Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


English




ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

31.5.05

Pecadilho

Quantos livreiros ainda haverão no país? Pouquíssimos imagino (ainda mais com minha recente e traumática experiência). Os empacotadores e empacotadeiras das Casas da Banha ou das Casas Bahia, desses eu não tenho pena porque são ignaros, jecas e atendem mal como se eu fosse culpado pelas coisas lá da vida deles.

Só sabem onde estão os livros do Paulo Coelho e o Código Da Vinci. Seriam melhores garis ou lavadores de pratos. Dos livreiros tenho pena. Ou melhor, pena não, porque são pessoas bacanas que não querem pena de ninguém...mas sinto pela diminuição dos livreitos em função dessas livrarias Mega.

Mas hoje o carrasco fui eu. Fiz de gesto pensado, não posso dizer nem que não sabia o que estava fazendo.Estou desde a manhã pensando nisso, num delírio filosófico atroz, andando furibundo pela casa. Sim ou Não? Repetidas vezes essa questão.
Por fim, agora de noite acabei por capitular. Pecar. Mas em minha defesa tenho a dizer que todo mundo já faz e eu nunca tinha feito. Tenho o direito de experimentar também, entendam por favor! Se realmente existirem livreiros que se apresentem e eu não repetirei o erros jamais!

Sim, caí, capitulei diante da informática, diante de zeros e uns que balouçam na minha frente como a rirem de mim, implicarem, mexerem comigo. Se fiz uma vez não posso dizer que é um vício e muito menos um hábito. Por outro lado as lojas as livrarias têm que tomar tenência ou serão rapidamente esmagadas.

Sim, comprei agora à noite um livrinho pela internet. Um romance do Umberto Eco. Coisa de pouca monta, só mesmo para experimentar, para ver como é.

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Lula

Leio no Globo on line que as pesquisas CNT/Sensus dizem que o prestígio e a aceitação de Lula estão caindo bastante nos três últimos meses. O mesmo para o governo. A popularidade cai mês a mês. Eu não conheço mais ninguém que diga que votaria no Lula. Falo com petistas ferrenhos que dizem que não votariam, estão indo para o P-Sol.

Desconheço política. Se as pesquisas caem e a classe média não vota e, ainda assim, se as eleições fossem hoje, diz a pesquisa, ele seria reeleito.... então o que é? A classe ignara, a maioria dos brasileiros são beócios e se são maioria, elegeriam o presidente, é isso? Em troca de efêmeras sestas básicas?! Mas o povo não deveria estar recvltado também por não ter saúde, nem escola nem segurança?

Dá pra entender que o populacho não é politizado, que é iletrado e tacanho. Mas ele tem fome. Ele amargura filas monstruosas e morrem, indigentes, nas portas dos hospitais. Não têm emprego, vivem sob o domínio do tráfico! E ainda assim, baseados apenas em serem ignorantes votariam novamente no PT? No Lula? Realmente eu não consigo entender.
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Oh, meu caro Freud!

Fico pensando genericamente no psiquismo e suas conseqüências, no rabo do psiquismo, no enorme rabo que deixa o psiquismo.

Quantas trapalhadas, quantas situações dificílimas eu vivi e fiz os outros viverem, quantos dias da minha vida dedicados à terapia, quantos milhares de comprimidos multicores engoli, quantas crises e quanta incerteza.

Primeiro tem a história da mãe e do pai. Filhos homens com as mãe e Filhas mulheres com os pais. Já nem sei se foi bom o nosso velho Freud ter percebido. Brincadeirinha, foi sim. Ser mãe, ouçam o que eu digo, não é padecer no paraíso. Ser mãe, antes de tudo é ser sordidamente culpada.

Não adianta, você pode ser um poço sem fundo de compreensão é bondade. Pode flutuar com asas transparentes, diáfanas que não adianta: a mãe é culpada. E se não for ela, é o pai. Repara que isso, olhando assim parece um despautério, um sórdido absurdo, afinal eles nos criaram e nos amaram.

Mas quando você cai no divã no analista.. Babau! E, pior, mais dia menos dia, você vai cair no divã do analista. Ele, de cara, antes de querer saber de você, quer saber dos pais. Porque ele sabe (e é verdade) que você está ali por causa deles, pais neurotizantes. Todo neurótico (ou seja, todo mundo) tem pais neurotizantes.

Portanto, nada mais justo que o infeliz, o capadócio do psicanalista pegue logo uma atalho (do Windows) e vá direto na raiz do problemão que está ali na sua frente. Sim, porque a gente paga caro e tal, mas não podemos esquecer que quando entramos no consultório o terapeuta está frente a frente com um javali, um problemão.

E pior, problema que por acordo ou contrato, ele pega para ele. O terapeuta não pode ser normal. Normal ele já não é porque ninguém é, agora, ainda por cima enfrentar 6, 10 problemões por dia.... é enlouquecedor, viu?

Porque o pulha do problemão não se acha, se acha lindo e maravilhoso, acha apenas que acontece isso ou aquilo, que ele está tendo dificuldade nisso ou naquilo... Ele minimiza, o desgraçado. O paciente sincero devia entrar, abriar os braços e, banhado em lágrimas, gritar: Eu sou um problemão!

E aí começa aquele mar de lama. O cara que está sendo analisado é igual a esse governo, quanto mais você vai puxando, mais e mais vem saindo, até estar num mar de lama, com lama até o queixo, com a cabecinha arrebitada pra cima, buscando oxigênio pra não se afogar na própria lama.

Minha mãe que é uma neurótica benemérita, dessas sócias remidas da Neurose (assim mesmo com N maiúsculo) inventou pro médico que sente gosto amargo quando toma o remédio e, como o médico não deu bola, disse que não era nada, ela foi pra farmacêutica da farmácia de manipulação que, tadinha, deve ser nova, deve ser dessas estagiárias de dedão e calcanhar sujos, que disse que vai estudar o caso. Vê se pode! E minha mãe contava! Minha mãe me contava como se estivesse abafando!

Quando eu comecei a responder. Ela viu que estava se formando um dilúvio de quinto ato de Rigolleto e aí foi saindo de mansinho, mudando de assunto e tal. Mães. Mães e filhos. Freud, se tem alma, não pode ter paz.

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Mistérios...

Falo com uma pessoa sobre esse mistério que já vou contar e ela me manda contar para o meu terapeuta que eu não conto porque não sou bobo nem nada de lavar uma bronca daquelas assim por um nada.

Na verdade, o que vou falar é um mistério e não sendo mistério desse, livrescos, se não aconteceu uma assassinado onde existem vários suspeitos e um arguto detetive, não há mistério, não é verdade?

Mistérios apresentam-se também materializados como por exemplo um baú de uma pessoa velha, a quem freqüentamos a casa com regularidade e fala-se tudo, sobre todos os assuntos imagináveis e passamos a vida de olho naquele baú sem como levar o assunto para aquele lado. O baú, para nós é um mistério (que a morte do seu dono nos redime, vamos ávidos ver o que há no tal baú).

Ou ainda dizemos dessas pessoas antigamente, veja bem, antigamente, que levavam uma vida de nada, não se mexiam nem que o Cristo se coçasse, vagabundos mesmo e que viviam cheios do dinheiro. Falo que antigamente porque hoje em dia, todo mundo é assim em Brasília e aqui mesmo em alguns órgãos ligados ao governo (principalmente esse governo). Dizíamos um para o outro: mas que mistério é esse que esse homem não faz nada e está sempre com dinheiro se não é de origem rica?

Pois então. Esses são alguns exemplos de mistérios mas há muitos, muitos outras, têm pessoas que a vida delas é toda um cavo e tenebroso mistério, como tem os mistérios do oculto e tudo o mais. Enfim, acho melhor eu dizer do meu mistério se não me embaralho e acabo nada falando do meu mistério, desse agora em pauta. Tenho quase certeza que já falei, mas não custa contar mais uma vez.

Até agora, de umas semanas para cá [nem é desses mistérios tão misteriosos, mas não deixa de ser um mistério], todos os dias acordo de manhã bem cedo e venho sentindo sono um pouco depois. Só que por conta de motivos outros, fiz uma série de testes e investigações e, ao final e ao cabo, descobri que acordo muito cedo e sinto sono pontualmente, veja, pontualmente, as 9 da manhã. Não é às dez para as nove nem às nove e quinze. É pontualmente às nove horas da manhã.

Já achei que era por causa do número de horas que dormi naquela noite, ou porque tomei esse ou aquele remédio e ainda uns dois dias achei que era nada, coincidência e pronto. Não é. É um cabeludíssimo e insondável mistério, desses que Hercule Poirot daria cambalhotas, coçaria o bigode até cair para encontrar a resposta.

Portanto, se alguém souber de caso análogo, se tiver alguém na família, perto ou distante ou ainda um vizinho ou mesmo mais distante, alguém que conhece alguém que tem isso, por favor me escreva pra eu ficar sabendo e não me importar mais tanto se não for um mistério meu, exclusivo.

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MAR DE LAMA NO GOVERNO FEDERAL

Não é necessário escrever nada aqui sobre as trapaças, a vigarice, a roubalheira a ditadura branca instalada no Brasil. Basta assistir telejornais, ler jornais, resvistas semanais. Está tudo lá. A capa da revista VEJA n°1907 de 1°de jungo estampa o rosto de Roberto Jefferson da mesma forma que fez com o irmão do Collor. Agora sim, está chegando a hora. Não deixem de ler. Não fiquem desinformados.
FORA LULA !
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"Você pega os jornais e não sobra pedra sobre pedra no cenário político, pinta um clima de fim de feira moral, de desesperança, de indignação, de salve-se-quem-puder, tudo ao mesmo tempo"
Ricardo Kotscho - ex Secretário de Imprensa da Presidência e amigo de Lula
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Noturna n° 39

Mas eu me precipito ao falar do hoje, do amanhecer e essa coisa toda do tempo (que não conseguimos saber se está quente ou frio porque faz calor e frio alternadamente à cada meia hora - e os ben-te-vis cantam -, só não sentem os estivadores do cais do porto). Pois muito bem. Já que minha companheira para assuntos alucinatórios teve uma crise familiar e eu não podia mais tomar soporíferos sob o risco de entrar em coma, resolvo ontem, ali pelas 9 da noite dar uma voltinha no quarteirão.

Sim, é isso mesmo. Agora sou como uma cadela cardíaca; o máximo que eu consigo é uma voltinha no quarteirão à noite (de tempo ameno). Saio em direção ao bar da esquina que há muito não freqüento e me chama o português. 'Doutor! Chegaram os cigarros'. Eu agradeço e digo que agora não, que depois eu compro porque ainda tenho um pouco e estou dando uma saída. Ele me olhou como se fosse me trucidar ali mesmo, me enforcar no poste triste da esquina.

O motivo é a ganância do comerciante. Não contente de cobrar caríssimo por um chope aguado e sem pressão, de vender aguardente pra turma mais barra pesada ele quer vender cigarros aos pacotes e não maço a maço. E aí eu reconheço que a culpa é minha, que não sou homem de comprar cigarro maço a maço.

Fumo Camel que é uma marca pouco consumida e os bares raramente têm para vender e quando tem são uns poucos maços. De vez em quando eu vou no bar e levo todos os maços. Até o dia que, ardiloso, ele me perguntou: 'o senhor gosta de comprar é pacotes, não é?' Respondi que sim, evidentemente, não fosse eu não perguntaria se tinha.

Vendo ali um lucrozinho a mais ele me diz que vai passar a encomendar mais cigarros, para ter sempre um pacote para mim. Concordo e agradeço. E, regularmente, todas as semanas eu compro um pacote. Ou seja, ele compra um pacote à mais sem risco de deixar na prateleira, sabendo que vou levar inteiro.

Acontece que nesses dias não lembro porquê, comprei mais cigarros em outro bar. E le me oferece no mesmo dia mais um pacote. Se irrita porque não quero. Quer dizer, o velhaco quer mais é que o câncer me consuma rapidamente. Não interessa a ele que se eu compro um pacote com dez maços, quer dizer que fumo mais de um maço por dia e em breve enfartarei. Não. Ele quer que, mesmo tendo comprado em outro lugar, eu leve ainda os dez maços que me comprometi a comprar.

Não adianta a gente tentar amenizar porque português é burro mesmo. Se eu enfartar logo, ele pára de vender essa marca de cigarros que quase ninguém consome. Vai comprar um pacote que vai rolar semanas pra ele vender. Não é melhor ir me deixando me consumir aos poucos para que ele tenha mais tempo de vida e ele de lucro? Mas não.

Fica logo de olho grande, querendo me matar mais rápido, jogando fora o seu Midas. Voltei lá e disse para ele que amanhã eu compro, mas que eu ainda tinha e que era melhor ele não se preocupar em comprar tanto para mim não, eu veria em outro lugar. Percebendo que eu não gostara da insistência ele muda o papel, vira o capadócio subserviente e diz que 'não absolutamente', perguntou apenasd por perguntar, mas enquanto eu estiver por ali (será que é vivo?), ele vai deixar sempre estoques de pacotes para mim. Agradeci e saí.

Continuei andando, mas meus passos foram rareando, fui andando mais devagar, parando e parei. Fiquei pensando. Uma volta no quarteirão é muito. Não vou começar com essas excentricidades porque agora sou obrigado a fumar mais do que eu quero (estou pensando em acender os cigarros de dois em dois) e logo, logo não terei mais fôlego pra andar por todo o quarteirão. Para prevenir a minha saúde e o bolso do portuga, retornei para minha casa que parece um cemitério enevoado de tanta fumaça de cigarros.

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... ainda Nelson

Com tristeza pesquiso na internet e vejo que não existe mais o livro "O Reacionário - Memórias e Confissões", de Nelson Rodrigues. Trata-se de um livro que reúne várias das suas "confissões" com 130 crônicas deliciosíssimas, publicado pelo Record em 1977. Hoje a Cia. Das Letras e a Nova Fronteira publicam muitos livros de crônicas, como "A Vaca Vadia", "O Baú de Nelson Rodrigues" (parece-me que esse mais completo), mas todos pequenos (com volume I e II, etc.) para vender mais, claro. Não sei se essas novas publicações terminam por serem completas. Andei olhando uns livros editados recentemente e vi crônicas que não vi no meu, o que me causa o mau pressentimento que algumas das verdadeiras confissões' do volume "O Reacionário" tenham sido deixadas de lado.
Como já disse aqui antes, presente da minha tia depois de morta.
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desisto

Hoje, fiz essa séria promessa a mim mesmo (que sou um Deus para mim), hoje não vou procurar, nem telefonar, nem buscar na internet... enfim, não vou mexer um dedo tentando encontrar um volume do "O Declínio da Cultura Ocidental" do Allan Bloom. Cansei.
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Blogs em números

Diz a Veja que hoje existem 30 milhões de blogs no mundo, numero que deve aumentar para 53 milhões até o final do ano!
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... ainda a Veja

Olhando de relance, sem atenção, pode parecer que tudo isto me irrita, mas não. Me irrita muito mais a boçalidade humana, essa propensão, esse pendor para enganar [e ser enganado], esses jeitinhos e trocas sujas (como lavadeiras que trocam suas trouxas de imundíssima roupa). O que não me faz dormir, o que não deveria deixar nenhum brasileiro dormir seria o óbvio, exatamente o sono dos justos de Brasília que, a essa horas, ressonam um sono cavo, profundo e babam nos pijamas. O que tira o sono (deveria) ser as notícias da Veja.
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Durma então o Presidente, já que aquela loucura, aquela maracutaia [palavra que ele gostava tanto!] aquela roubalheira descarada do Lula e seus legionários de esquerda, sua quadrilha de comunistas e ditadores, de maoístas de todas as matizes não atrapalham seu sono socialista, que durma então, embalado nas "caninhas" do nordeste. Imagino que ronque daquele jeito roufenho com que sempre falou, fala ainda apesar do banho de "Socila" que (tentaram?) lhe deram. Dane-se. Só vou ler jornal agora depois do meio dia, quando já tiver feito tudo de prazeroso. Nem pensar nisso agora porque o dia ainda se insinua a clarear e faz-se hora de homenagear antes, o Mistério
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A brevidade do tempo dormido [mais tentativas do que realização concreta, é bem verdade!), esse irremediável desassossego, não tem jeito. O adormecer é bom, bacana e o acordar é mais ainda. Mesmo em plena madrugada o Artur ali, fiel esperando a irmos ao café fresquinho, a cabeça leve para as idéias, tudo isso me agrada.
Sei que um dia vai acabar, mas estou conseguindo entrar dentro de mim, me enroscar em mim mesmo, nessa posição fetal que me agrada, que me deixa mais em paz e assim vou indo. Desperto. Os sonhos, os que tive, ficam lá para trás [hoje, se os tive foram brevíssimos]
Estou fazendo um curso intensivo de acordar à noite e ficar como num exercício de vampirismo.

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Pronto!
Se a intenção era essa, eu desisto. Não há como lutar contra os mistérios do espírito. Tem coisas que realmente não dá para ir contra e uma delas é essa: vontade de não dormir. Fiz a minha parte. Fiquei desde as 2,30 h., há duas horas portanto, tentando, ficando quieto para ver se o sono me vinha. Se não vem de jeito nenhum, o melhor é levantar de uma vez e fazer algo que preste, porque é muito chato ficar na cama, para lá e para cá, chega a irritar, não sei se com todos é assim.

Comigo é. Sempre foi desde a meninice. Parece que a cama, definitivamente, não me quer naquela madrugada, faz o que pode para expulsar e eu, cordato como um corno manso, fico ali, tentando me reconciliar, dizendo que devíamos tentar mais um pouco. Vou até onde é possível. Como em tudo na minha vida (não sei se é qualidade ou defeito). se não dá mesmo, apesar das minhas tentativas, vejo que é mesmo a hora de arrumar as malas e deixar a cama para trás, sair sem olhar para trás.
Assim faço


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30.5.05

...fragmento*

"Não foi perto de mim e muito menos na minha casa, daí que eu não posso afirmar tanto assim, não posso me render em certezas pois dela tenho o que me contam. Minto, tenho muito mais em certezas o que imagino porque não mentiria nem iludiria a mim mesmo. Assim, trago tudo para a imaginação e lá faço meu palco pouco iluminado, desses de lume sereno, mortiço mesmo, onde acontecem as misérias da humanidade e uns poucos as percebem e muitos nem percebem, nem sabem e, perguntados, negam sim senhor, dizem que absolutamente não viram, mais não ouviram nada do que estás me perguntando. Esse é o lugar ideal para fazer a história do homem em sua cadeira simples de madeira malsã, talvez nem isso, talvez um banco alto, mas não, pela idade, pela prata dos cabelos esse homem magro deve mesmo estar em uma cadeira tendo à mão uma prancheta e um lápis. Anota com certeza alguma coisa ou melhor, não anota, escreve compulsivamente, tanto que dá pena não haver uma escrivaninha para o velho (velho? Eu disse?) se apoiar. Mas não há de ser nada porque a história não começou, a história só começa quando ele fala da pequena pilha de livros velhos que estão no chão, ao lado da rútila cadeira, exemplares meio sebosos mas consistentes em grossura pelo menos, isso posso afiançar. E descansa a prancheta e aproxima uma haste que na ponta tem um lume e satisfeito de luz, abaixa-se com o cuidado necessário e pega um volume. Tem quase que enfiá-lo cara a dentro apesar de usar óculos (estarão na validade? Terão lentes sequer?). Pois fica ele lendo, acompanhando as letras com a cabeça como se fosse o carro de uma antiga máquina de escrever. E molha as pontas dos dedos numa língua grande e grossa, nada agradável, mais parece uma língua de boi (ou vaca), podem acreditar, e molha o dedo na língua e vira as páginas dando a impressão que, ao fim, o livro estará todo molhado, perdido mesmo se assim podemos pensar tão mal do homem, do velho, sejamos logo abertos!

Mas não é apenas isso, parece que há alguém sentado no chão, logo ali, um alguém que com certeza não tem a menor importância porque não pode ter importância quem não está no na frente do palco, como é mesmo o nome que se dá, enfim, na ponta do palco quase a cair na mulher da primeira fila. Sim, esse homem não, só agora o percebo, veja só como está longe e mal iluminado [o que é um exagero da minha parte porque luz não há nenhuma]. O bruxulear de um lume outro é que despertou minha atenção para uma sombra ali no canto que à princípio achei ser um rato correndo e depois sim, vi que era, sem dúvida um homem, se é que se pode chamar de homem um ser que chega nesse estágio fatal, final, arrebatador, morto da vida.
Melhor estar morto do que aquilo, pois se o homem, o velho, que é o principal, tem a cadeira vagabunda e a lamparina de terceira imagine-se lá o que não posso pensar do traste jogado no chão, ao fundo. Mas fato é que ele está lá sim, parece-me agora até que ele murmura alguma coisa, diz alguma coisa talvez querendo ser ouvido sabe-se lá pelo velho que lê ou, mais audacioso ainda, por alguém da platéia que se tiver sete pessoas tem muito isso já contando com o porteiro que [sempre] senta na última fila para tirar o cochilo porque o sono mata a fome, dizem os antigos.
E é desse assunto, ou história, se gosta, que vou aqui contar"
Z.*
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O Trapaceiro

A questão de Z. é parecida com a da Pedra Filosofal ou do Santo Graal. Uma busca ensandecida por um volume, presta-me bem atenção, eu digo um volume de escritor moderno. Esse volume não existe em nenhuma livraria do seu País nem dos países que falam a língua portuguesa. Sebos já foram contatados, e.mails enviados aos montes e até agora, sim, pode acreditar! Nada foi encontrado. As pessoas, os livreiros os sistemas de busca da internet todos se espantam, todos olham com que está de frente a uma girafa falante ou um ser de outro planeta, sabe-se lá, de onde esse sujeitinho vil inventou essa história desse volume de que fala com tanta intimidade e ninguém conhece. Pois não pode ser! Se ninguém conhece, não há.

Todos reconhecem que o volume existe nos Estados Unidos porque tudo existe nos Estados Unidos da América, uma potência! Mas traduções não. Português então? De maneira nenhuma. Isso é coisa de doido de sair esse homenzinho falando, mandando cartas, disparando telefonemas, ocupando funcionários de livrarias, alfarrabistas, sebos de toda a parte, ocupando sabe-se lá quanta gente para um nada? Sim, ele leu uma coisa e tirou dali que ia encontrar e saiu em busca e não se convence com nada, nem mesmo todos nós que somos antigos no ramo, dizermos que não, não tem, não há. Pois apesar de tudo isso, de todos esses comentários e buscas e contra buscas, pois tanto ele fez que o autor e o livro agora aparece na moderníssima internet e as buscas apontam para o site desse mesmo homem, esse que disse que procurava?

Pois é esse que os sistemas mais avançados das novas tecnologias, enfim, tudo de moderno diz que o volume que o homem procura, na verdade, somente ele o possui.
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ensaiando ainda...

Como dizia, o ser humano em estado de exercício parece-me bem apropriado porque o exercício lembra o banal, ordinário, como o de academias e clubes desportivos. Se não é assim é de forma análoga quando o homem, ainda que em inércia e por essa própria inércia está seguindo à frente, derrubando muralhas e caminhando.

O caminhar por esse jardim muitas vezes de solidez outras tantas de aflições e ainda de júbilo traz as possibilidade de encontros e desencontros, ainda que pensados. E por isso pensei no exercício como uma das opções vitais.

Não posso esconder que, sob esse guarda chuva fica mais fácil virar para onde quiser, muitas vezes porque quero mesmo dizer alguma coisa como, em outras, não sei o que dizer... sei, mas não explico direito, acho que é isso.
Mas vamos. O que o nosso exercício trata, chamarei por hora de caminhar, caminhar pensando, pensando e agindo. Não me desdigo que a não ação é uma forma de ação, mas só uso esse argumento quando estou sob inspiração budista, o que não é o caso agora.

Porque eu tenho falado tanto em caminhar. Teve a fase mais do pensamento bruto, puro e percebo que ele só não vai, é necessária a prática humana. É engraçado porque as coisas se misturam, voltam atrás e a própria prática pode terminar num dulcíssimo pensamento.

Mas não é dar a volta, como pode parecer. Tem essa coisa muito engraçada aqui da curiosidade. De como a gente se torna curioso e mexe daqui e dali, escreve, fala, pede, nem a internet resolve. Quero contar rapidamente que andei falando aqui em Allan Bloom, na dificuldade de encontrar tal livro e agora, quando vou ao Google, ele, por palavras-chave me redireciona para este blog...ou seja. Bom.

O pensamento me leva para a comunicação por meios diversos nunca desprezando o primeiro lugar disparado da palavra. Quando chegamos a um ponto em que a curiosidade literária faz com que, via net, façamos uma busca em livrarias de todo o mundo e a própria rede nos reencaminhe para o nosso blog é sinal de que algo está muito errado.

Não conseguir matar minha curiosidade por um simples e mero livro, nada de raridade, nada...isso já me incomoda e me faz pensar em fazer as malas. Agora a internet dizer que quem tem o livro sou eu, aí é o caos. Porque acabo me procurando e encontrando, o que, em tese, finda minha necessidade/curiosidade do livro.

Porque aí começa exatamente a confusão que está esse post em que eu pensei em ensaiar alguns pensamentos e não consigo de tão inusitada que é a situação. Se fosse no país dos outros eu ia rir muito, como é no meu, enfio o rabo entre as pernas e choro.

O que eu quero é me redimir do meu pensamento solitário e (aí entra o exercício) tratar das coisas analisadas com outras pessoas ou comigo mesmo, mas de uma forma inteligente. Tenho, de certa forma induzido a uma espécie de um burrismo, às vezes. Porque eu penso uma coisa, mas ao escrever a história descamba para outro lado.

Em outras situações o pensamento escrito está correto [mais ou menos], mas logo adianta o pensamento se revela contra o que escreveu e vai tudo embora porque, como repenso tenho de escrever mais. Bem verdade que estou falando de coisas de fora do blog (a maioria) o que não permite uma assimilação mais simples, mas tem do blog também.

O que eu estava falando com um velho conhecido era a aplicabilidade da arte no trabalho que fazemos. Não aplicamos nada e não aplicando vem um certo embotamento mental que é a semente para a paralisia do raciocínio que, por sua vez, é a morte do homem.

Porque se eu estou lendo e pesquisando para escrever um ensaio sério (como estou mesmo) e isso se perde porque me distraio com as sandices do governo e/ou com a falta de estrutura intelectual do país para que eu aprenda... O que fazer então? Eu não sei. O que não pode é eu parar e dizer que não consigo ir em frente porque não tinha material, uma desculpa suja.

Mas o que eu tenho de fazer de tão importante? Me pegaram, é claro! Nada, eu não tenho que fazer nada, não me foi encomendado nada, apenas eu resolvi começar a organizar as coisas, criar um método meu que esteja escrito de forma ordenada e traduzível, o que não quer dizer que vá representar absolutamente nada.

Por exemplo, só pra acabar esse post. Eu, sem ninguém querer e não interessar muito manos a ninguém vou fazer um ensaio sobre Bellow (pode ficar uma merda, mas vou) e queria fazer também sobre Allan Bloom e aí começa tudo de novo. Estou descobrindo que tem não sei quantos autores Nobel, muitos, dezenas que não estão publicados no Brasil. Uma vez a minha tia me deu uma coleção com todos os livros que ganharam Nobel e eu, por fome, vendi a coleção. Porque no Brasil é assim, você acredita que, em tese, a cultura supre outras coisas [e é verdade], mas se a gente começa a chegar a um ponto de inanição, vende os livros. Pode coisa de país mais quintomundista do que vender livro porque não tem dinheiro?

Então pronto. Podemos começar a falar de alguma coisa, talvez, da Opção Vital por aí. Como uma banana ou leio um livro? Come a banana, gritarão todos, ululantes, achando que estão abafando. E aí eu olho sério, fico triste e pergunto: por quanto tempo?

Essa é a minha questão existencial: aprender, pra quê, pra quem e, a obra concluída deixá-la onde? Com quem? E mais: quem me ensinará, quem me encaminhará? Sou eu mesmo que me encaminho e procuro coisas que o Orientador não dá, não dá porque não sabe, porque, como eu, não tem acesso. Essa é a grande questão da Opção Vital.

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Opção Vital

Enfrento a questão (que me imponho) da opção vital. Penso um pouco sobre o que é, o que pode ser a Opção Vital. Posso seguir vários caminhos que já se embaralham e fervilham na minha cabeça, inúmeras possibilidades, as mais variadas. Mas tenho que escolher uma.

Escolho então, como mero exercício [poso fazer outro em novo momento] a opção do ser humano em estado de exercício. O que vem a ser? Não sei, espero que me digam. Posso tentar pensar sobre isso. Falo de exercício para ter uma possibilidade maior de projeções. De variadas maneiras de ver e viver a vida.

O que é um homem? É um animal [racional] em estado de euforia, deslumbramento. Posso falar de um evento acontecido ontem [para o texto não ficar datado, pois foi antropológico]. A parada gay. Não se sabe exatamente para que serve uma parada gay. Sei que reuniram na cidade de São Paulo dois milhões e quinhentos mil participantes. Mas para que serve uma parada gay?, eu insisto. Não tenho muitas maneiras de ver, talvez existam várias, mas lembrando da época da repressão militar e de datas de independência em todo o mundo o que me vem são as paradas militares, onde há um desfile das forças armadas.

Esse desfile serve para quê? Bom, qualquer menino de seis anos há quarenta anos atrás achava o máximo. Ir, ver de perto, participar com bandeirinhas, perceber com espanto o tamanho dos tanques de guerra, dos carros blindados, da cavalaria, da força aérea e toda aquela coisa que está ali com o objetivo de, à título de festa, mostrar força, domínio. Hoje, os meninos preferem ficar na internet ou nos vídeo games.

Mostrar ao povo que tem um exército e demais forças sim. Que existe e está pronto para entrar em ação, também. Isso pode ser visto nacional ou internacionalmente. Mas poderíamos festejar a independência com palhaços fazendo graça, com truques, com dança. Não. É uma imposição de força, de demonstrar as forças que estão disponíveis.

Que militares existem e estão disponíveis e podem se juntar de uma hora para a outra, prontos para um enfrentamento eu sei. E uma parada gay? Sem dúvida é mais alegre, divertida e colorida [até pelo contexto/tradução da palavra Gay], uma parada onde há música e pessoas travestidas das coisas mais bizarras, entranhas, muitas vezes tão desagradáveis quando uma metralhadora.

Bom, fico aqui pensando e não vejo muito mais, parece que vou ter que terminar esse texto por agora (sem falar da idéia inicial) porque a resposta já está dada. A parada é uma demonstração de força de homossexuais. Que existem homossexuais todo mundo sabe, da mesma maneira que sabemos que existem militares.

Mas o que eu tenho a ver com os homossexuais? Tenho a informação que até alguns anos atrás eram mundialmente considerados doentes mentais, tratados por psiquiatras e que isso mudou e passou a ser percebido como uma Opção [aqui declino de comentar]. Esse é o fato.

O homossexual é a pessoa que tem mais prazer se relacionando sexualmente com pessoas do mesmo sexo. Ponto. Os travestis, pansexuais e todas as variações são outra coisa, são disfunções da personalidade, do self, que se imaginam e dão vida a uma outra pessoa, a uma mulher. Um travesti nada mais é um homem fantasiado de mulher. É uma aberração? Cada um deve ter sua opinião.

Mas o fato dessa transmutação da personalidade não está ligada exclusivamente ao homossexualismo. Não. Homossexuais são o que eu já disse. O resto todo é uma fantasia. Não sei, mas a mim parece que é uma fantasia tão agressiva quanto um tanque de guerra [acho o tanque mais sutil]. Por que, fora de um circo ou de uma casa fechada especializada nessa atividade, eu tenho que conviver com um homem barbudo e de voz grossa, maquiado, de saias e falando em falsete comigo?

Embora, infelizmente, mais uma vez eu não esteja sendo politicamente correto, a verdade é que eu não gosto não. Não quero ver um espetáculo. Não quero andar pelas ruas e ser abordado por esse ser híbrido e doentio que tem uma variação de personalidade que, entre outras coisas, eu não sei até onde vai [do ponto de vista psiquiátrico]. Se eu for u uma boate gay está bem porque EU estou procurando essas pessoas, se for a um show, a uma reunião que seja, tudo bem. Eu estou indo. Estou fazendo o que quero e eles também.

Mas por que devo aceitar eu estar passeando pela rua com meu filho e ser abordado por uma excrescência como essa, uma anomalia como essa? Eu não procurei e nada mais justo que não me procurem. Eu não brinquei, nada mais justo que meu modo de ser seja respeitado. Não por serem gays, homossexuais ou o que for, mas simplesmente porque devemos respeito, civilidade.

Não admito ser chamado de preconceituoso ou reacionário simplesmente porque não quero participar de um jogo. Se eu for jogar futebol, vou chamar alguém ou alguém vai me chamar e, de comum acordo, jogaremos. Portanto, minha relação com travestis deve ser de comum acordo. Como não há acordo não há relação.

Então a Parada Gay em São Paulo, com seus dois milhões e meio de participantes são uma demonstração de união, de capacidade rápida de mobilização, de força [agressividade?]. Como uma parada militar. Está muito bem entendido para mim. O que eu não percebo é porque essa demonstração não de homossexualismo, mas de travestismo deve ser tão reverenciada deve ser um fato extremamente midiático.

Em suma não me aprofundei no que interessa que é a Opção Vital. Dei o que talvez seja um exemplo de uma reunião de pessoas que optaram por algo, embora não saibam se conduzir dignamente. Como está longo, falo mais tarde da essência da Opção Vital.

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sobre a dignidade

Existe um embaralhar sem fim de sentimentos no poeta em estado bruto. Não sou poeta, mas sei, acho que sinto. Uma obra é apenas uma obra ou toda uma obra, mas falamos disso quando ela existe e não em sua gestação. Não é de estranhar tantos suicídios.

O suicídio é a única forma honesta de morrer. Não existe outra. A morte é o momento mais degradante da vida de um homem. Toda morte deveria ser por suicídio ou acidente. São as únicas maneiras em que não se perde a dignidade.

Reparo nos doentes de ambulatório, nos internados em hospitais, principalmente CTIs que não é humano morrerem assim. É mais humano ser queimado, nos crematórios que o tráfico mantém nos morros. A morte, como a vida, deveria ser sublime. Assim como o nascimento. Salvo raríssimas exceções, normalmente porcas, o nascimento é um ato conjunto. Existe um grupo que celebra a vida: a mãe, a criança que está nascendo e médico e enfermeiro. No mínimo, uma parteira. Mas é um grupo. Esse grupo está reunido em torno de um acontecimento que é motivo de alegria, a chegada à vida.

A morte, ao contrário, é feia quando não deveria ser. O que é , afinal, a morte? É um momento diáfano e sublime, como o nascimento. Não há o que sentir, não há porque tanto corre, corre, não existe justificativa para a dor de quem morre. Faz parte do nosso Mistério, do nosso lado místico o 'ir' assim como se 'veio'

Uma pessoa doente, sabendo que vai morrer tem obrigação de se matar. É uma obrigação ética. Mais: estética. É degradante a correria em CTIs e salas de emergência, os procedimentos agressivos para tentar salvar uma vida. A pessoa morre e está acabado. Morre toda amarrada a aparelhos inúteis, ganha pão indecente dos hospitais.

A morte deve vir de remanso. Devemos olhar para os lados de soslaio, olhar bem para o verde e o azul, ver bem que aquilo é a vida que vivemos, aqueles foram os locais e as pessoas que estão em nosso pensamento, nossa memória, nosso passado [tudo e todos serão sempre passado]. Ao contrário da reunião em torno do nascimento, a morte deve ser, por sua pavorosa (Possível) indignidade, um ato solitário.

Por que passamos a vida entre tantos afazeres e atos solitários e, no momento maior, o negamos, fugimos como quem acredita que, com o ajuntamento, não vamos morrer? Por que acreditar no nascimento e renegar ou se envergonhar ou postergar a morte?

Não admito, já que sou o dono, que disponho da minha vida e sou responsável pelos meus atos, não admito que me imponham um final degradante. Que imponham em vida momentos degradantes sim, porque estarei ali, pronto a dar rútilas patadas e seguir caminho. No leito da morte, indefeso, não.

Está claro que existe um lobby, que há uma indústria do tratamento intensivo, que rende milhões de reais. Acho mesmo que os médicos e empresários devem ganhar muito, encher a burra de dinheiro, acho que todo mundo deve mesmo ser endinheirado, mas não com isso. Inventem exames monstruosamente caros, tripliquem os preços das consultas, ganhem dinheiro à rodo enquanto há dignidade no paciente. Enquanto ele ainda é Ser.

Por isso falei dos poetas. Cabe ao homem, uma vez na vida ser poeta. Mesmo aquele mais tacanho, aquele de antolhos cor de rosa, aquele que não viu uma árvore, um pássaro, um metrô, todos têm o seu momento de poesia e, se não o tiveram ao longo da vida, devem fazer da morte um momento singularmente poético.

Não devemos querer os prolongamentos. Apêndice é para se extirpar e não para cultivar. Do que serve um apêndice de vida? Com que qualidade? Não fui bem aceito na última conversa sobre isso, então decidi publicar essa irrelevância aqui e retirar-me de qualquer reunião sobre o assunto. Não me interessa mais. Se não podem ver a poesia, como a vida, coisas e pessoas perdem o interesse para mim. Fim.

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povo

É o que digo que falta ao Brasil: povo. Cidadãos pensantes, que participam e usam sua prerrogativa de poder contra os governantes. Os franceses votaram pelo "não" à Constituição da União Européia. Não querem a invasão de emigrantes do leste europeu, não querem diminuição de emprego e aproveitam para, por tabela, demonstrar o descontentamento com o governo Jacques Chirac. Tudo num voto só. Toda a Europa temia (e aconteceu) a Atitude do povo de um país. Isso é o povo na acepção correta da palavra, do conceito.
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Café

O café sempre me pareceu, desde a tenra e chata infância, uma bebida bacana, imponente por si só, por sua natureza. Ao café não se precisa acrescentar nada. Ele desce pela garganta como água sanitária [gostosa], limpando, abrindo caminhos, dando realidade ávida quando se está modorrento.

Aprendi, ainda pequeno que o bom é tomar café em copo, copos cheios, daqueles que mais parecem uma Coca Cola choca. As xícrinhas tem sim o seu élan, mas naqueles bares enormes do centro da cidade, onde se compra ficha e a mulher de touca nos serve, empunhando a cafeteira de aço na mão.

O café traz uma realidade brutal à vida. São estágios diferentes de um mesmo mundo, uma mesma vida e até de uma mesma pessoa. O café diferencia um homem do outro. O café pede o cigarro, mais de um, o café mostra que estamos bem vivos, que tudo não passa de cabal realidade.

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sonhos

Sonhei com a minha tia. Não me lembro o quê, mas sonhei. Não me parece que tenha sido nada de dramático pois não acordei com os ares melancolólicos de quem passa a noite em pesadelos. Não. Apenas sonhei com a minha tia.
Nos romances do século XIX, principalmente os russos e os franceses, era muito comum que os homens sentissem dores de cabeça lancinantes e morressem. A minha dói, muito, desde ontem. Como uma melancia podre. Aguardo os sinais de um possível aneurisma [que não vem]. Claro que nos tais romances, a tuberculose era, disparada, a campeã. O protagonista ou a mocinha, um dos dois tinham severa, se não mortal, tuberculose. Em "O Imoral" de Gide, ele tem. Ela cuida zelosamente dele e pega a doença. Ele fica bom e ela morre. E ele fica livre para iniciar sua vida homossexual, mas não é isso o que eu ia dizer.

Ia falar que ontem a cabeça já me doía muito e me irrita porque não há motivos. Estive até brincando, dizendo que com essa idade não posso beber para não acordar de ressaca, com dores de cabeça e outras coisas. Não é isso. Com essa idade não podemos é nada. Fingem todos que estão muito bem, com suas bermudinhas patéticas (de primeira comunhão do início do século XX), tênis e meias se exibindo no calçadão em corridinhas de avestruz e nas academias, uns jecas de cidade grande. Como se não víssemos a deteriozação que vem à cavalo.

Basta o simples fato de olhar-se no espelho, quando se escova os dentes . Ali já se prenuncia a verdadeira e sórdida máscara humana da decrepitude que a vida traz, inexorável, a imagem das carnes e peles e cabelos que definham, se soltam, desprendem, caem, como baratas regadas à Detefon, a cabeça parece desproporcional ao corpo, como se fôssemos "pequenos e cabeçudos como um anão de Velásquez". É como numa acusação voraz e, como todo mundo já leu, "Toda acusação apavora". Não é isso. Ou melhor, não é bem isso. Mas pode ser.
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29.5.05

Arrelia

Agora que não há mais tempo, que vejo o final do universo que dizem que existe, bom, se for isso mesmo o que resta? Não sei, não posso parar simplesmente por isso. E, por outro lado, se não posso parar tenho que decidir o que eu penso para mim que deve ser universal. Não dá mais pra ter pensamento diferenciado. A filosofia ou a arte. E se escolho um, o grupo deve corresponder.

Torneiro mecânico ou palhaço, ou um ou outro, mas um fica no torno e o outro no circo fazendo a garotada rir muito (que eu acho muito mais interessante porque leva felicidade) porque também não dar mais pra olhar cabelos brancos e não pensar em prazer, em dar, em levar felicidade, distração

Chega de política, dessa coisa boba toda porque não adianta mesmo (ou se adianta deixo pra outro, tô fora! quero mais. Esse é o problema que embute a solução: querer mais. Simples assim.

O que não dá é pra levar mais adiante, fingir que está fazendo uma coisa que é boa sabendo que não é, me lembra aquelas lojas chinesas de 1,99 e olho pra cara dos chineses e tenho medo de ser esfaqueado.

Também não tinha que entrar chinês nessa história tava falando de palhaço e lembrei que o maravilhoso palhaço Arrelia da minha infância morreu, tava falando dessas coisas boas e não de quem quer ficar ganhando, ganhando, ganhando....pra quê? Morrer no Copa D¿Or?

Então eu olho para um lado e vejo todo mundo iletrado e feliz, olho pro outro e vejo todo mundo vendo ópera no municipal, mas não tem música na rua, como na Alemanha, nem o pessoal da cerveja quer sair da comunidade e eu digo e desdigo, digo e desdigo.

Sabe aquele cubo que v. abre e sai uma mola enorme com um palhaço na ponta? Pois é. Quantas vezes a gente tem que abrir e fechar esse cubo, essa caixa até criar alguma reação em quem mexe, pra que tome uma Atitude? Quanto tempo mais? Heim?

É pra desistir e viver normalmente ou não? Ou é pra ficar gritando no megafone improvisado de cartolina velha? Qual é o quadro que queremos pintar? De quais poetas mortos?

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A troca

E em tudo isso que eu disse abaixo não vai nenhuma, digamos, ascensão para lado nenhum. Não, absolutamente, não. É exatamente o contrário, o que eu quero é me aproximar da massa que não me conhece e me apresentar não como diferenciado e se sou diferenciado o sou porque todos somos. Mas não é isso, o que eu quero é outra coisa,

Eu quero comungar com as pessoas com o povo, o populacho e quero que não haja mais necessidade dessa sórdida perseguição entre eles e eu onde eu ganho sempre porque são iletrados e burros. E talvez não sejam, trate-se de uma visão distorcida de quem está olhando de outro lado.

É isso. Estou de outro lado, digamos assim. Vamos esquecer desse em cima e embaixo, burro e inteligente. Tudo isso também é uma realidade, mas não é dessa realidade que eu quero falar porque o que eu quero é reverter essa realidade. Nem que para isso eu seja o bobo da corte.

Isso mesmo, quero ser o bobo da corte e dizer que se querem amordaçar a imprensa e o cinema, se o presidente quer expulsar jornalistas do país, quero dizer a esse povo que ele tem poder, que ele errou na eleição, mas ele tem poder. O homem que cuspiu no Jefferson e depois diz que é seu melhor amigo, que a ele daria um cheque em branco.... Então bom é o Jefferson (e já estou em campanha!)

É só o que eu quero. Dei um exemplo político porque está aqui na cabeça agora, mas acho que podem ler Casa Grande &Senzala, podem ver os filmes de Bergman, podem tudo. O que falta? Gente que faça coisas.

Posso me oferecer, mas quem sou eu? Ninguém. Posso, no máximo, ser mais um a me oferecer, a participar dessa mudança, dessa virada que a massa vai tomar e penso ainda que a mudança que refiro em mim tenha essa outra implicação.

Penso que a mudança em mim pode muito bem estar ligada à mudança das pessoas porque se me retiro das pessoas é porque elas não percebem e não por elas próprias, ao contrário, por elas estou aqui, pronto para começar amanhã de manhã [ou hoje, se preferirem] até porque eu não sou nada mais nada menos do que uma dessas pessoas de quem falo.

E, se por qualquer motivo, não sou, estou num ângulo outro, muito bem, convençam-me ou me deixem convencê-los. Não quero a ditadura do conhecimento porque não acredito nela, acredito na arte, na estética da vida.

Isso falta à todos: Estética da Vida. É desesperador, aviltante você olhar do camarote e ver passar toda a turba que não soube, que viveu e morreu e não soube que tinha arte, que tinha a tal maldita estética da vida.

Ou mudo eu ou mudam eles. Alguém tem que convencer alguém, grupos organizados que sejam, movimentos verdadeiros (e não essa picaretice comunista terceiro mundista), pessoas que se proponham a entrar, de cabeça, de fazerem a sua parte. Vamos lá, se têm um projeto bem, apresente-o. Se não têm, vejam o meu. Vamos sentar. Vamos brigar! Vamos errar melhor!

Tudo isso sem esquecerem que não discuto com iletrados, sou rigoroso, tenho pompa, dou e quero troco. Troco maior do que dei. Caso contrário, esqueçam tudo o que eu disse e me deixem em paz

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Em processo, eu acho...

Estou conversando com pessoas sobre suplementos literários. Não os vejo muito. Existem sim, como algumas tentativas de roda literária e até um esforço da Travessa de Ipanema, a grande, por exemplo, de colocar trabalhando pessoas mínimamente informadas.

Não sei se é isso. Um dia eu estava lá e tinha um lançamento qualquer, coisa pequena boba, mas as pessoas pousavam as taças de vinho branco em cima dos livros que estavam nas bancadas.

Aquilo me irritou um pouco [muito!]. Por que, depois, eu vou ter que comprar um livro com uma marca de fundo de copo? São essas coisas que me incomodam em sociedade, não me deixam à vontade, eu acho que é isso. Tudo bem que não precisamos do rigor extremíssimo do real Gabinete Português de Leitura (aquele do clipe do Caetano).

Eu tenho pra mim que não é uma coisa nem outra e ainda acho que a internet é mal utilizada nessa área. Tenho pensado nisso, mas como estou de cara enfiada em dois projetos, minha casa tá uma zona e minha cabeça uma zona ao cubo. Minha cabeça realmente tá zoneada, tem coisas acontecendo. Mudanças muito profundas, mudanças que são psicanalíticas, existenciais e culturais.(Só)

A mudança de agora por exemplo, dessa envergadura, acho que é a segunda na minha vida e a primeira pensada, a outra, me parece, foi mais acontecendo e eu deixando, nem aí. Essa não, tem método. Mas não era isso. Eram esses projetos que estou fazendo para mim e as mudanças em mim que não são a mesma coisa. Os projetos rendem obras ou dinheiro, a mudança em mim leva não sei exatamente a quê, é uma coisa que vou experimentar.

Deixa até eu falar um pouco dessa mudança... eu fico achando que é uma coisa que vem nascendo em mim, vem crescendo, vem tomando corpo há muitos e muitos anos e eu venho resistindo e/ou, pior, não entendendo. Tomando determinados sentimentos como uma coisa que eles não são.

Talvez assim os homens mudem. Claro que tem os casos do cara que sai pra comprar cigarros e no caminho vai para o aeroporto e pára em outra cidade e começa uma vida nova. Esse, eu acho, é o caminho mais fácil. O outro são mudanças sutis, sentimentos e acontecimentos e conhecimentos que vão se entranhando na gente. Que ora causa causam um incômodo que não definimos bem, ora causa uma angústia boa, buscando alguma coisa que ainda não vislumbramos bem.

Fico pensando que a grande, esmagadora maioria das pessoas não devem passar por esse processo de mudança até porque ele não é objetivo, é abstrato, espiritual. Não é terminar um casamento ou mudar de emprego ou de cidade. Não é outra coisa completamente diferente, muito mais profunda. E o profundo do outro, imagino, não é o meu profundo.

É como um livro, A Casca da Serpente, que é você, você que está mudando.
Então eu acho que, na medida em que isso vai se consolidando, a gente vai se percebendo diferente e percebendo os outros de forma distinta. Trocamos gostos, opções, acho até que as disponibilidades do abstrato mudam levemente, diria que, à longo prazo, mudaríamos até de signo, se me entendem.

E é engraçado porque eu falo com muito poucas pessoas sobre essas coisas, escrevo aqui porque aqui ninguém vem, só um brincalhão ou outro. Mas eu falo de um prisma de cores, uma escala de cinzas que a gente vai percebendo. Quer um exemplo? Olhe atentamente para o ponteiro dos minutos de um relógio que você VERÁ que ele está andando. Difícil é a gente se concentrar para perceber. Então eu acho que depois de tudo isso, eu tenho que me concentrar em mim.

Claro, tenho minhas anotações mais sérias que estão logo ali, que me servem para reavaliações, reflexões sobre a vida que levei. Porque é uma questão de ser honesto, não é? É claro que eu posso viver 100 anos, mas eu sei que não vou. Tenho 50. não tenho medo como pensam alguns idiotas, não é isso.

Não é medo, é a necessidade de perceber e, principalmente ir caminhando um pouco mais seriamente, definitivamente pela vida, com passadas que marquem mais (em mim e não na areia). Fico pensando que talvez seja um processo difícil de se entender lendo assim. Por isso os grupos de discussão, mas, ao mesmo tempo, os grupos se auto condenam por não estarem espiritualmente, digamos assim ou filosoficamente preparados.

Ou outra: podem estar preparados sim lá para as coisas deles que podem ter um valor imenso, mas que para mim são absolutamente irrelevantes. Uma enormíssima quantidade de coisas ficou, de uma hora para a outra, completamente irrelevante, totalmente dispensável para mim.

Até porque tem que conversar muito pra entender que eu falo em suplemento literário [como comecei esse ensaio], mas que é outra coisa, não estou aqui preocupado com pilhas de livros lidos ou a ler. Absolutamente. Falo de outra coisa, falo de um momento em que tudo está expresso, que preciso apenas ordenar e propor, deixar que o outro veja e critique ou se envolva.

Não vou escrever 'continua' no final para não parecer brincadeira, não ficar risível, mas eu tenho que voltar a esse assunto em outra hora, com mais calma, com as coisas mais claras para parecer menos louco. Na verdade, eu preciso me dar mais e receber mais, talvez, genéricamente eu tenha que ser mais claro e ao mesmo tempo [como é difícil!], mais complacente.

Me disseram uma vez que não somos complacentes o suficiente e quando pensei no assunto vi que eu, principalmente, não sou complacente [até porque a complacência mal utilizada é o caos]. Então eu tenho que ser complacente na dose certa, complacente como quem mexe em algodão ou açúcar ou ainda paina...

Quando eu falo em parar com esse espaço estou falando errado, eu acho. Não é parar. É ir para outro espaço, outro tempo, onde as coisas possam ser mais bem colocadas, mais analisadas e sentidas sem sofrerem interferência externa porque aqui eu não tenho o direito de me furtar à interferência. Porque o que fazem aqui, essa entrada, interferência, interatividade também é sublime [a seu modo, mas é]. Só que não é disso que estou falando.

Fico pensando objetivamente quantas pessoas entram e percebem o que está acontecendo, do que eu estou falando, o que eu quero dizer com algodão e açúcar [e paina] sublimes e em como ver o ponteiro dos minutos andando. Claro que eu minto quando digo que quem leu três posts leu o blog. Claro que não é, nem poderia ser, nada disso. Tem que ter paciência, acho que é isso. Mansidão.

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MAR DE LAMA NO GOVERNO FEDERAL

Não é necessário escrever nada aqui sobre as trapaças, a vigarice, a roubalheira a ditadura branca instalada no Brasil. Basta assistir telejornais, ler jornais, resvistas semanais. Está tudo lá. A capa da revista VEJA n°1907 de 1°de jungo estampa o rosto de Roberto Jefferson da mesma forma que fez com o irmão do Collor. Agora sim, está chegando a hora. Não deixem de ler. Não fiquem desinformados.
FORA LULA !
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"Você pega os jornais e não sobra pedra sobre pedra no cenário político, pinta um clima de fim de feira moral, de desesperança, de indignação, de salve-se-quem-puder, tudo ao mesmo tempo"
Ricardo Kotscho - ex Secretário de Imprensa da Presidência e amigo de Lula
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Tolerância

Não sei se pela própria semântica da palavra, gosto muito de falar sobre neurastenia. Neurastenia é sinônimo de Ser. Não é um adjetivo ou uma qualificação dentro de determinada patologia. Não. Neurastenia [assim mesmo, nessa forma anacrônica, arcaica de dizer] é um fato real, comum a todas as pessoas sem exceção. O que há é outra coisa diferente, como direi, uma espécie de forma de vergonha por ignorância ou, na maioria das vezes ignorância pura mesma, burrice, uma certa touperice que embota os homens.

Todo homem é neurastênico. Caramba, eu fico doente conversando com pessoas que ficam falando das doenças de todo mundo sem reconhecerem a sua mais profunda e sórdida neurastenia. Falam de doenças, de tratamentos, falecimentos, de melhoras, curas e recidivas, mas sempre no outro.

O homem é tão neurastênico quanto a sua própria existência. De uma certa forma a neurastenia realmente deveria ter outro nome, algo mais comum, como "nariz" por exemplo, pra que fosse mais bem entendido. As neurastenias dividem-se um milhares de formas, matizes, escalas.
Tem o que tem mania de limpeza, tem o sujo, tem o arrumado, tem o desarrumado, tem o que fala num dia e no outro não cumprimenta, tem o que bebe pra esquecer e o que esquece de beber.

Daí que de maneira ampla, a neurastenia é exatamente igual ao ser. Todo mundo diz "Eu Sou isso e aquilo", quando, na verdade profunda e cavernosa, deveria dizer "Eu Sou um Neurastênico que isso ou aquilo". Inclusive é uma palavra bonita e gostosa de falar e ouvir. É melodiosa a neurastenia.

Mas as coisas desse estágio ficam por aí. Todo mundo é neurastênico assim: simpático, engraçado. Só. O que me incomoda muito são os neurastênicos doentes, que tem muitas outras coisas e, como não admitem nem a diáfana neurastenia, o que dirá de suas psicoses, autismo, TOC, esquizofrenia e fobias de uma maneira geral?

Tem uma coisa mais chata do que conversar com paulista, é conversar com paulista neurótico que acha que não é [neurótico, porque paulista todos têm um neurótico orgulho e prazer de dizer]. Então é isso. Como eu estou começando a cansar de perder tempo, começo agora a ficar mais seletivo, a ir valorizando, selecionando os homens que me cercam.

Por que eu tenho que ouvir besteiras, fingir que estou, no mínimo concordando ou que aprovo retumbantemente se não é verdade? Por que um capadócio, cabotino pode sentar na minha frente, desfiar magotes de loucura, estupidez e ignorância e eu tenho que ficar mexendo a cabeça feito vaca de presépio? Heim?

Não. Chega. To muito velho pra isso. Aí vão dizer que eu fico menos social, que eu me afasto, que eu sou sozinho, que é importante ter amizades, participar de grupos, ir a festas e essas coisas todas. Muito bem. Façam mesmo, com bom proveito ou proveito bovino não auto-reconhecido porque eu não faço mais. Tolerância zero! Deixo o papo com os chatos para outros [chatos], por favor, me neguem o comprimento.

E por que essa história? Porque eu tava conversando exatamente sobre isso ontem e percebi uma coisa interessante que já rondava a minha cabeça, ainda meio sem forma (a idéia e não a cabeça). A idéia é que a gente não pode se apavorar com a solidão. Eu não me vendo barato. Não preciso falar, posso viver mudo tranqüilamente. Assim, só falo com gente que entende ou tenta, que faz por onde, que admite ser, no mínimo, neurastênico.

Não quero mais ver nenhum ser perfeito na minha frente. Antigamente, quando eu era mais moço, numa troca ignóbil, eu ficava falando e andando com pessoas que não eram nada, não sabiam nem que eram, essencialmente, neurastênicos. Eu era um vendido.Um vendido barato. Medo de estar só. Agora não. Não pago pra ir a rodinhas, não falo com quem não entende, atravesso a rua quando vejo um chato ou burro e assim por diante.

Fico pensando que se todo mundo tomasse uma atitude assim, meio radical, a humanidade seria melhor. Haveria um período de 'rearrumar a casa', milhões de solitários, mas, aos poucos, as pessoas iam se dar conta da devassidão moral em que viviam e se aproximariam novamente, mais doces, coerentes, mais neurastênicas e menos doentes [ou chatas]

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Não Leia

(Esse não vale à pena ler)

Inúmeras vezes já falei que domingo é um dia desagradável pra mim. Não gosto. É chato. A televisão é [MAIS] chata, os jornais são chatos, as pessoas tem uma cara de chulé, andando pra lá e pra cá sem saber o que fazem com seu tempo.
Tem a turma [já sabemos da onde] que faz churrasco regado à cerveja quente em copo de plástico descartável, tem gente que senta naquele sofá forrado de plástico (aqueles, das Casas Bahia) da sala e fica vendo o Faustão ao lado da patroa, têm os que dormem quase o dia inteiro dizendo que estão repondo energias ou praia ou Maracanã....enfim, tudo chatíssimo, de deprimir defunto.

Mas o que eu ia dizer? Ah, ta, era do jornal mesmo. O jornal é muito chato. Milhares de colunistas falando de nada, falando de amenidades tolas, bobas, que não interessam a ninguém. Eu reviro o jornal inteiro e não vejo nada, leio um pouquinho aqui e ali e vai me dando sono. Putz, eu, que acabei de acordar, com sono por causa do jornal. Guardo tudo pra dar por porteiro porque ele deve vender ou embrulhar peixe [qualquer opção é melhor do que ler].

Tudo bem, eu sei que o jornal de domingo tem que ser fechado no final da semana, que acontece pouca coisa relevante em política por exemplo, porque estamos vindo de um sábado. Tudo eu entendo. O que não altera nada, o jornal de, assim como o próprio domingo, é chato.

Passo na praia de Copacabana e aquelas pessoas andando de bicicleta alugada, na Lagoa, aqueles pedalinhos velhos, nostálgicos de uma época que não foi... enfim, tudo assim, morno, meia bomba, como se a população estivesse atônita sem saber o que fazer como se o mundo fosse acabar amanhã.

Se disserem um dia que o mundo vai acabar no dia seguinte, o anúncio do apocalipse será num domingo. Porque as pessoas já estão acostumadas a vadiar sem vontade, acostumadas a não saberem como aproveitar esse último diazinho.

Aí, como não rola nada mesmo, começa-se a procurar coisas.... lavar roupa, limpar o teclado do computador, cortar a unha do gato, pensar em escrever uma carta que está a meses para ser escrita e, portanto, não tem nenhuma importância.

Acho, talvez, que mais felizes sejam os que trabalham aos domingos: o vendedor de cerveja na praia, o médico de plantão, o motorista de ônibus, o gari, a polícia (quá, quá)... enfim são pessoas que tem uma razão para estarem 'vivendo' aquele dia modorrento e serão recompensadas com uma folga num outro dia.

Veja que até o Artur que é um lord, tem élan, um comportamento exemplar, um respeito ao próximo (eu) inenarrável, hoje me acordou com irritação, já antevendo o marasmo do seu dia [não sei explicar, mas o domingo deve ser chato para gatos e cachorros também porque esse 'não fazer nada' da humanidade deve contaminar os bichos.

Veja você esse texto. Tolo, sem graça, descontextualizado de tudo, sem razão de ser, feito unicamente pra passar o tempo, já que a medicação pra neurastenia já foi ingerida. Enfim, desculpem.(Avisei para não lerem)

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O Verdadeiro Estadista

Têm umas pessoas nessa vida que eu babo o ovo mesmo, sou tiete, tenho admiração. Normalmente pessoas inteligentes e de Atitude. Meu último herói é o Roberto Jefferson. Alguns, de pundonor exacerbado, me torcem o nariz. Não sei porquê! Senão vejamos: o governo Collor dividiu opiniões, a meu ver deu início a muitas coisas boas de que até hoje tiramos proveito. Mas foi um governo de uma corrupção às claras, um grupo de políticos que, ao contrário dos outros todos, nos jogavam na cara sua corrupção, nos humilhavam com sua ostentação de riqueza. E por essas e aquelas, foi o Presidente destituído.

Mas deixem a 'amnésia de conveniência' de lado, e lembrem quem foi o homem forte da tropa de choque do Collor? Jefferson!. Quando todo os ratos já corriam e se escondiam nos esgotos, todos os ministros ficavam na sombra com pânico da mídia, quem ia lá, de peito aberto a galhardear, defender dignamente e corajosamente o presidente Collor, mesmo vendo que o caçador de marajás não tinha mais chance, até o último dia? Jeffeson!. Lula e o PT falaram e fizeram o impossível contra esse homem impoluto, um verdadeiro estadista.

Daquela época, sumiu o Collor e sua esposa que parecia uma boneca Barbie gorda, sumiram os ministros (cadê a Zélia com seus dentinhos afastados iguais ao da Condolessa Rice? Cadê o outro, o Cabral, o amante, que foi notícia dançando tango com a super ministra?). Todos caíram num ostracismo político retumbante.
E quem agora renasce das cinzas? A quem o super coerente Presidente Lula diz que "daria um cheque em branco", que é seu amigos de confiança? Jefferson!.

Se Collor, eleito democraticamente, viu em Jefferson um aliado importante e um defensor valoroso (debaixo da chuva de pauladas de Lula e do PT) e se agora, nesse delírio macunaímico o povo jeca, mas brasileiro deu o cetro a Lula e este vê também no mesmo Jefferson do Collor um homem a quem "ele daria um cheque em branco", o que posso concluir? Nem Collor, nem Lula. O verdadeiro homem público, o forte e corajoso, o bastião da República, o grande estadista é, no fundo, Jefferson, é óbvio!
Portanto, não me venham empurrar ninguém. Meu candidato, merecedor de toda a confiança, a quem eu daria minha cédula em branco para que ele fizesse o que quisesse, o homem que merece chefiar a mamata, maracutaia de Brasília é ele. Sem medo de errar nem de ser feliz (e já fazendo ferrenha campanha) meu candidato para Presidente da República é ROBERTO JEFFERSON!

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Inveja

O Globo, na sua ferrenha, quase insana e merissidísima campanha contra Rosinha Garotinho, estampa nas manchetes de hoje que a Segurança do Rio é feita clandestinamente por oficiais da PM. Eu entendi perfeitamente O Globo, acho que tem que bater odiosa e diariamente na pulha da Rosinha, bater com um gato preto e morto na cebaça daquela gente até o Rio se livrar dessa corja, mas fico pensando aqui. Na verdade, o que eu sou é um retumbante invejoso, o que eu queria mesmo era contratar um desses coronéis dos quartéis da PM e andar cheio de carros de PM à minha volta ( de preferência com luzinhas e sirenes ligadas) dando (e alardeando!) que tenho sim - e muita - segurança. Só não faço porque não sou endinheirado, se pudesse fazia.

Melhor isso do que andar à mercê dos assassinos traficantes.Quero morrer de enfarte e não por bala perdida! Se móro num páis vergonhoso e não consigo ou não tenho capacidade de sair, um país que não tem Segurança Pública (nem Saúde, nem Educação, nem nada!), com governos municipais, estaduais e federais que pouco se lixam para o povo [apesar do Lula ter prometido na campanha passada e não ter feito nada, ao contrário. Tomara que ele prometa novamente nas próximas eleições para ser reeleito no primeiro turno ou sem eleição, como o Fidel, ou ainda por aclamação popular como o exótico Chavez!] se móro nessa terra de quinto mundo, que há decadas é um mar de lama, quero, pelo menos, não afundar!*
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28.5.05

Da serra até a sumida

Preciso confessar uma coisa porque se não o fizer vou ter um derrame ou vou tomar soporíferos na veia da testa que não farão efeito. Primeiro, fui a Secretário, lugarzinho agradável na serra.

Desagradável é ser brasileiro e morar no Rio de Janeiro, cidade sitiada por bandidos, marginais, assassinos e todo o Houaiss de adjetivos. Passar pela linha vermelha é a mesma coisa que ser a mulher do atirador de facas daqueles circos mambembes da época da minha avó.

Fomos, consigamos passar sem nenhuma bala achada ou perdida [que eu tenha visto, pelo menos]. Algumas blitzes, mas tudo bem, fazer o quê? Na volta aconteceu um caso de somenos importância, mas, engraçadinho, vou contar aqui. Na volta, como eu dizia, não sei de onde, de que carro, de repente, me aparece um estepe, isso mesmo: estepe com roda e pneu, voando e cainho no meio fio e rodando como se estivesse ligado a um carro por mais de um km. Se aquela coisa voa em cima do meu carro me matava e ainda abreviava a vida da minha mãe que já é velha e por ser velha, levei à passear na serra.

Na volta teve essa do pneu, teve uma outra blitz com os PMs devidamente de revolveres e escopetas nas mãos, mas, apesar da minha cara, não nos pararam. Teve ainda mais uma. Perto já do túnel Rebouças [sim, fomos e voltamos pela Linha Vermelha incólomes] ainda teve uma última emoção, um desastre com um motociclista [desses motoboys] e não quero ser agourento não viu, mas pelo estado da motocicleta...

Deixei então a minha mãe em casa, dei uma olhada em volta, nenhum conhecido e me mandei para a Rua Bolívar, esquina com N.S. Copa, no cinema Roxi à pretexto de comprar cigarros Gauloises numa charutaria que vende cigarros importados ali perto. Na verdade, todos já sabem, minha intenção era continuar a entrevista com a mendiga que fiz rapidamente ontem [ainda que me custassem mais dez paus]. Não, não tinha o cigarro que estava em falta, como explicou o gentil português da charutaria. Voltei-me então para o verdadeiríssimo motivo: e a mendiga..... não estava lá.!

Mas como?! Como num sábado à tarde, dia de grande movimento, [nessa nossa Copacabana que é uma mistura da Tanzânia com Bombain] dia que esmolamos à vontade porque chovem reais à farta, compra-se aquelas balinhas nojentas à rodo, como justo no melhor dia da semana a mulher não estava ali? Pois não estava. Andei um pouco mais pra lá, um pouco mais pra cá, olhei com bastante atenção, mas não haviam dúvidas: a mulher que estava lá ontem, hoje (dia mais do que pródigo para a mendicância e afins) não estava.

Encostei na grade perto do cinema e as patricinhas e mauricinhos que passavam me olhavam como quem olha o ser mais ignóbil da face da terra, uma girafa chamaria menos atenção do que eu ali. Acontece, sempre tem alguma coisa, acontece que tinha uma menininha de uns...8 anos talvez (essas crianças são difíceis da gente avaliar a idade) junto com uma outra bem menorzinha de uns 2 anos.

Essas crianças fazem parte desse esquema brasileiro avançado de ganhar dinheiro que são as mães que se escondem e deixam os infelizes ali ao relento para provocarem pena em quem passa ou então essa gente maravilhosa que aluga crianças para fazer esse trabalho escravo. Eu vejo isso e vomito [para dentro], me desgosto mais e mais dessa terra [e há quem não saiba o porquê. Mas com a reeleição do Lula vai melhorar, companheiro!]

Abaixei-me ao lado das criancinhas [fedorentíssimas] já com uma nota de dois reais na mão e perguntei pela mendiga, a de ontem. Eles me olharam com os olhos fundos da subnutrição [mais uma punhalada no meu peito e mais desprezo por essa terra, esse governo, esses políticos, por tudo!], enfim olhos de subnutrição e disseram que ela hoje não veio. Não queriam falar muito, perguntei porquê e tal, mas eles não sabiam quase falar.

Sem os cigarros franceses [ou gauleses?] e sem falar com a minha nova mendiga voltei para casa e, não posso me furtar a mentir mais do que já minto. Na verdade, vim torcendo para que a da minha rua, A MINHA mendiga estivesse por aqui, mas qual! Necas de pitibiribas!

Nem precisam dizer. Acho que esse assunto já está morto e enterrado e ainda assim, na próxima sessão vou tratar desse assunto, desse súbito e mórbido interesse por mendigas [embora ache uma reflexão sociológica e antropológica perfeitamente razoável].

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Sociedade para Poetas Mortos ou
O copo de Leite


...das pessoas que eu encontro, muito poucas me são caras. Minto. Caras, todas são. Como sempre, eu começo a escrever uma coisa que não tem nada a ver com o que eu realmente quero dizer. Tenho uma amiga que conta que, quando eu era gerente de um determinado Núcleo de Criação e convocava reuniões com a turma toda era muito engraçado porque eu ficava falando frases soltas e desconexas, rodando feito uma enceradeira, gaguejando, citando pinturas e livros ou filmes até que conseguia começar. Entrar no assunto propriamente.

E que quando entrava falava desbragadamente, aterrorizantemente, como se, apoplético, eu fosse virar tudo de cabeça pra cima, me rasgar, essas coisas que a gente faz quando está no auge do entusiasmo, da alegria das coisas estarem nascendo ali. Sempre fui muito "parideira."

Nem lembro como começamos a falar disso, sei que foi no barzinho ali na esquina, entre chopes e tequilas. Então, ali, aquele grupo de 15 pessoas me eram caras, mas uma ou duas eram as que eu sabia que realmente estavam 'dentro', estavam entendendo, estavam, muitas vezes, se adiantando em pensamento a mim, outras se atrasando, mas sempre com aquele olhar e corpos ávidos de fazer, conceber, úteros sedentos ambulantes, desde a primeira idéia até, muito tempo depois, a obra concretizada.

Então nesses grupos tinham os chegados e os que sabiam. O que me interessa é os que sabem, os que estão vendo as mesmas coisas que eu, imaginando as mesmas coisas, pretendendo invadir, rasgar, dramatizar, mas serem seres pensantes.

Disse mal. Não que vejam as mesmas coisas que eu no sentido de concordarem comigo. Não, verem as coisas e concordarem ou não, acrescentarem ou subtraírem, me desbundarem e me enaltecerem.

Porque, no fundo, eu quero é isso. Estou mesmo numa fase que não tenho [mais] ilusões tolas, as minhas ilusões são fantásticas e fenomenais...- os sonhos... delírios - as atitudes... avalanches - as dores... brutais. Quero que não se durma mais pensando naquilo ou antes, que se durma muito e perca a hora porque dormimos e sonhamos com aquilo e aquilo continuou de onde estava na vigília e, passada pelo sonho, continuará.

Porque as pessoas são riquíssimas, as pessoas são mais, o que eu quero é pegar uma pessoa e fazer ela, falar tudo, chorar tudo, enlouquecer, me amarrar em correias, me internar e sair lá na frente, como quem emerge de um lago de contumaz [embora aterrorizante] euforia.
Pessoas têm que ser eufóricas, não podem parar e ficar olhando, não podem titubear, não podem se embriagar das suas seriedades. Sério é o vagabundo que ri, penso.

Não era bem isso ainda. Mas eu não vou mais exemplificar não porque o computador já me olha doentio, com seu ar idiota e doentio que os computadores têm e transmitem pra gente. To fora, quero meu lápis de cor e Big King cantando pra mim. O resto, vocês que se virem para aprender.
Agora mesmo, eu e minha fiel companheira de todas as horas estamos fazendo uma busca planetária [planetária de verdade, não é maconha não!] atrás de um livro. Isso não é besteirinha de post de velha, nem pra menopauzianas [adoro, venero as menopauzianas] não, não, é a verdade nesse estado bruto que bate e arrebenta com nossos miolos e eles saindo e escorrendo pelos ladrilhos podem ser mais úteis. Podem, mas isso tenho que explicar numa outra hora se não vira piração.

Quantas pessoas a gente precisa para debater idéias? Não sei. 1, 2, 30, 400? Não sei. Se pudesse estar o mundo inteiro em uma mesa redonda em ia achar legal, ia ver finalmente as pessoas conversando.[Melhor que ONU com certeza]

Então, como hoje estou como uma pano de chão velho de tão humilde, hoje falo de uma pessoa que vai seguindo comigo nessa viagem. Porque a gente viaja em tudo e está aprendendo, eu acho que eu estou, a rever tudo e dar um salto qualitativo brutal, entorpecente. Não me importa se vou me embriagar do fígado sair aos magotes pela boca ou se tomarei poções soporíferas dignas de derrubar uma elefanta prenha.

Olha, eu to com a cabeça meio quente (são os desgastes, né?) então espero que sejam argutos e percebam que não é necessário nenhum Pentium 4 não, pode ser uma Underwood que sai tudo da mesma maneira, não são só os ingredientes é a mão que embala o bebê (não é um filme de suspense?).

Então é isso. Hoje somos dois e estou muito feliz. Amanhã podem ser 3 ou 4? Podem. Ou não. Não sei. Sei de começar a incrementar minha busca planetária em busca do Allan e depois rir das bobagens acadêmicas da metade do século passado nos EUA (isso se eu tiver saco de ler tudo porque Eric Hobsbawn eu li, mas a obra toda eu não agüentei.)

Do tribunal do júri, para a trepada cara com mulher italiana (que pode ser uma fragoroso fracasso na cama), da preferência por Coca Cola à três chopes, do Cristo com pinta de europeu aos dentes podres da juventude do século XIX e assim vai.... eu poderia gastar horas de eletricidade, deixar esse monitor de cabeça pra baixo enquanto leio Razão e Sensibilidade da Jane Austen, só pra dizer que li porque [antes mesmo] eu já sei que é chato, dos filmes que eu não vi aos que ela associa, da ida à serra e o livro vermelho que estava na minha cara e eu não achava [como todos fazem comigo até que eu os consuma em labaredas bestiais].... enfim.

Estou dentro de um aparelho de raio X (porque ressonância magnética é pra gente endinheirada), estou dentro do raio X pra que me veja inteiro, entenda tudo o que puder e me conte depois pra ver se eu apreendo alguma coisa de mim. Não vou colocar o diáfano "Contiua" aqui não porque vão ter outras modalidades do que é dito sem ser, necessáriamente uma continuação.
adiante!

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Viagra

Eu não entendi muito bem a preocupação de cientistas, médicos e laboratórios com essas pesquisas que podem resultar na conclusão que o Viagra causa cegueira. Primeiro que o estudo não é conclusivo. São especulações ainda, pelo que li.

Mas fico pensando, pensando, querendo não ter nenhum pensamento maldoso e morrendo de medo (agora eu fiquei paranóico com isso!) de ser políticamente incorreto.

Mas o Viagra é tomado por pessoas com baixa capacidade de ereção, não é isso? Parece que sim, afirmam todos. Essa ereção "baixa" ou "nenhuma" como dizem meus consultores é [na esmagadora maioria dos casos] justamente em relação às esposas, aquelas gordas que já tiveram 8 filhos ou aquelas pessoas nem tão atraentes ou feias como o Dr. Valcourt (quem lembra?).

Como todos já perceberam a linha de raciocínio, se o Viagra, além de dilatar as veias permitindo maior ereção, ainda por cima cega o infeliz do paciente, este estará sendo beneficiado duas vezes como num "círculo vicioso do bem": uma vez pela ereção e outra por, como num prato feito, não ver a baranga que está comendo. Não é isso?
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guardião

Tinha um cinema, quando eu era menino, não me lembro se em Laranjeiras ou no Largo do Machado que era imponente, faraônico mesmo, enorme que hoje o nome agora também me escapa [minha memória, cada dia indo mais embora]. Bom, na entrada do tal cinema tinham dois leões enormes de pedra e aquilo me impressionava muito porque quando a gente entrava, parecia estar entrando numa pirâmide, numa tumba faraônica ou lá sei eu. Sempre que eu ia, subia aquela escadaria e ficava olhando pros leões, majestosos, vigiando a casa de espetáculos e, ao mesmo tempo, recepcionando o público.

Pois bem, aqui no meu apartamento tem um sofazinho de dois lugares, daqueles bem vagabundos, que deve me acompanhar a uns quinze anos, daqueles que, tudo bem que hoje são velhos, mas mesmo novos eram ruins, ordinários, desses que a gente vê anunciando na televisão que custam quase nada nessas lojas grandes que vendem móveis e eletrodomésticos para os casais de renda muito baixa compram ao casarem.

Bom, no meu apartamento tem um, é um dos meus bens e já tão rasgado que sou obrigado a cobri-lo com uma não menos vagabunda mantinha dessas que esses homens vendem na rua, esses quase indigentes, que dizem que é colcha do "nordeste" como se isso significasse alguma coisa de melhor e, ainda assim, alguém acreditasse, desses que começam cobrando R$ 15,00 e acabam vendendo por R$ 8,00.

Pois o Artur tem mania de sentar num dos braços do sofazinho e fazer pose de leão. Se eu não tivesse simpatia, se não gostasse dele, diria que é ridículo um gato lambisgóia com ares de leão protetor.

Mas não era disso que eu ia falar. Era outra coisa ainda do Artur. Dia desses um amigo, gente boa, me perguntou porque eu falava tanto no meu gato Artur e eu respondi o óbvio (como as pessoas não vêem o óbvio!), que falava dele porque ele morava aqui, somos só eu e ele. Trata-se da minha companhia e está sempre fazendo alguma coisa, ora.

Pois então. O Artur continua numa infelicidade retumbante, mórbida quando a comida dele vai chegando perto do final. Eu não completo pra ver até onde consigo obrigar ele a comer e o bichinho, come, tenta, mas coitado, fica desesperado pra receber sua dose de ração fresquinha.

Fica tão contente que eu coloco a ração nova e ele em vez de comer o que quer de uma vez não. Vai, come um pouquinho, dá uma volta pela casa, come outro pouquinho.... mais ou menos como a gente fazia quando era criança que comia primeiro as coisas ruins do nosso prato, deixando as saborosas (como batata frita) para o final.

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27.5.05

O revólver é o passaporte, é a garantia da dignidade humana. O revólver nos redime porque nos dá autonomia cidadã. A arma de fogo é a extensão do homem, como um braço. Sem revólver, o homem é um fraco, um prisioneiro de si mesmo
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Eu já disse aqui que não posso fazer nada a não ser me lamentar como uma carpideira pela eleição do Lula. Isto aqui se pretende uma democracia e, se o povo votou, o que há para fazer ou falar? Nada. Respeitar e deixar o eleito governar.

Cabe apenas assistir, olhar o que estão fazendo (porque o que não estão fazendo é fácil ver, salta aos olhos, nos envergonha, deprime) Uma pessoa querida me disse uma verdade: o Lula viaja o mundo querendo vender o brasil no varejo, ele é um camelô do país.

Participa de foruns e reuniões que o único líder de outro país é o da Tanzânia. Muito bem, cada país tem o presidente que merece e não vamos ficar aqui a discutir o que está feito

Agora tem CPI pra investigar a vergonheira dos Correios. Os petistas mais honestos, que votaram à favor da CPI porque entendem que o PT é uma coisa e o Governo Federal é outra vão ser punidos. Ok. Paredón neles!

Agora, o Paloci diz que vai aumentar ainda mais os juros no Brasil. Mas já somos o país que pratica a taxa de juros mais alta no mundo todo! O que desejamos mais? Muitas "cabeças" de vantagem para o segundo lugar?
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Convite

Me ligam para saber se eu moro aqui. Sou eu mesmo, respondo já preocupado, porque voz estranha não há de ser pra me dizer que ganhei sozinho na loteria. Como vai o senhor e tal, gentilíssimo, o homem e eu preso de uma tensão Dionisíaca.

Como não tenho e faço questão que as pessoas saibam que não tenho paciência nenhuma, perguntei o que ele queria objetivamente. 'Bem', começou ele, 'é que gostaríamos de convidar o senhor para um coquetel no Hotel X, seu nome foi naturalmente selecionado, como não poderia ser e gostaria de confirmar sua presença ao nosso convite'.

Convite? Coquetel em hotel caro? Eu? Selecionado, 'como não poderia deixar de ser'? Não. Tem alguma coisa errada. Ou vou ter que pagar pra entrar, ou pagar pra sair, ou lá dentro vou ter que comprar um BMW ou vão me assassinar. Só pode ser uma dessas coisas, não tem outra, mas não perco a pose: 'Ah sim, e quando será mesmo o coquetel que o senhor me convida?'

'Sei, sei. Na Av. Atlântica, sei, sei, mas a que horas? Ah, meu caro, estou vendo aqui em minha agenda e este horário já está reservado para uma outra recepção. De qualquer forma agradeço-lhe imensamente a lembrança e o gentil convite. Passe muito bem'.
E catapum! com o telefone. Ora essa!

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essa modelo da espécie

Sempre disse que tenho poucos amigos na vida, mas esses poucos pra mim valem magotes de gente mais ou menos. Estava agora falando com S. ,uma amiga de muitos e muitos anos, uma pessoa por quem eu tenho uma admiração anormal. Que eu lembre, não conheço pessoa mais admirável.

Uma mulher que teve uma situação financeira melhor (e não perdeu por fazer qualquer coisa errada), que teve um filho e sempre o criou sozinha, pouco se lixando se o pai dava ou não dinheiro (que não dava). Ela trabalhava no emprego dela e nas horas vagas vendia roupas, sacolas enormes e pesadas que ela levava, bijuterias e lá o que rolasse pela frente.

As coisas da vida, esses possíveis inexplicáveis fez com que ela fosse trabalhar em outro lugar, longe de mim, e ela continuou. É uma pessoa bacana, inteligente, lutadora de verdade, dessas pessoas que têm tanta coragem e tanta disposição que nos deixam sem graça, com vergonha de reclamar das nossas vidinhas fúteis.

Ela teve os casamentos possíveis, depois parou, moça mulher ainda, e começou a fazer doces para vender no trabalho. Depois salgados. Depois doces e salgados. Depois tortas, bolos, doces e salgados. Depois encomendas para festas de aniversário. Por sua vez, seu filho é uma rapaz sério, honrado, estudioso que a compensa como nada compensaria. O filho que ela merece e que um dia vai sentir muita honra de ser seu filho.

Nada segura essa mulher. Arruma o que tem que arrumar, é assídua e boa profissional no seu emprego. Chega em casa e vai pra cozinha ficando muitas e muitas vezes madrugada a dentro entre frituras, fornos e panelas. Nada a detém. No dia seguinte está de pé as cinco e meia da manhã, arruma todas as encomendas para entrega, vendas, vai, faz e acontece.

Existe um tipo de gente misturada ao povo que é completamente diferente desse mesmo povo. São anônimos que fazem coisas interessantes, que lutam dignamente, que passam privacidades, mas não caem, que estão sempre olhando firmes para a frente, esperando o que vem para dar um jeito e reverter as situações adversas e saírem vitoriosas.

Essa mulher é um exemplo para mim. Além do grande, enorme carinho que tenho por ela, há mais, tenho orgulho de ser seu amigo e sempre que fraquejo penso nela, como os católicos pensam em seus santos. Penso nela que não é santa, é mulher, não gosto dessa palavra, mas pra ela tenho que usar: é, antes de tudo, uma honrada sobrevivente, uma muito honrada modelo do sexo feminino de verdade, sem bravatas nem chiliques.

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a mesma história outra vez

Eu acho que eu já contei essa história por aqui. Afinal "Eu não Existiria sem as Minhas Repetições", essa citação do maioral*. Vamos lá, então.
Desde pequeno, rapaz, eu faço minhas anotações em cadernos de capa dura, costurado, da marca Silhueta que são vendidos exclusivamente pela Casa Cruz. Lembrei agora que falei esses dias, mas vamos em frente. Todas as anotações que são para ficarem guardadas bem como os diários são escritos nesses cadernos.

De uns anos para cá, o dono da fábrica (me parece que é - ou era - uma coisa pequena, não sei bem), o dono morreu e os cadernos começaram a faltar. Eu ainda tinha alguns que terminaram também E nada dos cadernos voltarem à Casa Cruz. Tive de me valer desses cadernos tipo universitários, com espiral, um inferno. Um dia passo pela Casa Cruz e lá estão eles, agora com uma capa mais moderna. Me explicaram que tinham voltados a ser fabricados novamente e tal.

Tranquilo, comprei dois e vim para casa. Quando estava na metade do segundo, volto à papelaria e cadê? Estavam em falta de novo. Um mês depois e a resposta era a mesma: em falta.
Melhor: agora eles tem, mas só com alfabeto para ser usado como caderno de telefones (cada vez me lembro mais que escrevi sobre isso há pouquíssimo tempo). Como 'o que não tem solução, solucionado está', comprei um desses com alfabeto, vim pra casa, recortei as letrinhas inúteis para mim e tornei às minhas anotações.

Hoje fui novamente ver se haviam chegado os tais cadernos e o vendedor me informou que não só não tinham chegado como agora não estavam entregando nem os com alfabeto. Meu coração disparou, tive um pré-pânico e tratei de comprar os últimos quatro que restavam na prateleira. Agora, vou cortar as chatérrimas letrinhas.

O último livro de Paul Auster, 'A Noite do Oráculo', tem passagem semelhante, semelhante não, idêntica. O autor compra um caderno de capa dura de origem portuguesa na papelaria de um chinês, depois volta lá e não tem mais e o chinês não quer vender, enfim, a história é ótima.

Situação ótima pra gente que está lendo o livro e não para mim que estou na situação do personagem. E foi isso, como não quero virar personagem de Paul Auster (quem sou eu?), comprei o estoque da loja, gastando de uma só vez, quantia razoável que, em situação normal, seria dispensável.

Não importa. Estou duro, mas tranqüilo, dormirei uns sonos como quem tomou uma caixa de Lexotan com vinho. Mas não era isso. - - - - - - - - > A história é que levei um susto porque a papelaria fica ali perto da rua Bolívar com Copacabana e, na volta, cadernos em baixo do braço, me deparo com um mendiga na porta do cinema Roxy.

Estava nesse finzinho de tarde quando não anoiteceu ainda e todos os gatos são pardos. Como a mendiga da minha rua sumiu, achei que aquela era ela. Não era. Parei, prestei atenção e não era, a de lá era mais velha, falava menos sozinha e não lia nem escrevia como a que vem de vez em quando passar uns dias na minha rua. Ou seja: a de lá era muito mais jeca, chumbrega, sem atrativos.

Mas, acho que para me penitenciar pelo que eu não fiz com a daqui (talvez tenha ficado com vergonha da vizinhança que pensa que sou endinheirado e normal), talvez por isso ou por aquilo, me abaixei e puxei um pouco de conversa, "de onde ela vinha" e tal. Vinha (claro) do nordeste, ficara sem o marido, perdera o emprego e acabara assim, nas ruas, pedindo esmolas. E se justificando me perguntou de chofre: você me pegaria agora e me poria dentro da sua casa para trabalhar? Não consegui ser falso e disse a verdade: não, assim, não. Dei dez reais a ela (que trabalhou por isso na reportagem) e vim embora faceiro. Agora, é cortar letrinhas pacientemente.

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Cartinha

Mãe

Eu te amo antes tudo, o amor primeiro, quem me pegou primeiro, quem me matou fome e sede, me fez dormir e cuidou de mim antes, sem deixar que o mal se aproximasse sequer.

Foi você quem me ensinou a ler e escrever, quem perdeu passeios, quem velou meu sono, tornou parte de mim invertendo a lógica de que eu seria parte de você. E eu sei de tudo isso. Como esquecer?

Foi você ainda mãe, quem me aninhou nos seus braços para que dormisse o sono dos justos, quem fez curativos e beijou meus machucados dizendo que logo 'ia passar'. E passavam.

Não precisei te pedir um brinquedo porque, vendo o brilho do meu olhar na vitrine, você o comprava para mim (mesmo que não pudesse arcar com o supérfluo). Não tive febre alta porque estando um pouquinho mais quente e, sabendo que eu nem disso tinha percepção você tirava minha temperatura e me medicava.

Foi você que cedo me matriculou e pagou meus estudos, quem comprou meu material escolar e, com afeto encapou cada caderno, apontou cada lápis quando eu por qualquer motivo não o fiz.
Foi você que perdeu noites de sono, com o coração na mão, porque eu, adolescente e me sentindo homem, passava as noites fora e não te ligava. Foi você, mãe, que fez tudo isso e tanto mais, tantas coisas que esqueço, sei que foi tudo.

Mas a gente cresce, mãe. A gente cresce, vira adulto e começa a envelhecer. E a vida, com seus próprios caminhos, mexe com a gente, prega peças, traz alegrias, traz desconfortos e novamente felicidades.
E nesses momentos já somos adultos, os cabelos já nos vão brancos, a força não é a mesma nem tampouco a paciência. Então é preciso, mãe, que você ainda se dê mais um pouco, você que se deu a vida inteira tem ainda que se dar e nos deixar caminhar livres.

Porque não sendo assim, cria-se uma situação inusitada. Se hoje você me aperta contra teu seio como fazia para eu mamar, eu perderei o ar. Se me matricula em alguma coisa sem que eu peça ou queira, você me humilha ao obrigar-me a ir lá desfazer o que você fez, se compra alguma coisa, sou obrigado a trocar porque você me ensinou a ter gosto próprio.

Hoje sou diferente. Sou o que você me deu somado a todas as coisas que a vida me proporcionou, todas, fazendo de mim uma pessoa outra, única. E como pessoa, com rugas, cabelos brancos e sem folguedos, preciso caminhar sozinho, Preciso, ao contrário, eu sim, cuidar de ti que agora é velha. Você sim precisa agora de cuidados e cabe a mim proporcionar o melhor para você.

Mas, apesar das boas intenções, apesar de eu continuar sendo seu filho, mesmo que me veja (lá dentro) como seu menino, aprenda com quem você ensinou tudo. Não me sufoque. Não me sufoque, porque sufocado, mãe, a gente morre.

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A Bichinha

Aliás, essa coisa da Kakay é um assunto que quase não toco. Ela morreu em 10 de março (mais ou menos há uns 77 dias) porque estou procurando conviver com a perda que sofri, guardar só como uma boa e doce lembrança. Ela foi a pessoa mais importante da minha vida (já repeti e vou repetir sempre) e procuro não fazer drama. Mas tenho em mim, uma saudade, uma lembrança de coisas muito boas, de uma pessoa que sempre foi, em todos os aspectos, fundalentalíssima pra mim.

Ela não gostava de chatos (alguém gosta?) e um dia, no apartamento do Lido, um quarto e sala, estávamos os dois quando toca a campainha. Ela, pelo olho mágico, viu que era o Nicanor, uma bichinha chata que de vez em quando ia fazer limpeza de pele nela. Kakay, vendo quem era me fez sinal, me levou levou até a cozinha e disse: 'Meu filho, vou me esconder aqui pra não aturar esse chato. Você abre a porta e diz que eu saí, tá?' Eu topei.

Ela se escondeu e eu abri a porta. O Nicanor perguntou pela minha tia e eu disse que ela não estava, certo de que o cara ia embora. Pois não é que a bicha vai entrando pelo apartamento, dizendo que era uma pena ela não estar e que, então, ia beber água e depois iria embora? Fiquei translúcido de pavor. Não tinha como impedir.

Pois o Nicanor foi na cozinha pegar a água e deu de cara (Ou de bunda porque ela estava de costas) com a Kakay agachada, patética, no chão, ao lado da geladeira! Quando viu o cara, pensou rápido e não se fez de rogada: Ah, Geraldo, você não entendeu! O Nicanor não tinha problema, é um prazer enorme! Eu te disse pra falar que eu não estava se fosse algum chato!
Eu e ela lembramos, sempre rindo muito, dessa passagem até agora, até ela morrer.

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Herança sem preço

Deixa eu contar uma coisa: falei aquela frase de brincadeira (mais ou menos) do Nelson Rodrigues porque sou um apaixonado por tudo o que é do Nelson. Mas a história é outra. Quando Kakay, minha tia morreu, a sogra e os netos ficaram responsáveis por esvaziar o apartamento para entregá-lo no final do mês porque era alugado e a minha tia era uma compradora compulsiva.

Basta dizer que vivia num apartamento de três quartos, sozinha e, mesmo assim, todos os cômodos eram abarrotados de coisas.
Então, desfazer-se de tudo aquilo em menos de vinte dias era complicado. Os netos e a nora deram muita coisa, outras ficaram para eles e a maioria venderam. Minha tia tinha muitos livros. Muitos ela dera em vida para a nora e os netos, mas tinha muitos, muitos outros e chamaram um livreiro para comprá-los.

Mariana, a neta (que teve neném agora), sabendo que eu gosto de ler me telefonou e disse pra eu ir lá antes do comprador de livros e pegar o que eu quisesse. Fui. Meio acanhado, verdade. Não sei se era justo, talvez todo o dinheiro devesse reverter para os netos, mas conheço comprador de livros e sei a miséria que eles pagam por cada exemplar. É aviltante. Creio que minha tia não se importaria (até porque foi ela que me iniciou e viciou em livros)

Fui então e trouxe comigo alguns livros que achei interessantes. Alguns mandei para o meu irmão porque ele gosta de ler aventuras. Outros, mais a meu gosto, guardei para mim como História del Teatro Contemporâneo, 4 volumes em espanhol. Peguei ainda o Memórias do Rio (5 volumes) do Luis Edmundo, um dicionário (meu sonho de consumo) Caudas Aulete em cinco volumes e alguns outros. E nesses outros, garimpei um exemplar memorável: O Reacionário, Memórias e Confissões de Nelson Rodrigues.

É uma edição da editora Record de 1977 ( A Cia. Das letras reeditou a obra completa dele). Mas esse livro que estou é simplesmente o máximo, uma coletânea fantástica de crônicas. Então, entre um livro e outro, ou ainda quando quero ler uma coisa mais curta, mais leve, leio algumas dessas crônicas. Me dão um prazer inenarrável. E o volume é uma lembrança cara da minha tia.

Eu e ela gostávamos muito do Nelson Rodrigues e lembro bem que quando era um rapazola ficávamos os dois vendo uma mesa redonda de futebol na televisão. O Nelson, era um dos debatedores (Fluminense doentíssimo). Tinha também o Scassa (Flamengo), o João Saldanha (Botafogo) e outros. Não perdíamos um programa. E agora estou aqui, dono de um livro que ela comprou em 77 (porque ela comprava os livros logo que saíam) e que, certamente, deve ter se deliciado com ele (que pra mim agora não tem preço, não venderia por dinheiro algum). Agora, com carinho, delicio-me também.

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Esses momentos em que o dia não clareou, o jornal ainda não chegou, que estou aqui saboreando meu café fresquinho, fumando meus inseparáveis cigarros Camel e com o Artur pra lá e pra cá ou sério, me olhando, são verdadeiramente impagáveis.
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Todo mundo sabe que eu acho paulista um saco. Dia desses mesmo estava falando disso aqui. Daí, lendo uma crônica do Nelson Rodrigues, encontro uma frase fantástica [ele era um frasista do quilate do Otto Lara Resende] que eu estava esperando uma oportunidade para usar, mas não vou agüentar, vou dizer logo, mesmo sem motivo: "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista." - Fala a verdade, não é o máximo?
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Artur não é dado a humores nem "luas", está sempre do meu lado, alegre e companheiro mesmo quando tem lá os problemas dele (sim! os tem!). Dorme a acorda comigo. Hoje está particularmente feliz porque coloquei ração fresca para ele lodo cedo. Na verdade, ele já disse que depois de um tempo na tigela, a ração fica mole e ele não gosta, mas eu sempre erro a mão e boto demais e depois fico esperando ele comer bastante pra não estragar. Assim qualquer dia ele me abandona ;)
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Sonhei firmemente que, por ser hereditária, meu filho estava com uma afecção psicológica renitente. Os medicamentos não funcionavam. Então, uma médica amiga sugeriu levar para o homeopata, ela tinha notícias de excelentes resultados! Peguei meu filho eu saí correndo pro meu terapeuta! Homeopatia pra isso? Tô fora!
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26.5.05

telefone

Converso com a amiga que não vejo há tanto tempo, anos acho eu. Falamos a não mais poder, parece que temos uma vida para contar e eis a surpresa! Trocamos uma dúzia de frases e vem aquele silêncio cavo, aquela sensação de que tudo acabou. Procuro lembrar de alguma coisa engraçada, de algum amigo ou parente que eu queira saber como está, procuro desesperado nos porões da memória e nada, somente ratos.

Pelo silêncio do outro lado, imagino que o mesmo esteja se passando com ela, que esteja buscando assuntos até que ela confessa que tinha tantas, mas tantas coisas a me dizer e a me perguntar e que, de repente, tudo sumiu, não conseguíamos. Concordei e demos boas risadas. Perguntei quando vem ao Rio (parece que não tão cedo) e começamos a falar então do futuro, o que nossos filhos vão fazer, o que nós mesmos vamos fazer, como poderemos resolver essa ou aquela dificuldade que estamos passando agora e assim vai.

Desligamos aliviados e felizes pela agradabilíssima conversa e fico aqui pensando em como não acontecem as coisas como esperamos. Veja só, uma amiga de tantos anos, tantas coisas a contar, tantos feitos e acabamos os dois falando apenas do futuro. E penso que, talvez pelo que aconteceu, a vida seja isso mesmo: falar aos amigos sobre o futuro

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Serviço Social

Dia desses eu tava conversando com uma pessoa muito legal sobre essa coisa das pessoas mandarem opiniões sobre essas coisinhas que a gente vai falando por aqui.
Eu dizia que tem uma quantidade enorme de gente que me escreve pra meter o malho, dizer que sou mal humorado, reacionário, mórbido, ultrajante, que tenho soberba, que sou contraditório e por aí vai porque me falam tanta coisa que nem eu mesmo consigo lembrar.

Daí eu tava lendo uma crônica do Nelson Rodrigues (esse mais que gênio que pouca gente conhece bem porque o Brasil tem um povo ignaro) onde ele falava isso, falava que a crítica, o ato de criticar, o ato de esculhambarem com a gente, de acabarem com tudo o que fazemos é uma glória.

(Vão dizer que eu estou ousando me comparar ao Nelson Rodrigues, querem apostar?) Mas ele insistia nisso, não é o afago, não é a palavra bonita e morna, não é a complacência que faz a gente pensar e dizer as coisas e sim o esculacho, o ódio que sente,.
Eu falava ainda pra essa pessoa que no início eu disponibilizava aqui esse sistema de comentários que você vai fazendo à cada post, mas como é mais fácil de ser usado, terminava por escreverem muito ali, muitas vezes coisas que nem tinham a ver com o assunto. Daí eu tirei e deixei só o e.mail porque e.mail dá mais trabalho.

Realmente, durante um tempo eu fiquei recebendo poucas cartas. Depois a coisa foi aumentando, aumentando e hoje é uma loucura a caixa postal. Bom, aí eu fiz o seguinte, veja só: reativei o sistema de comentários e para minha surpresa.... nada. Ninguém escrevia nada ali. As pessoas ficaram viciadas em me mandar mesmo o e.mail. Que seja!

Mas eu tô contando tudo isso aqui porque eu fico vendo como as pessoas são ácidas, amarguradas, complexadas, taradas, não é? Como um ser pode ler um blog e mandar cartas tão ranzinzas, com tanta raiva, tanto questionamento, tanta amargura.
Fico pensando que é uma forma de catarse, uma maneira da pessoa colocar pra fora seus demônios, sua bile, seu lado mau. Porque ela não se expõe de verdade. Como eu às vezes digo uma ou outra coisa que pode não agradar ou não ser politicamente correto, então a pessoa guarda o dinheiro do psiquiatra e vai ali no e.mail e baixa o pau em mim pessoalmente e no que escrevi.

Isso não me incomoda mais, ao contrário, me agrada saber que tem gente que lê, gente que discorda (porque eu não escrevo para que concordem, detesto vaca de presépio), que se dá ao trabalho de escrever. Essas pessoas na verdade aguçam meu espírito crítico (que todos deveriam ser, não fossem tão amorfos), a minha relação com as coisas e as pessoas, fazem com que eu tenha mais vontade de escrever, além, é claro, desse serviço social [que proporciono] : trocam o dinheiro de um bolso para o outro ao invés de irem ao psiquiatra, que é onde todos deveriam estar.

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Metrô

Dia desses eu vinha no metrô, uma viagem meio longa e achei que tinha alguma coisa de errado. Fiquei pensando se eu tinha pago o que tinha comprado. Tinha. Pensei se tinha falado o que devia ser dito no encontro, tinha. Alguma torpeza no caminho, rasteira em perneta, empurrão em velhinha, mandar cego atravessar a rua com o sinal aberto? Não.

A viagem continuou e eu dava um tempo, procurava não pensar no assunto, depois a coisa me voltava. Será que deixei o gás aberto antes de sair de casa ou não deixei água e a ração para o Artur? Não, tava tudo certo. Aquela mulher que fica de um em um minuto dizendo que banco abóbora é pra velho, gestante e aleijado, aquilo me irrita viu? Eu só viajo de metrô em pé. O que adianta eu estar num banco verde se fica de pé na minha frente, me olhando, uma aleijada, velha e grávida?

Não adianta nada, a gente sempre tem que levantar. Prefiro levantar do que pegar aquelas bolsas e pastas nojentas e sebosas para carregar, pra agradar ao infeliz que está em pé. Aí tem uma outra voz que diz: "próxima estação não sei o quê, saída pela direita." Ora! Não necessariamente. Depende de que lado eu estou, qual o meu ponto de vista. Aí eu espero e sigo a maioria, feito gado. Continuo a viagem. Quando já estou quase chegando à minha estação de desembarque descobri o que havia de errado: eu, por fobia, estava de costas, olhando para a parede interna do vagão por fobia de ver aquela multidão.

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Desabafo

Estive com ele hoje desde o fim da manhã até agora o finalzinho da tarde. Como me passam rápidos esses dias. Foi uma conversa boa, agradável, onde pudemos debochar bastante do governo Lula (aliás, dos políticos em geral). Feriado numa quinta feira chamam de feriadão porque ninguém trabalha nem estuda desde quarta à tarde. Tomamos alguma cerveja porque o chope desse bar é aguado (observação dele). O que me interessava era outra coisa, era falar do nosso novo vizinho, com sua bateria insuportável.

Como se pode gostar de bateria? Como se pode querer aprender a tocar bateria? Por fim, como se pode enfiar uma bateria dentro de um apartamento, num prédio? Uma coisa de louco. Falamos da bateria e rimos um pouco (eu ri porque não estava com a bateriano meu ouvido). Mas rimos sim. Acho que é uma espécie de maldição que me acompanha. Já fui vizinho de uns três bateristas ou aprendizes (porque não dá pra diferenciar. Uma bateria sendo tocada, batida? Num apartamento é tão enlouquecedor que tanto faz se o camarada é um craque ou se pegou as baquetas pela primeira vez!)
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Eu mesmo não me canso de não fazer nada, disse a ele, porque estou sempre fazendo alguma coisa mais útil do que estaria fazendo num dia útil. Posso escrever, ler, descansar (porque o ócio é preciso), posso ainda dar umas caminhadas ou ir a um cinema. Se faço menos do que isso é por pura vagabundagem (que cultivo com afinco).

Aliás isso é uma coisa engraçada, a gente falar mal da vagabundagem. Ora, eu sou um consumado vagabundo, não quero fazer nada que não seja o que me dá na telha naquela hora, detesto compromissos, detesto obrigações. Tudo bem, trabalho pra comer, mas se pudesse não trabalhava e invejo os que podem passar a vida sem fazer nada. Não vejo nenhum demérito no vagabundo, ao contrário vejo uma pessoa inteligente que sabe aproveitar o que a vida pode oferecer, aproveitar da melhor forma, da maneira que lhe convier. Por que não?

Estávamos falando disso. Sabe-se lá de onde vêm essas convenções, esses dogmas malucos que dizem que o homem tem que trabalhar, a mulher não pode trair o marido e tantas e tantas coisas que vão botando na nossa cabeça desde que nascemos. Quando temos vinte anos somos monstros, pessoas irracionais que não conhecem o verdadeiro prazer, papagaios a repetir o que foi massificado na nossa cabeça. Por que tenho que ser inteligente? Me diz! Por que? Qual o problema de ser burro? Por que tenho que ser instruído? Por que? Pra virar Presidente da República?

E tem muita coisa mais, ficam querendo me dizer que hoje estou falando o contrário do que eu disse há dois dias...mas e daí? Eu mudo de opinião quantas vezes eu quiser, a opinião é minha. Mudo de opinião, de time de futebol, de escola de samba, mudo de tudo, até de sexo, se bem entender. Que saco! Por isso que é bom a gente se trancar depois da cerveja e ficar lendo as crônicas do Nelson Rodrigues ou do Paulo Francis. Melhor do que ler Machado de Assis ou Jorge Amado.

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pub

Nem sempre vou a bares porque a sobriedade é uma embriaguez mais valiosa como diz um personagem de Gide, mas vou vez por outra. Percebo que bebo de vez em quando não para saborear a bebida, mas para me anestesiar.

Aliás, as pessoas que eu conheço bebem pelo efeito ansiolítico do álcool. É um efeito mais do que comprovado. Desde que o homem apareceu, ele bebe. Acho, entretanto, o Lexotan mais chique, com efeitos análogos (e que não deixa o desagradável bafo). Sim, eu gostaria de ter classe. Na outra vida, talvez.

Mas no bar ela me disse o seguinte: não sei o que está acontecendo comigo. Tenho medo da idade, tenho medo do que vai me acontecer no futuro. Minha sexualidade transborda e não sei o que fazer com ela, nem por quanto tempo. Minha confiança nos outros diminui à medida que os conheço. Tenho eventualmente, como todo mundo, crises de pânico e sofro com todas essas coisas da vida. Não, não entrego os pontos e cuido do meu corpo como minha morada. Procuro sair, companhia para a solidão que está sempre à espreita e acho que você devia fazer isso também.

Depois fica me olhando, esperando uma resposta, imagino. Não tenho nenhuma resposta, não sei o que dizer porque não sinto nenhuma dessas coisas, vivo outra vida, sou outra pessoa e parece que habito outro planeta. Sim, olhando os outros com um pouco de atenção percebo melhor o ET que, no fundo, sou. Mas tenho que dar uma resposta:
Bom, eu não sinto a coisa como você. Não estou sentindo nada, só a velhice chegar. Trato minha velhice com carinho. Me olho no espelho todos os dias e me felicito à cada novo fio branco de cabelo. No dia a dia me contento com quase nada. Sou espartano em divertimentos e mesmo em sexo. Pode soar estranho e acho que é mesmo. Mas eu sou estranho.
Ela sorri.

Sim, continuo. Sempre fui estranho, desde muito pequeno, então essa coisa, essa estranheza não me incomoda, não me aflige, ao contrário, convivo bem com ela, sei como canalizá-la. As pessoas à minha volta é que se espantam e não eu. Todavia, eu me espanto também com as pessoas a minha volta.
Ela toma caipirinha. Sorri e me diz:
Não estranho as pessoas, procuro perceber o que cada uma tem por trás da máscara, o que cada uma está querendo dizer ou sentir,

Interfiro dizendo que ela é condescendente. Ela sorri:
Não. Procuro apenas ver as pessoas como elas são. O problema, se existe, sou eu e não os outros. Penso em mim e na maneira com que me relaciono com o mundo e comigo mesma. Quero me divertir, não sofrer.

Fico parado olhando. Dessa vez não tenho mesmo o que responder. Não concebo a vida com divertimento e sem sofrimento. Conheço gente que diz, que finge que não sofre, mas falar disso sinceramente não consigo. Para não mentir, tomo outro café.


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Emoção

Domingos e feriados são dias chatos, mornos, sem emoção. É muito engraçado perceber como as pessoas não se interessam ou não sabem da emoção

Acho que isso que chamo de emoção é um movimento, uma espécie de vibração do espírito que nos faz caminhar e pensar sobre os astros e andar na terra.

Confundem, por exemplo, um dia com emoção a um dia cheio de afazeres, se vão trabalhar, depois à aula e ainda depois ao cinema com direito a uma esticada para um drinque no final da noite, chegam em casa extenuados afirmando que tiveram um dia de muita emoção.

Não. Não tiveram. Podem ter tido, mas não necessariamente. Porque correr de um lado para o outro não nos atiça o espírito, não faz aumentar a nossa curiosidade sobre as pequenas e grandes coisas; trata-se apenas de cumprir uma rotina que se estabeleceu.

Fico imaginando dois operários de trabalhos braçais, com as mesmas funções, mesmos salários e mesmo tipo de trabalho extenuante. Acho que um pode ter muita emoção em seu dia e o outro nenhuma. Aquele que cumpriu seu labor sem olhar em volta, sem imaginar o que há além do espaço, sem imaginar-se prostrado mais tarde num ato contrito de fé ou ainda discutindo com um colega sobre as regras impostas pelo patrão... enfim, se não agiu como um todo, não teve emoção.
Conheço muita gente que diz que tem uma vida ocupada porque trabalha, estuda e gosta de fazer compras, gente que você olha e acha uma coisa, mas qual! Não é nada, não tem substância.

Aliás foi bom falar disso porque essa é a grande questão, o meu tédio em relação ao mundo é exatamente a convivência com pessoas sem substância. Mais, me cansa o simples fato de saber que existem tais pessoas, que estão aos magotes andando pelas ruas, dirigindo automóveis, interagindo com outros.

Percebo que existe ainda uma inversão. Não são as pessoas vibrantes que influenciam as outras. Na maioria das vezes os embotados, não sei exatamente o porquê, contagiam os que vivem de emoções. Não que contagiem totalmente tornando estes também pessoas rasas, é diferente. Contagiam na medida em que trazem uma profunda tristeza, mostram [de forma perniciosa] o quanto é difícil a relação humana, o quanto é pobre, rasa.

Isso indispõe o meu espírito; perceber que os contatos são poucos, as possibilidades de realização, de troca de idéias que frutificam são mínimas. São essas percepções que fazem de mim casmurro, isolado e talvez triste. Não sei se triste é o termo, acho que revoltado cai melhor aí.

No fundo acho que a raça humana, antes de penalizar, me revolta, me desgosta, me irrita. Acham que é por essa ou aquela posição de cada pessoa. Não: é pelo conjunto da obra. O conjunto da obra humana me parece menor, pequeno. Parece que poucas pessoas fazem coisas dignas de nota (e quando falo numa coisa digna de nota refiro-me tão somente a qualquer coisa como, por exemplo, ainda que no leito, conseguir pensar e dizer uma frase bem colocada, articulada, interessante).

Durante muito tempo me repreendi por isso, fiz uma espécie de auto análise procurando em mim também tais defeitos, fora o processo psicanalítico básico, mas não é nada disso. Conheço e converso com outras pessoas que percebem como eu, sentem (ou se ressentem) de maneira muito parecida em relação à maioria.

Existe realmente uma maioria bovina na espécie humana. Eu entendo que exista, não entendo é que seja maioria. Não percebo porque as coisas boas, belas e inteligentes devam ser exceções, porque devemos ficar boquiabertos com pessoas que acrescentam à vida.

Como sempre falo, quem sabe muita gente não me acha a mais bovina das criaturas, a mais ignorante e chata? Sim, é uma questão de ponto de vista. Falo, mas não acho não. Acho que poucas pessoas se destacam mesmo da média do povo. O povo todo, a massa humana me parece disforme, incapaz, sem identidade, sem nada. Não é à toa que terminam por serem mesmo o populacho, a ignara.

Tenho ainda a impressão de que isso ocorre em todos os países do mundo. Claro que o Brasil por tudo, por ser projeto mal acabado de país, reúne um número maior de seres parasitas, que produzem o óbvio, enganam-se, levando à frente a rotina apenas.

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Todo mundo sabe que eu me apavorei (com razão) quando o Lula foi eleito. Deu no que deu. Mas realmente eu não entendo nada de política. Fico lendo o jornal como se estivesse de cabeça para baixo. De qualquer forma, parece, pelas pesquisas, que é praticamente certa a reeleição. E agora, dizem, com todos esses encândalos, já existe uma possibilidade (ínfima, já sei) do PSDB voltar. Tomara. Que todos os santos digam Amén!
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exagero

Interessante a crítica que me chega dizendo que eu sou de fases, não sou variado. É a pura verdade, um defeito que descobri (e cultivo, rego) há anos. A crítica é porque recentemente eu andei falando muito de Bellow e agora venho falando muito de Neruda, Pellegrino e André Gide.
Tudo verdade, tenho mesmos essas fases, essas coisas de assistir ou ler exaustivamente um criador que me caia nas boas graças. Defeito [será?] assumido!

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indecisão

A conversa com meu amigo e, até certo ponto, confessor era sobre a minha angústia sobre a internet. Concordei com ele que tenho mesmo essa angústia, essa dubiedade de pensamentos

Realmente existem dias que vejo coisas apavorantes na rede a fico pensando que era melhor não existir ou ter uma espécie de conselho de ética. Mas não é assim. Esse tipo de Conselho acaba virando repressão, censura.

As crianças e os que estão entrando ou já entraram na adolescência são as maiores vítimas dessa internet odiosa que além da pornografia abjeta, desestimula o estudo, o conhecimento real das coisas em troca de sinopses, muitas vezes escritas por gente de baixo calão.

Por outro lado, eu contava a ele que escrevi aqui, falando bem, dizendo que a net é um fantástico meio de pesquisa, liberdade de expressão e contatos interpessoais. Realmente não sei o que pensar.

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O MSN, vazio, me lembra que hoje é feriado e que [principalmente] ninguém é doido de ligar um computador a essa hora.
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Acordei primeiro ainda não eram quatro horas [me pareceu cedo demais]... Dormi novamente e só vim a despertar [acordado insistentemente pelo Artur] às 5,50 h. Boa hora. Sonhava que estava sendo abandonado por um grande amor. Normal, sempre tive dramalhões.Talvez eu tenha amado muito, penso tomando café, o que não quer dizer que todas tenham sido um grande amor. Acho que é isso.
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"E eu me comparava aos palimpsestos; gozava o prazer do sábio que, sob escrituras mais recentes, descobre sobre o mesmo papel um texto mais antigo, infinitamewnte mais precioso. Que era, afinal, esse texto oculto? Para lê-lo, não seria necessário, antes de tudo, apagar os textos recentes?"

André Gide
O Imoralista
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25.5.05

Encontrei algumas.... mas eu gostaria de ter encontrado mais pessoas de caráter na minha vida.... bom, deve ter muita gente que pode me achar sem caráter também, né?
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Dia desses eu dizia que é uma bobagem ter coisas "em separado" para as mulheres como cadernos em jornais, etc.... o assunto veio por causa do Programa "Saia Justa" do GNT... daí eu fui ver porque eu vejo tudo o que estou à fim e concluí que é verdade: o "Saia Justa" é mesmo só pra mulheres...é fútil, tolo e irrelevante demais... aliás, eu diria que é para mulheres sem muito tutano..
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Deixa eu explicar uma coisa: todo mundo sabe que eu não tenho personalidade nenhuma, fico olhando as coisas e tenho inveja.... então, além das coisas legais que a Marina escreve no Blowg eu acho a letrinha muito legal... daí resolvi copiar, tá?
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"Ser me ocupa bastante"
André Gide

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Avulso

O que mexe com ela nessas coisas que digo aqui? Não sei exatamente nem ela. São coisas, coisas que a gente pensa e fala, coisas que talvez tenhamos em comum, inexplicáveis, sentimentos que pertencem a almas que, de alguma forma, se entrelaçam.
O que sou eu a não ser um homem que tenta encontrar respostas para tantas curiosidades, para tanta necessidade de saber o que dizia ou pensava este ou aquele. Porque é o que mês resta. Conhecer o que pensavam, o que pensavam de mim, o que pensavam os outros, onde buscavam material para suas histórias.

Somos todos muito abandonados pelo mundo. Não. Abandonados pela vida que nos acorrenta em determinadas mazelas que atrapalham verdadeiramente o impulso de buscar e encontrar o sentido da vivência.

Dizem, empurram para nós uma certa anormalidade do espírito, um certo desconforto que termina por levar-nos a divãs psicanalíticos e médicos que percebem-nos deprimidos, tomados de uma afecção que não tem lógica, que é muito mais fluída, muito mais do espírito que do corpo, impossível de captar com relativa margem de certeza de acerto.

Essas coisas assim que são, como disse, coisas da alma, são indicadores da sensibilidade, da poesia, da busca incansável por sensações e amores e dores e visões de mundo que não estão assim, tão na superfície.

Digo isso porque releio aqui uma carta de escritora de muito talento, ainda que relativamente desconhecida, que me conta ter chorado muito ao ler um determinado texto aqui postado. E por quê? Não há nada de dramático aqui, muito pelo contrário. Mas o choro, ao invés do que pensam alguns, não vem do drama, vem de uma coisa maior, de um sentimento mais forte
.
O drama é a antítese da comédia e eles, cada um a seu modo, cumprem seus papéis nesse mundo, papéis de distrair soberanos, de alegrar saraus, de dar vida ao que chamam de teatro (que não é bem isso, mas aí é outra história).

E por que falo disso tudo? Porque folheava um livro de Gide e pensei no sofrimento do autor quando seus personagens começam a tomar rumo e a renegar o pensamento do criador. Na verdade, não foi bem isso, foi menos elaborado, foi o livro, mas antes a releitura da carta.

As cartas possuem um poder todo especial, mágico mesmo, a meu ver. O que uma carta encerra é único, nada poderá nunca se equiparar porque a carta é a exposição máxima do espírito, na carta dizemos mais do que quando olhamos de frente o outro, na carta perdemos um pouco do cuidado, ficamos menos ruborizados.

Quando sento em minha escrivaninha com meus papéis e envelopes sei que ali depositarei minha alma porque não há ninguém a rir de mim, não há uma sobrancelha que se alteie de espanto ou reprovação, não haverá uma pergunta imediata ao final de uma frase. A carta é a possibilidade de dizer, de falar sem interrupção, falar com a alma.

Todos escrevem cartas. Não conheço quem não as escreva, quem não tenha estado um dia ansioso, vasculhando sua caixa de correspondências. E, aos poucos, vou eu perdendo o meu norte mais uma vez, vou eu me encaminhando para coisas outras que não era a idéia principal.

O principal são os olhos que precisam descansar porque vermelhos, porque ardentes de chorar por alguma coisa que foi lida, coisa essa escrita sem a menor intenção de levar a dor ou o sofrimento ou ainda as lágrimas. Mas não me incomodo porque sei que as lágrimas são permitidas apenas aos poetas.

As pessoas firmes demais, as que falam alto e acham que a razão está do seu lado, acham que cumularam experiência bastante para afirmar isso ou aquilo. Bem, essas pessoas estão na defensiva, bem entendo, estão armadas porque só assim enfrentam o mundo, mas são pessoas pequenas para mim. Todo forte é pequeno e fraco para mim.

Posso estar completamente errado (quem não está, eventualmente, totalmente errado?), mas ainda me permito achar que conheci um pouco das pessoas para percebê-las. Para ver a fragilidade dos fortes e decididos, dos que menosprezam o que não compreendem. Como é triste quando ouço uma pessoa menosprezando uma coisa e sei, cá comigo, que assim o faz por absoluto desconhecimento, total ignorância.

De todos os decididos, os que têm verdades, os que se mostram e se fazem ouvir porque orgulham-se das próprias idéias, de todos eles guardo uma certa piedade, sentimento estranho e doído de se ter, mas que, efetivamente, tenho. Uso e abuso da piedade pelos outros.

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O Medo negado

Os jornais trazem alguns artigos interessantes que falam da violência no Rio. Uma articulista chama de cultura bandida. Não deixa de ser. O Rio tem uma cultura bandida, uma cultura baseada na violência. Um hábito que o Rio criou primeiro deixando de ser capital do país e depois, quando se dividiu o estado.

O que o Rio tem pode ser essa cultura bandida, vá lá, fala-se que é necessário ficar atento para responder a isso nas urnas. De fato, o caminho democrático é o melhor, é a única forma humana de construção social.

Mas não é o caso da bandidagem no Rio. Basta dar uma volta de carro (tanto faz a zona norte, sul ou oeste) pela cidade. Ou à pé, por alguns quarteirões. O que há no Rio não pode ser chamado simplesmente de cultura bandida até porque essa cultura, como é colocada, trata de várias formas de permissividade, como o avanço de sinais de trânsito, por exemplo e todos esse delitos que a péssima educação do brasileiro permite.

Não. A violência é um capítulo totalmente à parte. O Rio é uma cidade sitiada por grupos (vários) de traficantes que dominam as regiões, grupos que atacam, assaltam e matam, aterrorizam bairros, que subjugam a polícia. As corporações policiais, cobertas de razão, têm muito medo dos grupos marginais. Aqui morre policial à rodo. Como o populacho é idiota e uma parcela considerável da população tem vínculos com o tráfico, a moda é dizer que a polícia mata muito. Não é verdade. Mata pouco.

Mata pouco? A função da polícia é matar? Não! Grita o grupo que passa o dia tomando uísque em Ipanema. Em tese, realmente a função da polícia é manter a ordem, prender marginais que serão julgados e, se for o caso, condenados. Essa é a ordem natural das coisas.

Mas não funciona assim. Os grupos são muito bem armados, têm táticas próprias (muitas de guerra de guerrilha) e muito violentas. Não perdem tempo. Matam mesmo. Matam mães, crianças, policiais, matam à granel e dominam a cidade. Esta é a verdade.

Diante disso não vejo (nem tenho visto na prática) a possibilidade de uma polícia investigativa e que trabalhe nos moldes democráticos. A democracia do bandido é matar. A democracia da polícia também deveria ser matar. O discurso politicamente correto eu sei, que matar não adianta, que tem que mudar o sistema social, que a culpa desse estado de coisas é nossa, da sociedade, que virão novos bandidos para cada um morto.

Tudo verdade (embora eu não me sinta responsável por criminosos não), mas é tudo verdade, cada bandido morto tem outro atrás e assim sucessivamente. A solução é a mesma, usar a mesma teoria, a mesma técnica inclusive: matar o bandido, o que vem atrás, o outro, o outro. Tem que ver o que acaba primeiro: as balas ou os bandidos.

Porque quando a polícia prende, a justiça solta, quando a justiça prende, eles fazem todas as barbaridades nos presídios e fogem. É um círculo vicioso. E reconheço que essa coisa de matar pessoas é uma prática odiosa, retrógrada, imbecil. Concordo realmente (mas também não gostaria de ser assassinado nem meus parentes, amigos e conhecidos).

Precisa entender só que o Brasil é odioso, retrógrado e imbecil. O país é assim. O que acontece com governo e com o povo é isso: Roubo, safadeza, ignara. Então, já que não prestamos pra quase nada (exportamos soja), poderíamos com uma força militar severa, pelo menos viver em paz, errar em paz, não ter saúde nem cultura, mas tudo em paz, sem medo de sair à rua.

Não é simpático escrever assim, não é politicamente correto, parece uma fala ignorante, parece um retrocesso, parece tudo de ruim (como se o Brasil fosse tudo de bom). O Brasil, aliás, não existe. Existe o Rio e São Paulo. Eu acho São Paulo e os paulistas abomináveis e eles pensam o mesmo dos cariocas (só não conseguem negar a beleza do Rio).

Em suma, eu preferia andar com os pés chapinhando em poças de sangue de marginais (porque uma hora isso acaba), do que não sair, ter medo, pânico, pavor. Bem verdade que as balas entram em nossas casas também. Ninguém escreve nem admite isso numa conversa normal. É uma coisa que está guardadinha, escondidinha, bem lá no fundo da cabeça de todos os cariocas.

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24.5.05

quer saber de uma coisa? a gente ainda tem que estudar muito.ralar muito. a gente pensa, mas não sabe de nada.
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taras possíveis

Um dia de pesquisa inteira jogado fora. A estreiteza brasileira é repugnante, como repugna muito mais saber que a maioria somos assim, que eu sou assim. Tudo porque eu quero ler um livro e não é traduzido para o português e não adianta eu ficar aqui reclamando não porque se eu soubesse inglês, ia lá comprava e ta acabado. Mas o que eu fiz da minha juventude? Como até hoje, tomei cerveja e vagabundeei pelas ruas escuras atrás.... atrás de quê?.. não eram prostitutas, me lembro bem... entre meus pecadilhos, as prostitutas nunca me atraíram. Sou um romântico desde recém nascido e se saísse com uma prostituta ia querer casar com ela... aliás fico pensando como será casar com uma prostituta, que sensação, que percepção se terá do sexo, da vida, do dinheiro, que caminhos olharemos juntos para a frente?.. não sei.. não tive essa experiência. Tive, quase menino ainda uma única experiência com uma única prostituta. Nunca mais. Não sei o que os homens querem com prostitutas, não consigo ver a graça. Eu compreendo por exemplo, que um homem seja atraído por um travesti porque esse homem é desequilibrado, o que ele deseja é ter outro homem na cama com ele, mas como ele tem um referencial solto, que fica quicando na sua cabeça dizendo que homens vão pra cama com mulheres ele leva o travesti que tem um quê de mulher e é homem como ele quer... essas taras assim eu acho que são mais interessantes... crises e crimes de homens casados, que largaram a igreja para casar e depois são assassinados depois de trepar com um travesti da zona portuária... acho que se a gente tem que fazer escândalos, tem que barbarizar, tem que fazer direito, tem que pegar pesado. Acho que drogas só de crack pra cima, roubo, só de banco pra cima, assassinato só com 20 tiros ou facadas... porque não sendo assim fica a mesmice, não tem jornal, tem revista com fotonovela.
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ainda a internet

O que realmente há é uma vastíssima, inesgotável fonte de pesquisa na internet. Pode-se saber de todos os autores, todas as obras e citações importantes. Não traz a cultura, é verdade, mas traz a referência: "Quem Foi", "Quando Editado", "Em que Línguas", etc.

O que eu falo da internet como instrumento emburrecedor deve ser bem compreendido e não pinçado de uma forma leviana. Claro que o homem que se debruça na internet em busca de conhecimento sólido, será um burro ao cubo eterno.

Falo aqui de outra coisa, falo de pesquisa, falo de banco de dados, de nomes, datas, muitas imagens, muita informação sobre o que devemos, [vejam bem patrulheiros!]... Sobre o que devemos buscar para ler e onde encontrar.

Evidente que a internet é uma enciclopédia eletrônica e por estar ligada noite e dia, sempre on line, estará sempre atualizada. Mas é um enciclopédia. Na minha estante (de quando era) juvenil encontro as mesmas informações que aqui, sem a riqueza, quantidade nem a velocidade (o que é outra coisa).

Falo essas coisas porque eu uso muito (praticamente o dia inteiro) a internet como suporte fundamental para busca e, ao mesmo tempo, digo mal da rede, digo que serve a desocupados, burros ou candidatos a ignorantes. Pode ser sim. Como pode não ser. A madeira pode ser o cajado que auxilia e o porrete que mata.
(continua)

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"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"
Samuel Butler
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Momento Sereno*

"As almas se recolhem em si mesmas. São fortes.
Aqueceram-se em todos os pesares humanos.
Nada têm, nem esperam: ao sobrevir a morte
por ela esperarão como se espera um irmão."

Neruda - O Rio Invisível
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escrevi isso aí embaixo porque vejo uma freqüência razoável neste blog, mas dando uma olhada por outros, vejo muita coisa boa, muita coisa bem feita, muita coisa bem cuidada e escrita. Será que as pessoas que vêm aqui (não importa que sejam poucas) não conhecem os outros? se conhecem, o que estão vendo aqui? na boa.
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Penso no que pode ter acontecido com esse blog. Claro que é comigo, reflexo meu, portanto não sei e preciso saber o que aconteceu comigo. De qualquer forma, esse blog precisa tomar tenência aob o sério risco de fechar as portas de vez. Sério
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nenhuma proposta cultural

Salvo engano, há um desconforto nas pessoas que pensam o mundo. Aliás, tem gente que não sabe que existem pessoas que pensam o mundo. O mundo não é simplesmente mundo e sim um mundo pensado, o resultado de uma (s) idéia (s), uma corrente de pensamento, por assim dizer.

Mas não é isso o que incomoda. O que há é um conformismo nesse século XXI que nunca se pensou acontecer. Em todas as área, todas, mas eu falaria nas artes, na criação, um verdadeiro modernismo ou pós modernismo (sempre os pós) ou, se não, pelo menos alguma coisa, uma faísca brilhante que se pudesse pegar, que se pudesse amalgamar e transformar em alguma coisa palpável.

Não há. Me desculpem esses tolinhos que ficam dizendo que estão fazendo arte com o grupo da Maré, da Mangueira, do morro este ou aquele, da comunidade tal. Não. Não existe arte naquilo. Existe um bando de subnutridos maltrapilhos que não têm culpa nenhuma desse sistema apolítico, desprezível, mas que nem por isso, os torna artista.

Abro um parêntesis para lembrar que dia desses eu escrevi alguma coisa por aqui falando dos desprezíveis seres que colam nos vidros dos seus carros os desprezíveis adesivos que dizem Eu não gosto de Malabarismo. Achei e acho aquilo nojento, abjeto.
Isso é uma coisa. Agora que é chato ver aqueles meninos com as bolinhas é.

Pior: insuportável são essas pessoas que dizem que estão fazendo um TRABALHO com a comunidade tal e tal, INSERINDO OS JOVENS num projeto genuinamente artístico, resgatando a CULTURA LOCAL. Por favor! Nessas comunidades não tem cultura, tem marginalidade e fome. E drogas, muitas. São os herdeiros do nada, nascidos para matarem, estuprarem e depois morrerem todos prematuramente.

Também tem ONG de todo o tipo, pra qualquer gosto, qualquer segmento dizendo que faz isso e aquilo e dando entrevista nos telejornais locais numa exposição e auto propaganda nojentos, pessoas que a gente sabe que está é enchendo a burra de dinheiro. Todo mundo que tem ONG faz aquele discurso ideológico xerocado (nunca vi nada tão igual), mas não quer nada, quer ganhar muito dinheiro e só.

Então esses movimentos que retiram os meninos do tráfico são mentiras. Talvez 1% ou menos. Não me interessa de onde vem o movimento. Pode ser da mais humilde favela à cobertura em Ipanema. O que eu quero saber mesmo é onde está o movimento.

Onde se pinta, se faz artes plásticas, onde se dança (Carlinhos de Jesus e Arôxa não, por favor!), onde se faz teatro (onde está a modernidade no teatro?), quem está filmando, quem está escrevendo? Cadê as revistas culturais, as novidades? Tem uma exposição aqui outra ali que eles chamam de PROGRAMAÇÃO CULTURAL. Só 1% também. O resto é velho ou chato.

Olha só: teve 22, depois 68, 70... e depois? Tudo bem que brasileiro é inculto, que o Ministro da Cultura é o Gil, mas cadê a nossa burguesia, nossos inovadores, nossa proposta? O Brasil não tem um vislumbre de modernidade, reação, de atitude. Além da política que falou o FHC, o Brasil não tem proposta cultural.


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eterno discordar

Outra hora falei que somos indisponíveis num determinado período do dia porque estamos ocupados nas coisas banais, comezinhas, mas sem as quais o mundo não funciona. Acho que isso as pessoas entendem e nos perdoam, elas também sem opção, porque têm a mesma hora de sombra, em que estão fora do ar.

Outras e essas mesmas pessoas não tem um mínimo de linearidade nos pensamentos, nas avaliações, condutas. Usam dois pesos e duas medidas.

As pessoas que não querem ser contrariadas (e acham que eu posso ser), escrevem comentando ensaios e dizendo que não sou claro, que não me coloco disponível no que escrevo, que sigo uma linha própria baseada em minhas idéias e meus conhecimentos apenas.

Fico pensando no que esperavam. Eu deveria colocar as coisas que não fossem baseadas nas minhas idéias e nos meus conhecimentos? Como poderia escrever alguma coisa me baseando no conhecimento que uma pessoa que não conheço? E quem disse que eu tenho o conhecimento que ela detém?

É uma sandice, uma loucura tal que eu nem respondo a esses comentários, faço esse post apenas fazendo um apanhado das cartas. Não tenho como certo que agradarei ou não, instigarei ou não, serei desprezível ou não. Isso cabe à cada um avaliar.

O que faço, e me agrada fazer, é dividir aqui as coisas que estou pensando, as coisas que estão me indo pelo espírito até pra que os outros vejam e se identifiquem ou não ou mais ou menos e isso possa gerar um novo conceito ou uma discussão interessante.

Era isso. Não tenho mais o que falar, não respondo mais e.mail e não quero saber. Ponto final.

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Há uns dias eu tava querendo escrever uma coisa (acho que era pra cá mesmo) que, em suma, falava de como a gente deve sempre dividir o que conhecemos. Nossos conhecimentos, mesmo que poucos não devem ser só nossos, como um tesouro guardado à sete chaves (até porque, de que adianta a gente saber uma coisa e não a divide com ninguém?), de como o saber (qualquer que seja) deve ser sempre dividido.

Daí lembrei que o grande exemplo desse pensamento está em Platão, quando Sócrates cria o Mito da Caverna para ensinar, exemplificar a seus alunos como, o que eu já disse ali, que, ao conhecer novas coisas, o mestre deve logo dividir esse ensinamento com todos.

Bom, toma de eu procurar daqui, procurar dali e nada de encontrar. Ontem, para minha alegria, encontrei o tal relato no livro VII Da República, de Platão. Aí li o que me interessava e continuei a ler, porque é mesmo um livro muito interessante.
Então, pra esses que ficam pelos cantos dizendo que eu sou um esnobe, gosto de fingir que sei tudo, só falo de livros tais e tais, vai mais essa: estou tardiamente apaixonado por Platão e ando com "A República" para lá e para cá.
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23.5.05

Sem Despedida

Estava ali agora escovando os dentes e pensando numa coisa curiosa. Os mortos não se despedem das suas casas (nem de ninguém). Passamos a vida a dar 'bons dias' e 'boas noites' e 'vá com deus' e 'deus te acompanhe' e 'tchaus' e 'já volto'
Mas quando vamos morrer de verdade, quando cabia uma despedida com motivo, jamais a pronunciamos.

Tava lembrando do dia em que eu estava na casa da minha tia. Ela estava no quarto e a empregada falando com a médica no telefone: como? Levar ao hospital para fazer um exame? Pois não.

E minha tia calçou um chinelinho e saiu como quem vai ali e já volta, sequer olhou para trás, tranqüila em sua cadeira de rodas.
E descemos e chamamos um táxi e pedimos ao porteiro para guardar por ali a cadeira de rodas porque no hospital já tinha, que guardasse para quando voltássemos.

E chegamos no hospital e fomos fazer os tais exames e o resultado não era bom e era melhor internar até amanhã para sair bem e depois não melhora, então é melhor ir pro CTI e examina ali e aqui e a coisa piora e depois a coisa melhora de novo.

Vai para o quarto que é a 'sala de espera' para voltar pra casa, não é? Não. Piora, volta pro CTI, novo corre corre, novos exames, mais soro, mais oxigênio, cada vez menos veias pras agulhas, (e os dias passam...10, 20?) mais tubos e pifa um órgão hoje, outro amanhã e depois um melhora (graças a Deus), mas o outro piora e mais tubos e mais aparelhos

E minha tia morreu. Morreu porque tinha que morrer. Mas não deu uma última olhadinha para sua casa ao sair, casa que ela gostava tanto.

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A mesma história

Vamos fazendo aqui essas anotações esperando que alguém leia e reflita. Primeiro reflita se vale a pena continuar lendo. Depois reflita sobre o que está dito. Depois ainda reflita sobre quem escreveu. E porquê.

Na verdade, não há um porquê. Talvez se escreva por vício, talvez para distrair a alma, talvez para colocar para fora alguma coisa que só pode ser excretada pela escrita. Ou nenhuma das opções acima.

Não temos muito o que falar sobre isso. Escrevemos muitas vezes porque estamos fazendo hora porque o ônibus só vai passar lá embaixo daqui a uma hora. Esse ônibus vai me levar longe, num lugar íngreme e cinzento.

Algo como uma cemitério. Uma voz me diz que ou é ou não é cemitério. Outra voz contesta: ele disse que era algo como um cemitério. Não estou eu aqui pra ouvir discussões tolas sobre o que é e o que não é. Nada é, se pensamos com mais cuidado. Nosso problema é não pensar.

Vivo num mundo em que a televisão, o rádio, os discos, as lojas, magazines, revistas, internet, luminosos, cartões de visita, revistas velhas e novas e tantas outras tralhas dizem para mim o que é e o que não é. Dizem o que tenho que fazer, se devo pensar e no quê.

Não foi um mundo que eu criei, alguém criou em algum tempo e começou a escrever e anotar aqui e ali e deixar sinais mais na frente e acolá além do que se conta de avô pra mãe, de mãe pra filha, filha pra neta. É uma forma de escrever com a boca. E tem agora esse monte de papel. Agora mesmo estou cercado de papéis por todos os lados. Queria mais um aqui em frente a esse teclado ao invés desse monitor frio.

Mas estou cercado de papéis avulsos, outros encadernados, outros rasgados, outros impressos. Tem a biografia de Neruda numa edição de mil, novecentos e setenta e poucos. E a turma que toma conta de mim começa a dizer que depois de Bellow agora estou com fixação no Neruda. E o pior é que é verdade. Quero saber tudo, ler toda a poesia, a prosa, as biografias e ver as fotos e colecionar pastas de recortes e fotografias raras.

Sou cheio de manias e para isso uso o passaporte da minha idade. Agora tenho idade para fazer o que bem entender, até escrever uma novela num rolo de papel higiênico se bem me aprouver. Dizer que sou maluco? Sou e tenho psiquiatra. Tratem desse assunto com ele que é o especialista eu sou apenas o agente o executor. As pessoas não percebem claramente que o mundo é feito por executores. O mundo tal como está digo eu e não a vida.

A vida conforme me referi há um tempo atrás era uma outra coisa, como um jardim que tinha vida própria e não precisava da raça humana nem animal, como vida ela prosseguiria eternamente, que nós é que entramos aqui pra passar 50, 70 anos.... mas se assim, nesse mundo criado dessa maneira....*somos executores mesmo*

Dessa maneira precisamos de arquivos e eu confio muito mais nos de ferro (ou) alumínio, sei lá do que nos computadores, meu caderno de telefones é de papel onde anoto nomes, telefones e, às vezes, alguma observação, alguma particularidade sobre quem estou me referindo.

Posso ser assim porque não tenho que satisfazer ninguém e vice e versa. Quando chegar minha hora sei que vou sofrer mais do que seria necessário se a vida fosse outra, mas não aconteceu, fazer o quê? Não vou me desesperar como vejo muitos por aí.
Anoto que hoje morreu um palhaço brasileiro, que foi importante, que levou o riso a muitas gerações, um palhaço que me fez rir quando minha mãe me levou ao circo para ver as palhaçadas. Gosto de palhaços. Com certeza porque sou um deles.

Não interessa também: se fui palhaço até nisso fracassei porque não vi ninguém rindo e batendo palmas e o que vejo pela vida e nas esquinas, nos corredores dos andares das empresas são os que riem e cochicham com o vizinho com a mão em concha na boca me olhando, felizes por alguma desgraça minha. É o que parece. Eles devem achar. Não me interessa.

Sei muito bem o que é uma desgraça minha e o que é um prazer, uma vitória minha. Experimentei, experimento e experimentarei ainda de muitas. Sei como são essas coisas, pelo menos pra isso a vida me serviu, os anos que passam um atrás do outro sem perigo de ultrapassem ou recuo.

Não, sou apenas um falastrão, desses que a gente vê na porta do botequim tomando cerveja e contando casos durante todo o dia, como se a vida tivesse sido tão grande que pudessem contá-la eternamente sempre com assuntos novos. E por que fica gente ouvindo histórias requentadas?

Aqui mesmo é um viveiro de histórias requentadas., não se iludam. Quem leu três posts leu o blog inteiro, o resto são apenas outras maneiras de abordar, outras visões sobre, outras palavras, outros momentos, outra energia no contar. Nada mais.


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Não vou dizer relendo pro João Ubaldo não cair na minha pele.... lendo Neruda.... quanta coisa que de vez em quando deixamos bem ali na estante e não na mesinha de cabeceira.... e por que não se fala em Pellegrino?
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as cartas

Dia desses eu escrevi por aqui que gostaria que existisse mais troca, que esse espaço poderia ser mais usado para a discussão de idéias, para a troca de experiências. Disse ainda que não sabia como fazer, que ferramentas usar. As pessoas, é interessante, não esperam muito que se descubra o como fazer, elas fazem a sua parte, participam. A mim cabe ver o mundo, observar e escrever sobre as coisas, as pessoas, os sentimentos (meus e dos outros)
Vejo o mundo pela ótica de uma carta que me chega pelo correio (muito embora o remetente o pudesse ter feito por e.mail)
Leio:
"Nesses dias chuvosos as pessoas pensam melhor. O que não quer dizer que falem melhor ou consigam se explicar mais claramente. Ou mesmo que suas idéias estejam corretas.

Apenas o fato de estarem em casa, nos finais de semana sem programas extras as deixam mais contemplativas, mais pensativas. Pode ser isso. Existem outras teorias também. O fato é que se pensa, pensa e nem sempre o resultado é muito palatável.

Ele quer explicar a sua teoria sobre acontecimentos estranhos, acontecimentos psicológicos que não se sustentam no que é dito por aí. Fala que sofre de determinada 'neurose severa' e que procura ajuda regularmente, que vai a médicos e toma medicamentos prescritos embora reconheça que não o faça com a assiduidade receitada. Diz que não agüenta mais, não suporta mais sofrer, não suporta mais a dor da ansiedade e dos momentos depressivos, quando está de cama, com a crise bem na barriga e ele se torce. Na verdade não queria nada daquilo, esclarece, queria estar no bar da esquina tomando chope ou indo ao cinema ou paquerando ou lendo ou qualquer outra coisa.

A medicação, ele explica, é a única ferramenta que o médico dispõe para tratar de uma abstração. Diz que sua doença é uma abstração, dizem que já foi reconhecida em ressonâncias magnéticas, mas é um resultado, uma visão pífia da coisa. O que há é o sentimento, a dor e o que ele consegue transmitir (por relato) ao médico. Diz que o médico é, no fundo um indefeso, um refém de tudo, do paciente, da química, dos laboratórios, da classe social do paciente, do momento financeiro do país.

Quando vê que a coisa está perdendo o controle, a única coisa que o médico pode fazer é internar o doente, mas para quê? Para dar dosagens mais altas do medicamento, para que o paciente não se mate, para observar mais de perto como reage aquela pessoa. Depois ele dá alta. E, de alta, o paciente fica, na maioria das vezes impossibilitado de se ressocializar.

Então o ideal é não internar, é esperar que o tempo e a medicação façam efeito (em muitos casos os medicamentos fazem efeitos milagrosos. Em outros não). E quando não há resposta do paciente?, ele me indaga. Bom, o médico troca a medicação por outra similar e trocará novamente se não perceber melhora. É um jogo de tentativas de erro e acerto. Porque o negócio funciona com um e não funciona com outro que descreve o mesmo mal. O médico fica perdido. Não diz que está tudo bem - porque não esta! -, diz que a coisa está caminhando, que vai haver a melhora, que é preciso tempo, que é preciso perseverança, que é preciso ajuda e boa vontade do próprio paciente.

Ele é apenas um médico. Não pode extirpar a coisa de lá, não há cirurgia para algumas doenças, apenas medicação. Pode chegar a um máximo de agressividade com um eletro choque o que também não é garantido. Nada é garantido.

O Psiquiatra sofre de ansiedade, sua nas mãos, se vê distraído pensando em como estará aquele paciente, torce, ingere ele, médico, um tranqüilizante para conseguir ir em frente no seu trabalho. Claro, tem milhares de outros pacientes, mais brandos, que ele vê a cura acontecendo, que ele se sente orgulhoso e mesmo feliz de estar aliviando aquela dor, aquele sofrimento. Mas tem os que não saem do lugar. É uma espécie de paciente 'enceradeira' que fica girando à toda velocidade, mas não sai do lugar.

O médico vai a congressos, se recicla, quer ver o que há de melhor, mais moderno, quais as novas descobertas, quais os tratamentos alternativos que funcionaram. Volta lá com suas anotações, com seus prospectos de laboratórios e espera seu paciente difícil; aplica nele o que há de mais moderno, o que deu certo do outro lado do mundo. Aplica e vai pra casa rezar.

O telefone toca na noite e ele treme achando que é um familiar dizendo que o paciente piorou. Pode ser outra coisa, ele pensa. Mas não é, é isso mesmo, um parente dizendo que o paciente piorou. O médico está preso em sua própria teia, manda internar de novo. Internado é mais tranqüilo, mais possível aumentar ainda mais a medicação, vigiar atentamente. Mas por quanto tempo? Por quanto tempo ele pode manter aquele infeliz ali? Não muito. A sociedade, os colegas, as famílias, todos estão olhando, observando o médico como a perguntar quando vai sair seu filho, seu colega, seu empregado.

E ele capitula mais uma vez, manda pra casa, pede para vê-lo duas vezes na semana e que tome a medicação certa, corretamente, a mais potente possível para alguém em tratamento ambulatorial. Mais expectativa, mais um tempo de espera, como um carro que morre e o motorista fica implorando a Deus para que ele pegue de novo antes que a bateria descarregue de vez.

Sempre? Por toda a vida? Parece que sim. Será que ele, paciente, não está se esforçando, será que ele está se entregando, não está fazendo sacrifício pra ajudar aquele investimento de tantos? Como saber. O paciente diz que sim, que está fazendo, que está tentando, que está fazendo tudo o que mandam (e está). Então... o que é afinal? Onde encontrar as respostas? Na filosofia, na poesia, na ciência, religião, onde mais?"

O missivista pede para não ser identificado. Espera outros relatos para comparar, para entender, discutir, quem sabe fazerem contato? Ele aguarda.

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"Uma estrela correu atrás do trem a noite inteira.Abotoada ao céu, o acaso do caminho,os matagais, os povoados, as pontes de escondiam.
Eis aí esse diamante aparecendo toda vez no horizonte de sombra. Aos solavancos, através da noite, corre o trem na direção da aurora. É o campo sem ninguém, sem nada, na distância desolada.
Pontos de luz, às vezes apagando-se, reaparecendo. Nas vidraças do vagçao o semblanteo semblante do viajor esquadrinhando o desconhecido. De repente, cruza o trem numa estação com a alba lívida. A sombra ainda vacila, mas o dia, pássaro de orvalho, levanta-se da relva"
Pablo Neruda*
O Rio Invisível
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indisponíveis

Nas manhãs, existe um período em que a humanidade desaparece. Assim, como se não existisse. A manhã é misteriosa, seqüestra a todos, faz com que ninguém seja encontrado, como se saíssem do ar.

Acho que é mais ou menos entre 6 e 8 ou 9 h. As pessoas não são, não estão. Uns estão dormindo, aquelas pessoas que só se levantam depois das 10, 11h. e o outro grupo, grande maioria, têm trabalhos normais, desses em escritórios onde tudo funciona: advogados, engenheiros, bancos, administradoras, seguradoras, importadoras, enfim quase tudo. Esse universo de homens têm que entrar entre 7 e nove horas.

Oito horas da manhã, por exemplo: ou as pessoas ainda estão dormindo ou , sempre consigo mesmas, não estão em nenhum lugar completamente indisponíveis: estão fazendo coisas que têm que fazer sozinhas, o mundo pode desabar que elas não têm como fazer nada. Estão tomando banho, estão tomando café, fazendo rápida maquiagem, fazendo a barba, abotoando a camisa, tomando rapidamente o café da manhã de olho no telejornal, esperando o metrô, dentro do ônibus, pedindo licença no coletivo cheio, dirigindo seus automóveis com atenção porque o trânsito está pesado, andando nas calçadas, dentro de elevadores, abrindo duas caixas de e.mail...

Enfim essas pessoas estão num vácuo, onde tudo é proibido e se ele não sumir nesse período, o dia não funcionará depois. Muito engraçado.

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REELEIÇÃO DO LULA

Já concluíram que o Brasil vive uma gravíssima crise de inconstitucionalidade, que as denúncias contra o governo já tentam (ou estão sendo) ser abafadas, que os impostos e a inflação aumentam, que não há efetiva geração de emprego, que a educação, saúde e segurança são caóticas. A ladroagem, as mamatas, corrupção no governo e outros não vão ter mesmo ter CPI. E se tiver "é pra inglês ver", acaba em pizza. Os juros sobem mais um pouco mantendo o Brasil no primeiríssimo lugar dos juros mais altos de todo o mundo.

Lula continua em seu aviãozinho novo conhecendo o mundo e de pires na mão, querendo vender alguma coisa feito um camelô (o quê o Brasil produz, afinal?), coitado! Bom, pelo menos ele vai conhecendo o mundo o que, quando estiver sóbrio, vai render mil histórias para seus netinhos.

FHC diz que, como cidadão brasileiro, está cansado de ver e ouvir tanta besteira, falácia e de ver tanta inércia e incapacidade administrativa ( o PT, já 'desgoberna' há dois anos e seis meses) sempre sendo atribuídos à problemas do "governo passado", o dele, FHC Aliás, FHC (que sabe bater bem, para minha surpresa) quer que o atual governo diga quais são os rumos, o que o povo pode esperar.

Do lado dele lá, a resposta é um silêncio cavo, sepulcral. Só se trabalha e pensa na reeleição de Lula em 2006. Parece, olhando hoje, que ele vai mesmo ser reeleger, ainda não apareceu um candidato de oposição de peso, um anti-Lula. Só mesmo o Fernando Henrique que já disse que não concorre, não vai se arriscar a ser derrotado por algo como o Lula.

Eu sempre disse que os países sempre se desenvolveram e cresceram mais e e melhor em todos os aspectos depois de períodos de grande privação (guerras, por exemplo). Acho que mais um mandato, OITO ANOS sob a incapacidade, ineficiência, tentativas ditatoriais, torpeza e escândalos do governo Lula serão um remédio amargo para o povo deixar de ser burro, aprender a fazer uso do voto e acabar de vez com essa utopia comunista.


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22.5.05

as coisas

As explicações das coisas que vou colocando por aqui estão todas soltas por aí, num universo de explicações, anotações, grifos, livros, sei lá. Essa miscelânea que eu fui fazendo agora parece que não tem muito jeito não.

Na verdade me atrapalho querendo falar de um monte de coisas e me perco. Aliás me perco ainda quando tento falar de uma coisa só [o que mais ou menos caracteriza que o perdido sou eu.

Menos mal. Posso continuar então mais um pouco indo até a questão do homem como instituição, como metáfora de um porvir, de uma expectativa que não é e acho que nunca será. Essa idéia de homem que fazemos me parece furada, origem de todas as frustrações e traumas.

Não daria meu dinheiro a um psicanalista para ele dizer que tenho frustrações e traumas. Pagaria para ele me dizer quem não tem. Por isso que agora outros profissionais estão fazendo um movimento para poderem exercerem também a profissão de psicanalista.

Vai acabar a gente não sabendo mais quem é quem. Eu não incorro nesse erro porque, como sempre reafirmo, pra mim tem que ser médico. Se incomoda, dói. Se dói é dentista ou médico.

Mas não era nada disso o que eu ia falar. Ia falar do tempo frio, da chuva da dificuldade para telefonar para Jacarepaguá quando chove. Hoje é dia da minha sessão grátis, por telefone. Parece que não vai ter não.

E também não ia falar de tempo frio coisa nenhuma, isso foi um adendo, ia falar do tempo meu, do tempo que tenho disponível para fazer as coisas, que percebo agora que, mesmo sem fazer nada, o tempo do dia não dá para fazer as coisas que quero. Assim, quando eu fizer outras coisas, não terei nem um mínimo de tempo.

O que fazemos, afinal, com o nosso tempo? Como é que a gente acorda, levanta, começa a fazer as coisas e vai fazendo e daqui a pouco é de tarde e logo depois de noite e acabou-se a história. Olhe bem para a sua realização num dia. Pífia. Nada.

Não temos realizações em um dia (acho que só extração simples de um dente). O mais, qualquer coisa que se possa chamar realização, leva mais de um dia, mais de uma semana. E se o tempo não dá e não vai mudar esse relógio tal como foi feito, vai chegar uma hora que o mundo vai dar um nó e não anda mais pra frente nem pra trás.

Verdade que a sobrevida dos mais idosos está aumentando, mas isso é genérico, não me interessa saber de genéricos, me interessa saber do mediano. Não posso esquecer que fumo e tenho vida sedentária, hábitos que não pretendo abdicar tão cedo. Se sou grupo de risco, preciso, então, de mais tempo.

Não adianta, enquanto estou anotando essas observações não estou lendo o que deveria estar (o jornal de hoje nem abri ainda) e daqui a pouco tem o único programa de televisão que eu faço questão de ver. Complicado assim.

E olha que eu não paro, não dou bobeira, to sempre fazendo alguma coisa (ia reconstituir a biografia do Neruda e já ficou pra amanhã, vão ficar aqueles frangalhos ali esperando amanhã). E assim vai.

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Vida ?

O que torna o homem esse ser tão per-si? Vivemos para nós e por nós, ainda que nos entreguemos de corpo e alma a tudo e a todos. Estamos num momento de se (nos) dar, de entregar, de mostrar que existimos, estamos aqui e somos solidários. E somos mesmo.

Mas é como a expiação de um culpa ancestral, a culpa pela vida. Somos culpados, antes, pela aniquilação da vida. Por usar o oxigênio e desperdiçar a água, por usarmos os alimentos e as coisas que existem por toda a natureza. Até mesmo o nosso simples olhar, admirar não deixa de trazer, recôndita, a culpa do observador.

Por que a flor tem que ser observada, ainda que o façamos para que seja elogiada? Não é para nós mesmos esse elogio que dirigimos à flor? Me parece que sim, porque não havendo o homem, não há a flor, quero dizer, se existe uma determinada folhagem numa floresta absolutamente virgem, essa folhagem não é conhecida e, lógico, não é elogiada. Não se usa a folhagem para fins terapêuticos nem se planta mais dessa folhagem. Ela existe para ela, por ela, dispensa qualquer elogio, qualquer relação com a humanidade. Tem uma brincadeira qualquer em filosofia que não me lembro bem agora mas que fala mais ou menos da mesma coisa: se uma árvore cai numa floresta e não estamos lá, não ouvimos o ruído de sua queda, essa árvore realmente caiu? É mais ou menos isso, não me lembro ao certo.

Então o que fazemos é uma invasão a um lugar que é perfeito e completo. O que fazemos é construir, desmatar, dizimar, criar a produção, o progresso, a comunicação, a arte, a maldade, a bondade, a guerra, o humanismo. Fazemos e criamos tudo que não tem nenhum fim real para a vida porque a vida independe de nós se não a vivemos.

Fico imaginando do que se ressentiriam as ondas do mar se os homens não as ultrapassassem para nadar mais adiante ou que falta sentiria uma fruta que, não colhida à tempo, cairia e apodreceria, incorporando-se novamente ao solo. Nada. A vida que existe é a realidade, a vida vivida pelo homem é abstração.

Se estou vivo e sou bem sucedido e faço apenas o bem à tudo o que me cerca, sou na verdade um intruso, uma abstração que respira por tempo limitado, que se aproveita desse 'momento-vida' para fazer uma passagem sem razão sem quê nem porquê. Podemos pensar que a vida é boa ou ruim porque estamos nós analisando-a, mas basta que não exista um único homem sobre a terra para que a vida transcorra normal e tranquilamente, vida que realmente é, que não precisa de ajuda nem de avaliação e muito menos de proteção.

As pessoas protegem animais. Como protegem? Animais são simplesmente animais, simples assim, sempre foram e sempre serão e viveriam muito melhor e mais normalmente não houvessem grupos de homens para os protegerem. A pessoa que morre, independente do que fez e foi na vida, essa pessoa não perde a vida. É a própria vida que se regozija por ter menos um a ter idéias e a propor ações. Cada homem que morre é uma espaço-vida que nasce.

E se não nascessem mais homens e, pouco a pouco, fossem morrendo os vivos não estariam eles perdendo a vida e sim a vida ganhando a si própria porque ela é vida, ela é mutável e temporal na sua justa medida, não precisa de um interferência que se ache inteligente. O que dizer dos que falam que a humanidade traz a vida inteligente para a terra? O que tem vida a ver com inteligência? O que tem a vida a ver com os homens? E quem diz que a inteligência pode melhorar a vida?

Como se pode imaginar que, interferindo naquilo que se criou e transmutou sozinha, pode um ser fazer qualquer coisa favorável em qualquer situação em qualquer nível. Não importa se vai acabar a água ou o ar ou o mato ou a rocha, se erupções e tornados virão porque esses sim são parte da vida, vida que não tem esse limite de 40 a 90 anos em média, não tem aliás, essa tolice chamada medida de tempo.

A vida não precisa se medir nem pensar em como ela será porque ela é mais do que se analisar, ela é a vida em si. Repetir não custa: Não foi o homem que trouxe a vida para a Terra, ele veio, iludido e cheio de si, tão somente retirar essa vida.
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os amigos

Ele sentou em frente a mim nesse bar aqui da esquina. Os toldos de plástico estavam baixados por causa da chuva que insistia, desagradável. A temperatura fria, acentuou a vontade do uísque. Tomou um gole grande e ficou me olhando. Disse:
O que foi que nos aconteceu, afinal? Como eu consegui caminhar, como consegui escrever tanto e usar as citações dos livros que lemos juntos quando, na verdade, você leu mais do que eu?

Como esqueceu tudo, todas as passagens, citações? Por que guarda para si tudo isso, por que não mostra ao mundo que valeu à pena perder tempo sim, valeu à pena ler e ler, estudar e discutir porque tudo isso ia voltar na forma de citação, de referência para o seu trabalho? Por que você abdicou de tudo? Tem tanta coisa guardada aí dentro só para você mesmo?

Tomei eu meu grande gole do uísque. Pensei no que ele falava. Gostaria de negar, dizer que não, discutir, mas não me era possível, era tudo verdade. Eu realmente deixara os melhores anos da minha vida em bibliotecas ou quartos solitários apenas para aprender com aqueles maiorais todas aquelas coisas que me encantavam (e encantam).

Mas e agora? A idade vem me avançando, vem me tomando e eu tenho tudo em mim, tudo guardado lá dentro de forma misturada, desordenada, pensamentos truncados, citações pela metade ou atribuídas a autores errados. O que eu fazia com tudo aquilo, tudo aquilo que escolhi para ser o meu capital?

Os autores estavam lá dentro, isso eu sabia, as histórias, as poesias, as trocas de cartas entre eles, a filosofia. Tudo estava em mim, nada se perdera com certeza. Mas era uma trouxa. Uma trouxa grande onde eu misturava peças, citações, pensamentos, considerações, teorias e tanta coisa mais. Estava tudo em mim, tudo, de certa forma me servia, era a minha base, mas de forma misturada, desordenada, confusa para mim mesmo.

Ele me olhou e bebeu mais. Insistiu (e eu ri, como se agora isso valesse de alguma coisa) em que a academia era importante para, no mínimo organizar, que o conhecimento dessa forma autodidata, desestruturada levava a uma coisa sem nome, sem explicação. Um monte de informações, um monte de conhecimento jogados dentro de um homem que olha a vida à luz desses conhecimentos, mas os tem misturados, confusos, como que bêbados.

Aquiesci (o que mais poderia fazer numa hora dessas?) e tratei de sorver o final da minha segunda dose. Ele não estava me humilhando, estava falando, pensando alto, talvez com alguma pena não propriamente de mim, mas de como eu dispensara tantas coisas caras e importantes. No fim era a mim que ele consultava sobre teorias e autores, mas era ele quem alinhava, arrumava e vendia. Ao mesmo tempo que fazia, isso o incomodava, não por sorver em mim, mas por eu mesmo não fazer também para mim, bom proveito.

Olhei a chuva e pensei que não tinha como recuar nem discutir. Ele estava com toda a razão, mas as cartas estavam postas, a roleta já estava quase parando, a barba branca não nos deixava muitas opções.

O que fazer? Acho que agora nada. Agora pedir outro uísque, deitar conversa fora, olhar a chuva que tamborilava, insistente, no toldo vagabundo e depois voltar pra casa, pros meus discos, pros livros desarrumados e para os cadernos abertos. Ainda me restava um final de tarde, ainda restava um terceiro ato, as emoções, com certeza, não estavam encerradas. Vivê-las, então!

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"Neste mundo de tantos espantos,
Cheio de mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
São os ateus..."

Mario Quintana
Baú de Espantos
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Viagem*

O sono é uma viagem noturna:
o corpo - horizontal - no escuro
e no silêncio do trem, avança
imperceptivelmente avança... Apenas
o relógio picota a passagem do tempo.
Sonha a alma deitada no seu ataúde:
lá longe
lá fora
no fundo do túnel,
há uma estação de chegada
(anunciam-na os galos agora)
há uma estação de chegada com a sua tabuleta ainda
toda orvalhada...
Há uma estação chamada...
AURORA!

Mario Quintana*
Baú de Espantos
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Soneto*

"Alguma coisa vai despedaçar-se
em mim. Tremem bandeiras degoladas.
Mastros acostumados às lufadas
do mar rangem no rumo de quebrar-se.

O temporal vem perto. Abandonar-se
ao queixume das ondas agitadas
seria bom, talvez. Desesperadas,
choram luas enfermas de afogar-se

E há confusões. E há gritos. E há gemidos.
de estrelas violentadas, e alaridos
de cães em bando na procura de ossos.

E há vômito nas vagas, e há destroços
amargos, nunca mais recuperados,
e há solidão de espelhos sepultados."

Hélio Pellegrino*
Belo Horizonte, 21/08?47
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achados

As coisas nos vêm por caminhos tortuosos, essas surpresinhas que a vida vai pregando, brincadeirinhas do destino, insinuações do acaso.
Reclamei que não esta achando uns livros, não é?

Pois bem: me apareceu o Confesso que Vivi do Neruda e ainda O Meu Último Suspiro do Buñuel, um livro muito bacana. O Confesso do Neruda é um exemplar antigo mesmo, daqueles que parecem que vão de desfazer nas nossas mãos. Nem aí, já estou aqui atracado com ele. Neruda conta passagens e histórias fantásticas.

E mexi tanto que apareceram vários livros esparsos de Neruda, um fantástico Minérios Domados desse gigante que é o Hélio Pellegrino (que, cuidadosamente já coloquei ao lado de Otto Lara, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino - pra não separar os 4) e ainda, veja só, um Mario Quintana e seu Baú de Espantos (autografado!). Pode chover um mês agora que não estou nem aí.

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da ciência

A chuva cai ora mais forte ora pingos esparsos, mas ela está ali, inclemente avisando bem que veio para ficar, que nem sonhemos porque o dia hoje será de chuva.

Dias de chuva são tristes, tolos. Não vejo graça nas chuva. Gosto do frio, não da chuva.
Verdade que ela não existe para me agradar ou não. É porque é.

Aliás a inclemência do tempo me incomoda.Não gosto dessa história de tempo assim ou assado, meteorologias e tudo mais. Parece-me que nesse ponto estamos bastante atrasados cientificamente.

Acho que o homem deveria controlar o tempo, a temperatura, os dias claros e os de chuva. Por que não? Controlamos já tanta coisa! Seria melhor para a agricultura, para os povos que padecem pelas secas ou por excesso de frio.

O homem é muito bundão na maioria das ciências. Deveria estar mais na frente. Vai à Lua, Marte, Saturno e não faz chover no agreste? Domina a genética e não contém o desabamento das geleiras?

Assim como eu, o ser humano não é organizado, não planeja um avanço gradual em todos os campos, vai avançando muito aqui e nada ou quase nada acolá. Sem método, irracional.

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ESPERANÇA*

Saúdo-te, Esperança, tu que vens de longe,
inundas com teu canto os tristes corações,
tu que dás novas asas aos sonhos mais antigos,
tu que nos enches a alma de brancas ilusões.
Saúdo-te, Esperança, Tu forjarás os sonhos
naquelas solitárias desenganadas vidas,
carentes do possível de um futuro risonho,
naquelas que ainda sangram as recentes feridas.
Ao teu sopro divino fugirão as dores
como tímido bando de ninho despojado,
e uma aurora radiante, com suas belas cores,
anunciará às almas que o amor é chegado.,"

Pablo Neruda*
O Rio Invisível
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LUZ LIBERTA*

"Durante muito tempo limpei talheres e alfaias e os pus à mesa, esperando a visita. E me consumi nessa espera, e na tarefa de fazer brilhar alfaias e talheres, para que visita fosse honrada. Hoje, continuo a limpá-los, com a minunciosa e carinhosa obsessão.Sei, no entanto, que nenhuma visita chegará. Ou melhor: sei que a visita esperada está presente, e que sua luz não é senão o brilho das pedras e alfaias, que o meu trabalho deu à luz"
Helio Pellegrino*
(sem data)
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Ai, Deus! Esses livros que continuam a se esconderem de mim....
Tenho dois exemplares do biografia de Neruda "Confesso que Vivi" e não encontro nenhuma das duas. Como eu consigo tal disparate?
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Novamente, meu bom Artur

Acordo às três e meia da manhã. Fico um pouco na cama, mas não descontente pelo precoce despertar. No pé da cama, a me velar, dorme Artur, meu gato-amigo. Quando me mexo ele acorda e quando me aquieto, ele cochila novamente.

Por fim, resolvo levantar e ele vem comigo. Vem, senta na escrivaninha onde vou escrever em meus cadernos e me olha com o olhar compreensivo e amoroso. Deita-se então ao lado do caderno, de forma a não me incomodar.

Fico olhando para ele. Meu gato, queria contar, é muito, muito meu amigo. Dizem que os felinos, ao contrário dos cães, são ariscos e se apegam muito mais às casas do que aos donos.

Isso é uma ingênua, tola e retumbante idiotice. Meu gato é tão fiel e amigo quanto seria qualquer animal, ainda que eu desconfie que ele seja mais companheiro. Ele senta no meu colo quando perco horas na leitura, vela pelo meu banho do lado de cá do boxe, caminha ao meu lado pela casa, em cada lugar que eu vou.

De vez em quando, de brincadeira, ele, vendo que me dirijo ao sofá, por exemplo, sai correndo na frente e se atira de barriga para cima esperando que eu lhe acaricie o queixo. Depois, satisfeito, me dá o lugar e volta à sua vida animal.

Quando estou numa poltrona, parado, com o pensamento distante e o olhar triste, ele senta no meu colo e estica a pata em meu peito, como a me acariciar.

Quando vou à rua ele me leva à porta e quando volto, ouvindo o barulho da chave na fechadura, mesmo que estivesse dormitando, ele acorre para estar sentado em frente à porta, tão logo entro.

Chego então e sento à sua frente. Eu falo com ele, pergunto quem é meu amigo querido e ele me olha com seu olhar enternecedor e mia, como a me responder humildemente que é ele.

Fico relendo e pensando se estou exagerando e percebo que não, ao contrário, que ele faz mil outras coisas que não me vêem agora.

O que eu dou a ele? Ração, água e um teto para morar. Ele mesmo se limpa e está sempre mais limpo do que eu. Pulgas e carrapatos, nunca os teve. Como dou pouco e recebo tanto! Das coisas que relatei, duas eu gostaria de frisar bem, para que ninguém esqueça e possa imaginar a cena. Uma é quando, ao me ver triste, ele deita no meu colo e estica a para no meu peito como a acariciar e outra coisa é o seu olhar, um olhar longo, profundo, penetrante que demonstra um carinho, um gostar que não me lembro ter visto em nenhum ser humano.

Não me interessa a opinião do mundo, cada um deve ter lá as suas experiências, é claro. Mas, no meu caso, posso afiançar sem medo de errar que Artur, o meu gato, é meu melhor amigo e, portanto, o melhor amigo do homem.

Se eu fosse o Vinícius, escreveria: o uísque é como um gato engarrafado, o melhor amigo do homem.

Se você gosta de animais e tem uma impressão equivocada dos felinos, não exite, adote um gato e seja feliz!


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21.5.05

meu gari

Quando caminho pelas ruas aqui do bairro, me chama particularmente a atenção o trabalho dos homens que recolhem o lixo, os garis. Puxa, é um trabalho danado onde carregam peso, mexem com coisas sujas e sempre com um cheiro desagradável.

Esses homens vão correndo lado a lado do caminhão ou atrás deste, recolhendo as enormes caçambas dos prédios de apartamentos e colocando tudo no compartimento próprio do caminhão que mais ou menos 'engole' o lixo.

Mas, se tiver oportunidade, repare no humor desses homens chamados garis. Via de regra estão de bom humor, falam alto uns com os outros, riem, trepam no estribo próprio do caminhão. Muito difícil ver um lixeiro de mal com vida, desses que só reclamam como os engomadinhos tolinhos de escritórios por exemplo.

Prefiro muito, mas muito mais os garis

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meu mundo

Durmo no início da tarde e desperto já em horas avançadas. O sono faz com que me perca de mim, ache que outro dia está amanhecendo. Como são confusos esses momentos adormecer e despertar: como decolagens e aterragens... Como quem atravessa vários fusos horários, perdemos a noção de tempo, levantando do catre achando que estamos no início do amanhã quando estamos no início do final do hoje.

Muitas são as relações dos sonhos com o tempo. Ficamos à mercê de um e outro sem sabermos direito onde estamos e em que tempo. Ficamos tontos, olhando relógios e calendários, procurando nosso centro.

Acho que isso deveria ser bastante para que nos apercebêssemos que não existem tempos nem centros, que estamos aqui como poderíamos estar ali, que deixamos de viver o hoje e nem por isso tornou-se amanhã, que como tudo os 'hojes' perpetua-se, que o tempo é uma medida tão abstrata que desnorteia a um simples homem que faz a sesta.

Desperto triste ao notar que hoje é hoje e não amanhã. Esperava que fosse amanhã, com seus pássaros, suas promessas de um dia assim ou assado, com esse ou aquele acontecimento, aquela novidade.

Em repouso, num sono profundo ou frágil, desses entrecortados, que cambiamos entre a vigília e o cochilo, perdemos a visão de mundo, de espacialidade. Deixamos de ser geográficos e datados no tempo. Somos espíritos que dormitam, numa espécie de purgatório onde a mistura dessas informações deixam a vaga sensação de não sermos.

Quem está em vigília plena ou completamente adormecido está num espaço tempo diferente. O que dorme e o que está desperto não habitam o mesmo mundo, mas sensações de um possível mundo comum. Me parecem mais dois mundos.

O mundo não deveria ser percebido tão friamente como uma massa redonda que gira no espaço, deveria ser ( e valer) a percepção do homem, deveria ser o que é para nós e não como é visto de fora. Dias deveriam ser dias para todos os que vivenciam os dias e noites, noites para os que estão na noite. Não importam as variações em relação ao ponto de vista do sol porque não habitamos lá e sim aqui e somente aqui, então, nos interessa.

Acho que essa visão tornada certeza nos faria mais humanos. Vendo de um ponto eqüidistante onde a Terra está lá, somos fantasiados de semi deuses que percebem o mundo como um planeta e planeta está longe de ser mundo, mundo é isso que vemos e vivemos aqui dentro, nosso despertar e adormecer, nossas refeições, nossa lágrimas e nosso riso. Nosso pensamento, enfim, do que é. De que serve a visão distanciada de um planeta? Nada a meu ver.

Como digo sempre, me agrada olhar o horizonte e imaginar que na linha que une céu e terra é o fim do mar e que, seguindo em frente caímos num nada, como eram as cartas geográficas antigas. A ilusão da antiguidade me parece melhor, mais plácida e mais fala ao espírito do que a visão dura e fria das descobertas modernas, quando não nos é mais permitido sonhar, quando a lua não é mais dos namorados e sim um satélite seco e inóspito.

Sou esse que está aqui, entrado em anos a reclamar de um teclado e não uma coisa, sou cidadão desse mundo e não um número registrado num órgão que tem um banco de dados num determinado local que, por demarcações imaginárias, denominamos 'País', de um mundo que, um dia, visto de longe, foi chamado planeta. Esses avanços, essas descobertas científicas devem ter lá sua grande importância, mas não para mim que vejo flores e pessoas não me interessando estudos astrofísicos ou lá o que sejam.

Se houver reencarnação, como dizem, quero reencarnar numa época para trás (imagino que Deus o permita), quero voltar à Terra numa época mais atrasada, onde o sentimento esteja à frente da razão.

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propostas meio soltas

Fico brincando de escrever bobagens aqui não tenho nada mais sério para fazer e acho mesmo que a gente escrever uma coisa despretensiosa não faz mal a ninguém e desopila o fígado, como diria minha avó.

Mas ando fazendo um trabalho para um empresa sobre espaços de discussão na internet, principalmente blogs, e sou surpreendido com a quantidade de blogs sérios, que tratam de questões importantes, vitais. Pelo que consta, a quantidade desses blogs já é bem maior do que os se pretendem apenas amenos ou com informações de revista, fofocas, enfim.

Deve ser legal essa coisa do blog onde você pode tratar de assuntos mais sérios sem ter o peso dos sites acadêmicos, de você poder fazer seu comentário ou sua pergunta, a mais simples que seja, porque não somos obrigados a dominar todos os assuntos e, colocando as questões para os blogs, estamos sendo a voz de muitos e as respostas também vêm na opinião de muitos e não de apenas um acadêmico, desses de plantão.

Tem de tudo: botânica, medicamentos com preços proibitivos, descobertas ótimas no campo de doenças, etc. Acho legal a gente poder participar desse tipo de coisa, dessa troca de informações.

Isso me vem porque teve um momento muito parado nessa área de discussão, principalmente nos blogs brasileiros que falavam de nada (como o meu), que eram (são) absolutamente irrelevantes a meu ver.

Porque, se por um lado eu digo mal da internet (e digo muito mal mesmo, acho terrível sob alguns aspectos), por outro fico pensando que podemos fazer (como muita gente já faz) coisas sérias importantes e, ao mesmo tempo, palatáveis e, até mesmo agradáveis.

Foi meio que um balão de ensaio, é verdade, mas recebi uma enorme quantidade de correspondência série,interessada, quando andei tratando de problemas e doenças psicológicas. Teve muita gente escrevendo para relatar problemas análogos e dividir comigo como vinham fazendo para minorar sacrifícios.

Recebi ainda um considerável número de e.mails quando tratei da questão da importância da televisão, correspondências que concordavam explicitamente com meu modo de ver e outras que não, que argumentavam, mostrando-me lados positivos do veículo.

De vez em quando eu reproduzo um desses e.mails, procurando um que seja mais ou menos representativo do conjunto recebido e outras vezes edito várias correspondências numa só, para dar voz a várias pessoas com seus pontos de vista.

Mas acho que ainda estou trabalhando de forma equivocada. Deve existir um meio mais prático, mais útil para todos, que permita uma discussão mais completa e democrática. Já existiu um tempo que cada post tinha lá seu espaço para comentários uma experiência frustrante porque acaba entrando muita gente idiota pra avacalhar e tira a seriedade da discussão.

Não sei ainda como fazer. Tenho sondado, perguntado, algumas pessoas têm lá as suas idéias nem todas que sejam abrangentes. Não precisamos ir longe ao lembrar que no atentado do 11 de setembro, os jornalistas correspondentes se utilizaram de blogs para enviar notícias aos jornais porque as redes oficiais ficaram sobrecarregadas e o tráfego de informações nos sites oficiais simplesmente paralisou por excesso de acessos.

Não é o caso de uma grande tragédia, claro. Falo realmente de coisas mais simples, coisas que interessam a muita gente sem serem, necessariamente, do interesse de todos. Pensei um tempo em ter blogs temáticos, mas desisti da idéia, acho que um só dá conta do recado.

Estou falando essas coisas que vão me passando pela cabeça, mas não tenho uma opinião, uma idéia fechada e, muito menos, sei como fazer isso. Acho apenas que já existem muitos trabalhos assim no mundo. Não os conheço no Brasil (podem existir, claro).

Eu não sabia por exemplo, da quantidade de pessoas que preparam a sua própria grade de programação para assistirem apenas às coisas importantes, como não sabia da grande quantidade de pessoas que sofrem de depressão e suas conseqüências sem se darem conta de que é um problema muito mais comum do que pensam, com solução razoavelmente fácil.

Bom, eu não sei ao certo. Estou falando as coisas meio soltas, quase pensando alto e deixando que dividam essas questões. Talvez seja bobagem. Talvez não. Fica a proposta.

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queria saber como, ontem, fazendo umas comprinhas bobinhas no supermercado, gastei cento e oitenta reais. Já fui melhor dono de casa.
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A hora do dia que me é mais agradável é pela manhã, quando acordo, tomo café e dou uma olhada no jornal.
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mais sonhos

sonhei que estava numa cidade do exterior, acho que à trabalho, 'cobrindo' a participação de uma nadadora brasileira numa competição tipo Olimpíadas. Ela não estava indo nem muito bem nem muito mal. De qualquer forma, era uma pessoa muito alegre, extrovertida e que, nos intervalos, sempre conversava animadamente comigo, explicando o porquê não fora tão bem nessa ou naquela prova. Bacana, um sonho que, como sonho, me pareceu interesssante.
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20.5.05

pensando...

Sexta feira é dia de sair para beber. Presumivelmente porque no sábado não se trabalha, podemos todos acordar morrendo de dor de cabeça e vomitando pela casa toda. Acho uma bobagem. Devia ser o contrário. Sexta e sábado ninguém devia beber pra passar o final de semana bem, sem mal estar, enjôo nem nada e durante a semana a gente devia encher a cara porque já que tem que ir trabalhar mesmo, ia logo de ressaca, com dor de cabeça, etc. Melhor vomitar no nosso chefe do que na nossa mulher e nos nossos filhos. Mais coerente.
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Cada dia mais fala-se das bebedeiras homéricas que o Lula toma. Não sei porque fazem estardalhaço. Ele sempre foi um pinguço conhecido. Por que deixaria de ser logo agora que tem bebia à rodo, bebida de boa qualidade, coisas que ele nunca deve ter ouvido nem falar (embora digam que ele não dispensa mesmo é a cachaça)? Por que parar logo agora que dispõe de carros, aviões, seguranças para ampará-lo e toda essa coisa? Tenho uma puta inveja das bebedeiras do Presidente.
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Dormir de dia é um suicídio inconcluso. É você perder parte do seu dia, deixar de fazer coisas, andar por aí, trabalhar, ver as modas, qualquer coisa. Dormir de dia é como o tabaco: diminui a sua vida.
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Falam mal do Lula para mim, como que querendo me agradar. Bobagem, perda de tempo. Ideologicamente não o desejava presidindo o Brasil, mas já que, democraticamente foi eleito, fim de papo. Acho que ele faz o que era esperado que fizesse. Acho que muito pior do que o Lula é o povo brasileiro: indolente, malemolente, dado à pachorra, ao batuque, ao churrasquinho. O povo é que me repugna.
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Amanhã vou comprar mais cadernos de capa dura e canetas esferográficas. Ainda tenho em abundância, mas o meu TOC está pedindo.
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Tem uma lagartixa no teto da minha casa o dia inteiro hoje. Artur, meu gato mais constante do que gente, já está de torcicolo de tanto olhar para cima. Sacanagem!

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Estava aqui agora de bobeira relembrando a clássica cena da despedida do casal, quando ele diz a ela: Sempre teremos Paris.
Daí ela e o marido pegam o avião e partem. É lindo. Um clássico. Uma obra de arte.
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TV

Recebo um elogio muito bacana de uma pessoa a quem tenho muito apreço por causa do meu ensaio Sobre a Televisão. Na carta, ele compara meu ensaio (do ponto de vista brasileiro) a um outro, análogo, também chama Sobre a Televisão do mestre Pierre Bourdieu.

Fiquei muito orgulhoso mesmo, mas gosto de dizer sempre as coisas. Tudo começou por causa de uma saudável discussão. E é por isso tanto que eu me satisfaço tanto com debates, conversas, discussões. No caso desse Ensaio Sobre A Televisão, tudo começou porque eu conversava com uma pessoa sobre essa coisa de programas de televisão, de gostar e deixar de gostar.

Nossa conversa foi animada e num momento ela me disse que eu dizia mal da TV porque queria parecer diferente dos outros. Foi dessa saudável troca de idéias que resolvi parar e ordenar meus pensamentos, os porquês da minha posição e daí saiu o ensaio. Viva o debate inteligente.
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Sonhei que estava da casa da Kakay, da minha tia e, como fazia de vez em quando, pedia à Fátima, a empregada, pra me dar uma barra de chocolate, Hoje no sonho a Fátima sorriu pra mim e disse que não tinha, tinha apenas um pedaço que daria à minha tia quando ela acordasse. Minha tia não apreceu no sonho. Desde que ele morreu é a primeira vez que me aparece algum sonho relativo a

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Ando com muita insônia... já há uns três dias ou quatro dias tenho dormido às duas da manhã e acordado às 4, cinco. Ontem fui dormir às 2 e estou de pé desde as quatro. Saco!.
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19.5.05

Para quando estivermos desocupados é interessante traçar um paralelo entre "O Processo" de Kafka, "A Marca Humana" de Phillip Roth, "Eu Acuso!" de Emile Zola, "Todos os Nomes" de Saramago, "Konfidenz" de Ariel Dorfman, "A Fogueira das Vaidades" de Tom Wolf e "Dezembro Faltal" de Bellow...... falta um outro romance que não me lembro agora.
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Sobre a Televisão

Em seus primórdios, com homens que realmente desbravaram a televisão, era produzido (no Brasil) O Grande Teatro em emissoras de TV que nem existem mais. Atores, produtores e diretores pegavam textos de teatro brasileiro e estrangeiro e montavam a peça nos estúdios, levando o teatro para dentro dos lares.

O povo, que nunca teve acesso à cultura mesmo, passou a ter a oportunidade de assistir clássicos do teatro universal, coisa que sem a televisão não fariam nunca já que esses clássicos eram montados em grandes teatros com ingressos proibitivos ao populacho.

Então, olhando assim, percebemos que a televisão possibilitou a disseminação da informação, popularizou a cultura, "inclui os excluídos". Os elencos eram grandes e caros, os cenários muito bons e os comerciais pagavam o custo. O povo tinha, finalmente através do teatro, 'a cultura' dentro das suas casas.

Se olharmos assim, com essa visão simplista, eu diria que a televisão é um bom meio de disseminação da cultura (e de qualquer coisa. Gobells usava muito a TV na propaganda nazista com excelentes resultados!).

Um olhar com mais acuidade mostra outras questões, outro lado da mesma moeda. Os homens e mulheres que teriam acesso a essa 'cultura' eram pobres e, portanto, não tinham televisão. Mas, vá lá, reuniam-se grupos na casa dos mais bem sucedidos.

Sendo pobres eles não estavam distante apenas da possibilidade de comprar um aparelho televisor, eles estavam distantes da cultura de uma maneira geral. A dona de casa e o trabalhador incultos assistiam espetáculos que falavam de um universo que eles, telespectadores, desconheciam.

Peças de Moliére? Viam pessoas falando coisas que eles não entendiam porque não tinham a velha e tão comentada referência. Assistiam, é verdade, podiam dizer no dia seguinte que tinham assistido Os Miseráveis, de Hugo, por exemplo. E daí? Daí nada.

Não entendiam, iam dormir e no dia seguinte, no trabalho o que na noite anterior fora espetáculo, agora era nada. Porque não se pode assistir a apenas uma peça de um dramaturgo, como não se pode ler um livro de um autor ou ouvir um disco de um compositor. É preciso mais, muito mais para sedimentar uma base cultural no espírito que vai então estar apta, receptível ao todo, como ensina Shiller.

O teatro traz no bojo da cultura , a magia. É importante que se vá ao teatro porque nada o substitui, nem de longe, ao contrário, diminui a grandeza, esfacela a magia do espetáculo, torna a obra pasteurizada e, pasteurizada não há arte.

Com o passar dos anos esses teatros deixaram de ser produzidos na televisão porque o público era restrito, a contrapartida do patrocinador pequena que por sua vez pagava menos e ainda, por sua vez, inviabilizava a produção na televisão.

Deixaram-se os teatros e partiram para outras atrações (sempre partindo da premissa do lucro, da viabilidade financeira via patrocinador). Os pioneiros da televisão começaram a experimentar fórmulas. Uma delas era o programa de auditório. Enchia-se o auditório com o populacho e pagava-se a apenas a um Ator, o Apresentador. Esse modelo deu certo porque o elenco era de uma pessoa. Se uma cantora famosa ia ao programa, ela não cobrava cachê porque a sua aparição, a projeção da sua imagem aumentaria a vendagem de seus discos, o que era uma forma de pagamento indireto.

Mas ainda era pouco e, seguindo os jornais de muito antigamente e as rádios descobriu-se a telenovela. Contratava-se uma escritora fracassada em seu país como Glória Magadam, em elenco razoável e cenários pobres.

Quando você vai produzir uma novela contrata por empreitada, você paga um salário muito menor aos atores porque eles tem a garantia de mais tempo de trabalho (8 meses em média) e constrói o cenário uma vez só e ele vai durar oito meses. Gasto inicial grande que se dilui ao longo do tempo. Aí, o patrocínio conseguia pagar à TV, até porque as pessoas seguiam os capítulos, viam todo dia, consumiam mais o produto que o anunciante oferecia. E assim foi por muitos anos.

Aos poucos o custo do aparelho televisor foi barateando, mais gente tinha televisão, mais gente assistia e consumia. E um outro fenômeno acontecia. Dentro dos lares as famílias silenciavam na hora da novela, não se podia falar. Começou assim o fim das agradáveis conversas e troca de idéias e saberes. O livro que era o meio de distração e aculturação principal logo deixou de ser, porque é mais fácil assistir televisão do que ler um livro. Deixou-se então o livro e a conversa em troca da televisão.

De uns anos para cá, já com as televisões dando lucros estupendos iniciou-se timidamente a adaptação de romances ou peças para novelas como O Bem Amado, Roque Santeiro, etc.

E, ainda mais milionárias as televisões começaram a requintar (mais!)com as minisséries (Maria Moura e outras) porque o público dava sinais de cansaço de assistir durante oito meses aos mesmos personagens nos mesmos cenários (forma de lucro das televisões). Minissérie dá pouco lucro, mas é um mal necessário porque atrai o espectador que vê a minissérie e continua vendo as novelas e os programas de auditório.

Tem os programas infantis também que tiram as crianças das praças ou dos folguedos com seus brinquedos lúdicos, dos encontros com amigos onde há troca para ficarem imbecilizadas vendo as lourinhas cantarem.

Porque a televisão, o meio, não tem ética, a televisão em si é incompatível com a ética. Sempre foi incompatível também com a estética, mas esta vai chegando muito timidamente (se podemos chamar aquilo de estética porque quem sabe o que é estética não vê nenhuma relação, mas vá lá).

A televisão, salvo exceções, é uma indústria, precisa fazer muito dinheiro. Entre o teatro e a novela, junto com os programas de auditório criaram-se os programas de entrevistas e de debates. Esses são as meninas dos olhos dos empresários da televisão. O cenário é sempre ruim e barato, a equipe técnica pequena e paga-se bem (às vezes) apenas ao apresentador. Este convida pessoas a serem entrevistadas e elas vão de graça, emprestando sua fama ao programa, seguindo a mesma linha de raciocínio das cantoras dos primórdios que iam nos programas de auditório para aumentar a sua mídia.

Os noticiários são amorfos, são apenas noticiários, têm a velocidade dos satélites, mas são pífios em opinião, não têm opinião. Jornalismo é notícia e opinião. Quem traz a opinião é o jornal impresso, no dia seguinte. Agora, pra quem gosta de assistir guerra no Iraque ao vivo, o telejornalismo é o máximo.

E, ainda para movimentar capital, contratam-se produtores que gravam programas educativos como Mundo Animal ou recitais esporádicos que são o filé da TV, são a isca final, a mais elaborada, para que o telespectador jamais saia de frente do aparelho.Tudo é feito calculadamente, tudo programado em máquinas de calcular.

E hoje pode-se ouvir gente dizendo que televisão é bom. Bom em quê? Te deixa solitário ou impede o diálogo, te afasta dos livros, teatros, cinemas e exposições. Televisão é bom porque alienante, não dá trabalho mental porque você fica horas em frente a uma tela sendo bombardeado por uma programação feita por pessoas que, ao contrário do que se possa inocentemente imaginar, visam apenas ao lucro desmesurado e jamais a cultura. Quem vê televisão se ilude porque não pensa, apenas assiste, é um receptor da informação é um ser passivo, sem opinião, sem reação, sem interagir com o meio. A meu ver, televisão emburrece.

Que eu saiba, não existe nenhuma relação de avanço cultural, em país nenhum do mundo, que esteja necessariamente ligado à televisão. O que existe é única e exclusivamente na Inglaterra, a BBC de Londres que tem produtos de qualidade. Mas por que? Porque por lei, cada cidadão inglês paga, do seu bolso, mensalmente uma quantia para a BBC. Ou seja, é uma televisão pública, sem interesse comercial nem estatal que o público paga como pagaria um ingresso numa exposição de arte ou num livro ou num ingresso de teatro.

Isso sem falar no lado podre da globalização onde pasteurizou-se tudo, onde o que é moda aqui, é também do outro lado do mundo.

O Brasil é tão mal informado, tão despreparado que um dos maiores teóricos de televisão do país, o Sr. Nelson Hoinnef afirma que o programa do Ratinho é exemplo de cultura. Se ele diz isso, o que se pode esperar da população?

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Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, prá mim, prá mim, prá mim

Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do serrado
Bota o Rei-Congo no congado
Brasil, prá mim
Deixa cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda a canção do meu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, prá mim, prá mim, prá mim

Brasil, terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
O brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, prá mim, prá mim, prá mim

Esse coqueiro que dá côco
Onde amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, prá mim
Ah ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, prá mim, prá mim, Brasil
Brasil, prá mim, prá mim, Brasil
Brasil, prá mim, prá mim quarela do Brasil


Letra e música: Ary Barroso


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O Guada-costas

Me basta ouvir o andar em marcha daquele homem. Sei quem ele é. Usa botinas lustrosas que chegam quase até os joelhos. Se uniforme é passado com esmero e sua barba era extremamente escanhoada, não havia sombra de ponto de pelo em seu rosto. O quepe caía levemente para o lado com charme masculino.

Era homem de confiança do Senhor e levantava-se diariamente às 4,30 h. da manhã, tomava forte ducha fria e às 5 h. já estava terminando o espartano café matinal.

Tinha uma razão ser ele estar ali, naquele lugar e aquela hora. É que o Senhor chegaria três horas depois e ele comandava a equipe que vazia a varredura de segurança nos locais onde o homem ia e ele achava que deveria haver sempre uma antecedência de três horas.

Tem 42 anos, mas tornara-se o que é hoje aos 17. O mesmo rigor. O mesmo barbear, a mesma goma no uniforme. O mesmo penteado fixo.

Caminhava pelos corredores sem preocupação de estar incomodando ao acordando alguém nem mesmo de estar sendo notado. Nada do que se passava na cabeça dos outros era do seu interesse a menos que ele, que ele quisesse.

Sua experiência com mulheres era prática, objetiva, pragmática, estéril. Fazia o que tinha que fazer e saía sem olhar para trás. Antes de fechar a porta, já esquecera o que tinha feito, o que tinha acontecido. Para isso pagava sempre antes.

Na época mais obscura, quando rarearam as mulheres, não se incomodou muito. Ficava de tocaia, observando com seus binóculos os carros que passavam pela estradinha de barro. Tinha o mesmo prazer do que num ato sexual.E assim impunha que seus subordinados se comportassem.

O mundo não era para brincadeiras, ela lugar de atenção, de trabalho duro, de seriedade e austeridade, seu compromisso era maior consigo mesmo do que com Deus.

O que viria no futuro, perguntara-lhe uma vez um oficial de patente próxima. Não sei, ele respondeu, guerras sempre haverão, de uma forma ou de outra. Ele vivia para a guerra ou antes, para preparar os caminhos, para dar condições aos homens de entrarem nas guerras. Não importava como nem quando.

Métodos para que alguém falasse? Ele não deixava ninguém participar (nem os seus superiores). Bastava que dissessem o que queriam saber. Ele se trancava com o prisioneiro e saía menos de uma hora depois com a informação, na maioria das vezes escrita, datada e assinada pelo confessor. Este, muitas vezes não saía vivo.

Sei muito pouco dele, sei o que todos sabem que representa praticamente nada. Fala alguns idiomas e morou em alguns países sempre foi duro, reto. Militar ou para militar. Sempre envolvido em situações onde não podiam ocorrer falhas. E ele nunca falhou. Só falharia se morresse antes.

Esse homem escreveu um livro infantil, um livro para crianças que estão aprendendo a ler e esse livro, assinado com um pseudônimo, fez enorme sucesso mundo afora e criou-se uma expectativa sobre o verdadeiro autor. O editor que, desconfiou-se, falara alguma coisa sobre o verdadeiro autor foi encontrado enforcado e disseram que foi suicídio.

Esse homem tem que cuidar da segurança e bem estar do Senhor e encobrir a autoria do livro que vende aos milhões mundo afora. Esse homem é capaz de queimar todos, um por um de cada exemplar, se houver necessidade, se sua identidade for ameaçada. E pessoas, morrerão quantas dezenas forem necessárias.
(continua)

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resposta para o quinto e.mail que chega hoje

O blog, lembro-me agora, pode ser fechado. Só entra a quem eu der a senha. Uma opção simples que impede que eu seja patrulhado porque, convenhamos, eu escrevo aqui só para umas três pessoas inteligentes ou medianas que entendem o que estou dizendo e se não concordam, argumentam com sólida base de idéias. O resto é ignara, não me interessa em nada, é como o povo, completamente irrelevante
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essas cartas que me chegam

Esse desprezo pelo mundo é muito mal compreendido, vou vendo dia após dia. Desprezar o mundo para quem entende as coisas, para quem a cognição não é uma dificuldade grande, desprezar o mundo tem um significado outro, maior.

Não desprezar o mundo, ao contrário valorizá-lo em demasia, afeiçoar-se a ele e buscar qualidades que não existem não é justificável nem coerente (é do jeca brasileirinho). Interessam-me as pessoas, muito poucas, grupos pequenos e por vez, com calma.

É preciso raciocínio arguto e inteligente. É necessário conhecer coisas variadas, saber, para identificar nas falas, as referências... É deprimente, constrangedor, falar e perceber que o outro não percebe porque não tem referência. Por isso falo menos genericamente à cada dia.

Esses missivistas que escrevem encolerizados por falta de conhecimento não têm culpa, são, antes, vítimas da ignorância terceiro mundista, jeca do Brasil, da América do Sul, do Terceiro Mundo. Antes das pessoas se aventurarem na vida, se colocarem como pessoas, deveriam aprender as coisas do mundo para não submergirem pela igonrãncia que o Estado e a Universidade permite e estimula! Adultos (jovens principalnte) me escrevem como crianças de 4 anos. E isso é muito chato.

Eu entendo que não se tem informação aqui, não tem escola, hospital, que a academia é pífia, fraca, vergonhosa, que só sabe reconhecer coisas irrelevantes. O Brasil não tem nada pra vender. Devia mudar. Tem o quê? Laranja, quando os Estados Unidos deixam. Prostitutas? Talvez, mas parece que Cuba e o Haiti são muito mais eficientes. Parece que temos pelo menos a tal soja (Infelizmente acabou o pau brasil e o ouro). Diante dessa deblaque alarmante o que nos resta é um ufanismo bobo, patético, é o orgulho tolo de um povo que não tem nada a oferecer

Fiquei um velho paciente, desses que recebe as cartas e responde, mesmo as insultuosas. Diariamente vou à minha caixa de correio e sim, respondo a todas as besteiras, bobagens, a toda a ignorância que me chega. Explico didaticamente (mesmo sabendo que quando receber a carta, o missivista não vai entender porque ele não sabe o que está sendo falado e analisado).

Infelizmente não vou fazer o que esses missivistas esperam. Não vou nivelar por baixo pras pessoas perceberem. Não. Vou continuar falando das coisas com embasamento (certo ou errado, claudicante ou não), usando minhas pouquíssimas referências e, se possível criando outras. As cartas que me chegam não mexem comigo, leio por ler, com desdém, com tédio, tédio das pessoas, do Brasil, do mundo.

O mundo é entediante quando não se convive num grupo razoável. Não acho as pessoas, grosso modo, razoáveis. O mundo é chato, mesquinho. A vida é mesquinha com os menos aquinhoados porque não mostra a eles suas deficiências, permite que transitem em níveis diferentes, onde se expõem.
Tenho pena, mas não me furto a um enorme tédio disso também.

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Folheio os livros de Domenico De Masi que tenho por aqui e me sinto um tolo. Caí num grande engodo. Deixei de ler Platão para perder tempo com um vendedor barato de ilusões.
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Artur

Artur disputa cadeiras comigo em casa. Não tenho poucas cadeiras, mas nossas preferenciais são as mesmas. Vira e mexe quero sentar e lá está ele, deitado ou sentado me olhando, reprovador, por estar de olho no seu assento.

Não sei se é justo, mas eu sou gente e comprei as cadeiras. Ele é gato e usufrui dela. Eu sou mais velho e ele, jovem. Me parece que ele deve levantar sempre que eu quiser sentar em qualquer uma.

Artur é uma chato que não gosta de comer quando a gamela não está cheia, gosta de me ver tomar banho e sempre mia quando estou saindo do boxe e disputa lugares na cama na hora em que vou dormir. Ele se acha dono da casa, o que, de fato também é e, como já caiu da janela e não morreu acha que não sou capaz de levá-lo a um prédio de 50 andares e jogar ele lá de cima, do topo.

Mas não faria isso em nenhuma hipótese. Primeiro porque não mato nem baratas e, portanto, não mataria um gato. Segundo porque ele me agrada, não é arrogante e muito menos traiçoeiro. Com ele nunca preciso estar na defensiva.

Ele entende e aceita o amor que posso oferecer-lhe na sua justa medida. Enfim, confio muito mais no Artur do que em muita gente boa que conheço.

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os críticos

Otto Maria Carpeaux foi um erudito, isso é inquestionável. Mas os homens que lêem muito, que estudam a alma humana, que desejam pensar o que outros escritores pensam, que analisam as obras caem em pecadilhos tolos.

Em seu Ensaios Reunidos Págs.660/663, Carpeaux escreve um ensaio (crítico) do romance A Queda de Albert Camus. Carpeaux por ser culto tem o insuportável defeito de achar que escreve para minorias e insiste em deixar longas citações e frases em francês. Ele devia achar bacana deitar erudição deixando tanta coisa em francês em seus ensaios.

Resolve fazer esse ensaio, essa análise de A Queda (que nunca chama assim, chama sempre La Chute) e diz e desdiz sua opinião sobre o romance o tempo todo. Critica o personagem Clemence. Refere-se ainda o letrado Carpeauz ao L'Éstranger como adaptação da peça de Zacharias Werner, diz ainda que La Peste pode ser uma adaptação do romance do italiano De Angelis. Termina dizendo que a realide de Le Chute (ou A Queda) é fingida, que é, enfim, a queda de Camus (que ele trata com um plagiador).

Paulo Francis também critica Camus, mas o faz de forma autêntica e compreensível, diz que Camus, é de um palavrório estático, típico do provinciano qua aprendeu com os mestres franceses.

Eu não acho, gosto de Camus. Mas gosto menos do ensaio erudito de Carpeuaux. Prefiro a sinceridade clara e rústica de Francis.

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postado às 6,40, mas escrito às 4,30h

Acordas às quatro e meia ou cinco horas da manhã é muito bom. Eu acho. O dia parece que fica maior (e fica) e, de uma maneira geral, sou mais disposto pela manhã. Ia escrever no blog agora, mas o servidor da Blogger está fora do ar (lá o pessoal ainda deve estar dormindo).

Gosto de acordar antes do sol nascer e ir vendo, passo a passo, o dia clareando, os passarinhos começando a cantar,o início dos ruídos das pessoas que acordam, começam seus afazeres de ir daqui ali, de irem aos banheiros e alguns de saírem mesmo de casa muito cedo.

Teve um dia, se não me falha a memória, que eu escrevia alguma coisa sobre noturna (palavra que gosto muito) e dizia que eu era uma pessoa noturna ao contrário do que afirmara aqui, bem antes que era diurna.. Mas não é verdade.

Talvez um personagem que eu represente aqui seja de fato noturno porque a noite e a madrugada ficam no meu imaginário como o período de tempo mais excitante, mais misterioso, onde as coisas dessas que se relatam mais devem acontecer.

Enfim, não é verdade. Sou diurno. Gosto da manhã, gosto de ver a manhã chegar. Tenho minhas idiossincrasias, é claro, e gosto de acordar cedo por acordar e não por obrigação. Uma coisa é você estar com um sono danado e o maldito despertador ficar martelando na sua cabeça. Outra, bem diferente, é você simplesmente despertar, naturalmente, porque o sono simplesmente. É você levantar tranqüilo e ir prepara seu bom café. É muito bom tomar café pela manhã!

O jornal ainda não chegou às cinco horas, quem distribui deve estar já trabalhando, entregando, mas quantas casas e apartamentos não terá ele de percorrer? O jornal quando chega é outro momento de prazer, ele vem como que quentinho, intacto, pronto para a gente folhear, desvirginar.

O que eu faço de manhã? Ah, um monte de coisas. Gosto de ler romances bem cedo, gosto de escrever nos meus cadernos o que esqueci de anotar no dia anterior e as projeções que faço para o dia que se inicia. Gosto ainda de olhar a minha casa e ver como ela está, como a deixei ontem e simplesmente olhar e saber que aqui é a minha casa.

Quando morei no campo acordava sempre de noite e ficava na varanda tomando café e olhando o dia amanhecer, as nuvens baixas irem se dissipando, os matutos passando com sua quentinhas e dando aquela Bom Dia que só que mora no mato dá com tanta sinceridade.

De manhã também é uma hora em que paro para pensar e revejo na memória as coisas que farei hoje, dou uma repassada na agenda, ainda que ela não seja cheia como a de um bem sucedido executivo.

Meu gato acorda comigo e fica contente por eu acordar também porque gatos acordam cedo e devem achar chato ficarem sozinhos esperando que o dorminhoco dono, por fim, dê as caras.

Quando acordo cedo fico pensando que foi bom não ter bebido na noite anterior porque é muito ruim a manhã de quem bebeu. De todos os ângulos. Aliás, a bebida é ruim em todos os aspectos. Bebemos, pé verdade, mas é um hábito que cobra um preço muito alto por uma prazer menor e momentâneo.

Quando acordo cedo fico, muitas vezes, pensando nas pessoas. Nas pessoas que conheço só de vista, naquelas mais próximas e nas muito amigas. Penso no que fizeram e disseram, em como conduzem sua vida e no que acontecerá com elas nesse dia. Não me interessa em nada, mas lembro delas e o pensamento me vem, assim, de remanso.Fico pensando que à essa hora o padeiro já fez o pão, o jornaleiro já abriu sua banca e está arrumando os jornais, que está havendo troca de turnos nos hospitais e nos quartéis, que os porteiros noturnos estão deixando seus postos em busca do merecido descanso.

Penso ainda nas crianças que dormem nas ruas, esses sim um grande problema, dormem cobertos por pedaços de papelão e devem acordar cedo com o próprio movimento nas ruas, devem acordar e olhar a vida sem nenhuma perspectiva, sabendo que vão voltar a esmolar e, se não conseguirem o estipêndio esperado, apanhar dos mais velhos, ser surrados pelos exploradores (quer crime maior?).

Tomo mais e mais café e leio mais e mais e escrevo mais e mais e penso mais e mais. Para que serve tudo isso? Não sei. Possivelmente para nada, para dar mais horas de vigília aos meus dias porque cada vez, é bom lembrar numa boa, temos menos dias pela frente.

Ligo bem cedinho pra minha mãe porque ela tem mania de dizer que acorda sempre muito cedo, de madrugada mesmo. Ligo e lá está ela, dormindo em berço esplendido! Ela acorda e eu digo: Viu como você não acorda tão cedo? Maldade? Um pouco. Mas de vez em quando gosto que as pessoas saibam que presto atenção ao que dizem.

Engraçado em ver que as listas de MSN e ICQ estão completamente vazias, ninguém on line o que me gratifica por saber que ninguém é tão maluco assim e que o computador não é um vício tão terrível. No mais, brincar com Artur, meu bravo companheiro e começar o dia, começar do início.



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18.5.05

que me traz, madrugada?
qual o sonho e desejo
o que vai realizar em mim?
que estou no teu colo
porque sou de estar
preciso que você se vire
e me faça dormir
sem remédio nem canttiga,
apenas com o calor
tudo em você diz
que sou o que fui e serei
e você esteve perto na hora
fundamental
acho que na vida
só existe uma hora fundamental
e nessa horra
você estava lá
e me deu a mão
e me fez atravessar o regato
e me deixou são e salvo
aqui onde agora
sorrio de tudo e para todos
porque o que eu tive
supera tudo o que eu não tenho
ou possa vir a ter
não posso falar
reclamar
chorar
eu, eu que tive tudo
na hora e no lugar
entre o céu e a terra
agora é só viver
o que aprendi
de ti

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Você é minha.

deixo de ser eu
para ser parte de você
você é você e eu
nós somos um
e cada um é dois
uma aritmética que não bate
porque sonho
e choro, choro
você me faz chorar
toda noite
toda noite eu choro
de alegria porque você existiu
e existe
e, enquanto eu viver
você existirá
como sempre foi um dia
imorredoura mulher
incansável e criativa
que me encaminhou
me mostrou o céu e a vida
e, feito o seu trabalho, se foi
e eu não entendi
chorei por egoísmo
por não ter entendido o que você era
o que é
você é mais do que eu mereci
mas você foi grande
para entender
e, na distância
me manter feliz sim
e acreditando sempre
que, você me disse, tudo é possível
até não ter mais você
e sorrir de saber
que você existe
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a eterna espera do infinito

O que eu estou esperando. Sim, porque tem coisas que não são ditas e as pessoas pensam que a gente não está fazendo. Esperar é uma delas. Nascemos fadados a esperar. Todos. E esperamos sempre, esperamos à cada dia aquilo que vem, o que poderá vir, o que não vem (mas esperamos que venha).

Eu espero pouco. Pouco no sentido de exuberância. Não sou exuberante, antes, sou recatado. O que espero é a paz, a tranqüilidade da vida de quem assim a prepara. Preparei minha vida de forma errada, errei na juventude e na meia idade. Agora na velhice, claro, colho o que plantei.

Digo isso na esperança de explicar para mim mesmo porque não tenho a vida desejável,a vida em que não sou mais o centro, que sou o espectador dos novos atores, das novas modas, da nova arte. Não sou um produtor mais da arte. Não a desdenho, todavia. Quero antes apreciar. Claro que tem a história de que nossa vida é um show, mas não é a essa arte que me refiro. Não. Independente dessa vida-show, o homem é habilidoso bastante para montar o que seriam mega shows, espetáculos que se sobreponham ao show da vida.

Caminho entre estudantes e vejo a alegria das brincadeiras despretensiosas, vejo os olhares cheios de esperança e amor e isso me satisfaz mais do que todo o dinheiro do mundo. Quando vejo a saída de uma escola ou quando vejo a alegria de um cego que aprende a ler....enfim, essas coisas são o que resta de bom.

A maior idade e o caminho para a velhice endurece os corações e as mentes, endurece a possibilidade que se poderia ter de um mundo melhor, um mundo não antropofágico. Porque é bonito falar em antropofagia, mas, pensando bem, o que tem de bom nisso. Eu não vejo nada.

Quero a paz do meu computador, dos meus discos. Quero saber que as pessoas estão levando suas vidas, que eu estou levando a minha e que o peso seja suportável. Quero o sorriso do amigo e o toque do divino. O que é o meu divino? Tudo isso e muito mais.

Meu divino é a vida ser finita, ser interessante porque o preto não é definitivo, assim como não é o branco nem nenhuma cor, sou apenas eu que as escolho e como tenho essa prerrogativa, escolho à vontade, mudo, volto atrás, dou meia volta e me pergunto no espelho, sorrindo, que eu sou eu.

Sou o eu da metamorfose, do cambiante, do que nega e afirma e vice e versa dependendo do que está acontecendo na lua. A lua influencia minha possibilidade de ser pleno. Quero escrever e contar que hoje não fiz o que fiz ontem, mas amanhã pretendo repetir o hoje, quero que meu trabalho apareça no monte da multidão, seja mais um, dentro de uma extensa grade de programação.

Quero ainda que o amigo não me falte e que o inimigo seja condescendente. Não ligo para o inimigo, acho que os tenho porque os mereço, espero dele sim a condescendência, a possibilidade de me ver como realmente sou e, não gostando de mim, me extermine sem muita dor.

Quero que meu filho me julgue e critique como faço com ele porque eu sou eu e ele é ele e, se tudo caminhar em ordem, eu irei e ele ficará, ele arcará com o que está e o que será. Eu serei o observador, o pó que ele pisará sem perceber.

Quero ser pó. Quero voltar ao estado de pó não pela morte que ela não está nos meus planos, ela é fato e com fatos não se discute. Não é isso. Quero ser pó dessa terra, terra tão minha que adubei com todas as minhas idéias, anseios, expectativas e suor.

O que vai ser amanhã eu não sei hoje e muito menos se serei o mesmo (com certeza não, serei mais velho e dos mais velhos espera-se mudanças). Sou o velho que caminha, que abre caminho para quem vem atrás assim como tantos outros generosamente abrem caminho para mim.

O que sou? Nada? Não! Sou muito! Sou todas as afirmativas e todas as negações que bradei, sou o corpo que riu e os olhos que choraram, sou parte dessa terra, dessa placenta, desse sangue de vermelho tão bonito.

Queria levar o vermelho sempre comigo. E o azul também. E o verde. Melhor dizer novamente que queria levar todas as cores comigo, inclusive o cinza, essa indefinição divina. O cinza nasceu no momento em que Deus titubeou. E se ele pôde titubear, por que não haveria eu de poder também?

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Sei que estou me repetindo, mas não faz mal. Bom quando a gente lê um monte de coisas até poder chegar em "Tudo Faz Sentido", os ensaios de Bellow. Tranqüilos, que gente saboreia, relê. Imagina, pensa...
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Ciclotímico, como soslaio, são lindas palavras.
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vida

Uma outra carta me dá um puxão de orelhas dizendo que não estou sendo autêntico como antes, que estou abrindo espaço aqui para listas de discussão na maioria das vezes, sobre transtornos e fobias. É pode ser que tenham razão. Mas acho que não custa deixar as pessoas aproveitarem o espaço para debaterem suas dificuldades, será que não?

Porque as minhas coisas estão muito ditas, em word, com letra bem pequena, já são quase mil e quinhentas páginas. Puxa, falei pra caramba! Claro que eu acho que sempre tem uma coisinha mais para dizer.

Tava ontem numa mesa etílica e falávamos das coisas que todo mundo que está bebendo fala, ou seja, de quase nada. As pessoas alcoolizadas não dizem coisa com coisa, nada do que dizem é relevante, é um momento de um nada existencial e físico, uma alienação até dos pensamentos alienantes, mas que só são legais se estamos entendendo o que estamos falando.

Eu, por exemplo, muitas vezes não entendo o que estou pensando e muito menos o que estou escrevendo. Estou decidido a me afastar das filosofias e me aproximar das artes. Filosofia é coisa para filósofo (que eu não sou) e, ainda que não seja artista, a loucura pode me permitir achar que, eventualmente, "me ache" artista. Porque só me interessa a arte do incompreendido e do não aceito, do artista 'para si'.

Na verdade nem uma coisa nem outra. É outra coisa. É que eu estou achando a filosofia uma coisa careta, uma coisa chata porque ela tem argumentos e regras, existem correntes diversas que se desdizem o tempo todo. Fico pensando que se entramos no terreno da arte pura, estamos mais próximos da verdade, porque a arte está exatamente assentada na não verdade e o mundo não é uma verdade. Tampouco uma mentira. O mundo não é praticamente nada, é farsa, é mímica, é teatro mambembe, é show. Nossas vidas são shows apenas. Cada vida é um. Tudo é fingimento. Fingimos tudo, até que existimos.

E é por aí que eu quero ficar. Quero ficar nessa brincadeira, nessa farsa, nesse fingimento de ser sério, de ser gente, do mundo ser o que não é, quero mudar a máscara, a maquiagem, ficar nu ou vestido de veludo, jogar confete e vaiar, aplaudir ou correr.
O que o homem deveria querer é sempre estar sendo assistido ao mesmo tempo em que ele mesmo assiste a outros como se cada vida fosse um teatro e uma platéia onde, concomitantemente, todos assistem e são assistidos por todos, todos vaiam e aplaudem, jogam ovos podres e rosas, onde a gente se lambuza até o show terminar, a cortina cair.

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correspondência

Mas nem só de felizardos vive o mundo. Tem a história do pânico. As pessoas em geral atribuem o pânico a uma série de coisas, na maioria das vezes não acreditam. Quero falar de uma carta que recebi na ocasião em que falei por aqui das fobias. A autora pede para não ser identificada. Diz assim:

"Sofro há muito tempo de pânico. Não consigo fazer nada direito e as coisas não têm lógica, não há como explicar porque uma hora eu vou ao cinema ou tomar chope com uma amiga e outra hora não consigo ir no bar comprar cigarros. Uma hora estou com vontade que me chamem pra fazer alguma coisa e outra hora deixo o telefone tocar sem parar e não tenho coragem de atender a ligação. Não sei explicar ainda porque consigo ir num espaço para fazer um determinado trabalho e em outro momento não consigo fazer trabalho análogo naquele mesmo espaço.

Sou crivado de perguntas que são muito pertinentes, óbvias mesmo e fico apatetada, olhando para o interlocutor sem ter as respostas. Porque o que eu mais queria era ter respostas claras para tudo. Sempre tive as respostas. Não as tenho mais.
Descubro que tem uma ligação no meu celular que não foi atendida e começo a suar frio e minha mão a ter tremores, tenho certeza de que alguém está me procurando por um motivo sério e deve parecer que não estou querendo ser encontrado.

Por que num mesmo dia eu saio de casa para ir ao jornaleiro e nesse mesmo dia não saio para comprar remédio na farmácia? O que eu espero que o mundo faça comigo, que entenda que estou ótimo para uma coisa e incapacitado para outra, análoga? Ninguém vai entender nem aceitar isso. Dirão que me falta uma boa tina de roupas para lavar ou virar cimento que é muito bom para quem é fresca.

Assim tem sido a minha vida e vou trocando os remédios, fico chorando no médico e explicando a ele, que vai experimentando, me ouvindo, me compreendendo, mas muitas vezes não me entendendo
Um enfarte, um câncer, uma perna quebrada, tudo é compreensível menos o meu pânico. Sou uma mulher jovem, forte e bonita. Tenho trabalho, filhos saudáveis e uma vida miserável, indigna e cheia de sofrimento enquanto vejo pessoas com problemas tão mais sérios do que os meus, enfrentando as coisas e agindo. Tenho vontade de estar morta, mas não de me suicidar. Tenho vontade de ser igual as outras, quero que acreditem em mim e entendo que não podem acreditar. Disse o médico que é uma doença, pânico, uma fobia, uma doença aleijante, incapacitante em todos os sentidos. Assim é".



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adicto

Não tenho que caminhar sempre contra a maré como faço. Faço porque acho que o caminho é para lá e não para cá. Quer que eu pare? Que eu não faça? Que eu dê alívio às pessoas porque elas esperam alívio? Não consigo. Não tenha vocação. Não entrarei no céu.

Fico pensando muitas vezes como será o céu e imagino que tenha cheiro de éter. O cheiro de éter é excelente, anestesia geral é excelente, perder a consciência é muito bom. Se eu um dia tiver um vício pesado, espero que seja cheirando éter.

Abriram a barriga da baleia em plena praia e não saiu Mestre Jonas como eu esperava, saiu muita sujeira, muitos dejetos do mar, alguns peixes pequenos inteiros ainda e um livro. Sim, um livro. Um livro antigo.

O pescador mais velho pegou o livro, procurou uma forma de secá-lo e começou a ler o que continha. À medida em que lia, andava e se afastava da baleia e dos outros pescadores. Todos dividiram suas atenções.... uns ainda olhavam para a baleia e outros seguiam o pescador e seu livro. O pescador velho não dava atenção à nada, apenas andava e lia, entretido tanto que o mar deixou de ser importante, deixou de ser mar, parece.

O que faz, para que serve um pescador que não olha o mar, que olha um livro que veio no interior de uma baleia? Não serve para pescador nem para leitor, porque não é assim que se pesca e não é assim que se lê. Ele deixou uma coisa que fazia bem e passou para uma coisa que não fazia bem. Quer os dois, mas existe o céu e a terra a separá-los.

Sabe porque escrevo tantos Nadas nesse espaço? Porque sou adicto. Bonito, não é? Adicto.
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16.5.05

Benini
Quero um amor maior sim ao contrário de tudo o que disse porque nas últimas páginas sempre podemos contar todas as verdades, tudo o que esteve oculto, tudo o que não esteve em notas de rodapé, tudo o que pensamos e não escrevemos, o que sentimos e não dissemos, o que oramos e não fomos ouvidos.

O amor, base da vida, morreu. Não fui eu nem você que não encontramos o amor. Foi ele que não nos encontrou porque ele mesmo procura por si, atrás de cada quadro, cada vão de escada, cada fenda na pedra.

Se vivo num mundo onde o amor não existe mais, busco aqui, entre zeros e uns, alguma coisa que me alivie, que arranque do meu peito essa dor dilacerante, pungente que vai corroendo cada resto de fibra que o verme deixou de lado.

Sei que tudo é escuridão, tudo é cinza e as roupas negras, que a chuva não pára e os olhos tem maquiagem negra, forte, que chama a atenção. Onde está Benini?

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eu

Ceder sempre é a premissa que ele me pede. Não posso dar-te meu único bem. Não posso me destruir, deixar de ser eu mesma, deixar de viver esse céu azul, essa dor profunda. Não posso, por você, somente você, abandonar todo o meu equilíbrio claudicante. É só.
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" Eu não tenho enredo de vida? sou inopinadamente fragmentária. Sou aos poucos. Minha história é viver. E não tenho medo do fracasso. Que o fracasso me aniquile, quero a glória de cair. Meu anjo aleijado que se desajeita esquivo, meu anjo que caiu do céu para o inferno onde vive gozando o mau! "
Clarice Lispector

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Corra II

Corri o quanto pude, escadas, ladeiras, cambalhotas e um sem número de tombos que me arranharam, esfolaram, fizeram sangrar e sujaram de terra porque estava atrás de mim, eu acho, não, tenho certeza de que estava e eu precisava escapar e dependia só de mim porque agora estou nesse barco sozinho e descobri isso dês de o dia em que ele e ela me disseram que agora não tem mais solução, que é uma questão que foge completamente a qualquer apelação, não tenho o que dizer nem alegar, tenho que chegar lá e encarar, mas enquanto consigo, nessas horinhas que me sobram corro, corro feito louco, pulo a cerca de arame e quase fico preso pelas calças, mas elas rasgam e caio do outro lado que tem uma lixeira virada com lixo derramado no chão, onde caio de cara, mas não tem problema, depois eu penso nisso, agora é correr, sair daqui o mais depressa possível porque saindo daqui estarei também saindo dali e mais a frente estarei com tempo ainda de subir e descer e chegar a outro lugar, já que o importante não é chegar e sim chegar sempre a outro lugar, ser um homem em movimento, uma pessoa que descobre os lugares, as possibilidades de lugares, eu nem sabia isso, nem me apercebia de quantos lugares existem e como passamos por eles na maior calma, exatamente ao contrário de agora que tenho que correr porque a luz gira, o barulho é forte e vejo freadas à minha frente e nas costas também e imagino que tudo deve ser por minha causa, mas não paro pra ver porque parar significa perder tempo e isso é uma coisa que não posso fazer, nem deixar que nada atrapalhe meu caminho, saiam, saiam da frente porque eu não vou parar, vou seguindo, desesperadamente enquanto der e sei que vai dar, tenho confiança em mim, sei que quando preciso de uma coisa consigo fazer e se agora preciso apenas não estar aqui então é hora de perguntar às pernas para quê as quero e tocar sebo nas canelas não me importando com esses cachorros chatos que tentam me alcançar e latem latidos tolos e ficam de língua pra fora enquanto eu encho meu pulmões de ar e vou soltando devagar, sentindo o suor escorres nas minhas costas, pernas, tudo, não posso parar para pensar nesse tipo de tolice agora, nada é mais importante do que fugir, correr, dar a volta por cima e por baixo, correr em paralelo e cruzar também, não importam agora as modalidades, não importa se vou passar naquele trilho e o trem já está perto apitando, viu? Passei, passaria de novo se fosse necessário, como corri na frente do metrô ainda há pouco e como os guardas que correram atrás de mim sem motivo, só porque me viram correndo, perderam o fôlego eles também e logo desistira, desistiram porque não é fácil alcançar uma pessoa que está correndo para um lugar que não chega, que ela sabe que não vai chegar e que o máximo que pode fazer por enquanto é correr.
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Corra

Essa mulher que corre desesperada, entrando e saindo de metrôs e aviões, que fica indecisa no portaló do navio, que chora muito e ri muito e derrama a bebida no vestido e pede desculpas e corre para o jardim porque o jardim é escuro, não, não é por isso, é porque ele está no jardim, ele tira-lhe toda a roupa e faz esse amor selvagem que só os gramados permitem e ela volta, agora com o vestido ainda em pior estado e alguém oferece uma capa de chuva em que ela se embrulha e parte e vai até a estação à pé, mesmo com o salto quebrado e faz um sinal tão desesperador para o trem que o maquinista resolve parar, ainda que ali não seja absolutamente parada e ela caminha nos vagões onde pessoas dormem, uma ou outra olhando para ela com olhar de desconfiança e desprezo, essa mulher atravessa ainda dois vagões até o carro-restaurante onde senda e toma três doses de conhaque e pede uma garrafa vinho chamando a atenção do homem na mesa ao lado que, cavalheirescamente pede para fazer-lhe companhia e ele cede, não porque necessitasse de companhia, essa ela já teve hoje e terá amanhã, ao fim da viagem, mas pela aventura de ver o que um estranho pode dizer a uma mulher molhada e suja de grama e terra, uma mulher que não vai nem vem, que está à caminho, que procura alguma coisa que ainda não tem rosto, que é sombra, que um dia ela ousou acreditar que poderia pintar o rosto à sua imagem e semelhança, mas falhou, não foi nada disso que aconteceu, muito ao contrário e agora, naquela festa (que mais parecia um meio ou um início), aquela festa, na verdade, era o fim da história, o final da estadia naquele lugar onde chegou sem saber porquê, certa apenas de que era necessário experimentar porque não se deve morrer e dizer que não se experimentou tudo, algo mais ou menos assim, um ditado popular, não interessa agora, o que interessa é olhar curioso e cativante daquele homem de boina marrom de lã fina, dessas próprias para as noites em lugares elegantes, o que interessa é o que se passa atrás daqueles olhos, o que pensa aquele homem de cílios negros e longos que sorri para ela enquanto absorve o vinho que vai pouco abaixo da metade da taça como deve ser, como deve ser pelo menos num trem como aquele que viaja em grande velocidade, dando a impressão de fazer uma larga curva no negrume da noite que deve já andar bem adiantada em horas já que a última vez que consultou o relógio, ainda na festa já passava bastante das três, já prenunciava para breve a alvorada que deve ser interessante observada assim, contra o janelão que tem em frente, com o homem que tem ao lado, com o vestido sujo de grama e a passagem que, displicentemente, não foi comprada porque simplesmente ninguém ofereceu, ninguém vendeu como se aquele trem só tivesse por funcionário o maquinista, o simpático que parou para ela na estação que não era ponto, o que seguiu em frente levando-a em sua viagem por esse mundo, esse mundo que ela tanto precisa desbravar agora, rápido, muito antes de semana que vem, se possível antes de amanhã, se possível ontem porque não há mais tempo, não há mais como esperar, alguma coisa tem que ser feita, há uma parte racional nela que diz isso, diz que tem que fazer, tem que ir adiante e experimentar e não ficar comprometida aqui nem lá para não ser impedida de ir acolá ou voltar lá atrás, enfim, vá lá se saber.
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os porquês

Porque vamos ver as coisas com bastante calma. O blog pode ser esse lugar onde a gente fala dos acontecimentos sociais do dia ou da semana, a gente pode contar como foram nossos dias e tudo o que vem acontecendo de uma maneira legal, sem ter nada a ver com Meu Querido Diário. O blog pode também ser chato. Ou nefasto. Ou irrelevante. Insuportável. Interessante.

Fico imaginando que blogs, como pessoas podem ser qualquer coisa não apenas dependendo de quem escreve como o que vai pela alma de quem escreve naquele período. Já ouvi falar em blogs mais eruditos do que outros, mas acho isso uma bobagem.

Tem essa coisa do blog não dizer a verdade e aí a coisa pode ser dividida em partes. Pode ser um blog que esteja mentindo a respeito das atividades do autor ou pode ele misturar um pouco de história uma quase literatura naquilo que vai dizendo, deixando a gente meio assim, sem saber bem o que é.

Estive dando uma olhada nos blogs, vendo o que eles são, como estão sendo feitos. Os que já eram muito bons continuam muito bons porque a gente chega num estado de excelência que não tem mais para onde subir. Outros melhoraram. Acho que melhoraram mais do que pioraram. Acho que existe um movimento de gente escrevendo muito, escrevendo a seu modo, é claro, mas coisas legais, sinceras.

Acho que todo mundo deveria se aventurar na experiência de escrever um blog pra entender bem do que estou falando, dessa experiência mágica de você, de repente, ver publicado na internet, um monte de coisas que saíram da sua cabecinha. Não acho que tenha que fazer um projeto e determinar uma linha rígida a seguir não. Não é isso. Acho que escrever alivia a alma.

Digo isso por mim. Minha alma irrequieta só se tranqüiliza quando escrevo (deixa lá atrás, longe todas as quantidades de Lexotan, Rivotril, etc. que se possa tomar de uma vez). Batucar em teclado só perde mesmo para escrever numa máquina de escrever decente (depois que me decidi comprar, nunca encontrei uma máquina de escrever decente).

Não é isso que falam os dicionários nem as enciclopédias sobre blog, mas é uma coisa a ser pensada. Tenho também uma certa aversão a pessoas que consideram um ou dois blogs como perfeitos, fundamentais, cardinalatos dos blogs. Isso é bobagem.

Quem tem blog assim, escreve em jornal, não precisa dessa coisa toda, pode ser muito bom, mas normal, como todos somos.
Porque a internet tem um pouco isso. A gente é que tem que lutar muito contra a maré, tem que se fazer entender por aquilo que escreve, dizer o que pensa e fazer com que o outro entenda. A internet nivela todo mundo. É um espaço igual (mais ou menos). Acho até que nivela por baixo, mas não importa: nivela.

Eu, por exemplo, não quero deixar de estar nivelado a um determinado grupo. Não quero ser melhor da mesma forma que não gostaria de ser pior. Mas não é isso. A questão ainda é outra. A questão é saber se já entendemos o que estamos fazendo aqui, se isso vale à pena se é justo até mesmo com os desocupados.

O que é isso aqui? Uma pesquisa? Um estudo conclusivo? Claro que não. Muito longe de qualquer dessas coisas. Isso aqui é um questionamento interno. Escolhi, alheatoriamente 50 blogs e li um bom bocado de cada um deles. Vi lá o que achei interessante e o que não achei. O que gostaria que eu tivesse feito e o que eu jamais faria.

Sim, mas e daí? O que a gente conclui disso? Nada? Não, eu quero saber nem que para tanto tenha que entrar em outros cem desses sítios pessoais ou duzentos, não importa. Quero apenas compreender um pouco melhor o que e porquê estamos aqui quase diariamente.

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meu inferno

Existe um movimento natural de subir, subir o quanto podemos para ascender a um cume que desconhecemos. Por que devemos estar nessa permanente subida? Por que um monte não pode resolver o contrário, descer, rolar ladeira abaixo, descer, descer e descer até sentir o calor do centro da terra?

O que há de diabólico em descer? Em alguns momentos, homens chapados de vinho disseram que o Paraíso era nas alturas e o Inferno lá embaixo, nos confins de todo o mais fundo possível? Verdade? Não acredito. Seria mais lógico o Inferno ser em cima, seria mais engraçado ver os pecadores já expiando suas culpas ao subirem intermináveis escadarias.

Não pode ser um mundo nem outro. Nem céu nem inferno. Mundo apenas. Mundo é essa porção de coisas que nos são oferecidas e depois regiamente cobradas, coisas que desdenhamos, que não servem para absolutamente nada, mas que nos são entregues sob pena de uma culpa eterna, cósmica. Diz que deus cospe (Fernando Pessoa? Não lembro se era Deus ou o menino Jesus ou não era nada disso).

Se Deus realmente cospe, sinto-me salvo de repente, num momento não esperado, num momento em que apenas castigos e dores me eram infligidos. Agora estou liberto para a serenata, para o canto e a dança. Posso dançar sobre as patas de trás e cuspir desabridamente em cima do meu par e de outros pares que passem por perto.

O que eu não quero é ter que sentir paciência com mais nada. Quero estar livre para o pensamento independente. Quero o livre pensamento. Apenas para consumo próprio, bem entendido, que não vou querer pessoas por aí pensando igual a mim nem tentando acompanhar o que penso. Porque o que penso não é melhor nem pior, nem mais fácil nem mais difícil, apenas é meu.

Na medida em que eu desço indefinidamente e vou sentindo o calor (do centro da terra) se apropriar de mim, que minhas calças e camisas vão sendo molhadas pelo suor, em que vou percebendo que minha pressão sobe no mesmo compasso, que toda a caldeira aumenta a temperatura, vou também sentindo que me aproximo do clímax.

O que um homem pode querer da vida além do clímax? Nada. Todo o resto é um monte de bobagens que vamos fazendo aqui e ali, vamos dizendo por aí não propriamente porque dizer seja importante, mas, simplesmente dizer alguma coisa, para dar a entender que não estamos, quando estamos, apenas de passagem. Estou de passagem. Olho para muito mais longe.

Meu olhar está sempre fixo no ponto em que o céu encontra o mar. Qualquer coisa para cá, mais perto, menos vibrante me cheira enfadonha, jeca, dessas coisas que todo mundo tem, dessas porcariazinhas que vendem em feirinhas e camelôs. Não. Quero muito mais do que isso, embora não deseje também nenhum bem material.

O que eu quero são respostas. Eu digo, grito, escrevo, faço bandeirolas sempre dizendo a mesma coisa? Eu não tenho mais nada a dizer! O mundo não quer ouvir. Fica impassível esperando que eu diga 9escreva) mais alguma coisa porque sabe (acha) que alguma coisa sempre há de sair. Claro que sai. Mas poderia ser melhor, poderia ser maior se eu não falasse tanto sozinho!

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insisto: não tenho mais nada a dizer
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medo, medo

O que temos diante de nós não representa um drama completo. Sim, a situação é dramática porque um homem quando chega a tirar a própria vida sinaliza que viveu um drama. Mas é preciso ver a coisa sob todos os ângulos. Morrer é deixar de existir e morreremos todos um dia. Quem disse que o homem não pode se matar foi um outro homem, que achando que traduzia as palavras de Deus, colocou esse texto nas escrituras. Nesse caso, não tendo realmente sido escritas por Deus, de nada valem as escrituras. Temos então um corpo, um homem rodeado de sangue, uma imagem desagradável de ver. Mas o que é realmente?

Um homem morto. Mais um homem morto como todos nós que o estamos aqui olhando estaremos, mais dia menos dia.
Esse homem, é bom lembrar, foi quem reuniu os ensaios de um pensador moderno e ao mesmo tempo conservador, mas um homem de idéias, culto, que escreveu sobre tudo e todos. E esse que está aí no chão, repito, reuniu todos os ensaios publicando-os posteriormente em livro. É um mérito. Procurou reunir os ensaios desde cedo e só terminou o trabalho um ano antes de dar fim à própria vida.

O ensaio sobre o suicídio é interminável, não se pode falar tudo porque sempre haverá outra hipótese, uma diferente opinião, um motivo que, eventualmente, não conhecemos. O que resta é dizer que o homem morre porque deseja morrer e esse desejo é tão lógico quanto todos os desejos que o céu encobre. Nem mais nem menos. Simplesmente morte.

Diante do olhar curioso daquele ali, sou obrigado a dizer o óbvio: a morte é certa, mais certa do que a vida. O dar fim a vida nos soa estranho, apenas isso, mas o resultado morte é o mesmo, não há porque se espantar, não há porque ficar chocado ou não compreender. O homem é cheio de deveres. Muito mais deveres do que direitos. Por que então esse espanto com um dos seus desejos que é não viver?

Já foram feitos inúmeros trabalhos na área médica a esse respeito, mas não são esses trabalhos que me interessam. O que importa aqui é a força como vontade de representação. É a vontade levada às últimas conseqüências. O homem vivo quer ser um homem morto. Nada mais. Por convenção trata-se essa pessoa como alguém que tem doença mental como se apenas um doente da cabeça pudesse escolher seu destino. Ou melhor: ele pode escolher qualquer destino desde que não seja a própria morte.

Esse homem aqui, cujo sangue já dá sinais de está coagulando, não fez nada diferente das outras vontades que teve ao longo da sua vida. Tomou banho quando quis, trabalhou e estudou quando quis, amou quando bem entendeu. Esse, repito, é um cidadão livre. Pleno.

Por que devemos procurar defeitos nele ali, na sua quietude escolhida? Por que buscar dúvidas, dores e doenças onde não há nada a não ser o porvir. Ele é o porvir que decidiu, que teve atitude. Os outros, todos serão, mas levados à força, aos gritos, covardemente. Ele é um dos que compreenderam o todo e seguiu o caminho único a todos. O que há de rrado com ele, então?

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Eu?

Quando eu entro na van sinistra com vidros escuros o que mais me deixa curioso é o porquê de eu estar ali. Assaltos, seqüestros, etc. não me assustam mais. Já me seqüestrei de mim mesmo no ano passado. Foi um seqüestro planejado, linear, sem volta nem com resgate.

Me pergunta porque eu me seqüestrei. Óbvio: não estava gostando da vida tal como era e precisava sair de alguma maneira. Se não mortas, as pessoas saem da vida quando estão seqüestradas. É interessante você ter consciência que seqüestrou não a outro, mas a você mesmo porque os cuidados devem ser redobrados.

Porque quando me seqüestro volto a ser dois: seqüestrador e seqüestrado. Novamente, estou dos dois lados da história com opiniões antagônicas, com motivos contrários a um mesmo fato.

Se eu conhecesse alguém perspicaz o bastante para levar um papo cabeça sobre isso, eu levaria, mas, infelizmente não conheço ninguém. Aliás isso é uma coisa que me incomoda: as pessoas não estarem preparadas para conversar sobre qualquer hipótese, as pessoas serem incapazes da abstração, de sonharem mesmo.

Imagino que a pressão do mundo estraçalhe a capacidade das pessoas de serem lúdicas. Essa palavra lúdico é detestável. Entrou em moda no final dos anos 90 pela mão dos analfabetos professores do primeiro grau.

Mas, como dizia, ao fim de tudo, não existindo mais alternativas mesmo para as questões que se colocavam só havia uma solução: que eu fosse seqüestrado. Procurei um amigo que tinha ligações com uma turma barra pesada e perguntei por quanto sairia o tal seqüestro. Pediram uma fortuna que eu não teria nem para pagar o seqüestro, quanto mais para encomendá-lo.

Foi numa visita à casa do meu Mestre, quando falávamos da viagem que minha espada fará até terras longínquas, tempo em que estarei desprotegido. Bem, foi nesse encontro regado à incenso e conhaque que voltei a falar de tudo o que me agoniava e que um seqüestro me cairia bem naquele momento. E foi ainda meu mestre que, com um pequeno sorriso, me disse que não precisaria desse tipo de seqüestro e sim um outro, muito mais sério porque profundo e, portanto, mais proveitoso.

Imaginei que ele estivesse falando que, sem a proteção da minha espada sagrada eu estaria mais sujeito a seqüestros, assassinatos e toda a sorte de infortúnios, mas não era nada disso.

Disse-me que mais importante do que a ação de grupos armados é nossa própria ação, quando conseguimos seqüestrar de nós mesmos o indesejável. Expliquei que, naquele momento, nada, enfim eu inteiro não era desejável e ele me disse então para que me seqüestrasse de mim. Explicou em seguida, de olhos fechados, como fazer isso.

Saí um pouco aturdido, mas no meu apartamento sentei e me assaltei. Levei Eu de mim. Portanto, o que anda por aí, mesmo o que aqui escreve é um não eu, uma pessoa de quem foi tirada o Eu. Antes eu achava que, sem esse eu as pessoas morriam, mas não é verdade. Podemos viver sem nosso eu por tempo indeterminado.

O Mestre me explicou depois que nada faz sentido e não estarmos de posse do eu é só mais um elemento fora do lugar num universo destrambelhado. Não é nem visível. Nem perceptível. Não é nada. Disse ainda que existem muitas pessoas sem os seus Eus, outras que nunca tiveram um Eu e outras ainda que têm seus Eus trocados com outras pessoas e nenhuma das duas se dá nem conta.

Me perdi em narrativas que não vêm ao caso. O importante é saber que fui seqüestrado e que não tenho meu EU e, portanto, qualquer acerto feito comigo agora é inválido, como tratar com us casco sem conteúdo.

E quando os que me colocaram na van entenderam isso me jogaram porta afora com o caro em movimento mesmo como se nem corpo mais eu tivesse. Por isso esses arranhões, doutor. O médico me olhou inseguro depois que contei a minha história e resolveu me transportar para outra ala do hospital, que ali na emergência eles não tinham como tratar essas coisas.

E vivo até esses dias no hospital. Acho que já se passaram três meses mais ou menos. Converso com o médico uma vez por semana. Ele é sério, mas não hostil. Me observa e faz anotações das coisas que eu conto. Já percebi que, quanto menos coisas eu contar, mais ele ficará tranqüilo, mais próximo estarei da porta de saída. E vou sair sem me devolver meu Eu seqüestrado.

O que fico me perguntando quando estou no pátio é porque as pessoas não pensam em si mesmas? Quanta gente não foi seqüestrada por elas mesmos ou por outros? Quantas pessoas não tem problemas de relacionamento piores? Quantas pessoas não vagueiam pelo mundo sem saberem porquê. O que acontece com todas essas pessoas que escondem tudo isso de si mesmas. Ou não percebem?

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notícias

Os jornais continuam não dizendo nada. É como disse o Anselmo Góis: o que resta aos jornais escritos, desses em papel mesmo é a opinião. A notícia não tem mais vez porque tudo o que sai num jornal no dia seguinte nós já estamos cansados de saber. Na hora de um acontecimento imediatamente o mundo fica sabendo via rádio Tv e Internet. Ficam faltando então os comentários, as análises.

m a televisão, tem o rádio e a internet. São três meios pesados, fortes. Desdenho os três. Prefiro ir para a porta de um jornal esperar a última edição. Claro que isso hoje é impossível, aconteceu há muitos e muitos anos. Agora a informação chega antes de se dar o fato.

Tenho sempre a opção de deixar tudo, de ir para um lugar distante, onde eu não seja reconhecido, onde nada se saiba a meu respeito. Não conseguiria fazer isso nada cara de pau. Seria necessário que eu realmente me despersonalizasse e não soubesse efetivamente quem sou.

Mas como já assisti a várias histórias assim no cinema, mantenho em mim a chama de viva de que poderei ser mais um desses abençoados.O que eu acho mesmo é que, de maneira tacanha ou não, todos nós fazemos muitas análises das coisas ao nosso redor e, muitas vezes, coisas que estão longe da gente.

Repare que nas conversas estamos analisando, nos grupos de discussão, na internet, no botequim... em todo lugar e à todo o momento estamos procurando analisar.

E por que procuramos analisar tanto se não era assim antes. Acho que é porque não entendemos mais o mundo tal como ele se apresenta hoje em dia.Ele é confuso, intrincado, as coisas não acontecem pelo que nos parecem, mas sim por motivos outro, motivos que estão nas entrelinhas ou arquitetados por outras pessoas para repercutir dessa ou daquela forma.

Não tenho (temos) mais confiança no que ouvimos no telejornal nem no que conta o vizinho da vila. Está tudo deturpado, as informações já chegam às pessoas de forma deturpada e daí a disseminarem-se é um pulo. Talvez, para tentar coloca um pouco as coisas no lugar seja necessária uma reflexão mais calma sobre tudo, uma análise de cada fato em si.

Não consigo isso com facilidade por que não tenho isenção. Não tenho mesmo. A maioria das coisas eu acho por convicção e não estou disposto a ceder porque o outro disse ou não disse aquilo, porque acha isso ou aquilo. É importante para mim ver a análise, mas não me influenciar por ela porque nesse caso, não teria nenhum valor, seria o mesmo da notícia dada às pressas, via telefone celular.

Aliás eu tenho a mesma bronca dos telefones celulares que eu tenho dos computadores. Claro que o celular é uma forma de computador, mas acho que dá pra entender. O celular não traz nenhuma vantagem, nos afasta das cabines telefônicas, impede que a gente entre numa loja e peça para ligar por favor e, principalmente, termina com a nossa privacidade que era a última coisa que tínhamos de nosso mesmo.



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BBC

Não tenho mais paciência, cada dia menos e menos. Sei o porquê disso, me compreendo, entendo que não me compreendam e, ao mesmo tempo, não posso falar. A persona Sobretudo de Lona não pode tudo, não pode contar todos os podres, todo o nojo.
O que vale dizer é que as pessoas são nojentas, as pessoas que tem poder tem muito nojo dentro e fora delas, como criaturas de lama que caminham pingando suas gotas grossas e putrefatas no caminho.

Já falei aqui sobre os mortos vivos, mas acho que existe uma classe pior, de mortos mortos, uma gente que está efetivamente morta, que não tem mais a alma divina nem o intelecto físico. Não têm mais nada. Existem apenas porque não morreram e como reis, utilizam o poder que lhes foi outorgado, é só.

Não há o que fazer diante disso, a não ser aguardar o bom tempo falar. Enquanto isso pude assistir a um debate com do Diretor no Brasil da BBC de Londres. Ele explicou didaticamente como funciona uma TV Pública. Nós não temos uma TV Pública, temos apenas um monte de patetas batendo a cabeça e fazendo discurso terceiro mundista de um arremedo de TV e mais ainda um arremedo patético de TV Pública. É de chorar.


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pastor

De onde me vem essa vontade de contar os momentos finais? A coisa quando está no fim, está porque está, não precisa justificativa. Fico pensando às vezes que procuro ficar um pouco mais na cabine de comando, um pouco mais com a mão no timão, ainda que ele se já velho e quase não responda mais às voltas que procuro dar ao leme.

O leme se perdeu, o leme é danificado com o tempo, de uma forma tão violenta, que não existe mais forma de conserto, nada que o faça a agir como antes. O rebocador continua, com sua chaminé alta, sua rara fumaça escura, esse fumo que vai ficando para trás como tudo na vida.

Não tenho mais, como já tive, a esperança de que o fumo de minha alta chaminé atraísse outros rebocadores ou barcos menores, à remo, ou fosse qual fosse seu modo de impulso. Não posso mais ir à procissão do Senhor do Bonfim, o que caracteriza o fim de uma embarcação.

Minha psicanalista riu dia desses com aquela perguntinha idiota sobre o que significava essa embarcação. Ela deve ter achado que num rasgo de perspicácia e inteligência eu estava me projetando no rebocador. Tolinha. Boçal. Acha então que eu iria fazer associação tão pueril? Ri para ela com todos os meus dentes amarelos e saí porta afora para nunca mais voltar porque hoje em dia considero meu tempo precioso.

Minto. Hoje em dia eu me acho todo precioso, acho que tenho um monte de coisas para fazer, um monte de coisas que ainda não foram feitas e me olham como a perguntar se não estou me apercebendo do tempo não.... Claro que estou. A única coisa abstrata que é concreta na minha cabeça é o tempo, tal como o homem o inventou.

Ao contrário do timoneiro do velho rebocador, sou hoje muito mais o pastor de meu rebanho e meu rebanho tem três ovelhas se tanto). Toco as ovelhas em busca de pastos em que possam saciar-se, em que possam comer e descansar tranqüilas porque nada mais resta a uma ovelha do que a paz e nada mais resta a um pastor do que pastorear (não importa o número de animais).

Até porque esse número é uma furada sem fim. Eu poderia ter duas mil ou dez mil ovelhas, mas, ainda assim, elas seriam uma, fariam apenas parte de um conjunto porque quando temos mais de um em alguma coisa, aquele um continua na forma de conjunto, daqueles que aprendemos no primeiro ano primário. Sou pastor de ovelhas, mas meu grande segredo é maior; sou pastor de algo muito mais complexo, algo que não tenho domínio porque não sou dono e não responde aos meus grunhidos nem ao meu cajado. Sou, antes de tudo, um pastor de mim mesmo.


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madrugada

Não há esse aguardente nem esse uísque nem esse sonífero que me deixem dormir à salvo. O dormir, me parece, é um ato heróico em que a pessoa entrega em mãos invisíveis, onde seu corpo não é mais seu, onde não há controles só uma sono interminável, recheado apenas por pesadelos, por todos os nossos demônio que resolvem aparecer e visitar.

Aguardo de uma hora às cinco da manhã rolando na cama, suando aquele suor quente, de quem está doente, de quem está abandonado pela vida. E fico me perguntando em quantos momentos não levamos em consideração, não nos damos conta de que estamos abandonados pela vida.

Sim porque escolhemos um sem número de coisas, mas a vida nos escolhe e nos devolve, com a facilidade de que troca uma cebola. Não me importo, como tantas vezes já repeti, de ser deixado pela vida. Queria apenas um pouco de consideração, saber em que momento ela está desistindo de mim.

Mas não vai ser assim porque, na maioria das vezes não é. Basta saber que a vida desiste e pronto. As noites em que não durmo servem para avaliar o que fizemos, como, porquê. Muita gente faz isso. Eu não porque na verdade não me interessa saber o porquê eu falo e faço coisas. Vou fazendo, porque é mister dos vivos fazer e dos mortos silenciar.

Gosto muito do sono, embora não o possua porque o sono é o momento de alienação e, antes de tudo, quero ser esse alienado, esse consumidor de peyote, de chá de cogumelos e, principalmente de morfina. Meu sono é forte e pesado (já foi mais) porque induzido por medicação. Fico imaginando o sono da morfina. Com certeza vai me acontecer um dia, mas, com certeza, não poderei mais contar.

As horas acordado não me dão sono ou desespero. Ao contrário, são os momentos em que reflito na vida, nas coisas que fiz e nas que deixei de fazer, é quando penso na mendiga da minha rua e dos atentados no Iraque (Para que serve o Iraque?)
São os momentos que tenho ainda acobertado pelo manto da escuridão e do silêncio (como se estivesse num cemitério em plena madrugada) a oportunidade de ver que é indiferente estar num estado ou noutro.

Que somos indiferentes ao universo, ao todo que, por sua vez, sabe que é o todo e a Deus que, de tão misericordioso, esquece que ele próprio é deus, não sendo então nada.
Se o universo e Deus são nada, o que somos nós. O substrato desse grande nada, um nadinha pequeno que tem fumaças de erudição e de conhecimento técnico, mas que parede dia após dia num pântano perigoso, pronto a nos sugar para sua profundeza (que também não é)



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O desencontro haverá por incapacidade de diálogo. Não há diálogo. Não há vida inteligente assim, à granel. O que fazer? Não sei. Ler? Escrever? Ir a um rodeio? Estou sempre aberto para sugestões. Continuo dizendo que só o diálogo é conclusivo para a alma. O problema é o estado em que andam as almas
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15.5.05

Ramon

Quando Ramon deu cabo da própria vida levaram alguns dias para achar o corpo porque ele morava sozinho. Durante duas semanas foi comentário do prédio em que morava e no bar da esquina. Ao fim, não se falou mais nada, era fato passado.

Órfão ficou o cachorro de Ramon, sem dono, deixado numa vida vagabunda, sozinho, sem ter com quem dormir nem quem lhe desse de comer. Os poucos familiares choraram também, é bom que se diga, uns mais, outros menos e outros até o final dos seus dias.

Ramon teve uma vida normal, nem muito boa nem muito má, dessas vidas que temos todos nós, simplesmente vidas. Esteve em alguns lugares fora da sua cidade, conheceu algumas mulheres e fez uns poucos amigos.

Pode-se esperar muito mais de uma vida, é bem verdade, mas pode-se esperar muito menos também. O que resta entre essas duas pontas é ávida média, mediana, comum, como a maioria. Foi dessas a vida dele.

Quando começou a ter dificuldades uma amiga o socorreu e procurou estar com ele, procurou estar presente da maneira que sabia e achava correta. Fez o que pareceu mais certo, o que aprendeu nas academias dessas que têm por aí.

Mas a gente não acerta sempre, mesmo quando é com amor. Na verdade, se fizermos uma análise fria, acho mesmo que erramos mais do que acertamos, ainda que estejamos plenos de boa vontade.

Porque a vida tem mais boa vontade do que má. A seu modo, cada um procura dar aquilo que tem de melhor, independendo do seu lado mau. Mesmo as pessoas más, a seu modo, foram boas com Ramon.

A cidade em que Ramon morava era pequena ou quase pequena. As ruas eram dessa terra vermelha, essa terra que gruda em tudo e faz o mundo parecer vermelho. Tem esses montes de capim que rolam para lá e para cá ao sabor do vento.

Vez por outra, era passagem de grupos de motociclistas que iam a lugares mais distantes para suas festas exóticas. Tinha cinema e um teatro pequeno. Um posto de saúde e uma farmácia que vendia também formicida.

Ramon viveu sempre por ali e era considerado de temperamento difícil, embora arguto. A humanidade é boçal e, como tal, é muito mais preocupada com o temperamento das pessoas do que com o que elas são realmente, usando esse termo ridículo, do capital cultural que elas têm e podem proporcional.

Não se espera pessoas que pensem o mundo. Espera-se sim por pessoas cordatas, calmas e que passem desapercebidas como fazem todas as que não querem mesmo acrescentar nada. Esse é o enigma do mundo. Ele não quer ser acrescentado.
Ramon quis acrescentar e perdeu tudo, todas as coisas, todos os sonhos, toda a alegria, o entusiasmo e a vontade de viver.

Diante de tudo, acho que concluímos tudo que não foi Ramon que deu cabo da vida, verdade que as mãos foram as suas, mas quem realmente deu cabo da sua vida de forma vil, covarde, sem dar oportunidades, foi o povoado em que ele viveu.

Como de resto, deve ser sempre.

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Claro que isso aqui está cheirando a Meu Querido Diário, mas não faz mal de vez em quando. Acho até legal a gente falar assim, francamente, falar de coisas bobas, mas que são nossas e não temos oportunidade de publicar porque estamos sempre achando besteira.

Fosse assim, nos anos 70 Carl Rogers não estaria publicando com muito êxito o seu Tornar-se Pessoa. Fez um sucesso enorme embora, todo baseado em premissas equivocadas, virou rapidamente um malogro internacional.

Se bem me lembro, Carl aceitava a teoria de que o homem não suporta a vida sem drogar-se de alguma maneira, mas ele achava que as drogas ilegais como a maconha eram mais proveitosas do que as químicas como o diazepan. Não tenho muita certeza, mas tinha alguma coisa assim. Ele participava também do forte movimento de anti-psiquiatria fragorosamente contra internações psiquiátricas e muito menos eletrochoques.

Foi um período muito conturbado para terapeutas de todas as matizes. Tinha-se que experimentar, de certa forma, tudo novamente. Os psiquiatras tradicionais foram praticamente obrigados a participar desses experimentos, mesmo sabendo que resultariam em nada, apenas num colapso da doença mental nos Estados Unidos. E foi o que aconteceu.

Se não me engano, foi o período em que se deixou de considerar o homossexualismo uma doença. São períodos da história em que damos passos para traz, mas faz parte ao que parece.

Mas isso é outra história. Percebe como não são assuntos pertinentes para um espaço único? Não é acessível para uns e pode ser tolo para outros. Afinal escolhemos as revistas que compramos (embora sejam todas tolas). Acho que deve haver divisão de espaços. Espaços para cotas, digamos assim. Isso aqui está se tornando intolerável para mim

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relatos

Ele me relada que, quando seu primo não conseguia mais dar um passo sozinho, completamente paralisado, o médico resolveu aumentar em muito as doses de medicamentos de forma a torná-lo tão impregnado daquilo tudo que ficasse impossibilitado de ações desastrosas.

Pergunto o porquê e ele me responde que a impregnação medicamentosa é muito usada em pacientes internados, mas pode surtir efeito também nos tratamentos ambulatoriais. O organismo fica saturado de toda aquela medicação, deixando o paciente incapaz de muitas ações.

Os pacientes assim podem não fazer nada de ruim, mas terminam por não fazer nada de bom também, incapacitados que estão de fazerem alguma coisa. Incapacitados para tudo, autônomos, com olhares ausentes e distantes. Uma outra prima (parece que é genético) dele está assim em casa. Vive assim já há quase um ano, deixou os estudos e o trabalho. Não consegue fazer nada.
Observo que não parece ser um bom tratamento já que a pessoa acaba por não fazer nada ou seja, está incapaz da mesma forma que se estivesse doente. Não é bem assim, ele explica. O doente, invariavelmente, faz coisas, mas não coisas ruins, coisas que o incapacitam de conviver socialmente e, medicado, ele fica quieto.

Fico me perguntando do que serve uma pessoa quieta. Uma pessoa quieta nesse sentido é, na verdade, anestesiada, não faz nada, não produz, não realiza, não se relaciona. Enfim, nada. Apenas não sai por aí incendiando o mundo, o que de certa forma, acabaria por ser mais interessante. Acho que curar alguém é fazer com que ele não queira incendiar o mundo sem precisar dopá-lo para não fazer.

Essa história vem para falar do atraso da medicina em muitas áreas. Na mesma medida em que fazemos pesquisas com células tronco, trabalhamos com a possibilidade de clonagem e de engenharia genética, ainda temos os velhos doentes dos rins ligados à maquinas fazendo hemodiálise, seios extirpados sem dó nem piedade, outros ligados permanentemente a tubos e oxigênio e outros ainda dopados. Nada de muito novo nem agradável pra se ver.

A doença mental me parece a única que pode ser discutida por leigos (não com o intuito de curá-las), mas porque abrem um espectro muito grande de possibilidades, porque as pessoas que têm esses distúrbios estão invariavelmente ao nosso lado, no trabalho, na escola ou nos condomínios. São pessoas que tem atitudes variadas, desde as excessivamente simpáticas até as mortalmente perigosas.

Por outro lado, a doença mental é incompreendida e pessoas ignorantes falam as coisas mais estapafúrdias. É insuportável você ouvir pessoas falando coisas ridículas. De vez em quando tenho experiências com pessoas que estão falando uma coisa, estou mostrando a lógica da coisa e a outra pessoa não está se apercebendo de nada. Simplesmente não vê. Aconteceu a pouco tempo numa conversa com meu irmão sobre meu sobrinho. Não tenho paciência para gente tapada, não tenho mesmo.

Por isso ainda não terminei os blogs, eu dizia num dia desses. Aqui eu permito que os conhecidos tenham notícias do que vai me passando pela cabeça sem ter que entrar no debate pequeno onde preciso explicar muito as coisas sem resultado.

Porque isso é outra coisa estranha. O mundo é feito muito mais de pessoas completamente burras do que de medianas ou inteligentes. Diria 80% burras, 15% medianas e 5% inteligentes. Deve ser mais ou menos por aí. Portanto, encontrar um burro pela frente é a coisa mais normal do mundo, mais corriqueira e conheço gente que lida bem os boçais, têm paciência com eles e nem saem afetados depois daquelas pseudo conversas para mim acachapantes.

Conversando com um médico amigo a coisa de uns quinze dias, ele me falava no engano, no engodo em que todos entramos, mesmos eles médicos eventualmente. As pessoas são tão insuportavelmente obtusas que em muitos momentos achamos que é doença mental mesmo, os médicos mesmo se enganam, porque a burrice, a ignorância, a visão deturpada das coisas é grande demais. E aí a coisa complica. Visão deturpada pode ser doença mental e pode ser burrice. Na maioria dos casos é burrice.

Uma das maneiras de ver e avaliar é quando as pessoas são cheias de verdades, têm teorias próprias e acham-se capacitadas para coisas que a vida mostra, dia a dia, que não são. Essas pessoas são, essencialmente tacanhas. Claro que isso pode até evoluir para uma doença ou pode ainda, já ter alguns traços de uma doença ainda indefinida, nas afirmativas, mas elas são sim resultado de incapacidade de raciocínio por ignorância. Essas pessoas são invariavelmente muito agressivas.

Fico pensando se vale contar esses pensamentos que me vão sobre as coisas em geral, sobre como acontecem os relacionamentos na vida e eu acabo achando que sim, embora arriscados. Já teve uma fase, há uns anos atrás que algumas pessoas achavam que eu falava de temas específicos referentes a elas, coisas pessoais. Levou muito tempo para convencê-las que, ainda que exista alguma semelhança com alguma coisa próxima do real, não, absolutamente. Na verdade, estou sempre falando de generidades, de possibilidades de coisas que passam exclusivamente pela minha cabeça, completamente independente do que eu possa estar vivendo. Aliás, nunca escrevo sobre o que estou vivendo aqui. Não mais.

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Miscelânea

Dou uma volta no quarteirão e o sol se mostra forte, como um dia de verão. Fico imaginando que nesses dias não temos muito controle sobre nós mesmos. O tempo influencia todo o nosso comportamento, somos melhores ou piores dependendo do tempo.
Os dias chuvosos nos finais de semana são propícios, segundo pesquisas, para o suicídio. Os dias de sol não, são propícios para dar vazão à energia, à alegria, para passeios, muito riso e pouco siso. Não sei se nada disso tem muita lógica não. Comigo, particularmente não tem.

O domingo, por exemplo, é um dia que eu nunca gostei por motivos outros, motivos politicamente incorretos, mas são os meus motivos e ponto final. Domingos são dias para ficarmos em casa ou nos enfiarmos num cinema.

Os outros dias são bons fora os problemas de trânsito o que pode levar a um leitor ansioso a pensar que, então, não existem dias bons. Não. Calma. Todos os dias são bons. O dia é bom de acordo com nossa expectativa e humor em relação a coisas e pessoas daquele dia. São esses mecanismos que importam. Os dias não são nossos porque se fossem não teriam valor, deixariam de existir simplesmente, seriam um tempo só, sem calendário, uma espaço de tempo único que iria do nascimento à morte. As divisões entre esse ou aquele dia são conceitos sociais que, pensados para ordenar as atividades, terminaram por serem apenas complicadores.

Prefiro então não ter dias da semana. Durmo e acordo e vou fazendo o que os outros querem, determinam que eu faça. Tudo bem, vou fazendo enquanto tiver paciência, enquanto conseguir lutar contra os meus movimentos contrários a essas regras tolas que foram criadas sem a minha participação.

Por quanto tempo uma pessoa suporta a vida com as subdivisões conforme elas se mostram? Não sei. Tem gente que tem uma espécie de vida útil, integrada a esse sistema e convive com ele ativamente até depois dos noventa anos. Tem gente que aos vinte não suporta mais.

Eu, posso falar de mim, aos cinqüenta não suporto mais. Nunca gostei muito, mas consegui levar, agora aos cinqüenta não dá mais, não tenho mais argumentos para explicar aos outros os meus motivos. E, evidente, se não consigo explicar a pessoas que me são próximas, nem vou tentar por aqui.

Aqui passam pessoas para verem uma coisa engraçada ou curiosa e vão em frente porque têm mais o que fazer. E é para ser assim mesmo. Como essas pequenas propagandas muito comuns em pontos de ônibus que se alternam, subindo e descendo, ora mostrando um produto, ora um outro.

A verdade é que a condução desse espaço está perdida. É preciso entender o que quero dizer. Não estou perdido nem a coisa toda está perdida. O problema é de falta de espaço, é necessidade de voltar a abrir novos espaços para dividir os temas e a forma porque assim perde a essência aqui ainda que aumente o número de visitantes. Porque não é o número de visitantes exclusivamente aqui que me interessa.

O que importa, na verdade, é dizer alguma coisa a mais para essas pessoas (ou a menos, tanto se me dá), mas dizer essas coisas, falar das coisas que vão acontecendo dentro da gente, no mundo que nos envolve e de como saímos delas. Aliás, na maioria das vezes, de como não saímos das situações. Porque na verdade não saímos das situações.

Situações são uma coisa muito engraçada porque entramos na maioria das vezes sem querer e, mesmo querendo, não saímos. A jovem Lola, também chamada Lolita, me dá seu testemunho disso quando fala do estranho relacionamento que iniciou aqui na internet e que agora, mesmo querendo, não consegue deixar. Ela credita a dificuldade à internet o que, já lhe disse, é uma grande besteira.

Os relacionamentos começam na internet em algumas circunstâncias simplesmente porque existe internet da mesma maneira que em breve teremos outras comunidades paralelas regidas sabe-se lá porquê e também lá, iniciaremos relações pessoais. O problema aí é outro, é entender o porquê estamos iniciando relações. Pelo que eu sei porque é para seguir uma espécie de relógio biológico ou uma certa ordem natural das coisas.

Aceito a história dessa ordem natural das coisas ainda que não concorde com ela. O homem e a mulher, a meu ver, são apaixonáveis em essência e não por instintos (puros). A paixão e o amor deve estar dentro de cada pessoa, não precisa ela se preocupar coma cobrança social. Realmente não acho.

Ser pessoa é essa multiplicidade de ações ainda que não estejam pré-determinadas, que não atendam a um certo modelo imposto por sociedades, governos e igrejas. As igrejas e os governos só atrapalham a relação humana, em nenhuma hipótese facilita, A anarquia é o único caminho, me parece.

Tava falando com um conhecido sobre esse conceito de anarquia e ele se preocupava com uma possível desordem social. Bom, anarquia não tem nada a ver com desordem, são coisas completamente diferentes. Além do mais, mesmo num estado não anárquico, muito pelo contrário, vivemos em plena e absoluta desordem individual e social.

Algo dentro de mim diz que eu devo deixar tudo e todos e ir embora e abandonar os esqueletos que se espalharam por todos os armários e vãos dessa casa. É, como uma catacumba, uma casa depositária de esqueletos. Tudo é velho, morto, tem um sorriso falso (caveiras apenas aparentam sorrir) e não cabe a mim (nem quero) mudar essas coisas.

Ele me perguntou o que eu quero então. Eu sei o que eu quero, mas é impossível falar para uma pessoa que procura se equilibrar. Acho até que é impublicável fora da prosa literária (quando colocamos na boca dos personagens nossos próprios anseios). O que eu quero? Bolas! Pense cada um o que quer. Vejam bem o quanto estão distantes do que desejam e o quão pouco (ou nada) fazem para chegar perto.

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jornais

Incomoda ver que a estante está vazia de títulos novos, que as revistas semanais estão ocas e que o jornal de domingo só serve para embrulhar peixe. Para que serve um jornal de domingo? São vários colunistas, praticamente todos os colunistas de um jornal têm lá suas colunas aos domingos, mas parece existir uma espécie de monopólio ou ordem superior ou ainda um sentimento universal de que o domingo não é um dia.

No domingo, parece, acredita-se que as pessoas estejam ainda menos inteligentes, menos capazes de absorver boa informação e o que resta são textos fracos, bobos, que não dizem nada, é indiferente ler ou não. Á alguma coisa assim como se nos domingos as pessoas devessem ler apenas amenidades, não devessem conhecer notícias sérias ou normais. O domingo, como é dia do descanso é dia de amenidades. Mas erram no ponto e fica um dia relegado à tolices.

Aos domingos tem receitas culinárias, fofocas de TV, consultório sentimental e outras inúmeras colunas que tratam dessas coisas meio caseiras, dessas que não precisamos pensar. Mais ou menos por aí.

Então fico pensando na qualidade dos jornais. Durante a semana a qualidade já é ruim (sofrível?) com suas manchetes garrafais e sua apuração mínima das notícias. Praticamente não existe opinião séria sobre fatos relevantes. E domingo é isso o que se disse. Ler jornal é, então, irrelevante mesmo.

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14.5.05

O dia termina certo de que não cumpriu o seu papel
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A carta que me chega:
"Deixa então eu dizer uma coisa. Não adiantam as caras feias nem os silêncios nem as agressões nem as ameaças veladas. O que me vai por dentro é muito mais adrenalina do que sangue. Meus dentes são presas porque vampiros todos somos. A filosofia morreu, eu já sei, não precisa me dizer as coisas que eu já sei. A poesia está agonizando, mas não se assuste porque a poesia sempre agonizou porque faz parte da própria poesia esse estado agonizante, meio entre e a vida e a morte. Entenda ainda, menino, que estou eu entre a vida e a morte, que o câncer ta lá, quietinho por enquanto, mas fazendo o seu trabalho competente, paciente e silencioso como é mister em todo o câncer. As teias vão aumentando, se espalhando, tomando tudo para o grande final. Pensa que eu me importo? Nada. Quero apenas saber da morfina. O que me interessa é a morfina como sempre me interessou, como interessa a todo mundo. Olha, menino, o mundo ao teu redor. Olha quanta morfina sendo aplicada, quanta mofina sendo ingerida, olha o mundo que não caminha mais com suas próprias pernas. Olha a degenerescência do homem. Olha o mendigo e o rico, ambos com suas morfinas próprias. Doses diárias de morfina. Do nascimento ao fim. Da vida boa à ruim. Nada mais do que isso. Simples assim. Parece duro? Não é. Sempre foi isso tudo só que eu não tinha escrito. É como ouvir vozes ou ver os mortos. Acho mesmo, no fundo, que vemos os mortos como vemos os vivos porque entre os mortos e os vivos existe apenas o estertor, tal como no nascimento às avessas. De que adianta olhar com entusiasmo para o céu cinza chumbo com a chuva ácida que se anuncia. A dor nos pulmões avisando: atenção, atenção, está chegando a sua hora, panaca! Desista desse mundo assim fantasia... não, é fantasia sim, mas não essa de conto de fada nem final feliz. O nome final já traz embutido a contradição, a impossibilidade do final feliz. Não. Início pode ser bom, final não é. Mas temos mesmo é o final. Não adianta uma visão romântica do todo se temos a certeza niilista do final. Não adianta nem falar muito porque é falar em cima de tudo o que já foi dito e escrito e estudado e virado de cabeça para baixo. Morreu, acabou, está contaminado. Isso aqui, por exemplo, antes de tudo, é um lugar contaminado, um lugar que viajou por vários lugares, tentou e contou várias coisas e agora não tem mais crédito. Bom, eu não dou crédito a nada do que está aqui. Aqui tem apenas facetas esfareladas de mim, pedaços de espelhos quebrados onde se refletem partes pequenas do meu corpo. É isso: meu corpo estilhaçado. Do que vale um corpo estilhaçado, menino?"


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correspondência & areia

A correspondência tinha chegado ontem mesmo mas não tive tempo de responder porque aconteceram todas os contratempos que podem acontecer numa mesma casa num só dia. A correspondência diz que sou idiota ao dizer que mulheres deveriam casar com mulheres. Não, sou realista. Por que não? Por que o preconceito? Mulheres convivem melhor entre si (ou não?).

Porque aí temos que ver se a mulher discorda do homem e se afasta dele por causa dos seus (maus) modos ou se é por elas mesmas. Considerando que o homem seja o culpado, então mulheres com mulheres já. Gente preconceituosa, tacanha. Claro que não estou falando dessas mulheres que se despersonalizam, andam de botina, tem bigode e falam cuspindo para o lado.

Isso é despersonalização como no caso masculino ocorre com os travestis. Para esses casos só vejo a cadeia como alternativa.
O que eu disse foi outra coisa diferente. Foi a mulher poder exercer sua suavidade com alguém tão suave quanto ela e sem os defeitos que apontam nos parceiros. Porque aí sim, se houverem problemas, fica claro que o problema no relacionamento está na mulher. Por que, então, o medo de experimentar.

Pois eu, se fosse mulher ia viver com outra mulher ou ser prostituta. A primeira opção seria viver com outra mulher e encontrar (e dar) o afeto que o sexo feminino tem, procura e não encontra. Eu e minha mulher seríamos bem felizes. O homossexualismo masculino é muito diferente, totalmente diferente por uma série interminável de razões que, com paciência, eu explicarei.

Tem ainda correspondência dizendo que ora eu digo bem, ora mal das mulheres. Ué! E não era para ser assim? Deveria ficar falando eternamente mal das mulheres? Eternamente bem? O mundo, meus caros não é feito de Eternamente, ao contrário, é um angustiante porvir que, ocorrido merece análise ou não. Se não sabe esse conceito óbvio, para que perder tempo mandando cartinhas tolas e mal redigidas?

O porvir, deixe-me exemplificar, é a ampulheta ao contrário. Observe uma ampulheta com a areia caindo. Bem, existe areia em cima que está caindo para baixo, certo? O presente seria esse afunilamento onde a areia passa e cai. E, como se vê de cara, não dá tempo de segurar o presente porque ele já está lá embaixo, areia caída.

Assim, a areia que ainda está na parte bojuda superior é o porvir. Esse é o elemento da vida ainda que não saibamos quais os grãos cairão primeiro. Sabemos apenas que a areia está ali, em movimento, pronta a passar pelo afunilamento do presente e cair no desvão do passado. Só não sei explicar, o que ocorre quando, findo o processo, a ampulheta é colocada novamente ao contrário para que se repita o ciclo.

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mulheres

A mulher do metrô é a mesma que caminha pela rua escura em noite quente e que dorme na minha casa, na minha cama, que me acorda de manhã para tomar café.

Essa mulher não é diferente de tantas outras, como vou saber? Ela, simplesmente é uma mulher e eu a encontrei e elegi.
A mulher tem funções na vida de um homem e da sociedade em geral que funcionam amavelmente como reguladoras, como esteios.

Se a mulher é inferior ao homem? Em algumas coisas sim, em outras é superior. O problema da mulher é a sua completa e absoluta falta de identidade.

Essa mulher que está ao meu lado enquanto escrevo é a mulher que me diz o que vestir e me pergunta se está bela. Sim, ela está quase sempre muito bela.

Não me afasto das mulheres porque as amizades são melhores quando com sexos opostos. Mulheres tem grandes amigos homens e vice e versa.

Mulher não tem a percepção do todo em algumas situações, mas é compensada por sua fecundidade, sua capacidade de procriar.

Mulheres em outros casos têm uma visão muito mais atenta, percebem muito antes e mais o que se anuncia na frente, enquanto o homem, tolo, caminha para a armadilha.

Mulheres têm dificuldade de pensarem e descreverem o homem porque elas mesmas ainda não se percebem como pessoas soltas e independentes (muitas não querem mesmo ser).

Mulheres são simulacro, ensaio do inferno e do paraíso. Depende.

Mais velhas, as mulheres são muito mais interessantes do que moças que além do sexo, ainda têm o desconhecimento da vida.
Não, não sei exatamente o que fazer com a mulher. Acho que agora ela precisa ser estimulada a alcançar o topo da pirâmide social. E só.

Se eu fosse mulher, não daria voltas. Seria logo prostituta.

Sem as mulheres, as casas ficariam vazias e bolorentas, não há mais frescor nem expectativa da chegada. A mulher, ao contrário do que pensa, pode estar perdendo seu lugar.

Em qualquer circunstância, o homem é nulo, não existe sem a mulher.

Mulheres podem ser o máximo!

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tipógrafo

São vãs a maioria das nossas atividades cerebrais. Por outro lado, algumas atividades que não damos atenção de maneira geral são capazes de nos incapacitar. O cérebro é o motivo maior da dor humana e não o coração como dizem os poetas, me diz o homem sentado em meu sofá.

Este homem acabou de perder o pai e a mãe num curto espaço de tempo e procura manter-se o mais ativo possível, dedica-se ao trabalho como nunca o fez em toda a sua vida e toma doses cavalares de tranqüilizantes. Ele não esconde sua dor, mas há no seu semblante o sinal de uma certa erudição.

O que eu quero do meu cérebro, ele continua, é nada. É o esquecimento. Não eu me esquecer do meu cérebro e sim ele de mim. Quando esquecemos, nascemos para a vida eterna, para a possibilidade outra, para a expectativa do que virá com cada nova pessoa, novo filme, novo livro.

Para pensarmos o mundo não com os contornos já previamente desenhados, tal como nos é dado, será necessário que busquemos em nós mesmo, na raiz, uma centelha de luz divina que nos diferencia, que nos faz dizer e, principalmente, pensar as coisas e as pessoas de uma forma diferente.

Se há um novo jornalismo, uma nova cultura, uma nova idéia de arte e de ação, será preciso que aconteça a possibilidade de um novo homem que possa interagir com essas coisas. E não apareceram ainda os novos homens. Na verdade não.
Ele me observa e continua: o que realmente homens e mulheres fazem de novo? Nada. Não temos uma só coisa genuinamente moderna. Basta ver os festivais de cinema, a Bienal do Livro para não ir muito longe. Temos formas requentadas de contar as mesmas histórias.

Eu interfiro dizendo que tenho uma nova história a contar, muito curta mesmo. Verdade que talvez não seja tão nova, mas quero me imaginar como um homem que tem enorme peso em sua cabeça, profunda dor que repete a dor da perda do seu filho. O homem que perde o filho perde parte de si, perde sua possibilidade de equilíbrio, sua estabilidade. E filhos, esse é o dilema, estão sempre sendo perdidos. O pai perde o filho várias vezes, em vários momentos e em situações diversas, mas perde. O pai sempre está perdendo o filho, sempre se afastando, sempre mostrando ao mundo que ele perdeu justamente quando o concebeu mesmo sem pensar.

Não temos nenhuma alternativa na vida que não seja a da perda. Repare que não ganhamos nada, apenas perdemos. O mundo tira de nós, antes de tudo a vida. E se tira a vida, provado está que tira tudo. Não nos apercebemos que dia a dia, hora a hora vamos deixando um pouco de matérias para trás, de pensamento, de orgulho, de estima, de perfume, de nós mesmos para trás.
Mudança de ambiente

Não quero falar muito sobre isso porque o editor não gosta, o camarada que acerta a tipografia menos ainda. Diz que a função desse periódico é distrair, sempre e nunca o contrário, nunca a demonstração do mundo niilista tal como ele de fato é. (E assim abandono a idéia de contar a história aqui, transportando-a para um manuscrito).

Diante disso, desse discurso sem pé nem cabeça, proponho a todos que paremos por aqui e vamos assistir televisão porque lá todas as coisas já estão prontas e o que fazemos é apenas correr de um canal para o outro, numa barafunda ainda maior do que um canal só é capaz de ser. Não se chega a um acordo e deixamos, por hora, a televisão de lado.

Falo de uma poesia nova e me dão Ana C., de um romancista novo e me vêm de Tom Wolfe (que discursou para uma platéia vazia na bienal), de um cronista e novo e ainda me falam de Paulo Mendes Campos, um dos quatro.[

Saio do quarto e vou ao banheiro tomar um banho. No caminho, a ânsia de vômito é incontrolável e boto para fora tudo o que comi e bebi. Minha cabeça pesa, meu corpo está fraco, não tenho nenhum ponto de apoio, percebo o isolamento de cada pessoa, o mundo como possibilidade de isolamento, como arcabouço de solitários que não se percebem assim por causa das atividades que se impõem tolamente na expectativa falsa de aproximação real.

Mas o que se pode fazer para realocar as pessoas nos lugares que sempre foram seus, lugares de que foram sendo tiradas muito sutilmente, de forma subreptícia, imperceptível mesmo. Claro que uma parte desse grupo se perdeu ou nunca foi o que realmente fingiu ser e vai para as boates de baixa categoria e a outra parte irá em busca não do filósofo porque esse sempre falha em algum ponto, mas em direção ao poeta. O poeta deverá ser esse super-homem, esse pós-moderno que é lenitivo para o vácuo que foi deixado nas almas realmente sensíveis à estética.

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disseram

"A felicidade não é nada mais senão a remissão do sofrimento habitual" - Freud
"Uma obra de arte nos separa do mundo normal do trabalho e nos conduz para um mundo inteiramente diferente. Somos levados para um mundo de satisfação estética" Vladimir Nabokov
"Nos ensine a preocupação e a despreocupação / Nos ensine a ficar quietos" T.S. Eliot
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A internet, me parece, é uma enciclopédia, um alfarrábio, um ajuntamento de coisas baratas.
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vidas&pessoas

O que acontece no mundo vazio é um engodo. O mundo não é vazio, ele é mundo simplesmente. A vida é vida simplesmente. Não há porque esperar da vida alguns méritos e ações que ela, no estado de vida é incapaz de proporcionar. A confusão começa quando esperamos a manifestação da vida.

A vida não é nada. É um espaço ínfimo de um tempo por nós inventado e que ocupamos com o nosso nascimento até a certeira morte. O que fazer com ela é mais complicado do que parece num primeiro momento porque tudo o que seria possível realizar no período vida está ligado ao arcabouço cultural que a humanidade legou. Não olhar as coisas assim é fechar os olhos como tantos fazem.

Não temos alternativas de perceber, usufruir ou criar qualquer coisa se não nos apercebemos do que existe, não da vida em si, mas do material legado pelas gerações anteriores. Da mesma forma como legaremos (ou não) aos que vem. É preciso consultar o que foi feito, o que foi pensado e criado para utilizar, criticar, levar à termo ou não. Trabalhamos não com o espaço vida, mas com o conteúdo não vida, deixado por pessoas que não vivem, pessoas que mobiliaram a vida, que seguidamente, alteraram a disposição das coisas, sempre buscando a melhor alternativa naquele momento.

O que fazemos então é isso. Criar novas peças na marcenaria intelectual e novamente arrumar a disposição das coisas nesse espaço que nos é dado com tempo marcado. Temos tanto tempo para fazer essas e aquelas coisas. Podemos não fazer nada, sentarmos e reclamarmos do que encontramos e do que os outros estão fazendo. Essa é a possibilidade mais cômoda e mais usada porque as pessoas insistem em não fazer. Bem verdade, há que se dar crédito, que a maioria das pessoas é desqualificada para pretender qualquer alteração num espaço sublime como esse, que chamamos vida.

Vida não é senão um momento irrelevante para o cosmo, onde buscamos toda a sorte de empecilhos para tornar tudo caótico quando não descobrimos cedo o caminho do meio, o caminho do conhecimento do que foi feito. Como posso lidar com pessoas que não estão vendo as mesmas coisas do que eu? Como pode alguém falar sobre variações de lilaz com um cego absoluto, que já nasceu com essa deficiência. Acho que todos nascemos com deficiências, apenas eu graus diferenciados.

Sou deficiente ao não ver que a ação do outro não é propriamente contra mim como aparenta, mas contra si própria. O que mais encontro são pessoas agindo contra elas mesmas, agindo de forma a tornar a vida mais obtusa. De uma maneira geral o homem é obtuso. Vê muito pouco. Gasta seu tempo em questões menores e irrelevantes. Porque as pessoas aprendem as coisas. O grande mal, a meu ver, é as pessoas acharem que sabem.

Esse tipo de gente é infame, a gente atira longe com um piparote sem força. Podemos massacrar facilmente qualquer pessoa que esteja convencida que sabe as coisas. Porque o saber, da forma como pensamos, não existe. O saber é abstrato, é exercício. Não sei apenas o que sei, mas sei o que faço, como ajo, a maneira como me exponho ao mundo, como recebo e espero ser recebido.

É o último segredo, esse de conseguir sobreviver. Não se sobrevive em pelejas nem nas discussões rasas e sem fim. A possibilidade vida só tem valor se percebida como bela, estética, boa de uma maneira geral onde os problemas vêm em ondas que somos capazes de pular, ultrapassar. Ultrapassar essas ondas tem a ver com sabedoria e também com o divino e ainda com o acaso, como em casos como as tsunamis.

Uma pessoa que traz essencialmente amargor pode fugir e se distrair, mas estará sempre à espreita de uma tsunami que, mais dia menos dia, virá. Os maus momentos vêm porque somos humanos e não pedras. Talvez fosse melhor ser pedra, mas é uma hipótese, um pensamento, fruto de um cérebro (humano).

Na maioria das vezes percebemos pessoas que não trabalham com hipóteses nem com possíveis, não olham o céu à noite com a devida atenção e desconhecem ainda as boates de péssima freqüência. Nem uma coisa nem outra. São zumbis que caminham espalhando desconforto, desordem, falta de luz.

O que é então que se deve fazer? Evidentemente eu não sei. Sei apenas de mim e eu sou muito pouco, nada praticamente. É engraçado porque na minha vida eu sou tudo, mas na vida geral eu sou nada. Todos são nadas. Mas, considerando que são tudo em suas vidas particulares, se vissem com acuidade, tornariam a 'vida nada' numa 'vida tudo'.

Já existiram momentos de vidas tudo. Hoje não é assim, o que não impede que amanhã não volte a ser. Existe um certo movimento cósmico, da área dos mistérios que faz a vida ser ora assim, ora assado, intermitente e aí vemos os períodos mais e menos férteis da humanidade.

O mundo novo é assolado essencialmente pela solidão. Pela incapacidade das mulheres manterem casamentos, pela incapacidade das mulheres caminharem apenas com seus próprios pés. Verdade que isso acontece também aos homens, mas não acontecia, acontece agora quando os movimentos ditos libertadores alteraram irrevogavelmente o que está, como sempre esteve, lá, no repouso do universo. Não tornaremos a esse estado de inocência quase 'Paraíso' que foi quebrada antes da hora, quando as gentes que promoveram a desordem ainda não tinham estofo, arcabouço para sustentarem as pedras que iriam cair.

Agora, infelizmente é tarde, agora perdemos definitivamente a inocência (Adão e Eva foi um ensaio que deveria ter servido de exemplo). Os ensaios acabaram e as cortinas se abriram. O universo nos contempla, marionetes, nesse palco de terceira, com vozes de falsete, com dúvidas pueris, crenças idiotas, esperanças vãs.

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da não estética

O caminho está aberto para novas experiências com a escrita. Sempre esteve aberto e modelos foram criados, experimentados, feitos de variadas formas. Mas não basta. O mundo estagnou culturalmente. Não se vê nada de novo nas artes plásticas por exemplo.

Essa estagnação do final do século passado e início desse é perniciosa a tudo e todos já que está mais do que provado que não sobrevivemos sem a estética.

A estética, mais do que a filosofia, a meu ver, é o motor que afasta o homem do lado comum da vida, do lado enfadonho e o coloca diante do mágico representado pela beleza.

Mas existe um problema bem maior, patológico e muito pouco percebido pelos profissionais competes e até mesmo pela mídia. O homem moderno se afasta da estética, não a conhece nem possui, não pensa em criar arte e vive a vida tal como ela é. Empurrando.

O homem que não tem os conceitos e a necessidade da arte perpassando a vida, da estética em cada movimento, para cada ponto em que fixe o seu olhar e, principalmente, não tenha no dia a dia (trabalho principalmente) pontos onde possa encontrar o belo, esse homem é um condenado. Não é uma pessoa, trata-se de um ser muito próximo da ameba, imaginando ainda que esta não sofra.

Não há possibilidade de passar numa rua sem esculturas, com prédios feios, entrar num trabalho repetitivo, monótono onde não exista a possibilidade de dar de si, acrescentar parte do seu eu ao que resultará numa obra coletiva. O homem que não percebe o belo está morto.

Por outro lado, com a globalização e a pressa que o capitalismo exigem, as pessoas foram sendo afastadas mesmo dessa percepção, dessa possibilidade de conviver com o belo. O belo de hoje não é mais criado como há quinhentos anos atrás, é verdade. O que incomoda é não se pensar, não se procurar alternativas para esse belo.

Hoje andamos completamente afastados de toda a visão estética do mundo. Pensamos em trabalhar, ganhar mais, viajar nas férias e educar medianamente os filhos. Ora, isso não é viver, isso é deixar a vida passar, sem interferir, sem modelar. E do que vale um ser que não está constantemente modelando? Nada.

O grave, pior do que não modelar, é o afastamento humano dessa necessidade. O homem se basta com o que está aí e volta-se para ansiedades e buscas internas. Ora, se desde o início, não teve contato com o belo, na busca interna há de encontrar apenas teias de aranha.

As pessoas têm em si teias de aranha, dores, mágoas, traumas, desespero e uma incontável soma de problemas, na maioria das vezes insolúveis, que estão praticamente cegas. Vão ao cinema, teatro, lêem um livro enfim, mas tudo com muita pressa, tudo de acordo com as possibilidades que a vida disponibiliza. E a vida possui a estética, mas não capacita o homem a percebê-la.

É um mundo vazio, de pessoas muito vazias. Não é o mundo que desejo para mim. Fecho-me para o que há de doentio e me aproximo do belo, continuo nessa busca infindável e assim será até o meu fim. E, infelizmente, tenho enorme dificuldade de me relacionar com quem não possui percepção estética.

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a terapia pró suicídio

Quando entro no vagão do metrô e a mulher me olha, sei que atrás dos olhos verdes e amendoados, existe uma porção de dor, ódio e ressentimento que são frutos próprios da mente doentia, das mentes corroídas pelo ódio e pela incapacidade de aceitar o mundo. São ainda sentimento próprio de quem enfrentou o fracasso da vida desde cedo.

Existe um tipo de pessoa que tem uma personalidade dupla, que é muito bem aceita socialmente, mas que traz, em seu bojo, uma dose de inveja e inconformismo com a vida, uma revolta que as faz buscarem uma espécie de confronto diário, uma necessidade de estarem impondo ao outro todo o seu amargor.

Conheço pessoas assim. Se eu contar (e há anos vivi uma experiência similar) o que elas são em sua vida doméstica, não acreditarão que eu esteja falando da mesma pessoa, da pessoa afável e alegre quando em rodas sociais. Realmente vi algumas pessoas assim e minha experiência é péssima. Chego a um ponto que mantenho eu também uma relação social, mas estou pronto para usar contra elas os rigores próprios aos desconhecidos, como a lei, por exemplo.

A vida é muito dura, traz dissabores que não somos preparados para absorver, que não entendemos como batem à nossa porta, logo a nós que não fizemos nenhum tipo de mal consciente a alguém. Mas talvez a história não seja bem assim. Carlos Vereza, cardecista, acredita na lei do retorno onde, uma coisa que emanamos em qualquer época e em qualquer lugar, voltará duplamente reforçada contra nós (coisas boas ou más). Não pertenço à sua religião nem tampouco possuo as suas crenças, mas acho que, de certa maneira sim. Que existe um universo em repouso, em inércia e que nossas ações interferem em forças outras que reagem como um corpo vivo ao excesso de calor, por exemplo.

O tipo de pessoa de quem falo tem em sua bagagem essa espécie de calor extra, de calor pronto para ser usado contra as pessoas à sua volta, prontas estão para aquecer pessoas, situações, relações e ambientes como que a deixar clara a sua desagradável presença.

Conheci uma pessoa que serve de exemplo perfeito à esse caso no norte do país. Ela era infeliz e tornava sua vizinhança (era uma vila em Recife) e infeliz, era detestada e evitada por todos. Com o fracasso do tratamento psiquiátrico a que se impôs, procurou formas alternativas, chegando até ao exorcismo.

Acredito no exorcismo como uma alternativa eficaz, ainda que não creia em demônios nem em espíritos maus. O que ocorre na prática do exorcismo é que, dependendo de que o ministre, haverá um deslocamento energético no exorcizado que o deixará por um tempo menos problemático.

Pessoas com problemas ou problemáticas elas mesmas, deveriam morar em casas, com vizinhança distante nem deveriam trabalhar nem estudar porque a solidão ajuda a mostrar como se está errado ao procurar o desconforto para o outro. Na verdade, é possível, perceber de outra forma.

Cada um poderia perceber rapidamente como está sua mente olhando um pouco para seu passado. O que encontram essas pessoas no passado? Nada. Apenas um rosário de infortúnios. Pessoas que, por esse ou aquele motivo, não fizeram, não realizaram. Tem milhões de pessoas que olham realmente para traz e percebem que nada fizeram que vida passou vazia, sem sal, uma vida dessas de tentativa e erros onde, ao cabo, restam apenas o resultado dos erros.

Embora, no calor da discussão fiquemos exaustos, com ódio, eu entendo bem essas personalidades, procuro fazer idéia do quando de sofrimento carregam e reconheço que a vida não terá mesmo solução. São pessoas que só deixando existir ficariam libertas. Pessoas pró suicídio. Suicídios existem muitos, na maioria das vezes muito bem feitos, o suicida é um incômodo que sai da terra, trazendo harmonia para si e um pouco de paz ao seu entorno.

Pensando dessa maneira, do infeliz compulsório, agressivo, revoltado e que afasta a harmonia de si mesmos e dos que os circundam.... para essas pessoas eu realmente defendo o suicídio, forma última e única de redenção, de paz. Porque existe uma cota de suicidas vagando pelo mundo. É uma questão de tempo, da hora em que o detonador vai ser acionado. Acho mesmo que deveria haver um tipo de terapia psicológica pró-suicídio.

O que digo, em última análise, é que da mesma forma que fazemos terapias e tomamos medicações para evitar o suicídio, deveria haver um tratamento inverso, que aproximasse do paciente a idéia da libertação através do suicídio, da morte induzida. Claro que existiria ainda a possibilidade do assassinato, mas por questões outras, antropológicas, questões que vêm desde a antiguidade, desde que o homem precisou dos deuses para criar as leias da terra, por essas questões, não podemos praticar o assassinato, restando, portanto, a teoria da terapia pró-suicídio.

Evidentemente que as pessoas que estão nesses casos, que são o que descrevi não se percebem assim, ao contrário. Normalmente são pessoas cheias de si, com suas verdades infames profundamente arraigadas em suas mentes. Pessoas que acham justas e capazes e sequer percebem o movimento da vida em relação a elas.

Via de regra, são pessoas submetidas a traumas profundos ou dificuldades desde o nascimento, como uma sem nenhuma auto-estima verdadeira, isso é importante, pessoa muito abaixo da linha da pobreza, tal como a concebemos. Ainda assim, esses miseráveis são menos atingidos dos que os traumatizados. O traumatizado é um doente e, dependendo do grau, dependendo do estrago que ele faz em seu entorno, a eutanásia induzida deveria ser considerada, levada à discussão, pensada sem preconceitos.

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13.5.05

antes....

Não sei mais em que posição estou. Acho que nenhuma. Sou isso que chamam de franco atirador, que tenta acertar nas doze, Não acerto nem em duas. Tenho, como todo mundo, caminhos a escolher. Meu caminho é incerto é uma caminho que parece ser o que, invariavelmente não é. O que é então?
Não sei. Definitivamente, não sei nada.

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12.5.05

Não me basto mais. Nunca me bastei para dizer a verdade. E acho mesmo que ninguém se basta, que simplesmente, não pensamos nisso para evitar a imensa dor, o imenso sofrimento que a vida coloca vez por outra nas trilhas que percorremos. Não me afasto do meu rumo, não desejo mais a sorte que desejei nem o azar que roguei. Não. Agora nada. Agora é o momento de aceitação, de percepção do mistério sem a angústia da fé. Agora é a vez da mulher dizer o caminho, é a hora de me deitar em seu colo e aguardar, calmo, o acalanto. Não me preocupa se a aldeia é aqui ou ali, se o feno virá para esse ou aquele lado. O feno é um problema do vento e não meu. O que me resta é olhar a torre da igreja e me emocionar com seu toque, com a beleza do ferro que bate no ferro para chamar a todos, para que todos possam estar presentes na hora em que o sol se puser e o homem vier, calmo, acendendo os candeeiros.
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Callas

A posição que seguro a caneta tinteiro me é incômoda. Não. É incômoda para a pena e não quero penas sofrendo nas minhas mãos. A pena, melhor do que ninguém, sabe quando o seu portador está fingindo, está brincando de escrevinhador.

As penas de Dostoievski não tinham tanta sutileza nem ele, com seus dedos sempre negros de tina. Os monturos de papéis também escorregavam para baixo da mesa arranjada e o tipógrafo sofria à cada edição, à cada capítulo no jornal.

Queria ser um copista. Acho que eram grandes homens, de grande sapiência e tenacidade entregando suas vidas inteiras ao trabalho de copiar livros no interior de mosteiros. Quem faz hoje um trabalho mais útil?

Não imagino como será o meu amanhã não porque não o saiba, sei sim, mas porque imagino o que poderá ser, imagino que poderei encontrar almas indômitas que farão tremer minha base insignificante.

A mulher volta à rua, dessa vez sem tanto estardalhaço. Não me chama quase a atenção. Reparo muito mais na mochila que carrega, dessas de marca, de loja boa. Essa mulher está atravessando o meu caminho e acredito piamente que isso tenha um sentido. Tem sentido porque eu a percebi antes de todos e porque ela fala a mesma língua que eu.

Minto. Ela fala uma língua diferente, talvez mais nativa, talvez mais em dialeto, mas acho que sei o que quer dizer. Acho que ela é o sinal que esperamos a vida inteira para programarmos e executarmos as mudanças que, covardemente, adiamos.

A mulher é um ser maravilhoso que deve ser percebido não pelo que ostenta, mas pelo recato. A mulher é majestosa na humildade e difere do homem na falta de capacidade de perceber não o homem, mas a outra mulher. As mulheres deviam casar-se sempre com outras mulheres. O mundo seria mais puro, lírico.

A mulher invariavelmente é brutalizada pelo homem e, mesmo as que gostam, estão fora do centro, não estão em seu natural. O homem só foi necessário até as modernas técnicas de inseminação artificial. Agora, para que serve um homem? Nada.

Aquela que está na minha esquina e fala em dialeto rindo-se de todos nós que a achamos louca é uma diva, uma grande personalidade que saiu de seu habitat para conhecer como vivemos aqui, principalmente mulheres como ela. Deve compadecer-se muito das outras mulheres, não deve compreender como as outras não têm a ribalta.

Essa mulher de quem falo é especial por sua beleza e excentricidade. Comparo-a a Maria Callas. Sim, uma Callas brasileira, carioca, que canta para poucos (porque poucos existem para ouvi-la). Deve ressentir-se disso e chorar por dentro, deve apiedar-se das outras, todas mulheres que, em nome dos seus homens, saem e voltam exaustas no fim do dia sem terem feito nada.

Se fosse vivo, seria esta mulher que Paul Valéry escolheria para desposar porque ele era fino, sensível, perspicaz. Valéry não sobreviveria num mundo grosseiro, sem penas, sem papel em abundância, sem uma mulher decidida (como Woolf) que pudesse estar a seu lado, em seus muitos momentos de (extrema) melancolia.

Eu tenho a melancolia da minha idade e a mulher na rua sorri para mim, não com ironia ou desprezo, ao contrário, por me perceber e saber que olho para ela como uma igual, como se tivéssemos a mesma alma e, talvez, o mesmo sexo. Não, não existem sexo dos anjos. Não podemos misturar a figura do anjo com a figura do sexo. É preciso, uma vez na vida, tomar uma posição apenas e continuar, coerente.

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mulheres ainda especiais

A mulher não consegue se colocar como pessoa independente no mundo independente dos movimentos femininos nem de conquistas várias como leis e etc. A mulher conseguiu sair de casa, estudar e se colocar no mercado de trabalho, mas continua sofrendo da mesma doença infantil de quatro séculos atrás.

Às vezes fico pensando que existe um complô masculino contra a mulher, deslocando-a do eixo normal da convivência para uma espécie de periferia de terceira e, nesse caso, estaria ainda a mulher lutando bravamente por seu espaço.

Infelizmente não é verdade. A mulher tem dessas doenças infantis mesmo, precisa de proteção e cuidados muito próprios. A mulher não se coloca num mundo de iguais, coloca-se como uma pessoa com características especiais. Se existissem vários sexos, seria compreensível que a mulher desejasse ser especial, mas só há dois: masculino e feminino. Não existe espaço para tratamento diferenciado.

Ficamos boquiabertos vendo as mulheres modernas e independentes viciadas em seriados de televisão tipo Friends, verdadeiramente abaladas por livrinhos idiotas como O Diário de Brigitte Jones e todo esse lixo que é produzido para a mulher, esse ser especial. A televisão, todos os pensantes sabem, é um meio altamente imbecilizante, um meio onde não há atitude, apenas recepção de triste informação.

A classe média e média alta possui TV à cabo procurando encontrar alguma vida inteligente na TV. Bobagem. Não há. A TV portuguesa é impossível de se assistir, a italiana tolinha, a alemã, chata, a francesa, complicada. Mas a classe média tem TV à cabo. E o GNT (dirigido por uma mulher) se pretende um canal mais feminino. O que é um canal feminino?
Um canal onde a programação seja especialmente dirigida às mulheres e já vemos aí o 'Especialmente Dirigida'. Tem que ter um canal especial porque os outros, mistos não atraem, devem ser 'para homens'.

Esse canal GNT apresenta em suas vinhetas figuras de mulher, tem programas sobre ginástica, boa alimentação, revista, decoração, tudo o que se possa imaginar que vá interessar à mulher. Fico pensando que na cabeça delas esses mesmos assustos não interessem a um homem. Ginástica interessa a todo mundo, boa alimentação também e o livro Briggite Jones é ruim, nefasto para todo mundo, homens e mulheres. Mas a cabeça da mulher não funciona assim.

Fizeram então um programa (mais um entre os milhares que existem) com quatro mulheres que debateriam determinados assuntos sob uma espécie de 'ótica feminina' (novamente especial, a ótica feminina tem um diferencial). Esse programa, Saia Justa, é chato e cansativo exatamente por causa da condução das mulheres. E não é só isso, em muito pouco tempo no ar, ele já mudou várias vezes as componentes do grupo de debates por motivos internos, rusgas entre elas, de bastidores. Não têm profissionalismo, não conseguem nem fazer um programa 'delas para elas'.

Os jornais que não são bobos nem nada (têm inclusive um Caderno Mulher, como se os cadernos normais não servissem, fossem coisa de homem. Fazem então um caderno para especiais, as mulheres). Mas como dizia, os jornais alimentam essa briguinha tola de bastidores e anuncia que o Saia Justa vai voltar dessa vez trazendo uma filósofa, Márcia Tiburi. E o que isso quer dizer?

Bom quer dizer que podem mostrar que existem filósofas do sexo feminino (o que deve ser outra excepcionalidade), que essas mulheres apesar da academia estão dispostas a uma conversa 'inteligente' na televisão. Num programa especial para as especiais mulheres. Mais ou menos como se para os homens fosse necessário criar um programa tipo Calça Apertada onde homens tratariam de seus anseios, dúvidas e crises. O que resulta é um programa chato e burro.

Resulta ainda no retrocesso que é a mulher admitindo que tem cadernos de jornais, livros e programas de televisão específicos para elas, que são especiais. Essa filósofa por exemplo, diz que não gosta de televisão (porque fica bem dizer que não gosta de um meio menor), mas vai lá fazer. De certa forma, ela avaliza o meio. E se estamos vendo um programa para mulheres que tem uma filósofa, estamos vendo alguma coisa maior do que as futilidades de sempre. (Nesse caso conta o título de Filósofa para transmitir cultura)

Mentira. A filósofa vai falar de futilidades porque se quisesse tratar de assuntos pertinentes à filosofia ou assuntos gerais não precisaria de um programa especial para mulheres, poderia estar em qualquer programa. A mulher com tudo isso, apesar da ascensão profissional e cultural continua tacanha no cerne, na raiz da sua condição de, sendo mulher, ter que ser tratada como especial. Parece que ainda não é dessa vez que veremos a emancipação.

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11.5.05

Diálogos

Não posso dizer que nosso encontro resultou infrutífero porque nem todas as opiniões radicais minhas podem ser aceitas. Aliás quando conversamos com alguém trabalhamos com uma margem de erro e acerto, de negociação. Dizemos muitas vezes coisas exageradas esperando a contraproposta que vem ingenuamente e chegamos então ao acordo que prevíramos antes.

Acho que já fazemos isso de forma quase inconsciente, desde que se pense um pouco na arte da conversação. Conversar é uma das mais agradáveis artes, é onde conseguimos expor nosso pensamento e, principalmente (não se tratando de bestas) temos uma resposta. Essas respostas sempre vêm cheias de informações novas que, reprocessadas, passam a fazer parte do nosso capital intelectual.

Por isso, acho, é tão importante as pessoas conversarem. Sem a conversa não há trocas de informações nem de saberes. E não adianta guardarmos tudo o que aprendemos só para nós mesmos (mesmo quando conversamos conosco, alguma coisa sempre falha, escapa).

A conversa, por sua vez, torna-se interessante na medida em que um está percebendo e assimilando perfeitamente o que está sendo dito pelo outro, que, enquanto ouve, está articulando o raciocínio para a resposta mais congruente. Se uma das pessoas não presta atenção ou não percebe do que o outro está falando, vem tudo por água abaixo. Vem o famoso Monólogo de dois.

Fazer monólogo pode ser uma coisa interessante quando se sabe que estamos fazendo um discurso sozinho, que nosso pensamento tem que possuir um desencadeamento mais ou menos lógico para que, por si só se faça compreender ignorando possíveis perguntas ou argumentações. O monólogo também é muito bom.

O monólogo tem sempre coisas à favor de quem pronuncia e contra quem participa como ouvinte, colocando esse último numa escala intelectual bastante inferior, quando ele não tem argumentação para nada e acaba afastando-se até mesmo do que está sendo dito, entrando num processo de auto-encolhimento-mental.

Por isso acredito mais na conversa, acredito mais em seu poder de proporcionar a mais de uma pessoa momentos agradáveis com essa troca que tanto precisamos todos nós. O mundo só existe, fico pensando, por causa da possibilidade da conversa, porque as pessoas estão sempre trocando aquilo que aprenderam seja numa olaria ou numa biblioteca. Não importa de onde vem a experiência, ela, de alguma maneira, em teses, será rica. Verdade que estou exagerando em comparar uma olaria com uma biblioteca. Não. Aí não há diálogo.

Digo tudo isso por causa da conversa preliminar que tive hoje bem cedo, conversa para preparar o diálogo da noite que será amplo e proveitoso para os dois. É importante essa coisa do diálogo ser proveitoso. Acho que as pessoas que mantém diálogos não proveitosos acabam desistindo, acabam não querendo mais falar e guardando-se num mutismo que, em alguma hora vai explodir, sabe-se lá de que maneira.

Estive numa cidade há algum tempo em que um homem de meia idade era conhecido pelo seu mutismo. Ele não falava com ninguém dado que seus problemas eram enormes e as pessoas não tinham consolos verbais que o satisfizessem. Ele ficou nesse mutismo por muito tempo (imagino que dialogando consigo próprio) e falava estritamente o necessário de vez em quando com as pessoas. Não era garantido que ele fosse dar um bom dia, por exemplo. Às vezes sim e às vezes não. Os moradores do pequeno lugar terminaram por se acostumar e desistiram do homem que, ao fim de um período de tentativas e fracassos, terminou se matando.

E por que tudo isso? Por nada. Porque estou pensando sobre a importância da conversa, porque estou falando comigo mesmo, mostrando para mim mesmo que falar e ouvir sempre é muito bom,muito saudável, muito inteligente e, principalmente, simpático. Claudicar na possibilidade do diálogo constante, me parece uma forma perigosa de dar um passo à frente e dois atrás na escalada da vida. Talvez seja isso.

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A Vacina Freud

A proposta última da psicanálise é fazer o analisando perceber o porquê está agindo dessa ou daquela maneira, aliviar suas dores e seus desencontros, mas sempre partindo da idéia de que ele é o causador, ele é quem carrega os traumas que resultam nos dissabores.

Tenta-se, por exemplo, me explicar que sofro de uma insônia crônica porque numa determinada época, muito possivelmente na minha mais tenra infância, sofri esse e aquele trauma, passei por essa ou aquela situação estressante, situação essa que se alojou no meu inconsciente e que agora, ainda de forma inconsciente maltrata o meu corpo com resultados imediatos na minha vida prática.

Num caso como esse não estarei resolvendo o problema tomando remédios para dormir pois eles serão um paliativo, resolverão provisoriamente um problema que está lá, em mim, e que não será removido se eu não buscar a origem, trazê-la à tona e encará-la de frente, destruí-la.

Pode ser uma teoria certa, não sei porque não tenho formação para isso. Mas, como observador, acho muito estranho, acho inexplicável quase a hipótese de desconsiderar todas as possibilidades difíceis que a vida me apresenta, acreditando sempre que o problema está unicamente em mim que não sei como lidar com elas.

Isso é mais ou menos assinar uma confissão de culpa irrestrita logo ao nascer. Nasci, logo, sou culpado. Todos os problemas do mundo então perdem a sua severidade, gravidade porque eu, sempre eu, não estou sabendo lidar com eles, não estou preparado, não tenho consciência das coisas da minha infância que me traumatizaram à ponto de agora, na vida adulta, enfrentar. Tenho, em tese que saber enfrentar tudo com tranqüilidade, como sendo a intranqüilidade uma afecção que é para dar em postes e não em gente.

A psicanálise não traz termo de garantia nem de validade. Pode dar certo ou não. Quanto tempo estarei em tratamento é uma incógnita porque (até pra isso) vai depender muito de mim, da minha resposta a terapia. Meus traumas podem estar mais ou menos latentes e eu posso estar mais ou menos disposto a trazê-los à tona, mais ou menos preparado para lidar com eles. Porque não é só percebê-los, é enfrentá-los e vencer.

Posso levar dois ou vinte anos nesse processo. Ele uma hora vai dar certo. Na maioria das vezes, na opinião desses profissionais, os remédios não ajudam, ao contrário, podem atrapalhar o que me cria a possibilidade de ficar entre dois e vinte anos sem dormir ou com a dificuldade lá que eu esteja.

Existe ainda o argumento que, com a ajuda do psicanalista, eu vou me conhecer melhor, saber mais das minhas emoções, de como eu reajo às coisas e porquê. Ou seja, de uma certa forma, o psicanalista seria um manual de mim mesmo sem o qual eu dificilmente poderia saber me usar. Preconiza então que eu sou burro o bastante para não me entender sozinho, não me conhecer.

Eu, então, não sou eu plenamente se não tiver a preciosa ajuda com explicações e demonstrações do meu eu se não fosse a ajuda de um profissional. As pessoas que viveram antes da (recente) psicanálise pensam que viveram plenamente, pensam que fizeram tudo e tiveram uma vida plena. Não. Foi um engano porque não sabiam exatamente quem eram nem porquê faziam as coisas.

O mundo claudicou (sem nem ter consciência) até Freud. Toda a cultura, todo o avanço, evolução da raça humana até Freud foi um vôo cego, devem ter acertado em algumas coisas unicamente por tentativa e erro já que ninguém se conhecia. Mesmo vivendo e resolvendo problemas, sendo bom, ajudando e dedicando-se a isso ou aquilo o homem fez tudo sem ter consciência completa, caminhando por aí com seus traumas mais recônditos, verdadeiras bombas relógio psicológicas.

Fico pensando que, em vez de ensinar religião aos pequerruchos nas escolas, deveriam começar logo fazendo psicanálise porque quanto mais cedo melhor. Talvez tivéssemos um mundo melhor, mais bem pensado. Uma espécie de vacina contra traumas que faria a humanidade mais feliz. (e segura)

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10.5.05

acasos

E. trabalhou com O. de C. para a compilação do livro de ensaios de Carpeaux. Engraçado como eu me engano com as pessoas. O que acho mais ser mais ignaro pode me surpreender fazendo um trabalho de pesquisa assombroso enquanto outro, acadêmico é incapaz de conhecer o próprio Carpeaux.

O que isso me diz? O que devo aprender com isso além daquela coisa antiga de que não se deve julgar ninguém pelas aparências? Como uma pessoa de trabalho tão simples e humilde consegue viajar tanto e embrenhar-se dias á fio em bibliotecas para concluir os Ensaios Reunidos?

Uma espécie da anima (e aí revisito os mistérios), essa coisa, esse lume que pode estar dentro da pessoa que menos esperamos, naquela que não fazíamos fé, não acreditávamos mesmo. É preciso ver uma pessoa como um ser misterioso, cheio de possibilidades. Claro que sempre podemos nos enganar e encontrar naquele potencial uma alma vazia, rasa. Mas pode ser exatamente o contrário.

Enquanto convivemos ela não me disse o trabalho que tinha feito, sua aventura bibliográfica, falava apenas da possibilidade de ir à Europa. Não imaginava a primeira e duvidava da segunda. Fragorosamente errei nas duas!

E assim, de erro em erro, vamos avaliando mal as pessoas, vamos perdendo as grandes oportunidades quando temos ao nosso lado pessoas interessantíssimas, pessoas que podem nos suprir uma série de brechas ou apostarmos tudo em gente vazia, nula.

Era isso que eu tentava explicar por telefone a uma amiga que estava desacredita nas pessoas (principalmente os homens). Reconheci que são momentos mágicos esses encontros. São raros, você tem que estar na hora certa no lugar certo. Quase uma loteria.

Mas a vida só pode ser explicada racionalmente assim, com os acasos, com as possibilidades que resultam nos encontros, com a capacidade de acreditar sempre que existem outras pessoas. É um assunto bobo,, acho que não interessa muito a ninguém. Fica o depoimento.

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das ruas e fora delas

Falo da doença dos outros e das minhas. É o que parece ao desavisado. Olhando bem, falo da doença do mundo. Do quanto o mundo está doente e finge não se dar conta, de como as pessoas correm, como se desesperam e arrancam os cabelos (que acabam mesmo caindo).

O mundo está muito doente. Quando a gente faz um relato individual, os outros olham com cara de espanto, como se fosse uma coisa do outro mundo,mas não é nada disso, saem daqui e vão pras suas farmacinhas particulares. Todo mundo tem uma farmácia particular em casa. E por que? Porque não dá tempo de correr na comercial e a maioria dos remédios é sempre tarja preta, sempre controlado, o que exige a visita a um médico antes. E assim, driblando uns e outros, vamos fazendo nossos estoques em casa. Todo mundo sem exceção.

Claro que tem muita gente que nega, que diz não, absolutamente com a maior desfaçatez como se pudessem enganar alguém. Não adianta falar essas bobagens para os outros porque o interlocutor também tem suas caixas de pílulas em estoque e ele sabe como é, sabe o cuidado que tem que ter e, portanto, sabe que o outro, saudável, é apenas um enorme mentiroso.

Dizem alguns que de vez em quando se fazem verdadeiras apologias à favor dos remédios. Pode ser. Eu não faço. O que digo é algo muito pior do que remédios ou não remédios: falo da doença das pessoas. E mais alarmante ainda é ver os malucos soltos por aí que se consideram mais do que normais. Chegam a dar medo! O maluco que se acha são é uma bomba relógio em cima de duas pernas.

Dizem que o mundo moderno aumentou muito essa coisa toda e eu acredito, como acredito também que muita gente sempre esteve muito doente e não haviam os diagnósticos certos e muito menos os remédios para curar. Devia ser uma barra muito pesada. Até que nascemos numa época razoável nesse aspecto.

Os tiques, os pavores, o olhar e o comportamento tresloucado de quem se acha normal é assustador. Conheço um camarada assim no meu trabalho. Daqueles que adora dizer que não toma remédio nem para dor de cabeça. Nossa, esses são um perigo!

Doença não é o assunto. O assunto é a vida que vivemos. A vida estressante, que não perdoa, que não é complacente com os menos favorecidos. Por que todo mundo tem que ser muito bem sucedido? Eu não sou, e daí? Qual é o problema? Por que eu teria que ser um grande empresário, desses que botam dinheiro pelo ladrão? Até gostaria de ser, mas por uma série de circunstâncias (inclusive minha falta de capacidade) não sou. Parece que o mundo não quer perdoar muito gente assim não.

Daí fico pensando que o grave não são propriamente as doenças das pessoas nem as doenças que as pessoas escondem dos outros e de si próprias, grave é a doença do mundo, da cidade grande. Você pode ser bom e tranqüilo como um bispo que não resistirá a um dia de labuta nos grande centro, onde milhares de pessoas atravessam as ruas no meio dos carros, esses buzinam desesperadamente, pessoas param um segundo para lerem o jornal pendurado nas bancas e outras se jogam dos andares mais altos no centro da cidade.

Parece ficção, mas essa é a nossa vidinha diária, corriqueira, essa coisa que criamos em nome de uma certa modernidade, de uma certa capacidade de viver melhor, de ter mais conforto num mundo aparentemente globalizado para o bem. Parece que não pode haver globalização boa. Como não pode haver capitalismo bom, ainda que melhor do que o comunismo, evidente!

Vou andando então eu também por essas ruas todas como deve ser, como assim está preconizado, eu com minha mochila, meu celular e minhas drogas que alucinam ao contrário porque alucinante mesmo é a vida sem nenhum componente agregado. Até a hora em que as pessoas começarem a quebrar tudo, a gritar e se jogar no chão. Não sei porquê, mas acho que uma hora isso vai acontecer. E ao mesmo tempo.

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ainda o pânico

Ele vem até a minha causa falar do pavor. Do pavor de tudo. São assuntos que procuro me manter afastado porque também sou vítima desses sintomas. Ele veio de longe, conseguiu, com sacrifício, atravessar a cidade pra conversar comigo. Disse que era uma incongruência vir de tão longe se não consegue ir no botequim. Expliquei a ele que eu entendia muito bem como funcionam esses mecanismos.

Ele me disse que tentou ir até o bar comprar cigarros, mas não conseguiu passar da portaria do prédio, deu uma desculpa e pediu para o porteiro ir em seu lugar. Disse a ele que entendia. Explicou que não está tomando banho nem comendo, que não sabe mais o que fazer já que está tomando todos os remédios possíveis.

Parece, ele me diz, que os remédios só não resolvem, precisa de alguma coisa a mais, de um impulso, de alguma coisa que jogue a gente pra frente, quase que à força porque não vamos com nossos próprios pés. Disse isso e começou a chorar como uma criança

Tentei dizer a ele que isso é uma coisa normal nesses casos, que acontece com um monte de gente, pensamos que é só conosco, mas não, é com uma porção de gente. Que é um sintoma de uma coisa, que é doença e doentes todos nós ficamos uma hora. Esse caso é mais complicado só porque os outros não estão vendo a doença. As pessoas são adestradas a verem a doença.

Ele me diz que tem uma amiga que está fazendo o impossível para levá-lo para a rua, que está tentando todo dia há semanas e não consegue. Não fosse tão amiga já teria desistido e mandado ele às favas. E é verdade. Lendo a bibliografia que existe a esse respeito a gente vê que é assim mesmo, que a pessoa fica imprestável, não sai de casa, não faz nada, é completamente inútil.
Fiz ele sentar porque mal se agüentava em pé de tão drogado que estava de tranqüilizantes.

Preparei um café que ele tomou com prazer seguido de dois cigarros consecutivos. Falamos desses problemas todos do pânico, da depressão e o assunto suicídio veio à baila, mas ele descartou a idéia. Não, não queria se matar. Era diferente. Não tinha vontade de nada, nem de se matar o que, ale, do mais para ele, o suicídio, era uma questão filosófica (como para mim também).

Fiquei mais relaxado. Bom, se ele não ia se matar a coisa melhorava, a questão agora era como melhorar aquele estado, aquela confusão e sofrimento em que ele estava afundado. Lembrei das crises que também já tive, na quantidade de antidepressivos, tranqüilizantes e, no final Zyprexa fora obrigado a tomar. Agora ele a vez dele. Mas não foi bem assim.

Contou um pouco da sua história, entre um cigarro e o outro e os colapsos de depressão eram freqüentes, ele já sabia quando vinham e estava em constante tratamento, o que não impedia a vinda da crise, mas a tornava mais branda, suportável. Entendo bem o que ele fala. Tenho procurado falar dessas coisas aqui e chegam cartas de pessoas que estão passando por situações semelhantes, piores, muitas vezes.

Contei para ele que eu falava e que as pessoas se mobilizavam, escreviam contando o que estava acontecendo com elas e com seus parentes, a desagregação da família e o terror de todos diante de uma nova possibilidade de colapso. Ele sorriu para mim. Não queria conversar, estava se esforçando, logo percebi. Mas não tinha problema nenhum que ele estivesse fazendo força, o importante é que tivera coragem de atravessar a cidade para me procurar e estava ali agora, falando das suas coisas, das suas dores, seu sofrimento.

O que fazer diante de tudo isso? Ele me perguntou. Nenhum de nós dois sabia. Era tomar os remédios, lutar, fazer força e seguir em frente. Não tinha mais nada que pudesse ser feito. Era preciso estar preparado também para as melhoras, conseguir ser feliz com elas e as pioras, saber suportá-las. Ele estava aprendendo. Disse que estava ficando mais convicto de que poderia suportar.
E assim conversamos a tarde inteira. Quando anoiteceu ele me disse que ia embora, que ia voltar para sua casa
.
Tinha sido bom estar comigo, ter conversado bastante, contar suas coisas para alguém que poderia ouvir com sincera amizade. Disse a ele que voltasse sempre, que me telefonasse, que estivesse por perto. Elke me prometeu que faria isso e, com ombros arqueados, saiu pela noite.

Sentei em minha poltrona e fiquei pensando um bom tempo em tudo aquilo. Aquele era um bom homem. Um trabalhador incansável, um empreendedor, um lutador. Fiquei feliz por conseguir ter contribuído um pouco. Gostaria de ter feito mais, de ter ajudado mais, mas sei que fiz o que pude, o que estava a meu alcance. Não sou muito bom para essas coisas também. Estava agora esgotado. Fui até o armário do banheiro e tomei eu as minhas pílulas.

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viajante

No recanto obscuro da floresta há um lago de média proporção, que é preciso um barco para atravessá-lo. Não sei se devo fazer a travessia agora, nesse momento de tantas brumas. Olho em volta e apenas aves negras estão pousadas aqui e ali, sem darem atenção a mim. A nada. Como se estivessem empalhadas. Não estão.

Caminho mais um pouco para a minha esquerda (creio ter ouvido o ruído de um graveto se partindo). Há, logo atrás de um arbusto, um homem velho, de longa barba branca que me olha entre atônito e assustado. Antes de qualquer coisa, explica que estava apenas de passagem, que já vai embora.

Pergunto se pretende fazer a travessia do rio assim, com toda essa bruma e ele me olha como a pedir uma opinião. Diz que é ourives de profissão, mas deixou tudo para trás, casa, trabalho, esperança quando sua mulher morreu. Tem uma filha mais velha, uma moça, que não sabe onde está agora. Ela tinha saído bem antes da morte da mãe.

Não fala para onde vai. Não sabe. Quer ir embora sempre, diz, até ser acolhido pela morte, o que considera um bem supremos pela possibilidade do reinício de nova vida. Não sei o que será, me responde, quando pergunto se tem certeza dessa nova vida como meio de representação, de continuidade a sua existência. Está assustado. É mal nutrido. Deve ter fome.

Digo que podemos passar a noite por ali mesmo, talvez comer uma daquelas aves que estão pousadas por todos os galhos e ele se assusta, diz que não, que são aves sagradas, que nos matariam muito antes que conseguíssemos chegar perto de alguma. Estão, ele diz, tomando conta de nós, querem ver o que vamos fazer.

Não tenho porquê acreditar nele, é um homem sem rumo, um homem que perdeu o seu Em Si e agora vaga por todos os lugares, campos, pradarias e aldeias, como, de certa forma, também eu o faço. Diz que a água daquele lago é muito boa, tem poderes sobrenaturais, uma água que deu força aos deuses que habitam por ali. Aproxima-se do lago e bebe dele, enfiando sua cabeça na água como um animal.

Quer conhecer a mulher que habita o outro lado pois ela é quem domina o tempo e o espaço de todo aquele mundo, é uma deusa ou uma rainha, uma semi-deusa nessa terra. Não sabe se ela há de conceder-lhe o que necessita, o que vai pedir, mas é sua última esperança. E se ela não conceder? Indago. Ele abaixa a cabeça, a água pinga de sua barba rala e suja e diz que não sabe, que aí não saberá de mais nada porque aqui é o fim do mundo, conclui.

Diz ainda que está confeccionando uma guirlanda para oferecer à deusa porque soube por elfos que ela gosta de guirlandas, que são seu presente favorito. Enquanto falamos, vejo agora, o barco vem da outra margem para essa, deslizando mansamente, uma mulher guiando-o com apenas um remo e uma luminária da proa. Mulher de cabelo longo e negro, do que me permite distinguir em meio a bruma.

Ela chega à margem de cá e estende os braços de forma convidativa ao velho. Ele me olha, talvez esperando que eu fosse também convidado, mas não sou. Ela quer a ele e ele vai, caminha vagarosamente até o bote, embarca nele e se afasta, barco, mulher e seu tripulante retornam para o meu do lago perdendo-se de mim no meio das brumas.

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o excesso de informação

Tem essa tese antiga, mas verdadeira, de que um exemplar de dia de semana do New York Times contém mais informação do que qualquer homem contemporâneo de Shakespeare teria adquirido numa vida inteira. O homem culto elizabetano vivia uma vida coma informação de um único dia de um jornal.

Parece que não existem mais dúvidas sobre isso e fico me perguntando o que acontece conosco, o que fazemos com tanta informação. Lemos não um, mas dois jornais além das revistas semanais e mensais além da televisão, rádio e internet. O que há é essa neurose profunda, esse sentimento de vazio, de estar sozinho no meio do mundo, além de não conseguirmos colocar esse monte de informação de forma ordenada. As soluções existem, mas são drásticas.

É preciso que se compreenda que vendo televisão, ouvindo rádio, lendo jornais e interagindo com a internet perdemos todo o contato com a arte. O cérebro do homem não evoluiu tanto assim em poucas centenas de anos. Acredito que possamos processar mais cultura, mais informação, mas não tanta.

Como dizia, se existe remédio, ele é amargo. Porque o tempo do dia continuou o mesmo. O tempo de trabalho fora de casa e aí vão todas as atribulações do trabalho também aumentaram oitenta por cento. Não existe uma saída que não seja o homem deixar de lado a informação e partir para sua proposta de conhecimento cultural. Ou uma coisa ou outra. Não posso ler um livro sério e ver televisão ao mesmo tempo.

A sorte nisso tudo é que a televisão é muito ruim, um meio ruim, vagabundo, rasteiro, desonesto. Sendo assim torna-se muito mais fácil não ver TV. Podemos simplesmente desistir de ver TV. Podemos chegar do trabalho e dedicar nosso tempo {a conversar com a família ou, se não a temos, usar esse tempo para a leitura. Garanto que ninguém perde nada não vendo TV. A TV é massacrante, impiedosa, os homens de TV sabem muito bem o que estão fazendo, sabem que a programação é lixo, mas sabem também que o homem é viciado, não vai sair fora.

Aí está a solução. Não ver TV. O rádio pode ser ouvido muito esporadicamente e os jornais devem ser lidos seletivamente, de forma tranqüila a não nos chocarmos com as manchetes garrafais. Vamos às informações que realmente nos interessam naquele exemplar de jornal. O resto desprezamos sem dó nem piedade. O mesmo serve, acredito, para a internet. Procuramos na internet as informações que realmente necessitamos e pronto, nada de perder tempo lendo o mar de informações que estão jogadas ali.

Creio que aí sobra um tempo bem maiôs para nossos pensamentos, conversas e leituras. No início pode ser meio assustador, mas acredito que é muito possível fazer assim, sem nenhum dano maior. Seremos pessoas mais doces, conversaremos mais, trocaremos mais afeto com as pessoas, teremos mais cultura, seremos, enfim , pessoas melhores.

Quando um anúncio qualquer diz que determinada coisa dá câncer, por exemplo, ficamos assustados e procuramos não ingerir mais tal substância. É mais ou menos a mesma coisa. Informação demais faz muito mal, informação demais emburrece porque não é genuína, não acrescenta nada.

Então precisamos mudar de vida, mudar os hábitos. Por exemplo. Os jornais diários repetem com mais detalhes as informações do telejornal da noite. Basta ver o telejornal. As revistas semanais são melhores, têm opinião sobre os fatos que foram notícias em todos os telejornais e jornais da semana inteira. Então, vendo por esse aspecto, basta ver um telejornal dia sim, dia e não e ler apenas uma revista semanal. Veja quanto tempo estamos ganhando. Quanto tempo para brincar com o filho, discutir e acarinhar a companheira ou ler.

Estava num seminário sobre literatura comparada e existe uma grande dúvida, não se possui ainda provas concretas de que a juventude não gosta de ler. O que é mais provável é que coloquemos em suas mãos muito mais aparelhos de distração e eles, simplesmente, não têm tempo de ler. Depois ficam aquelas bestas, com universidade de fotocópia e ficamos todos fazendo cara de preocupados. Por que o Código Da Vinci vende tanto para todas as idades? Porque é distração fácil. Ou seja, as pessoas não têm uma posição declarada, assumida de abandonar a literatura.

Agora é preciso repetir isso à exaustão: é impossível querermos que todos os meios sejam consumidos, que toda a cultura e informação seja processada e absorvida. É impossível. Não temos tempo. O que acontece aí é quadro inverso, onde afastamos tudo o que provoca uma reação crítica ou imaginativa e tornam-se todos escravos do trabalho e do malefício da televisão (que não estimula nada, ao contrário)

Imagino que fossem necessários programas de governo, que fosse necessária a máquina de propaganda do governo à favor do conhecimento, da cultura e aí caímos numa outra armadilha porque o governo é iletrado, o presidente é iletrado e não tem esse tipo de preocupação, jamais, pensará assim, jamais dirá que alguém pode ler ao invés de ir a um jogo de futebol.

Falei, falei, pesquisei em outros textos e ensaios e acabei morrendo na praia porque tem a questão maior, o país onde vivemos. Nossa mínima chance de ensinar a educar, de mostrar que a participação do homem para com a sociedade não é apenas dando um dinheirinho no Criança Esperança. Deveríamos ser pessoas melhores, mais preparadas. No Brasil, não somos nem seremos.

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9.5.05



A correspondência de Marcos C. S. (pede para não se identificar) chega num momento curioso da minha vida quando disse que Deus me abandonou ou algo assim.

Evidente que eu estava brincando (porque brinco com deuses). A coisa é muito mais complexa. Fui educado em Colégio Católico, de padres mesmo com toda aquela coisa, fiz primeira comunhão (chovia e brincando, com minha calça curta branca impecavelmente passada no pátio lamacento escorreguei e caí de bunda no chão, terminando por comungar com a bunda toda marrom.) Depois me afastei da religião.

Não sei se no meu tempo existiam grupos de jovens religiosos como hoje, com certeza deviam haver,mas não participei de nenhum deles. Naquela época estava envolvido com a poesia de Vinícius e Fernando Pessoa. ( e com a boemia, é claro)
Sempre disse que achava linda a liturgia da igreja católica, mas não era católico não só pelos disparates do catolicismo como por uma falta de fé atávica.

O tempo passou e sempre falo nisso, sempre questiono a religiosidade, creio mesmo que e religiosidade, em determinados aspectos pode ajudar ao homem, ajudar na avaliação das coisas, na dor e na esperança.

Mas a fé, como disse outro dia, é uma coisa que não depende de uma atitude, de uma tomada de posição política. Expliquei que a morte do Papa criou uma comoção mundial e a imprensa fez o seu papel divulgando e ampliando em muito o Show da Morte.

Imagino que milhares de pessoas mundo afora tenham sido influenciadas por essa comoção, verdadeira tsunami católica. Nessa época, um pouco antes, eu falava dos Mistérios. - - >> Estou praticamente repetindo o que já escrevi por aqui porque é importante deixar isso bem claro, é importante a gente se despir de vez em quando.<<- - - -

Falava do Grande Mistério ( e isso será um texto à parte) da vida, nos possíveis, em tudo o que há de contraditório e fantástico na vida. Mistérios, eu dizia, são muitos por aí. Quantos mistérios não encontramos se prestarmos atenção nas coisas do dia a dia?

E essa coisa toda perdeu o rumo, foi conversada em mesas de botequim e no remanso de um mosteiro no centro da cidade. Falei dessas coisas com pessoas diversas e achei que, de alguma forma, estava equivocado em meu arraigado materialismo e disse sim que sou capaz de mudar de opinião quantas vezes achar necessário. E sou mesmo.

Mas esse não é um caso filosófico, não é uma questão de debate. Implica em algo maior que é a FÉ. Não adianta todo o pensamento em torno de mistérios, em torno de religiões, de provas e de milagres. Tem algo sem o quê nada disso tem valor, onde toda a argumentação cai por terra: A Fé. Posso estudar teologia e mesmo teosofia, mas não posso acreditar estar sentindo uma coisa que, na verdade, não estou. Sou, portanto, para o bem ou para o mal, certo ou errado. Um HOMEM SEM FÉ. Espero ter concluído de forma inequívoca esse assunto.

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Joaquim Ferreira dos Santos desanca o PT e o Lula. O Globo consegue manter algumas ilhas de raciocínio lógico e inteligente. A Veja também com Diogo Mainardi e Tales de Alvarenga. Lula vai ser reeleito porque o povo é como ele, ignorante.
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Bellow, final

A questão Bellow para mim vai perdendo sua urgência. Sinto-me satisfeito. É tudo de bom, calmo como T.S. Elliot .
Não dá pra comparar, claro que os romances são excelentes, mas deixei na cabeceira mesmo foi TUDO FAZ SENTIDO, Do Passado Obscuro ao futuro incerto (ensaios).

Claro que não sou modelo pra ninguém, já disse que estou engatinhando, de fraldas e não sou ninguém pra discutir essas coisas todas. Procuro só me esforçar, fazer a minha parte.

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sem conclusão

Me fica aqui agora a questão transcendental de optar por uma escrita que leve em conta o espírito ou o raciocínio. Quero os dois, essa impossibilidade cultural

Deixo então que tudo aconteça da forma mais natural seguindo a regra de Tudo faz Sentido (para quem sabe do que falo). A angústia existencial não passará porque sou prisioneiro dos dois lados de uma mesma questão, como filhos gêmeos a quem deveria ter que escolher. Me nego (e renego).

O que há é uma sensibilidade que deveria estar aflorando em todos os espíritos dessa geração entre bombas como escrevi por aí. Não sei o que pensar se a bomba de hoje é vinte vezes mais potentes do que a de Iroshima. Não sei.

São informações que vão chegando pra gente e perguntas ao mesmo tempo, questionamentos sobre o que aconteceu, onde foi a falha, se no marxismo ou no nazismo. E me pergunto como isso está ligado aqui nesse confim de América do Sul, esse ponto irrelevante do planeta.

Mas o problema é outro. O que se coloca é que por aqui também existe uma tentativa de linha de raciocínio baseado nas informações históricas vividas pelos países que contam no mundo. Basta ver a situação da Inglaterra de hoje. E a China? O que fazer com a China?

Perguntas que não sou preparado para responder, preso que estou nesse labirinto claustrofóbico de apartamentos em lugares perigosos como Copacabana ou a Baixada Fluminense. Porque Copacabana é uma visão poética (nem tanto) da Baixada Fluminense, não tem o que tirar nem por. Estava falando com uma pessoa da Baixada e analisávamos ponto por ponto dos dois lugares. Tudo igualzinho. Lugares de uma gente menos capacitada intelectualmente.

Fico em dúvida do quanto posso retirar do material manuscrito e colocar aqui sem ser chato. Parece que daqui se espera um pouco de amor, um pouco de risadas (ho ho ho) e coisas assim que não me acostumei ainda a fazer.

Me coloco nessa posição crítica e tive que rever várias coisas na internet. Repito que tudo tem que ser visto de várias maneiras, vários ângulos para tentar chegar perto de uma média. Uma amiga se deu mal aqui em todos, todos os sentidos. Uma outra fez seu doutorado com a ajuda do material que se diz acadêmico aqui. E agora? A quem dar ouvidos?

Continuo cético (mas nem tanto), achando que as pessoas devem procurar os livreiros, as bibliotecas e os bibliógrafos. Mas sei que existem controvérsias e vou procurar respeitar dentro dos meus limites.

Como já disse tenho visto coisas boas e tenho visto lixo. Dirão que é o mesmo na biblioteca, uma meia verdade. Não dá pra fazer jogo de palavras quando procuramos discutir uma coisa um pouco mais à sério (ainda mais quando provocada por carta de um leitor)
Concluirei em outro momento.

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fobias & gerações

As pessoas causam ansiedade. Quanto mais populosas ficam as cidades e o mundo, mais ansiosas tornam-se as pessoas. Pode ser tratado como doença ou não. Prefiro não. Prefiro tratar como uma síndrome de incapacidade de relacionar-se.

O que posso dizer a uma pessoa não é o mesmo que posso dizer a mil pessoas. E se uma pessoa não consegue me ouvir, o mesmo acontecerá com as mil, essas coitadas, correndo daqui pra lá no seu ônus proletário. Mas o que sou? Um burguês, me disse E. e me repetiu isso várias vezes.

Sou um burguês não pelo sentido que se dá à burguesia, mas por me diferenciar totalmente do proletário. Não tive o sustento intelectual que muitos receberam de Lênin e hoje pago o preço da dúvida por ignorância. Tivesse conhecido tudo e, ainda discordando, estaria em paz com meu espírito. Acabei não ficando.

Agora preciso correr atrás desse momento histórico e não tenho pernas para tanto porque outras coisas comezinhas me chamam, esse aborrecimento diário com as não pessoas, essa discussão em torno da liberdade feminina e das cotas para negros. O que me interessa as cotas para negros? Nada, mas é o que está no jornal. Se quiser Proust que vá ao livreiro e gaste os últimos tostões.

A ansiedade da minha geração se origina, me parece, por ter nascido e vivido no vácuo, na expectativa de um mundo que não se concretizou. O fim da guerra fria sem o conflito nuclear deixou órfãos todos aqueles que ficariam órfãos de qualquer maneira perdendo seus entes com a grande bomba. Mas, ainda assim, a bomba teria sido melhor.

A bomba atômica hoje é uma abstração, uma impossibilidade, uma idéia velha, um termo arcaico. Quem vai fazer o quê com uma ogiva nuclear? Serve apenas para roteiro de filmes C de ação. Nada mais. Fomos criados na Guerra Fria, na expectativa de algo que mudaria toda a história. O que acabou não vindo e não acontecendo. Agora padecemos, andando pelo semi-árido buscando explicações esotéricas ou chutando latas pelas calçadas abandonadas.
(continua)

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a nossa distância

O fim de noite foi de conversa com G. que estava angustiado por seu desconhecimento de grande parte dos clássicos. Ítalo Calvino e outros escreveram livros com esse mesmo tema: Por que Ler os Clássicos? Se olharmos um autor e outro veremos que são discordantes que o que é clássico para um, não é, necessariamente para outro.

Vá lá que não se viva sem ler Medeia ou Rei Lear, mas fico pensando se é tão fundamental assim conhecer a maioria dos clássicos. Entendo a importância de Dom Quixote, por exemplo (que não está nem na categoria dos tão clássicos assim!). Tem essa fobia que nos é imposta por um mundinho pequenos de literatos pequenos que querem colocar todo mundo culpado.
Não sei porquê devemos sentir tanta culpa assim. Se leio os modernistas ou uma literatura de viagem (como dizia o Francis) e ela me satisfaz por que perder dias da minha vida intelectual útil forçando dezenas e dezenas de livros goela abaixo, livros que não me dão prazer. É diferente de filmes, eu acho.

Não se pode conversar com quem não viu Casablanca e, vala, com quem não leu Crime e Castigo. Mas os outros? Não sei. Me dizem que é fundamental, que não serei nada enquanto não devorar todo o códice. Tenho sérias reservas e dúvidas. Fico me perguntando se perder Conrad ou Woolf em detrimento dos gregos também não seria uma falha completa na arquitetura de um possível conhecimento.

A coisa da obrigação traduz nela mesma um patrulhamento, uma negação de liberdade que não pode servir, não pode ajudar o espírito que busca conhecimento. Por isso as universidades são esse fracasso todo. A academia não paga, só cobra e no final das contas de dá um empreguinho furreca para repassar tudo aquilo para outros desinteressados. Você pode ter sucesso (interior) não sendo um acadêmico nem, tampouco um best seller. Acredito que sim.

Quem não está em nenhum dos dois espaços, quem não se posicionou é um espírito ansioso por informação, que vai onde ela esteja e só não tem acesso quando vive em países totalitários, comunistas. Não é esse o nosso caso. Aqui no Brasil é pior porque o tipo de censura é muito mais violenta, brutal. As pessoas não sabem o que está sendo escrito, publicado pelo mundo porque quase nada é traduzido aqui.

Não existem suplementos e revistas literária só umas tentativas mal sucedidas em jornais de grande circulação que editam esses cadernos quase que por obrigação. Estão muito mais interessados nos cadernos sobre mulher onde sempre é mais fácil alocar propagandas, onde o dinheiro entra fácil. O Brasil não tem solução. Ficamos nós aqui falando e falando dessas coisas enquanto em Brasília os ministros, principalmente o da Cultura, está preocupado em fazer shows. Nada mais.

Quem está aqui e tem formação boa ou razoável, pode conferir, não estudou aqui, não tem sua formação acadêmica no Brasil. Depois vêm para cá e nos deixa a todos embasbacados, mas não devíamos ficar, não devia gerar angústia porque o ponto de partida foi diferente, os parâmetros foram outros, é ridículo comparar e sofrer.

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ainda os sonhos

A possibilidade do sonho mau aflige o homem desde não sei quando. Dia desses tava escrevendo aqui alguma coisa sobre isso aqui. Os sonhos nos perseguem a vida inteiro. Gostaria de bebês recém nascidos sonham e sobre o quê. Porque se o sonho são medos e/ou lembrança de fatos assustadores ou traumatizantes...

O bebê ter sonhos muito ruins diria que ele traz os traumas da possibilidade de vidas passadas. O quê um recém nascido pode ter de tão pavoroso assim queseu espírito fique tão atormentado se não aconteceu nada ainda a não ser o parto. Imagino que o parto talvez seja algo muito traumatizante, terrível, talvez a pior experiência e lembrança de um ser humano, a saída de um ambiente confortável pra esse mundo chato e jeca, mas seria uma lembrança única.

Essa conversa, esse pedaço de conversa aconteceu na popa, no tombadilho da popa (não deve existir esse termo) de um rebocador ontem, domingo. Acabei lá porque estava voltando de um passeio no veleiro de um amigo, passeio que fiz por educação, já que detesto sol e mar e muito mais, detesto veleiros que são uma contradição. Para quê um veleiro se inventaram o motor? Parece que o homem procura problemas e situações anacrônicas onde ande.
No cais tinha um rebocador que estava saindo no entardecer e (outro amigo) me convidaram para dar uma volta porque estavam testando não sei o quê no motor.

O rebocador tem um motor central, embaixo, muito sujo e barulhento. Um motor, como dizem, de força. Fui apenas por um motivo singular. Como também já disse (bom, eu já disse tudo mesmo), preciso dos trens, barcos e outras coisas dessas. Fazem parte do meu imaginário e , cada vez mais, venho usando tudo o que o meu imaginário produz.
No rebocador toma-se rum. Claro que é uma imagem literário e cinematográfica (basta lembrar dos três homens num rebocador quando vão caçar o bicho no filme Tubarão I)

Li alguns romances em que haviam rebocadores e vi um filme muito bom também, um que resgatam um garoto se não me engano. Bom, não lembro mesmo. Mas o rebocador tem um quê de afastamento da realidade. Um barco pequeno com motor de força com tripulação reduzida, homens grosseiros, bugres. Para lidar com o mar é necessário uma masculinidade exacerbada, acho que os camaradas têm que ser muito machos, por assim dizer. Talvez eu busque esse lado forte, macho, nos delírios com rebocadores.

Cabe dizer que meus pesadelos são existenciais. Não sonho com aviões caindo ou rebocadores afundando. Absolutamente. O pesadelo é no plano das idéias, no que os homens e eu estamos conversando, na impossibilidade de conversa e discussão de idéias em lugares afastados onde, de certa forma, estamos ilhados. Não sonhei ainda que estava num balão dirigível. Acho que, por causa do vento e do barulho, não teria a possibilidade de debater algo interessante.

Nos meus sonhos, as pessoas não são completamente ignaras. Conversam, conhecem coisas e têm opiniões formadas. Na maioria das vezes são opiniões rasas e aí começa o verdadeiro pesadelo. Mas sempre por causa de discussões por causa de sentimentos e conceitos equivocados. Porque mesmo no sonho não consigo ser benevolente com as pessoas.

R. disse que estou pagando, embora eu não tenha tido culpa, por meu afastamento dos outros. Agora é tarde. Só uns poucos estão firmes, olhando comigo o mundo e discutindo as idéias, vendo o que se pode pensar dessa confusão toda. Parece que num entardecer cheio de gaivotas, com um mar sujo de óleo, com lanternas de querosene suspensa e garrafas de rum e conhaque ainda é possível falar de Dickens, por exemplo.

Não sei como nos sonhos consigo sair e chegar a esses lugares. O sonho não tem nada a ver com a realidade. Não devíamos nunca tentar estabelecer um parâmetro entre as duas coisas. Não há nenhuma realidade no sonho, não há nada que aproxime do real. O sonho é um mundo à parte, como uma dimensão diferente, como estar no aço de um espelho, como estar na carena de Platão ou ainda como ser enterrado vivo. Estar enterrado vivo, depois de algum tempo, quando o oxigênio começa a rarear e o raciocínio a falhar, deve provocar algumas alucinações semelhantes ao que no bem bom das nossas camas chamamos de pesadelo.

Não existe fórmula garantida e eficaz contra o sonho. Ele está ali, junto ao nosso sono e pode aparecer ou não. Dizem que os temos sempre, apenas não lembramos. Não creio. Por que isso? A neurologia e a psiquiatria e a odontologia são ramos das ciências atrasadas jurássicas. Não se pode fazer nada quando temos problemas nessas áreas. São sempre soluções radicais, dramáticas, que causam muito sofrimento e sempre, sempre deixam seqüelas consideráveis. E, estando bem aqui em cima, como livrar a cabeça desse bombardeio. Não há.

O que resta é esse conformismo bovino, como a descrição de um pesadelo que se desvirtuou e acabou não sendo narrado, o que resta é apenas esperar pela próxima doença, pelo que vem pela frente, o que resta é a angústia de saber que vem mais pela frente que dizem que existe a possibilidade da morte não ser o limite.

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chá das cinco
O que me resta é um fim de noite, um fiapo de madrugada, uma coisa fútil, que não entusiasma nem tampouco estimula. Ficamos naquele estado meio torpor meio vigília como flutuando numa bolha solta num espaço mais ou menos indefinido.

Estou nesse espaço que não defino, não sabendo exatamente onde começam e acabam as emoções, muitas vezes sequer reconhecendo as emoções e isso me preocupa. Preocupa particularmente por não saber onde essa bolha vai dar. Em que praia.
Preciso encontrar o motivo primeiro, o sentimento anterior a esse momento.

Se estou aqui agora e digo, fui impulsionado por algo ou alguém ou alguma situação ou sentimento. Alguma coisa se moveu num ponto qualquer do universo e, ainda que por inércia, acabei vindo para cá, olhar a janela do mundo e dizer alguma coisa e dizer alguma coisa é sempre muito perigoso porque não dizemos as coisas certas nas horas adequadas nem para as pessoas que realmente deveriam ouvir. Não.

O que move essa atitude é ilógico, como ilógico é atravessar a rua podendo não faze-lo. Por que passar para o lado de lá, se o lado de cá possui as mesmas coisas, as mesmas possibilidades de averiguação do todo, a mesma capacidade de dar asas a imaginação e pensar no mundo tal qual o vejo ou ainda, tal qual gostaria que fosse?

Não me convence uma explicação simplória do tipo: estamos ali porque assim o resolvemos. Não. O homem não resolve as coisas sem um impulso inicial, assim como não nasce sem a fecundação (que pra mim ainda é um mistério). Vejo nos jornais a discussão sobre religião nas escolas e me pergunto se isso realmente é importante, se chegamos onde chegamos sem esse tipo de discussão, por que começar agora?

Parece que há uma falta de criatividade, uma falta do que pensar, uma necessidade de fazer alguma coisa para não morrer de tédio e penso que esse vazio vem da incapacidade intelectual, da incapacidade criativa, desse torpor criativo, desse abandono da arte, da estética.

E me perguntam lá dentro se a arte é estética. Não sei o que Shiller diz, mas imagino que sim, que a arte seja absolutamente estética. Talvez não absolutamente, mas, olhada por um certo ângulo sim, estética. De qualquer maneira não é a estética que vale para tudo isso. É a arte. A falta de. Parece que esse marasmo que esse início de século sedimentou como que paralisou um certo movimento de mundo.

Quantos pensadores ateus foram educados em conventos e quantos teólogos nasceram em prostíbulos? Não sei, mas, pensando em números de humanidade, acredito que muitos. Criacionismo ou evolucionismo? Ora, por favor, mais parece um assunto para a distração de senhoras aristocráticas num chá das cinco quando não houver mais assunto.

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é preciso saber o que se quer..... dormir ou não dormir? agora que eu não quero dormir porque preciso do precioso tempo da noite, pois justo agora o sono me vem, sono esse que me faz tomar caixas de soníferos para que venha quando eu quero.

trata-se então de uma birra... morfeu pregando-me uma peça, como tantos desses personagens pregam na gente dia a dia e não nos damos conta por motivos vários. temos o que não queremos e não queremos o que temos - pois essa frase vulgar tem raízes no self mais sérias, diria até antropológicas se não pegar mal...

vejo a estrada de terra batida e quero sentir esse cheiro de capim molhado como num sonho porque acordado quero asfalto, buzina, sirenes, fogos anunciando que a droga chegou no morro, quero o grito da bêbada na esquina, o tocador de trompete que está em Nova York quando podia estar na rua aqui ao lado.

o que temos na rua ao lado? nada. acho que esse é o problema existencial (ia dizer meu), mas o problema existencial do nosso povo inculto. não temos uma moça em pé, em frente a uma partitura tocando violino como encontrei em berlim, não temos o mendigo que empurra carrinho de super mercado, não temos livro de capa dura (graças a deus).

o problema não é o que tenho porque tenho - - - - - - > o tal pão de açúcar e o cristo redentor, mas isso não me basta e imagino que não baste a quem mora nessa cidade que acham maravilhosa. claro que é maravilhosa se você comparar com sorocaba, por exemplo.

tenho uma amiga de sorocaba que mora no rio e não se cansa de olhar o parque do flamengo, o cristo redentor, o pão de açúcar e achar tudo lindo, lindo - e ela tem medo de um dia ter de voltar pra sorocaba. Bom, tenho que entender, não é?

Mas não era disso que ia falar, ia falar da escritora americana que fala das mulheres liberadas nos anos 60, nos judeus e nos americanos que não sabem o que fazem com a liberdade, que olham os filhos frutos do amor livre e não sabe o que dizer a eles... e nada disso está publicado no Brasil. Como eu posso saber das coisas? O que esperam de um brasileirinho que não tem acesso ao que o mundo faz?

o que se pode esperar de um povo que não conhece as coisas, não porque não quer, mas porque não tem acesso mesmo, porque não tem como conhecer? o que se faz num país completamente subdesenvolvido que se diz em desenvolvimento'. Que desenvolvimento, cara pálida?
bah!
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8.5.05

post inconcluso

Outra carta do correspondente adoentado. Diz que não sai mais de casa por medo de qualquer coisa na rua. Síndrome do Pânico, diz ele. Diz que ninguém faz muita fé que essas doenças da alma não são facilmente aceitas, que acham que é frescura, que é tudo bobagem, cheira até a uma certa vagabundagem.

Procurei responder pra ele da forma que eu sei, dos casos clássicos, históricos porque não sou médico nem nada. Falei de todos os personagens da história (que eu me lembre) que tinham coisas parecidas, de gente que chegou ao ponto de perder tudo mesmo, além dos inúmeros exemplos na literatura.

Ele não se contentou muito com a resposta não, disse que eu estava falando e não dizendo nada, que não estava também valorizando a confissão tão particular, uma coisa de amigo mesmo. Bom, o que posso fazer? Acho que talvez consultar alguém mais esclarecido, alguém que seja profissional. Sim, o que eu posso fazer realmente? Eu não sei.

Estou agora envolvido no que eu considero um trabalho sério, no estudo de um autor que para os outros pode não significar nada, doideira pura, mas pra mim significa, é importante, são as coisas que eu gosto. Continuo acreditando que, com afinco, posso recuperar parte do tempo perdido. Portanto, meu momento é de leitura, prazerosa e ao mesmo tempo árdua porque é muita coisa.
O que eu estou fazendo com isso, ele me pergunta agora por telefone. Estou querendo mostrar o quê e a quem? Ele está me falando de um problema real, de uma doença. De uma fobia e eu estou refestelado numa poltrona cercado de livros, dizendo que não posso perder tempo por causa de um autor que já morreu e, em todo o caso, não me servirá de nada. Diz que estou sendo insensível e, de certa forma, avaro.

Bom, eu não sei. Ele acaba por me deixar em dúvida, como deixam em dúvida todas as pessoas mentalmente insanas. São pessoas que criam um raciocínio todo seu, peculiar, num mundo onírico, mas acordado e pretender tornar verdades coisas que, embora estejam vivenciando, ficam longe da realidade de nós, pobres mortais. Isso me faz, por exemplo, parar meu trabalho e ligar para dois médicos amigos.

Menos mal. Os dois têm opiniões semelhantes, se não idênticas. A fobia tem que ser combatida custe o que custar. É uma manifestação de ansiedade que pode levar o doente a não conseguir sair sequer mais de dentro de caso. Pode levar a casos de hospitalização. A solução terapêutica é usar todos, veja bem, todos os meios para diminuir essa ansiedade, mesmo que seja com dosagens de ansiolíticos que quase dopem o paciente.

Melhor ficar assim por um tempo e conseguindo sair, não permitindo que a fobia tome conta de tudo a chegar em casos extremos onde a solução será mais trabalhosa e agressiva. Fico contente de falar com gente que sabe, isso me tira a responsabilidade e não preciso ficar buscando personagens históricos ou de ficção. O que me resta é transmitir a informação e dizer que a pessoa pode procurar alguém que o ajude verdadeiramente.

Porque é chato você ter que dizer, mesmo que com palavras suaves, que não é médico, que não pode ficar tratando dessas coisas, logo essas coisas que vão tão além da nossa percepção, coisas que não vemos, que não se radiografam, coisas tão específicas, do espírito mesmo, eu diria.

O que acontece é que eu falo aqui de vez em quando nesse tipo de sensação, nesse tipo de sentimento, de fobia e as pessoas acham que, por falar, tenho (pobre de mim!), algum conhecimento. Esse espaço nunca pretendeu tratar dos males da mente nem do espírito e sim narrar as desventuras de um caminhante da vida
OBS: O texto era muito maior, mas foi perdido por um ataque de vírus no e.mail e no word


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nunca saber?

O caminho para compreender um autor bom é como procurar entender a si mesmo. Sabemos que tudo está ali, sabemos o que somos e o que pensamos e porque agimos assim ou de maneira diferente, mas, ainda assim estamos sempre nos surpreendendo por perceber coisas que parecem completamente estranhas justamente em nós.

O autor dissimula, se mostra num livro, se esconde num capítulo de outro livro, se perde em parágrafos sem fim, que não dizem nada e termina algumas narrativas de forma abrupta, assustada, parece. Imagino que o autor seja sempre assustado, sempre temeroso tanto pelo que faz quanto pelo que não faz (ou pelo que não fará).

O autor é uma figura frágil, inconstante, doentia mesmo e até se pode compreender todo o seu dilema, toda a sua dor por todos os descaminhos, por todos os seres que encontra e não consegue retratar. O autor é, à princípio, que retrata o homem, mas o homem não é retratável. O homem não existe dessa maneira simplista que o vemos. O homem é o bicho do homem, não é?

E o autor? O que é? Quantos livros mais precisarei ler desse autor para compreender a importância, a extensão da sua obra?

O que somos todos senão pessoas procurando um autor? Procurando alguém que explique a vida, que explique os porquês tão recônditos, não inacessíveis? Não quero ser diferente dos outros. Coleciono todos esses autores com suas obras, um lado do outro nas estantes e tiro o pó, e releio e procuro entender os porquês e, na verdade não entendo, finjo que entendo, porque o certo é dizer que se entendeu tudo aquilo, aquela montanha de papel que não compreendemos de modo algum, nem em mil anos.

Vou em frente com esses homens, na grande maioria já mortos que me deixaram esse legado, essa quantidade infinita de papel impresso onde imaginei um dia que encontraria a explicação para as coisas da vida e da alma. Não encontrei nem um nem outro.
Encontrei sim momentos de paz. Momentos em que pensei: como é sábio, esse homem.... momentos em que fiquei ansioso, querendo respostas e momentos em que chorei emocionado. Mas onde está a verdadeira vida? Aqui ou lá?

Acho que está lá, porque eles simplesmente transcrevem, de forma mais clara e bela e verdadeira a vida, mas as pessoas não sabem, não percebem porque não conhece. A vida, é claro, é a mesma, mas as pessoas a vêem de forma mais ordinária, rasteira. E eu, com o filtro desses homens, vejo essa mesma vida de outra forma e, com isso, fico eu o estranho, eu o diferente e rejeitado.

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Por uma saída apenas

Resulta em nada a caminhada matinal. Caminhada que não dei, que foi apenas uma idéia, uma possibilidade. O sol parece estranho, brilhante demais, quente demais, incômodo demais. Prefiro o sol da Noruega. Agora terei de sair de qualquer maneira porque os domingos são mais fáceis de estacionar em lugares distantes das abomináveis praias.

Tenho que adquirir mais um volume porque o que está comigo terminará hoje ou amanhã e aí é dia de semana e tem aquela confusão toda para chegar ao livreiro. A confusão é o trânsito, o desespero das pessoas que correm para lugar nenhum, mas ainda assim correm. Dos pedintes, dos vendedores de qualquer coisa, da massa humana que vem em nossa direção como uma parede móvel, uma onda, uma tsunami.

Farei tudo hoje na esperança de um pouco mais de tranqüilidade, na expectativa que conseguirei parar em fila dupla e ir direto à pilha de livros que já sei onde está, não muito no fundo da livraria. Lá, farei a compra rapidamente porque não me interessa ver o que está sendo ofertado, o que está nos mais vendidos nem nada dessas coisas. Pode alguém, nesse meio tempo querer sair com o seu carro e ver-se preso pelo meu, mas será questão de um ou dois minutos e me desculparei muito, como de fato, é dever desculpar-se por esse tipo de incômodo.

O problema é que o Rio de Janeiro nunca, em dia nenhum, em hora nenhuma tem um lugar onde você possa parar o seu carro. Absolutamente nunca. Você ao sair de casa sabe que está indo em direção a um problema, o seu destino. O lugar onde será impossível parar. Os guardas de trânsito sabem disso e apitam mandando a gente andar como se andando pudéssemos resolver o problema. É uma cidade onde todos andam e ninguém pára, ninguém estaciona, ninguém pode escolher um CD ou livro ou uma camisola com uma certa dose de paz. Não. Nunca.

A solução é você andar apenas em transportes coletivos ou nos proibitivos táxis. Uma coisa ou outra. Ou então não sair de casa. As três são impossibilidades. Temos que sair e não podemos andar apenas de táxi. Portanto, o que resta é reclamar consigo mesmo e seguir em frente, sabendo que os problemas mais cedo ou mais tarde, aparecerão.

Dia pior é hoje, Dia das Mães onde as pessoas ainda devem estar nas poucas lojas abertas num domingo buscando um presente para a mãe. Como as pessoas são retardatárias, que prazer em fazer tudo na última hora! Normalmente a gente almoça com a Mãe. Depois do almoço o movimento deve diminuir um pouco. Enfim, em vez de ir e fazer terminamos por racionalizar, tecer todas as possibilidades, enumera-las para, finalmente, tomar a atitude e ir.

Claro que esse pensamento será motivo para críticas acirradas dos pouco sensíveis à essas sensações, mas procuro contar as coisas tal como acontecem. Procuro também ter uma certa constância em minhas posições, com meu amigos e conhecidos. Claro que muitas vezes pode parecer que não, mas será sempre uma atitude involuntária. Por isso fico pensando que, se todo mundo faz terapia, existe alguma coisa errada não com as pessoas, mas com as terapias.

A saída de casa é um movimento lastimável para algumas pessoas, motivo de horas de conjecturas, racionalizações, idas e vindas e conclusões que o pensamento como um tato está obliterado mesmo quando seguimos à risca o que preconizam nossos doutores. Existe uma falha grande nessa área, falha de avanço científico, mas, principalmente, falha de comunicação, de compreensão.

Mas falar disso é chover no molhado porque existe um mundo de sensações e sentimentos que são absolutamente incompreensíveis para os que não os têm. Não dá nem para recriminar as pessoas, apenas entender que elas simplesmente não podem entender. Um preço que pagamos, mas quem não paga seus preços por aí?

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7.5.05

blogs: a qualidade na internet

Acho que chegou a hora de voltar atrás, de rever posições. Hoje, dia azinhavro, desses chatinhos não pelo dia, mas pelo estado de espírito mesmo. Motivos? Vários. Um exemplo? Deus me abandonou ontem à tarde. Mas não tem nada a ver. O que eu preciso é falar desse sábado dedicado à leitura, que me deixou fora da internet.

Diria então que fiquei fora da internet e isso foi bom, dada a minha implicância com ela. Mas tenho coisas a considerar. Não posso passar batido pelo que disse ontem ou ante ontem sem voltar atrás, ainda que me desdiga mais na frente. Tenho feito um ataque sistemático à internet, dizendo que ela imbeciliza as pessoas. Bom, isso é verdade.

Mas hoje, para descansar da leitura, já que as dores começam a me incomodar em qualquer posição, dei uma volta pelos blogs (Não muitos. Poucos para dizer a verdade.) E encontrei um material riquíssimo, vasto, material literário abundante, gente culta e inteligente escrevendo coisas muito bacanas de serem lidas.

Gostaria que existissem alguns filtros para irmos a esses sítios sem ter que passar por todo o lixo que passamos, lixo que navegamos na internet. Vou citar aqui o SUBROSA como exemplo, mas entendam que a quantidade de blogs de qualidade é enorme e exemplifico com um que conheço bem, que, por sinal não me recomenda, mas que é exemplo e ponto de partida para uma leitura de qualidade na rede.

Fiquei com esse negócio martelando a minha cabeça. Essa coisa da internet burra, da internet que emburrece.... Puxa isso é uma coisa decepcionante, uma coisa que a gente não quer se convencer, que a gente fala com dor no coração. Assim deixo o meu recado, reconheço que, como faço invariavelmente, falei genericamente, sem atenção nem o cuidado devidos e acabei por misturar tudo para os mais incautos.

Isso não quer dizer que esteja me desdizendo completamente. Não. Acho a internet, como um todo, um lixo mesmo, mas tenho que falar nos blogs, alguns blogs (muitos) que são interessantes e nos acrescentam muito. Acrescentam mais do que esse aqui, por exemplo. Diante de alguns bibliógrafos por aí, sou fichinha, cafezinho pequeno, to andando de cueiro pela casa achando que estou arrasando quando não sei quase nada. A grande questão, repito, é existirem mecanismos seguros de acesso a esses sítios porque a navegação pura é ordinária, fútil, irrelevante.

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quanto mais conheço analisandos mais desprezo a Psicanálise.
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lancinantes dores nas costas, nas pernas.... pouco a pouco vou ficando inválido como deve ser todo ancião... caminho com a ajuda de bengala (sem charme) e me entupo de codeína.... mais e mais....
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aqui, ao contrário do que dizem os imbecis, não é espaço para se aprender alguma coisa, mas, antes, para discutir as coisas.... não concebo meu mundo sem discussão, sem confronto de idéias, sem conhecimento de vários, trocado, debatido. O resultado? fracasso total, absoluto... eu me engano até com poucos. Erro em achar que....
Como entenderão a afronta feita à senhorita Rose? ....me empurram... me forçam ao desprezo....pois que seja, não posso insistir nem aturar... não tenho paciência para explicar tudo... eu tentei...fiz minha parte, o resto é apenas o resto
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elegi duas, três pessoas para aprenderem alguma literatura, alguma coisa comigo, mas elas refugaram. Tiveram medo. Não avançaram. Com isso jamais lerão "Como foi seu dia?" de Bellow pois não sabem em que parte da obra está. E não entenderão a possibilidade de todos em Katrina nem em Victor. E não conhecendo esses dois, não entendem o que poderiam ser, o que eu queria que fossem e o que eu poderia ser. Medo. Ficarão sem saber sobre A Cavalia Vermelha de Isaac Babel. Preferem a ignorância a uma crítica construtiva. Querem o peixe, mas não aprender a pescar. Com isso, vai-se perdendo, empobrecendo, postergando a vida, a possibilidade....preferem desconhecer, não discutir, dizer que 'estão longe'............desisto, é deprimente demais.............é melhor a loucura mesmo.
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da modernidade que retrocede

Não adianta insistir nessa espécie de choradeira, nessa tentativa de atrair os bons de coração, os de alma leve para uma causa aparentemente perdida.

Talvez valha mais a pena usar a razão. O homem perdeu o humanismo. Infelizmente perdeu completamente sua grande capacidade, seu grande diferencial: sua humanidade.

Esse homem que tratamos agora não tem nada de espiritual nem de misterioso. É composto de fórmulas, de equações que apenas engenheiros compreendem e teorias que só os físicos interpretam. As humanidades ficaram para trás, numa babel, numa Alexandria pós moderna e, ainda assim, ultrapassada. São os fatos.

Não posso mudar o caminho da história, não tenho como reparar e sim observar as longas e rápidas passadas que o homem dá em direção a um futuro que parece já ter ultrapassado sem perceber. O homem ultrapassou o futuro e não viu. Homens viris e insepultos caminham sobre as lápides gastas de suas próprias sepulturas.

E o que fazer com isso? Tivemos todo o tempo e todas as oportunidades de reverter o processo desabrido que o homem optou não por escolha, mas por uma insidiosa pressão pseudo cultural. Não teve escolha, portanto. Ou, por outra, escolhas sempre existem, mas é preciso coragem, é preciso bater com a bengala na cabeça dos intelectuais que estão nos guiando agora. E quem dá bengalada no seu intelectual predileto?

Então, por esses e outros motivos, caminhamos nesse terreno árido, como áridos estamos de novos pensamentos e invertidos, como quem tem os pés para trás. Não damos os passos corretos. Caminhamos sim, mas existe uma "<força intelectual>", uma cultura frágil que se materializou, que assentou sobre nossa pobre racionalidade tornando-a obtusa e frágil, débil.

A sociedade da racionalidade débil será sempre uma sociedade de fracassados, de destemperados, neurastênicos e ignorantes. Nos alimentamos dessa ignorância vendida em "bienais livrescas". Nos alimentamos desses pensadores modernos que entendem apenas a psicologia dos símbolos. O homem é visto não pelo que ele é, homem, mas pelo que simboliza. A sociedade de símbolos. Símbolos baseados em mitos. Misturamos mitos antigos com símbolos modernos e perdemos a capacidade de avaliar dignamente a informação.

Prisioneiros da poeira midiática, da televisão, da internet, da imprensa impensada, da literatura para viagem, estamos agora nesse árido ponto eqüidistante da nossa premissa ao partir e da nossa impossibilidade de chegar. É mais do que afirmar que Deus está morto. É afirmar que Deus olha a Humanidade morta e, sem ela, ele não tem mais razão de ser. Ele foi o último mito, a última tentativa de símbolo (ou ícone?). O resto é a poeira que nos jogaram nos olhos.

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Marina

Como já repeti, tenho reservas em falar de coisas sérias na internet por achar que a rede, via de regra não é séria. No post abaixo falo da alucinação, da dor animal da depressão sem usar a palavra. Marina W no Blowg fala didaticamente da depressão. Mesmo quando está em crise consegue falar com distanciamento. Em suma, é clara e objetiva, dá o peso real da doença aos que têm sensibilidade para entender.

Portanto, quem quiser entender bem, deve ler o Blowg e não aqui. O que vai aqui é outra coisa, é o outro lado da moeda, é o extremo, o desespero, o aperto final, a conseqüência última, a ponta do lado de cá do problema.

Porque é um problema. E grave. Fico muito incomodado quando as pessoas não percebem a extensão dos malefícios da doença. Acho coisa de gente ignorante não querer se dar ao trabalho de ler com vontade de entender. Acho maldade.

Todos temos lá nossas mazelas nesse mundo e todos sofremos e todos queremos ser entendidos. Não entender, não querer entender o que está sendo explicado é, no mínimo, prova de ignorância e o que eu quero com ignorantes?

Leio o depoimento de Marina (e ela, mesmo estando bem sempre faz referências como que para educar as pessoas) com respeito. Não leio apenas porque tenho um problema semelhante. Parece a mim muito cômodo procurarmos entender apenas os problemas semelhantes aos nossos. Para que entendam os nossos, precisamos entender os dos outros. Leio com respeito porque tudo deve ser lido com respeito e porque quando uma coisa está sendo bem descrita merece, no mínimo, respeito.

Portanto, não vou fazer uma descrição didática e correta da depressão. Seria repetição e Marina faz melhor. Continuarei fazendo o outro lado, continuarei falando dos bastidores, da dor, dos sentimentos confusos e incompreendidos, serei o animal que urra.
Talvez a observação desses dois lados resulte numa visão mais abrangente do todo, uma percepção maior do que apenas a descrição de um lado. Não sei se isso adianta alguma coisa, não seis e aqui é o fórum para se tratar dessas coisas. À princípio acho que não,mas posso estar enganado. O tempo dirá. Mas tem uma coisa que é preciso estar clara na cabeça de quem lê. Não é uma choradeira sem fim, nem uma lástima procurando despertar pena nos outros.

Ao contrário: são depoimentos de coisas, doenças que existem embora não sejam claramente vistas, tentativas de explicar o que acontece e como, de justificar o que, na maioria das vezes, é ilógico para quem não conhece. Em última análise é colocar um problema em pauta, ainda que para isso, seja necessária mostrar o que somos, a nossa exposição do sofrimento, da fraqueza. Talvez valha de alguma coisa.

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a carta final, derradeira e pífia em argumentos

A carta recebida durante a madrugada em que me debati em pesadelos e molhei a cama num suor quente e pegajoso:

Não vou falar novamente de todos os sentimentos, todas as sensações que me invadem, que misturam na minha cabeça como um ventilador, um liquidificador super potente. Minha cabeça dá voltas e voltas e os remédios parecem placebos, me dizem que não sou nada, que não tenho nada e eles, remédios, são minha tentativa de escapar. O pânico. Como explicar o pânico para quem não o tem? Como falar das variações do violeta para o cego? É preciso que os cegos tenham sensibilidade e cegos não são sensíveis para a visão. O que faço agora? Saio correndo?

Acordo assustado e penso no que vai acontecer daqui a 3 dias, o que vai acontecer, para onde vou e o que vou ter que fazer. Não tenho mais o apoio de ninguém, nem daquele que poderia compreender. Fim.

É o fim. É quando as paredes se aproximam de nós, quando o teto abaixa e vai te colocando deitado, torto, enrolado em si mesmo. Por não agüentar posições assim por muito tempo as pessoas se matam. Mas eu não me matei. Não se matando fica o homem à mercê do movimento das paredes que, minuto a minuto se aproximam, apertam.

Um torniquete. O pânico escancara o que é o torniquete, mostra que não temos saída, estamos acuados e vamos sucumbir, morrer, vamos ser mortos por uma irmandade totalmente secreta, que só nós vemos. Ninguém está vendo, ninguém, e, portanto, não posso falar mais com ninguém porque as pessoas apenas me olham entre estarrecidas, irritadas e mesmo com uma ponta de raiva.

Sei que deveria compreender essas pessoas, mas estou girando no liquidificador e o doentinho aqui sou eu. Se não querem acreditar, não acreditem, se não conseguem entender, não entendam, o que mais eu posso fazer? Mais nada. Não possso fazer mais nada, isso se repete dentro da minha cabeça. Não tem mais para onde correr. Encurralado. O complicado na situação é que os outros não vêem meus algozes. Ninguém vê, nem quem é treinado para isso. E não vendo, nada podem fazer, não podem me dizer qualquer coisa lógica.

As pessoas não são lógicas, acho que é disso que mais me recinto, as pessoas não tem capacidade de perceberem o que está sendo narrado. Querem ver. Querem ver, que eu prove, mostre e sabem que eu não posso. Sabem que está tudo na minha cabeça como se isso fosse uma contradição, como se o que está na cabeça não fosse, fosse outra coisa ou uma espécie de nada inventado por mim. Não importa se é inventado por mim ou não porque todo mundo, pensem bem, inventa as suas coisas em diversos momentos dependendo de seus estados de espírito.

Eu sou apenas mais uma pessoa que invento coisas. Somos todos inventores, inventadores e é isso que traça o painel do humano. Essa é a diferença: aquela pedra ali não inventa nada e assim ela nos dá paz, passa desapercebida, passa desapercebida por milhares de gerações. Eu chamo a atenção com o meu grito, chamo a atenção com o que estou vendo e sei que não é visto e espero pouco, espero ser ouvido, ser entendido. Não precisam acreditar nessa irmandade que eu vejo e eles não. Precisam acreditar que eu os vejo.

Não adianta. Palavras não têm poder no mundo de hoje. Nessa época midiática só as imagens têm poder, só o que é visto por todos é apreendido por alguns. O que a maioria não vê, nem os poucos percebem. Lanço novamente minhas mensagens, minhas garrafas ao mar sabendo agora que não adiantarão, que não terei sucesso porque mesmo que todas as mensagens sejam recolhidas, não resultarão em qualquer resultado. A sentença foi proferida.

O que me resta não é mais recorrer da sentença porque já estou em última instância, já tentei todos os recursos. Agora são pílulas, um mar de pílulas que não garantem nada, que têm seu poder de fogo reduzido, que estão ainda em experiência. O único a entender é o que ouve, o treinado para isso não porque sinta ou entende, mas porque estudou em algum lugar que isto possa realmente acontecer. Ele também duvida. Ou melhor, nem duvida, apenas ouve, sabendo que está ouvindo a descrição de um nada imaginado por alguém que vive de medo.

E, se vive de medo, é covarde ou incapaz, doente, miserável, pequeno, sórdido. Não há como escapar. Não podemos falar do que não é visto e, por isso, não entendido. Podemos dizer que se procure ajuda, empurrando sempre para o outro, para o outro, infinitamente, até que esse inventor de coisas suma completamente da nossa vista, vá embora com suas alucinações e deixe que caminhemos em paz, que tentemos viver a vida com todas as suas dores implícitas.

O que mais eu poderia falar? Poderia falar tudo. Poderia falar que não consigo vencer essa máfia invisível, que serei exterminado por ela, poderia dizer que alguma coisa precisa ser feita em meu benefício, para a minha proteção antes que seja tarde demais. Não mais do que isso. Poderia argumentar, mostrar todos os motivos, explicar todas as sensações e dizer que o outro não vá ali na esquina porque agora não pode, agora estou precisando.

Nada adiantaria. O mais cordato, o mais amoroso escutaria com atenção, olharia com carinho (e pena), diria palavras suaves, doces, mostraria que eu posso ir ali também, que a máfia não me alcançará. Mas como? Estão ali, na porta entreaberta me olhando, rindo das minhas descrições que não são vistas e, portanto, fruto da imaginação!

Não. Nada mais a declarar. Entregar-me como se entregam os vencidos. Deixar que aconteçam os fatos, que vida prossiga, que aconteça o que estiver traçado, que venha o que tiver que vir. Estarei em três dias andando desprotegido na rua com eles atrás de mim, rindo, brincando, dizendo que farão os disparos a qualquer momento e não poderei dizer nada, telefonar para ninguém, apenas apertar a mão de quem estiver mais perto, de quem se interessar.

Esse alguém retribuirá o aperto de mão e me encorajará a prosseguir, quer me mostrar que, entre outras coisas, a selva pode ser atravessada. Não entende nem que não falo mais de florestas nem selvas, falo de asfalto e prédios de apartamentos, de cigarro e bebidas baratas.

Muito bem. Está tudo dito. É mais um não post não pela sua qualidade literária (que também não tem), mas pela sua inconsistência de argumentos, sua falha primeira que é o irrealismo, pelo discurso aparentemente delirante como delirante é todo o conceito, o arcabouço do que sustenta os argumentos frágeis porque invisíveis. Que seja.
(A seguir, falo da Marina)

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6.5.05

Bienal

Por que devemos pagar para ir da cidade até o Riocentro olhar e comprar livros na Bienal? Os mesmos livros estarão aqui em Ipanema, Copacabana e Vila Izabel.

Ir até o Riocentro implica em gasto de gasolina, aborrecimento e despesa com estacionamento, filas, longas caminhadas entre stands, dar de cara com aquelas criancinhas chatas e estúpidas em excursão que os colégios públicos insistem em levar (como isso se isso melhorasse o ensino).

E não me falem em encontros com autores nem naqueles debates furrecas. Então me digam: para que ir a uma Bienal do Livro?

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Interlúdio de Gerações

O sub título Cargueiro Fantasma me foi inspirado por ela. Não fez de propósito, creio. Falava que esse espaço permanecia, vencia o tempo, mantinha as amarras e, ao mesmo tempo, insistia em fazer a travessia enquanto ela iniciava e parava, abria e fechava, fazia e desfazia num processo confuso, como tudo.

Por isso pensei num cargueiro, num barco grande, pesado, antigo, lento mas forte, insistindo em vencer barreiras do tempo, em vencer mudanças, em adaptar-se ao timoneiro que já fora foguista, maquinista, louco, arquivista, sonhados, piadista e hoje era nada, era alguém que caminhava na madrugada pelo tombadilho em meio a bruma.

Difícil explicar porque ela sempre o associou a alguma coisa, a alguma coisa em movimento, a rodas de locomotiva, a um insano cercado de papéis avulsos e sem serventia. Ela nunca teve a certeza exata do que ele representava, do que era, mas entendia que ele também não, percebia-o como fera enjaulada, devorando cadernos, livros, manuscritos, socando o teclado, criando tantos espaços, tantos sites quanto necessários para espalhar sua nuvem de fumaça que era uma forma de mostrar seu desespero.

Não tenho certeza se desespero é o termo correto. Não um desesperado desses comezinhos que vemos nos desesperador que mostram ao mundo o quanto estão perdidos, o quanto clamam por ajuda, socorro, porto. Não, era um desespero diferente, às avessas, para dentro. Um desespero que estranhamente se ordenava em grupos de frases e terminava por fazer um estranho, mágico sentido.

Talvez fosse isso o que ela pensava ou ainda talvez fosse o que pudesse ter pensado. Ele não saberá e nem ela. O que restou foi o tempo. O tempo que atrapalha, o tempo que não dá tempo às coisas se amainarem, organizarem, o tempo não como remanso, mas como fúria, tempestade. O tempo que eleva e destrói com a facilidade de quem morre.

Não é certo que tenha acontecido exatamente assim. Houve o momento em que tudo desmoronou, que a cabeça não entendeu mais o que a alma dizia e a alma não viu para onde ia a cabeça. De vez em quando a vida com seus jogos de espelhos e suas escadas que levam a lugar algum, faz esse tipo de brincadeira. Você desce mais um degrau e cai no abismo. Sobe mais um degrau e vê que chegou ao porão ao invés do sótão. Como saber, como avaliar, como escapar dessas encruzilhadas onde estão esses espíritos maus que confundem, driblam, desdizem e nos deixam sem certeza do que somos, se existimos sequer?

Agora é o vácuo. Agora estamos perdidos e não somos mais virgens. Sabemos que a floresta pode ser, como o espaço, curva e, assim, instransponível. E se não queremos mais saber dessas coisas, há muito que aprender, muito que estudar, publicar, dizer, responder, pensar, repensar, concluir e, principalmente, duvidar.

O que pensamos depois da evasão é que perdemos a inocência e sem ela não podemos perseguir os mesmos ideais. O que resta? Talvez chorar. Chorar muito por não existir mais a possibilidade de acreditar. Não acreditamos mais, sabemos que não há um guia, o que há são possibilidades e elas incluem muito mais desencontros do que gostaríamos. Somos uma geração intermediária e mais órfã do que a anterior e a posterior. Somos uma geração que não tem desculpas, justificativas, uma geração que simplesmente enlouquece.

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o rito de transpor

O terapeuta, já disse aqui antes é um mal necessário. Nos primeiros anos, quando tudo ainda nos parece confuso e diáfano, ele nos leva pelas mãos entre os intrincados caminhos e encruzilhadas da floresta. Achamos, quase sempre, que essa floresta diminuirá mais à frente e que conseguiremos enxergar e respirar já na planície.

O tempo mostra que não,mostra que erramos sempre, que erramos de geração em geração e os terapeutas sabem disso, sabe, mas não dizem porque também eles, novos, se ilude, acreditando em teorias decrépitas freudianas de que tudo pode ser resolvido via self. Não pode. Erro um.

Não vou enumerar todos os erros porque a terapia é um erro necessário. Um erro do princípio do final, um erro em que acreditamos como temos que acreditar no casamento e nos irmãos. Precisamos acreditar nas coisas para não morrermos, para não darmos cabo á vida. E, dentre as opções, a terapia nos mostra a floresta. Não mostra, repito, os caminhos nem os atalhos, mostra apenas que aquilo que, de longe, parece massa nublada, é uma floresta.

Florestas temos sempre. Sempre tivemos. O mundo é uma África colonizada, uma Amazônia que poderia dar certo, um mundo de espécimes raras como um desses canais que só exibem o mundo animal. O que diferencia é que fingimos erudição, fingimos que o humano nos afasta, que o humano é a possibilidade de um mundo outro, mais asfaltado, de paralelepípedos, que seja, mas ainda assim um mundo que dominamos porque somos nós os homens, essa raça.... como se diz?

O terapeuta é esse mal, esse homem que explica que a floresta sempre esteve e sempre estará lá, que não somos nós os culpados por toda essa vegetação, que somos apenas inaptos para atravessá-la a bom termo. E chamamos então esse profissional de buana e esperamos as orientações, queremos que nos mostre as trilhas.

Mas ele, homem também, não conhece as trilhas, leu apenas nos alfarrábios freudianos que existem florestas e que talvez seja possível ultrapassa-las. Aprendeu nos livros e precisa agora ser o guia desse safári. E aí, meus amigos, eles todos perdem, todos se perdem, todos aqui nas arapucas, todos chapinham nos lamaçais e muitos acabam se perdendo.

Não sobrevivemos sem esses homens. Não conseguimos. Somos incapazes. Quanto mais o calendário se adianta, quanto mais entramos em séculos, mais nos perguntam se fazemos análise assim como se pergunta se estudamos o curso primário completo.

Não há como viver sem fazer análise mesmo sabendo que ela não resolve, falha porque é feita entre iguais. Um, o analista, tem a pecha, a presunção, por seus títulos, de achar que pode guiar o outro que, por sua vez, tem a inocente esperança, a falsa ilusão de, por estar do lado de cá da mesa, por não ter aquele título específico, por tudo isso e mais um monte de coisas, acredita que não sucumbirá às febres tropicais. Sucumbem os dois.

O que resta, acho, é a crença em nada, o niilismo, o materialismo, o duro e difícil de engolir ateísmo e a percepção óbvia de que, se somos essencialmente químicos, somente e unicamente os remédios, a química remediarão nosso desconforto pós uterino.

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O Sal da Terra - parte I

Vela votiva. Vela que ilumine o espaço, que ofereço à divindade. Lume que pretendo que não se apague que, religiosamente, mantenho acesa. Religiosamente? Volto à velha questão de sempre. A fé. Tento e consigo chegar à religiosidade. Mas é falha. Fruto de choque psicológico. Fico pensando na morte do Papa.

O que aconteceu com a cabeça da humanidade com o choque da mídia, com a arrasadora quantidade de informação com a morte do papa? Até onde, essa enxurrada de informação não alterou perfis, detonou crises? O que eram aqueles milhares de pessoas na Praça de São Pedro chorando por um homem que não conheceram, um homem que pregava aquilo que nunca fizeram?

Pois volto eu ao meu existencialismo. Olho, olho insistentemente para as imagens. Para o lume eternamente aceso. O que há dentro de mim? Essa é a verdadeira questão. Dei um drible do meu raciocínio, bem sei. Comecei falando do Mistério, de todos os mistérios que vivenciamos. Foi através dos mistérios que formulei, construí o arcabouço de uma religiosidade frágil, emocional, sem suporte.

Porque quando penso (e preciso pensar), minha alma, o fundo do meu cérebro começa a procurar sinal, como uma antena de rádio. Começa a buscar a fé. Tenho através dos dias e das semanas relegado à fé e falado dos mistérios, falado até de uma certa religiosidade, até do catolicismo. Fiz, como não poderia deixar de ser, incursões na teologia e, decepcionado, contatei que ela é impossível sem a fé. É uma filosofia cambiante. Que dá status, é fato, mas cambiante.

Os mistérios estão por aí sim. Continuo achando. Continuo pensando em todos eles e com minha curiosidade aguçada, esse sentimento aqui no fundo do meu peito, essa leitura obrigatória não dos textos dito sagrados, mas nos estudos que teóricos fizeram dos textos. Vou acumulando mais e mais informações. Minha cabeça está cheia delas.

Mas para que a imagem sacra iluminada pelo lume eterno? Pra sinalizar para mim mesmo que Ele está ali, no seu cantinho, talvez esperando que eu vá até lá e me prostre? Talvez. Passo pelo oratório e o lume me sinaliza, me diz que está ali, vivo, quente, aceso. Ele está. E eu? O que eu tenho aceso dentro de mim? O conhecimento adquirido de teóricos, como outros tantos, afirmam o contrário. É uma questão de escolha. E começo a pensar nessa reta final que a grande questão não é nada disso, é a fé. É preciso não ter, mas ser escolhido pela Fé. Ela tem que nos conquistar, nos apanhar e nos embalar e nos escravizar.

Não consigo. Não posso nem mentir para um Deus que não reconheço. Não tenho a quem pedir perdão. Essa talvez seja a maior dor do meu calvário: não ter a quem pedir perdão por minha heresia. E não tendo a quem rogar o perdão supremo, desfaz-se a heresia. E, desmontada em seus alicerces, a heresia, vai por terra o contraponto dessa mesma heresia. Sou um religioso sem fé. Como um relojoeiro cego, um lutador de boxe maneta, um palhaço sem graça. Um padre sem altar, um mendigo sem miséria, um miserável endinheirado.

O ateísmo me parece uma afecção mental, um tumor que cresce em seu cérebro, apertando-o contra a caixa craniana, uma busca de água salgada no leito do Rio. A vela, o lume que estão ali acesos que me chama a atenção todo o tempo é um chamado não para Deus, é um alerta, um sinal giratório que sinaliza aos navegantes que ali há uma ilha de ateísmo.

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5.5.05

hipóteses

Quando eu disse que era uma cabeça na estante sabia exatamente o que estava querendo exprimir da mesma maneira que sabia que a forma era tola, ignorante. Mas eu não sabia dizer de outra maneira. Porque, olhando de um pouco de vista não literato, é isso mesmo, uma cabeça na estante.

Recebo o telefonema angustiado da amiga que me fala de como vão as relações de tudo o que aconteceu, do que está acontecendo, de como está se sentindo. Para ela, faz questão de me repetir, minha opinião é muito importante, minha maneira de ver interfere na sua forma de decidir ainda que os meus componentes conservadores e católicos a incomodem. Não importa, ela passa por cima.

Prefere me ouvir com todo o meu conservadorismo do que ouvir um pós-moderno que não tenha noção do todo, que não perceba a vida e as emoções em toda a sua magnitude. Sabe que eu jogo limpo e é disso que precisa, deixando meus defeitos de lado.

Vive um conflito enorme, vive uma vida desesperada desde que começou a correr, correr atrás de si mesma, atrás do tempo, começou a buscar desesperadamente porque não agüentava mais aquele estado amortecido em que já vinha a um ano. Resolveu de uma hora para a outra que tudo tinha que mudar (como se pudesse ser assim) e, em poucos meses fez tantas e tais coisas, experimentou modalidades de comportamento, reformulou sua teoria sobre a humanidade, sobre a sexualidade, acreditou que o domínio era possível, que as relações podiam ser prescritas, predeterminadas.

Todo o tempo foi fazendo e me falando, agindo e me consultando, querendo sempre ouvir de mim a aprovação que nunca veio. Só fiz reprovar ou, na melhor das hipóteses, ceder, alertando que era uma experiência, não era um conceito, digamos assim.

Minha caixa de correspondência está cheia, como a cabeça dela e um turbilhão transfigura-lhe a alma. Diz mesmo que não consegue mais sentar nem pensar nem comer, nada. Todo o seu pensamento está voltado para a aventura em que se meteu e agora dela está prisioneira. Achou, como muitas vezes achamos, que poderemos dominar as situações quando é sempre o contrário: as situações nos dominam e, pior, nos enganam fazendo parecer que somos dominadores, que temos controle.

O homem não tem controle. Sobre nada, diga-se de passagem. Sou um barquinho de jornal que corre na água suja do meio fio e depois descerei pelas escadarias até, por fim, a um bueiro. E, ainda no bueiro, continuarei barquinho de jornal de ontem. Ela nem ninguém quer ser jornal de ontem. E como dizer que todos somos jornal de ontem, de ante ontem?

Ela terá que cruzar ainda várias vezes esse oceano (e sabe-se lá quantos oceanos mais?). Ela terá que rever todos os conceitos que achava binários por outros, conceitos moléculos, conceitos existenciais, (verá) que temos sim que perder noites e noites em cima desses livros que parecem não dizer nada, que não interessam, não têm um objetivo prático, que mais parecem moldes para fugas de nós mesmos e dessas nossas coisinhas escondidas, essas coisinhas que estão sempre ali e insistimos em não ver porque é melhor assim. Agora eu não sei o que dizer, não sei o que pode acontecer. O sofrimento, esse vem sempre, vago talvez, não por esta ou aquela ação, mas porque é inerente à vida de nós todos. Mas como explicar? Eu não sei.

Eu não sei e ninguém sabe porque estamos estudando isso, ficamos anos da nossa vida diante do maldito psicanalista na esperança que ele diga ou mostre onde procurar respostas e ele falha sempre. Voltamos então, com as mãos abanando e nos debruçamos novamente nos compêndios dos sábios de Sião ou nos pós modernos americanos, essa meca, potência, esse berço de cultura, informação e resolução (porque sabedoria, dizem, está no oriente, embora a prática mostre o contrário).
Explico depois.

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ponto final

Não gosto do que tenho escrito. Nem do conteúdo nem da forma. Há um desvirtuamento no meu eu, não o outro meu eu, mas o meu eu eu. Entendem o que digo. O outro está aqui para debater, para ser o contraponto o que faz as pessoas me acharem contraditório, o que não é verdade, são posições e raciocínios diferentes sobre assuntos análogos.
Mas não estou gostando. A produção manuscrita tem sido infinitamente maior, tem superado o blog e outros escritos. Aliás, não tem porquê escrever tanto. Não estou ganhando nada com isso afinal.

Mas não é nada disso não. É uma necessidade de publicar muito porque se avizinha um sentimento de rompimento, de parar de vez. De deletar. Não pode ser pra sempre isso aqui. Não pode ser um livro inacabado. Esse é o grande problema da rede. As coisas são inacabadas, são atualizadas sempre e sempre.

Verdade que essa atualização periódica traz o conforto de encontrarmos o que há de novo, a última palavra, a última descoberta, enfim, a informação mais recente. A própria troca de informações. Mas é ilusão. Não adianta eu falar mal só disso aqui e dizer que é emburrecedor, é preciso que eu encontre uma forma de pensar isso e escrever. Precisamos de um final. Precisamos de um E Foram Felizes Para Sempre.

Claro que se você for olhar, não foram absolutamente felizes para a frente, mas nós saímos da história naquele momento. Terminou pra gente ali. O depois é o depois, não há atualização. Imaginar atualizar Cinderela, Gata Borralheira, Branca Neve. Não. Tem que acabar.

O problema aqui é esse, é que não acaba, é que vou encontrando novas coisas diariamente e vou alimentando esse minotauro que incha, cresce e não chega a nenhuma conclusão. Porque não se chega a nenhuma conclusão enquanto estamos vivos. A conclusão está diretamente ligada ao final, à morte, à nossa impossibilidade de acrescentar uma vírgula a mais sequer.

O que eu pretendo é me concluir. Ainda que seja num espaço de desconstrução, ainda que esteja desconstruindo o Sobretudo (e isso acontece mesmo), ainda assim é necessário o ponto final. É preciso fechar o livro e chegar a alguma conclusão sobre tudo o que foi dito, é preciso concluir que não valeu de nada, que foi leitura inútil ou, ao contrário, que enriqueceu de alguma maneira. Tanto faz. O ponto fundamental agora, acho, é o final. O ponto final. Tenho falado todo o tempo em me reescrever e me desconstruir, o que, de fato, faço. Mas esse desafio já foi ultrapassado. O necessário agora é a conclusão do ciclo.

Pode ser necessário iniciar outro momento, outro ciclo (inclusive que recoloque tudo o que foi aqui), mas tem que ser outro. Tem que ser um momento novo, um momento em que abrimos o livro (pode ser o décimo da série), mas temos que abrir o livro, entender em que ponto está a coisa e vivenciar, curtir o que vai naquele espaço e saber que ele, o espaço é finito, que ele também terminará antes do autor. Eu preciso me terminar. Todo mundo precisa se terminar. Não para si mesmo, mas para os outros.

Porque se não me termino para o outro sou uma abstração, uma possibilidade em um milhão, uma hipótese que é revista à cada hora, uma inconclusão que desvia o raciocínio, que abala a pouca lógica da vida. Tenho perseguido esse projeto: mostrar a falta de lógica na vida e acho que consegui, mas se não termino, essa falta acaba por voltar à uma possibilidade de lógica e depois de não lógica e assim sucessivamente, numa cornucópia enlouquecedora.

Não era nada disso o que eu ia dizer. Ia falar das relações sentimentais que me são relatas. Ia falar de como os homens não se encontram mais, como se perdem e como sofrem. Ia falar de cartas que recebo, de cópias de cartas que atravessam oceanos, mas não fiz nada disso porque seria entrar em outro campo das nossas vidas, entrar em outros momentos, outras expectativas, dar curso a história que está sendo contada, como sempre foi e sempre será. E aí não falaria da minha angústia em relação ao ponto final.

Este é mais um não post. Não tem nada a ver com todo o resto. Nem em forma nem em conteúdo. Sei disso. Já deletei e publiquei de novo. Vou deixar mais um pouco, como se fosse uma anotação feita à lápis, na margem de um texto que conseguiu se encerrar. Esse texto não conseguiu se encerrar nem encerrar o todo. Não consegui sequer encerrar a idéia em si mesma. Enfim...

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4.5.05

resumo do que encontrei

Tudo bem, menina, vou ver os blogs por aí, não vou mais ficar aqui trancado reclamando, se isso te serve para alguma coisa.... pronto, fui, vi, li e voltei... o que tem? Melhores? Piores? Não sei, todo mundo gosta de alguém coisa, todo mundo vê alguma coisa e o que tem aí é o que se pode fazer mesmo não é?

Não, confesso que não gosto dessas coisas, já repeti que estou estudando Bellow, isso me interessa agora, só isso. Uma coisa de cada vez, lembre-se da minha idade, lembre-se que estou quase usando o andador para ir daqui até ali. Sou um entrevado que anda. Um Lázaro insepulto, um casaco grande, dito sobretudo que caminha por essas ruas escuras que tanto me agradam.

Me agradam as ruas escuras porque eu digo que sou solar, mas não é verdade, é mais uma dessas coisas que eu digo pra dizer alguma coisa, mas não são. Vi blogs infantis porque sou velho. Agora, tem uns que não dá pra ir porque também são de gente velha e babaquice em gente velha é imperdoável. Não quero ficar achando isso e aquilo como também não quero que achem nada disso aqui, quero mais é que, não gostando, não voltem e encontrem coisa melhor, que há muita por aí.

Quero ser como aquela menininha e andar, andar, andar até chegar às franjas do mar. As franjas do mar estão há cinco quarteirões daqui e eu não me animo a ir até lá porque tem que fechar todos os livros, todos os links, desligar o som, a televisão, o microondas, tirar eo repelente, vomitar o Wellbutrin... não meninos, é muito trabalho para uma pessoa assim avançada em anos como eu.

Quando eu voltar tenho que procurar todos os livros de novo, ir nos marcadores e achar as páginas e lembrar o que estava lendo em cada um deles e não pode ser esquecido que tenho memória de ameba segundo o R., que em breve não terei memória nenhuma, andarei com um bloquinho amarrado no pulso. Não é uma idéia má, já pensei várias vezes, mas sempre esqueço de entrar na papelaria e comprar.

Como sou uma pessoa que varia muito, tomo cerveja e ouço Tom Jobim e explico: pra mim não existe nada além do Tom, é o passo derradeiro, é o salto na vertigem do belo. Tempo existiu em que pensei coisas assim do Caetano, mas o tempo mostrou, implacável tempo, o quanto eu estava enganado e olha hoje, ele aí se ajoelhando para a Fernanda Montenegro, sim senhor!

Não, vou ali e já volto, amanhã tem compromisso chato à noite e não adianta dizer que está ruim da cabeça ou doente do pé. O dinheiro acabou, a fonte secou e eu estou aqui cercado de folhas esparsas e cadernos manuscritos, todos abertos, arreganhados, querendo que eu continua escrevendo lá o que não escrevi aqui, mas eu engano os dois porque um não sabe o que está escrito no outro.

O que é, então, tudo isso? Uma grande bobagem baboseira, falta do que fazer. Gostou? Não? Pois é. São coisas assim que eu encontro por aí e venho pra cá reclamar, dizer que não gostei, dizer que as pessoas perdem tempo na internet podiam muito bem estar lendo Camus. Por que não? Por que a gente não acredita que a gente pode, que a gente é capaz?

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Depressão e Malabares

Ela quer porque quer ter essa conversa comigo. Tenho procurado sair fora, quero estar fora dessa, dessas barras pesadas, dessas coisas que são fantasmas, que não curam, não amolecem, continuam grudados lá dentro. Fala que está com depressão e que sabe que já tive um surto, sabe que eu sei como são essas coisas. Ora, eu não sei porra nenhuma, respondo, vá ler O Demônio do Meio Dia que trata de tudo na depressão.

Ela entra no meu apartamento, senta no sofá, acende um cigarro e me olha com aqueles olhos profundos, que vêem através de mim. Fico em pé mesmo, encostado na estante dos livros que ficam em frente a ela. Também acendo um cigarro e, para completar preparo um uísque, que eu não sou de ferro. Se vem bomba, é melhor eu estar bem preparado.

Eu sei o que ela quer, quer um tratado vivo sobre as crises depressivas e quer que eu seja o modelo, não bastam livros nem teorias, ela quer tratar com a prática, que, para ela, sou eu. Acha que falando comigo sobre a doença, sobre o assunto, porque pra ela não é propriamente uma doença, é um assunto, falando comigo a coisa fica mais vívida, mais clara e o que ela quer é viver densamente esse momento.

Diz que não se sente disposta, que tem alguma coisa nela que não está certa e ela não consegue identificar bem o que é, que está triste e melancólica. O que eu acho? Perguntou pra mim? O que eu acho? Acho que isso é nada, acho que você não sabe do quê estamos falando. Você ainda é caloura falando com quem tem pós doutorado, minha cara!

Fico pensando se jogo o uísque na cara da imbecil ou se dou mais corda um pouquinho. Ela não se incomoda com o que estou demonstrando, é uma espécie de perua numa possibilidade de doença e quer curtir essa porque parece mais moderninha. Pergunta como eu me sinto. Digo a verdade. Com raiva dela. Amanda é uma figura que não faz mais parte da minha vida, muito menos para falar de doenças, muito menos para falar das coisas sem saber.

Porque não é nada disso o que eu quero dizer. O que eu quero falar é que o sujeito com depressão tem uma gama tão extensa e variada de sintomas, sente tantas e tantas coisas, de maneiras tão variadas que é praticamente impossível descrever. Basta ver que o que o Andrew Solomon escreveu um tratado, como ele chama, uma anatomia da depressão e só conseguiu falar de poucas crises dele e o relato de algumas pessoas para ele. Falou de quê? De dez por cento da doença? 5%?

Os médicos não param de estudar esse negócio e cada dia aparecem mais e mais casos diferentes, uns mais escabrosos do que outros que eles vão tentando sub-catalogar dentro de afecções maiores num processo que não acaba nunca. E tem ainda essa história que é uma doença moderna, o que é uma bobagem absoluta, de moderna não tem nada. É uma doença artística. Ou melhor, ligada à sensibilidade do homem e, como os artistas, via de regra, são mais sensíveis, mais diagnosticadas então nos artistas. Mas o que é um artista?

Um artista é tudo. Tem esse adesivo que se coloca no carro dizendo Eu não Suporto Malabarista, coisa de péssimo gosto, pra agredir os meninos que fazem seus números com bolinhas tal como malabares em troca de dez centavos que nunca damos. Essa é a diferença entre os homem: o menino pobre, miserável, com sua bolinhas tristes é um artista e o filho da puta que coloca no vidro do carro um adesivo agressivo desses é um nada, dessa chamadas não pessoas.

Com certeza, esses meninos (sei que não fazem aquilo por sensibilidade nesse sentido da expressão e sim por fome), mas esses meninos vão sofrer muito mais de depressão do que os endinheirados dos carros, só que os meninos vão se tratar cheirando cola e fumando crack enquanto os dos carros vão tomar uísque na beira da piscina. E quem tem a maior depressão? Quem deveria ter somos todos nós que vemos essas patifarias diante dos nossos olhos e não fazemos nada.

Fico pensando que a depressão deixa de ser simplesmente uma doença, dessas catalogadas no CID, mas um estado de coisas, uma situação de não sobrevivência humana que acaba nos hospícios que são repositórios de mendigos ou quaisquer loucos. Fico pensando que a depressão é mole, essa a gente resolve com os remedinhos, mas a depressão Estado das Coisas, essa não, porque essa é maior, essa não tem comprimido que resolva, não tem Lula que levante a bunda e vá fazer alguma coisa.

Amanda olha, não tão tranquilamente para mim. Talvez não fosse o que desejasse ouvir. Mas é isso sim. É esse lixo desse país que leva as pessoas a uma situação de desespero e depois quer catalogar como depressão isso e depressão aquilo. Os deprimidinhos de Ipanema não precisam de nada, têm lá seus meios de segurar a barra com os remedinhos e viagens à Europa. Quero ver é aqui, esfregando chão!

Digo que não vou falar nada, tomo meu uísque de um gole só sem dar tempo dela pedir também uma dose, digo que estou mal, que não estou conseguindo e que, se é assim, o melhor mesmo e ficar sozinho e não ter conversa nenhuma porque essas conversas não são pra ter comigo, tem gente especializada pra isso e eu surto duas vezes por dia. Não é bom estar por perto de mim nessas horas. E ela levanta, com seu olhar de árvore e se encaminha para a porta da rua que eu, com prazer, abro e fecho. Pronto. Estou sozinho novamente.

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Caetano Veloso se ajoelhando diante de Fernanda Montenegro pra dizer que o filme dela é espetacular e poético? Eu tô dizendo....
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tempo de viver, tempo de morrer

Como eu sou um mal sucedido, saí pra comer o meu PF no botequim da esquina e ando sempre atento porque acho que todos os bandidos e salteadores de Copacabana e adjacências estão por ali, à minha espera para dar o golpe do dia.
A comida é um lixo, já veio até mosca morta no meio do prato, mas eu como porque os mal sucedidos têm um preço à pagar e eu pago o meu. Parece reclamação, mas não. A reclamação é outra e não sei bem a quem reclamar. Em tese, teria que ser a Deus que, em tese, teria existir.

Na minha caminhada breve até o botequim vi um casal de velhos que se apoiavam um no outro para poderem andar e fiquei com muito nojo daquilo. A velhice, muitas vezes é nojenta. Por outro lado eu fico dizendo que o ideal do homem é casar e viver feliz para sempre. Morrerem velhinhos e juntos. O que me pergunto é: até onde vai esse Sempre?

Não consigo chegar a um acordo ou a uma conta que me agrade, que eu possa defender. Por exemplo: acho que a idade ideal para se morrer é aos cinqüenta anos, quando normalmente ainda temos nossas faculdades mentais, intelectuais preservados e o corpo começa a anunciar o início da queda.

Claro que tem os de sessenta que estão bem e os de quarenta que estão podres, mas tem que fazer uma média. A média é cinqüenta. Eu que estou com cinqüenta sou um ótimo espécime para ser estudado e avaliado. Ainda não caiu tudo, ainda raciocino razoavelmente apesar da falta de memória que é ocasionada pelo excesso de psicotrópicos.

Mas eu fico com um pouco de pena de morrer, não pela morte em si porque sempre acho ela será bem vinda, bem recebida e, se é inevitável, pra quê esse prolongamento impensado? Não é isso então. O que há é que somente agora consigo me sentir um pouco mais maduro, com capacidade intelectual e serenidade para ver as coisas da vida (com auxílio de Rivotril e Lexotan aos barris, vá lá). Aos quarenta eu era completamente desajustado (e a diferença é que os barris de psicotrópicos não faziam efeito), incapaz de uma atitude um pouquinho mais perto do que chamamos de "normal". Era um anormal, pleno. Estava em plena maturidade da incapacidade, da porra louquice.

Aí agora, que eu consegui dar um pouco de jeito nessas coisas vou morrer? Quer dizer, vivi só pra me aborrecer e estarrecer os outros? Então também não queria morrer exatamente agora (claramente pelos motivos expostos). Mas não morrer agora implica naquele eterno "esperar mais um pouquinho".

Nesse 'esperar um pouco mais' é que a gente vai indo aos geriatras, tomando remédio pras arritmias e reumatismos e vai vivendo. Vai vivendo até a velhice, aquela decrepitude malsã, aquela banalidade existencial fantasiada de terceira idade. Velho é chato, inconveniente, só faz besteira e, muito principalmente, tem morrinha.Não existe um velho (podem examinar as suas famílias e a dos vizinhos para constatar!), não existe um único velho que não tenha uma morrinha insuportável, mesmo que esteja saindo do banho. Acho que já é o início da decomposição das carnes.

A pessoa envelhece pra quê? Pra sambar em Madureira? Tirando aquelas baianas velhas do nosso patético carnaval, não. Não estão mais pra sambar em Madureira. Velho é pra ficar em casa. Como a filha não agüenta o velho em casa, manda ele o dia inteiro para o super mercado. Por isso super mercado é um inferno. Não é 'O Inferno são os Outros', é 'O Inferno são os Velhos'. A função básica, certeira do velho é simplesmente morrer. Velhice é prenúncio de morte e é bom que ela venha logo.

Daí volta a mim que estou entrando nessa categoria, dos velhos que são prenúncio de morte. Eu, como todo velho esclerosado que se presa, não quero morrer agora. Entrei naquela fase do "espera mais um pouquinho". E esse é o perigo. Vão inventando novas máquinas, novas pílulas e se bobear estarei aqui aos 65, 70 anos infernizando as ruas, o tráfego, os jovens.... infernizando a vida.

Eis o dilema: a idade correta para se morrer é aos cinqüenta anos. Eu fiz cinqüenta e acho desperdício ir agora, justo agora que conheço algumas coisinhas. É bem verdade que não faço mais 'aquelas coisinhas', mas conheço umas outras que suprem as deficiências físicas e hidráulicas. Não, não é ter vergonha de falar dessas coisas não. Tem que falar.

Melhor isso do que fazer aqui o fã clube da Lolita Pille e seus livrinhos idiotas, seus filmes imbecis, sua vida que é um nada. Aí é que está. Eu acho que entre eu e ela, o mundo perderia menos se ela morresse.Mas isso é o que eu penso, com minhas idéias esclerosadas porque ela é uma francesinha de 22 aninhos, linda e rica, que faz sucesso e tem mídia. Eu sou um velho fracassado que ando me escorando nas paredes e dizendo que o mundo inteiro está errado e eu certo. Conclusão: tem que morrer aos cinqüenta mesmo.

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Fobias e TOC

- Deixar a cafeteira preparada de véspera.
- Nunca menos de 15 pacotes de Miojo em estoque
- Nunca menos de 15 pacotes de queijo ralado
- Nunca menos que 30 maços de cigarro
- Nunca menos que 10 caixas de psicotrópicos
- Nunca menos que 36 latas de cerveja
- Nunca menos que 3 isqueiros BIC novos
- Nunca menos que oito esferográficas vagabundas
- Pagar as contas, no mínimo, três dias úteis, antes que vençam.
- Ter assinatura de jornal, mesmo não lendo
- Não achando rapidamente um livro, comprar outro exemplar
- Acordar três horas antes de qualquer compromisso matinal.
- Dormir com televisão ligada.
- Olhar cinco vezes se desliguei o gás e apaguei a luz
- Saber com 3 meses de antecedência as férias do terapeuta
(e muito mais)

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eu, drogado e prostituído

Codeína. Muita codeína pra segurar. Esse negócio de dor, de coluna, de nervo ciático, isso tudo é o lixo do homem. Tomo codeína sabendo que pode viciar, mas é só o que alivia a dor e não gosto de sentir dor. Esses médicos paspalhões operam a gente mas essa tal de hérnia de disco (mais uma doença da moda) volta, volta à toda, com dor total a e gente mete codeína pra dentro. Se der mole, entro na morfina, azeite.

As livrarias deveriam ser como templos onde entramos para reverenciar nossos santos, nosso deus, enfim tudo o que queremos. Podemos nos confessar, comungar, sentar e meditar. Não tenho paciência pra tanto. Mas a Igreja deve ser para isso. Qualquer dia desses vou sentar naqueles longos bancos de madeira (se tiver estoque de codeína em casa) e vou ficar lá meditando e falando com os santos que eu bem entender, porque se é igreja tem que ter lá todos os santos. Fui no lugar apropriado, não fui numa quitanda.

Repito: as livrarias deveriam ser como templos. A gente devia poder chegar, sentar, meditar e buscar, como os santos, nossos autores prediletos ou aqueles que nem conhecemos, mas queremos ler para, quem sabe, vir a ser o santo da nossa fé.

Mas no brasil, esse país jeca, jeca, jeca não é assim. No brasil, esse meu país querido que o tom jobim tanto dizia qual era a porta de saída, você não pode comprar o que deseja. Acho que só podemos rezar para o santo da nossa preferência porque não precisamos contar para o padre nem pedir ajuda a um vendedor ele diria que não tem aquele santo. Consultaria o terminal do computador e diria: Não tem!. Na livraria você não é nada. A livraria é o templo que reduz a gente à nossa verdadeira condição de farrapos humanos, de imbecis, todos.

Na livraria você tem que pedir os livros que estão saindo, que estão na lista dos dez mais, que apareceram no programa de televisão, que apareceu na mão do (salve, salve) Lula. Você pode pedir Código Da Vinci, pode