, em outras dimensões, fala muito da sua mãe, fala que fazia sexo com a própria mãe e não há nada de mais nisso. Fico pensando se alguma vez senti tesão pela minha mãe. Que eu me lembre não. Aliás, vou dizer uma coisa viu: a teoria do Freud é toda furada, cheia de falhas, de respostas ridículas, de certezas claudicantes.
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Não posso caminhar com Freud, não posso abandonar minha infância nem querer entender nela algo que não existiu. Foi o que foi e pronto. Se agora eu não suporto a carga, é a carga desse mundo, hoje, nada a ver com a minha infância. Meus fantasmas são de hoje e não essa besteirada de infância, pais, traumas e outras tolices. Todo o pensamento de Freud se resume num livro pouco espesso, que não se sustenta em pé. Todo o resto escrito foi agitação por causa da cocaína.

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10.12.04

não era melhor não escrever nada?
Não disse mais nada ontem porque as pontas dos dedos estavam doloridas (deve ser efeito colateral dessa nova droga que estou tomando). Não escrevo porque quero, nem porque acho que escreva bem ou alguma coisa interessante. Claro que não. Interessante é a página em branco, virgem, ansiosa, esperando pela tecla que a marcará com força deixando a marca de tinta de a fita propicia. É, na verdade, um passatempo, um horário específico que a televisão não mostra nada de interessante, que os filmes são tolos e os comentaristas e entrevistadores não chegaram.
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Afinal, o que tenho eu que escrever? Nada. A pesquisa sobre o fenobarbital e a benzodiazepina está praticamente pronta e as decisões caminham vagarosamente. É assim mesmo, tudo é mesmo um processo lento. Os médicos não falam, se calam por ignorância e medo. Acham realmente que podem interferir. Como se alguém pudesse interferir em alguma coisa nesse mundo.
A chuva caiu com pingos grossos molhando tudo, mas a temperatura não refrescou (e não refrescará nunca porque aqui simplesmente é quente). Mas a chuva cai pra valer, provoca enchentes e muito choro dos que perdem tudo. Tento sofrer por eles, mas não consigo. Eles sabem que estão em locais assim, que acontecem essas coisas, sabem que vai acontecer mais dia, menos dia.
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Muitos maços de cigarro, muitos, não pode mesmo haver salvação. A dor avança, vai se tornando mais freqüente, vai se amiudando o espaço entre as crises. O que fazer? Radiografia? Não, é melhor não. É melhor deixar a coisa ficar mais clara, mais óbvia, por assim dizer. Telefono na esperança de conversar um pouco, mas qual! Eu, eu e eu. Posso ter tirado esse texto de algum lugar (ou não).
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Quando a noite grande chegar, que me encontre tranqüilo, em paz, não importa quantos comprimidos, quantas garrafas de vodka ou sei lá mais o quê. Só vejo as pessoas se dopando disso ou daquilo e é engraçado que os que se dopam disso não aceitam os que se dopam daquilo e vice e versa. Ô mundinho complicado! Deixo que caminhem, que discutam e fico olhando e pensando na propaganda (na guerra de) da cerveja. A nova, a boa, a que desce redondo e a que desce quadrado. Quanta bobagem.
Vejo a mulher que faz caridade e fico pensando que é legal ver como se faz a caridade. Penso porquê não sou caridoso. Deveria ser? Todos deveriam ser, é a resposta correta. Mas o que é ser correto? Quem é, literalmente, correto? Estão preocupados com os documentos do Araguaia, Bah! Morfina ou chacina?

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9.12.04

do que sonhei sonhado

Abandonaste a mim sem olhar o porquê, ligando pouco (ou nada) para meus óculos escuros, para meu regador de latão. Me deixaste sem ver o monturo de grama que me circunda, sem ver que tudo é grama, grama e água, água que cai e encharca, que cai mal, deixando-me num pandemônio sem saber para onde olhar, já agonizante de tanta dor e com os olhos secos (sim meus olhos estão absolutamente secos!) de não dormir. Já não me fazem efeitos todos os coquetéis que pensaste, todas as alternativas, toda a cantiga de roda, toda a química (mesmo misturada com o álcool.
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Não. Não tenho mais nada. Tenho as noites intermináveis e a dor, as várias dores que o semi-deus me impinge. Não tenho nada, nem mais aquela enxada que um dia comprei achando que seria útil no trato do meu jardim. Nem o charuto que fumei frente à lareira, nem o chá que me ofereceste para tomar em sete goles olhando exclusivamente a via Láctea. Tudo esteve, tudo foi e agora estou aqui nesse respirador pensando no que é pior, se são os tubos que me adentram a garganta ou a possível falta de luz que me levará, definitivamente, o oxigênio, oxigênio quá, quá, quá. Quem acredita nesse oxigênio ainda hoje? Eu não acredito mais, prefiro lembrar a montanha de grama do filme antigo que o velho ator mostra da sua coleção de peças antigas. Como não me entende? Será que não sei mais falar, que não tenho mais a quem dizer nada? Recebi sim a tua carta preocupada porque ninguém estava me dando atenção, mas o que é realmente me dar atenção, se o cachecol aperta em torno de meu pescoço, se as pelancas não assustam, causam apenas uma breve repugnância. Não sou mais o adolescente que tinha medo do Fim de Jogo nem sou o velho respeitável.
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Não sou mais nada, me enterro nessa grama, nesse barro, nessa terra que não leva a espelhos, que não leva a brilhos nem a repetições. Apenas o fim. Vejo apenas o fim e me assusto, confesso, me assusto porque sempre disse que o fim não me assustava e vejo hoje, tudo o que eu disse e pensei não foi. Foi uma ilusão. Não vivi de fato. Vivi a ilusão de viver e a morte não é ilusão, meu irmão, a morte é o fim, e o fim não tem o glamour que eu pretendia, não tem a soberba que eu queria, não tem nada que não seja a lembrança da velha locomotiva que falo sempre, sempre.
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Continuo aqui então, meu rapaz, minha menina, continuo nessa grama cenográfica com essa chuva verdadeira chovendo em cima de mim sem pena e não posso usar a enxada nem tenho coragem de buscar a veia que dança em minha mão. A veia dança, não eu. A veia é o mais importante, é nela que desejo me concentrar porque ela decidirá o que acontece, como se formam as nuvens que parecem algodão. Sei o que digo sim. O cachecol está bem aqui, molhado, é fato, mas está bem aqui. A seringa está ali e o piano de adereço está mais na frente. O céu, meus meninos, o meu céu não é, é ciclorama vagabundo de circo de subúrbio de cidade do interior.
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Não chore nem ria, não faça nada, fique quieto como eu que, impávido olho para cima, olho o quanto a secura dos meus olhos permitem. Não abraço a garrafa nem ouso tentar levantar porque a chuva, torrencial, me empurra para baixo. Quantas gerações, quantas peças de teatro, quantas fantasias, quantas máscaras, quando pó de arroz? Não sei mais, perdi a conta, confesso. Nem sei mais se sou, sei que fui, não fui o que era para ser, fui um arremedo de. Quem tem coragem de se olhar assim, nesse espelho que corta muito mais do que reflete? Qualquer um? Talvez. O que posso te dizer?
Posso dizer tudo porque sou um falador e ainda não estou morto e enquanto não morrem, falam as pessoas, falam os olhares, falam as expressões, tudo fala nesse mundo, o sabugo, o peixe, a arraia, a arara, o arenque o que puro e simples.
Tudo isso para dizer o quê? Para nada, meu amigo. Porque estava olhando para a rachadura no teto e tudo me passou na cabeça e não é justo que outro não possa saber como delira a mente, como viajamos querendo ou não, drogados ou não, doentes ou não. Somos essa coisa, esse bicho homem que anda entre as gramas, entre os serrados, que sobe e desce serra, que acredita e chora depois até não ter mais lágrimas, que lambe a ferida e se curva sobre si mesmo na esperança de que não seja nada disso. Será mesmo?

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7.12.04

das encruzilhadas e dos olhos de mar

Um
Volto ao beco dos mendigos. Volto sempre muito embora tenha jurado um dia não mais voltar. Sem a ajuda da psicanálise percebo que preciso desvalidos como preciso de Lexotan na veia. Os desvalidos são um reflexo de mim ou, por outro lado, me levam à reflexão do ser humano, da caminhada, busca, desespero e desbunde da Condição Humana. Não é apenas por causa do imaginário, dos filmes noir ou mesmo pelo politicamente correto de Woody Allen. Não. Os desvalidos, como Os Miseráveis de Hugo esfregam na minha cara essa necessidade de comer em gamelas, de pedir, implorar um cigarro, guimba que seja, de estender a mão que implora a esmola que vai virar cachaça.

Dois
Vejo em meus cadernos (um deles, recente, está se descosturando) a história da mulher que me ensinou a verdadeira marginalidade da vida. Como um homem de cinqüenta anos não sabe todos os meandros da marginalidade humana e, principalmente, urbana? Pois ali estava eu, impávido, acreditando com ar de estupor naquele papai e mamãe eterno, salvador e reconfortante, achando mesmo que a lâmina só cortaria o meu vizinho. Precisei ser cortado e sangrar, muito, muito mesmo e ser tratado, costurado numa esquina malsã, numa sarjeta que se pretende hospital, tomando ervas ao invés de antibióticos e mordendo o outro braço para agüentar as agulhadas (que agulhadas!).

Três
Achava que existia um mundo mais intelectualizado, um mundo cheio de múltiplos de Roth e de reflexos de Borges e que eu, príncipe, estaria ali, acima do bem e do mal se não gostado, pelo menos respeitado por uma certa casta inteligente e bem formada. Qual! Caí feito o paquiderme que não me considerava, mas sou. Caí de quatro, me arrebentei no chão e chorei até quase morrer, lágrimas de sangue, porque o verdadeiro choro deve conter sangue, muito sangue.
É verdade que não me afundei na cachaça como faria Lima Barreto, por exemplo, fui mais príncipe e permiti que me mantivessem longo tempo anestesiado das drogas mais modernas, dos neurolépticos, anti-depressivos e tranqüilizantes mais requintados. Tudo como faria alguém de bem, como um príncipe que sofre um revés, que toma um choque de marginalidade.

Quatro
Quando a encontrei na varanda fumando e com o os olhos de mar longe, perdidos no horizonte de pradarias verdes, tive a certeza de que era a hora do aviso, do aviso esperado e requentado. Olhei para onde ela olhava e, ao invés de pradarias e gado, vi um beco escuro e sujo, povoado de mendigos, pedintes e toda a sorte de excluídos que a vida pode produzir, senti o mau cheiro dos esgotos putrefatos, vi as pústulas prestes a explodir como veria estas mesmas pústulas dois anos depois no rosto da minha parente velha e amada. Hoje entendo que sou um catador de pústulas e não de conchas como, poeticamente, tentou-se nominar aos volumes sem graça. Sei que estou me repetindo, mas não faz mal, estou expurgando o que vai em mim frente a esse beco de desgraçados.

Cinco
O homem de barba braça, rala e suja me encara, segurando na mão esquerda a garrafa envolta num saco amassado de papel pardo. Ele é o meu verdadeiro par, é para ele que devo mostrar toda a minha angústia e não no consultório refrigerado do terapeuta que receita, receita sem parar, incerto dos resultados das fórmulas que usa. Meu velho, aqui na minha frente tem mais certezas, já há muito levou o choque da miserabilidade e sobreviveu, está aqui e agora, ratazanas ao redor, remelas sem vergonha nos olhos. Não existe aquela fogueira na lata de lixo porque aqui nem isso, não temos frio, não temos a magia da cena do miserável próximo ao natal. Estou na terra do delírio-realidade, frio, sem possibilidade de sonho nem de poesia. Apenas a dor no pulmão esquerdo, às vezes lancinante, às vezes não me garante que o show ainda não começou de verdade, que o espetáculo está ainda para começar.

Seis
Ela? Todos já me perguntaram. Não sei. Não sei dela, não sei que fim levou. Soube que viajou, que cumpriu seu sonho de ir à Espanha, de viajar. Ela só quer viajar, só quer conhecer, só quer deixar a vida ir levando porque veio ao mundo à passeio. E até nisso é adicta. Pode estar em frente a um altar do Santo Daime ou pode estar na Igreja Baptista. Pode estar numa orgia sexual regada à drogas ou constrita, jogando o I Ching. Sim, pode estar morta, é verdade. Mas nenhuma possibilidade vai alterar esse mundão de caminhos e opções e encruzilhadas, de variantes e estradas que se dividem em dois e depois em três e assim sucessivamente até que, como eu, não se saiba mais onde está, nem porquê, nem nada. É só a vida (enquanto há). Acho que é só a Condição Humana.

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4.12.04

E querem saber?
"...o resto era o calado das pedras, das plantas bravas que crescem tão demorosas, e do céu e do chão, em seus lugares... Guimarães Rosa
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sou besta sim!
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lâminas
Quem é o autor desse caderno tão escrito, tão mal escrito, tão reescrito, tão rabiscado, tão confuso com textos, desenhos, fórmulas e ditados que não querem dizer nada? O que há de real por trás de tanta tinta de caneta, de tanta noite sem dormir, de tanta mistura ( e experiência) de drogas para aplacar a dor, a angústia desse viver malsão? Será que existe mesmo esse homem que procura e não acha, procura e não acha, procura e não acha? Será verdade ou um farsante de si mesmo, uma caricatura mal feita, falsa, regada à rum, será o quê afinal, me digam por favor. Não se pode enganar a tantos por tanto tempo e, pior, não pode enganar-se a si mesmo nessa redundância borgiana, kafkaniana, ridícula, enfim. Tudo está dito, tudo está escrito, tudo está sempre falado e a espera é mortal, corta como a mais afiada das lâminas, é real e doída como o primeiro estupro. O que somos se não estupros de nós mesmos que não vemos, que mentimos todos os dias na frente desses cacos de espelhos, com essa merreca de espuma e essas lâminas cegas que nos cortam?
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Buscador
Quem me diz que são essas as verdades que eu quero viver? Quem me diz? Quem me diz que a criança chora o choro da verdade, que a lágrima desse homem barbudo não é o verdadeiro choro do mundo, quem me diz, quem me garante qual é o caminho, qual é a atitude, qual é a possibilidade de verdade? Ninguém. Ninguém me diz nada. Todos dizem tudo e dizem nada e ficam parados, platéias de mim, esperando o primeiro tropeço. Pois não percam mais tempo, eu tropeço e caio como o palhaço mor, como o indigente do mistério, como o buscador que não se aplaca, que morre e renasce sempre, em cada dia, em cada livro, em cada texto vagabundo.
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sempre as emoções

Quando estou certo e quando estou errado? Não sei de mim. Foi na hora, no momento que deixei de saber de mim que perdi tudo. Perdi a hora. Perdi o par, perdi a lã do sapatinho. Me desencontrei daquele que refletia sóbrio no espelho. Já não sou. Ou talvez nunca tenha sido, quem vai saber? Agora não tenho mais tempo para essa angústia, já não tenho paciência para minhas incertezas nem meus desequilíbrios. Nem os dos outros nem os meus. Fui de vez. Sou o da vez, eu sei. Mas quem não é o da vez? Quem não está nesse limbo angustiante e perigoso? Agora é deixar ir. Deixar fazer água. Deixar morrer. Quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo, ela canta. Emoções. Sempre. Hoje tenho certeza de que vou morrer de emoções. De verdade.
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2.12.04

Quando Fernando Henrique era Presidente da República, Lula e sua camarilha tratavam-no a ponta pés. O mais simpático que conseguiam dizer era "FORA FHC".
Já agora, Lula presidente, FHC não pode fazer nenhuma observação, nenhuma crítica que melindra o Lulinha Paz e Amor
Definitivamente é a ditadura do proletariado
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