Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


English




ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

27.2.05

muletas e deus
Falando com PDV sobre os Mistérios. Disse que Mistérios hão de existir. O que é muito complicado para mim pensar e discutir, diante desse ateísmo renitente que me persegue e não abandona nem nas situações mais extremas. O que seriam então esses Mistérios? Não faço a menor idéia e não tenho um ponto de partida. Esse ponto natural de onde partir seria Deus, mas ele insiste em me escapar entre os dedos. Por outro lado, não posso deixar de admitir todas as casualidades, o destino, os porquês inexplicáveis que se nos apresentam.
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Posso então admitir o destino sem absorver Deus? Não sei. Mas como negar o destino, algo que vejo dia a dia e que observo e apreendo mais e mais à medida em que vou envelhecendo? Então admito que o destino existe, mas ele é inconclusivo, fugaz, porque não tenho ponto de partida, não tenho parâmetros para pensar nele. Mais ou menos como um não conhecedor de Física que não compreendesse o tempo e o espaço. A Física existe, é uma ciência, basta estuda-la, mas a Teologia, a Metafísica....
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Sempre me pergunto se preciso de muletas e concluo que sim, que todos precisam. Mas as muletas são inalcançáveis para mim, como se não houvessem sido inventadas ainda ou pior, estivessem na loja de um chinês louco, loja que, depois de caminhar milhas, eu não alcançasse jamais. Concluo que sou um sem muletas como os sem terra e sem teto.
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Mas já é muito difícil admitir que preciso de amparo, muletas. Nunca tinha admitido antes. O ateísmo renitente não me permitia. Agora a coisa toda fica mais dúbia por causa dos mistérios do destino. O destino vem como uma alavanca do nada para o nada, insinuando um certo misticismo (não há como fugir desse termo). E, havendo o misticismo, há o não compreendido, o além, o atrás do espelho, o que não alcanço, só vislumbro por instinto.
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Sou então instado a aceitar o antes inaceitável e colocado à prova no desvão de considerar algo que não domino, alguma coisa que só me seria possível com o aval do senhor das esferas. Sou um não crente órfão, ou um candidato a crente capenga. Em suma, continuo um não ser.

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22.2.05

Bom apetite!

Acordei num beco escuro e sórdido, desses que a gente vê em filme B americano. Minha garrafa de bebida (era uísque sim, mas do vagaba), estava quase vazia e logo me dei conta que também não tinha nenhum dinheiro mais. Tento me lembrar se dei a grana pra alguém ou fui roubado, mas não lembro mesmo. Estou com um galo na cabeça, talvez tenha levado uma porrada, não sei. Como vou saber?
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Junto a um monte de lixo tem um pedaço grande de espelho quebrado. Vou até ele e dou uma olhada em mim. Até que sou um vagabundo bem apessoado. Verdade que o espelho está manchado e está meio escuro por aqui, mas não estou mesmo de todo mal. E por que sou um vagabundo? Podem não acreditar, mas porque quis mesmo, quis ser apenas dono da roupa do corpo (e mesmo assim, dou pra quem quiser. Fico nu na maior).
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De vez em quando me prendem, me batem sem nenhum motivo. Mas eu entendo. A polícia tem mesmo que fazer alguma coisa de vez em quanto, não é verdade? Se eu fosse polícia também bateria em mim. Faria mais: dava uns bons chutes porque os párias são para serem chutados. Aliás, as pessoas em geral, são para serem chutadas. Afinal, temos o dom do chute e chute não foi feito pra se dar em poste.
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Vou escrever um livro (sempre tem muito papel utilizável por aqui). Quero contar essas histórias todas que tenho vivido, quero que as pessoas me conheçam um pouco mais, saibam que gente boa como eu existe por aí, que a gente passa e nem vê. O governo, com toda a certeza, vai subsidiar minha empreitada literária. Quero mostrar ao povo que vida não é tão ruim, muito menos os governos (pena que eu não vote!), quero mostrar que é possível ser feliz, as pessoas é que pedem muito.
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Bom, vou almoçar aquilo ali, ates que os cachorros cheguem e comam na minha frente. Juro que depois eu volto e conto mais. Bom apetite!

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21.2.05

entre Florença e Altamira

Conheci a pessoa que chamarei aqui de Juliana Xique-Xique numa dessas festas de reizado, alegoria maior na nossa profunda cultura nacional. Poderia conhecer essa mulher numa outra manifestação artística como nosso reconhecido internacionalmente xaxado ou então numa feira dessas onde repentistas cantam Sófocles e vendem seus livros de cordel. A literatura de cordel é muito cultuada na Suíça e na Suécia, os Ministros desses países sempre convidam com honras de chefes de estado nossos cantadores intelectuais do nordeste (do agreste principalmente). Lula é a rainha de Sabá do agreste e Gilberto Gil, nosso Otto Maria Carpeaux.
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Juliana é uma mulher simples e doce, dessas que chutam todo mundo, desde a mãe até os subordinados. Nos conhecemos por causa disso, ela tava dando uma rasteira num velho manco e, emocionado, tasquei-lhe um beijo de aprovação enquanto o velho babava sangue no chão. Pensamos em comemorar comendo rapadura e comprando uma peixeira (que é a nossa Katana Samurai dos trópicos), mas desistimos logo de cara. Sentamos pra tomar cachaça de rolha e pra falar bem do Brasil. Como eu e ela somos praticamente analfabetos, o mais fácil que temos pra conversar é reconhecer as maravilhas desse nosso país do futuro, eterno gigante adormecido que acorda, agora, assustado, com a bandalha do PT. Mas isso é outra coisa.
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Compramos umas garrafadas muito boas, cheias de ervas e raízes e fomos para o barraco que ela tem ali perto, mais ou menos entre a Rocinha e a Transamazônica. Lá escutamos um pouco de forró e música sertaneja num radinho de pilha que ela comprou em Caruaru e bebemos um pouco mais cachaça de rolha (outra iguaria que o mundo inveja com devoção). Certa região da França, próspera em vinhedos está pensando em desmatar tudo e plantar cana para produzir aguardente, me disseram.
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Nos beijamos, tiramos a roupa e transamos respeitosamente num papai e mamãe abençoado, sob uma imagem dum Cristo vagabundo que ela tem na quina da parede, na entrada do barraco. A imagem é iluminada por duas luzes vermelhas de muito bom gosto. Diante de Deus só podíamos fazer sexo com muito respeito e ela cumpriu seu papel de mulher (principalmente não gozando e nem pensando nisso). Talvez ela engravide de trigêmeos e já fazemos planos de ter os bacuris com uma parteira duma cidadezinha do Piauí, parteira essa extremamente competente, renomada na Áustria e Viena.
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O tempo passou e seis meses depois ela concluiu que estava mesmo grávida porque ficou sete meses sem menstruar e a barriga apareceu um pouquinho, uma laranja por assim dizer. Como sou subnutrido desde criança, meus espermatozóides devem ser fracos, magros e doentios. Mas estamos muito felizes. Um dia, pra comemorar, transamos de novo (dessa vez longe da vista do Cristo) e aí pudemos fazer mais algumas coisas. Ela quase gozou, mas dei-lhe um bofetão pra que se lembrasse que era mulher e tudo acabou bem. Tem sido um tempo bom. Aos domingos Juliana coloca o vestido de chita que ganhou da emprega de uma madame e vamos à praça. Dia desses deixei ela andar no carrossel que, por azar quebrou bem quando ela ia começar a girar. Mas ela não se importou. Ficou muito feliz só por sentar no cavalinho de madeira. (diz que um dia quer conhecer o mar)
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Juliana vai ser a mulher da minha vida, a patroa. Como sou homem, vou sair com umas empregadinhas de vez em quando, vou dançar forró e tomar cerveja quente em copo de plástico (dizem que a Alemanha vai adotar o forró e o copo de plástico para a cerveja!). Essa é a nossa vida. Somos felizes. Quando, raramente, ficamos doentes, somos muito bem atendidos num postinho do SUS que tem aqui e daqui a pouco vamos nos aposentar com um salário pelo INAMPS. Como Deus é mesmo brasileiro, torcemos apenas para que o Lula fique quarenta anos no poder, igual ao Fidel Castro.

P. S. Ela deu a luz a quatro crianças, mas só uma vingou. É assim mesmo, foi porque Deus quis.


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19.2.05

eu e meu pai

Quando me desfaço na noite
E o dia não chega
Me percebo avesso ao que é (ou ao que pode)
Tento caminhar sozinho
Mas tropeço em mim ( e caio)
No chão (lugar de todos os seres) vejo o mundo inteiro
E escrevo outra página, comigo em pé (sempre)
Como o meu abacateiro de Secreta (vergado, mas eterno)
Sou então curvo, mas eterno por que não tenho tempo
O relógio é controlável, ando com ele para a frente e para trás
O tempo é meu escravo e não o contrário
Meu tempo sou eu, tenho controle cambiante (mas absoluto)
Quando eu não for, não haverá tempo, será por mim
Porque não quis ser. Rasgo os relógios, dou descarga e sorrio
Gargalho porque manipulo os calendários
Só hoje, exatamente hoje, eu entendo o meu pai
E sou criança de novo e compreendo o meu pai
Estou cansado sim, minhas olheiras são minha marca
Minha marca é minha dúvida e minha contradição
Deixo sim um rastro de dúvida e interrogação
Viro a página e começo a me reescrever
retirado do caderno F-4 página 113 (acho)
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14.2.05

é a lama
Ia falar das lambanças diárias, recorrentes e estúpidas do governo Lula, mas é bobagem. Ta tudo nos jornais e revistas, tá na televisão, nas rádios. Fico pensando em falar de uma coisa só, de sermos o país com os juros mais altos do mundo, da desigualdade social estar aumentando, da cagada que ele fez ao destruir o Comunidade Solidária (decentemente administrado por D. Ruth Cardoso) e tentar passar para o Fome Zero, das fortunas em verbas de propaganda governista enganosa enquanto não existem escolas nem hospitais, das incontáveis tentativas de, aos poucos, implantar seu modo ditador (e a ditadura em si!), da violência nacional, da vergonhosa mistura do PT partido com o governo,com a república, da inépcia dos ministros e ignorância cava do presidente. Mas não adianta falar por enquanto. O povo ainda não se deu conta (também, que povinho!). Fico pensando apenas (mesmo que reeleito) quantos anos, quantas décadas o Brasil vai precisar para se reerguer após esse furdunço, desse retrocesso escabroso. Ou seja: falei e não disse, apenas pensei. Esse é um não post.
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7.2.05

NOTA DO EDITOR: A pedido de alguns leitores, reordenei os 3 últimos posts.
(descondidere-se então as observações de que "o início está no post abaixo"

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Capítulo Expresso 111
o velho, o púcaro e a locomotiva corcunda


Brumas. Toda a existência é envolta em brumas, mas não são essas as que me interessam. Imagino a enorme locomotiva esguichando vapor por todos os lados nessa estação escura, decadente, encoberta pela espessa bruma. Vê-se pouco dos galhos de árvores retorcidos no entorno. A mulher ligeiramente corcunda salta de um vagão e vai ao bar sujo e pobre da estação.
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Claro que não tem nada a ver com a mini-série da televisão, é uma tolice desperdiçar pensamentos críticos por aí. No final dessa ferrovia existe uma aldeia com pessoas verdes e estranhas, pessoas que não conhecem o amor nem o ódio, que vivem aos trancos e barrancos. Quase não saem de casa e todo o contato é via internet. A procriação? Sêmem enviado por e.mail.
Tudo isso me vem nesse momento que estou no catre prostrado como disse ontem. O que é a prostração? É a entrega máxima de Abelardo com todo o seu tormento. O que eu escrevi ontem não foi compreendido por ignorância mesmo de quem leu. Como agora sou bonzinho não vou xingar: indico a leitura de Abelardo e Heloísa. O velho salta (e quase cai) do estribo da locomotiva e, limpando a graxa do rosto com o esfarrapado boné, cometa com o ajudante que estão perdidos.
Mas como perdidos se temos os trilhos? - indaga o rapaz.
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Perdidos sim, exatamente por causa dos trilhos, ri o velho tomando um trago de uísque barato. (Ah, vapor barato, lembram?) E o velho continua explicando ao ajudante que ele, velho, não está ali, está no sórdido quarto da cidade abandonada e escreve seu diário mágico, escreve ano após ano e o caderno não acaba. Não estamos aqui, insiste ele, estamos perdidos, eu estava escrevendo sobre a locomotiva e agora esqueci o que ia acontecer em seguida, angustia-se.
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O ajudante esfrega os olhos de fuligem. Não estamos indo para a cidade dos homens verdes que não saem de casa? Não paramos para comprar tequila e dar boas noites ao conde perdido? Qual?, ri o velho com os olhos girando. Não há conde nenhum, apenas aquela mulher corcunda que já volta para o comboio com aquele saco pardo como não víssemos que é grapa, aguardente. Você, ajudante idiota, não defendeu quem escreve, não explicou que estar no chão e prostrado é uma referência a Abelardo e Heloísa. Você não é personagem do meu caderno que não termina, você é produto da internet e dos ignorantes que por ela perambulam.
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Não acaba aqui, não senhores, esse velho maquinista tem muito mais a escrever, muito mais a contar, há que revelar quem é realmente a corcunda que quase nos passou desapercebida e mostrar que a bruma e a locomotiva são fruto da velha caneta tinteiro do homem que não sai de casa e se distrai no jogo de espelhos, o homem dos caledoscópios.... muito ainda há de se encontrar se conseguirmos desenterrar, risível, concordo, o maldito púcaro. Muito ainda pode vir (ou não). De novo: muito ainda há para contar no capítulo cento e doze, tão logo possamos entender a mulher corcunda e a impossibilidade dos homens verdes. Reconheço agora que os trilhos não levam a lugar algum e a bruma é espessa o bastante para não deixar ver o aviso de perigo na ferrovia.
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Mais que a bruma, homens verdes e mulheres estranhas e locomotivas perdidas é a mente claudicante de quem escreve como quem parte para a esfera superior ou o universo paralelo ou ainda para quem escreve o que o maquinista pensa estar ele mesmo escrevendo. O cão sarnento está aos pés do escritor. O sono chega e escritor, maquinista, corcunda e verdes bocejam. Mas nada acontece ao acaso e o motivo verdadeiro desse tudo/nada é

posted by sobretudo delona at 04:15

Capítulo CXI- parte B
onde eu estava?


O maquinista se arrasta no chão de ladrilhos brancos encardidos. Alcança a gamela e bebe sofregamente a água suja que lhe escorre queixo e peito abaixo. Quer comer alguma coisa, mas só tem pão duro e ele sem dentes, coloca um naco na boca para ver se o trigo amolece com a baba grossa. Havia uma mesa, uma cadeira e dois cotocos de vela naquele lugar ontem. Hoje não estão mais. Uma alucinação, pensa ele. Levanta-se com sacrifício, apoiado no cajado de um tronco que achou na ferrovia. Precisa voltar à locomotiva, precisa seguir em frente com o trem.
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A mesa não está lá. Olha em volta e são apenas azulejos brancos nas paredes e no teto. Observa a goteira do teto, o azulejo quebrado e pensa que tem que reclamar com o vizinho de cima. O caderno está no chão e a caneta tinteiro da herança também. O que mais? Quatro caixas de sapato, caixas velhas, mas que ainda não se desfizeram. Cheias de papéis e colares de contas vagabundas. Coisas de mafuá.
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Deitado no chão mesmo (não consegue se levantar), o velho escreve no caderno, escreve uma carta ao filho, conta onde está e pede que o venha resgatar, que ele encontra-se num não lugar e que precisa de ajuda para voltar ao trem. Pede que o filho tenha clemência e o perdoe pelo que fez na infância. Sim, usou o filho, gozou no filho e não se importou com os gritos e o choro da criança. Limpou depois, com cuidado, o sangue entre as pernas do menino com um resto de estopa suja.
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Não, o filho tinha que perdoa-lo, tinha que compreender que ele não tivera culpa, não havia opção, não tinha mulher. Fazer o quê? A maldita corcunda deixou-o no meio de uma noite chuvosa, foi embora com o conde que se hospedara com eles na cabana e assim ficou anos. Não tinha mulher. Entenda por favor. Não importa agora, pensa ele sempre escrevendo, que o filho tenha morrido, tenha se enforcado na árvore da estação decadente, a carta há de chegar porque as cartas sempre chegam, não importa se o destinatário é vivo ou morto. Onde está o estúpido ajudante? Sumiu também, o desgraçado ingrato. Termina a carta e vira a folha do caderno. Confere que ainda existem muitas e muitas folhas em branco, esperando para serem cobertas de tinta.
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Olha novamente para os lados. Ali está a cadeira de palha e espaldar alto. Com esforço vai até ela e senta-se. O filho precisa voltar, morto ou não, precisa entender, não pode continuar se refugiando atrás de um computador velho, não pode se enterrar naquela aldeia de homens verdes. Será que é imbecil, idiota à ponto de não perceber que seu lugar é ali, cuidando do pai, esse alquebrado velho sem dentes nem memória?
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Somente quando a ratazana passa por cima de sua mão, percebe que está no chão, que os ladrilhos continuam encardidos e a goteira cai inclemente em sua cabeça. Não há então a cadeira de espaldar alto? Não importa, não deve se impressionar com tantos ladrilhos brancos, com tanta sede e fome, com esse maldito capítulo cento e doze que não chega. O que acontece? Já escreveu o capítulo cento e onze, mas o cento e doze não chega. Esse capítulo que insistiu por toda a vida em não aparecer, a esconder-se aqui e ali, no forno da locomotiva, nas caixas de papelão, entre as pernas do filho... esse capítulo tem que aparecer porque, acredita, ele será a redenção. Seus olhos giram. Azulejos. Repara agora que, num canto, há um exemplar antigo de Abelardo e Heloísa. Talvez o capítulo tenha se escondido ali ou, pensa melhor, talvez o filho maldito o tenha roubado para se vingar do estupro sem entender, o idiota, que não foi maldade, que não tinha mais como viver, que a corcunda o abandonara numa noite de chuva. Não há mesa nem cadeira e começa a escurecer. Sem espanto, repara que há um espelho que paira, não pendurado na parede, um espelho no ar (esse espelho me persegue desde a infância, pensa o velho). A ratazana pode voltar, a ratazana pode entrar em suas calças largas, pode roer suas entranhas, pode penetra-lo como ele fez com o filho. Não. Onde eu estava?
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Na estação, sim, estava falando da corcunda que voltou ao comboio trazendo consigo a aguardente embrulhada em papel pardo e os trilhos levam à cidade da procriação por e.mail. É preciso seguir para lá, pensa o ajudante. A bruma está mais compacta e os trilhos podem desaparecer se existe apenas o que vemos. Onde está agora o maquinista para seguirmos logo em frente?
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Uma caixa, uma cela, um quarto de encardidos ladrilhos brancos com o velho e sua ratazana estupradora, um velho e um caderno que não acaba, um velho com fome e um capítulo que se reflete em espelhos, mas não é alcançado, uma goteira incessante que escolhe o velho onde ele estiver, um livro com um Abelardo prostrado diante de Deus ou do Diabo. O velho levanta e alcança a parede. Encosta-se nos ladrilhos frios e úmidos, o sangue pinga no chão e corpo balança, enforcado, na árvore retorcida. Mas o início (?) está postado aí embaixo! Onde eu estava?

posted by sobretudo delona at 18:08

Capítulo 111 parte C
O Blog, a Vida e o Espelho (cuidado!)


Agora não há mais tempo de escrever, não há mais tempo de respirar nem de correr. Que se dane a ratazana e a fome. Estou apodrecendo antes de morrer como todos apodrecem (mas não vêem), pensa o velho prostrado nos ladrilhos diante do espelho. Olha-se e, vendo a imagem refletida, baixa a cabeça e beija o ladrilho do chão. Não há mais nada. Carne, apenas.
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O que é essa carne? Talvez a impossibilidade de escrever porque aqui tudo é contado ao contrário, aqui é um mundo reflexo onde o início está embaixo. Quem começa a ler aqui não compreenderá, angustia-se mais o velho. Seu caderno foi escrito assim também: de trás para a frente. Há muitos anos começou na última página e vem escrevendo, sempre em busca do começo, mas as primeiras páginas, como o capítulo perdido, não chegam nunca.
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Lembra-se de que não morrerá porque existem as fezes. Como as do filho menino que gritava pedindo para parar. Olha novamente o espelho e cai definitivamente. Prostrado, pensa que se destemperou ou perdeu a tampa ou nunca existiu uma tampa para si mesmo nem um chapéu, nem nada que o protegesse. É preciso começar a leitura antes, pensa, lá embaixo, porque o que se vê aqui deve ser o fim e não o começo, choraminga mais uma vez o velho.
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Finalmente a locomotiva se move, lenta, cansada, sem forças. A visão é nenhuma, mas deve haver uma cidade à frente e o ajudante faz o que pode rindo de si mesmo e do infortúnio que o acometeu. Não tem o velho maquinista. Não tem visão do que vem à frente. Joga carvão na caldeira e espera que a máquina se movimente mais e mais. Vê o corpo que balança na árvore, mas, não, é impressão, há bruma demais para reconhecer alguma coisa. O púcaro do velho maquinista está no chão, rachado.
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Levanta velho inútil, diz de si para si, encosta nessa parede nesses ladrilhos. Procura tua alma suja porque nela pode estar o capítulo cento e doze, porque Abelardo não faria assim, porque ninguém viveria assim, porque não se conta uma coisa de cima pra baixo. Mas o caderno é assim, tem que ler o antes para ver o agora. A vida é o antes porque o agora não existe, o agora escorre entre os dedos e vira o antes. Existe o antes e o que virá, reza o velho.
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O ajudante pensa no que virá, se existe uma curva, se outro trem vem em sentido contrário, se os trilhos terminam de repente. O que virá ele não consegue ver porque existe uma bruma, está perdido nessa cortina branca e opaca e pode apenas lembrar-se da parada na estação fantasma, mas isso é passado. Quer saber o que virá pela frente, mas não vê.
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Só tenho o que eu fiz, reflete o velho. Quero o hoje e o hoje são paredes de ladrilhos que não dizem nada, o hoje foi escrito no caderno em ordem inversa, o hoje é ontem e o ontem é o menino que chora e o sangue. O hoje é a ratazana que espreita, mas que não pego, a gota que despenca (mas outra virá!). Quero sair daqui! grita o velho e percebe que foi um gemido e entende que os homens gemem. Arrasta-se até o caderno e escreve um pouco mais. Diz que o agora escapou, que o agora está embaixo, é o ontem, a noite interminável. Quer uma janela e não tem, uma locomotiva e não tem, quer entender e não consegue.
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O que resta a fazer então?, pensa o velho. Nada. Não possuo nada. Estou apodrecendo nesse banheiro, com esse caderno e sempre estive aqui. De nada adiantou escrever sobre o trem, nem as cartas ao filho, nem implorar a Deus. Nada. Deixar a carne apodrecer e reescrever-se continuamente, repetitivamente, sempre de trás para a frente, sabendo que o espelho o reflete, mas se ele se escreve, o espelho reflete uma idéia e ele é uma péssima idéia, uma idéia de carnaval, de entrudo, de nada.
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O espelho reflete letras, letras que formam frases, mas não se compreende porque ao refletir-se, escreve-se ao contrário e assim poucos entenderão, poucos chegarão à locomotiva ou à estação, ao velho e à corcunda, ao enforcado e aos homens verdes. O velho pensa ainda que a vida é um blog, a vida não anda para a frente, a vida caminha para o fim e, somente com um segundo espelho que reflita o primeiro ou que somente procurando-se o início embaixo pode-se tentar entender o que não tem mais explicação. Desisto. Explicarei da seguinte maneira

posted by sobretudo delona at 19:31



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4.2.05

púcaro sem tampa sim, mas vendo a humanidade
ou piegas, mas pleno, em paz


Sempre tive tendência para a ignorância e boçalidade e nunca neguei isso, ao contrário, sempre ostentei. Esses defeitos são mesmo atávicos, acho que nascem e morrem com a gente e, portanto, não estou dizendo que mudei, que fiquei curado. Não: morrerei boçal. O que eu queria falar é que a boçalidade não me impede de ver as coisas, coisas que eu negava e não acreditava. Acho que é a hora de me despir.
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Pela arrogância, soberba (que às vezes pode ser curioso e interessante, mas é marca da ignorância) sempre desprezei os valores mais importantes da vida. Passei, acredite, cinqüenta anos sem ver a beleza de uma flor, a pureza de uma criança ou o amor de uma pessoa de mais idade. Digo isso de uma maneira meio desconexa, mas tenho certeza de que os mais sensíveis compreenderão.
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A vida (sempre a vida) me deu muitas lambadas e eu fui saindo incólume, segurando as agruras e, quando era o caso, devolvendo tudo a tapas e ponta pés (sim, repito Diogo Mainardi. Imito, admiro e babo o ovo dele sim! Triste é se eu babasse o ovo de gente como o Lula e seus iguais!).
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Mas não quero azedar meu coração com isso. Escrevo agora completamente prostrado, no chão (e me sinto feliz como estou). Estou no chão, olhando pra cima, olhando o mundo, percebendo atentamente as pessoas. Percebendo como as pessoas são capazes de amar, de reunirem forças sobre-humanas para se doarem ( e como são capazes!). É piegas sim e eu sou piegas, dane-se!
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Não vou mudar porque seria hipocrisia, meu tom continuará sendo naturalmente crítico e mordaz, não vou fazer papel de anjinho nessa altura da vida. Vou seguir em frente sendo o que sou, sempre fui, um púcaro sem tampa, mas preciso dizer, preciso reconhecer e afirmar que errei durante toda a minha vida quando não acreditei no amor das pessoas, na capacidade que elas possuem de se entregarem em amor.
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Hoje posso morrer em paz e feliz. Feliz, sobretudo, porque tive a oportunidade de conhecer mais a capacidade de se desdobrar em amor da raça humana. Se alguém tripudiar de mim, não me importo. Os jecas e patifes existem sim, claro. Mas estou em paz porque antes de morrer descobri que existe uma raça que vai dos zero aos cem anos, uma raça que tem problemas, tem dificuldades, mas se traduzem, muito mais do que isso e antes de tudo, em viverem para dar tudo, custe o que custar. São pessoas que têm amor da cabeça aos pés. Só posso agradecer ao mistério da vida me ter dado a perceber tudo isso. Como disse, esse púcaro sem tampa já pode ser enterrado. Estou completo, pleno. Adiante!

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