Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


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ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

30.4.05

"Nunca é o impossível. Gosto de nunca. Também gosto de sempre. Que há entre nunca e sempre que os liga tão indiretamente e intimamente?"
Água Viva
Clarice Lispector

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Fico impressionado como pequenas coisas, em determinados momentos, me trazem tanta felicidade.
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Clarice
Tudo em Clarice é genial. Não tem outro adjetivo. Genial e pronto! Água Viva me parece sua obra prima. Mais, a obra prima da Literatura.
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"Tenho certo medo de mim, não sou de confiança e desconfio do meu falso poder"
Água Viva
Clarice Lispector
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eles

Aqui em casa, alguns livros sempre se escondem de mim. às vezes por um bom tempo. Quando os encontro, coloco-os de castigo, numa estante já apropriada para isso
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Amanda III - Trem & Hortênsias

Para onde mesmo estou indo? Não sei, sinto que estou indo porque a vida passa por mim, passa através de mim indicando um movimento meu mesmo que seja a inércia do parado ou caminhando. Tanto faz. Olho a caixa com os charutos cubanos, charutos de uma outra época e me pergunto se não estarão velhos, bolorentos.
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O que faço para alterar as coisas? O que procuro ao escrever tantas e tantas páginas num caderno que desaparecerá como pó, melhor, como cinza, que não há mais nada em seu futuro, como no meu, que a justa cremação. Mas insisto sempre, procuro os personagens que estão em mim, que são de mim.
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São de mim centenas de pessoas, homens, mulheres, crianças, gatos, velhos e velhas. Todos estão aqui, como que à minha volta esperando a sua vez de entrar em cena. Como torço pela esquizofrenia tardia e os profissionais insistem em que ela não virá mais nessa idade, que o tempo foi ontem, na adolescência. O que há agora é criação, arte talvez, arte barata, mas não doença.
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Amanda está me ouvindo dando longas e saborosas tragadas no cigarro. Olha agora para o alto, para o teto, como se visse através dele, como se estivesse longe, como se tudo o que digo não seja, seja outra coisa, melhor ou pior, não importa, mas outra coisa. Ela gosta de ver o quadro geral e sabe que não conseguirá comigo, que me enrosco em pensamentos que, cambiantes, retornam travestidos de outras coisas, sempre e sempre.
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Põe minha cabeça no seu colo e passa a mão nos meus cabelos como que a estimular-me a falar, a contar a derradeira verdade. Explico então que não a possuo, que minhas verdades são fugazes e efêmeras, que o meu hoje é a corrida de costas do ontem assim como o futuro se aproxima, também de costas para mim não só para manterem todos os tempos sempre a mesma posição, mas, antes, para que eu não desnude seu rosto, não o veja antes de ser já passado.
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Quantos eu existem, pergunta. Não sei. Às vezes acho que muito, outras apenas dois e outras ainda um só. Ela sorri. Diz que nunca conseguiu ser uma só. Eu reflito. Por que disse que às vezes sou um só se não é verdade, nem um pouco verdade, sou sempre muitos, todos eles excêntricos, estranhos, escondidos. Sim, eu e todas as minhas possibilidades, todos os meus eus estão escondidos, guardados sem quererem sair, sem desejarem colocar os pés na rua porque não sabem como agir numa rua, num beco. A rua, definitivamente é para os outros, concluo.
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Ela não é assim. Amanda está mais preparada para a vida, ainda que muito mais nova, ainda que tendo pouco mais do que a metade da minha idade. Ainda assim ela é capaz de sair, se expor sem receio e voltar para casa inteira, íntegra. Sei que tudo isso é uma questão de tempo. Seu tempo também chegará, não pense ela que já não fui como ela, já não vivi e estranhei os que vivenciavam o que vivo agora.
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Não posso matar as expectativas e muito menos as esperanças. É preciso que se erre sozinho, é preciso que se manobre o medo para a frente e para trás como um automóvel a encaixar-se em pequena vaga. É preciso que anos passem sem nos darmos conta, preciso que nuvens de vida passem. A vida passa como em nuvens, pensei noutro dia. Às vezes apressadas pelo vento, às vezes calmas, paradas mesmo e volumosas, compactas como é, muita vezes, compacta a vida.
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A vida pode ser uma pedra, pode ser um monólito, pode ser um nada que se renega e mesmo na sua condição de nada tem opções várias, tamanhos, pesos, formas. E como assim ser um nada? Nada não é o que não existe? Digo essas coisas para ela, mas não vejo nenhum movimento de abalo. Diz que está pensando em Herodes e eu pergunto o que tem Herodes com isso e ela responde que, com isso, nada.
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Imagino que se ela vai pensar em Herodes posso também ir para longe posso pegar o meu trem e seguir viagem, viagem por campos floridos, ver as hortênsias que passam, velozes, deixando sua impressão lilaz em minha retina de forma que, quando olho para dentro do vagão, ainda há um quê de lilaz em tudo e em todos, nas nucas que estão à minha frente, no corredor em que, eventualmente, estico as pernas.
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Ela sorri. Acha que comecei a pensar em outra coisa porque ela própria estava pensando e me pergunto no que penso: No meu trem, esse trem que me persegue há anos e me leva a lugares distantes, a terras que jamais vi e possivelmente não verei, trem que tem duas poltronas de cada lado do vagão e que nas duas últimas da esquerda vou eu e eu e conversamos sobre o tempo, sobre as luzes e cores e sobre a influência das hortênsias.
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Amanda irá embora num determinado momento. Eu sei. Ela sabe. Nós dois sabemos e sabemos que o outro sabe. Estamos apenas vivenciando o conhecimento de forma ampla, estamos experimentando o possível, a tal Possibilidade Concluída. Quando não existir esse espaço, se ainda tiver forças e meu espírito ajudar criarei um outro que vai se chamar Possibilidades Concluídas, mas imagino que para preenche-lo devo já estar muito velho para poder dizer, sem margem de erro, que minhas possibilidades estão de fato concluídas, no que meu outro eu vai se rir e dizer que não morri ainda e a morte é uma possibilidade e se não morri não concluí todas as possibilidades.

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Amanda II - Possibilidades Concluídas

Amanda insiste em que não quer nada de especial, que foi com a minha cara, que gostou de mim, do meu interesse por alguns livros, por uma certa afinidade literária que ela não descreveu exatamente assim.
Insisti em que ela não me conhecia, eu poderia ser um maníaco, um estuprador, um assassino, sabe-se lá o que as pessoas podem ser. Falamos de uns poucos autores na livraria, não temos nenhuma intimidade, é inverossímil, disse enfim, quando não possuía mais argumentos.
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Ela parou de folhear o livro e virou-se completamente para mim. Me olhou com calma, analisou o que eu estava pensando e sentindo, deu ainda um trago antes de colocar a mão sobre o meu ombro e dizer que nada, absolutamente nada do que eu pensava tinha razão de ser. As coisas eram como eram, tínhamos nos conhecido,confiáramos um no outro e, nada mais natural, estarmos ali agora.
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Mas o livro, insisti, você tinha que conhecer esse livro, ele não é raro, vende em qualquer lugar. Seu olhar era profundo e parecia que olhava além dos meus olhos. Realmente, admitiu por fim, o livro era comum por ser uma edição recente, ela o vira de fato numa livraria, mas não comprar achando no momento, que era muito superficial.
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O que importava agora é que estava estudando pelo livro, que estava satisfazendo parte das necessidades da sua pesquisa. Que ainda precisava de uma edição específica do Charneca em Flor, mas, por outro lado me conhecera e era bom me conhecer. Por que? Não tem porque, ponderou. Tem pessoas que é bom a gente conhecer, tem pessoas que não devíamos conhecer nunca, mas isso não está mesmo em nossas mãos, concluiu.
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Fiquei parado olhando Amanda, tentando lembrar se tinha alguma música com esse nome, se eu lembrava de algum personagem com esse nome, mas na de mais me ocorreu. O que ela dizia era simples e cristalino. Duas pessoas se conhecem, trocam palavras e começam uma amizade íntima. Tudo no mesmo dia, num exíguo espaço de umas poucas horas. Não, pra mim nada disso fazia sentido.
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Ela continuou me observando atentamente, com calma. Realmente, admitiu outra vez, não faz muito sentido, não é assim que acontece usualmente, as pessoas têm medo, as pessoas se previnem, querem saber tudo do outro antes de uma conversa que seja num café. Conosco, simplesmente, eu devia entender, muito simplesmente,não tinha sido assim. O que eu queria então?
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Que ela levantasse, juntasse suas coisas e fosse embora? Assim eu me sentiria mais seguro? Tudo bem, ela poderia fazer, mas sua saída não ia alterar os fatos, o destino de nos termos conhecido. Olhei a capa do livro de Florbela Espanca que parecia estar me olhando, me cobrando a decisão sobre o que me perguntaram.
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Florbela Espanca, pensei, por que ela? Claro que, imediatamente, minha própria cabeça responde: E por que não? Claro, eu sabia que eu ia me dizer isso. Porque como eu aparentemente, sou um só, quando converso comigo tenho a possibilidade de saber as respostas, argumentações e teorias que vou responder à mim mesmo num debate de idéias. Fico eu falando comigo e avaliando o que o outro pode dizer, como eu sairei da questão que eu propuz e antes que eu me responda, já é minha conhecida essa resposta.
Poderia ser Fernando pessoa, poderia ser a própria Ana C., poderia ser Malarmé, Neruda, Bandeira, Drumond, White.... poderia ser qualquer um.
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Não era a poeta que estava em questão, era a situação, a possibilidade concluída. Amanda, adivinhando literalmente meu pensamento disse que conseguimos a raridade da possibilidade concluída, levada até o final com sucesso.
E agora, o que fazemos? Perguntei para saber como era o destino dessas Possibilidades Concluídas que ela falava. Agora?
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Agora nada. Agora eu continuo lendo esse fragmento de diário de Florbela e você continua escrevendo naquele bloco amarelo, quadriculado de azul sobre o que estava escrevendo antes. Não tem, ela me explicou, uma conotação de suspense e mistério, não é um filme de aventuras, é, simplesmente uma vida. Baixei a cabeça: simplesmente uma vida.

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Amanda I

O sebo abriu a cinco quadras daqui e acho que fui dos primeiros clientes, das primeiras pessoas a entrar, conversar, fuçar. O dono, bonachão, gosta de prosa e de falar do seu tempo de leitor compulsivo na juventude e meia idade. Conhece autores que nunca ouvi falar e me diz bem da literatura do oriente que muito pouco conheço.
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Tenho freqüentado o lugar mais ou menos duas vezes por semana e já encontrei exemplares interessantes, raros, como as Críticas de José Guilherme Merquior. Vi alguma coisa de Carpeaux também e, vejam só, de Allan Bloom. Por tudo isso e outras coisas mais como romances baratos, literatura de banheiro (que também gosto), vou indo, olhando, procurando e comprando.
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Não exatamente por causa dessa livraria, mas pela forma compulsiva de colecionar volumes, minha casa está se tornando antes um depósito de livros do que uma casa dessas comuns, como a de todo mundo. Procuro não dar muita atenção, finjo que não estou vendo, mas não dá pra ignorar o sacrifício da faxineira na limpeza dos exemplares e minha própria angustia em buscar material de referência ou pesquisa.
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Nessa livraria, nesse sebo que, curiosamente, vende também alguns cadernos e papel de impressora, conheci Amanda, mulher jovem e, se não de todo bonita, muito interessante no todo, na estampa, de olhos inquietamente perscrutadores. A franja longa demais e descuidada atrapalhava sua visão dos títulos dando-lhe o cacoete de soprar para cima, com o intuído de afastar os fios de cabelos inconvenientes.
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Perguntou-me se eu já tinha lido Ravelstein de Bellow. Sim, já tinha lido e gostado. Ela também. Disse-me procurava determinado livro de Florbela Espanca, Charneca em Flor, numa determinada edição original por todos os sebos da cidade e não encontrava, motivo de angústia porque ele era peça fundamental para a conclusão da sua tese de mestrado.
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Eu também não possuo volume que ela procura, mas tenho uma pequena antologia, dessas comuns, editada em 2002 pela Iluminuras. Estranhei muito ela não conhecer esse precioso livrinho que contém cartas, contos diário de Florbela e que está em todas as livrarias. Bom, ela não conhecia e fomos até a minha casa.
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Encantou-se com o livro. Da sua bolsa tirou um caderno médio, uma caneta e me pediu para sentar à minha escrivaninha e coletar ali mesmo uma série de informações. Concordei, dizendo ainda que poderia mesmo emprestar o livro a ela para seu conforto, mas não, ela queria ali, agora. Pergunta se eu posso fazer um café, já sem nenhuma cerimônia, e, fazendo-me companhia na cozinha, comenta que o Diário de Florbela não é simplista como são os diários em geral, mas, antes, escrito com o afinco de um romance.
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Amanda me diz que seu diário é uma zona, onde ela escreve coisas e situações, faz desenhos, risca e rabisca.
Falo do meu. Meu diário é cheio de lacunas, não merecendo, portanto, o nome de diário. Hoje escrevo, um mês não, outro dia por um mês e assim vai, numa forma confusa de entender o que aconteceu comigo em determinados períodos que aboli, como se, de fato, não tivessem existido. Ela sorri. Diz que também faz isso, mas acredita que as pessoas interessadas sempre reunirão o que está esparso e dará forma, unidade.
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Tomamos nosso café ali mesmo, na mesa da cozinha e fumamos enquanto bebíamos o café, prazer infinito que conheci com uma repórter em Ponta Porã, que fazia isso, bebericava o café e fumava ao mesmo tempo. Pois Amanda também fazia assim, dando-me liberdade para o fazer também.
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Depois fala da morte de Florbela em 1930 por excesso de barbitúricos não se sabendo até hoje se por grande dosagem acidental ou suicídio. Como sofria de forte depressão a causa mais provável é o suicídio mesmo. Enfim, Amanda sorri, não se saberá jamais. Falamos um pouco mais dessa portuguesa que casou algumas vezes e contra todos foi salazarista. Enfim, coisas curiosas que eu não sabia, nunca tinha atentado. Lembrei imediatamente de uma amiga minha que faz da sua tese Ana C., a nossa Ana Cristina César.
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Amanda voltou para a escrivaninha e pôs-se a copiar trechos do meu livrinho que me deixava cada vez mais curioso. É simplesmente impossível alguém estar estudando Florbela Espanca e não ter um livro interessante e recente, livro de Maria Lucia Dal Farra. O que fez Amanda vir a minha casa?
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Essa pergunta não me sai da cabeça enquanto, na mesa da cozinha mesmo, continuo o manuscrito sobre os autores e os novos meios de comunicação. Manuscrito mesmo, que depois terá que ser corrigido à caneta e, finalmente, digitado. Sou assim, o que posso fazer? Mas não era isso o que ocupava a minha cabeça. Por que Florbela escrevia seus diários de forma tão romanceada, prontos efetivamente para serem editados?
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Amanda não estava na minha casa por causa do livro, concluí por fim Era impossível. Estava ali por mim, pelo que eu poderia dizer. Mas o que eu teria a passar a ela sobre Florbela Espanca que quase não conheço? Não é por causa da Poeta então. Se não é isso, nem aquilo, qual o motivo afinal? Sento-me ao lado dela na escrivaninha e falo do que me vai pela cabeça, da impossibilidade dela desconhecer o livro que usa em minha casa para pesquisa. O que ela queria realmente?

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29.4.05

o sal do início

Tudo isso são maneiras nada inteligentes, muito menos agradáveis de ir dando adeus. Quero deixar muitos amigos e inimigos embora não creia nestes. Serão, no máximo, indiferentes. E penso um pouco em que tipo de adeus estou dando? Vou deletar o blog? Vou simplesmente parar de escrever? Criar outro? Ou vou morrer? Estarei ciente de uma doença fatal que me corrói as estranhas e me deixa tempo para brincar de escrever?
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Não sei responder. Sinceramente. Sei que as coisas têm um ciclo e que esse ciclo vai se completando que o que é hoje não tornará amanhã, que já tenho cabelos e barbas brancas, que o Papa morreu e que chacinas sempre hão de existir. Tudo sempre houve e sempre haverá, sou partícula mínima, das mais insignificantes que pairam por aqui, essas paragens desse país merreca, desse povo submisso, dessa vida que só o Senhor pode ajudar a suportar.
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Mas nada interfere no ciclo. Acho realmente que os ciclos se completam, tive eu mesmo já vários ciclos e percebi claramente quando se abriam, quando pela metade andavam e quando, finalmente, se fechavam. Como vejo agora. Este, para o bem ou para o mal, quem há de saber?, se fecha.
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Conheço uma pessoa que prepara mochilas e diz que vai correr mundo e, por tudo que conheço dela, sei que é exatamente isso o que vai fazer. Uma outra que disse que ia para terras distantes, muito distantes mesmo e eu, otário, não acreditei. Foi.
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O trabalho é uma coisa chata, maçante, pra gente ignorante, gente que não sabe de nada, que não tem história, que não viver, não leu, não viu nem em almanaque de farmácia de subúrbio de cidade do interior. Esse é o trabalho que me restou e serei fiel a ele como uma mulher que nunca conheceu o orgasmo e jamais conhecerá. Farei um buraco no lençol por onde adentrará o pênis do meu trabalho para que não peque em ver meu corpo.
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Continuarei tentando porque tento sempre e não me custa um pouco mais, ainda mais se é em coisas que acredito. A depressão, minha salvadora, a que, de certa forma, me explicava, se foi, não posso mais me utilizar dela para assumir essa ou aquela posição diante do planeta. Nada. Não tenho nada. Por outro lado, tenho tudo porque, se olharmos com mais vagar, quem não tem nada tem tudo e muito mais. Basta vagar e atenção no olhar

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o vil engano

Tomo café. Sempre tomo muito café e nunca apreciei o café com conhaque, tão ao gosto de uns. Não sou bom gourmet, não aprecio a boa comida nem a boa bebida, sou grosseiro, casca grossa, dessas pessoas vis e ignaras que eu mesmo tanto critico aqui. Pois sim. Claro está, não precisa nenhum laivo de atenção, para saber que sou um exemplar completo desse ignaro.
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A diferença é que sento aqui nas horas que tenho para tal (não pensem que são escritas as coisas na hora em que são postadas. Não, são escritas normalmente bem antes e postadas ao meu bel prazer ao longo do dia ou dos dias) e falo. Falo de todas as coisas, Gostaria de falar de todas as coisas não importando se são certas ou erradas, preconceituosas ou não, se politicamente aquilo se enquadra como correto. Nada disso me importa.
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Nada do que está aqui serve para alguma coisa séria, para alguma tomada de atitude à favor ou contra o escrevinhador. Não, não é intenção que se exaltem, que respondam com missivas desaforadas porque, no fundo, eu já sei o que vem nelas escritas e todas são tolamente iguais. Não é isso o que realmente importa para os poucos que perdem seu tempo lendo isso aqui.
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Eu diria que o importante nesses milhões de letras digitadas, o que deve ser levado em consideração é a multiplicidade de assuntos, as opiniões de quem escreve, as opiniões completamente erradas, retrógradas, conservadoras e babacas de quem escreve.
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Claro que muitas e muitas vezes sou um babaca escrevendo, mas a diferença é que sei que estou sendo babaca, estou sendo assim porque quero, porque acho legal falar coisas que passam na cabeça da gente, certas ou erradas, coisas que talvez outra pessoa não publicassem, alguma coisa como uma humilde e simplíssima enciclopédia de assuntos e temas abordados sem critério nem conhecimento, abordados porque a cabeça não pára e não parando, não sossegam também os dedos que deslizam sobre o teclado vagabundo e cheirando a cigarro de terceira.
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Pensam, por acaso, o quê? Não há nada. Há um dicionário ali completamente desatualizado, alguns gibis, umas tantas revistas pornográficas e meia dúzia de clássicos nunca lidos, antes folheados, de onde tiro uma ou outra frase de efeito. Esse é o ilusionismo da net. É essa falta de cultura e informação que se traveste de algo que, olhando como, um todo não se sabe definir o que é, tirando é claro, as partes ofensivas, que a isso ninguém resiste e o ódio vem mesmo.
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Então o que eu sou falando do homem na lua, do novo papa, da liberação feminina, do governo, do comunismo, das figuras de trens, navios e carruagens, de motocicletas que cortam como corcéis negros as ruas de Bolonha? Sou um nada, uma invenção, triste, podem dizer, imbecil, dirão outros tantos, mas ainda assim uma invenção, uma reunião de várias coisas inconclusas e jogadas aqui para engrossar o caldo como fazem os pobres quando misturam qualquer coisa para engrossar a triste sopa de cada dia. Assim eu gostaria de ser visto, assim eu gostaria de ser considerado, assim fica mais fácil digerir tantas coisas com as quais não se concorda.
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Por outro lado, sem retirar nada do que disse no parágrafo acima, existe uma maneira diversa de ler o que vai por aqui. Existe a possibilidade, bastante plausível, de que eu esteja dizendo uma série de coisas à sério, emitindo um monte e formando muitas opiniões, travestido de bufão porque aos bufões não se dá importância. Talvez eu esteja criando um exército de jovens mentes que acompanham as análises feitas nesse espaço e, como tudo na rede, essas teorias e opiniões estejam se multiplicando, aumentando exponencialmente.
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É uma coisa que pergunto à cada um e à mim mesmo. Estou arregimentando tudo e todos com idéias à princípio estapafúrdias, mas que podem calar fundo ou sou esse bufão inofensivo que eu mesmo quero induzir vez por outra nas linhas e entrelinhas do escrito. Heim?

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pesadelo

Os pesadelos me atormentam as poucas horas que restam de sono e acabo sem saber se o melhor é mesmo dormir com os tais pesadelos ou ficar acordado no pesadelo da insônia. Nada é bom. Aliás, antigamente eu tinha isso como uma máxima, de que nada é bom. Com a idade, com o envelhecimento e a possibilidade do fim mais próximo já não penso assim.
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O que são pesadelos é a coisa que eu mais queria saber. Claro que tem todas as explicações neurológicas, psicanalíticas e psiquiátricas, mas, infelizmente, nenhuma me convence. Imagino que seja errado a gente não se convencer de uma coisa quando não tem outra melhor para colocar no lugar.
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Mas, me digam, o que são os pesadelos? Sonhos como outros quaisquer, só que esses maus? Uma coisa assim como o sonho bom e o sonho mau, Deus e o Diabo? Parece inverossímil. Deve existir alguma explicação mais justa, mais óbvia. Não creio que sejam premonições, não, isso não. Acho que são coisas do nosso passado (mesmo que recente) ou coisas que estamos vivendo por aquela época, a do pesadelo, quero dizer. A menos que sejam parte de coisas que não conhecemos mesmo, os Mistérios. Aí a coisa complica porque eu teria que escrever sobre um monte de coisas que eu já falei bem ou mal por aqui.
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Um amigo me diz que não importa saber a origem do pesadelo, importa saber porquê os temos e o que podemos fazer. Bom, poder fazer mesmo, que eu saiba, se for possível, é acordar. Mas nem sempre acordamos. Aliás, nunca acordamos, tanto que temos tempo de vivenciá-los o bastante para guarda-los na memória. Temos pesadelos sempre, como se estivéssemos possuídos pelo Diabo. Às vezes, me parece coisa pior do que o próprio diabo.
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Talvez a teoria de que são coisas relacionadas ao nosso passado recente... isso quer de alguma forma dizer que somos responsáveis por eles, que fomos nós que, por isso ou por aquilo, propiciamos a vinda do pesadelo. Se, por exemplo, um ente é atropelado por um carro que desconheço não sou o culpado do atropelamento em si, mas sou eu que fico com os sentimentos maléficos que vão desaguar no pesadelo. É isso?
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Diz a mulher que encontro no bar que não, que não é nada disso, pesadelos existem independente de coisas passadas ou futuras, de má digestão ou de diabos por aí. Diz ela que pesadelos existem como que no ar, que vagam como ondas de rádio perdidas, como aquela coisa do inconsciente coletivo que eu falava ali embaixo. Os pesadelos, segundo ela estão vagando por aí, e entram nas pessoas, aleatoriamente. Fiquei olhando para a cara da mulher pensando em quem era mais louco: eu ou ela.
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Da mesma maneira que existem remédios para dormir e remédios para não dormir, para engordar e emagrecer, deveriam haver pílulas para que não tivéssemos pesadelos. A química, apesar do avanço hercúleo desde Paracelso, é muito, muito atrasada mesmo. Eu acho. Se nosso organismo é químico (não me contradigam), a Química assim com Q maiúsculo deveria estar mais adiantada. Só fazem remédios para coração e sistema nervoso, pô!
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Resta saber então, porque encontrei a mulher no bar. Não poderia encontrar um homem? As mulheres são menos inteligentes e sagazes do que os homens muito embora sejam mais pacientes para elaborar as artimanhas pelas quais são perseguidas há três mil anos. Não adianta a evolução, a liberação, não adianta nenhum movimento porque a mulher andará atrás, a mulher será ouvida por último e sua opinião não irá abalar em nada as grandes e medianas decisões.
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As mulheres sabem disso. E por que falo das mulheres que até aqui não tinham nada a ver com essa história? Porque elas têm menos pesadelos, elas são menos envolvidas com as questões primevas da vida, menos envolvidas com política, produção e cultura. Por outro lado, é bom não esquecer que mesmo com uma religião predominantemente masculina, as mulheres têm papel fundamental na orientação religiosa dos grupos. Na questão religiosa, apesar de todos os esforços, de todas as fogueiras, o paganismo da mulher é muito mais forte, muito mais sério e poderoso que o do homem.
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Preciso abrir um parêntesis porque recebi missiva dizendo que eu falava mal das mulheres, que era retrógrado e essas coisinhas bobas que só mulher saber escrever (dada a pequenez do seu vocabulário). Não é absolutamente verdade. Nessa semana mesmo escrevi um enorme texto sobre a mulher, sobre suas qualidades, virtudes, sua importância no mundo e na possibilidade da Humanidade. Não posso ficar elogiando o tempo todo e, muito menos, sendo patrulhado no raciocínio que estou desenvolvendo por causa de melindres e faniquitos femininos e de homossexuais.
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O que eu ia a dizer é que encontro mais mulheres do que homens, acabo falando mais com elas e, na maioria dos casos acabo minimizando um pensamento por não haver troca de idéias. Existem realmente muito mais mulheres do que homens. E mulheres carentes. Bom que se diga (novamente eu deixando as coisas claras) que falo da regra e não da exceção. Tenho boas e sinceras amigas, pessoas de inteligência e sagacidade ímpar, atributos que unidos à sensibilidade feminina fazem delas seres infinitamente superiores a mim ou a qualquer homem. Isto posto, volto à carga dessa coisa da gente estar sempre encontrando uma mulher num bar ou numa fila e tomando-a como referencial. Mulher não pode ser referencial.
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O pesadelo. Falei e não cheguei a lugar nenhum. O pesadelo. Quais as origens e quais as soluções. Diria brincando, brincando vejam bem, que pesadelos são as mulheres, brincadeira completamente em desacordo com a verdade pois que as mulheres são sempre, de todos, os mais benfazejos sonhos. O pesadelo, parece que não há escapatória vem de coisas que vivemos misturadas com o que (dessas coisas) poderá advir. Nosso passado e nossos medos futuros. Me irrita dizer isso porque Bauer já dizia (acho).
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Talvez a solução mesmo seja não dormirmos ou, pelo menos, ficarmos o maior tempo possível, propositalmente, sem dormir. Aí, o que sonhamos, sonhos bons ou pesadelos, na maioria das vezes, não são lembrados quando despertamos. Despertamos ao lado de uma mulher, porque só a mulher acolhe, só a mulher tem grandeza bastante para suportar a fraqueza masculina nos gritos e suores de um homem com maus sonhos. Mas não dormir é não estar no Paraíso. E desse ponto estritamente, a mulher também não é o Paraíso.
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Na verdade, claro que dados contornos de texto, tudo o que vai escrito aqui é o relato do pesadelo de hoje à noite, pesadelo crudelíssimo, que nem lembro exatamente o teor, mas me trouxe ao teclado para desabafar. E não precisam pensar porque eu mesmo digo: tão infeliz no sonho e mais infeliz ainda por acordar sem uma mulher. Talvez, dirão, ele diga tão mal das mulheres porque elas o desprezam (o que é absolutamente plausível). De qualquer forma, prefiro ser desprezado por uma mulher do que pelo meu gato.

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das páginas avulsas

Longa é a vida é um estrofe do Tom Jobim se não me falha a memória. Mas é longa mesmo?, pergunto-me de quando em vez. Já achei que não era, depois achei que era e novamente acho que não é (ou é?). A vida é longa, as pessoas é que não sabem fazer as coisas, não sabem tampouco viver a vida.
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E falando em viver a vida a coisa me remete para alguma mais complexa um pouco que é justamente saber o que é viver a vida. Porque, em tese, viver a vida todos vivem. Como viver, o que fazer dela, eis a dúvida, a questão que nos é posta diariamente, à cada manhã em que enfiamos os chinelos para ir escovar os dentes e demais obrigações matinais.
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Eu tenho uma maneira muito própria de viver a vida, uma maneira muito especial, dessas que a gente sabe o que poderá vir mais adiante por um lado e por outro, não se faz idéia no que acontecerá no instante seguinte. E acho a minha forma de viver legal. Mas e daí? A maioria das pessoas que conheço acham um lixo a minha vida, um lixo o meu eu como um todo.
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Posso discutir filosoficamente com essas pessoas, mas não posso provar realmente que minha forma de ver as coisas é a melhor, que estou trilhando o caminho certo, nem sequer se estou trilhando algum caminho. Muitas vezes percebo que não estou trilhando um caminho real, firme e seguro. Não. Minhas atitudes são cambiantes e aleatórias, frágeis muitas, inseguras outras tantas. Não persigo um único ideal.
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Sempre lembro de um homem que me disse que entrou num banco como estafeta e saiu como gerente geral. Ele me contava essa histórias várias vezes, tinha orgulho da história, achava quase uma fábula, um encantamento onde tudo de bom estaria ali, nesse exemplo de retidão e de perseverança. Sempre caguei pra ele e sua perseverança.
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Então, esse Estado Vida, porque é isso, chamo sempre de Estado Vida, talvez não tenha escrito aqui, mas escrevi em outros lugares porque é realmente a forma que melhor de fino o período entre nosso nascimento e morte. Esse Estado Vida talvez seja uma concessão assim como as mídia são concessões de governos, talvez a vida seja uma concessão. De quem? Deus? Não sei. Do acaso? Possivelmente, mas aí, para haver acaso, há que existir Deus que propicia o acaso. Entramos então num pantanoso terreno filosófico e teológico.
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E me pergunto sempre o que será a boa vida e o que será uma vida ruim. Não encontro respostas objetivas, acho todas vidas boas e ruins, vidas que são simplesmente vividas e ainda, vidas, a meu ver são para serem vividas mesmo com toda a sua dureza e com toda a sua bonança. Não acho que devamos apenas nos entregar, apenas servir, apenas nos contentarmos com o que possuímos. Não. Nesse aspecto creio ir contra todas as religiões porque acho essa ansiedade saudável da conquista uma coisa boa para nós e para, principalmente, a humanidade, não sendo necessariamente obrigatório que convertamos nossas conquistas apenas para o nosso bem viver.
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Esse, possivelmente, o grande dilema do homem que conquista porque conquista para si só e assim o fazendo cria um pandemônio cósmico aqui mesmo, dentro da terra, do continente, da cidade, da casa. O problema da divisão é insidioso, fugaz, perigoso como víbora porque temos que escolher muito as palavras para não cairmos em desgraça, para que não sejam pinçadas partes do pensamento total e colocadas como se assim fôssemos genericamente.
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A minha vida tem um significado muito grande para mim e algum significado para algumas pessoas, umas mais e outras, naturalmente, menos. Trago a cor e a alegria e trago a noite e a tristeza. Todos habitam em mim porque não sou um, sou muitos, sou resultado diminuto, parte ínfima de uma sopa onde cada Pessoa Elemento é parte, cada pessoa não é ela mesma, mas elo de uma corrente eterna, imemorial. Meu consciente, nem ele, é uno. Faz ele também parte desse inconsciente coletivo, de todos.
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Não sei se devo me pautar pelo inconsciente coletivo. Acho que não. Ninguém pode se pautar, trilhar o caminho de todos porque se ora digo que não sou um, sou muitos, ora afirmo peremptoriamente que sou um e jamais muitos. Acho que o inconsciente coletivo deve ser matéria tratada por especialistas laicos ou religiosos, pouco se me faz, basta que eu entenda que ele existe. Sou parte do inconsciente coletivo, mas não trabalho nem me pauto por ele e sim por mim mesmo que já sou infinito inconsciente e conscientemente.
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Porque somos universais. Somos abissais. O homem não é um homem simplesmente tal qual o vemos ordinariamente atravessando uma roupa ou secando as meias no micro-ondas. Não. Imagino mesmo que o homem seja do mesmo tamanho ou maior do que o universo e por isso ele se diz feito à imagem e semelhança de Deus. Porque não conseguimos imaginar, organizar em nossas cabeças a grandiloqüência que temos todos, do intelectual mais refinado ao trabalhador mais humilde. E como admitir essa grandeza?
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Devem existir várias maneiras, conheço apenas a nossa auto-análise, esse momento mágico em que podemos refletir criticamente no que somos, para que somos e o que fazemos. Não adianta muito perguntar, penso hoje em dia, de onde viemos e para onde vamos. Definitivamente não existem respostas claras e acho perca de tempo ficarmos em elucubrações vulgares.
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O blog, por exemplo, tantas e tais coisas poderíamos fazer dele (não de um, da mistura de todos) que se olharmos com um pouquinho mais de boa vontade, se o percebermos um pouquinho mais de perto, ele é um espaço onde fazemos a estufa, a incubadora, de pensamentos solitários que, on line, tornam-se pensamento de todos, principalmente para a discordância, para o debate e a crítica.
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Falo, obviamente, em tese, porque meu espaço é meu e, raramente, revejo posições. Mas revejo sim.
E aí, quando as coisas parecem se misturar eu retomo a consideração de que internet é vida, que elas se misturam, se entrelaçam já, agora e muito mais será no futuro. Matrix fez muito sucesso, foi muito discutido e, ficção que era, deu espaço a uma discussão em cima de ficção.
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Não há espaço para a possibilidade Matrix tal qual nos apresentaram, até porque era entretenimento, mas, ainda que ficção pura, dá para pensarmos um pouco mais na fusão Vida Vida e Vida Rede. Se estamos completamente conectados, se trocamos todas as informações, boas e perniciosas, se enriquecemos, roubamos, amamos na internet ela é vida, ela é um processo que, como dizer?
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Nascemos verdadeiramente não quando saímos do útero, mas quando, crianças ainda, começamos a interagir com o mundo e essa interação, queira-se ou não cada vez mais é e será virtual. Voltando à primeira frase, Longa é a Vida, acrescento depois de pensar alto um pouquinho, que é longa sim (porque não temos noção real de tempo) e porque além das nossas variáveis presenciais, psicológicas e dimensionais, temos uma vida em rede, que hoje é uma, mas outras já se preparam para vir. Acho que pode ser isso. Ou, talvez, não seja absolutamente, nada disso.

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incapacidade de entender o que se lê e de dormir

Quando falo dessa história recorrente falo de um demônio que trazemos em nós. Acho que em outras encarnações ou em planos ancestrais participamos ativamente de seitas satânicas (ou algo pior, se houver), em que aplicávamos algum tipo de tortura inenarrável a virgens e bebês.
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Só assim pode ser justificada a insônia renitente, aquela que te faz dormir muito pouco e ainda por cima mal e, ainda mais por cima, tomando vários remédios para dormir. Já falei aqui que tenho insônia desde pequeno, afecção que sempre esteve de braços dados comigo e que muito poucas vezes soube aproveitar. Sim, porque a insônia pode ser muito bem utilizada, pode mesmo ser ótima.
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Já falei por aqui que Josué Montello me contou mais de uma vez que os mais de cem romances que escreveu em sua vida, escreveu-os à noite já que sempre trabalhou de dia como Assessor do governo. Ele chegava, tomava banho, jantava, conversava um pouco com a sua mulher e ia para sua escrivaninha de onde só levantava como dia clareando para, banho tomado, voltar ao trabalho. Ele não tomava remédios para dormir nem se incomodava com essa coisa de não dormir.
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Porque o problema realmente não é não dormir. O problema é a ansiedade gerada por constatarmos que não estamos conseguindo dormir e/ou manter o sono. Por isso, já que sou consciente de todas essas coisas, deixarei a palavra insônia de lado e tratarei de usar as madrugadas para algo útil nem que seja me embriagar pelas já mencionadas ruas noturnas.
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Aliás, essas ruas noturnas deve, ser o cadinho destinado pelas metrópoles ao insone e não havia me apercebido disso.
Aliás, com essa história de ruas noturnas me apareceu aqui na caixa uma correspondência engraçada de uma jovem mulher dizendo não ter compreendido a história das ruas noturnas. Entendo que não tenha compreendido porque sou péssimo em explicar coisas, acho sempre que as pessoas têm que ter um sentido afiado, um raciocínio sagaz de forma a que todas as informações sejam absorvidas rápida e integralmente. Infelizmente, minha cara, não tenho mais como explicar, o que eu sabia e podia, já falei.
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O que posso fazer é deixar aqui um reflexão de Julien Gracq:
"É preciso aceitar mover-se nesse claro-escuro enganoso, saber passar sem cessar dos caminhos a seguir aos caminhos a abrir. O que não se pode fazer sem um sentido de orientação (...) que é um dos dons romanescos maiores".
Mas hoje estou dadivoso e recomendo à leitora e missivista a contemplação do quadro de René Magritte: L'Empire dês Lumières, de 1952. Dentre outras genialidades, o quadro mostra uma casa européia à noite, escura, com suas janelas iluminadas por luz elétrica ou de velas, enfim, a casa está na noite enquanto observamos, extasiados que, aqui fora, na pintura, é dia, dia desses de céu mais que azul, esplendoroso.
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Esses exemplos, se bem entendidos, se o quadro for realmente visto, ajudarão ao leitor a entender porque pode existir em pleno meio dia uma rua noturna. E aí eu preciso abrir um parêntesis para dizer umas coisas que vêm há muito tempo. Eu não sou erudito e jamais disse que era. O que eu digo sempre é que posso ter um grau de cultura e informação um pouquinho acima da média dos brasileiros, já que a do nosso povo é zero. Teve uma fase em que eu disse que o blog seria mais bem entendido se as pessoas se submetessem a alguns poucos autores, filósofos, músicos etc. o que foi recebido com achincalhe, chamando-me, na melhor das hipóteses, de pedante.
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Pois aí está. Escrevo um texto simples que foi realmente urdido pensando nos quadros de René Matritte e as resposta vem imediata, as cartas chegam rapidamente dizendo da incongruência do que escrevo. E aí sou obrigado a lembrar que não vai incongruência nenhuma daqui, o que vai, e muito, é ignorância daí.
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Um amigo (e uma amiga que escreve um excelente blog) já me disseram que eu tinha que escrever coisas mais simples, coisas que fossem absorvidas por todos para não virar uma espécie de blog do autor. Agradeço mesmo a essas opiniões, mas sou incapaz. Não sei escrever sem trazer na escrita, minhas referências. Se as pessoas não conhecem nada, o que eu faço? Qual a minha culpa da leitora em questão não conhecer os quadros de René Magritte? Era ela que deveria conhecer e não eu que não deveria neles me inspirar.
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Essa história de saber, mais ou menos, ser culto ou não, erudito ou não é de uma boçalidade ímpar porque as pessoas que falam não sabem verdadeiramente o que é uma pessoa erudita. E fica essa história de que eu sei mais, de que eu quero aparentar saber mais... para o diabo todos! Não sei se sei mais ou menos, não me interessa, me interessa o que eu sou, me interessa no que estou pensando quando escrevo, me interessa escrever em paz, como quem defeca.
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Já dei lá uma lista de autores que eu gostaria que todo muito conhecesse. O que mais poso fazer. Não sou professor de letras nem de nada, não sou professor nem sou formado em nada. Entendam, eu sequer tenho nível superior (o que não me impede de conhecer um monte de gente formada, com mestrado doutorado que são mulas, bestas ambulantes, ignaras da mais fina estirpe. Tem sim e eu falo sim. O que mais poso fazer se constato essas coisas? Quanto a mim, não quero nenhum título, não quero nada, quero escrever aqui enquanto isso me der algum sórdido prazer e depois tchau, vou embora porque eu tenho mais o que fazer.
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O que me interessa mesmo é dizer tudo o que vou pensando e mesmo assim filtro muito, só vem pra cá os rascunhos mais infantis. Olha, eu sou muito mais interessado em discutir se a mudança do lay out do cigarro Camel foi para melhor ou pior do que discutir se Tabacaria é a melhor obra poética em língua portuguesa moderna. Não quero nada erudito aqui, as idéias não são eruditas, pela última vez, são idéias e estas, cada um tem as suas.



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acho que a insônia recorrente, daquelas imunes a qualquer tratamento, mata
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28.4.05

Noturna

Vou caminhar por ruas noturnas. Isso. Não caminhar à noite por rus e sim caminhar por ruas noturnas, ruas que só existem à noite, que não são vistas durante o dia ou, se por acaso são, têm todas um ar noturno.
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Bela é a noite como belo é o sono. Não sinto muito sono, como de resto ninguém quase que eu conheça sente. Não dormimos porque somos infelizes o bastante para não ter a tranqüilidade de adormecer placidamente, como deveria ser.
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Claro que tem pessoas que dormem, mormente as que acordam muito cedo. Mas o sono dessas não vale porque acordando diariamente cedo, é lógico que se tem sono. O que eu falo é do sono natural e não da exaustão. Quem dorme logo que se deita não tem sono, tem exaustão.
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Muita gente fuma maconha ou toma vinho ou tranqüilizantes, cada uma a seu gosto, evidente, mas assim, na careta, ah, não, não dormem não. Andando pelas ruas da Lapa vejo uma multidão de pessoas que caminham de lá pra cá e dali pra acolá como um formigueiro em dia de mudança, gente pintada, maquiada de todas as cores, com os cabelos em diversos penteados/formatos.
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São tribos. Tribos pós modernas que vivem essas ruas noturnas porque noturnos também o são eles, porque noturna acredito, é a vida, como, plagiando, um mergulhador na ida. Acho lindo dizer: Como um mergulhador na ida. Como uma pessoa pode pegar uma coisa tão comum e corriqueira que aos outros passa desapercebida por banal e a transforma em verso? Me pergunto o que seria da humanidade sem os poetas.
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Não haveria humanidade sem poetas. Não existiria mais um homem vivo se os poetas estivessem realmente todos mortos ou ainda, se os seus escritos não estivessem entre nós, em nossas cabeceiras. Até acho mesmo que não existem poetas tais como existiram. Em todos os sentidos, de todas as matizes. Dizem que Deus está morto, que o Poeta, ninguém ousa. Me digam quem hoje tem a candura de Mário Quintana, para não irmos mais longe? Pois é, ninguém.
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Porque poesia é fazer o pão, poesia é escrever para a amada, é sentar-se no jardim e ver as crianças brincando. Poesia é saber que podemos nos abandonar porque o abandono não existe, teremos sempre alguém que passa e olha e sorri (mesmo nesses tempos bicudos de cidade grande e violenta).
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O que é afinal essa tal poesia que todo mundo fala e tão poucos fazem? Como é possível. Não, não é possível a menos que seja o que digo, que poesia não é tão somente escrever versos em um caderno, poesia e olhar as gaivotas, olhar a bem amada bem de frente e conseguir ainda, sem medo, dizer: Eu te amo. Acho que poesia está em varrer a casa e arrumas os objetos do amado porque ele vem e ele é tão somente poesia.
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Não se edita tanta poesia quanto prosa. Nada! Quase não se edita nada de poesia porque as pessoas precisam de histórias, precisam ficar presas ao que estão lendo, precisam desesperadamente não conseguirem largar o livro tal o suspense que ele traz em suas páginas. A poesia não. Ela está ali. Simplesmente. Podemos ler e reler, passar um mês sem ler e, um dia, do nada, voltar ali e reler mais um pouquinho.
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Falava das ruas noturnas e embora pareça, não me perdi, falava das ruas noturnas porque delas também nasce a poesia e até mesmo as tribos que, aparentemente poesia nenhuma possuem, têm lá os seus poetas e os seus leitores, têm lá seus momentos em que guardam os brincos a as cabeleiras verdes e perguntam: E agora, José?
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As ruas noturnas, acho, estão muito mais dentro de nós mesmos do que no espaço geográfico de um bairro ou de uma cidade. As ruas noturnas são os caminhos que desbravamos em nossa cabeça, ruas tão escuras e tão fracos nossos archotes que, muitas vezes, achamos que não vamos conseguir. Usamos então o tato para, junto com a visão, atravessarmos essas ruas.
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Fico imaginando qual o coração pode gritar sinceramente que não tem ruas noturnas, qual a psique forte o bastante para negar a rua noturna, qual o homem grande e forte que grita aos quatro ventos que não temeu seguir pela ruela estranha e qual a criança não sentou e chorou numa rua noturna (interna ou externa, não importa, que não é do que tratamos agora).
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Porque o noturno é escuro e temos uma simbiose avessa, um simbiose de diáspora, um querer e afastar a escuridão de nossa alma. Não sabemos lidar com o claro nem com o escuro completamente. As ruas escuras são contrapontos criados pelo Id para balancear com as ruas ensolaradas que temos, nas quais rimos e chapinhamos. Mas não se iludam. Não é só de sol que vive o homem, nem aquele que é o mais normal, o mais sadio dentre todos.
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A rua noturna está não apenas em nós, mas no inconsciente coletivo, está na sombra que deixamos num dia de sol. Veja bem que por mais arejado, mais arejado e banhando de sol que seja nossos dias, temos colado em nós, inseparáveis que não há deus que consiga afastar, temos colada em nós a sombra que é o nosso lado escura ou a rua noturna para os que perceberam um pouco mais.
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Caminho então, sem medo nem preocupação, pelas minhas ruas noturnas, sabendo que elas fazem parte de mim e do mundo tanto quanto as ruas ensolaradas, igual pra igual, Deus e o Diabo, seca e enchente, louco e são, vivo e morto. Chega.

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São Francisco

Faço mudanças em mim. Me transformo, transformo coisas, mudo coisas de lugar. Coisas se escondem de mim porque sabem que as perco e assim, se escondem levando eu a culpa. Minha lapiseira vagabunda, mas que eu adoro tinha se escondido de mim e passei dias a procura-la. Apareceu de repente num lugar onde, em hipótese alguma eu poderia ter deixado. Mas não posso reclamar porque o desarrumado sempre sou.
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Até os arquivos do computador (que segundo me dizem os entendidos) se arruma automaticamente, ordeiramente, comigo não o fazem. É uma barafunda completa o meu computador, tão confuso que vira e mexe recebo um aviso que ele vai se fechar automaticamente para se reorganizar. Vá lá.
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Os santos mudam de lugar no céu, imagino,não creio que fiquem dia e noite sentados numa cadeira como que colados com super bonder, da mesma forma que São Francisco deve ter uma hora em que tem descanso dos benditos passarinhos, até mesmo para lavar o hábito porque passarinho não é mole não. Uma vez eu levei uma que vou te contar.
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Então vou eu também aqui na terra fazendo minhas arrumações mesmo sabendo é que agora é que não encontrarei mais nada mesmo, perdido num mar de bagulhos e objetos e papéis e bolotas de sujeira com pelos e essas coisas que as casas fingem que não têm, mas têm sim senhor.
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Dei uma volta rápida hoje para fazer aquelas coisas chatas de sempre, ir ao banco pagar contas, comprar comida para o gato (estou pensando em passar a eu mesmo a comer da sua ração, o que seria extremamente prático) e outras coisas que já não lembro.
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Não digo isso aqui como se diário estivesse fazendo, digo porque quero tocar na mendiga, nesse assunto, porque por todos os lugares que andei fui olhando atentamente para ver se minha mendiga tinha mudados de ponto, mas não, ela sumiu mesmo. Só posso concluir o que já disse antes. Surtou, foi pra rua e agora a família a encontrou. Como sou egoísta, torço para que ela surte novamente. Se acontecer, não vou ter pruridos, não vou perder mais tempo.
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O que resta a um velho marujo é lançar interminavelmente bilhetes devidamente acondicionados em garrafas. Jogar enquanto for necessário porque o mar é muito grande, é maior do que a própria terra, se me entendem.

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Clarice e Plataforma & Jesus e o Evangelho

Já falei aqui da releitura da obra de Saramago. Bom, pelo menos consegui terminar todos. Tem um que eu acho que ele gosta mais, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, porque nele, Saramago pode carregar nas tintas de todos os males que ele vê em Deus e na Igreja Católica. Na verdade, é só o que ele faz, achincalhar da primeira a última página do livro, meter o pau em Deus, em Jesus, enfim, em qualquer coisa que ele veja na frente, dando vazão a seu ateísmo doentio.
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Esse livro, o Evangelho, não é bom, é fraco mesmo, um livro que ele devia ter deixado manuscrito na escrivaninha e mostrado passagens a amigos em eventos sociais. Não existe a urdidura do romance nem coerência dos personagens. A história fica sem pé nem cabeça porque ele derruba todos os preceitos da Igreja, mas não constrói uma narrativa lógica (como seria de esperar de um ateu confesso como ele), um enredo em que nos interessemos. Não. O livro se arrasta entre os diálogos confusos de Jesus com o Diabo, Jesus com a mãe e os irmãos e Jesus com os Escribas. Tem um momentinho melhor quando Deus explica a Jesus seus planos para aumentar a fé nesse mesmo Deus em toda a fase da Terra. Mas são poucas páginas, não vale o sacrifício de ler o romance.
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Muito melhor é o Ensaio Sobre a Cegueira e Todos os Nomes. Todos os nomes é perfeito, angustiante, claustrofóbico, desses que faz a gente vez a terra não cinza, mas chumbo, escura e pesada. A opressão sofrida pelo personagem de Saramago em Todos os Nomes é kafkaniano, brutal e arrebatador. A gente fica meio sem ar, sem apoio durante toda a leitura. Esse Evangelho não vale nada.
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Mas falo disso não por isso exatamente, mas porque, arrumando aqui minhas tralhas, encontrei meu exemplar de Plataforma de Michel Houllebecq, autor francês de quem já falei muito aqui nesse espaço. Ele é mais ou menos um Diogo Mainardi francês, sendo que voltado não para a crônica como o nosso Diogo e sim para o romance. Arrebatador romance. Partículas elementares (também de Michel) foi revolucionário apesar de esse, para mim, ser melhor. Vou ler e depois conto. Estou numa fase de releituras de muitas coisas.
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Hoje fiquei contente também porque encontrei um pequeno lote de cadernos de diário que haviam se perdido há muito e estavam guardados no único lugar em que eu não iria jamais procurar: na parte do armário destinada a papéis e cadernos novos. Quem achou foi minha fiel escudeira, Helena, faxineira de mais de dez anos, espécie de governanta que sabe mais das minhas coisas do que eu próprio. Mesmo não trabalhando aqui diariamente, ligo para ela sempre que é necessário achar alguma coisa ou resolver algum problema. Pensei em ir à papelaria comprar mais alguns cadernos de capa dura (influência do livro A Noite do Oráculo de Paul Auster, mas não vou me deixar ir pelas neuroses dele não.
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O programa que faço às quintas feiras agora começa tarde da noite, horário inconveniente para mim, mas fazer o quê? Não estou em situação de falar A nem B. Tenho que ir, fazer e ficar caladinho. Levo um livro comigo ou mesmo um caderno, chego lá e fico fazendo as minhas coisas, coisas que realmente me dêem prazer até a hora chegada.
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Ontem escrevi muito sobre meu gato. Ele fez das suas, eu castiguei-o, mas depois senti grande arrependimento. Gosto muito desse meu Artur, companheiro sincero para qualquer hora do dia, noite ou madrugada. Muitos gatos meus se chamam Artur. Não é falta de criatividade para arranjar um nome para os bichanos, não, são motivos outros que, num outro momento, terei prazer em explicar.
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Chove. Tem chovido muito embora eu não esteja vendo nenhuma melhora na temperatura. Minto, está um pouco mais fresco, mas ainda está calor. O calor é o que faz (um dos motivos) o Brasil andar para trás, o calor propicia o nascimento de cactos e Lulas sendo este último o mais espinhento, o mais perigoso, se posso dizer assim. Os jornais de hoje noticiaram com estardalhaço que o site do Ministério do Trabalho classifica e detalhe o trabalho das prostitutas para fins de turismo sexual. Quá quá quá.... a Propaganda desse governo é de matar de rir. Já tiraram o site ar e não colocaram nada lugar.
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Dia desses tava conversando numa roda e me perguntavam que mal esse governo me fez afinal de contas para tanta aversão. Bom, o que ele fez a mim em particular não foi nada de grave porque governos passam, mas o que ele representa para o país é um retrocesso de 50 anos, toda a plataforma de FC foi destruída sem que em seu lugar fosse colocado nada melhor nem igual. Mas quero falar de política. Os políticos que se danem.
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Quero mesmo falar do prazer que tive hoje ao abrir a coleção História del Teatro Contemporâneo, editado na Espanha em 1960 por Juan Guerrero Zamora. A coleção (4 volumes) era da minha tia. Ninguém quis os livros e eu fiquei. Uma preciosidade. Dedicarei meus próximos meses à sua leitura, deixando a vulgaridade dos ministros e governantes brasileiros de lado, sequer abrindo o jornal porque sei o que tem lá dentro.
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Estou preocupado. Continuo atravessando o pequeno jardim e indo até a caixa de correio sem encontrar a encomenda que já fiz a tempo, correspondência que já deveria estar nas minhas mãos. Fico me perguntando porque escrevi coisas que alteraram um determinado ciclo que estava estabelecido. Verdade que não fiz propositalmente, mas fiz e agora não sei o que há.
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Encontrei ainda na minha grande arrumação de hoje um volume pequeno e antigo de Água Viva, de Clarice Lispector. Era um livrinho que andava sempre comigo, já seboso, mas que eu insistia em não trocar tal a quantidade de informações que nele se encontram. Tive que fazer um hiper-link do livro para um caderno e agora, para bom entendimento meu, somente os dois funcionam. Claro que achei o pequeno livrinho e agora estou á cata do caderno porque não tenho mais idade para pensar aquelas coisas todas que pensei e vivi e chorei e me engrandeci.

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27.4.05

silêncio

Estive muito tempo fora, tempo bastante para acumular informações, conhecimentos e muitos desconhecimentos, como de resto, em tudo. Essa minha ausência foi forçada (acho que ausências são sempre forçadas) por questões de família, de trabalho, etc. Fato é que me deixaram sem dizer o que achava necessário.
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De volta, procuro lá nas funduras da mente buscar tudo o que pensei e não disse nem escrevi para deixar registro aqui e muita, muita coisa mesmo escapa como areia fina entre meus dedos. Escrever aqui requer uma urdidura própria, dessas que andam par e passo com o meio e que fazem alguém se interessar ou não. Como não há um veio comercial, não me importa a aprovação e sim o dito.
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Sigo sempre o caminho do mar quando não estou no meu trem, meu antigo e sempre saudoso trem (que vez por outra vem me salvar). O caminho do mar não é necessariamente o caminho do cargueiro fantasma, não, é o caminhar pela areia onde ondas rasteiras molham os pés como a brincar com eles, como a convidá-los a entrarem numa brincadeira inocente e saudável. Não dou atenção e sigo adiante porque um viajante é um andarilho e agora, especialmente procuro alguma coisa.
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Procuro andar para distrair a cabeça porque a verdadeira procura me ocupa o pensamento e não os pés, na verdade todas as manhãs atravesso o jardim ainsioso a ver a caixa de correspondência, esperando ali encontrar a missiva que responde ao que foi dito. A todo dito, acredito, existe uma resposta, concordante ou não. A não resposta significa indiferença ou, pior, doença de quem recebeu a carta ou o que for.
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Interessante notar como vivemos num mesmo mundo, próximos, no fundo, todos uns dos outros, mas não conseguimos, como temos medo, como fugimos de dizer tudo, sempre tudo e um pouquinho mais se já temos algo em mente para dali a um minuto. Mas é assim, nos guardamos para resguardar o outro e, de certa forma, para nos resguardar também como se de fato pudéssemos, desconsiderando a capacidade do outro em ler nossos silêncios.
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O silêncio, aliás, é uma forma de dizer tudo. Mais, é uma forma de gritas para todos os oito ventos que estamos aqui e ali, que sentimos isso e aquilo que não queremos falar e, ao mesmo tempo, estamos muito precisados. O homem é um falador e isso o faz homem e não falar é afastar a única chance que temos de conviver em parceria, em união, de estarmos aqui, todos e não ali nem acolá porque os lugares que nos guardam são provisórios e de pouca valia, nosso tempo é aqui, nos lugares frios e quentes desse mundo que insiste, como eu, em não parar.

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terapeutas

O analista sempre começa acendendo um cigarro e perguntando como vou indo. Deve ser praxe ou meu rosto não traduz bem a minha alma, já que no rosto trago sempre a marca da paz ou da angústia. Mas, se assim, é o jogo, respondo sempre que vou bem mesmo que estando por dentro do maior furacão. Mas não espero que ele perceba: digo de roldão tudo o que está me afligindo e já vou dando a ele as interpretações psicanalíticas que se pode fazer do fato.
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Ele diz, como sempre, que eu não deveria me preocupar tanto em me analisar, que para isso ali está ele, mas eu não consigo porque sei as respostas e mais, sei muito mais do que ele. Tanto é que ele acaba concordando comigo, fazendo uma ou duas intervenções, mas sabendo que eu sei os porquês, que eu sei o que aconteceu, o como e ainda o que poderá advir.
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Mas é importante estar com ele. Poderia então estar sozinho, já que as coisa se passam como relato. Não. É diferente. A presença dele é importante por mais de um motivo sendo o primeiro corroborar ou não minha análise dos fatos e sentimentos. E tem, entre outras coisas ainda, a magia da sua presença. O psicanalista de hoje é o mago de ontem, o que via mistérios, explicava os sonhos, previa o futuro baseado no que o consulente afirmava estar fazendo.
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Então é importante a presença do terapeuta. Seria como casar sem a presença de um representante de Deus ou comungar dando nós a nós mesmos a hóstia sagrada. Não há motivos para dúvidas nessa questão, O que impressiona é o que estava falando para uma pessoa diz desses, dizendo que o terapeuta não sabe mais do que nós mesmos e apenas em raríssimos casos consegue ver o que não víamos e colocar-nos numa espécie de rumo certo, se essa observação cabe por aqui.
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O que eu acho mesmo é que os terapeutas de uma formal geral, têm uma formação muito ordinária, rasa, não estudam ciências (como Filosofia, Teologia, Antropologia, Sociologia) que estão diretamente ligadas ao dia a dia do analisando. E não conhecendo o que o analisando conhece não permite a estes que falem abertamente, que misturem seus pensamentos, que embaralhem idéias, vindas de que segmento do saber vierem, não permite que o todo seja dito de uma vez, de roldão porque não estão capacitados a colocar cada pensamento no escaninho do conhecimento próprio.
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Dia desses estava conversando com duas neurologistas assustadas com o grande número de terapeutas que aparecem, com suas linhas filosóficas e suas opções de ajuda aos pacientes. As médicas não gostavam da idéia, achando que o eu do outro só pode ser invadido por quem estudou psicologia por exemplo. Ora, não é verdade absolutamente. Conheço psicólogos aos montes que não sabem nada de vida, de sentimento, de filosofia. Servem apenas para ficarem em departamentos de recursos humanos aplicando testes imbecis a candidatos a empregos.
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Sabendo disso e como isso funciona, não quero dar a minha cabeça na mão de qualquer um, deixe comigo que ela já tem problemas bastantes e sou eu bastante conhecedor de coisas e sentimentos e ciências para fazer eu mesmo minhas análises mais profundas. Disseram-me arrogante o que em absoluto quero ser, estando apenas preocupado com a minha sanidade mental, com a minha realidade. Porque fui já a algumas sessões com duas psicanalistas diferentes e, logo de cara, vi que não podia ir mais fundo, que elas não estavam sabendo do que eu falava. Só como exemplo, disse da minha passagem pela casa de campo e, para isso citei o conhecido Walden do não menos conhecido Thoreau.
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Pronto. Tanto uma como outra mudaram de assunto, trazendo à baila exemplos freudianos que poderiam ter uma implicação psicológica, etc. quando eu dizia que não, a experiência era de Thoreau, que eu a conhecia e vivi assim baseado nesse conhecimento que acrescentou muito à minha vida como acrescentou à dele próprio, Thoreau. Nas duas vezes, nas duas épocas bastante distintas saí dos consultórios irritado porque afinal de contas Thoreau é um escritor clássico, que se lê no científico ou na faculdade que seja.
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Então o problema deixa de estar em nós, que é onde deveria estar a passa para o analista que não consegue perceber do que estamos falando porque falamos de coisas, na sua grande maioria que ele não conhece. E como alguém que não sabe os porquês estou agindo e baseado em quê estou falando, como pode essa pessoa entender e analisar o que estou sentindo? Não pode, simplesmente.
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Já me disseram que é implicância, mas estou certo de que não é. O psicanalista não tem base suficiente para tratar de outro eu, não tem conhecimento, de uma maneira geral, para responder a dúvidas pertinentes, mas que precisam de um pré conhecimento da bagagem que vai em cada analisando. Só mais um exemplo: como gracejo uma vez fiz uma analogia com um sonho à mulher de impecável saia azul, má como o diabo e a psicanalista me olhou como quem vê um ET porque não tinha lido Auto-de-Fé, de Elias Canetti. Fazer o quê?
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Portanto digo um não ao desarmamento civil, um não à reeleição do Lula e um mais que rotundo não aos terapeutas de formação rasa que tentam conhecer e responder por nós coisas que só nossa bagagem permite.

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26.4.05

marionetes

Dizer eu digo tudo e de exemplos faço cheios os meus parcos escritos porque exemplificar me parece a maneira mais próxima de eu mesmo entender o que não conseguiria de outra forma e acho que menos ainda os não eus.
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Tem um mundo muito grande, muito cheio e populoso de gentes que levantam suas pedras como Sísifo e não param nem mudam de idéia, nem vão à lugar algum. São pessoas que se excluíram da possibilidade da vida, achando, erradamente, que foram excluídas. Não, mesmo com todos os nossos males e dores e tristezas, com tudo isso, ainda somos nós que nos excluímos do mundo.
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Não tenho nada contra quem se exclui, que migra para o paralelo, para as esferas superiores que não vibram como as daqui. Não me incomoda o diferente, o que precisa disso ou daquilo para dar mais um passinho, o que sente e chora porque a vida é esse cercadinho pequerrucho onde pastoreamos ou pastoreados somos. Não tenho mais nada contra os pastores. Já tive, mas agora rendo-me em paz ao pastor ou sendo eu mesmo um deles, se puder, de alguma maneira, ordenar meu rebanho.
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Quero que o mundo dê a paz, me esqueça na paz de um monge, se entregue à farra e a tudo o que lhe aprouver desde que eu seja deixado de lado, como marionete sem o animador. No fundo, acho mesmo que somos todos, em essência marionetes (mal acabadas na maioria das vezes), com nossos animadores, esses sim, viventes libertos que nos obrigam a representar aquilo que não queremos, aquilo que achamos patético. Me deixem então no armários das marionetes avariadas, umas sem os olhos de conta, outras a que faltam cabelos e toda essa coisa.
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Deixem que eu irei confabular com os outros bonecos, acordar todas as marionetes e falar da vida que levamos, falar que somos manipulados por ofício, mas que podemos deixar de ser, bastando que a vida própria, o sopro de Deus venha a nós.
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Marionetes sem homens deixam de serem apenas bonecos para constituírem um mundo à parte, estranho talvez, colorido demais ou ainda com tamanhos e formas muito diferentes entre si. Mas não são diferentes também os humanos, os do oriente e os da África, os do sul dos germânicos? Pois então sejamos nós também diferentes e se brincadeira houver que seja em prol de nós mesmos e não para a alegria dos outros. E assim para tudo na vida

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símbolos

Não vou insistir em falar e falar se não é minha profissão essa de dizer coisas a quem quer que seja com esse ou aquele intuito. Gratifico-me apenas trazendo diariamente a massa do pão, o vinho pára a refeição e o coração aberto.
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Falam muito mal do coração e fico olhando o meu no espelho da alma, tentando adivinhar o que se passa nele tão simbólico quando a lua ser cantada pelos namorados. Simbólico. Símbolo. Vivo, então, em um mundo de símbolos, não é verdade?
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O símbolo é tudo e sem ele não sei me movimentar no mundo, não sei para onde ir e nem o que fazer, sou órfão de grafismos. De letras,números e sinais que se entrelaçam para me dizer que ali tem comida, que aqui não posso parar e que baterias velhas são colocadas acolá. Não posso mais sem os símbolos, me perco até mesmo dentro da minha casa que, como já disse, fiz um útero à minha semelhança.
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Não quero continuar prisioneiro de marcas, símbolos nem regras, quero sair, ter a cabeça ao vento ou mesmo ter cabeça de vento, tanto se me dá, sendo minha a cabeça. Não querem deixar porque existe uma patrulha que não se assume, uma controladoria de coisas e viventes nesses mundo.
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Não posso fazer nada para mudar as coisas dessa vida que já encontrei assim, torta como ela, mas posso tentar viver meu pedacinho de maneira outra, inequívoca, dessas que a gente só vê em outra dimensão, dessas que não estão à vista da ignara, mas ali, transparentes para os mais atentos perceberem. Talvez eu seja dos mais atentos. Talvez não, sou. E essa vida, tal como me propuseram, resolvo não querer.
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Como não quer a vida? Me pergunta o homem colocando os óculos ainda mais na ponta do nariz como se esse gesto o ajudasse a melhor escutar ou compreender. É um tolinho, desses de plantão, desses que têm consultório e passam a vida com seus receituários azuis (como o papel que envolve a maçã) distribuindo sono e menos ansiedade pelo mundo. Olho para ele e digo que é isso mesmo que feliz é a mendiga que, definitivamente, sumiu da minha esquina, na rua onde moro.
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Explico à ele que não se trata de um não querer, desses impensados, desses que as crianças especialmente têm. Não. Minha recusa é mais importante porque mais maturada, pensada em vários aspectos, não digo que eu todos porque sei que não é verdade, todos é muito, todos é uma quantidade inenarrável e não teria eu paciência para tanto. Sim, reconheço é um não querer sem grande motivo aparente, não se trata da falta das duas pernas ou da cegueira absoluta. Não. É um não querer já, enquanto ainda as faculdades não me faltam, é uma opção, atitude e não seqüela, resto.
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Não devemos nunca viver do que é resto, do que não foi à princípio, pensado e feito para e por nós. Resto é o que não serve e contentar-se com restos já é atributo dos muito pobres, embora não fale aqui desse tipo de restos, mas de um outro, um resto moral, um resto de quem não tem mais nada na vida, de quem perdeu o cajado e caminha mais vagarosamente em busca de um espelho monolítico.
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Claro que eu quero o monólito. Quero tanto quando o Santo Graal (embora Umberto Eco afirme que este não existe), quero o monólito porque espero a redenção, preciso que haja a rendição do meu outro eu, aquele que habita espelhos, meu duplo, meu anjo ou demônio. Não importa mais, só vale à pena falar das decisões que tomo com uma parte do corpo já entrando em dimensão outra, distinta em tudo e por tudo dessa que ora somos viventes.
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Será então o meu símbolo o monólito, essa pedra grande e escura que aprendemos nos filmes, que estão no nosso imaginário, monólito que significa vida, que significa mistério, Deus. Quero o monólito para me afastar de todos os simbolismos, para ser um outro eu à partir de agora, para que possa ter paz com ou sem cachaça ou comprimidos, para que saiba que meus filhos estarão em paz quando eu não estiver por aqui.
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Deixo aos grafiteiros a missão vã de sujar as cidades com seus símbolos e letras, todos feios e desbaratados, todos sem nenhum valor (ainda que até isso hoje seja chamado de arte). Tudo o que o homem não pode controlar, como fazia antigamente criando deuses, a tudo o que não controla, chama hoje a sociedade de arte e assim também lá estão no rol os grafiteiros que é gente suja que espalha a sujeira pelas casas e monumentos, que impinge um simbolismo que não me interessa, que não quero ver, mas enfim...
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Caminho mais um pouco, a noite me é boa conselheira e sei que há por esse mundão, gente e gentes que não perderam a visão, que sentem bem sentido, como só gente grande é capaz de sentir e para eles eu conto os devaneios que me vão, as reviravoltas a que me imponho, a súplica eterna à farmacinha caseira, suplico sim porque vivemos todos num mar de súplicas disfarçadas.

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mulher

Falo do útero vez por outra. Tenho fascinação pela mulher e seu útero, a coisa mais bela, mais perfeita que vejo na Terra. A mulher é infinitamente mais completa do que o homem, não só pela possibilidade mágica de trazer à luz um novo humano, como por sua própria existência, sua capacidade de dar, seu sentimento aflorado, sua percepção tão mais aguçada que no homem.
A mulher, é antes de tudo, acho, o ponto eqüidistante que harmoniza tudo e todos, sendo capaz de prover e ser provida, dar e receber, conduzir e ser conduzida, mas antes de tudo ser a provedora de vida no planeta.
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Penso nos pés da mulher que caminham sobre a terra, que vão em busca do alimento para a prole, das saias que trazem em suas dobras o grão, que dão parte de si mesmas, seu leite para que possamos crescer e continuar a multiplicação. A mulher chora mais do que o homem, não porque seja mais fraca, ao contrário, mas porque se permite mostrar sua emoção como um exemplo a ser seguido porque sem emoção não vivemos todos.
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A mulher é a executiva que endurece na mesa da diretoria e sagazmente impõe sua vontade não pela submissão, mas, antes, por sua capacidade, seu conhecimento. É ela que dirige com mais prudência, que atravessa a rua feliz por levar a sacola de verduras para o seu homem e seus filhos.
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Nas adversidades, e são tantas, a mulher está ali, firme como um rochedo, pronta para fazer, dar qualquer coisa que alivie o outro. O homem corre para o trabalho e os bares e a mulher fica, olheiras profundas, mas ali, sempre, inabalável.
A mulher, por dom divino, nos ensina as primeiras letras, as primeiras palavras e, passeando nos bosques, nos mostra a natureza, diz os nomes das plantas, fala da importância do verde.
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Ela é originalmente perfeita e, se as vemos muitas por aqui e acolá, que não valem o que comem, são exceções, são anormalidades da raça. A mulher, antes de tudo é uma, é dois, é mulher e homem, é forte e fraca, é terra e argila, é movimento e gozo.
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Quem são as mulheres da nossa vida? A nossa mãe antes tudo, imagino, mas são muitas mais: são nossas irmãs, nossas amigas, nossa mulher mesmo, aquela que desposamos para nos ajudar a atravessar o lago que leva a Avalon. As mulheres da nossa vida, são as que conhecem, percebem melhor o espírito e com ele se refazem, têm a força do amor bandido, do amor plácido, do bem querer simplesmente por ser mulher.
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Quem tem uma filha mulher, deveria já saber, tem um privilégio, é honrado em saber que é pai de uma deusa, de uma criadora de seres, de pessoas, que é aglutinadora, mastro central, ponto de convergência. O pai encaminha a filha na primeira infância, mas, reparemos, esse pai não existe por si, ele é filho da menina que corre. Ele é adulto, como todos somos, fomos ou seremos, mas ainda assim, um pai é sempre o fruto de uma mulher.
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Mulheres têm seios, coxas, costas, boca, sexo.... São por excelência completas física e emocionalmente. São elas que colocam nossas cabeças em seus colos e nos ensinam a chorar. O homem é um fraco que não sabe nem mesmo fazer a coisa mais simples, primeva: chorar.

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Pastor de mim

Atravesso o grande pátio que é o Largo da Carioca hoje bem cedo pela manhã. Ia com o coração aos pulos, como criança na expectativa de algo muito bom porque as crianças sempre têm essa expectativa de algo muito, muito bom. O que tira esse sentimento dos pequenos é a própria vida em que estão apenas se iniciando.
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Pensando assim, a gente poderia dizer que a vida não é lá grandes coisas, que engana logo as crianças, os puros, os que não trazem nenhum mal a esse mundo. Até as religiões, todas, encasteladas em suas verdades inarredáveis, reconhecem na criança o símbolo de tudo aquilo que desejamos ter.
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Mas ia eu, pela manhã bem cedo em direção ao mosteiro, tinha audiência com um frade que me pediu sigilo do nome. Cheguei à hora marcada e conversamos dessas boas conversas, conversas que só os homens têm com os frades, que transcendem a questão dos pecados porque essas não têm solução, pecadores somos todos se observarmos os dogmas cristãos. Há que ter um meio termo e essa medida tem que ser por nós avaliada e não pelas igrejas.
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Conversamos no jardim, como sempre fazemos, conversamos sobre os caminhos do mundo primeiro, como que para aliviar a preparar terreno para o que viria à seguir, falamos da fome e da desigualdade, do amor e do casamento, do trabalho e das novas tecnologias. Frade K. (vou chama-lo assim) não conhece a prática das novas tecnologias mas sabe que existem e imagina o estrago que produzem. Como ele é bibliotecário não se conforma com as coisas que eu conto que os homens do lado de cá fazem usando a internet e desprezando quase sempre os livros.
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Depois da caminhada agradável, paramos ao pé de um abacateiro e um noviço nos serviu saborosa limonada. Ele, por trás de seus óculos de armação antiquada, me perguntou quando eu iria. Fiquei olhando e ele insistiu: quando você vem para cá? Respondi perguntando se poderia e ele, surpreendentemente respondeu que sim, que poderia. Precisa ser explicado aqui o número de vezes que freqüentei o lugar e que, sempre ao falar da possibilidade de ir, era gentilmente barrado.
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Você, ele me disse, já está aqui. Veio um longo período de silêncio. Já estou?, indaguei. Sim, ele olhava para a terra e remexia um punhado de folhas secas. Sim, você já está, está em coração, em espírito. Indaguei então se deveria ir de corpo inteiro também, ir de uma vez e deixar todo o resto para trás. Frade K. olhou-me com carinho e negou, disse que não, que não deveria ir fisicamente ainda, que ainda existia um plano de Deus a ser cumprido por mim e esse desejo maior necessitava que eu estivesse longe do claustro e da tonsura.
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Entendi o que ele quis me dizer, homem de poucas e sábias palavras, com quem converso sempre, meu confessor maior, que me entende mais que o psicanalista porque não se arroga, ele, a saber e sim a pensar junto comigo sob uma visão maior, transcendental. Mas a verdade é que a criança em mim se frustrou, esperava o convite já pronto, esperava (mesmo sabendo impossível) que ele me acolhesse e mostrasse qual o meu catre. Não seria possível de maneira nenhuma e eu sempre soube disso.
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Então falamos mais e mais e aprofundamos todas as questões do Mistério, esse ainda tão mal resolvido para mim e que ele recebe com um sorriso nos lábios. Falamos do que eu tenho que fazer, onde, como. Da minha necessidade dessa concepção de liberdade que de liberdade mesmo não tem nada. Não importa muito o caminho, ele disse, importa a trilha interna, como encarar essa vida e o mundo. Contei para ele a concepção do pintor de paredes que escrevi no post abaixo bem como do e.mail que recebi.
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Aproveitou o exemplo e concluiu: sim, um pintor de liso, desses cujo ofício é menor remunerado, desses que não têm status e entram sempre pela porta dos fundos e que as pessoas cochicham para que os pintores não saibam do se fala a classe culta e endinheirada. Disse eu, ainda, que não me saía bem como pintor porque, de uma forma ou de outra, entrava de casa em casa e lá deixava minha grande e frágil marca. Ele me respondeu que frágeis são todas as grandes marcas porque entendemos errado a grandeza das marcas, como se a pirâmide fosse a maior obra do universo. Não, ele insistiu, a obra, muitas vezes, é validada em sua grandeza exatamente porque o outro não a compreende.
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Tenho que seguir, então? E ele: Sim, seguir sempre, mesmo com os males que te vão pela cabeça e pelo coração, mesmo não sendo prontamente compreendido e muito menos atendido. Seguir porque a vida é um seguir constante, sem um momento de descanso, porque existem livros demais para serem ainda lidos, existem homens demais ainda para serem trazidos, mulheres muitas para aprenderem a compreender sem dor. E toda a nossa conversa voltou-se para as mulheres.
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Sim, ele me disse, elas são femininas, são criaturas de Deus, são os vasos, os úteros, são as mães de toda a espécie humana e estão se perdendo em sua desesperada tentativa de liberdade. Claro que devem ser libertas, pois para isso se passam os anos e para a evolução caminha a liberdade. Mas o que estão fazendo na verdade? O que estão conquistando verdadeiramente com essa tão sonhada conquista da liberdade?
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Bom, esse é um assunto que já falei muito aqui e parece machismo, parece que desejo o retorno da mulher submissa, o que não é absolutamente verdade. Disse apenas da conversa com um frade já avançado em anos, de uma Igreja em essência masculina. E nossa conversa descambou para outras questões teológicas, sobre a masculinidade de um Deus quando a Terra e feminina e feminino tudo o que nela habita. Ele não tem as respostas que procuro porque vive exclusivamente da sua fé e da teologia pura. Existem muitos outros aspectos em jogo e sei que minhas conclusões e descobertas serão solitárias, tal como um pastor.

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25.4.05

Pintor

Dormir e acordar a noite inteira. Uma espécie de maldição que me acompanha desde a mais tenra infância. A dor de ficar no escuro, o medo inconsciente do útero, o medo de sair do útero porque o não útero é sim um útero maior, mas tão delimitado quanto o original, uma visão beta do útero primeiro. A vida não passa de um útero. O que os livros nem minha experiência me dizem é se depois deste segundo útero disfarçado em vida virá mais um ou se não, se esta é estação final.
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Dormir é uma solução intermediária entre a vigília e a boa morte. Quando se dorme livre de pesadelos se está num ambiente não agressivo, num descanso, numa possibilidade de entorpecimento desse bons, esses que a gente experimenta com anestesia geral. Dia desses vi no programa do Jô um camarada falando que era viciado em anestesia geral. Todo mundo riu, não sei porquê. A anestesia geral é a forma de descanso mais perfeita, completa.
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Porque se não o caminho é a morte e dessa não temos notícias. Sou conservador demais para ir pra lugares que eu não conheça. Por isso quase não viajo. Também não viajo também pela fobia de sair de casa, de me afastar desse útero que criei aqui. Esse é o útero perfeito, não amniótico, mas à minha imagem e semelhança. Dirão que é doideira e pode ser mesmo, pouco se me dá. Que cada um que pense que isso é doideira faça uma análise das suas ações, da sua vida e verão que doidos são todos, cada um descambando para uma coisa mais ao seu gosto.
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Quando concluo um caderno de anotações fico triste e feliz ao mesmo tempo. Feliz por saber que ali está um pedaço desse espaço vida que vivi e triste porque sei que vou queima-lo para não correr o risco que Kafka correu. Quando queimo meus cadernos não estou exatamente negando as minhas coisas, ao contrário, estou afirmando-as, insistindo em que são unicamente minhas, de mais ninguém. Por isso entendo a pessoa que deleta, seguidamente, seus blogs.
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Se eu morresse hoje teria pouco de mim manuscrito enquanto que o blog ficaria boiando por aí, por esse espaço estranho que não sei se é ciber ou não, que não conhecemos, não dominamos completamente. Ficam os zeros e uns rondando pela rede como fantasmas desencarnados que não encontram o caminho para subirem de uma vez (ou descerem), que ficam presos perto dos corpos putrefatos.
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Deixarei com uma pessoa todos os códigos e senhas de acesso para que, mal eu expire pela última vez, apague qualquer rastro meu na internet. Ficarei por uns dias lembrado como uma conjugação de letrinhas, coisinhas à toa, falas bobas, frases de efeito, nenhum compromisso, nenhuma realidade. Sou mesmo um composto de não realidade, um grande irmão que escreve, diz, vai pra frente e para trás, que pensa coisas hoje e as condena amanhã, que reescreve a vida sua e sua totalidade também.
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O que mais sou?, procuro me analisar. Acho que nada, sou um olhar cativante que não passa disso, um sorriso sincero (que não passa disso), um pensamento complexo, mas desconexo, um protótipo do que poderia ser e não fui. Não tenho que reclamar de nada não. Reclamar o quê? A diferença é que me conscientizo de todas essas coisas e muitas pessoas não, muitas pessoas saem rindo pela rua como se tudo estivesse muito bem obrigado.
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Sou um pintor de paredes, eu acho que vou batendo de porta em porta e pedindo para que deixem eu pintar as suas casas, essa de verde, aquela de amarelo e aquela outra de azul. E procuro pintar direitinho para que donos e donas fiquem contentes e felizes de saberem que existe sim um pintor de paredes que vez em quando aparece, sabe-se lá o porquê. E fico um pouco triste, reconheço, em ser tão pouco para essas pessoas, deveria ser mais, bem sei.
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Eu deveria ser o pintor de paredes e o decorador e, se fosse do gosto da moça, devia então habitar a tal casa, dando-lhe contornos de lar, dando-lhe vida e companhia para a dor e a alegria, para o choro e para o riso. Mas o que faço se não tenho competência, se sou apenas um pintor de paredes, desses que pintam liso, sem talento a mais a acrescentar? Vou em algumas casas e as pessoas não gostam no final do meu trabalho, acham que eu podia e deveria ter feito mais, não olhando, essas mesmas pessoas para mim, para meu corpo desajeitado e minhas vestes pobremente apropriadas.
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Mas, penso, não deixam de estar certas não. E quem disse que desejam ver suas casas simplesmente caiadas? Quem garante que não prefiram ficarem lá como estão sem que um intrometido vá se oferecendo, mostrando palhetas de cores bonitas e dizendo que pintadas, as casas ficam mais bonitas? Me olho, com essa roupa respingada de tinta, e vejo que não estou fazendo bem nenhum, muito ao contrário, vai ver.
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Se eu fosse dono de uma casa e habitasse nela sozinho ou com um anjo, ficaria feliz de ver alguém que chega e dá cor e mostra que existe cor, logo a mim que já acostumara ao ocre da vida para, feito o serviço ir embora assim como chegou? Certamente eu não gostaria.
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E como explicar que não estou fazendo por birra ou brincadeira, que minha função nessa vida é justamente essa, a de caiar as casas para que depois os moços bonitos cheguem e sintam-se melhor nas casas coloridas, para que eles vejam que suas donas conhecem bem a cor (e a dor), que souberam se preparar, que não ficaram à janela simplesmente? Não sei, tem que ver com calma, mas talvez essa história de caiar casas simples não seja mesmo uma boa idéia e talvez eu esteja mais semeando tempestade do que brisa.

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24.4.05

entreatos

Falava ontem de pré-despedida e acho que não é bem isso não. Acho que é despedida mesmo. Não despedida total, não vou deletar o blog porque sempre pode ter algum informe pra dar ou alguma coisa que eu ache que deve estar por aqui e não por ali.
O que aconteceu nos últimos dias é que entrei meio de cabeça num processo de falar coisas aqui que eram para li e gerou uma confusão dos diabos em mim, em leitores e numa outra pessoa. Sim, porque sempre tem uma outra pessoa. E o que é exatamente, uma outra pessoa? Como explicar?
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Tem duas ou três pessoas que lêem essas coisas e não ligam à mínima, até porque a maioria, como deveria mesmo ser, não entende patavinas do que eu quero dizer. Aí entra a outra pessoa. A outra pessoa é sempre aquela dotada intelectualmente e sentimentalmente da capacidade de ver o que não está escrito, de perceber o que não está didaticamente lido.
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Sempre tem uma outra pessoa. Assim, como para cada ser humano, existe um duplo seu, idêntico, em algum lugar do mundo, para cada blog existe essa entidade que chamamos de uma outra pessoa. Ela recebe, torce, se emociona, participa, discorda (racionalmente) e tudo o mais que rola aqui.
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Mas, ao parar de dizer coisas importantes, acho que estaria prejudicando essa outra pessoa. Ora, para isso existem as cartas, os Correios e mesmo, pfui!, o e.mail. Não é uma questão de modernidade, de globalização como se fala tolamente por aí não. A correspondência existe desde que o homem é homem (se é que o homem já é homem).
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Estou relendo toda a obra de Saramago. Ela tem coisas muito legais e coisas ruins também. Tem gente que gosta de tudo e gente que não gosta de nada. Eu gosto de algumas coisas, da maioria das coisas. Não gosto, por exemplo, do memorial do Convento nem do Evangelho Segundo Jesus Cristo e nem de todos os cadernos de Lazarone. O mais eu gosto. Não sei se era caso pra Nobel, acho que não, mas vá lá, Portugal tinha mesmo que ter uma vezinha.
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Dei uma caminhada muito agradável pelas ruelas aqui no entorno. Domingo é um dia complicado para mim e para muita gente. Domingo é o dia do Suicídio, mas não é por isso que ele me é complicado porque não sou suicida e sim porque é um não dia. Um dia com todas as características de dia, mas as pessoas estão diferentes, perdidas, sem saberem exatamente o que fazem, ficam no bar tomando cerveja por obrigação (acho que desejando dormir logo para chegar segunda feira.) E isso se aplica a todos: trabalhadores viris, aposentados, encostados e inválidos. O domingo devia ser simplesmente extinto, o descanso deveria ser num outro dia qualquer, deveria haver um rodízio talvez e as lojas não deveriam fechar.
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Falei com o jornaleiro da minha rua que reclamou que as vendas de revistas semanais caiu muito. Ora, é claro, respondi. Como comprar se as revistas aumentam de preço e os salários diminuem. Acho que uma greve geral, daquelas, pra valer seria boa numa época como essas. Bem verdade que sou contra greves, anarquistas, arruaças e badernas sociais, etc. Mas do jeito que estamos indo, não chegaremos a mais um ano de sobrevida. Bom, eu não chegarei. E não vou afundar sozinho, ah, isso eu não vou não!
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Escrevi um pouco hoje sobre o conceito de amizade, sobre os amigos que tenho e os que não tenho. Essa história de amizade é muito complicada. O amigo é um mal, um grande MAL necessário. Porque tem um monte de gente borboleteando á nossa volta com um cartaz pespegado com os dizeres amigo que de amigo mesmo não tem nada, muito pelo contrário. Olho os amigos com os dois pés atrás (e caio de cara)
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Meu filho mais novo hoje faz 14 anos. Com 15 eu já trabalhava, com 17 estava casado e assim foi. Criança hoje é só até os três anos, na minha opinião. Criança é uma coisa chatíssima. Portanto, quanto antes eles se emanciparem,melhor para eles e para nós. Com 19 anos eu casei no civil e me desquitei com 21. Hoje, aos 50 sou um solteirão convicto.
(continua)

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23.4.05

O Mundo é o Destino

Enquanto o mundo rebola nas danceterias da moda (Lapa e adjacências) aqui estou eu ouvindo jazz. Dizem que é doença, que o normal era eu estar lá, me sacudindo também, me empapando de suor, passando a mão em bundas fartas em celulites e estrias.
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Pode ser, como vou saber se não estou lá? Mas tem umas coisas que a gente tem contar. Não se iludam, já estive lá também. Já fiz quando achava que era a hora e que era importante. Aliás, tudo isso de hoje é bobagem porque bom mesmo eram as festinhas (regadas a cocaína e cerveja) de arromba que o PT promovia em Santa Teresa. Eu não perdia uma. Foi uma época interessante, boa lembrar, boa pra eu saber que não quero mais.
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Não adianta me olhar agora com esse olhar crítico, com esse pseudo-menosprezo que nem de longe me atinge como se eu fosse um cargueiro podre (fantasma). Não foi o que disse. Disse que sou um velho cargueiro e nada como as pessoas bradarem aos quatro ventos sua velhice, suas idades e poderem dizer: Eu estou aqui, inteiro!
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Falo tudo isso por causa de cartinhas que recebo, olhadinhas on line que não dizem nem me acrescentam nada. Por isso disse que sou pedante porque não aprendo, se não ensino, nada por aqui. É uma gente tolinha achando que está barbarizando quando não sabe o que é realmente barbarizar.
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Barbarizar, meus caros amigos é passar quatro noites e quatro dias sem dormir, é tomar todas, fazer com tudo e sair com todas. Barbarizar é fazer sem ter que contar, é mostrar pra si mesmo que somos o que somos. Barbarizar, enfim, acho eu, é viver esse momento lindo de poder atracar, de frente, olhos nos olhos, sem medo, em paz com a vida. Claro que estou plagiando Emoções, porque Marina grita no meu ouvido e nada me faz mais feliz do que ouvir Marina cantar Emoções!
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Não, não vou mais à luta. A luta é que vem até mim, é que me procura, me telefona, manda e.mail, faz o diabo. Não que eu faça charme. Os pouquíssimos que me conhecem sabem que não faço charme. Já fiz, não mais. Pra quê? O que me falta nessa vida, vai, fala aí? O que eu queria que ainda não experimentei? Nada! Nadinha.
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E por isso a vida acabou? Absolutamente! A vida ta aí, aberta, na minha frente, me chamando, me dizendo que eu tenho que fazer o projeto tal e tal (e estou fazendo), que tenho que trabalhar ali porque tenho contrato, que tenho que sair com gente legal pra botar os assuntos em dia, porque tenho gente que se amarra em mim com a mesma intensidade que me amarro neles, não porque eu seja melhor (qual!). Sou igual, igualzinho.
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Meus dedos voam por esse teclado sem pensar no que dizer porque esse é o problema dos teclados, eles não deixam a gente pensar, parece que a gente acabou de cheirar três carreiras e tem que escrever, escrever e escrever como numa disputa, quem agüenta mais: eu ou ele. Ele agüenta mais, é claro.
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E releio e fico pensando: por que estou perdendo tempo em escrever esse post? A quem ele interessa? A mim não interessa, com certeza e, muito possivelmente, não interessa a ninguém, mas não tem problema porque as pessoas sempre tem a possibilidade de irem naquele X vermelho lá em cima à direita, fecharem essa porcaria e não voltarem nunca mais (no que estarão me fazendo um grande favor) como eu também posso deletar não somente esse, mas todos os posts, o blog inteiro. De que serve uma porra de um blog?
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Conheço gente muito melhor do que eu, que escreve muito melhor, que tem muito mais coisas verdadeiras a dizer e essas pessoas vão lá na opção deletar blog e clicam calmamente. Sem medo de serem felizes. Sabe por que? Porque elas têm tudo de bom dentro delas, não precisam ficar brincando de autoras nesse meiozinho de merda, que se quiseram publicam livros, fazem o diabo, mas também não querem. Escrever pra quê? Pra quem, cara?
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A verdade é que tudo isso é chato, é ultrapassado (quer coisa mais ultrapassada do que um blog, cara?), não leva ninguém alugar nenhum, é um meio de fofocas, de olhar ali no escurinho o que o outro disse mesmo sabendo que o outro inventa tudo, que o outro é um alucinado, mas pode ter alguma coisa nas entrelinhas...pra porra! É não é contradição não. Quem acompanha o que rola por aqui desde o início percebe a curva descendente, a curva que rola, curva dessa vida tão pouco pequena.
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Isso é tão temporário quanto a vida.; Isso é o canto do cisne, é o grito último (ou primeiro?), é momento, é expressão pura de quem fala para si mesmo e não para quem lê porque quem lê só vê o que quer ver, não sabe o que acontece de verdade, quais são as verdadeiras idéias, o que se passa, de verdade, lá dentro.
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Não, não é uma despedida. Diria, francamente, que é uma pré-despedida. É o início do fim, não do fim do blog, porque o blog é muito pouco, blog é nada, é fumaça de letrinhas, zeros e uns, coisas que já tão pra lá de maturadas e que ficam aí on line sem utilidade nenhuma. Disse que troquei a motocicleta pelas caminhadas, o que não impede que troque as caminhadas pela motocicleta. Pra mim, bicho, o mundo é o destino.

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É o resto

Recebo a correspondência da amiga que inspirada pelo homem que foi o seu, encheu-se de liberdade e foi por esse mundo mulher, simplesmente mulher. Vamos nos encontrar pra semana porque quer me contar tudo, com os mínimos detalhes, confidentes que somos. Mas isso não é tudo.
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Tem uma coisa aí que não se pode deixar passar impune, como se não tivesse sido dito, como se contasse menos ou qualquer coisa. Eu escrevi: inspirada pelo homem que foi o seu. Essa verdade absoluta e inabalável é o que mais conta, mais do que todas as viagens, mais do que todas as alegrias, todas tão transitórias. O bacana é você poder viver a vida, de todas as maneiras, da maneira que melhor te for melhor fazendo as coisas que podem parecer estranhas aos olhos de outros ou não, mas firmes e certos que a parte efêmera da vida poderá sempre ser superada quando inspirada por alguém que foi seu.
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Tem a estrofe: um homem pra chamar de seu (constato que perdi o disco, a capa está vazia) que sempre disse muito, sempre me disse muito, mas não é a mesma coisa porque nas músicas depositamos todos os nossos sonhos, vividos ou não. Mas a música e a poesia são os ensaios da vida acho eu. Talvez sejam mais, sejam a conclusão da vida.
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Paro este projeto de post por aqui mesmo, no meio, porque a arrumação dos meus CDs é mais urgente. Além do mais estou me repetindo, malhando em ferro frio. Tive, através de um e.mail, a prova de que minha teoria está certa. O resto? É o resto.

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Brasis

Mas nem tudo em mim são flores. Não e não. Saio daqui (outra vez) andando pelas ruas (troquei a motocicleta por caminhadas) e vou descendo até a grande avenida próxima ao mar. Não às franjas do mar porque isso é uma licença poética bem vagabundinha de escritos do norte e nordeste que tanto cantavam o mar, como o sul como o Ita.
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Tudo porcaria, velharia, coisa que não vale duas páginas sem bocejar ou mesmo dormir roncando escancaradamente, um sono ruim, um sono de misérias e tragédias, dessa infelicidade crônica que ronda o norte do país. Lá tudo é ruim, nada presta
E, de repente, virou moda a gente aqui ficar lendo aquela coisa chata, cheia de poeira e falta d'água que usam quase como para os redimir da indolência, da incapacidade para obras de irrigação, da incapacidade mesmo para pensar.
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Ficamos aqui com Vidas Secas (ora!) e Casa Grande&Senzala, narrativas simples, daquelas que se buscou inspiração chegando à janela e olhando o pátio com negrinhos tolinhos. E isso é matéria oficial, fazem teses e mais teses. Por favor. Tudo bem que já existiu um tempo em que valia à pena, mas agora?
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O que temos que pensar é coisa mais urgente, mais preocupante como as gangues de rua, as gangues de motociclistas, os estupradores de crianças de três anos e com toda a patifaria que o norte manda para cá. Não temos mais como empregar porteiros, faxineiros, garçons e sei eu lá mais o quê.
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Não é uma falência do sul maravilha, é um excesso de imigrantes que chegam aos borbotões como se isso aqui fosse uma enorme fábrica sempre ávida por novos operários. Não é. O Brasil é grande demais, esse é o problema. Poderiam muito bem ter dois ou três Brasis, duas (ou três) terras distintas co-irmãs, vá lá, mas distintas em hábitos e reticentes a esse ir e vir.
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Dizem que os do norte são mais inteligentes do que os do sul Nunca averigüei com muita atenção, mas acredito que seja muito possível. Pois então! Que o seja, que produzam lá suas feiras com carne seca coberta de moscas, suas obras de arte, sua literatura, sua música tão local. Que fiquemos nós aqui com nossa pequenez americanizada, nosso mundinho favelizado (que não seria tanto), nossos males que já são muitos.
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Falaram ao ver esse texto que era preconceituoso, quase racista, neo-nazista. Estupidez absoluta de quem lê e resolve interpretar mudando o sentido das coisas a seu bel prazer para polemizar, para fingir que é politicamente correto. Não caio nessa. Sou à favor da divisão em tudo. Até aqui no Rio, acho que a Guanabara deve ser absolutamente separada do Estado do Rio como era antes.
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O SUS e outros penduricalhos assim são fracassos retumbantes (porque uniram-se vários sistemas de saúde num so), não percebe quem fecha os olhos. As coisas (órgãos federais, estados, organizações, etc.) devem ser o mais separados possível, deve haver limite para tudo porque o estado gigante não dá conta de sobreviver e ficam essas correntes de gente, pobre gente, correndo daqui pra lá e de lá para aqui, iludidas que terão uma vida melhor.
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Não há vida melhor no Brasil. Tom Jobim se esgüelou de gritar: o portão de vida boa é o aeroporto do Galeão (hoje Tom Jobim). Vida boa só fora da América do Sul, é fato, basta ver qualquer noticiário, basta pegar um avião e ir lá constatar. O que se faz aqui é enganar ao povo ignorante, iletrado, crente, inocente.

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os dias, simples assim

Existem momentos. Acho que a vida é toda composta de bilhões de momentos, uns costurados aos outros e outros não. Por que? Não me façam perguntas difíceis. Olho o rosto que precisa ser barbeado urgentemente e vejo atrás da minha figura refletida uma outra, um alguém à minha direita que me observa como se estivesse ali (ou aqui) pela primeira vez.
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Não há de ser o Espírito Santo. Não sendo restam milhares de possibilidade e cada uma é mais imponderável do que as outras, o que não chega propriamente a me desesperar, mas faz algumas coisas se rearrumarem dentro de mim. Ou melhor, uma tentava de arrumação porque, se não consigo arrumar minhas gavetas (físicas) não poderei jamais arrumar os escaninhos do meu espírito.
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Tem alguém que vive junto a mim, disso já tenho certeza. Pode ser o que chamam de anjo da guarda, pode ser um espírito mau e errante ou pode ser uma psicose qualquer dessas próximas da esquizofrenia. Essa hipótese é menos provável porque meu terapeuta já me explicou e verifiquei nos alfarrábios que a esquizofrenia não se manifesta nessa idade, nessa altura da vida. Talvez, de uma forma de alguma maneira saudável eu tenha criado mesmo alguém para estar comigo, como no filme O Náufrago, Tom Hanks fez com uma bola de futebol, lembram? Pois é, tudo pode ser.
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Não estou falando sozinho ainda. Mas falo pelos cotovelos, escrevo no blog, num outro arquivo fechado e nos meus cadernos que são depositários das minhas mais recônditas observações de mim e do mundo. E se falasse sozinho também não me importaria muito sabendo que, sozinho, só eu mesmo ouviria. Porque tem uma coisa legal nessa história de uma possível loucura. Você vai se preocupando, se assustando mesmo até um determinado ponto, depois esquece tudo, joga tudo para o alto, não tem mais medo.
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Não sou louco. Frase que 10 em cada 10 loucos proclamam. Não, realmente não sou louco. Tenho essa loucurazinha normal que todo mundo tem (de perto, segundo o Caetano e de longe também). Um certo grau de loucura é muito bem aceito socialmente, é até necessário para compor esse quadro que chamamos sociedade. Dizem que você é caladão ou extrovertido, que é excêntrico ou uma bobagem dessas qualquer.
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Não tem pé nem cabeça tudo o que vai nesse post, mas ele é uma carta e, carta sendo, basta que o destinatário leia.
Digo essas coisas porque me perdi do assunto que era esse ser que habita junto comigo nessa casa onde coleciono histórias e fatos através dos livros. Não é sinônimo de erudição ou, como pensam os imbecis, de fingir erudição. Não. É o gosto por colecionar, por poder revisitar como tem gente que faz com selos, gibis, outros com insetos e outros ainda com figurinhas de álbuns que nunca se completam. Minhas estantes nunca se completam e, como já vou avançado em idade, isso me preocupa, penso que o tempo para a frente, o futuro, está diminuindo e ainda há tanto o que ler!
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Essa noite sonhei que estava tentando ou tinha parado, definitivamente de fumar, mas é sonho, talvez para adiar a morte. Sonho. Fumo e muito, como todos os ansiosos desse mundo fumam. Não existe a figura literária de um interno psiquiátrico que não acenda um cigarro no outro. (Parece que Giordano Bruno também se, mais uma vez, não me falha a memória). A biografia romanceada por Morris West de Giordano Bruno foi o último livro que minha tia insistiu para que eu lesse. Ela adorava Morris West (e esse foi seu último livro, assim como a última indicação dela), eu menos, mas li.
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Da mesma maneira como o apego dela por Jesus e Nossa Senhora, vieram um pouco para mim, apesar de todas as minhas dúvidas, todas as revoluções e involuções filosóficas, de toda essa barafunda que faço na cabeça. Mas são coisas dela que vieram para mim, não sei exatamente como, devem ser os tais tijolinhos que são unidos, que um puxa o outro.
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Me perdi novamente. O assunto é que vi claramente alguém atrás de mim no espelho. Não sei bem se era homem ou mulher, acho que esqueci, mas não foi isso o que mais me chamou a atenção e sim o fato de ter alguém ali, Olhei para trás e não vi ninguém e, depois, passei horas em frente ao espelho, na esperança que voltasse a aparição que, definitivamente, não veio.
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Gostaria muito sinceramente de ter por aqui algo, uma alma penada que fosse, porque me dou bem com essas manifestações do Mistério e me sinto protegido o bastante para que nenhum mal seja feito a mim. Os males que me são pespegados vêm todos dos conhecidos viventes que não me dão a necessária paz que almejo.
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Saio. Vou até a esquina comprar cigarros nessa manhã ensolarada. Desculpa minha, vai. Fui até a esquina pra ver se a mendiga estava por lá. Não estava. Não tenho mais esperanças. Ou ela foi recolhida por alguma instituição pública ou resgatada pela família ou ainda, assassinada. Das opões acima, embora pareça estranho, a última possibilidade me parece a melhor. Morrendo ela se aproxima mais de tudo o que ela via e ouvia, não estará no meio de uma família que a deixou naquele estado nem sofrendo os maus tratos que o estado infringe aos menos favorecidos.
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O importante é que, definitivamente, ela não habita mais a minha esquina e eu, por medo e covardia, não soube me aproximar, não conheço seus segredos, não ouvi o tanto de coisas que ela tinha para dizer. Espero apenas que outros estejam aproveitando o que ela tinha para dar.
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Se existem almas, dessas clássicas, pode ser a alma da mendiga que habita minha casa, posso ter chamado seu espírito de tanto que falei dela, de tanto que escrevi e pensei. Mas, se for, não vai adiantar muito porque como alma ela perdeu todo o viço de quando era vivente. Aliás, se as almas forem assim amorfas e quietas, será um desastre, era melhor que não existissem!
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Tomo o café da manhã pensando que hoje é um dia, amanhã será outro e que eles se sucederão assim, continuamente como bem inventou o homem dos calendários. Escrevo também como uma resposta, dizendo que sempre é melhor falar, que sempre temos a possibilidade de sermos ouvidos e compreendidos por mais estapafúrdio que pareça. Quero sempre falar para alguém e nisso tenho sucesso (enquanto um derrame não me impedir de escrever).
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Tem o telefone novo, a cama do filho desarmada, o caderno a ser procurado (como agulha num palheiro), o jornal para ser lido, a releitura de Saramago (é um chato, vá, mas leio os chatos também), lápis e canetas à disposição e resmas de papel em branco, virgens como ninguém jamais foi. E no mais? No mais acabou. Falta o outro lado da história, mas esse não cabe a mim.

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22.4.05

Sintonia de Amor

Por que a gente chora? Por que a gente assiste Sintonia de Amor e chora, me pergunta. Acho que porque é bonito, porque mostra que a vida pode ser boa, porque mostra que alguns valores estão lá, firmes, esperando que a gente tome uma atitude.
Esse nome ATITUDE foi dado por um amigo meu a um programa de televisão que estávamos criando. Eu fiquei assim pensando, matutando. Porque é muito bom. O que mais eu posso querer da vida a não ser Atitude? Nada.
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Sintonia de Amor está lá, pronto pra gente assistir a hora em que quiser e se deixar levar pelo que existe de mais verdadeiro, pela possibilidade maior, tão próxima e, ao mesmo tempo, tão distante. Distante porque as pessoas insistem em se distanciarem, insistem em não verem, em não acreditarem naquilo que está sendo sinalizado o tempo todo.
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Parece que tem alguém invisível plantando sinais em cada esquina que dobramos, em que cada sinal que paramos, em cada romance que lemos, em cada sonho que sonhamos. Sempre lá: grande, luminoso, mostrando, pedindo pra gente não se distrair, pra gente não perder o rumo porque ainda é possível retomar todos os rumos perdidos.
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Não pode ser uma batalha de um sozinho, não tem motivo para vergonha, não tem motivo para não acreditar, não se permitir ver. Melhor mesmo é chorar quieto, chorar pelo mundo, ter pena não de nós mesmos, mas do mundo que não sente e não olha e não vê e perde, sempre, está se perdendo para sempre de tudo como um barco à deriva, como um sonho não lembrado, como um enorme nada atirado em todas as direções fazendo com que nunca ninguém tome uma atitude.
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Não é uma atitude tão perigosa assim, não é algo tão assustador, não é uma coisa ruim. Não. A vida, com todas as encruzilhadas e armadilhas tem um lado, uma possibilidade, um chance sempre sinalizada, um atalho para encontrarmos as coisas e pessoas, digo.
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O que temer? Parecer bobo? Ser enganado? E não somos enganados de qualquer maneira, o tempo todo não importando para onde a gente se vire ou o que a gente faça? Por que temos tanto medo assim e por que fechamos portas e janelas, por que não olhamos o Dia dos Namorados ou o Natal ou a mulher que passa na rua com seu pensamento distante de tudo o que está ao seu redor?
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Escrevo isso sem muita razão de ser para estar aqui, poderia mandar um e.mail sem destino ou melhor, deixar anotado em algum lugar para que no futuro as pessoas soubessem que nossa geração não se perdeu tanto assim quanto vai parecer, foi apenas uma geração que teve muito medo de perceber o que tem nas águas calmas e límpidas.
Definitivamente não são sempre as águas escuras e profundas, os cargueiros não têm que estar sempre adernados e na cabine de comando não tem que existir necessariamente um homem solitário se enchendo de rum porque é única coisa que sobrou na vida. Não.
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Vergonha de quê? O que faz com que todo mundo chegue do trabalho e se tranque em casa ou saia com amigos rasos só para se defender? Defender de quê? Não é mais necessário ninguém se defender de nada porque não existem mais lanças pontudas, não existe mais beligerância, não é mais tempo de aventura, é tempo de remanso, de céu, de água de côco, de dar uma, uma chance ao coração.
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Quem vai se mostrar primeiro, quem vai tomar uma atitude, que vai olhar nos olhos, abrir a camisa e mostrar o peito sem medo de ser feliz, sem medo de perder, porque perdidos estamos todos, não temos nenhuma redenção que não seja o outro. O outro, sempre o outro porque o homem, em si não é nada mais do que uma parte de alguma coisa que poderia ter sido.
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Estamos todos achando que a segurança é aqui, com nosso guarda-roupa pela metade, com nossa mesa de um prato só, uma só escova de dentes e um só travesseiro amassado. Tudo bobagem e desperdício, tudo por causa de fantasmas do passado como se pudéssemos realmente nos livras de fantasmas. Ora, eles existem e estão dentro de nós de qualquer maneira e ainda assim escolhemos a pior, a mais dura, a menos humana.
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Enfim, é tudo besteira, mas eu precisava escrever isso, falar da humanização, falar de uma coisa que vem antes do pensamento racional, uma coisa que é primeira, que está em cada um desde o nascimento até a morte por mais piegas e tolo que possa parecer, não importa. Queria mesmo dizer que as pessoas têm que se abrir para as outras, eu penso assim e tenho medo dos que não pensam porque não sei mais o que será.
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Claro que não adianta nada mais falar tanto, escrever tanto, tudo vai ser deletado mesmo, tudo vai passar e não vai ser percebido e, se for, será apenas risível. Não escreverei mais aqui sobre nada disso, não insistirei mais em coisas e fatos que não se quer mais ver nem pensar nem admitir. Tudo passa por bobeira, por uma atitude tola e infantil. Que se dane, então.

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3 vãs tentativas

Não foi a barba comprida o que mais me incomodou no homem que bateu à minha porta ontem à noite, foi o seu olhar. Primeiro me pareceram olhos fixos, como se olhassem através de mim, que transpassassem, enxergando algo muito distante. Depois vi que não, mais parecia um cego. Não consegui saber.
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Vestia uma túnica marrom, me pareceu com a pouca luz. Usava botinas surradas e entrou sem pedir licença. Sem modos, jogou-se no sofá e pediu uma cerveja. Satisfeito, me disse que veio porque eu chamei, o que eu desejava afinal?
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Não lembro de ter chamado ninguém, lembro de ter pensado em coisas e opções, mas chamar um velho sujo e debochado.... não. Ele não perdeu muito tempo, deu uma olhada rápida nos meus livros e falou sobre a resposta que eu estava procurando. Disse que a resposta era ele, que ele estava ali por intermédio das minhas preces. E tomou outra cerveja.
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Minhas preces? Meus conflitos religiosos? Pode ser, mas o que era ele, um anjo enviado pelo Senhor? Sim, respondeu sorrindo como a adivinhar meus pensamentos. Sou eu sim, continuou, e aproveite porque estou velho, estou deixando tudo isso, hoje é meu último dia, depois de você, vou e não volto mais. Perguntei se anjos se aposentavam e ele riu com sua boca de poucos dentes: Claro! E por que não?
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Como início de texto, me parece muito tolinho, muito primário, ordinário, infantil. Então, começo novamente: bateu à minha porta uma mulher sensual de quarenta e poucos anos perguntando se eu a havia chamado. Não me lembro, respondi. Ela disse que deveria ser engano, já virando as costas. Percebi que estava completamente molhada da forte chuva que caía lá fora. Pedi que entrasse para se secar um pouco e tomar um chá quente.
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Ela aceitou sem reservas, pegou a toalha que lhe ofereci e procurou se enxugar como pode enquanto eu preparava o chá. Mais tarde, mais aquecida, contou que trabalhava numa agência de scort e que meu pedido, a descrição que fiz era absurda, que o mais próximo do que eu pedira era ela. Bom, como era engano, ela agradecia e iria embora porque tinha mais trabalho.
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Novamente pedi que ficasse. Pedi que ficasse porque eu estava sozinho e poderíamos falar de algumas coisas, talvez ela quisesse me contar alguma coisa do seu trabalho, sei lá. Ela concordou desde que eu pagasse o michê. Concordei e ela, colocando o dinheiro na bolsa, sentiu-se mais à vontade. Recostou na poltrona e falou da sua vinda de Vila Velha para o Rio, das expectativas frustradas, da fome e de como, finalmente acabara trabalhando para uma velha cafetina desdentada que comandava seus negócios de um computador on line.
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Não tinha muito a contar, sua vida era vazia, não achou que nada do que disse poderia me interessar de alguma maneira. Respondi que realmente era uma história comum, como tantas outras, mas que sempre era bom saber da própria pessoa que vivencia esse tipo de coisa. Ela sorriu e acendeu um cigarro. Me disse que tinha a sensação de que eu tinha um baralho de tarô em determinada gaveta. Realmente, o tarô estava lá, pensei. Como sabe? Perguntei e ela me olhou de soslaio e sorriu.
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Logo estávamos tomando conhaque enquanto a chuva caía forte lá fora e ela colocava as cartas mágicas para mim com destreza e sem cerimônia. Falou à princípio da minha solidão no mundo. Eu sorri e disse que isso era mais ou menos óbvio, que ela estava vendo, que eu a chamara por isso. Você disse, falou ela sorrindo, que não chamou. Continuou colocando as cartas até seu semblante demonstrar agonia, preocupação. Insisti, mas ela não quis falar mais nada. Pegou seu casaco e saiu.
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Bom, relendo percebo que mais uma vez não há uma boa história aí. Tenho que começar de novo já que prometi entregar o conto daqui a exatos dez dias. Bateu à minha porta uma menina de 14 anos com corpo de mulher. Disse que estava sendo perseguida por estranhos e perguntou se poderia lhe dar abrigo. Concordei abrindo a porta para que ela entrasse e trancando-a a seguir.
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Quem está te perseguindo? Indaguei e ela respondeu que eram uns caras a quem devia dinheiro por causa de drogas, ficara de pagar e não tinha dinheiro e agora estavam querendo dar uma surra nela. Perguntou se eu tinha cocaína e ficou decepcionada coma resposta negativa. Disse que estava cansada, pegou 3 comprimidos na bolsa e colocou-os na boca. Foi até a bica da pia do banheiro e, mão em concha, tomou os remédios.
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Disse que estava cansada e precisava dormir se eu não me importasse.
A idéia não me agradava, mas não respondi nada, o que ela considerou um consentimento e, ato contínuo tirou as roupas, deitou na minha cama e ficou me olhando. Fiquei parado, com a cerveja na mão na soleira da porta. Não sabia exatamente o que fazer.
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O que se faz com uma menina nua na sua cama? Mas não era uma menina qualquer, era uma cocainômana fugindo de, possivelmente, perigosos traficantes. E uma criança ainda por cima. Enfim, não era uma idéia muito sedutora olhando sob qualquer ponto de vista. Sentei no sofá da sala e vi um pouco de futebol. Logo, sob efeito dos remédios, ela dormia à sono solto.
No dia seguinte acordei torto por ter dormido de qualquer maneira no sofá. A menina estava acordando na minha cama e perguntou porque não dormi com ela. Como explicar?
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Bateram na porta com força fazendo com que ela desse um pulo, como que impulsionada por uma mola enorme e, em segundos estava vestida. Tirou de um bolso um canivete automático. Eu estava começando a não gostar nada daquilo tudo e mandei que ela se escondesse na cozinha (que tinha uma porta que dava para os fundos). Fui abrir a porta e não tive tempo nem de

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o retorno impossível

Acontece um abandono generalizado, me parece às vezes. Um abandono de tudo e todos por todas as coisas. Não algo assim isolado que eventualmente deixamos de lado. Não. Um abandono sistêmico e global onde a essência do homem, da criatura, vai sendo deixado de lado, vai largando, soltando as amarras consigo mesmo e com tudo ao seu redor.
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O que está levando a isso? Acredito numa desagregação maior, silenciosa, que se insinua entre frestas e desvãos da personalidade, como um vírus que domina áreas afetivas, áreas de relação, de afeição. Homens e mulheres são igualmente dominados e abandonam sempre, tudo e todos em troca não sabem do quê, em troca de um nada que indistingüem porque é experiência nova, não sabem o que acontece, não existe estatística, nossos avós não eram assim.
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Imagino que o tempo dos nossos avós fosse melhor. Não vai aí um saudosismo barato, mas a constatação de uma época com alegrias e agruras, mas com história, com início, meio e fim. As pessoas, parece, sabiam como eram as coisas e se condicionavam ou não, mas caminhando firmes com suas decisões. Agora não há mais. Não existe a possibilidade de caminhar em paz sobre uma vida pantanosa, com recuos, aprofundamentos topográficos, uma armadilha constante.
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Penso em sair, em quebrar o círculo e avançar para algo, procurar um caminho diferente, um caminho normal, tranqüilo, mas que tenha algumas bases mais ou menos sólidas que me permitam pisar sem medo. Temos medo do mundo, me parece a verdade. Temos medo, principalmente, das pessoas (e de nós mesmos). Somos reféns de nós e dos que nos cercam, reféns às avessas.
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Não estamos aprisionados pelas pessoas, estamos aprisionados pelo afastamento de todos, pela unicidade humana que raia a loucura, que faz o dormir cedo não um prazer ou um merecido descanso, mas a possibilidade utópica de apagar-se, de transpor mais um dia mesmo sabendo que o vindouro não será diferente. Porque será composto desse mesmo caldo, dessa sopa de nada que fazemos, que estamos acostumados e não podemos fugir, sob pena de parecermos fracos e doentes.
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Não há mais nada. Rigorosamente nada. O mundo é um lamento triste de lobos solitários que uivam para os céus em noites sem lua, noites de chuva e lama. Lobos abandonados, não com a excepcionalidade do abandono, mas abandonados porque a regra é o abandono, o caminhar só pelas estradas em busca de nada. Não se busca mais as franjas do mar. Não se busca nada porque tudo é conhecido, tudo está armazenado em discos rígidos, em decisões rígidas, em simulações programadas digitalmente.
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Dia desses me perguntaram com o quê, afinal de contas eu me preocupo realmente. Olhei para a cara da pessoa e vi que a pergunta era genuinamente sincera, o que não tira a imbecilidade do questionamento, mas era verdadeira. Comecei a explicar falando do abandono a que homens e mulheres se entregam mesmo inconscientemente. Falei de alguns valores que fomos deixando pelo caminho e hoje, queiramos ou não, nos faz deles órfãos. Esse sentimento de vingador mascarado que tomou todas as jovens que antes, pele de pêssego, entregavam-se promovendo maior união entre pessoas, seres, natureza e o etéreo. Por que falo disso agora?
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Talvez o momento. Talvez o momento revisionista, talvez a percepção do fim que todos tentamos não pensar, talvez uma doença que se pespegou em mim e não deixa quieto. Não sei. Claro que não influencia em nada. O mundo continuará caminhando, mesmo que daquela forma meio Blade Runner. Existe chuva ácida nas pessoas, não é uma coisa externa como pensavam os futuristas, é interno, está em nossos estômagos, em nosso sangue. Ninguém se toca, é verdade, mas acontece.
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Como eu não tenho mesmo nada com isso, apenas não quero mais participar, acredito que o ideal seja mesmo tirar o time de campo, me guardar pra quando o carnaval chegar e deixar os textos que tratam do assunto em outros lugares que não aqui, não porque me envergonhe, mas porque não acrescentarão nada às pessoas, só a chatice de ter que lê-los (ou não).
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Estava olhando ontem o nascimento de uma criança e pensando em todas essas coisas, pensando no porvir daquele ser que não imagina ainda como será ensinado, o que será dito para a mínima formação até que possa caminhar sobre suas pernas. Tive pena dele como tenho pena de todas as crianças, da mais pobre à mais rica. Criança pressupõe longa vida pela frente, indica a possibilidade de vivenciar os momentos que temos por um determinado tempo chamado vida.
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A verdade é que tenho medo. O que espero sinceramente é que aconteça uma nova revolução cultural, de costumes, de modos para que o futuro desses bebês ser melhor. Já sei que terão muito mais tecnologia a seu favor do que ou nossos avós tiveram, mas não sei se a ciência caminhará com a velocidade necessária, se teremos tão rapidamente gerações super novas do fenômeno Prozac, por exemplo. Não. Sou, como todos, egoísta e não tenho medo só por eles evidentemente. Temo por mim, por onde estou, meu entorno e pelo futuro. Acho que por isso, mais a mais existem duas correntes absolutistas: cavam seus futuros na av. Paulista ou entregam o futuro a Deus.
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Perdi um caderno de anotações (claro que deve estar em algum canto dessa minha desorganizada casa) onde escrevi sobre isso. Verdade que tudo o escrevi foi sob uma ótica muito diferente da que possuo hoje, embora não tenha tanto tempo assim, mas foi. De qualquer maneira, o meu ciclo está se fechando, se acalmando e, embora não me satisfaça, começo a entender de verdade que não adianta falar nem escrever, que existe um movimento único de ida que uma voz ou duas não demoverão. Nada.
Leio tudo acima e me pergunto de novo o que fazer, se devo publicar ou não.
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Concluo por fim, que devo publicar sem muita expectativa, como quem joga uma mensagem dentro de uma garrafa no mar. Poderá alguém encontrar ou não. A possibilidade de ser encontrada é mínima. Azar o meu. Azar meu e de todos que não percebem, mas evidentemente, estou falando sob meu ponto de vista que nunca foi muito bem focado mesmo. Só a minha ausência brindará os viventes dessa máquina que corre, dessas crianças das creches, das mulheres vencedoras e dos homens que tentam acompanhar tudo e voltam frustrados todos os dias para seu lado na cama ou para sua cama de solteiro.
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Claro que posso sair hoje com uma ou duas pessoas e falar de qualquer coisa, posso me forçar e ir dançar na Lapa (porque decidiram agora que Lapa é cultura), posso ver o filme da moda e depois entrar um pouquinho na internet ou nenhuma das coisas, posso passar o fim de semana na serra e voltar domingo à noitinha, no meio do engarrafamento monstro. Eu posso tudo. Todos mundo pode tudo. E o mundo está aí para ser observado e criticado. Não acredito que exista uma crítica substancial ao mundo, esse é todo o aspecto do que poderia ser um problema, mas, definitivamente, não é.
(apenas uma pessoa, longe daqui, entenderá esse post)

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21.4.05

opus dei

Não sei mais como explicar o inexplicável. Definitivamente estou ficando doido ou doente do pé. Agora, só porque não querem, sou defensor de Bento XVI. Tem esse frei Betto que parece um piolho, não é? É o par do Leonardo Boff, os batinas vermelhas, os queridinhos de Ipanema (depois do Tom e da Leila Diniz Ipanema definitivamente não foi mais a mesma).
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Leonardo recebeu Ordem de Silêncio do então Cardeal Ratzinger quando era responsável pela Congregação da Doutrina da Fé, algo como a Inquisição ou uma espécie de Corregedoria. A Inquisição queimou pessoas e livros na Idade Média porque naquela época era hábito queimar pessoas. Hoje, ordena-se o silêncio, é apenas uma questão de contextualizar as coisas.
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Fidel e ou Stálin mataram muito mais do que toda a Santa Inquisição em Séculos. E daí? A Igreja tinha que se defender do paganismo ou não sobreviveria, assim como Stálin tinha que se livrar dos dissidentes, dos contrários. São coisas menores, que se perdem na grandeza da História.
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Existem maus policiais, maus advogados, péssimos médicos e todos, todas as profissões, todas as associações têm lá seus métodos coercitivos para separar o joio do trigo para que não se permita a injustiça da incapacidade de poucos manchar a honra de todos. Na Igreja, como em tudo, é assim também.
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Qualquer idiota do ginásio que se interesse por teologia vai entender quais as diferenças, quais as correntes que tentam se espalhar no seio da religião. O que é melhor? O PCB ou o PC do B? O PCB, o original, certo? Portanto, Lutero foi um dissidente, quis criar uma Igreja à sua imagem e semelhança e mais uma vez Ratzinger foi lá e disse que a verdadeira Igreja é a Apostólica Romana. Qual é o problema? É tudo tão claro
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Basta você ler uma introdução à Teologia e ler os panfletários Boff e Betto que verão a diferença. Queriam fazer uma Igreja do B. Ora, a Teologia da libertação não segue os princípios da Igreja, segue os princípios do marxismo, o que é outra coisa bem diferente, como são diferentes os luteranos, os sincréticos e por aí vai. Não precisa nem pensar muito.
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O que esperam do novo Papa? Bichinhas se casando na Igreja, aprovação do aborto e da eutanásia? Isso é equivalente a terminar com a Igreja tal como ela se formou há dois mil anos. Não vai acontecer. Isso é ser retrógrado ou conservador? Não. Isso é seguir preceitos milenares, preceitos que dão sustentação à própria teologia pura.
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Não concorda, não gosta, não atende às suas patifarias pessoais? Troquem de Igreja, é tão simples. A Universal aceita tudo, as macumbas, o budismo, o curandeirismo... Tem um monte, basta escolher e ir de mala e cuia. Porque o anarquista no mau sentido, o inconformadinho de plantão estará sempre atento. Não racharam até o PT que é de extrema esquerda? Já não estão fazendo o P-Sol que será de... de quê? De extremíssima esquerda?
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Existe uma revolução feminina ainda em andamento? Existe. E o que se vê? Qual o resultado prático dessa dita revolução? O esgarçamento da sociedade, o fim dos núcleos familiares, o fim da sociedade tal como foi até hoje. Queremos uma nova sociedade? Muito bem. Aí a temos. O que fazer com ela além dos lotados divãs dos psicanalistas? Vivemos no mundos dos sexólogos, dos psicólogos, dos profissionais de mapa astral (porque Ipanema permite). A mulher está conquistando realmente alguma coisa de muito importante para o mundo? Ótimo, continue, mas não obrigue a mudanças em instituições seculares.
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Falam que o Opus Dei é o braço à direita da Igreja. É? E o que é realmente o Opus Dei? Vai, me escrevam e digam. Não vão escrever porque ninguém sabe. O Opus Dei ficou conhecido com o best seller O Código da Vinci. E todo mundo sai malhando o Opus Dei. Sim, existe o Opus Dei, mas no romance best seller ele foi descrito de forma romanesca, era, digamos uma espécie de vilão. Vá lá, funcionou no livro, mas o que se conhece realmente dele? Nada. Ora, vão estudar em vez de ficar falando besteiras pelas esquinas vida!

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20.4.05

Histórias

O que é realmente a fuga? Acho que estamos o tempo todo fugindo, o tempo todo correndo (Corre, Lola, Corre - Corre, Coelho, Corre) e acho como em Lola temos sempre um possibilidade de final diferente. Eu fujo, todo mundo foge, mas as pessoas negam essa fuga, Por quê?
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Queria entender melhor o processo em que finais são possíveis. Sou inconformado de não poder escrever realmente a minha história. Escrevo possíveis meios e fins para mim, até mesmo faço força por um ou outro, mas é angustiante não saber realmente o final da história. Saber que a morte é o final, não é saber o final da história.
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A morte é o final da vida, o fim. Mas não precisa necessariamente ser o final da história. Posso muito bem ter uma história que comece hoje ou amanhã e essa história pode durar até dois dias antes da minha morte. É essa história que eu quero conhecer, que eu quero conhecer o desfecho, que eu quero reescrever, se necessário.
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Verdade que estou reescrevendo sempre que possível, usando a experiência das fábulas, das novelas ou de qualquer folhetim. Minha vida é um folhetim, acho que todas são. Mas como acontece? Em que lugar? Com quais personagens? Como pode uma pessoa viver placidamente, acordar, escovar os dentes e ir para o trabalho, almoçar, voltar e dormir assim, impunemente? Eu sei que a maioria delas faz assim. Não pensa, vai vivendo porque é a vida e ta acabado. Não está.
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Quero ter o direito de interferir na história que tenha uma mulher ou um cavalo ou um gato, quero que tenha um avião mono-motor, quero que exista a gravura de uma girafa na parede, que o aparelho de som seja mono e muitos discos de vinil, quero que meu carro não enguice, não quero ser assaltado, nem beber demais.
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Uma vida há que ter uma dose de aventura e de amor, um episódio chocante como uma internação num hospital psiquiátrico, uma perseguição em carros pretos no estacionamento vazio de um shopping.
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São coisas banais, coisas que a gente lê em livros ou vê em filmes ou em anúncio de sabonete, não sei, mas são essas coisas simples que, se bem costuradas, podem render um roteiro legal, uma história que valha a pena ser vivida. Quem não tem uma história deveria se matar. Viver pra quê? Vai morrer mesmo no fim das contas! A diferença é essa, o barato de viver é poder criar sua história e ir modificando-a dependendo do ibope.
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Quero quebrar imagens de santos ou me prostrar no chão ante um enorme crucifixo, quero entrar mar adentro com pedras nos bolsos e, ao engolir o primeiro gole forçado de água, voltar para a margem do rio, quero ter uma baratinha vermelha conversível e com dois lugares que devolverei três meses depois por não poder pagar mais as prestações.
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Comprovar que a internet promove a solidão na medida que a mascara, dizer que o remédio tal potencializa o daquele outro e discordar da sogra, fazendo com que ela dê razão à filha e não a mim (mesmo que ela esteja certa), receber cartas de amigos distantes que passeiam pelos quatro cantos do mundo, são andarilhos sim senhor! Saber tocar violão. Como se pode viver sem saber tocar violão? Não importa o depois porque o depois é sempre igual é sempre a ambiência asséptica os catéteres, as sondas e os respiradouros. Não, isso eu já sei.
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Outra vida? Se tiver ótimo mas não sei acho que não tem, acho que é essa aqui e pronto e as histórias têm que estar sendo escritas diariamente, como escrevo nos meus cadernos as coisas que foram, são e serão e depois virá a decepção de quem ler ao constatar que muito pouco ou nada se realizou, mas aí não me interessa mais em nada. De verdade.
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Por que não posso pegar o meu velho cargueiro e ir até Porto Alegre, por que não posso dizer que Sempre teremos Paris, por que não posso me apaixonar pela moça que faz chocolate como no filme que não vi? Por que não? Por que as pessoas se contentam com tão pouco, não usam a imaginação, não pensam em terras estranhas, em espelhos, brumas, nevascas e incêndios? Ou ainda por que não pensam em balanços feitos de pneus, não imaginam que o Lula é um pesadelo do qual despertarão, em campos cobertos de margaridas, em abrigos anti-aéreos?
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Me cansa essa passividade bovina das pessoas, essa subserviência acachapante a uma vida que pode ser diferente, que depende de imaginação, que depende de fantasia. Por que esse bloqueio com a fantasia, com o palpitar do coração quando vê uma pessoa bonita mesmo sabendo que ela nunca será sua, ou a corridinha pra pegar o trem que começa a se movimentar numa estação européia, por que, ainda, não dar tudo o que tem e viver com a roupa corpo porque mais, não precisamos de verdade?

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Da lógica irracional

O vazio não está, como conversei, na casa nem dentro das garrafas. Percebo que somos outros e que o vazio vem de dentro, está dentro e não fora, constituindo-se assim em mais um mistério. E quantos mistérios mais temos que ir tentando desvendar para conseguir manter um pouco de racionalidade?
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Quero ser irracional. A racionalidade me desestabiliza, repele a paz, distancia da lógica. Racionalidade e lógica, ao contrário do que pensamos, não andam de mãos dadas. É preciso um pouco, não, muito de irracionalidade para perceber a lógica de todas as coisas, para perceber que há lógica principalmente na falta de lógica, na falta de obviedade das coisas, na falta de lógica humana.
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Sou e não sou racional dependendo do momento e do local e da pessoa. Mas a racionalidade não inibe o mistério, ao contrário, amplia-o. Porque o Mistério percebido pelo irracional passa tão desapercebido que pode nem mesmo ser visto como mistério. O Mistério na sua infinita amplitude só é verdadeiramente reconhecido após verificações freqüentes, diárias, num espaço de extra tempo, uma medida pouco conhecida para leigos e ainda assim aferida por anos seguidos.
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Então repenso para que fique claro para mim. Acredita-se vulgar e ordinariamente que a Lógica está de certa forma atrelada à racionalidade e que, ainda, o Mistério independe de qualquer coisa, ele existe ou não, como um atributo da fé. Não é assim. Temos o vazio interior que é originado da nossa extrema racionalidade. Esse vazio queima como úlcera, uma dor que não tem fim. O vazio é provocado pela racionalidade que pensamos estar ligado à lógica quando é o contrário. Algo como uma diáspora às avessas. Para confundir ainda mais, achamos que a lógica parece afastar-nos dos mistérios. Errado: Vivemos num mundo sem lógica e, para sobreviver precisamos de graus de irracionalidade que, por sua vez, não inibe a percepção do Mistério maior.
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Volto então sempre aos pontos de partida, aos pontos iniciais do pensamento irracional. Somos irracionais porque a vida é ilógica e só podemos perceber essa deficiência de lógica em todas as coisas tendo os mecanismos de escape próprios da irracionalidade. Assim, em resumo, quanto mais minha racionalidade for flexível mais cognitivo vou estar para a lógica cambiante, transversa ou mesmo a absoluta falta de lógica da vida.
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Foi essa a simples explicação que dei às duas pessoas que me ouviam na biblioteca do trabalho. Uma observação clara e simples que detonou uma discussão absurda, sem fim, sobre as probabilidades do homem conviver com o mundo tal como é. Não se chegou a um acordo e eu desisti.
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Porque desisto sempre. Esse deve ser o meu defeito maior. Desisto sempre. Desisto com doutores ou faxineiras, com crianças ou frades, com loucos e sãos, desisto mesmo,e principalmente, comigo mesmo. Não foi uma nem duas vezes que tentei me explicar uma coisa duas, três vezes e não compreendi. Não é porque eu sou eu que agiria diferente. Desisti. Simples assim.
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É uma ilusão barata achar que só os poetas devaneiam, que só os artistas e loucos saem do ar, viajam, assim, de repente. Não acho. Todos. O condutor do metrô, do avião, o cirurgião, o engenheiro, o advogado e o físico precisam de doses maciças de irracionalidade para conviverem com o que chamam de lógica do mundo. Na verdade é bem simples até. Basta olhar de soslaio para a pessoa ao lado ou a coisa ou a situação que percebemos a geléia geral, a dúvida, a insegurança nos que acreditam num certo equilíbrio lógico entre os objetos, o etéreo e os viventes. Os que pensam assim vivem na corda bamba da vida, no fio da navalha do existir.
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Acredito que enlouqueça todo aquele que busque de forma consistente a lógica ou que a mantenha atrelada ao Mistério ou não. São coisas diversas, diferentes em tudo, cada uma numa escala, numa dimensão que não quero reunir num mesmo escaninho da alma ou do cérebro ou dos intestinos. Aliás, o movimento do órgão intestino delgado é um gráfico natural da lógica da vida. Da mesma forma que não se acompanha as voltas e reviravoltas desse intestino, o mesmo se dá com a lógica aqui fora. Simples como água.
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Mesmo abandonado na esquina da rua número zero não abandono a perseguição que venho fazendo há tantos anos pelo direito à irracionalidade. Preciso dela para crescer e me fazer melhor, para ser condescendente e relevante. Mas para conseguir tudo ou algumas pífias qualidades como humano preciso relaxar com a falta de lógica do mundo e, insisto, preciso da irracionalidade. Diria enfim, que só a irracionalidade me permite ser racional e lógico.

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19.4.05

"Habemus Papam"

Havia uma expectativa na modernização da Igreja Católica com a eleição de um novo Papa. As pessoas insistem em não entender que a Igreja só existe pelo que ela é, por seus dogmas, suas convicções. Pelo que entendi, o novo Papa serviu ao exército de Hitler, não se negou não. Ficou um bom tempo por lá. E mesmo Cardeal quase sempre foi guardião da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, nome politicamente correto para o Tribunal da Inquisição. Bom, isso quer dizer que os comunistas que estavam de orelha em pé, os Freis Betos, as bichas que queriam casar na Igreja e outras perversões podem baixar a bola. Enfim, a patifaria ainda vai correr solta, claro que a bandalheira permanece, mas continua no motel ( e sem crucifixo). Sem a benção da Igreja. Amém.
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?????
Alguém sabe o que são"Paradigmas da Recuperação Judicial"?
Eu não
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urbi et orbi

Falava de portaló. Isso tinha me remetido à entrada e a saída da vida. Mas é porque sou extremista, reconheço. Parece que tenho que olhar atrás do espelho sempre porque a frente, o reflexo não me basta mesmo sabendo que no reflexo está o mistério das coisas.
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Borges, pelo que sei, descobriu o que se refletia, como tudo era refletido, como as escadas não davam em lugar nenhum. Claro que escadas não vão à parte alguma, mas os espelhos... quero estar atrás do espelho, quero ser eu o instrumento que reflete, não quero estar atrás da moldura, mas atrás do aço.
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Porque todos passamos filosofando de nossos reflexos, de nossos eus, mas gostaria de ser mais, não quero ser padre. Cardeal ou nada. Claro que não posso ser Cardeal já, nesse momento, mas quero estar à serviço do Mistério e para isso não posso placidamente observar reflexos, tenho que intuir, olhar para quem me olha, ver o que está atrás da pessoa que se observa e perceber o que ela não está percebendo.
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Quando o jovem, com o saco de marinha jogado às costas, se vira pra mim, ao pé do portaló e acena, e diz Tchau eu percebo que somos pastores. Pastores em espelhos, talvez pastores de uma certa filosofia com uma mística toda própria que nos é dada não sei como.
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Tenho muita vontade de chorar. Guardo um choro há muito tempo. Um choro manso e triste, de quem vê partidas, de quem vê descerem mais do que subirem pelo portaló. Como se vida fosse um ir constante e me volta a história que A Vida vem em Ondas porque, se a vida vem, as pessoas vão, vão sempre. Estamos num constante caminhar, nessa busca profunda e quase sempre sem resultado, daquilo que desejamos ou somos. Acho.
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Mas esse é um dos graves problemas. São muitos, eu sei, mas esse é um dos graves, é um dos que me perseguem no sol e na chuva, em planícies e catacumbas. Eu não sei ainda se eu quero caminhar mais do que as pessoas ou se quero que elas não caminhem, que parem, que dêem um tempo.
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E por que sou um pastor? Porque sou, porque reuni ovelhas à minha volta em toda a vida, porque aglutinei o maior número de pessoas possíveis ao meu redor e a solidão de hoje tem motivos muito mais profundos do que os apressadinhos de plantão imaginam em seus delírios pueris. Esse é o crédito que a velhice me dá: o direito de me afastar dos iletrados, pueris e ordinários. A ignara, enfim.
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Tava falando hoje que sou insubstituível e sou mesmo. Quem pode me substituir no mundo? Ninguém. Eu sou interessante, arguto, inteligente e razoavelmente letrado. Tem gente mais do que eu? Milhões, é claro. Mas não falo disso. Falo de um espaço próprio no universo, espaço este que começa, como já contei, com a bobeira do espermatozóide de não saber frear e virar café com leite. Começa aí e depois vai adiante pela vida nos encontros e desencontros, nos conhecimentos adquiridos (e nos não adquiridos), nas ações, nos caminhos filosóficos que percorremos, em nossa posição, ATITUDE diante da vida com seus meandros, seus labirintos, encruzilhadas, armadilhas, tentações que invariavelmente nos levam à um certo sentido de perdição...
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Pergunto porque é ruim dizer que somos insubstituíveis. Quer dizer, EU SER INSUBSTITUÍVEL porque eu sei que todo mundo diz que não é insubstituível e tal... parece que é bonitinho falar isso, é politicamente correto e dá um ar simpático ao autor da frase. Acho que todos os que estão lendo aqui dizem que não são insubstituíveis. Pois eu não. Depois de mim (como antes) não haverá outro eu, com tantas qualidades, com tanta capacidade de reagir e interagir com esse mundo, suas esferas e até, agora, o Senhor das Esferas.
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Eu sou insubstituível porque saio do labirinto, porque, da amurada da embarcação, choro por alguém que desce o portaló, porque me espanto com as pessoas, porque vou e volto de acordo com o dia, com a lua, porque admito que errei e começo tudo novamente, porque tento aprender tudo o que esse curto espaço de tempo me permite, porque acredito no amor. Não, não há nem haverá um outro eu.

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18.4.05

O portaló

Cargueiro atracado. Chove uma chuva estranha, ácida para mim. Os ambientalistas e cientistas não compreendem nada. A chuva ácida não vem das nuvens, a chuva ácida vem do coração. É quando estamos doloridos que a chuva se torna ácida. É escuro ainda e sento nessa cabine de comando que apesar da mesa e cadeiras toscas, ainda é o meu melhor refúgio. Preciso de um lugar para meu refúgio.
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O caderno do diário de bordo é velho e algumas folhas internas estão soltas pelo manuseio excessivo. Verdade que existem folhas outras, folhas onde escrevi o que era necessário em momentos que não tinha o diário em mãos e depois trouxe esses pedaços esparsos de papel para ele. Tomo cuidado então, ao manuseá-lo. A caneta tinteiro não funciona e, não sei porquê A Tabacaria me vem à mente. Não a leio há anos!
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O pessoal da tripulação está em terra, saíram mal atracamos quando a madrugada ainda ia pelo meio. Estou, portanto só. O silêncio me envolve, não existem máquinas trabalhando, apenas o ruído distante do mar. Tenho que escrever porque é o que me resta, não há mais com quem falar, não tem mais para quem contar as coisas, não tem mais com quem dividir o pão e o vinho.
Por que na marinha as malas não são malas, são sacos onde a tripulação leva seus pertences? Esses sacos me angustiam, me dão uma tristeza enorme, um tristeza inexplicável, uma dor lá dentro, não sei bem definir onde. Todos se precipitaram pelo portaló rumo à terra, às tavernas, aos casebres. São assim, querem (sempre quiseram) ser assim, nessa aventura errante.
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Uma vez uma amiga me dizia que eu tinha uma caminhonete e na mala levava vários utensílios e mudas de roupa, que eu era um nômade, que nunca sabia onde estaria no dia seguinte, com quem estaria nem muito menos fazendo o quê. Hoje percebo que troquei o carrinho pelo velho cargueiro. Lembro que é verdade, mas eu tinha vinte e nove anos. O mundo ainda não era meu velho conhecido e o horizonte ainda juntava céu e terra. Não mais. Já fiz a volta completa pelo planeta (que está em mim) e entendi, finalmente, que céu e terra não se encontram nunca, o que é motivo de grande decepção. Essa linha imaginária, esse engano é um dos defeitos divinos, é um Mistério de ponta cabeça, uma falha estética divina.
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Tomo um pouco de café com rum (bebida que me parece estranho, mas é o que resta nessa cabine) enquanto observo na escotilha já os primeiros sinais da vermelhidão que tomará o céu. A carta náutica está logo ali, mas não olho, sei que é figura decorativa, que o mundo não segue os mapas e sim o contrário. Os mapas na verdade, nenhum deles, é verdadeiro nem muito menos preciso. Os mapas estão em nossos corações e mentes e vão mudando, se rearrumando, se desenhando novamente de várias formas, continentes fora de lugar, penínsulas desgarradas e ilhas que dão a volta ao mundo.
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Mas por que tudo isso? Por que o portaló é o ponto de partida. É o de chegada, dirão alguns não percebendo bem a extensão do escrito. Não, o portaló é ponto de partida apenas. Nas chegadas realmente se passa por ele, mas é fugaz, momentâneo, serve para usar o cargueiro num transporte breve (como breve é a vida). Mas o cais sempre chega e aí, ao passar pelo portaló, há o adeus, a despedida, o fim. A pessoa com o saco de viagem nas costas acena e diz um Até Breve que pode ser verdadeiro, mas pode ser também um até nunca (ainda mais quando se tem cinqüenta anos).
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Pois é assim que acontece agora, da mesma maneira que aconteceram outras vezes e, muito provavelmente, acontecerão outras. Para-se em meio ao portaló, vira-se e acena, com as mãos que dizem Até Breve, Até Logo ou Adeus (quem vai saber?). Fica o marujo, fica quem ainda tenta segurar, ter pulso com um navio tão velho e dessa envergadura. Quem ainda segura esse timão como quem segura a mão de um doente terminal. Assim é.
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Mas isso não é tudo. Não nos damos conta, penso, que chegamos engatinhando pelo portaló na vida e, na maioria das vezes, já curvados pelo peso dos anos e pelas agruras da vida, retornamos ao portaló para desembarcar, para dar o adeus, para dizer que a viagem acabou e não há mais a mão que nos conforta porque deixam de oscilar os pontos verdes, para desespero da equipe, os monitores mostram linhas verdes e retas com o apito que prenuncia de tudo. É o fim da viagem é o fim da canseira.

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17.4.05

Espírito Santo, Amém

Fico aqui sentado batucando nesse tecladinho chinfrim enquanto lá fora as nuvens se aproximam, ameaçadoramente, prometendo uma chuva pra ninguém botar defeito. Ainda mais depois de tantos dias de calor.
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Como a chacina da baixada está perdendo espaço nas manchetes dos jornais, com certeza teremos aí desabamentos, barracos vindo abaixo, famílias inteiras soterradas, criancinhas que perderam todo mundo e estão órfãs e pais que, ao chegarem do trabalho, descobrem que perderam a casa com a família inteira e o mantra da Defesa Civil: nós avisamos, nós avisamos.
Aí é a festa para o Viva Rio, pras ONGs endinheiradas (que vão se endinheirar ainda mais), os artistas que estão meio relegados vão aparecer nos programas pedindo alimentos não perecíveis e agasalhos. Aí é a festa do PT.
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Se acontecer, a manchete não vai brigar com a do conclave no Vaticano porque esta é internacional e dizem os entendidos que o Papa não vai ser eleito assim, de primeira, vai ter muita negociação, muito é dando que se recebe. Deve existir um Cardeal padrão Severino coordenando os trabalhos por lá. Só que lá tem o Espírito Santo que é quem efetivamente ilumina o voto dos Cardeais. Aqui, temos espírito de porco. Mas enfim!
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Falei que aqui temos espírito de porco e fico pensando em como o Brasil é inviável. Mesmo sendo o maior país católico do mundo, imagine se Cristo tivesse nascido aqui. Pense, leitor amigo, na história de Cristo e imagine tudo aquilo acontecendo no sertão, no agreste. Bom, não haveria Igreja Católica. E como eu gosto da Igreja Católica, fico contente de tudo ter se passado onde se passou. Deus sabia pra onde mandar seu filho, claro.
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Matéria no Globo de Domingo falando do envelhecimento do homem. Domingos de Oliveira (finalmente alguém!) reconheceu que o Viagra não resolveu o problema. Tem um outro que diz que está mais preocupado com a destruição do meio ambiente (Ai, ai).
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Enfim, um monte de velhinhos posando para fotografias: um de olho escancarado, o outro montado numa motocicleta, mais um ainda fazendo ioga e por aí vai.
E a chuva caiu! Lá vou eu de latinha de leite Ninho...
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dos remédios

E agora? Para onde eu me viro? Essa pergunta martela a gente numa determinada fase da vida. A minha fase foi os 50 anos. Quando tinha menos era ainda mais imbecil e saía virando pra tudo o que é lado e pulando em poços e mais poços. Agora parei. Cansei. Cansei de cansar as pessoas e de ser cansado por elas. Mas estou aqui não é verdade? Minha cabeça continua ali na estante.
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Conversando com todo mundo (os eleitos, bem entendido) descubro que há um novo Império na área. Depois do Império dos Parceiros e do Império da Serotonina, surge o Império do Rivotril. Caramba! O Lexotan sempre foi o best seller das farmácias, campeão de audiência, ibope de novela das oito! Nove entre dez estrelas da mídia se valiam do Lexotan que agora, sem mais nem menos, sem nenhuma explicação plausível, foi relegado, enxotado das farmacinhas caseiras dos neuróticos de plantão. E logo por quem? Pelo jurássico Rivotril!
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Quais de nós, neuróticos convictos e militantes, não sentamos nos bares da vida de frente para uma Coca Cola pra falar das maravilhas do Lexotan? O quê? Você só dois de 3 mg por dia?! Aí os outros trocavam olhares cúmplices: é um novato, coitadinho, mas está no caminho, em breve estará tomando 4 comprimidos de 6 mg todo dia! Viajar? Doutor, preciso uma receita extra de mais três caixas de Lexotan porque vou à Minas. E o médico: não, leva duas receitas extras (de 3 caixas) a mais porque nunca se sabe.
E agora? O que aconteceu? O Lexotan saiu de moda, está em baixa mesmo, chega a dar pena.
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Confesso que de vez em quando eu tomo um, não porque esteja precisando, mas pra melhorar a auto-estima dos comprimidinhos verdes lá, jogados. Imagino que seja muito duro você ser defenestrado por todos depois de décadas no apogeu. E trocado pelo primo pobre, pelo Rivotril, essa coisa jurássica, feia, amorfa, marrom, cor de cocô de criança sem nenhum charme! Rivotril, além de tudo, é coisa de pobre, custa cinco vezes menos do que o saudoso Lexotan.
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Enfim, o que fazer? A vida é assim mesmo, um dia estamos com tudo, com a bola cheia e, de repente, de uma hora para a outra, é a lama, é a lama. Antigamente receitavam Rivotril pra quem tinha convulsão, agora receitam pra quem está com labirintite, pra quem tem catarata e calo no dedo do pé! Se a moda é o Rivotril vamos então tomar bastante pro organismo acostumar logo e sairmos dessa tolice de 0,5 para o de 2 mg. Ao menos isso, por favor!

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eu e as possibilidades

Baixa de serotonina. A frase mais falada nesses últimos anos. Em mim e nos outros, no mundo. Não sei bem o que aconteceu com o mundo nos últimos cem anos que o ser humano passou a não produzir a bendita serotonina nas doses suficientes à nossa pífia necessidade. Fico pensando nisso e acho que existe um código não percebido nas entrelinhas dos bilhões de pessoas que precisam repor serotonina. São bilhões de pessoas em muito pouco tempo.
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Fico especulando se, nesse mundo consumista e globalizado, os laboratórios (que são o verdadeiro Império!) não desenvolveram uma droga que detone a tal serotonina do organismo de todo mundo. Essa droga pode vir diluída em vários produtos, pode vir por vários meios. Assim, a população entra maciçamente em depressão, tem síndrome do pânico e toda essa churumela de subdivisões de fobias, TOC etc., etc. Não. Esse cara é maluco, dirão os apressadinhos incautos que sempre comem cru por aqui. C R U !
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Vejamos: um laboratório descobre a droga que inibe a produção normal de serotonina. Eu não tenho dúvida que seremos dependentes no futuro da internet e da química dos laboratórios. As pesquisas das indústrias farmacêuticas custam caro. Então há um complô universal para colocar as pessoas doentes, para que elas vão buscar o antídoto para essa falta de serotonina nas farmácia. E viva o dinheiro!
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Como se faz isso? Simples. Coloca-se a droga inibidora da produção de serotonina nos agrotóxicos, em produtos banais tipo Coca Cola, iogurtes, queijos, pães... Enfim, em tudo. Vamos nós sendo intoxicados muito lentamente até o dia que vamos ao médico indispostos, sem ânimo, tristes. O médico, conivente é claro com essa rede, com essa trama mundial, explica-nos então que estamos deprimidos, que é comum, que é falta de serotonina no cérebro e nos receitam as milagrosas e caríssimas pílulas.
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Louco! Paranóico! Destrambelhado! Devem estar pensando os poucos que passam por aqui. É uma idéia estapafúrdia? É. Mas eu sou estapafúrdio, o mundo, pelo que sei é estapafúrdio ao cubo. Vejamos. Todo mundo admite tranqüilamente, que os vírus de computador vão sendo aperfeiçoados cada vez mais, infinitamente, para que sejamos obrigados a, também cada vez mais, comprarmos novos antivírus. Se é assim, porque não com a bendita serotonina. Acho cem anos um espaço de tempo muito curto para que houvesse uma alteração química tão profunda em bilhões de seres humanos. Acho e está acabado.

P.S. Perdoem: o autor do texto acima acaba de ser dominado por dois enfermeiros e, devidamente acondicionado numa camisa de força, está sendo levado para um lugar mais adequado.

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16.4.05

Como ia dizendo...

Entro num torvelinho de idéias, não, de pensamentos que vão desaguar no inconsciente. Falo de navios adernando quando estou vendo da cabine de comando o horizonte ficando de lado. Vejo túneis enormes e muros altos, tão altos que dividem tudo, principalmente eu do mundo. Quero seguir em frente e sou obrigado a falar, falar, falar porque a única coisa que faço é falar.
É isso: eu não precisaria existir com esse formato humano que tenho. Bastaria um pulmão ou um fole e minha cabeça (apenas ela) em cima de uma estante. O resto do meu corpo é irrelevante, inútil mesmo. Sou um falador, basta a cabeça pra pensar e a boca pra colocar tudo pra fora (e ainda posso tomar cerveja que, por um tubo, cairia diretamente no vaso sanitário.
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Claro que eu vi essa cabeça na estante no filme Encaixotando Helena, mas dou minha palavra que não estava pensando no filme. É uma questão de praticidade mesmo. Daria o meu corpo inteiro para alguém que precisasse (tanta gente sem braços, pernas, pênis...) Doaria tudo em mim e ficaria ali, na estante falando eventualmente com quem se dispusesse por uns momentos a me ouvir.
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Porque o cargueiro negro, grande, lento, esse navio fantasma recortado contra um céu não menos escuro, esse timão que gira 90, 180 e 360 graus, esse apito cavo, rouco, esse apito que mais parece o esgar de um pulmão terminal de enfisema, essas ondas enormes que varrem o convés do cargueiro assim como túneis, muros e espelhos estão todas aqui, nessa mesma cabeça que fala, contando essas histórias que ameaçaram tornarem-se reais, mas que realmente fracassaram. Portanto, senhores, apanhem os órgãos que necessitam!
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A cabeça na estante deixa o interlocutor muito à vontade porque ele pode chegar até a estante, falar e ouvir o quanto quiser e ir embora quando bem entender. Como pode também passar ao largo da estante. Definitivamente a imagem da motocicleta negra que rondou tantas e tantas noites, tantas e tais vielas, que correu, que cortava o ar parado, essa motocicleta continua aqui, está bem ali, bem à vista.
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Tudo está aqui. A cabeça na estante é o final, a concretização do Império dos Parceiros, é a idéia levada às ultimas conseqüências (e aí, não precisam me lembrar, há que ser uma relação aberta para que o outro/a esteja realizado em seus furores). Mas voltando ao plano das idéias que é o que interessa aqui, a cabeça é o coroamento a obra prima, a concretude, o clímax, a realização final, perfeita do projeto do Império dos Parceiros.
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Mas não era nada disso que eu ia escrever. Queria mesmo falar é na coisa que vem me interessando mais ultimamente: a mendiga que habita a minha esquina e seu caderno de anotações. Não a vejo há uns três ou quatro dias. Não sei se tem vindo em horas que não passo ou se foi recolhida por algum órgão público (isso, rolem de rir, governo no Rio e no Brasil....foi só pra descontrair). Será que algum outro mendigo se apaixonou e levou-a num cavalo branco (sim, para ela é possível)? Ou morreu simplesmente? E se morreu, onde está o caderno.
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Pensei em ir ao Instituto Médico Legal (acredito que mesmo mendigos loucos dêem uma passadinha por lá) pra dar uma olhada nos indigentes mortos e ver se a reconheço. Nesse caso, digo-me seu parente e exijo seus pertences! Sem desculpas nem mais mais! O caderno, por favor!

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14.4.05

O Inquilino

Não tenho mais como discutir com o outro. Rebate tudo o que digo, não concorda com nada e nem mesmo em algumas coisas para que possamos chegar a um ponto em comum. Niilista convicto até um certo tempo atrás, hoje balança quando tocamos na filosofia. Ateu confesso, desses de carteirinha. Hoje se diz agnóstico ou não sabe responder.
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Temos conversado bastante e tenho procurado ser o mais paciente possível para evitarmos atritos. Seria impossível brigar com ele nesse momento da minha vida. Preciso dele e acho que ele precisa de mim. Nossas opiniões sobre as mulheres também divergem e brigamos muito por causa disso muito embora a essência dos conceitos seja a mesma.
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Fala bastante de um novo mundo baseado numa reorganização planetárias das relações interpessoais. Não vejo como podemos alterar as relações de pessoas do mundo inteiro e ele responde que é fácil, que basta que comecemos, que isso se espalha rapidamente. Lembro com ele que até Jesus precisou de apóstolos que pregassem uma nova religião ao que ele me responde que estamos numa aldeia global, que nesse mundo globalizado basta uma pessoa fazer alguma coisa de importante para que o mundo inteiro que fique sabendo praticamente na mesma hora.
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Não sei o que está acontecendo com ele, talvez seja necessária a intervenção de um terapeuta e ele me prova com vários argumentos que a psicanálise está falida, está de perna aberta como uma prostituta velha e gorda.
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Esse é meu companheiro de quarto, a pessoa que tenho que ver todos os dias e, se possível, conversar um pouco (como podem duas pessoas conviverem sem se falarem?)Está agora obcecado por pinturas, principalmente um tipo de pintura indiana estranha, que eu nunca tinha visto antes, alguma coisa meio sacra, mas feia, primária. Diz que aquela é a verdadeira arte popular de um povo.
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Bom, como eu conheço mais ou menos algumas manifestações culturais do Brasil, não me choco tanto com aquela porqueira indiana que ele tanto venera e chama de arte. Pra mim arte é outra coisa, arte é uma coisa distante de mim, uma coisa que vejo em livros e filmes, vejo reproduções, enfim, tudo, menos a arte propriamente dita porque não tenho dinheiro para viajar pelos museus do mundo.
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O espelho que temos na sala apareceu há dez dias com uma rachadura transversal, que vai de uma ponta da moldura à outra e o próprio aço do espelho começa a enferrujar, deixando eventualmente marcas arredondadas de uma cor ocre e marrom. Diz que não foi ele quem deixou o espelho cair e tenho certeza de que também não fui eu. A única certeza, então, é que algo se partiu. Tudo isso para explicar que

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Retirado da Coluna "Gente Boa" do jornal O Globo de 14/04/05

"As mulheres, em sua luta pela emancipação,conseguiram tantos direitos iguais aos dos homens que agora estão ficando calvas também. O dermatologista-cosmético Walter Guerra Peixe, membro do Food and Drug Administration, diz que 20 milhões de mulheres no mundo apresentam o problema - e que ele avança. O estresse é a principal causa da careca feiminina que, para ser estancada, precisa de um acompanhamento psiquiátrico" Joaquim Ferreira dos Santos
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Eu não tô dizendo?
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lá e cá

Decidido a não estar mais parado, pego o carro e vou a luta. Estou cercado por motocicletas, estou no meio de um grupo, faço parte deles com a diferença que estou de carro. Se há discriminação deles pelo meu carro? Claro que sim, mas não me importa, me sinto mais seguro. Estamos numa estradinha como tantas outras, de árvores frondosas, capim e flores. Aquelas coisas de conto de fadas, sabe como é?
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Mas não há conto de fadas que resista a treze motocicletas com os canos de descarga abertos, com camaradas mal encarados e sujos de graxa e todos esses componentes típicos dos motociclistas. Enquanto dirijo penso um pouco na Itália, onde tanta gente anda de motocicleta. Por que não sou italiano? Por que não nasci em Roma e não estou hoje visitando o túmulo do Papa? Ou não estou no Coliseu, por exemplo?
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Bem verdade que podia ter nascido em Angola ou Luanda onde um novo vírus tipo o Ebola (o Marburg) ta matando gente pra chuchu (muito mais que 200 pessoas até agora) e os índios africanos rechaçam a pedradas os médicos e funcionários da Organização Mundial de Saúde que vêem do Primeiro Mundo. Bom, se eles não querem ser tratados, querem continuar se infectando perpetuamente é um direito que lhes cabe, como a mim cabe o direito de propor que todo o continente africano seja cercado e ninguém entre ou saia de lá porque não estou com vontade de contrair um vírus mortal s[o porque os carinhas lá não querem se tratar.
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Não sei se o Lula ainda está lá, mas se estiver, devia ser proibido de voltar. Já não bastam as lombrigas, a lepra, a tuberculose e os neurastênicos daqui? Cercado de motocicletas por todos os lados continuo pensando o que faz um povo em pleno século XXI recusar ajuda médica e humanitária. Há quinhentos anos, trezentos, as tribos mais fortes subjugavam as mais fracas e vendiam-nas como escravos para os europeus. Isso não existe mais, mas as guerras sem fim e a ignorância permanecem inalteradas. Bom, não estou na África, é um problema interno deles. Não, não é. Vejamos com atenção o caso da AIDS.
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Deve ser um karma qualquer nascer no Brasil, na África, Haiti, em Cuba. Não é possível que alguém tenha sido tão ruim em vidas passadas para merecer tanta desgraça nessa. Porque é fome, desemprego, doenças em profusão, nenhuma rede de hospitais decentes, nenhum esforço de nenhum governo. Falta dinheiro em todo lugar ( não adianta dizer que em Cuba tem colégio de graça se, formado, um médico ganha vinte dólares por mês.)

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Máquina de Escrever

O computador tem várias desvantagens em relação às máquinas de escrever. O editor de texto por exemplo, ilude o mais incauto. É bem verdade que você pode trocar frases inteiras de lugar, editar o que escreveu e ainda tem a vantagem adicional dele sublinhar em vermelho os erros de português e/ou digitação.
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Por outro lado, você não tem mais o prazer de ver a tecla, através da fita de tinta, bater e imprimir suas idéias. Você não olha para o papel e sim para uma tela luminosa branca que cansa, destroça idéias e estressa com o maldito cursor sempre piscando como que dizendo que você tem que digitar constantemente, não pode parar para pensar. Existe coisa mais prazerosa do que você reler o que escreveu, achar tudo péssimo e arrancar a folha do carro da máquina, amassa-la e jogar na lixeira? Pois aqui não pode. Prazer maior do que você reler na escrivaninha a folha datilografada e fazer correções à mão, trocar frases de lugar usando a caneta para indicar com setas manuscritas o que deveria estar em cada lugar?
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Não entro numa agência dos Correios há mais de dez anos, parei de comprar meus estoques de envelopes e papel para escrever, perdi um pouco do prazer em escolher minhas canetas tinteiro e compra-las à prestação. Sou um saudosista e ainda uso lá minhas penas, mas já não com tanta freqüência e meus filhos não sabem nem o que é. Quando estou digitando aqui não posso mais ficar na posição gostosa de me esparramar em cima da escrivaninha e ver o melhor ângulo para escrever.
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As coisas que se escrevem hoje perderam completamente seu toque de humanidade, muitas vezes com frases inteiras deletadas através da cobertura coma letra X. Não me correspondo com amigos a não ser um breve e.mail (que, se não respondido em cinco minutos me faz correr para a caixa de Xanax (pesquisem! Rs). Aqui leio os jornais, converso com os amigos, tiro fotografias e jogo, no mínimo, paciência.
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Pouca gente hoje tem um baralho em casa. Até o tarô é jogado aqui, com velas e incensos digitais! E não é isso. Perdi a expectativa de tentar editar algum livrinho. Pra quê se posso editar aqui tudo o que desejo a custo zero e sem maiores aborrecimentos? A pesquisa então, nem se fala, é um deus nos acuda. A quantidade de informações erradas, de observações, textos, teses completamente erradas é muito maior do que há de certo. Ou seja, para eu fazer uma pesquisa na internet, preciso, antes de tudo, dominar bem o assunto para poder diferenciar o que é certo das burrices que estão disponibilizadas nesse universo. Além de ter que usar palavrinhas ridículas como DISPONIBILIZADAS.
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Enfim, tem muito mais, mas não agüento ficar ereto em frente a essa tela fria. Se alguém souber onde tem uma máquina de escrever em boas condições, por favor me avise.

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Dos Homens ou
O Imbecil Coletivo


Os homens, ainda que mais inteligentes do que as mulheres, são infinitamente inferiores a elas. Homens (na grande maioria das vezes), não possuem sentimentos, valem-se do badalo entre as pernas, achando que são de alguma forma superiores, o que é de um ignorância absurda.
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Através do tempo o homem não conseguiu perceber a importância da mulher, não reconheceu a capacidade aglutinadora da mulher e, pior do que tudo, não viu o quando o sexo feminino é perspicaz e sutil. Verdade que é um sentimento antropológico, desde que o homem das cavernas tinha que sair para a caça e prover o lar de alimentos. Mas já naquele tempo a mulher tinha papel fundamental nessa organização familiar.
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Com o avanço do tempo, ainda na Idade Média, o homem desconsiderou completamente a mulher, tratando-a como mercadoria, como empregada. Nunca, em momento algum a mulher foi empregada do homem, foi sempre o seu duo, a sua possibilidade. A mulher é a possibilidade do homem, a mulher é o esteio, o oxigênio das civilizações, é a muleta do homem. Um homem que não percebe a importância da mulher em todos os aspectos da vida (e antes dela), não passa de um verme, que rasteja num mar de degradação.
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Por isso, nas religiões antigas sempre a figura feminina foi reverenciada, as deusas sempre foram mulheres e na terra, Sacerdotisas. A ignorância do homem (que, se achando provedor material), queria ser em tudo o mais importante, roubou, matou a veracidade da deusa mulher, seu encanto e mistério. Criou-se então, em todas as religiões o Deus Homem para que não restasse nada mesmo da possibilidade feminina. Algumas mulheres que ainda tentaram falar foram mortas em fogueiras e outros meios estúpidos dos homens.
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Subjugada, a mulher foi tateando uma coisa aqui e outra ali até a revolução industrial do início do século XX quando entrou definitivamente para o mercado de trabalho nas fábricas e outros já que o homem sabichão não dava conta nem de mantenedor pecuniário das casas. Mulheres são sensíveis, homens são bárbaros. Ainda hoje a maioria dos homens têm prazer em sair do trabalho e ir beber, ir para a casa de amantes, ir fazer qualquer coisa, menos juntar-se ao seu núcleo, sua mulher e filhos.
Restou a mulher um grito de liberdade nos anos 60 quando declarou-se completamente independente sob o olhar apalermado dos homens e aí a coisa desandou de vez.
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O movimento feminista não é verdadeiramente feminista, ele foi praticamente arquitetado e posto em prática pelos homens. Eles sabiam que a pressão estava subindo, sabiam que não conseguiam mais prover nada, sabiam que mulher não aceitava mais suas patifarias e assim, sem mostrar a cara, criaram condições para o movimento feminista.
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Claro que esse movimento foi tolinho, que movimento em mulher deve ser só o dos quadris, mas não importava ao homem cego daquele momento. Ele queria dividir responsabilidades, queria encontrar uma maneira de não reconhecer seu fracasso como machos e as mulheres, ingênuas como sempre, fizeram exatamente o que eles queriam. Depois a coisa degringolou de vez. O homem não mudou a postura nem o caráter. Continuou na safadeza, continuou achando-se superior, esquecendo que a mulher à partir daquele momento tinha vez e voz, se divorciava, casava novamente, votava, trabalhava, estudava. A mulher é muito mais esperta do que o homem (na verdade, um verdadeiro imbecil).
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E com essa liberação da mulher e o continuísmo tacanho dos homens aconteceu o inevitável: o grupo se esgarçou, destruiu o conceito de família, de qualquer instituição que pudesse manter homens, mulheres e filhos juntos lutando para um bem comum. Hoje não existem mais casais, existem parceiros. Com toda a razão as mulheres não confiam mais nos homens e estes continuam não confiando nas mulheres. O mundo tornou-se um ambiente lúgubre de seres solitários (mulheres e homens) que caminham para lá e para cá na esperança de conseguirem alguém que chegará ao cargo máximo de namorado.
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Por sua vez, o meio internet, por sua capacidade de interatividade criou a ilusão em homens e mulheres de que nesse mundo virtual talvez fosse mais fácil encontrar parceiros, o que na verdade não é, ao contrário. Na internet todos mentem, todos ocultam, dissimulam, não vemos o olhar triste e desiludido do outro, não vemos o fracasso amoroso estampado em seus semblantes, não percebemos a agonia dos que estão aqui num ato último de desespero. Apesar de tudo, não importa em que época, o homem não soube entender a mulher nem dar a ela seu devido valor. Pobres homens.

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13.4.05

das mulheres ou
Escravas Modernas


Caminho pelas ruas aqui do entorno. É preciso pensar e ter calma, procuro me convencer. Determinadas coisas vem chegando de leve, mansinhas, quase sem se darem a perceber. Quando aparecem de verdade já se tornaram um dragão que cospe fogo e bate com o rabo. O dragão. Os dragões que temos em nós.
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Maria é uma mulher. Simplesmente. Pediu que eu falasse do momento hoje da mulher, de como a mulher está inserida na sociedade. Parece que é um trabalho acadêmico que está fazendo ou algo assim. Sei muito bem o que ela espera que eu responda, o que todos os outros responderam antes de mim para corroborar sua tese.
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Acho que a mulher hoje está muito mal inserida na sociedade. Aliás, acho mesmo que a mulher está à parte, marginal. A mulher sempre foi marginal desde os primeiros seres sobre a Terra, mas sempre teve motivos e incentivos para se colocarem nas casas, nas famílias. Até porque sem elas, nada seria nada. Mas não podemos dizer que uma mulher se resume a um útero, claro que não. Sempre existiram três tipos de mulheres: As Sacerdotisas, As Rainhas e as Mantenedoras na Ordem.
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Isso que vulgarmente o homem rasteiro chama de dona de casa é, na verdade, uma função importantíssima, um trabalho dificílimo de ser executado, trabalho esse que não há salário que pague. Falam da mulher que cuida da sua casa, dos seus filhos e do seu marido como uma pessoa menor, uma pessoa que não foi à luta, que não se insere na sociedade. Não é verdade. Essa mulher continua perfeitamente inserida na sociedade, perfeitamente responsável e digna de extremo respeito. Muito mais do que as que queimaram sutiãs nos anos sessenta e das que hoje tem um trabalho mal remunerado. O problema da mulher trabalhar fora não é necessariamente uma independência feminina. O que acontece é que com a modernidade o consumo aumentou e o homem deixou de ser capaz de manter todos os gastos financeiros. Não foi a mulher que cresceu, foi o homem que fracassou. Isso é óbvio, mas as mulheres não querem ver e pronto.
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A mulher moderna é uma exploradinha estúpida que não vê que recebe um salário muito menor do que o homem pelo mesmo trabalho e que desse salário ela paga, empregadas, creches e cabeleireiro, restando nada em dinheiro (e quando resta é pra comprar fubá). Ela trabalha, mas os ganhos pagam a gasolina, as passagens, a maquiagem. A mulher, na verdade, não ganha. Porque antropologicamente a mulher é o ponto de equilíbrio entre a ansiedade das ruas e dos trabalhos do marido e a ordem na sua casa, o equilíbrio para os filhos, a possibilidade de caminhar para um dos dois modos que falei anteriormente: ou A Rainha ou A Sacerdotisa. Na maioria (grande) das vezes, a mulher tem como função evolutiva tornar-se A Sacerdotisa, traduzindo as ansiedades da família e o Mistério
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Mas o mundo regrediu tanto nos últimos duzentos anos, hoje estamos tão atrasados que não se pode dizer isso impunemente porque as pessoas não lêem, não se dão tempo de pensarem sobre o que leram. Não Chamam logo o autor de reacionário e os palavrões lá que bem venham às suas cabeças e as mulheres são ótimas em palavrões. As mulheres, em suma, estão perdidas, de certa forma iludidas pelos maridos (que o fazem conscientemente ou não) e pelos patrões que se riem dessa mão de obra tão mais barata, próxima da escravidão.
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De qualquer forma, não haveria nenhum problema nessa história da mulher evoluir, estudar, trabalhar, viajar, enfim fizesse lá o que bem desse na telha (porque algumas mulheres são meio destrambelhadas mesmo, não é?) desde que não houvessem conseqüências, Nas essas conseqüências existem, acontecem em todos os lares, em todos os agrupamentos familiares. A ausência da mulher com essa, com esse poder de redistribuir a ordem no caos que é o homem, essa ausência mina todos os pilares da sociedade, dos grupos, das tribos. Ancestralmente a mulher dominou porque exatamente estava no centro da tribo. Hoje, iludida (como as mulheres se iludem facilmente!), achando que sua independência está no status de um empreguinho qualquer a mulher não só não resolve o problema pecuniários do fracasso do homem, como fracassa ela também ao não ser nem uma coisa nem outra.
(continua)

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12.4.05

da fecundação ou
O Paraíso Perdido


Caminho pelo túnel escuro e a luz que aparece no fim, ao que parece, está muito longe. Não será para mim o benefício dessa luz. O que procuramos, afinal, cada vez que entramos num desses túneis que a vida vai plantando em cada bifurcação?
Não quero entender a vida como a coisa óbvia dos excessivamente crentes nem dos ateus absolutos porque são alternativas fáceis, que não dão sustentação para uma vida inteira. A reflexão será necessária e o estudo persistente também, mas isso leva ao desequilíbrio mental.
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Existe uma prerrogativa que facilita a vida dos iletrados e não pensantes (grande maioria): 'toquem' a vida, tratem de tomar cerveja quente em copo de plástico, dancem forró, torçam pelo Flamengo e não percam a hora no trabalho quando a segunda feira chegar. Procurem galgar postos e benditos os que têm MBA.
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Quem foge a esses mandamentos modernos encontra-se na categoria dos excêntricos, vagabundos, loucos. Quem não entende e caminha com o sistema é um marginal e como tal deve ser tratado (e para isso temos os médicos especializados). Freud e Bauer fizeram pequenas descobertas sobre um mal comum, pontual da época: a histeria.
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Bauer sumiu na história, Freud um poeta cocainômano e Jung um tarólogo. E esses são os pilares da psiquiatria e a psicologia modernas. O que aconteceu foi uma internação em massa dos 'diferentes' no início do século 20 e, como os governos não conseguiram pagar a conta, criou-se a anti-psiquiatria que pregava a não internação, a interação social que no fundo era apenas manter os desajustados com suas famílias e eles que se virassem. A anti-psiquiatria (invenção americana) é a proposta do anti-nada porque a ciência nessa área é ordinária, rasa, tolinha.
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Talvez fosse mais correto (ou produtivo) dividir a sociedade entre os direitos e os marginais permitindo a estes uma produção igual. Os ditos loucos são sempre ligados às artes enquanto os sãos, invariavelmente ligados às ciências exatas. Muito bem, isso é irrelevante porque de qualquer maneira nenhum dos dois grupos consegue ler os cadernos de Da Vinci, não conseguem educar perfeitamente seus filhos, não entenderam o mistério da fecundação e não há quem não tenha uma vez na vida feito cocô nas calças.
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E, pensando bem, essa é a máxima que une a humanidade. Independente de louco, são, negro, ariano ou que for, todos um dia fizeram cocô na calça na idade adulta. O que pode me dar um terapeuta que chegou em casa correndo pra lavar as cuecas? Somos em essência uma mesma massa, amorfa, tola, burra, que caminha pelo túnel e diz que há luz no fundo. Tecnicamente, não há.
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Porque a expressão LUZ NO FIM DO TÚNEL pressupõe que chegaremos (nós) a essa luz, uma espécie de salvação, de vitória, de ressurreição. Nada disso. Não é assim tão simples porque o tempo não é parceiro do espaço, a curvatura do universo não está à nossa disposição e não conhecemos o bastante dessa (e de outras) vida para ter o fôlego necessário.
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O homem tem uma espécie de enfisema crônico, atávico, que rouba o ar, que não dá fôlego, que não permite que ele chegue ao final. O mal do homem é não ter continuado um espermatozóide esperto. Os outros, tolinhos conseguiam correr e alcançar a luz, o útero. O homem é a negação do espermatozóide que foi. Ao fecundar e nascer ele inverte a posição, cria expectativas loucas e corre em direção a um outro tipo de útero e, para esse, não tem fôlego. O câncer, o enfarte e o atropelamento o espreitam em cada esquina.
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Dizer que o espermatozóide que fecunda foi o vencedor é , no mínimo, risível. Porque ao fecundar ele se condenou ao martírio, se condenou às expectativas, aos desejos não realizados, às doenças e intempéries, ao medo da morte inevitável, ao fracasso de não vencer a vida. Os outros espermatozóides, os que, em nossa tacanha visão, não fecundaram são os grandes vencedores porque tiveram a sabedoria de finalizarem ali mesmo sua missão, correram só para enganar, fingiram que queriam chegar lá justamente para que um deles, trouxa, corresse mais e caísse no abismo da vida.
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Por isso guerras, mortes, expectativas frustradas, dor e sofrimento. Porque o mundo é composto de homens, os espermatozóides enganados. Assim nos prostramos e sonhamos com o paraíso, com a paz e a bem-aventurança no futuro distante, quando a morte chegar. É uma inversão. O paraíso está perdido lá atrás, no passado, na vagina (verdadeiro caminho para o céu) que acolheu e não fecundou. Por isso, o paraíso perdido.

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11.4.05

sobre (tudo) a psicoterapia

Apesar das idas e vindas e das reviravoltas que se dão no entorno, minha cabeça persegue fixamente um ponto que não é explicável. Gostaria mesmo de contar para alguém, mas para isso terei que escrever uma história com vários personagens e eu mesmo terei de ser um personagem que terá um amigo ou amiga de total confiança que deseje ouvir a história.
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Posso fazer isso com uma certa facilidade até pelo que estou lendo agora, mas acho que não vale à pena, não é o momento certo porque estaria envidando uma energia que será mais útil numa atividade mais fria, como uma seção de psicoterapia. Não acho que a psicoterapia resolva os nossos problemas, a psicoterapia, infelizmente, tem pernas curtas. O que fazer então? Não sei agora
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Caminho pelo quarteirão, compro um pacote com dez maços de cigarros no botequim da esquina. O homem que atende é antipático. Dou uma espiada como quem não quer nada, mas a minha louca não está mais sentada ali, já se foi (para onde? Para onde?) Me pergunto se fui comprar cigarros para vê-la. Não. Volto lentamente para casa pensando que devo ligar para alguma amiga, conversar um pouco, descansar a cabeça. O livro que estou lendo está mexendo com minhas frágeis estruturas. Não seria mais fácil parar de ler? Não. Seria me iludir. Alguma coisa está quebrando aqui dentro e tenho que seguir em frente para ver o que é. Por que tenho estruturas frágeis?
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Não é essa a pergunta, estou me subjugando. A pergunta certa é: por que as pessoas têm estruturas frágeis, por que uma ou outra, eventualmente simplesmente se rompem, quebram, ficam em cacos e as pessoas obtusas em redor não sabem o que fazer e, por ignorância, acham melhor desprezar? Já me parti várias vezes e quantas outras ainda quebrarei? Por quanto tempo é possível colar cacos (cada vez de tamanho menor)? Não tenho a resposta.
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Mas sou o único interessado nessa resposta. Porque os outros, tenham lá os problemas que tiverem, viajam, dançam, caminham. De alguma forma mantém suas vidas aparentemente dentro desse conceito que a sociedade convencionou chamar de normalidade. Comigo não acontece assim, não me basta dar uma volta de carro ou a pé. Preciso de muito mais. Litros de uísque ou doses cavalares de pílulas (descobri que a humanidade toma altas doses de pílulas e esconde, tem vergonha). Então vou buscar essa resposta dentro de mim mesmo, dentro do que está consciente e lúcido, capaz de analisar friamente. Sou extremamente lúcido em minhas análises. Tanto, que irrito.
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Olho para o espelho e as marcas, os vincos e o olhar cansado procuram responder a tudo, mas não respondem. Não. Há muito mais.Muito mais a ser dito do que simplesmente sumir e não falar mais nada como que a enfiar a cabeça embaixo da terra. Não é assim. A psicanálise me parece com pernas mais longas, vai mais longe do que a psicoterapia, mas a psicanálise, por sua vez, é tola, pequena, iletrada e obtusa. A psicanálise é obtusa porque vê apenas uma parte (pequena) do ser e acha que, por ali, chegará ao fundo, ao âmago. Não, não chega, nunca chegou. Não existem pessoas muito melhores do que as outras e isso destrói o alicerce dessa terapia.
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O frio na barriga. Esse frio que se tenta driblar jogando bola ou correndo no calçadão. Tudo mentira, como tenho pena! Falta um pouco de visão do século 19. No século 21, acho, o que mais faz falta é a percepção do século 19. A revolução humana (notadamente nas mulheres) resultou em retumbante fracasso, em tiro n¿água e, com isso arrastou homens e crianças. E a vida moderna terminou por ser um vírus que joga milhões na cama, na maca fria, no chão das várias Áfricas que temos dentro de nós mesmos e que o mundo tem em todos os Continentes.
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Claro que lido nessa tela fria de computador não há como mostrar, como dar percepção aos sentimentos. Olha-se e percebe-se ou não. Na enorme maioria das vezes, não. Não é culpa das pessoas, é culpa do meio que, ambíguo, por um lado nos permite mostrar e, por outro, não permite que o interlocutor perceba. Ela me disse que depois dessa viagem não quer mais saber de nada que esteja nesse campo virtual porque foi muito estressante. Dou força, acho que está certa. Mas não é a resolução de todos e sei que, apesar da sua força de vontade, ela está errada, iludida, cedo ou tarde voltará.
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Por mais que as pessoas criem motivos ou se envolvam em atividades que as afastem de um determinado universo, é engraçado, porque não percebem que não o estão eliminando, ele está lá, esperando, sabendo que voltarão seja quando for, como voltam os cocainômanos ao pó ( e nós voltamos ao pó também, evidentemente).
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Conheço quem se prenda à oração ou ao jogo, à dança ou a luta de espadas, enfim, um monte de gente correndo do ponto A ao ponto B sem perceber que AB, vendo de um certo prisma, estão no mesmo lugar. Tenho vontade, muitas vezes de falar, mas acabo achando que vou ser entendido como inconveniente e prefiro calar reconhecendo que, assim ou assado, as pessoas se sentem felizes. Aliás, tão felizes que, eu mesmo, já fiz a experiência de correr do ponto A ao ponto B (e de maneira grandiosa, com viradas de cento e oitenta graus), mas percebi que era tolice minha, que para isso dar certo é necessário uma fé que não tenho, um acreditar no suor que , infelizmente, não possuo.

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Esquina

O que o meu outro eu procura? Com certeza encontrar com esse eu que está aqui, que caminha por essas rias infestadas de assaltantes e com sacos de lixo arrebentados em cada esquina. Lugares onde a iluminação pública é destruída à tiros de AR 15.
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Meu outro eu talvez também passe pelos mesmos lugares já que (possivelmente) está em mim mas percebe o mundo de forma diferente, de uma forma mais abrangente, completa. Mas isso, penso, não é sinal de sabedoria, não é sinal de certeza nem de verdade. Pelo que vejo, pelo que as pessoas falam, o primeiro eu é o mais certo, o que trabalha e vai ao mercado, o que escova os dentes e sofre de dor de barriga. Eu não tenho certeza.
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Gostaria de ter um terceiro eu que pudesse desempatar esse mistério.
Mas não há vida sem mistério (ver explicação na referência ao Big Bang do livro Anjos e Demônios), não há vida sem a possibilidade do oculto, do que não se quer ver. Sou vítima desse terceiro eu (Sybil tinha uma dezena de eus, mas foi tratada). E não é necessária a esquizofrenia para que você consiga criar uma série de visões diferentes sobre um mesmo tema e possa ainda ir e vir, mudar de idéia e procurar alternativas para perceber melhor a vida e seus mistérios.
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Não dão o devido valor quando Vinícius escreve: A vida vem ondas.
Perceber que a vida vem em ondas é fundamental para perceber todas as possibilidades do homem e do mundo que ele vive, essa confusão de mãos e pernas que, ao mesmo tempo que se entrelaçam, se perdem num sinal de esquina.
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Creio que somos perdidos porque não entendemos o todo ou porque tentamos entender o todo. Das duas uma: ou a gente não tenta entender e vai empurrando a vida com uma bengalinha branca ou pára tudo e vai estudar e refletir para entender o todo. Parece que a grande maioria das pessoas fica no meio do caminho. E não é uma questão de culpa não, muitas vezes, em vários aspectos, me reconheço como um ser no meio do caminho
Alguma coisa como um foguete que tinha por objetivo ir à Marte, subiu, subiu e perdeu força tornando-se condenado a girar na estratosfera, nem lá nem cá.
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Continua atento à bela mendiga que fica na esquina da minha casa. Por quanto tempo mais será bela? Não bebe nem fuma, já constatei. Fala o tempo todo e escreve, como quem toma nota da vida que passa ao redor. Gostaria de ler o que escreve porque talvez naquelas anotações estejam respostas que bibliotecas e internet não possuem. Não sei como fazer, se devo pedir a ela, sentar a seu lado para ler (tomando eu também minhas anotações do que estou descobrindo), se trago o precioso manuscrito para casa ou se roubo partindo da prerrogativa de que sou superior.Não. Essa última hipótese eu não faria. A que mais me agrada é sentar ao lado dela e investigar suas anotações e ouvir o que tem a dizer. Ela fala baixo, terei que estar perto.
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Mas isso não é tudo. Será ela A pessoa? Quem me garante que sim ou que não? Porque ela está na sarjeta e eu moro num imóvel alugado que deixo de comer para pagar? Ela não tem teto, mas não se incomoda em cada início de mês. Ela está ali, a 20 metros de mim. Um sinal? Sem dúvida, mas qual? O cursor fica piscando, cobrando a continuidade da escrita, mas preciso de respostas, respostas que não tenho. Que, com certeza, estão diante dos meus olhos, mas não consigo enxergar.
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A vida de trabalho tem que continuar, os estudos idem e o vazio também. Sei que riem quando falo da mendiga, mas pensem, só um instante, que o cientista ou o filósofo ou o homem simples (eu) devem estar sempre com os olhos abertos, atentos à tudo o que os circunda, porque as respostas estão sempre ali, na esquina mais próxima.

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Ilusão Virtual

Um dia eu escrevi para uma pessoa que dois foguetes que vão se acoplar no espaço têm que ser muito preparados, os operadores têm que estar muito atentos porque um deslize de centésimos de milímetros na saída, pode resultar em km de distância quando as naves estiverem realmente se cruzando.
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E assim acontece nas relações. As pessoas não percebem, definitivamente, que esses errinhos tolos que cometemos no dia a dia, essas coisas que parecem pequenas incompreensões ou rusgas passageiras equivalem ao cálculo errado em milímetros no lançamento do foguete. Lá na frente, com a distância, nossa! Capaz de um não avistar o outro. E por que digo isso? Por nada.
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Tava pensando ontem de noite na incapacidade das pessoas se compreenderem. Tudo começou numa conversa interminável, madrugada à dentro com uma amiga. O que fazemos realmente de nossas vidas, como conduzimos as coisas e como o destino também conduz. As fatalidades, as coisas previsíveis. Temos uma tendência a errar, a não perceber o quanto é sutil viver. Impressionante.
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Talvez por não dominarmos completamente o mistério da vida (com certeza por isso), não vemos a mar de possibilidades que estão à nossa frente. Me parece que as mulheres têm mais dificuldade de ver, mas falo estatisticamente porque o que eu conheço de homens que não tem sensibilidade nenhuma, nossa, é um despautério! Acho que a filosofia do relacionamento deveria ser matéria obrigatória desde a creche até o pós doutorado. Homens e mulheres deveriam entender em que mundo estamos e o que é o sexo oposto, sua importância na formação dos relacionamentos que terminam na Humanidade.
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Quando toquei no assunto do relacionamento, veio a questão do relacionamento homossexual. Não, não concordo com nada disso nem com ninguém, pouco me interessando se acham politicamente incorreto ou não. Homossexualismo é perversão, é doença mental até poucos anos atrás constando em qualquer compêndio de psiquiatria. Essa concessão de chamar de opção foi uma atitude política e não uma descoberta científica. Em todas as religiões pensantes (não falo das africanas nem afro brasileiras), está clara e condenada a bandalha homossexual e cientificamente também foi, obviamente, tratado com despersonalização e doença (grave). Mas o mundo precisava dessa revisão política, eu entendo.
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Falamos também da dificuldade de encontrar pessoas via internet que venham a nos compreender, pessoas abertas não a ceder tudo, mas, no mínimo a entenderem o outro. A internet é perversa porque ela ilude os solitários e afetivamente fracassados na medida em que oferece um grande número de pessoas on line, potenciais amigos ou parceiros. Bobagem. Ilusão virtual. Uma hora teremos que conversar no telefone, uma hora teremos que nos encontrar e as decepções se sucedem, uma atrás da outra , numa espécie de feito dominó. Ainda há quem acredite que vai encontrar aqui qualquer tipo de relacionamento sem ter que fazer determinadas concessões. Além de burros, são os chamados insistentes virtuais, uma nova classe de homens e mulheres que encontram a pílula da auto desculpa por seu fracasso absoluto.

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6.4.05

o que era, então?

Tem uma pessoa que está à postos para conversar e tentar entender, uma pessoa que foi, é e será. Seu nome? Não posso revelar. Aliás, do que serviria? As pessoas estão, as pessoas são, as pessoas tem um quê a mais do que outras e não desmereço as outras porque afinal, o que mais somos senão pessoas?
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Qual o nosso projeto de vida? Crescer, multiplicar e regar esse jardim que nasce em cada ato, em cada ação do homem de boa vontade. E o que, afinal de contas é esse homem de boa vontade? Eu não sei, sempre quis saber e nunca soube. Uma vez uma pessoa me disse que andava desconsolada por um estradinha e um padre lhe deu carona. Esse padre velho falou de muitas coisas, como se soubesse da vida da caroneira.
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Mas não foi só isso. Riu e brincou e quando pararam, cantaram e tocaram violão. O ermo do lugar tornou-se alegre e despretensioso como um jardim, desses de contos de fadas. E a carona continuou até chegarem ao ponto que ela queria. Ela não tinha dúvida que havia alguma coisa de místico naquele padre que era mais do que, era mais do que um homem, era mais do que qualquer coisa que houvesse encontrado.
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Chegando em casa, ela pôs o tarô mesmo sabendo que eram crenças que não batiam, eram opostas. Ela coloca muito bem o I Ching e o Tarô. O que foi dito então é que encontrara uma pessoa de luz e que essa luz agora estava com ela (com cartas como A Sacerdotisa, A Rainha, A Torre e O Eremita). Não dormiu naquela noite pensando em tudo o que acontecera, a estrada, o lugar, a impossibilidade, a carona e o homem do carro.
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E por que conto essa história? Porque ela tem a ver com a flor escondida no post lá atrás, a ver com a manta cor de telha feita em crochê (que acompanhei do primeiro ao último ponto), a ver com os cristais na janela, com as medalhas e as tochas e guirlandas. E por que repito essa coisa tão comum? Porque acho importante falar.
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Porque está chegando um momento importante, está chegando a hora em que as coisas se reverterão, em que o que parecia ser uma coisa se revelará outra, porque os dogmas serão finalmente aceitos e eu serei parte de uma história que posso agora contar, mas não estarei por perto para continuar. Porque dia a dia o cargueiro vai adernando, dia a dia o mar é mais profundo e as águas mais escuras e sinistras. E o que é sinistro? Sinistro é saber que navegamos sem parar, que a Carta não deu certo e que a bússola é imantada por uma força outra (não me pergunte, por favor).
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É fim de noite. Todas as lapiseiras estão ali me esperando, mas fui lembrado à tempo da caneta de pena com sua tinta lilaz, fui lembrado que bagagens foram e voltaram, que cartas foram trocadas e que o mar vai virar sertão. Fui lembrado de Josué e de Calvino, de Borges e de outros. Esse panteão de nomes que saio gritando ao vento como se valessem alguma coisa. A vivacidade dos olhos da velha mulher que morreu (será?). Não, talvez a curiosidade e o questionamento, esse eterno questionamento que vai me levar até o fim. Ou que o fim nela esteja contido. Nenhuma das duas coisas. Não, não era nada disso que eu queria escrever. Esqueçam.

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Missão Severino

Minha carta náutica esteve de ponta cabeça desde a mais tenra juventude. Olhava o mar e o horizonte, as velas das jangadas do nordeste, os homens que puxavam redes ali, bem na rebentação. Vi a areia grossa atrás de mim e a mulata que servia água de côco com uísque dentro do próprio côco verde.
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Estive nas margens do Abaeté e não tirei as benditas fotografias. Itapoã foi diferente, mas foi por causa do Vinícius, essa referência, esse norte que sempre me cativou. Vivi e cresci completamente influenciado por Tom e Vinícius, por Sartre e Camus. Olhei a bruxaria e a Igreja, vi os Reisados e as escolas de samba. Conheci Zé Ketti e Miúcha. Com ela tomei o maior porre da minha vida. Todas pessoas que passavam e eu ia atrás. Lima Barreto me desbundou (hoje nem tanto). Olhei encantado para John Lennon e, com Caetano quase 'dei um troço'.
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E o tempo foi passando. Teve mesmo uma fase que achei que tudo ia dar certo. Tomei chá com Josué Montello na Academia de Letras e vi o trabalho florescer. O tempo passou e meu filhos cresceram. As pessoas deviam ficar mais atentas ao crescimento dos filhos, não exatamente por causa desse crescimento, mas porque envelhecemos. Eu era um menino de calça curta que minha avó levava da Igreja da Lampadosa, hoje sou um velho que dialoga com um frade ainda mais velho. E o que aconteceu nesse meio tempo?
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Tudo e nada. Aconteceu que eu fiz e aconteci ao mesmo tempo em que não saía do lugar. Os filhos nasceram e cresceram, o dinheiro entrou e saiu, os livros passaram, as músicas passara, o tempo, claro passou. Não tenho mais trens na cidade. O metrô é bobo e as ruas perigosas. E o Papa morreu.
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Mas, quando eu nasci, não tive um mapa astral como manda o modismo de hoje. Não. Ganhei uma carta náutica. Uma corta que eu poderia marcar, traçar retas e segui-las, colocar minha proa para o novo mundo. Não fui nem para o Novo nem para o Velho mundo, deixei-me atracado no Terceiro Mundo. O que eu tenho hoje? Frevo, suor, cerveja e Severinos. É essa a missão do homem na Terra?

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noturno adernando

Vejo, pelos cantos dos olhos, o continente à minha direita, como uma sobra enorme, negra contra o céu estrelado. Atrás vejo o reflexo de luzes que, imagino, cidades. Sempre tive muita atração pelos homens do mar e não imaginei que hoje estivesse segurando firmemente este timão. A bússola, bem à minha frente, mostra que estou no rumo certo.
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Vem um aviso da torre mais em cima que aparecem sobras à frente, como ilhas. Não pode ser. A bússola é clara, estudei a carta atentamente antes de desatracar, o contra-mestre também. O homem lá em cima do mastro desce apressado e me alerta, esbaforido do que viu à sua frente. Giro então o timão, uma guinada de cento e oitenta graus, em direção a mar aberto, me afasto de vez do caminho costeando o continente como pretendia.
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Quantas vezes girei o timão em cento e oitenta graus? Acho que muitas. Hoje, que singro em águas profundas e quietas, escuras e traiçoeiras penso que me perdi nesse mar, me perdi nessa imensidão da vida, que os caminhos poderiam ter sido outros. Mas não foi só aqui. Quantas diligências não deixei ao sabor dos cavados e de quantos trens em movimento já pulei?
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Sou um espírito irrequieto e curioso, mais curioso de conhecer a alma humana do que a vida, essa, material. Mais: tenho mais curiosidade na almas das outras pessoas do que na minha própria porque sempre achei que no espírito do outro estava refletido um eu mesmo todo especial. E nesse ponto não me frustrei. Foi sempre assim que aconteceu. No escrutínio da alma que me acompanhava, não gêmea, mas parceira, nessas almas sempre percebi o que havia de errado e certo em mim. Muitas vezes vi o errado e não soube ou não quis acertar. Em outros momentos, consegui corrigir a tempo.
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Agora, cargueiro adernado, hélices cansadas e enferrujadas, em águas escuras e profundas o que me restou?, perguntam os mais apressados. Agora continuo navegando sempre pra frente, nessa noite escura, rumo a esse breu que todos temos à frente e, na maioria das vezes, muitas vezes mesmo não vemos. Me pergunto se esse breu é a morte, o fim óbvio ou se na curva da terra haverá sol e ilhas verdes. Me pergunto se na curva da terra não existirão outros cargueiros, navios, lanchas e botes. Como falar dessas coisas?
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Meu psicanalista está me olhando atento, com as mãos nos espaldares de sua poltrona. Ajeita os óculos e acende um cigarro. Espero que ele diga alguma coisa, mas é ele quem está me esperando. Ele é um reboque, um velho salva-vidas que se desprendeu do meu barco e que, por precaução, reboco. Se este cargueiro adernar demais e fizer água e não houver mais salvação... se isso acontecer o salva-vidas de nada adiantará porque será sugado pelo meu próprio cargueiro.
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Volto à minha sala com janelas grandes, com vidraças limpas e cortinas leves que esvoaçam serenas. O espelho está à minha frente refletindo meu olhar cansado. Vejo, meio esfumaçada, a imagem de vários outros rostos. Vários rostos que estão ali, parados, que murmuram coisas para mim através do reflexo. Olho com mais atenção e vejo que nenhum desses rostos possuem olhos, que cada uma dessas pessoas, arrancou à faca seus olhos e são agora cegos de todo, cegos como sempre foram e eu sempre fui, mas que escolheram um outro tipo de cegueira, uma cegueira maior, infindável como a minha ao olhar para as curvas da terra. E me pergunto onde estão os psicanalistas. E para que servem (realmente)?

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4.4.05

A chacina e Ponto Final

Tenho umas poucas pessoas lendo essas coisas de vez em quando desabafo por aqui. São poucas, mas, para a minha estatura, são muitas. Nem minha mãe lê. Dentre esses pouquíssimos (como sempre) tem a turma da patrulha, os moscovitas, maoístas, essa gente que morreu e esqueceu de deitar.
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E o que fazem? Perdem seu precioso tempinho, gastam pulsos telefônicos e energia elétrica pra me mandar correspondências desaforadas. Não tem cinco minutos que escrevi o post anterior e já chega uma correspondência de um ignorantão (no caso, uma mulher - ah, as mulheres!) que, ignara, não entendeu nada do que escrevi pra falar de chacinas. Disse que defendo as chacinas.
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Bom, a coisa, minha cara, é muito mais complexa do que a gente pensa, nesse mundo influenciado pelo politicamente correto tão cômodo às nossas consciências! Eu diria até que algumas chacinas são justificáveis. Não essa última especificamente porque não tenho conhecimento de causa. Mas chacinas sempre houveram e haverão pelo mundo. A chacina, ao contrário do terrorismo (Lembrem-se! Lembrem-se!),muitas vezes é o último recurso de um grupo guardião de determinada parcela da sociedade.
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Então o que eu disse, prestem atenção dessa vez, é que num lugar, num país em que os intelectuais, em que a inteligência não está voltada para orientar o povo, em que o Estado é omisso e as leis se fazem com as próprias mãos.... num lugar em que reina a bandidagem, em que mulheres levam seus filhos ainda na infância aos traficantes pedindo que lhes dêem emprego, num lugar onde só compra remédio e só tem hospital quem se associa ao narcotráfico.... num lugar assim, como de resto em todo o mundo através de toda a história (!), acontecem de vez em quando chacinas, acontece de cidadãos pacíficos se valerem de turbas armadas para matar, para exterminar a bandidagem.
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É claro que isso é bárbaro, é claro que morrem inocentes, é claro que não deveria ser assim. Como é claro que Fidel Castro não deveria fuzilar seu povo descontente com o regime, como é claro que a África não deveria ser um continente de índios que se matam desde o início dos tempos por nada, como não é justo que israelenses invadam terras que não são suas. Então não é apologia da chacina. Não. A chacina é bárbara. Mas o homem é bárbaro. Como os países desenvolvidos contornam essa barbaridade atávica? Colocando seus poetas, seus pintores, seus sacerdotes, sua imprensa como antenas que captam o bem e o traduzem (mais ou menos como Moisés) para o povo.
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Onde isso não acontece, onde os jornais em troca do dinheiro da propaganda do governo dão espaço a agitadores do mal como Leonardo Boff, onde a imprensa deixa passar toda a ação terrorista do governo, onde os chamados intelectuais só conhecem O Capital, onde poetas e cantores louvam (só de passagem e rápida - e quando voltam tomam banho de Neocid!) Cuba, quando ninguém olha para o descaso do Estado, quando ninguém faz nada para destronar os que mantém o povo na miséria.... Nessas situações acontecem (e continuarão acontecendo sim! as chacinas!)
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Porque chega um momento que o cidadão de bem não agüenta mais ver seus filhos levados para serem soldados das bocas, não agüentam mais ver seus familiares morrendo na porta dos hospitais, não agüentam mais ver suas casas invadidas no meio da noite por bandidos estupradores. Nessa hora, em desespero, pequenos grupos se descontrolam e saem matando tudo que vêem ao redor. Triste, mas verdade. É assim que acontece e sempre aconteceu na história (não adianta o Viva Rio, movimento de salta pocinhas e choramingas, dar opiniões tolinhas do RJ-TV! - Eles só querem propaganda,. protótipos sem jeito, tentativa de versão light (de Ipanema e arrabaldes) do fenômeno (óbvio) do operário que se deu bem gritando e fazendo lavagem cerebral no povo!)
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E o responsável pela chacina não é só o infeliz que aperta o gatilho. A chacina, infelizmente é uma resposta de um povo atordoado e desprotegido aos grandes mentores do mal. Stálim, Fidel e Hitler não dispararam nenhum tiro, não esqueçam, senhores.

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A chacina não foi nada

Esse tempo todo passado no limiar de uma nova era (5 anos já) causa um sentimento estranho porque segundo muitos escritos algumas coisas (muitas) deveriam ter mudado. É bem verdade que houveram motivos para que as coisas não se dessem da maneira prevista ancestralmente.
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Algumas modificações da química e na física e em vários segmentos da engenharia colocaram em risco uma mudança que iria alterar o todo sem a base científica para tanto. Tenho conversado um pouco sobre isso no mosteiro, mas da maioria das conversas prometi guardar segredo. Gostaria muito de escrever sobre elas aqui, mas não posso. Restam os cadernos. E fico pensando se não é uma irresponsabilidade escrever em qualquer lugar.
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Mas acho que as pessoas, todas elas, são muito frágeis para carregar pensamentos que vão além desse tatibitati comum que costumamos achar normal. Não agüento mais essa conversa toda. Não tenho mais paciência, esgotei. Mas ainda tenho pessoas com quem converso um pouco. Já tive mais, é verdade, mas também é verdade que foi opção minha diminuir o número. Prefiro agora umas poucas. De vez em quando me pergunto se não são poucas demais. Com certeza não.
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O fim, será o silêncio. O silêncio encerra em si mesmo várias revelações, nós é que somos inocentes em não perceber. Guardo o silêncio de nomes que me pedem para não serem citados, guardo o silêncio de emoções que eu me peço para não falar, guardo silêncio sobre minha impressão dos mistérios (que cada vez mais ficam visíveis a mim). Desses, não há porquê não falar. Desses mistérios posso falar à vontade, mas não acho que aqui seja o fórum próprio para dizer deles abertamente. Eles estão embutidos em cada post, mas não de forma escancarada, não de forma que cause turbulência nas pessoas.
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Porque tem isso, as pessoas se alvoroçam por um nada, por um chinelo fora do lugar, por um galho mais seco. Falar em galho mais seco, sofro ao ver a grama secar. Nessa época de muito calor a grama está secando (reparem!), nesse período, as cigarras estão secando e as guirlandas Ou a guirlanda secou completamente, lá pendurada como um ossário de um padre esquecido através dos séculos.
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Para não perder a forma, continuo fazendo minhas experiências com espelhos. Cada vez com mais sucesso, aliás. Não tenho conhecimento para explicar didaticamente como fazer essas experiências, se tivesse iria transcreve-las aqui. Mas tem um ou outro que sabe que sou apenas um autodidata que sai por aí errando e acertando (claro que errando muito mais do que acertando). Tava conversando ontem sobre as opções de uma certa abertura para a Igreja Católica e dizia que a Igreja não tem mais opções. Foi engraçado, porque, logo depois, num programa de televisão, um comentarista dizia a mesma coisa: se a Igreja abrir mão de seus preceitos, ela deixa de ter razão de ser. Para ir atrás do povo, já temos aí os protestantes. As mesmas palavras. Pareceu transmissão de pensamento.
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Bobagem, um observação lógica que qualquer mediocrezinho faria. E tava falando em Igreja por causa da comoção da morte do papa, não há como negar que é uma perda que comoveu o mundo inteiro (menos o safardana do Leonardo Boff, esse patife comunista que está no Globo de hoje esculhambando o Papa com seus modos de guerrilheiro, sorrateira,ente, dizendo que o Papa se equivocou. Não tem jeito mesmo, só a prisão e execução sumária de gente assim daria alguma chance ao mundo de não se espatifar. Leonardo Boff é a grande empulhação do século, o Grande Canalha, a grande vergonha nacional que nosso Presidente impõe ao mundo. Mas não tem problema porque ele é fraco, não vai das pernas e faz sucesso só aqui em Ipanema e no Araguaia e, como se sabe, o Araguaia e Ipanema são instituições em extinção. Leonardo Boff também é uma instituição em extinção, é uma tentativa tolinha que já foi esplendidamente calada, apagada por qualquer lumiar de beira de sarjeta.
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Mas tem essa coisa da Mídia, né? Como é que num caderno Especial de um jornal que fala da importância de um homem da estatura de João Paulo II dão espaço (grande) para uma excrescência, uma nulidade como Leonardo Boff? Eu tenho a resposta. Porque a mídia é comprometida, os jornalistas são comprometidos com essa chama minguada do comunismo, estão infiltrados nos Fóruns de São Paulo, nas comitivas a Cuba além dessa patifaria agora do nosso Salve Salve com a Venezuela. Só mesmo dando muito com um gato preto morto na cabeça de cada brasileiro. E depois vão abraçar a Lagoa e reclamar da Chacina não sei aonde. Nesse país as chacinas vão aumentar, mais e mais. Tudo está interligado e um povo que não tem a inteligência, os intelectuais a seu favor, mas manipulando, ao contrário manipulando esse povo não pode esperar nada mais do que estupros em criancinhas e chacinas. Antes de prender os executores dessa chacina última na baixada, eu poria Leonardo Boff à ferros.


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O carinho que me vem da Alemanha

De: chr.a.meier
Para: sobretudodelona@uol.com.br
Data: 27/02/2005 17:36
Assunto: Eh, você tem uma ironia...
Oi Sobretudo,
Por acaso achei seu weblog e li seus últimos Postings!
Que ironia, que sarcasmo - caí em gargalhadas. Não esperava de um Brasileiro uma atitude tão inglesa.
Fiz logo a tradução dos dois últimos para o alemão e pus no meu blog www.algarvilla.de/weblog Espero que não tenha nada a contrariar...

- - - - - - - abaixo os posts que ele traduziu - - - - - - -

Erzählungen aus Brasilien ¿ Verfasst von Sobretudo de Lona

Guter Appetit!

Ich wachte in einer dunklen und stinkigen Gasse auf, so einer wie man sie in billigen amerikanischen Filmen sieht. Meine Schnapsflasche (es war/ Whisky ja, aber vom fuseligen), war fast leer und bald merkte ich auch, dass ich kein Geld mehr hatte. Ich versuche, mich zu erinnern, ob ich das Geld jemandem gegeben hatte oder ob ich beklaut wurde, aber ich erinnere mich nicht genau. Ich habe eine Beule am Kopf, möglicherweise habe ich einen Schlag gekriegt, ich weiss es nicht. Wie sollte ich es auch wissen?
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Neben einem Abfallberg steht ein Stück eines gebrochenen Spiegels. Es gehe bis zu ihm hin und betrachte mich. Ich bin eigentlich ein ganz passabler Vagabund! Es stimmt ja, dass der Spiegel fleckig und schon stellenweise stumpf ist, dazu ist es halbdunkel, aber trotzdem, so schlimm steht es nicht um mich. Und warum bin ich ein Vagabund? Weil ich es so wollte, ich wollte als einziges Hab und Gut die Kleider am Leibe haben¿ Und auch diese bin ich bereit abzugeben ¿ dann bleibe ich halt nackt.
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Von Zeit zu Zeit werde ich verhaftet, sie schlagen mich dann grundlos. Aber ich verstehe das. Die Polizei muss ja von Zeit zu Zeit etwas machen, stimmt es nicht? Wenn ich Polizist wäre würde ich mich auch schlagen. Ich würde noch weiter gehen: würde ein paar schöne Fusstritte austeilen weil die Parias der Gesellschaft ja zum treten da sind. Alias, das allgemeine Volk ist zum treten da. Schliesslich haben wir die Gabe des Fusstrittes und es macht keinen Sinn, gegen Strommasten zu treten.
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Ich werde ein Buch schreiben (es liegt immer viel verwendbares Papier herum). Ich möchte all diese Geschichten erzählen, die ich erlebt habe, ich will, dass mich die Leute besser kennen lernen, erkennen, dass es gute Leute gibt an denen man achtlos vorbei geht und nicht wahrnimmt. Die Regierung ¿ da bin ich sicher ¿ wird dieses literarische Unterfangen unterstützen. Ich will dem Volk zeigen, dass das Leben gar nicht so schlecht ist, schon gar nicht die Politiker (schade dass ich nicht wähle!), ich will zeigen, dass man glücklich sein kann. Es sind die Leute, die einfach zuviel verlangen.
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Gut, ich gehe jetzt das Ding dort zu Mittag essen, bevor die Hunde kommen und es vor meinen Augen wegfressen. Ich schwöre, dass ich nachher zurück komme und noch mehr erzähle. Guten Appetit!
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Zwischen Florença und Altamira

Die Person die ich hier Juliana Xique-Xique nennen werde, habe ich an einem der Heiligen-Volksfeste kennen gelernt, die die grösste Allegorie unserer tief verwurzelten nationalen Kultur darstellen. Ich hätte diese Frau ebenso gut an einem anderen künstlerischen Anlass, wie unser international anerkanntes Xaxado oder dann an einem Jahrmarkt, wo Bänkelsänger Verse von Soflokes singen und selbstgefasste Vers-Broschüren verkaufen. Bänkelsänger wurden zum Kult in der Schweiz und in Schweden, die Minister dieser Länder laden immer wieder - geehrt wie Staatsmänner - unsere intellektuellen Sänger aus dem Nordosten ein (hauptsächlich aus den Dürregebieten des Agreste). Lula ist die Königin von Sabah vom Agreste und Gilberto Gil unser Otto Maria Carpeaux.
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Juliana ist eine einfache, süsse Frau, eine die jeden mit den Füssen tritt, angefangen bei der Mutter bis zu den Untergebenen. Aus diesem Grund haben wir uns kennen gelernt, sie war gerade dabei, einem Alten an Krücken den Hacken zu stellen. Beeindruckt schickte ich ihr eine zustimmende Kusshand, während der Alte am Boden lag und Blut rotzte. Wir dachten daran, die Sache zu feiern beim Essen eines Stücks Rapadura-Karamell und dem Kauf einer Peixeira (es ist unser tropisches Samurai Schwert), aber wir sahen davon ab. Wir setzten uns zum trinken von Cachaça de Rolha (Zuckerrohr-Schnaps, so edel, dass die Flasche einen Korkzapfen verdient hat) und um Brasilien zu lobpreisen. Weil ich und sie praktisch Analphabeten sind, ist es am einfachsten wenn wir die Wunder dieses Zukunftslandes rühmen, dieses ewig entschlafenen Riesen, der jetzt erwacht, erschrocken ob den Torheiten der regierenden Arbeiterpartei. Aber das ist etwas anderes.
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Wir kauften ein paar gute Flaschen, voll mit Kräutern und Wurzeln, dann gingen wir zur Barracke die sie in der Nähe bewohnt, so etwa zwischen dem Maisfeld und der Transamazônica. Dort haben wir ein wenig Forró und Folklore gelauscht, aus einem kleinen Batterie-Radio den sie aus Caruarú mitgebracht hat, und wir tranken noch etwas mehr Cachaça de Rolha (ein weiterer Leckerbissen, um den uns die Welt heiss beneidet). Eine gewisse Region in Frankreich, wohlhabend an Weinbergen, überlegt gerade ob sie alles umpflügen und Zuckerrohr anpflanzen soll, um eben besagten Schnaps zu produzieren. Hat mir einer gesagt.
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Wir haben uns geküsst, die Kleider ausgezogen und in respektvoller Umarmung Papi und Mammi gefeiert, gesegnet durch einen billigen Christus den sie an der Wand hat, gleich am Eingang der Hütte. Das Abbild ist geschmackvoll beleuchtet von zwei roten Lämpchen. Im Angesicht Gottes konnten wir nur sehr respektvollen Sex machen und sie hat die Rolle der Frau beispielhaft gehalten. (Hauptsächlich indem sie keine Anzeichen von Genuss gezeigt hat und nicht mal daran gedacht hat, zu geniessen). Vielleicht wird sie schwanger mit Drillingen und wir planen schon die Geburt bei einer Hebamme im Staate Piauí, einer extrem kompetenten Geburtshelferin, renommiert in Österreich und Wien, durch zu führen.
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Die Zeit verging und sechs Monate später war sie schlüssig schwanger zu sein, weil sie sieben Monate ohne zu menstruieren blieb und der Bauch erschien ein wenig, eine Orange sozusagen. Weil ich seit frühester Kindheit unterernährt bin, sind meine Spermien sicher schwach, mager und kränklich. Aber wir sind sehr glücklich. Eines Tages, zum Feiern, haben wir wieder miteinander geschlafen (diesmal weit vom Blicke Christus¿) und da konnten wir ein paar Sachen mehr machen. Sie hat es fast genossen, aber ich gab ihr rechtzeitig eine Watsche damit sie sich daran erinnert, dass sie eine Frau ist und alles ging gut zu ende. Es ist eine schöne Zeit. An den Sonntagen zieht Juliana das Baumwollkleid an, das sie von der Tochter einer Madame geschenkt bekam und wir gehen aus auf den Dorfplatz. An einem dieser Tage liess ich sie aufs Karussell, aber als es eben zu drehen begann setzte es aus. Aber ihr hat es nichts ausgemacht. Sie war sehr glücklich, dass sie auf das Holzpferdchen sitzen konnte. (Sie sagt, dass sie eines Tages das Meer sehen möchte).
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Juliana wird die Frau meines Lebens sein, meine Meisterin. Weil ich ein Mann bin, werde ich gelegentlich mit den Hausgehilfinnen ausgehen, werde Forró tanzen und warmes Bier trinken aus Plastikbechern (man sagt, Deutschland werde auch den Forró und die Plastikbecher einführen!) Dies ist unser Leben. Wir sind glücklich. Wenn wir, selten, krank werden, sind wir sehr gut versorgt in einem Posten des SUS-Gesundheitsdienstes den es hier gibt und demnächst werden wir uns pensionieren lassen mit einem Salär vom INAMPS. Weil Gott wirklich Brasilianer ist, werden wir beten, dass Lula vierzig Jahre an der Macht bleibt, gleich wie Fidel Castro.

P. S. Sie hat Vierlinge geboren, aber nur eines ist davongekommen. So muss es wohl
sein, es ist so weil Gott es so wollte.

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Dia Da Criação

Composição: Vinicius de Moraes

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.


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1.4.05

o diário revisitado

Pensei num incêndio, mas não era. Velas, muitas velas acesas. Vermelhas. Todas. Todas do mesmo tamanho, com o mesmo diâmetro, com chamas idênticas que bruxuleavam igualmente. Olho em redor. Não sei o que está acontecendo e não me lembro de ter usado alguma droga.
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Entro no ambiente que é extremamente pequeno para a quantidade de velas. Menor do que um quarto ínfimo. O tempo passa devagar, parece que o tempo está quase parando. As chamas das velas se acalmam, não tremulam, ficam quase estáticas. Penso no milagre, esse milagre que espero há tantos anos. A morte próxima do Papa pode ser o sinal. O milagre tão ansiado.
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Desço escadas, mas paro porque os degraus acabam antes de qualquer coisa, de qualquer chão, um breu a meus pés. Outra escada em frente. Subo. Passo pela sala das velas e continuo mais um pouco e novamente sou obrigado a parar porque os degraus mais uma vez desaparecem de repente. Em cima vejo um céu azul, dia luminoso. Desço sete degraus e estou mais uma vez na catacumba das velas em profusão e não há luz nenhuma que não a das minúsculas chamas.
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Quando desci, lembro, era o breu. Quando subo, é a luz e no meio velas, velas e velas. Vermelhas como o sangue ou como a saia da cigana que ontem insistiu em predizer meu futuro. Ela tinha um minúscula baralho cigano nas mãos e um colar com pequenos cristais. Cristais que já tive pendurados em minha janela que dava para o verde. Quando a Deusa estava ao meu lado. Sim, na época dos cristais na janela, do verde esquadrinhado e dos bois ao longe, tive a personalização da Deusa. Não tenho mais.
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Pensando com calma, em retrospecto, sua partida foi a minha primeira perda. Depois, de lá para cá, as perdas aumentaram, aumentou a velocidade com que perdi, aumentou a intensidade e hoje estou quase só. Mas tudo começou no verde, na janela com cristais pendurados e com tochas enquanto procurávamos as constelações e ela me falava de mundos e gentes que eu não via. O abacateiro. O mato. A flor. O nome de flor. Tudo me volta e me surpreendo de não ver sinais tão claros! Falhei na missão. Onde, meu Deus?
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Por isso estou na catacumba das velas vermelhas. Por isso não posso subir nem descer, por isso perdi e perdi. O culto das tochas na sala escondida de uma galeria em plena Copacabana! A Igreja Batista e sua louvação! O chão, o desprendimento pela burguesia, o artesanato como fonte do pão... Tudo estava lá, o tempo todo, os sinais estavam todos claros, os avisos, o sorriso franco e o olhar de soslaio...
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Agora, cargueiro pesado, adernado, singro em águas escuras. Agora, só agora relendo aqueles dois cadernos, entendo tudo e vejo que o resumo do diário está aqui, nesse enigma para quem lê. Corto com esforço, esse mar grosso, pegajoso, hélices girando devagar, quase parando quando já foram como turbinas nucleares. Tudo tão claro, tão óbvio, tão ao meu alcance!
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Muito bem, reverencio todas essas chamas, todos esses lumes que me dizem, que mostram a possibilidade deixada, mostram que, num jogo de espelhos, uma vela é um milhão de velas, que, partido, renego a existência do ser. Eu ri da palavra cambiante. Era A Palavra. O cigarro e o I Ching, o complemento. Trotes e mugidos, os sons. E o tempo? Bom, o tempo é o que há, o que resta, o que será para sempre, independente de mim que não o retive na noite de

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