
|
SORRIA!
....
![]()
ARME-SE MAIS! FAÇA CONTATO AQUI Visite EX SOBRETUDO Tecnologias 2000 Observatório da Imprensa Ricardo Noblat Claudio Humberto Olavo de Carvalho Paulo Francis Paulo Francis (Novo) Leia Todos os Arquivos do Sobretudo Aqui on-line
Dicas: |
Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida. O impossível na raça humana são justamente as pessoas. Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes. Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida. Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka. Sempre teremos Paris.... Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues) Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes) A calma é inimiga da perfeição "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett "Toda mulher devia ser a Sandra Bullock" "A Tsunami é Aqui!" "Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real" "O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..." "A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite." "A Internet, repito, imbeciliza as pessoas." "O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow. "Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise." "Dormir de dia é um suicídio inconcluso" "O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo "A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues "Ser me ocupa bastante" A. Gide "Nada como a brancura cadevérica de um Pé" "Acordar é como um renascer com as cartas marcadas "A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia". "Matar-se é fazer poesia!". "'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee "Só o suicida morre dignamente". Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança. Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. . O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. . |
31.3.05
Rosane A melhor coisa que me aconteceu ontem foi poder conversar com Rosane. Falamos um bocado, primeiro por troca de e.mails e depois por outros meios. Um dia, com calma, eu vou falar mais de Rosane porque é muito pouco cita-la assim, como a gente faz citação a qualquer coisa. Não. Rosane para ser explicada (se for possível), necessita de dias e dias, posts e posts. - - - - - - - - - - - - - Mas não vou fazer agora. Vou falar para contar que fiquei contente de saber que está bem, que está vivendo essa vidinha de meu Deus em sua Porto Alegre querida. E penso no tempo, as coisas que o tempo faz. O tempo faz existir uma época em que existia o Posta-Restante e o Se Um Viajante Numa Noite de Inverno. Dois blogs. Ambos devidamente deletados e guardados em baús outros. - - - - - - - - - - - - - Falamos de muitas coisas importantes, de muitas coisas sérias, de como a vida põe e dispõe, de como andamos de lá pra cá e só resta mesmo a lembrança, o carinho e amizade. Mas eu falei em blogs? Pois então. A coisa menos importante de que falamos foi a profunda mudança que o Sobretudo de Lona sofreu. Os poucos que andam por aqui agora não sabem o que já foi dito, de que maneira nem as implicações. Sabem o que eu conto (e eu não conto nada. Quem viu, viu, quem não viu, visse) Mas eu vou resumir: de nossa conversa de ontem sobre blogs me ficou uma figura feita por ela marcante, tão marcante que me fez sonhar. - - - - - - - - - - - - Olhando em retrospecto, o que é esse espaço (blog) hoje?: um velho cargueiro, grande, pesado, forte ainda, que na noite de lua singra de um ponto ao outro dessa Terra plana. Poderia ter afundado (como outros), mas ele insiste, segue vagarosamente não por oceanos límpidos como antes, mas por mares agora de águas minadas, escuras, oleosas, cambiantes. E é só. Mais não conto. Para Patrícia O que me salva de ir (já) para o mármore do inferno, arder até não mais poder é que alguns amigos lêem as coisas que vão por aqui e, generosamente, alertam o que deixo transparecer. - - - - - - - - - - Há uns dois posts atrás eu falava de alguma coisa que chamei de Império dos Parceiros. Foi um tópico dentro de um pensamento enorme, um tópico baseado numa idéia que passei numa conversa com Patrícia. Na conversa, eu dizia que não sei os rumos que se pretende nas relações afetivas, na medida em que não abrimos mão das coisas, que terminamos as relações com facilidade. Eu disse que as pessoas hoje em dia praticamente namoram, não elegem alguém que seja, em tese, para sempre. - - - - - - - - - - E discutimos isso um pouco numa conversa sem vencedores, dessas que acabam e a gente fica pensando. Daí, no meio do tal post, eu falei desse novo modo sociológico de se relacionar, que chamei de Império dos Parceiros. Ou seja: temos parceiros, mas eles, me parece, de antemão tem um tempo útil de vida, eles não são, à priori, para sempre. E exemplifiquei dizendo que as pessoas estavam ligadas a uma espécie de taxímetro. Findo o nosso dinheiro, finda a corrida de táxi. - - - - - - - - - - Com a grandeza de não me deixar incorrer em erros involuntários (bastam meus erros voluntários), a mesma Patrícia me alerta que falei em taxímetro, em dinheiro (em meio a uma relação afetiva). Não era realmente o que eu queria dizer. Não estava atrelando o tempo do relacionamento a taxímetro (no sentido pecuniário) e sim a uma espécie de relógio que mais ou menos determinaria o tempo do casal estar junto. Então, registro o alerta amigo e me penitencio dizendo de outro modo. - - - - - - - - - - Por não ser poeta, me valho de Vinícius quando disse: que não seja imortal, posto que é chama, mas infinito enquanto dure. (mas alerto que Vinicius escreveu com maestria esse soneto, mas ele acreditava no casamento eterno, vindo a morrer casado). - - - - - - - - - - - OBS: Mas cabe registrar também que recebi um e.mail sobre o mesmo tema em que a leitora falava que concordava comigo, que entendia essa coisa angustiante de estar provisoriamente com alguém, como que ligado a um relógio. Ou seja, permiti várias interpretações. Ainda bem que não sou escritor! 30.3.05
paraíso perdido Eu achava que era o laser que girava em torno do CD e não o contrário. Isso demonstra bem meu conhecimento de qualquer coisa que possa cheirar a eletrônica ou eletro eletrônica. E por que penso nisso. Penso por causa de um livro, talvez o livro dos livros, talvez não, uma simples enganação que é indicada a determinadas pessoas geração após geração. ............................................. Uma coisa ou outra não fazem diferença. Contento-me com as ilustrações de Doré. Minto. Nunca gostei de livros com ilustrações. Elas desvirtuam, induzem, trazem a visão de outro para dentro da obra que, em essência é de um autor somente. Mas mudo de idéia novamente porque Doré é diferente. Ele conseguiu com sua arte captar exatamente a imagem, a mensagem pensada pelo outro artista, talvez até acrescentando alguma coisa. Assim como toda mulher devia ter quatorze anos, todo livro devia ser ilustrado por Doré. .............................................. Isso para falar da impaciência do homem diante do fator transformador de fato, a imagem midiática, essa história tola das imagens, de que uma imagem vale mais do que mil palavras e de que todo mundo merece quinze minutos de fama. Não acho. Acho que pouquíssimos merecem quinze ou cinco minutos de fama e, obviamente, uma imagem pode não corresponder nem a três palavras, quanto mais a mil. São coisas soltas, coisas que foram falando por aí e foram ficando porque o momento era de mudanças e em tudo se percebia um quê de genial mudança .............................................. Eu não percebi, não tive essa grandeza. Tava falando de grandeza ontem e hoje e não tive a grandeza de ver o modernismo encampar determinadas situações, principalmente na arte, na política, na teologia e na poesia. Devo ter perdido o trem da história, trem que embarcaram como o primeiro capítulo de Se Um Viajante, trem que é ilusão, acho eu. O trem é uma máquina enganadora. Seus apitos, suas fumaças, suas caldeiras. .............................................. São elementos fantasiosos como um cavalo de tróia que serve muito mais para a invasão do que como presente. Viajar no trem é então, entrar no mundo da fantasia, do engano, da possibilidade de. Nunca tive certeza de que os trens realmente saíam do lugar. Aquela barulheira toda pode ser engodo, pode ser show para incautos. Já sei que pensarão que estou ilógico já que o trem dos leva do ponto A ao ponto B. .............................................. Mas prefiro, ainda assim pensar melhor e ver se esses pontos A e B são realmente distantes, se precisam do trem, se um avião, navio ou automóvel não seriam mais adequados. O trem é um veículo mágico que só deveria ser usado por semi deuses. O trem deveria ficar eternamente ligado ao oriente, deveria ter para sempre um chefe de chapéu redondo e escuro, bigodinho e, principalmente, dentro de um trem deveria sempre ocorrer um assassinato. .............................................. Novamente me dirão que os trens da nossa Central do Brasil são a mixórdia em pessoa, que lá acontecem crimes às centenas diariamente. Mas não falo disso. Nossa central do Brasil não tem trens e os transportados não são propriamente pessoas. Os trens daqui são como os da áfrica, são meios de transporte de tribos. Não, não falo desses trens.... Falo do comboio que atravessa cidades, regiões frias demais ou quentes demais sempre com um defunto à bordo, sempre com um mistério em cada poltrona. Os trens de verdade não transportam passageiros, transportam mistérios .......................................... Porque, afinal, o trem é mesmo um mistério, com sua eterna troca de bagagens, com seu correio em sacos de lona, com bandoleiros tentado desengatar o vagão em que fica a mocinha sozinha no meu do deserto. Não podemos pensar num trem se não houver silhueta, se não estiver ele negro à nossa frente com um sol laranja do tamanho do mundo ao fundo. Não concebo um trem que não é ataco por apaches ou ainda que não tenha em seu vagão restaurante a presença de Hercule Poirot. ........................................... Em suma, acho mesmo que, assim como o modernismo, o trem não existe fora do nosso imaginário. Trem ter que possuir vagão de carga ( e esse vagão tem que transportar inúmeras urnas abarrotadas de lingotes de ouro), tem que lembrar da história dos judeus sendo transportados para os campos de concentração, tem que falar que todos os passageiros precisam usar guarda pó por causa da fuligem. Num trem, entenda, os homens devem usar chapéus de feltro e as mulheres saias com anquinhas, os camarotes devem transportar contrabandistas de pedras preciosas e armas nucleares. O assassino do trem deve calçar luvas de negra pelica e, lembrem! ¿ deve existir um homem pendurado em baixo do vagão, atravessando um carro com enorme dificuldade, deixando-nos apreensivo se ele vai conseguir subir ou, ao tentar, sua mão será pisada pelo vilão. ................................................... Trem não existe sem que dois homens não estejam brigando no teto, sem que um deles esteja armado, sem que a arma corra e os dois tentem desesperadamente apanha-la. Os homens devem brigar sua briga distraídos com ela sem perceberem que um túnel se aproxima e que serão esmagados, o que nunca acontece porque o mocinho percebe na última hora e se atira ao chão do teto enquanto o vilão, merecidamente, morre espatifado no muro do túnel enquanto o herói permanece deitado e a pipoca transborda dos nossos recipientes. ............................................... Um trem não poderia nunca ser desenhado por Doré, um trem é uma colagem de histórias de livros fantásticos, de filmes ambientados na década de quarenta ou mesmo da sessão da tarde. Um trem, portanto, não existe. O que existe é a fantasia dele, a possibilidade dele e, como o modernismo, a triste constatação de que ele é inviável tal como deve ser. manhã A xícara quebrada de Alice pode ser um indício do que venho fazendo ou sendo. Pode ser que não também. Falei com o frade que sempre me recebe ali no Largo da Carioca hoje pela manhã bem cedo, após uma noite mal dormida e um despertar repentino e assustado. Conversamos andando pelos jardins (que já são poucos) do mosteiro. Falamos da necessidade da oração. Esse frade procura dissipar minha confusão mental acerca do Divino e não consegue. Falamos então do silêncio. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Absolutamente, me respondeu a ele, perguntado se ali faziam votos de silêncio. Não, insistiu, falamos o tempo todo, temos muitos assuntos a tratar, muitas informações a dividir. Fiquei pensando em que tantas informações monges enclausurados têm a trocar. Mas tem. Nem que sejam sobre um eterno e mais do que estudado versículo do Novo Testamento. Disse ele que eu sim, faço voto de silêncio quando não digo ao mundo minha preferência por determinada coisa. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Saí de lá achando que todos frades são mesmo iguais, apenas os ancestrais, os pagãos tinham alguma coisa interessante a dizer. Da minha parte prefiro ler e entrevista da Sandra Bullock no Globo de hoje (me faz mais bem). Como a entrevista não é eterna vou procurar numa amiga uma explicação sobre um quadro de Boticceli que não entendo, ou melhor, não gosto e fico me patrulhando que, sendo dele eu deveria gostar. Ela sorri pra mim. Não, eu mesmo concluo, não tenho que gostar. E isso me remete que as pessoas não têm que gostar de mim. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Existiu um tempo que eu tinha um show pronto, preparado para ser apresentado em qualquer outra ou lugar, via qualquer meio, show esse que, mesmo não fazendo, sucesso, não deixava de impressionar pela sua excentricidade. Não existe mais isso. Rasguei o script e penso em fazer um outro. Não quero mais ser o que finjo que sou. Também não quero ser autêntico: quero apenas inventar outra história. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Prestando mais atenção ao oratório percebo que o ideal é ser uma vela de sete dias, assim mesmo como elas são, que, enquanto estão acesas trazem a luz e a esperança, mas, findo o prazo se extinguem como se jamais houvessem existido. Sou exatamente isso, a vela que nunca existiu. O que se vê de mim não é a consistência da construção medieval, mas a fugacidade do lume, da chama que bruxuleia, queima, mãos não é palpável (nesse sentido ordinário de guardar uma chama numa caixinha). Queria ter dado toda a minha vida a arte, mas não consegui, não tive o talento necessário. Não acreditei o bastante nas coisas que fazia nem nas que desejava fazer (se é que desejei fazer alguma coisa). - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Me volta a conversa sobre o casamento e ter um parceiro que nos aperte a mão na hora difícil. O mundo caminho para o Império dos Parceiros que, à rigor não quer dizer nada. Todo mundo é parceiro de todo mundo ligado a um taxímetro. Estamos de olho na marcação dos valores do taxímetro. Quando ele se aproxima dos trocado que temos no bolso, mandamos parar e andamos à pé até que se junte mais dinheiro. A vida vira uma corrida de táxi. E não há nada mais impessoal, mais incomodativo do que quarto de hotel e táxi. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Fico pensando no que me resta. Deáende do olhar, tem muita gente que a essa hora tá no centro da cidade jogando na bolsa ou andando de bermuda branca, tênis e meia pelo calçadão da avenida atlântica. Não estou nem aqui nem lá. Estou num limbo, num nada existencial que , mais cedo ou mais tarde vai me destruir. Falei de suicídio assistido e falo de destruição (no sentido de desconstrução) assistida. Mas o que me resta é desconstruir tudo o que não deu certo, não para alcançar alguma coisa, conquistar algo ou alguém, mas para ter, para mim mesmo, uma imagem mais clara do que posso ou desejaria. - - - - - - - - - - - - - - - Esse processo pode ser feito de duas formas diferentes e não concluo ainda por uma. O que existe sou eu e meu reflexo no espelho. Posso quebrar o espelho ou a mim mesmo. Dirão, os apressados, que outro espelho virá e esse eu não mudado estará lá, solenemente refletido. Pura impaciência de quem lê aqui ao invés de estar estudando administração de empresas, direito ou turismo. Não. O espelho segundo tenho lido em alguns autores mais elaborados, não reflete apenas o que é lhe posto à frente. O espelho tem lá sua vida própria e pode ser o espelho, na verdade o agente, o ser, e a pessoa, apenas o reflexo. Conhecemos muitos casos de pessoas reflexos. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Aliás, falta um olhar mais atento a tudo isso. O que temos na verdade é um universo de pessoas reflexos, pessoas anônimas que caminham pelas ruas, trabalham dão a luz, estudam, navegam por águas ora turbulentas ora em remanso, não importa. Todas essas pessoas (e por que não me incluir?) são não pessoas, são o substrato de alguma coisa cósmica tola como a fecundação do óvulo pelo espermatozóide. É uma imagem que me enfada, porque não há nada de mais comum. A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite. - - - - - - - - - - - - - - - - - - Tentam, ainda me mostrar que eu não sou, não faço e não realizo (como se precisasse!). Claro que eu sei tudo o que fiz e não fiz, faço e não faço. Estou no período não, no período ruim, mas tudo é período (pode ser karma, mas, se for para crer em karma, que sejam voláteis e mutáveis, por favor!) O Sobretudo de Lona é o nome e sobrenome do viajante, do andaluz, do que avança até à beira do penhasco sempre. Só quem conhece a história do Sobretudo de Lona pode entender o quanto o próprio nome traz em sua combinação de letras e motivos para ser criado, o caminhante, o artista que 'está onde o povo está' - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Meus bisavós e avós eram mambembes e, com toda a cibernética, informática e infovias, continuo eu um mambembe. Atávico. Nunca deixarei de ser. Não sou mulato, como cheguei a pensar (ou a falar para irritar parentes racistas). Não, sou um cigano, um andarilho, um procurador, amador e irritador. - - - - - - - - - - - - - - - - Podia abandonar tudo agora e partir para uma longa viagem com minha amiga (o convite já está feito), mas também não é isso. Minha sina é outra (não sei se melhor ou pior - me parece pouco). Minha sina é ser um visitador de lugares a que nenhum avião ou navio chegam, lugares que estão nas sinapses, no fígado, nas tripas que carrego em mim. Quero saber como conseguir continuar a carregá-las e ao mesmo tempo sorrir para o abstrato do oculto e desdenhar o que não me acompanha. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Claro que não farei nem uma coisa nem outra, vou me recolher com todos os meus colares, todas as minhas guias e todos os meus bonés, vou tomar saqué e reverenciar José de Arimatéia, vou insistir em dizer que Sempre Teremos Paris mesmo sabendo que isso não vale para mim, vou ser o velho que tem medo de abrir a porta para não encontrar a surpresa do seu duplo (em que tanto acredito) na soliera da porta. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Vou olhar as tendas militares que estão atendendo ao povo e ver as pessoas sendo assaltadas no Passeio Público, vou ouvir Raul Seixas e sofrer pelo elo perdido. Quando perdi o elo? Não sei, foi em algum momento, em alguma encruzilhada do caminho e, infelizmente não deixei a trilha de farinha (ou milho?) e não tenho mais como voltar. Voltar. Ora penso que gostaria muito de voltar tudo, ora não, não acho mais nada disso. Olho para a frente e o que vejo é a ilusão óptica do horizonte. Como gostaria que a união da terra e do mar não fosse essa ilusão dos sentidos, como gostaria que os sentidos iludissem menos, como gostaria de estar do outro lado do espelho e da sanidade. Como o conceito e a rotulação de sanidade me fazem mal insistindo em me prender do lado de cá! - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - O que me resta? O de sempre eu acho. Soltar as amarras, levantar essas pesadas cordas que me mantém atracado a essa terra que (eu sei) é igual a todas as outras terras e navegar para dentro de mim, do espelho que tenho na traquéia e no pâncreas, navegar de encontro ao personagem que está para ser criado, mas falta imaginação ao autor. Cindir com esse conceito é uma alternativa. Acho que quero o que todos no fundo querem, ser a marionete e não o manipulador (missão impossível). E, sendo impossível, deixo definitivamente o caminho do meio e jogo fora madeirames e cordas de manipulador. Observo o boneco , caído, na posição própria e universal de bonecos jogados (que parecem corpos jogados do alto, como quando se fica alquebrado ou popularmente, sem pé nem cabeça. Espero que forças ocultas dêem um jeito nisso tudo sem me anular, sem esperar que.....) - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Parece que não está claro, mas está sim. Basta ter uma barquinho desses que fazemos na infância e colocá-lo a navegar na sarjeta, na água da chuva que escorre. Porque, olhando bem, não somos quem pisa na água corrente, não somos quem prevê a vinda ou não da chuva. Na verdade, em essência, somos essa água que corre, que desce ladeira abaixo momentaneamente molhando os paralelepípedos, criando um pouco de limo inútil nesse percalço bruxuleante como a chama da vela, da gota que pinga, do homem que se extingue. - - - - - - - - - - - - O brilho do sol me chama lá fora. Vou como iria se fosse chuva torrencial. Porque trilho o percurso não das coisas, mas das referência das coisas. Por isso não é possível me pegar. Porque estou na referência e não em mim, estou no pensamento de difuso que meu cérebro eventualmente produz. Meu corpo, não se iludam, é o arcabouço para parecer mais humano, mais próximo. Acredito no canto das sereias. Mas, acredite, sou o canto e não a sereia. 29.3.05
de tarde Tem sido enorme o trabalho revisão dos cadernos. Não esses mais novos que tenho usado, mas os maiores, próprios para atas que é onde a maior parte dos textos está transcrito. Um amigo me disse que era loucura transcrever para outro caderno ao invés de digitar de uma vez, mas continuo confiando mais no papel. Porque não consigo usar verdadeiramente o editor de textos. Não consigo ver facilidade maior do que editar os textos em meus cadernos através de asteriscos, setas e outros sinais que vou inventando. Por falar em inventar, fiz contato com uma pessoa importante que já citei há muito tempo aqui, o meu Mestre, assunto sobre o qual blasfemei depois. - - - - - - - - - - - - - - - - - - E não entenderam a minha blasfêmia aqueles que não me conhecem e não conhecem o significado oculto da própria blasfêmia. Escrevi em algum lugar segundo a indicação de textos ancestrais que a blasfêmia não é o pecado que tentam nos impingir hoje, mas a leveza, a brincadeira, o humor dos deuses. Os deuses blasfemam contra a Terra e seus ocupantes estes sempre blasfemaram contra seus deuses por motivos como a má colheita, a enchente ou a seca. Não é mais possível se compreender do que estou falando agora. Seria necessária uma viagem astral (sem sair do lugar) para perceber que o universo está se curvando mais e mais e as pontas vão se encontrar. Calma. Já se pensa no universo curvo que seria (imagine!) uma espécie de universo cujas pontas se encontrariam e que, viajando, nunca lhe chegaríamos ao final, como uma formiga no interior de uma câmara de ar de um pneu. Então ta. Já se fala desse universo curvo - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Mas não estou falando dele, estou falando de universo sobre universo como um doce folheado, onde uma coisa se coloca acima da outra sem que tenhamos clareza do que está acontecendo, como a madeira compensada, como a resma de papel em repouso. Esse universo feito de partículas que se perpetuam, que parecem se misturar, faz bem parte do ambiente em que vivemos. Todos os dias, temos diante de nós, uma folha em branco. Todos os dias escrevemos uma história sobre essa folha e, ao final a colocamos de lado chamando de ontem. O ontem são os livros que escrevemos (independente da idade que temos). Gente com dezessete anos idade têm livros fantásticos no monte de papel à sua esquerda. Outros, com setenta anos, possuem uma quantidade de papel muito maior, mas... o que está escrito ali? Tem realmente alguma coisa escrita, alguma coisa que valha a atenção? - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Conheço gente que já gastou 60 anos em folhas de papel e tanto as novas quanto as usadas estão em branco. Não, não me chame de crítico, porque não estou realmente criticando ninguém.... sei muito bem que todos nós, muitos e muitos dias não escrevemos nada em nossas vidas e, com o passar do dia, apenas trocamos a folha de monturo. Eu faço isso, todos fazem. Mas procuro enganar a mim e aos que vierem com os cadernos porque neles volto atrás, neles não sou obrigado a virar a folha, posso deixar a mesma folha aberta por dez anos e retornar dali como se não houvesse passado um dia sequer. Posso ir aos universos paralelos (e esses universos podem ser livros, gibis, pode ser até mesmo universo paralelo da internet. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Aliás, dia desses, encontrei numa pequena reunião um antigo conhecido, homem de poderes estranhos e inquestionáveis e ele falava do universo paralelo da internet e de um outro universo paralelo espiritual. Dia que andava aqui, que andava na internet e andava em outras esferas com a mesma desenvoltura. Um incrédulo riu e ele perguntou: Se, há trinta anos atrás de falassem de um universo paralelo tal como é hoje a internet, você veria? O idiota que fez a gracinha se calou. Ainda balbuciou que estava falando de uma coisa palpável e ele riu, dizendo que palpável era o computador e não o universo on line, da mesma maneira que seus livros e caldeiras mágicas também eram palpáveis. Eu e um uns poucos demos atenção. A maioria do grupo estava num outro universo, esse ainda mais estranho, o da mescalina. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Mas nem só de mescalina eu me alimento. Encontrei um texto num caderno empoeirado falando de uma experiência que eu fiz fumando com cigarro com melhoral raspado e diluído no fumo. Naquela época, falava-se muito que fumar esses cigarros com analgésicos fazia com que alucinássemos, víssemos outras coisas. Bom, nesse caderno está descrita toda a minha viagem, tudo o que eu vi, tudo o que me foi dado. Não vale eu fizer aqui se foi bom ou se é ruim porque eu estaria deixando os outros com uma impressão unilateral, sem terem experimentado. Mas eu falava do Mestre - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Primeiro, tem essas coisas das palavras que eu tento explicar e não sou compreendido (porque não sei me explicar, evidentemente), que as palavras são signos sonoros e escritos, mas são um tipo de signo e nesse mundo (e muito mais ainda em outros mundo e outros universos), esses signos podem não ser nada. Quantas coisas nós sabemos e não conseguimos reproduzir. Quantos sentimentos de carinho não são descritos com palavras nem com beijos nem com gestos? Nenhum? Errou: muitos. O carinho é algo estranho, algo dado aos sábios. O carinho é compactuado, ele vem de dois: do que dá e do que recebe. Se alguma das pontas falha, esse sentimento ou essa ação, ou esse sabe-se lá que nome dar perde o sentido e aquilo, aquela coisa etérea chamada carinho se perde e, ela mesma, como o dia não volta jamais. Poderão vir outros carinhos e não aquele. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Então essa a visão do Mestre, é a visão do carinho (dado e recebido), é a percepção do carinho consentido que, em última análise não deixa de ser algo que se aprende de alguém, que se apreende através de um tempo de contato (seja por que meio for). Isso é o que aconteceu desde que o Big Bang fez o estrago no nada de antes. Diz o meu Mestre que antes desse estrago o carinho era maior porque mais uno, mais, consentido, mais visto já que o vácuo de possibilidades era absoluto e só as coisas realmente importantes eram percebidas, independentemente de existir vida ou não. Porque essa é outra questão. Parece (me diz) que não prtecisa existir a vida (tal como a conhecemos), que a vida é algo muito maior do que podemos imaginar, que a vida é possibilidade do Big Bang, como a possibilidade do Sol esfriar e outras coisas surgirem, e outras camadas do folheado se apresentem. Ele me olha para saber se estou entendendo. Respondo que estou tentando e ele sorri. E me diz que isso eu posso publicar, mas não tudo, porque o todo é complexo, e não devo difundir as coisas que duvido. Respondo que duvido de tudo ele me diz que sim, ele também, duvida de tudo, inclusive de eu mesmo existir. Diz que a história dos textos nos cadernos manuscritos é balela. Vou à estante, trago um caderno e mostro e ele sorri.... me leva à janela e me aponta o céu negro. Sorri mais e me pergunta: e daí? - - - - - - - - - - - - - 666 - - - - - - - - - - - - - OBS: Isso não anula que o Mestre tenta indicar o caminho e fazer perceber a luz, mas me perco porque nem sempre é necessário um Mestre para isso e outras vez o Mestre não é capaz porque nós mesmos não somos, o que me faz pensar que somos o mestre de nós mesmos ( muito diferente de livre arbítreo, não, não é isso). Mestres de nós mesmos, através do chuvisco da televisão, da estática do rádio, das canetas que imploram para serem usadas, da internet que não responde ao anseio cuja resposta está na xícara rachada de café forte... 25.3.05
Alguém sabe o que é Obsolescência Programada? Eu sei, mas não conto. Coisas da Mônica. OBS: Ela explica sua pesquisa: "A obsolescência programada impera deste os tempos da Revolução Industrial. Em síntese, a obsolescência programada consiste no fato de a indústria produzir bens de consumo com vida útil mais curta do que seria tecnicamente possível" Entenderam? 22.3.05
|
14.3.05
|
10.3.05
Queria poder escrever alguma coisa sobre a falta que a minha tia me faz, mas não tenho nada. Não sei o que dizer... A Atriz Zilka Sallaberry faleceu as 5 horas de hoje no Hospital Samaritano. O Velório será hoje na capela 7 do Hospital do Cajú 6.3.05
reflexo (ão)? Chamei o bispo Miranda naquela noite de chuva pesada, mesmo sabendo que a hora era avançada e casa distante. Não havia mais tempo, não poderia esperar até o amanhecer. O enorme espelho em frente ao meu leito insistia em mostrar meu corpo deitado, minha tez pálida, minhas olheiras, meu cabelo sujo. O espelho (esse) regulou a minha vida, me disse quando era para levantar e quando calar, quando amar e quando partir para minha guerra interior. Agora ele me diz que está chegando a horas. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Momentos depois, entra o Bispo Miranda nos meus aposentos e não sei quanto se passou, se uma hora, se quatro, mas ele veio e parecia bem disposto, com o rosto magro sereno e amigo, desconsiderando o incômodo da hora e da chuva. Não conheço a Igreja e não sei se todos os Bispos são assim. Não devem ser. Via seu rosto me olhando meio sorrindo, meio grave e via suas costas refletidas no enorme espelho. Pensei em Giordano Bruno, não sei porquê. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Ele sentou-se na beirada da cama, bem próximo da minha cabeça e sorriu pegando uma de minhas mãos. Disse que veio logo que recebeu o recado, que estava feliz por eu ter chamado e que poderíamos conversar com calma, tínhamos todo o tempo do mundo. ................................................................................................................... Não é verdade, Bispo Miranda, disse a ele. Não temos todo o tempo do mundo, não temos mais tempo nenhum da mesma forma que o espelho perde o aço, que a motocicleta derrapa, que acontece a ejaculação precoce. Não tenho tempo nem mesmo de dizer porque o chamei, precisaria falar de toda a minha vida, precisaria explicar toda a angústia que assolou meu coração por todo esse tempo, em todo esse caminho ou no caminho que eu insisti em não seguir. Não soube ouvir quando você me falou, não vi quando você me mostrou e agora o que posso esperar? O que posso esperar desse espelho que me reflete de forma pérfida, que insiste em me jogar contra mim mesmo. E o céu? Olho lá fora, Bispo, e vejo esse negrume e essas estrelas e elas me dizem que sempre estiveram lá e eu nunca as percebi. Todo o universo se volta contra mim. As castas saíram estranhas: O Enforcado, A Torre e O Diabo. O que querem me dizer? - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Bispo, não tenho muito tempo para dizer tudo, para falar das mulheres, para contar que nenhuma das minhas mulheres morreu, deixando-me na dúvida se estaríamos juntos até hoje se ela não tivesse morrido. Não. Nem essa dúvida me restou. Todas estão vivas e suas vidas me apontam o dedo como culpado pelo fracasso dos encontros, todos os olhares são carregados de reprovação por tudo o que fiz e o que deixei de fazer. Onde está a energia, onde está o Mistério que aguardo com tanta ansiedade, onde vai se manifestar o senhor das esferas que busquei inutilmente pelos meus quase cem anos? - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - De que adiantou a minha peregrinação por todos os templos, mosteiros, mesquitas, igrejas além do meu encontro com todo o tipo de feiticeiros, bruxos e bruxas, duendes, elfos, fadas e alienígenas, toda essa tribo que circula nas sombras, à luz de velas e fogueiras, incensos e oferendas? Por que justo agora todos entraram pelo espelho e não me aparecem mais? Por que o espelho me subtrai de mim mesmo quando um espelho deve dos duplicar e não absorver? Vou ser absorvido também pelo grande espelho? - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Bispo, essa máquina de ruído irritante e persistente que empurra oxigênio em meus pulmões sendo ela mesma um segundo eu, um duplo por assim dizer. O que faz essa máquina? Esse tubo empurra ar a não mais poder para dentro de mim mesmo sem meu organismo mais agüentar, mesmo indo contra todas as leis da física, da lógica, do perdão e do amor? Por que só meu cérebro funciona, só posso te falar com o cérebro já que minha boca está cerrada e, ainda, por que o espelho está ali presente à minha frente, me refletindo como quem vai me engolir? Como o vejo se meus olhos estão fechados? - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Por que parou de sorrir, Bispo? Por que persigna-se olhando para o espelho e não para mim? Por que vejo tudo e não enxergo nada, sinto esse frio, essa leveza em mim e no ar? Onde vai, ao caminhar em direção ao Espelho, Bispo, o que deseja ver? O que procura? Não veio por mim, para me confortar e ouvir? Onde está o meu conforto, a palavra amiga, o acalanto, a mão na minha testa, o sussurro em meu ouvido, onde está a água que trouxe em sua maleta, onde está tudo como dever ser Bispo? Não posso levantar para segura-lo, sacudi-lo, traze-lo de volta a mim e 4.3.05
amparo Muletas de alumínio são o que há de mais moderno. Já foram de madeira, madeira não lixada, já nos deixaram farpas nas mãos. Farpas que infeccionavam e nos levavam a amputação. No tempo das caravelas talvez ou dos mapas onde o mundo tinha bordas (imagem recorrente que me agrada muito mais do que as modernas conclusões). - - - - - - - - - - - - - - O barulho das muletas de alumínio pela casa me lembram algo noir, algo que está guardado há muito na minha cabeça.... Sim.... O Dia do Chacal, livro fantástico. A última tentativa do Chacal matar De Gaulle é passar disfarçado por toda a polícia que cerca o local. E aí entram as muletas. O chacal está disfarçado de mendigo e leva o rifle na muleta. Bárbaro. Corta! Escuto o toc toc das muletas, mas nunca penso em J. caminhando pela casa e sim no Chacal atravessando o cerco policial. - - - - - - - - - - - - - - - - - - Já que agora não deixo de conviver com muletas, não posso deixar de pensar em que elas realmente não deveriam ser apenas muletas. Deveriam conter rifles mesmo, são bem apropriadas. E fico pensando em pegar a muleta de J. e adaptar um rifle. Saber que poderei sair por aí sem levantar suspeitas. - - - - - - - - - - - - - - Estou numa rua escura e leva uma fechada de um idiota, desses bem metidos a besta, desses que fazem academia e tomam bomba. Ele pára o carro e desce cheio de marra. Eu desço, frágil, claudicante. Ele cresce, me dá um esporro. Faço cara de medo, levanto a muleta e BUM... um tirambaço na cara do filho da puta. Um marginal encosta junta do meu carro, vê a muleta e pensa que vai ser moleza. Manda eu parar e sair do carro. Eu saio, levanto a muleta e PIMBA! Menos um filho da puta.... e assim vai... - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Sonho às vezes que estou numa casa de tamanho médio, durmo num colchão no chão. Não existem móveis na casa, apenas panos, muitos panos brancos. Nas janelas, pendurados nas paredes ou cobrindo alguns objetos que não vejo. Um lugar interessante, teatral, eu acho. Fico pensando que é preciso preparam uma iluminação adequada para esse ambiente... esses panos brancos servirão para receberem tonalidades de luz azul e âmbar. Talvez gravar um vídeo clipe de uma banda vagabunda. Ou apenas me drogar com ópio e ficar delirando. Mas não é o que acontece. Ouço o toc toc e vejo as muletas de alumínio caminhando, sozinhas sem ninguém. Muletas não caminham como pessoas ou esqueletos. Não é um passo na frente do outro.. - - - - - - - - - - - - - - - OBS: As muletas andam juntas, vão as duas para a frente de cada vez, para que o inutilizado jogue o corpo depois. Interessante o mundo das muletas, devíamos prestar mais atenção nisso. Devíamos antes, entender que o mundo seria inviável sem muletas. 2.3.05
|
redação do idiota ou esqueçam Pensando aqui em como geografizar as questões que não têm amparo gráfico explicativo. Pensei em copiar um diálogo que tive aqui, mas não creio que seria suficiente. Seria preciso explicar a minha relação com a pessoa com quem falo e volto a cair num terreno de hipóteses, sentimentos e filosofias vãs. Fico pensando se toda filosofia não é vã. Parece que sim. Se toda a filosofia for vã, ainda haverá salvação porque nada é nada e podemos refazer o mundo. - - - - - - - - - - - - - - - - - - Não o mundo. Bobagem. Refazer o caminho da vida. A vida é uma bolha no nada, uma bolha de sabão que cresce, voa, diverte e estoura. Não. Tolo. Ou então é um terreno. Pra entender esse terreno, prefiro acreditar que a Terra não é redonda, é plana, tem bordas e no final dos oceanos caímos no nada. Muito mais lógico, me parece. Voltando ao terreno: Mais. É a parte cercada de um terreno. Com duas porteiras, uma de entrada e uma de saída. Entramos por aqui ao nascer, vamos nos amparando nessa cerca caiada de branco até a prendermos a andar. Depois vemos coisas aqui e ali como flores, riachos e muitos cordeiros. Atenção para os lobos em pele de cordeiro como o Lula por exemplo. É uma espaço cercado, que faz fronteiras com outros espaços vida cercados. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Por um período que chamamos tempo, vivemos caminhando nesse espaço. Dos outros cercados pessoas pulam e entram no nosso espaço e vice e versa, mas sempre voltamos para nosso espaço vida. Continuamos caminhando e a cerca vai perdendo a cor, deixa de ser caiada, fica de vagabunda madeira e, finalmente de madeira podre. Imagino que seja quando nos aproximamos da segunda porteira, a derradeira, a de saída. O trajeto por esse terreno cercado é cheio de alegrias, tristezas e, na maioria das vezes, vãos momentos. E não sei porque tudo isso acontece. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - O mundo então seria um infindável pasto com seus espaços cercados para coisificar as vidas. Nesse pasto vida chove e faz sol, nos reproduzimos e matamos, seguimos como cordeirinhos ou enlouquecemos e nos afastamos (nos afastam) do rebanho, adoecemos e saramos. Agora mesmo teclo sem querer a tecla insert e apago um monte de coisas que havia escrito. Por agora temos esse mal que é o editor de textos do computador. Com ele, a realidade desses pastos mudará, teremos outros conceitos e não sei como falar de carneiros nem cercas virtuais. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Mas não tento me convencer, tento convencer vocês, tornar a coisa visualizável. Claro que é uma enorme perda de tempo, coisa de quem não faz nada, de quem perdeu o rumo intelectual. É isso, perdi o rumo intelectual e caí no infantilismo puro. Uma criança de três anos desdenhará do que está escrito. Uma criança de três anos prefere Sóflocles ou Tolstoi. Turguêniev talvez. Com certeza sou daqueles que se afastou do rebanho e está trancado num canto com um cotoco de lápis. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - O que estou escrevendo é de uma idiotice que deveriam me processar por perderem tempo lendo essa coisa. Virá um chato me perguntar de onde viemos antes de adentrar a primeira porteira e para onde iremos ao sair da segunda. Não sei, não tem. Pense numa lenda ou numa parábola se preferir, parábola idiota sim, mas também é idiota tentar me pegar com perguntas impertinentes. Como nas lendas e parábolas, não tem antes e depois. Me saí bem? Não. Fracassei novamente, eu sei. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Escrevi o que o enfermeiro permitiu. Estou agora na ala de retardados mentais, estou aprendendo a conhecer as cores e a contar de um a cinco. Faço xixi na cama como os outros e não tenho coordenação motora fina. Rio de todas as gracinhas que fazem pra me distrair e acharam essa redaçãozinha muito boa, muito bem feitinha. Aqui não dão notas, colam uma estrela de papel dourado pra gente entender algo como Muito Bem! Agora vou tomar sopinha. Tá, esqueçam o que leram. |