Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


English




ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

30.8.05

REVOLUÇÃO JÁ

É preciso compreender e contextualizar o Brasil e o momento atual numa linha histórica para entender que não sairemos do modelo de estado corrupto que o comunismo do PT, a ditadura do PT finalmente entranhou no combalido solo nacional.
Já fou visto, denunciado, falado e discutido todo o processo de corrupção e degradação do Estado imposto por Lula e seus asseclas. Iniciou-se um processo de investigação que agora está prestes a se desfazer, morrer na praia.

É preciso entender o porquê. O povo brasileiro não está preparado para a reação. O povo ainda é composto em sua maioria pelo Jeca descrito por Monteiro Lobato. A miséria acachapante ainda faz da população massa de manobra e refém de políticas assistencialistas vergonhosas. Não se deve iludir, achando que o PT é frágil porque foi denunciado. Não é. O PT talvez seja um dos últimos redutos de comunismo, de ditadura do proletariado no mundo. Demorou mas conseguiu instalar-se aqui, num país de terceiro mundo que esperava a vinda de um Messias. É um povo inculto, pobre, morto de fome. Um povo que sobrevive à custa de bolsas de alimentação doadas pelo governo.

O escândalo aconteceu, as notícias foram livremente veiculadas e provadas. O povo está anestesiado. O que se chama da intelectualidade brasileira é retrógrada vendo como modelo ideal a Cuba de Fidel. Os formadores de opinião cubanizaram o Brasil. Agora, nossos intelectuais (???) vendo o mar de lama e corrupção se calam, se escondem atrás de máscaras compungidas e declaram que estão tristes. Tristes? O país tem os juros mais altos do mundo, está afundando em dívidas, não produz, não vende, não comercializa, é refém de um ditador, é governado por um grupelho que foi doutrinado e treinado na extinta Moscou.

Sem formadores de opinião, como esperar que o povo doente e morto de fome se revolte contra gente bem armada, treinada para a guerra de guerrilhas, gente que sobreviveu até a ditadura militar, que muda de rosto, de posição, de personalidade. Gente que some aqui e reaparece ali travestido em outra aparência e personalidade. Pois esse é o grupo que governa o Brasil.

Não fosse a população tão massacrada, já teria estourado a revolução tal como todos entendemos e desejamos, mas não. O povo não tem forças. Os que governam (após sofrerem um golpe se reorganizam para contra atacar, para seguir o plano castristra de perpetuar-se no poder. O povo assiste pasmo ao que acontece. As pessoas ouvem um lado e outro e não sabem em quem acreditar, não sabem o que fazer nem como. Com que armas essa população pode lutar? A ditadura já está instalada e bem sedimentada.

O que resta agora é uma única alternativa. A REVOLUÇÃO. É necessário que as forças que prezam a ordem, que conhecem a desgraça do comunismo (disfarçado). Sim, é necessários que uma pequena parcela da população levianamente chamada de burguesia e de direita se levante. Talvez seja necessário o empenho patriótico dos homens de bem, dos que não suportam mais a desordem, o roubo, a fome ainda que momentaneamente com a adesão das Forças Armadas para um ato cívico que não pode nem deve ser mais postergado.

Não importa o nome que os comunistas, os que desejam fazer do Brasil solo fértil para a desordem, para o desvio de verbas públicas, para os que se locupletam quem sabe do crime organizado, tráfico (Olavo de Carvalho alertou tanto para o conluio de personagens hoje no poder com as FARC!), lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito. Não importa a grita dos que desejam manter a desordem e a lama no País. É preciso uma Atitude, é necessário e urgente a ação para salvar o País.

Ainda que momentaneamente, o Brasil precisa da força para fazer a revolução. Não uma ditadura de direita que se estenda por mais vinte anos. Isso é impensável no mundo moderno. Mas, por ter um povo combalido, urge uma revolução justa, completa e irrestrita promovida pelos homens honrados e não por pseudo-intelectuais para retirar o câncer que ora nos governa e conduz. Afastados os ditadores, certamente o povo não terá medo de voltar as urnas, as unidades de força poderão voltar à caserna que é seu lugar e, democraticamente, pelo voto, redimir-se do engano a que foi induzido e recolocar o Brasil nos trilhos da ordem e do desenvolvimento!


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29.8.05

Nada

Fiz uma promessa [mas eu não cumpro o que prometo] de não falar mais de política. Estou vendo os rumos que as coisas estão tomando. Parece que está tudo encaminhado. Acho que as pessoas deviam perder menos tempo lendo blogs apenas de generalidades e aproveitar seu tempo na internet para ler os sites e blogs de jornalistas que estão fazendo um excelente trabalho. Não tem mais nada a ser dito que não se saiba. As classes C, D e E já estão informadas da bandalheira do PT. Agora, é deixar que os processos caminhem e rezar para que seja feita justiça. Lula será justiçado pelo povo, pelo voto.

Eu, continuo tentando aprender as coisas e fico vendo todo dia que não sei nada. Sei mais do que muita gente, insistem em me dizer, mas é muito pouco, preciso saber muito mais. Preciso estar preparado para as mudanças que estão sempre acontecendo na vida da gente. Na minha vida acontecem mudanças mesmo quando eu não faço por onde. O destino vai pondo coisas e tirando outras. É assim com todo mundo. Dizer o quê?

Escrevi mais um ensaio sobre o tempo à partir de uma conversa, mas ele se tornou longo, confuso e não chegou a bom termo. Preciso radicalizar e dizer que estamos aqui de uma forma mágica, repetir que a vida não está nos esperando, dizer que somos agentes ativos [deveríamos ser] para chegar a porto seguro. Mas isso envolve o Big Bang, todo o cosmos, a curvatura do universo e os universos paralelos. É preciso estudar toda essa coisa e pensar e deixar que as coisas fiquem claras em nossos corações e mentes. Não me parece tarefa simples. Acho primordial. Existe um pouco de Física, de Química, muito de Magia, muito de música, fumaça. Não se pode entender as esferas lá de cima sem entender Borges nem Vinícius.

Tudo está interligado de maneira tão desconexa que as pessoas na maioria das vezes desistem, inventam desculpas para não seguirem em frente. Eu vou seguir enquanto estiver vivo e depois [se houver outra forma de vida]. Preciso sair, ir em busca de histórias em campos distantes [ainda que estes campos estejam ao alcance das minhas mãos]. Não me interessa. São vários caminhos. É preciso dedicação. Não devo ter toda a desse mundo, mas faço pequena parte. Muita gente faz. Muito mais gente deveria fazer. Aprendi outro dia [mais uma vez] que nunca é tarde.

Mas tenho outras coisas. Tenho a produção. Parece que o homem tem que produzir, mesmo que seja entretenimento para os outros. Fazer o quê? O possível. Os caminhos devem tender a se abrirem. O mundo passa por um momento de reorganização de forças, de posições, de posturas. O mundo muda. O sol muda.
Estamos numa nova era, não vê quem não quer. Não dá pra entender assim, não é? Pois é. Por isso não ia dizer nada. Qualquer dia publico um estudo mais claro [e caudaloso]. Por hora, fogos, fumaças, rompimento com universo, com dimensões. Quantas dimensões? Muitas ervas. Paro porque não estou dizendo nada.

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28.8.05

Fiquei sozinho no início da madrugada. A gente sempre acaba mesmo sozinho porque a gente nasceu só. Eu não sei o que é melhor, se falar, ouvir, ler, escrever ou não fazer nada. Tava falando do joelho da Nara e não levaram a sério. Como poderia explicar? Tem coisas que não dá pra contar. Belo como o joelho da Nara é o arranjo e a gravação de Odara pela Nara. Pois então fico eu ouvindo Odara, ouvindo a Nara me embalar. Ouço uma , duas, três vezes, quatro. Olho em volta e vejo que estou cercado por um ambiente mágico como um cenário de peça do SoHo.

O que falta então? Não deveria faltar nada, mas sempre falta, né? Eu devia fumar maconha, mas não fumo. Não gosto. Fumo Camel então. Nara diz que Holliwood é aqui. É? Ela diz que eu sou o galã e ela é a Doris day. Legal. Não posso fazer mais nada, estou ilhado com essa máquina maldita na minha frente, essa máquina que toca música (minha eletrola?), que eu converso (meu telefone?), que eu escrevo e publico. Maldição da carne.

O cursor desaforado fica piscando cobrando petulantemente que eu continue. Esquece que sou eu que mando, sou eu que escrevo, pago a luz, tenho o poder do botão. O off está a meui alcance. Só eu domino o off. Ele não sabe e continua piscando, mas vem Erasmo cantando, meu velho Tremendão e volta o humor....por favor meu ego, não dê força ao prego.... Como reclamar de qualquer coisa ouvindo isso?

Ontem eu disse que cada linha ou cada estrofe é grande como o Paraíso Perdido que Milton escreveu porque a Inglaterra não tinha um épico. Essa pilha de jornal, essa pilha de livros, essa pilha de coisas, esse abraço da madrugada, fazer o quê? Eu queria dar, dar, dar e desbundar. Disse que depois de conservador por tanto tempo , desbundei, mas isso pode ser coisa de velho (mecha branca no cabelo, reparo no epelho). E tome Camel! Quando um homem só tem mesmo um camelo...putz....de que adiantou tanto Spinoza se hoje fico batucando no teclado todas as coisas que deviam estar no caderno?

Exibicionismo virtual? Sim, com certeza. Sou um exibicionista porque não me contenho com a serenidade e o silêncio do sábio. Sou um pirata, desses que vão de porto em porto e, nas adegas, contam histórias onde são sempre eles os heróis, tudo regado a muito rum. E a ex mulher que telefona? Quantas ex mulheres, quantos casamentos, amigos, casas, cidades (não, só o Rio), quantas coisas nesses anos todos que me fazem ficar olhando pra essa tela brilhante e esse cursor desgraçado. Preço do exibicionista virtual. Então ta. Paro por aqui e vou para os meus cadernos porque lá nada pisca e ninguém lê. Posso parar de mentir (porque tudo o que escrevo aqui é sempre mentira) e vou ali falar um pouco de verdade. Triste ler essa bobajada toda e não saber se é verdade (não sei, não sei)... e o cara dizer que agora vai pro cantinho escrever suas verdades.... Talvez eu vá atrás das verdades, mas isso é uma longa história que só pra mim posso contar.

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27.8.05

o ser humano do sexo masculino
é dotado (bem ou mal) de duas cabeças:
a de cima e a de baixo
nem sempre há concordância entre as duas
/esferas
nem se pode discernir o céu e o inferno;
às vezes uma delas se manifesta
na celebraçãodas qualidades inexistentes
de uma dessasdivas vagabundas,
enquanto a outra exalta os encantos físicos
de Madre teresa de Calcutá.
entre les deux, mon coeur balance
às vezes sem saber qual é o lance
de dados, como didia Mallarmé,
ou de dedos, como já dizia eu mesmo,
outrora abandonado noutros mares
entre acasos e ocasos de emoções vulgares
mas agora felizmente ancorado
no cais ( e às vezes no caos) do seu coração

Geraldinho Carneiro
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Babel Aqui

Sim, não é ilusão (tudo é ilusão): estou solto como um barquinho de papel que a água da chuva vai levando, levando [e todo rio deságua no mar]...volto, então ao mar. Mar de que não saí porque mar é mar e sou marujo [aquele do cargueiro, do blog cargueiro nortuno, cargueiro que vai e volta nas noites de lua (e sem)... não era isso. Putz! Não vou começar tudo de novo [novamente, outra vez], vai daqui mesmo. O chope. O chope pode marcar e cancelar e remarcar porque o chope ta ali, sempre. Sempre tem chope e nós estamos sempre aqui. Começo então o livro. Qual? Não sei. Olho pra um e pra outro e pra outro e pergunto se um livro é mesmo um livro ou o que é que um livro é. Um livro é história. Se é história não está lá, está na história. Vinícius dizia que o uísque é como um cão engarrafado; o melhor amigo do homem.
Se ele disse é porque é porque eu não discuto nada do Vinícius, tudo o que ele disse diz ou pensou em dizer, é.

Mas o livro é uma história que se passa na China. (A China ainda é Azul?)....[Ver com Wilker]... mas a história na china (gosto de samurais, mas samurai é no Japão).. e o livro? O livro é uma história engarrafada em papel? Mau exemplo. Então olho a estante e pergunto quantos mundos, quantas pessoas estão ali. Assombração. [Minha casa é assombrada, asombradíssima] Se todas as pessoas da estante saírem e começarem a mexer de lá pra cá e daqui pra lá, se todo mundo quiser conversar não vai dar certo, Babel de hoje. Cada livro tem quantas 3, 10, 20 pessoas? E mil livros? E os lugares que não batem uns com os outros, um anda de diligência, outro de foguete e outro de metrô. Cada um fala um idioma (mas estão traduzidos)...Como colocar todo mundo pra se entender?

E os defuntos? Quantos corpos ensangüentados, asfixiados, atropelados vão se amontoar aqui no chão da sala, quantas explosões de alquimistas loucos e tiros de canhão? E Napoleão falando com o condutor do metrô de Londres? E o vampiro no templo budista? O padre na bacanal (isso é normal). Quantos trens vão passar e quem vai entrar em qual? Fazer disso tudo uma história? Posso. Mas vai virar a história das histórias ou a história dentro das histórias ... e se eu virar um livro? Se eu virar um livro quem me coloca na estante?Posso deixar um personagem aqui fora, não impresso. Eu não sou mais eu porque vivo na Gamboa e tenho uma mulher que tem um amante que é traficante e me vejo às voltas com um plano mirabolante do assalto ao mirante.

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lavar

Confundem
Não sou o perdido, caminho no mar como um jesus que não deu certo e vou em busca de ilha, oásis, qualquer lugar que me entretenha. Não, que não entretenha. Não dou conta das informações, não quero tantas informações, não quero rádio nem internet nem jornal.... é coisa de mais... assim não consigo andar com a releitura de Lawrence Block (o mais fininho) e já me provoca ali Geraldinho com seu "lira dos cinqüent'anos" ...tá, vai um fragmento:
(assim, se não se sabe se uma pena
é uma pena ou é uma pena
também nunca se sabe se uma rosa
é uma rosa ou é somente a insígnia
o enigma ou a senha ou a metáfora
significando alguma outra rosa)

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Legal né? Não vou postar mais não, leio para mim, guardo para mim, quem quiser que vá atrás do livro, vá atrás do Geraldinho Carneiro ou, como eu, também se deixe arrebatar por Fino Sangue de Marina Colasanti ou embarque na magia (nova e velha) de Jonathan Strange, esse tijolaço que me provoca da estante.
Estou aqui, no meio do mundo, olhando tudo isso em volta e andando no mar, buscando um oásis, não esse oásis comum, mas um oásis hiato, hiato de tempo que me deixe afundar em tudo isso que me aguarda, tudo isso que mexe e remexe e me provoca, querendo me ensinar, como Farrapo me ensina e ajuda e levanta (e mais), como a chuva cai como o banho de antes e lava, levando tudo, levando tudo para onde deve ir porque eu sigo, eu não sou ontem nem hoje, sou apenas [e já é muito], a perspectiva de amanhã.

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da chuva

O que de enluquecer?
Enlouquecer só de amor porque o homem enlouquece
O homem, bicho danado morre do tal amor
Que não é visto
Não está ali nem acolá
Está aqui dentro como lâmina
Que corta essa carne velha
Que de dá comer
À baia [dos porcos]
Do homem que desfaz e refaz e desfaz
Do não que, repetido, vira sim
Da noite breu, negra, oculta
Estou oculto eu agora
Mas renasço ontem pulando hoje e olhando amanhã

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25.8.05

Insônia

Um mesmo tempo (número de horas diurnas e noturnas) pode ter significados diferentes. Para mim tem. Quando eu era bem jovem sofria de insônia e me valia para ler até não mais poder ou para sair e passar noitadas conversando, tudo regado à vodka. Num determinado momento, se não me engano, a insônia começou a ser um problema. Procurei um médico que me deu alguma coisa para dormir.

Naquele tempo eu achava que o problema estava resolvido, não imaginava que estivesse começando. Embarcar no tratamento psiquiátrico é pegar um trem que não se conhece o destino. Pode ser breve, duas estações talvez. Pode ser longo e viajamos e viajamos, podendo viajar a vida toda. Uma coisa leva a outra: os motivos, as questões, o tipo da doença e a resposta do organismo.

Fazer tratamento psiquiátrico é uma coisa feia de se falar. A gente pode ser cardiopata, pode ter problema nos rins, no pulmão, unha encravada, mas doenças psiquiátricas não. O mundo não aceita. As pessoas te olham de lado. Te consideram doido e deixam de te dar atenção ou acham aquilo tudo frescura que seria melhor resolvido com uma boa tina de roupa para lavar.

Mesmo quando você é alcoólatra ou dependente de drogas, a sociedade acha melhor procurar esses grupos de ajuda, tipo A.A. Tudo é aceito, menos um psicólogo. Os planos de saúde dão direito a tudo, menos a psicoterapia, o patrão tem pena e aceita que você fique um mês em casa porque engesou o pé por um mero entorse, mas não entende sua ausência por três dias se disser que está deprimido, por exemplo. É assim e não tem jeito.

Falo tudo isso porque os psiquiatras sabem o que sentimos, entendem a ansiedade, a depressão, a insônia e têm um pequeno, mas importante e eficaz arsenal de medicamentos que aliviam. E trabalham lá com seus remédios para a insônia. Quem tem insônia de verdade não dorme com Valium nem Lexotam e os médicos comuns, ignorantes, só sabem receitar essas porcarias que não servem de nada.

Nem sei porque estou dando essa volta toda para tratar de um assunto bobo, para contar uma coisinha simples. Durante anos e anos da minha vida meu problema de insônia foi definitivamente resolvido. Se preciso ou quero, não tomo nada e não durmo. Se quero dormir, tomo a medicação apropriada e durmo. De uns poucos meses para cá durmo uma hora por noite mesmo tomando a medicação certa e em doses relevantes.

E aí é importante contar que, quando você precisa e quer dormir, a insônia é o próprio inferno em vida. Ser condenado a não dormir, é ser expurgado do mundo, é ser torturado, é perder o prumo, não saber mais o que faz. Quando não é por sua vontade, a insônia te derraba, te puxa o tapete, te assusta, enlouquece. Tenho dormido uma hora ou menos por noite. Portanto, posso enlouqcer e rasgar esse blog inteiro.

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24.8.05

Não sei que caminho é esse.
É escuro, percebo na minha cegueira
E me pergunto se não terá fim
Acho sim que não terá fim porque já caminhei
Já andei de um lugar para o outro
E dormi em pobres hospedarias
Tinha um caminho a seguir e fui
Mas agora sei que estou num esgoto
Sinto a lama aos meus pés, ouço as goteiras e os ratos

Vim de outras terras
Sem esgotos, ratos, dor
Caminhos de paz, de amor, de luz...(mentira)
Chuvisco de televisão e criança loura linda e morta
Celeiro abandonado com seu enforcado
Planície que olhamos sempre com temor
Encruzilhadas onde os espíritos se falam
Noite, noite, noite

Mulheres nuas na estrada de terra
Mulheres nuas que se entregam a lobos e gozam
Gozo guardado por elfos
Magia combinada de rãs e gozo
Noite de lua cheia com morcegos
Passam voando pela lua como desenho animado
Não. Não tem mais ninguém animado

Minha gente sai daqui, foge desse lugar maldito
Foge dessas almas sem paz
Querem todos um lugar sem enforcados
Na cidade grande, acreditam, não tem dessas coisas
Não sabem o que é a cidade
Não sabem das ratazanas e dos esgotos

Assim, de uma forma ou de outra
Todos acabaram no limbo da desgraça
Ou com seus fantasmas de casarões campestres
Ou com as ossadas encontradas nos túneis
Dos modernos metrôs.

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Noite, noite, noite
Noite, noite, noite. Os pecados da noite. A expiação dos meu pecados na noite. Nada a fazer a não ser acordar, fumar e dormitar novamente. Está calor e percebo que os astros não estão alinhados, que os céus não são propícios. Quando os céus e os astros estão distraídos, tudo aqui na mãe Terra desmorona, tudo falha. Não podemos continuar presos eternamente presos no plasma entre duas dimensões.

Não posso estar agarrado a esse meio de caminho, nesse prepício que vai me atirar lá embaixo a qualquer momento, que está me avisando, me mostrando que Terra e Céu não se entendem na minha conjugação. Talvez haja um anjo mal que me segue, que, de preto, está sempre a meu lado com seus olhos vermelhos, estrelas flamejantes. Talvez não seja nada disso, seja uma outra coisa tão diferente, tão distante que eu não conheça, nunca tenha ouvido falar.

Serão deuses do sono que não me querem mais dormindo? Serão remédios inapropriados, que ficaram misteriosa e repentinamente obsoletos como num passe de mágica. Será que meu corpo e alma estão num período de transformação tão radical que toda a descarga de sofrimento venha para meu corpo? Será uísque barato de menos? Maconha? O quê?

Alguma coisa mudou, rachou como um espelho que trinca no meio da madrugada sem que nos demos conta. Há um espelho trincado em todo o meu ser, na vida, sinto, sei que é isso. O metrô corre nos subterrâneos na madrugada e eu estou nele. Olhos fundos e vontade de saltar. Sou prisioneiro de um metrô em alta velocidade que partiu não sei de onde e não tem destino, não tem a próxima parada.

O sobretudo de lona está jogado no chão de uma estação vazia, sem ninguém, apenas com lâmpadas de luz fria que piscam e fazem ruídos ameaçando queimar. Minha roupa, minha pele não está mais em mim. O vagão está deserto, tudo está deserto, mas o metrô voa sem destino.

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22.8.05

Rede para Todos

Acho que foi num desses cadernos de informática que li mais uma reportagem sobre os amores na internet. Fazem longas análises, existe uma sociologia e mesmo uma antropologia da relação entre pessoas na internet. Acendo um cigarro com fósforos porque meu isqueiro acabou, escovo meu gato e fico pensando nesses relacionamentos.

Eu digo sempre que acho a internet emburrecedora sem, entretanto, negar as vantagens, a quantidade e a velocidade com que chegamos às iformações. Muitas dessas informações são furadas, mas muitas não são. Todo mundo vira escritor na internet, todo mundo publica, todo mundo é autor de alguma coisa, nem que seja de uma frase só. O que escrevemos na rede fica por lá, boiando num supra espaço sem dono.

Acho que estamos sem dono há mais de um século [não sei se isso é bom, porque sei o preço da liberdade], mas ainda mais sem dono e mais libertos estamos na internet que dá voz a eruditos e a boçais. Realmente acho que a grande maioria é de boçais porque a ignorância é muito maior do que a informação no mundo todo e mil vezes mais ainda no Brasil.

Mas concordo com a matéria do jornal quando diz que nos mostramos mais e conhecemos mais as pessoas quando o contato começa na internet. Realmente vemos logo se a pessoa sabe escrever, se é burra, quais seus anseios etc. Presencialmente tudo isso leva mais tempo. Só perdemos porque não vemos a pessoa. Quem quer ver quer o quê? Ver se serve pra ir pra cama logo? Bom, aí o presencial é imbatível porque mesmo fotos e web cam não dão a dimensão física exata do outro.

Mas desconfio também de quem se aproxima das pessoas apenas pelos seus atributos físicos. Claro que a estética é sempre mais do que fundamental e uma pessoa bonita é muito diferente de uma pessoa feia. Isso pode influenciar muito sim (não sejamos tão canalhas dissimulados!)

Já tive curiosidade e paciência de ficar conversando com desconhecidos naquelas salas virtuais onde as pessoas se encontram. E encontrei muita gente legal. Encontrei muito lixo também, muita escória, gente jeca, tola, retardada, como de resto na vida de uma maneira geral. Acho que o saldo foi bom. A popularização da internet vinda com o barateamento dos computadores mudou um perfil mais elitista que a rede possuía sim. Hoje converso com professoras de literatura e empacotadeiras das Casas Bahia. Se tenho preconceito? Tenho. Preferia conversar só com gente inteligente e bem formada. Não é mais assim, o que fazer?

Como a internet ficou acesível para todos, entraram camadas da população que não me interessam e com isso posso perder mais tempo para falar com pessoas legais porque sou elitista. Detesto gente burra, detesto gente que não sabe o que eu sei ou que não tem a me dar coisas que não tenho. Enfim, coisas da modernidade, de um mundo mais unido, um mundo onde todos estão em todos os lugares em pé de igualdade (à princípio - e não tem nada a ver com democracia, é outra coisa).

Não aceito essa igualdade porque minha soberba não permite. Acho que ninguém devia se permitir conversar com pessoas que não têm nada a ver só para bater papo. Acho idiotice e perda de tempo. Agora tem gente que entra na net para se prostituir, tem pedófilos, tem gente que não sabe grafar as palavras, tem tudo. É uma Babel. Não é mais uma questão de concordar, de querer ou não. É assim e pronto. Não só nas salas virtuais como nos blogs. É a pasteurização dos meios de informática que inicialmente eram mais nobres. Essa nobreza acabou.

Mas continuam existindo pessoas legais porque elas não podem voltar atrás, não podem jogar seus computadores na lata do lixo, pelo contrário, estão cada vez mais perto, mais diante deles! Não sei o que vai acontecer. É uma realidade e pronto. Tão cedo não inventarão outro veículo para que possamos fazer uma nova seleção em castas. Minha geração tem esse meio e pronto. Acho que é saber usar, entender (ou procurar entender), dar sorte. Talvez acender uma vela ao lado do teclado ou em cima do monitor.

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21.8.05

Existencialista-Esotérico

Fico pensando nessa confusão toda em que me meti. O que aconteceu de fato? Não sei. Parece que tudo começou uma noite ou madrugada e quando despertei o mundo estava diferente. A própria cor do céu, avermelhada ao extremo, era anormal. O mundo estava mudando. O mundo, o amanhecer, a vida, não era a mesma do dia anterior nem de toda a vida que conheci. Poderia ter tomado um drink um pouco mais tarde, mas preferi estar sóbrio.

Quem está mexendo os cordéis que alteram a vida? Deus? Anjos? Demônios? Se estou convencido de anjos e demônios? Sim, estou. Sou ambíguo e contraditório. Sim, sou. Ora estou absolutamente cético, com fumaças de ateísmo e ora estou como um xamã entre velas e incensos pedindo muito, pedindo para alterar determianadas partes da realidade, querendo mexer com os maternais, a magia pura, enfim!

E como eu posso explicar minha atitude? Acho que não posso. Bom, não tenho que explicar nada, posso andar pra frente e pra trás à vontade, mas não se trata disso. Fico pensando que podemos alterar nossos estados de consciência inclusive porque é isso o que acontece, os estados de consciência de alteram e não quero me colocar limites. Quero deixar minha espiritualidade ou minha mente fluir, andar, sobrevoar todas as possibilidades dessa ou de outras existências.

Sim, sim, insistirão em que sou místico e cético e é mesmo verdade, sou assim. As imagens sacras, o lume das velas, as cartas do tarô e o incenso me fascinam assim como me fascina o existencialismo de Sartre. Incoerência. Sim, total. Mas preciso transitar nessa mescla que a própria vida mostra. O que há de verdade na Umbanda? Nas bruxas.... no Ocultismo? Sou um mago? Nada disso existe e sim uma outra dimenção de aspecto científico? Ou nenhuma das opções acima? Eu não sei. Não tenho certeza, mas quero mexer com cada uma delas, me sentir à vontade transitando por todas essas alternativas humanas e esotéricas. Sou um existencialista-esotético.

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15.8.05

perdição

Os cigarros correm, um seguido ao outro, até que quase não respiro. Cinzeiros abarotados são frequentemente limpos pra daqui a pouco serem derramados novamente no lixo. A garrafa com um terço de uísque está ao lado da cama, destampada. Algumas folhas de jornal também e em cada folha há uma notícia de brutal assassinato, de tragédia grotesca. Na mesa cambiante, ainda há no espelho partido o restante de uma carreira de coca.

O quarto tem um cheiro acridoce de suor, álcool e mais alguma coisa que não identifico. Võmito talvez, não tenho certeza. O papel de parede está rasgado e manchado, os tacos do chão estão, muitos, soltos e a decadência está por toda a parte como a lata de comestível aberta em cima da pequena e conjugada pia, lata em que se deliciam três enormes baratas.

O apartamento é muito pequeno onde mal consigo transitar com o gato velho, gato de pelagem escassa e feridas à mostra. O ambiente não agrada ainda mais quando lembro que estamos localizados num bairro, numa zona perigosa, numa rua que só transitam traficantes, travestis e prostitutas, onde mendigos chateiam os que ainda não foram assaltados e só o pesadelo do crack alivia o horror do ambiente.

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Pânico

Quando a noite não é dormida de início tudo desanda. Quanto mais tentamos dormir, mais acordados ficamos independente das quantidades cavalares de soporíferos. Mais suporíferos bebidos já na pia do banheiro mesmo, mais cama, mais noite que não acaba, sono que não vem.

Os narcóticos fazem, induzem de vez em quando não ao sono, mas a uma espécie de desmaio. Nesses momentos, pesadelos hediodos se abatem sobre a mente, como estarmos sendo mordidos por milhares de morcegos ou apanhando da polícia num pau de arara, num subterrâneo de uma delegacia.

O que está acontecendo? O que anda pelo espírito atormentado que só retém o mais brutal? (Havia uma menina de 10 anos assassinada, com as tripas para fora, rodando num gancho de açougueiro)... Havia ainda uma ex-mulher com calúnias inenarréveis.. Setephan King ou Allan Poe não pensaram em tamanhas barbaridades.

Sou um massacrado por um mundo brutal, uma vida brutal onde a nada é sonho, a realidade é transfiguarada num pesadelo eterno, onde a morte parace a alternativa para a paz apostando em que não exista o inferno. E se houver? Não, a morte não é alternativa e como a "única alternativa" não deixa de ser a morte, existimos num vácuo sem opções.

Desde muito pequeno tive coinsciência desse vácuo de que somos prisioneiros. Uma ampulheta gigante onde estamos misturados com a areia e, vagarosamente vamos caindo, não se sabe a que momento, mas sabemos que cairemos para a parte de baixo sem podermos vê-la, sem sabermos o que há, o que haverá.

Uma existência de suores frios e perdição, de palmas de mãos úmidas, de herror individual, constante, escondido, olhando a história dos campos de extermínio nazista como um pequeno e momentâneo mal, um cismo eventual. Fico pensando que todas as vidas serão assim. Se não são hoje, serão um dia, porque refletimos o horror que a vida impõe, os horrores desse mundo, desse pesadelo que se mistura entre a vigília e o atormentando e entrecortado sono eventual.

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Quando a noite não é dormida de início tudo desanda. Quanto mais tentamos dormir, mais acordados ficamos independente das quantidades cavales de soporíferos.
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10.8.05

Contrários

Falo das redundâncias e repetições. Quanto mais dias e anos se passam, mais repetimos coisas, mesmo com visões diferentes. Não tenho para mim as novidades porque o Universo em seu movimento é estático. Em suas órbitas, planetas e estrelas são estáticas.

O homem está paralisado no meio da rua escura pela força da gravitação./// Não consigo voar, a cabeça é uma bola de ferro que me atira longe, mas sempre ao solo. Caio no chão arenoso e não vejo se é argila ou asfalto. Os dois, ou nenhum dos dois, nesse campo lunar com avenidas e edifícios. Perco meu Neruda (!) e vou encontrá-lo no lixo aceso [fogo].

Olho para a frente e vejo atrás. [Sim!] A velha história do espelho. O que temos na frente de nossa vista é um espelho que nos mostra o passado. Só é possível filosofar, pensar e agir (e respirar) olhando o passado porque o futuro não existe. O que é o futuro? O futuro é um nada, uma promessa metafísica, um licença poética.

Futuro é um ideal baseado no passado, futuro é uma licença poética que usamos para sonhar apenas. Não tenho como ver nem vivenciar, nem sentir nem nada. Futuro é o espaço, o universo, o tudo e o nada. O futuro inicia e termina na morte que pode ser daqui a 100 anos ou um segundo. Quem pode saber? Deus? Mas Deus só pode estar atrás, depois do futuro! A morte? Para os viventes a morte também é passado.

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Rabiscar

A calçada é mal conservada, a rua é suja, chuto pedras e latas. Olho para cima e os prédios negros me constrangem como me constrange o mundo. Lembro de passagens, de pessoas que se mostraram amigas, de rostos recortados numa vida inconstante, de inconstantes momentos e vivências onde o tudo, a soma de todos os tudos, resulta num Nada magistral, imbecil.

Deixo roupas pelo caminho, visto-me com uma vagabunda capa preta de chuva. Não adianta essa coisa de roupa e cabelo e unhas e tudo o mais que alimentamos em toda essa vida vagabunda. Essa vida que eu fico tentado a chamar de rasa e essas palavrinhas bobas não tem nada disso: a vida é vagabunda como vagabundos são os viventes.

Olho para a frente e não vejo nada, só a escuridão da incerteza, as necessidades, as doenças, os problemas de toda a ordem que não podemos mesmo resolver e o espelho, eterno espelho, que nos mostra patetas relutando para conquistar e sair de um nada metafísico, uma esperança de ascenção estúpida como se valesse a pena.

Não acho que valha a pena. Tem gente morrendo ao meu lado de todas as idades e classes sociais e a ressonância é pequena, localizada na família e alguns amigos que depois seguem adiante como se não estivessem caminhando para a encruzilhada fatal em que nos matamos ou nos arrastamos na lama do sofrimento até a morte indigna. Quem está na Discovery ignora que corremos e morremos. Não existimos vistos de cima.

Releio e vejo um texto vagabundo que não acrescenta, que não pensa muito nem se expressa bem, um texto que não deveria ser publicado, que estaria melhor nas anotações de um caderno condenado à destruição. Não vale ficar pensando nas coisas e escrevendo porque cansa quem lê, não leva a nada. Muito melhor ler um livro do Paulo Coelho, por exemplo.

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5.8.05

Literatura

A Rússia tem essa gigantesca influência nas letras de todo o mundo. Dizer que quem não leu Tolstoi, Techekov ou Gorki não leu nada é uma verdade inquestionável. A maioria dos russos que nos lembramos são clássicos. A formação cultural dos homens de qualquer parte do planeta passa necessariamente pela literatura russa. E parece que a enorme maioria da produção russa é anterior à Revolução de 17. Parece.

Fico me perguntando se não escrevemos mais clássicos, se chamamos de clássicos apenas aos antigos escritos. Talvez sim, talvez apenas a perenidade de um livro possa alçá-la a condição de clássico. Portanto, a produção contemporânea poderá ser muito boa, execelente, mas somente nossos netos dirão o que é um clássico do século XX ou XXI.

E ficamos arrotando esse ou aquele clássico antigo sem nos darmos conta que temos aqui e agora, em mãos um livro que será clássico (no sentido amplo da palavra) da qui a 50 ou 100 anos. Ulisses de Joyce é um clássico? Não sei, acho que não. O Brasil tem clássicos? Grande Sertão talvez? Me parece que não.

Mas faço essa anotação porque não se fala muito sobre a produção literária na Rússia pós revolução, da produção literária soviética. Stálin matava quem escrevesse contra o sistema. Posteriormente, Khruchtchev não fuzila mais os artistas contrários ao sistema, mas trancafia suas obras. Deixa os corpos, mas prende os espíritos. Há um regima de exceção. A ditadura do proletariado, mas os intelectuais russos (ou soviéticos estão lá, mesmo com medo, produzindo). Muitos são assassinados pelo regime, outros aprisionados pelo resto de suas vidas e outro ainda, conseguem driblar tudo e deixar obras fantásticas.

É o caso de Vassili Grossman. Intelectual, brilhante escritor que, com maestria driblou o terror soviético e escreveu para jornais e revistas, produziu contos e novelas e obras fundamentais de literatura como 'Vida e Destino' e 'Tudo Passa'. Sim, 'Vida e Destino' foi apreendido por Khruchtchev, mas terminou por ser editado em 1980 após a morte do autor. Temos outros exemplos por todo o leste europeu. Intelectuais censurados que deixaram excelente produção literária.

O Brasil é um país pequeno, raso, de iletrados. Nossos intelectuais, entre um chope e outro, dizem que nossa produção intelectual foi ceifada pela censura à época do movimento militar. Não é verdade. Salvo uma ou outra exceção, a literatura brasileira é pífia. Na música popular, por exemplo, onde somos pródigos, Chico Buarque e tantos outros produziram como nunca exatamente sob o período da ditadura militar. Portanto, deveríamos rever nossa própria opinião e estudar um pouco mais. Deveríamos conhecer o que se faz e fez no mundo em condições muito mais adversas e reconhecer que nossa capacidade intelectual (sim, existe) é rasteira se confrontada com a universal.

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4.8.05

Nada

Sim senhor, caminho este caminho há mais tempo do que era de esperar e a dor não diminui, me aperta o peito e oprime não só por mim, mas pelo outro. Não. Errado. Me oprime pelo não outro, pela ausência, pelo vazio que me instiga como um livro de páginas não impressas, um livro jogado sobre a mesa qe o vento desfolha sem que um poeta se aproxime... não passo além da cortina porque sou caminhante, mas meu rumo é putro, sempre outro, sempre alhures....

Não me conformo mais com essas coisas, com a mesmice dos dia que segue a noite que segue o dia e a primavera a anteceder o verão...são assim as pessoas da minha aldeia e não posso mdar a aldeia porque se diz que não mudamos a aldeia... não sei. Mudo-me eu, então.

Não, não sei para onde ir, sei apenas que sigo sozinho, que trilho a estrada mágica desse show sozinho, maravilhado com as luzes da ribalta e com o lume assustado do temeroso escritor do regime stanilista... leio sobre ele e imagino como terá sido solitário escrever dizendo que era preciso nas entrelinhas....

Não sigo esse caminho porque é um caminho de história e a história me serve de base, não de oxigênio, não respiro historia, não há muito mais do que apenas conhecer a história... ela está atrás de mim, foi ontem e, mesmo eu sendo ontem, sonho em ser amanhã ou ao menos ser agora...

Para ser agora olho nuvens e carneiros e tôo a carne quente que vibra não pelo toque, mas pela possibilidade de, pelo que prenuncia, pelo que lembra do passado... toda carne tem assado, toda carne lembra do passado, compara faz e acontece... a carne é à parte do mundo, a carne é o corpo do poeta que não habita mais em mim porque perdi a condição humana... perdi o que lutei para conquistar e, pensando bem talvez não tenha perdido...

Não. Minha carne sangra e a alma sangra e todos sangram eo mundo é sangue, escorre pelas paredes da vida... quem caminha nessa vida? Olho, olho, procuro, busco e não vejo a pastora... sangue, mais e mais sangue nessa terra que geminou por caua do sangue... tudo por causa do sangue e do negror...

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2.8.05

O site do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas é bacana e importante....uma ilha no mar de bobagens da internet
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José Carlos Oliveira

Se leio com tanto prazer as crônicas de Nelson Rodrigues, João do Rio, Augusto Frederico Schmidt além de Lima Barreto, Luis Edmundo e outros, fico mais ou menos consrangido ao ver a resenha de O RIO É ASSIM de José Carlos Oliveira. Carlinhos foi quem primeiro, na década de sessenta, setenta, decretou a morte de Ipanema [que, levianamente, repito tanto hoje em dia]. Falou do Rio que se desbundava, fez seu escritório no Antonio's e privou de intelectuais e simples bebuns que faziam o caldo cultural da época. Sem falar de Vinicius entre tantos outros. Mas não era só o desbunde nem a contracultura. Carlinhos foi um humanista de boa cepa. É imperdoável não ter seus livros na estante, não saboreá-lo e consultá-lo com freqüência.
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Refresco

Assistito a entrevista de José Midlin que encomendei à TV Cultura. Prazer em ver aquele senhor de idade falando com tanta lucidez sobre seus cinqüenta mil livros (oito mil ele já leu e espera viver mais trezentos anos). Vejo o prazer com que ele manuseia seus livros, como mostra sua biblioteca, conta como a iniciou desenvolveu. A paixão incontida, o carinho de um homem que devotou sua vida ao livro. Legal, né? Quando paro de assistir a entrevista é como sair de uma esécie de ilha da fantasia e esse mundo idiota desmorona novamente sobre mim.
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Auster

Em meio ao tiroteio nacional, em meio a toda a lama, a todos os articulistas e resenhistas estarem ocupados com os escândalos nacionais, consigo uma brecha para ler 'Desvarios no Brooklin', delicioso livro de Paul Auster que acaba de chegar às livrarias. Consigo por um dia e meio me enterrar na leitura saborosa, tranqüila de um autor contanto as peripércias de seus personagens, falando da vida como ela realmente é ou pode ser. Não há nenhum escândalo, nenhuma ansiedade. O texto flui e não conseguimos largar o livro de um Auster que vem melhorando à cada livro, tornan-se um dos grandes autores americanos sem a pretensão da genialidade, do Nobel ou de ser um clássico. Auster consegue a façanha de relatar as aventuras e desventuras da vida, as reviravoltas, as emoções que podem rolar na existência de qualquer um de nós. (Talvez não em brasileiros, mas em pessoas de países desenvolvidos). Imperdível.
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Encurralado

Jurei a mim mesmo não falar mais do escândalo, do mar de lama e corrupção em que o Presidente da República jogou o país. É um assunto desagradável, vergonhoso e que está mais do que coberto por todos os veículos de comunicação. Portanto, se o delírio da inocência de Lula for provado, ótimo. Se ele for culpado como insinuam deputados de situação e oposição, imprensa etc., ótimo também. Que façam justiça [se quiserem, não me importo]. Ou, em se tratando do Brasil, não façam nada.

Não é isso o que me interessa. Dizem que o Brasil está quase parando por causa dos escândalos, por causa das averiguações e toda essa coisa. Também não me importo que o Brasil pare, até porque não me lembro de ver o Brasil andando. Acho que para o mundo civilizado é irrelevante a opinião dos brasileiros se o país está andando ou parado.

Tem coisa pior do que tudo isso. O pior é que não temos mais tempo para nada, não conseguimos mais saber de nada. Minguaram as resenhas e críticas de espetáculos teatrais, filmes e livros. Acabou o debate sobre cultura, sobre o que se anda fazendo de novo (sim, é verdade, não se anda fazendo nada de novo). De uma forma insana, acabamos perdendo horas e horas da nossa vida lendo jornais que falam de cabo a rabo do mar de lama que assola o país e reconheço que acaba viciando, não conseguimos parar de ler até porque o que sai no jornal da manhã muda completamente no telejornal da noite. São muitas reviravoltas, não terminam os fatos novos.

Uma amiga me dizia que quer ir ao cinema, quer trabalhar em paz, quer ler os seus livros e sair para tomar chope com os amigos e não consegue mais nada porque só existe um assunto: a corrupção. Já sei que o Presidente da República é o cidadão mais ético do país, o mais honesto e tudo o mais. Já sei que sou elite e que não vou fazer com que ele baixe a cabeça, retirante que subiu na vida e tem como maior capital a honradez. Tudo bem, corrupto sou eu, mas deixem que exista uma vida paralela e menos chata além dos depoimentos, CPIs e escândalos.

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1.8.05

duas vidas

O abandono dos manuscritos por tempos indeterminados atrasam o projeto que tenho de escrever todo o diário nos cadernos. O diário não é diário porque não é escrito todo dia. Deve ser escrito de vez em quando. Há cartas também, cartas não enviadas ou cópias de cartas enviadas (ou recebidas).

Procuro cadernos com folhas de papel bem fino, papel bíblia e não encontro e nem sei se existem. Acho que sonhei que tinha ganho muitos cadernos de papel bíblia e neles escrevi tudo o que foi a minha vida e escrevi também o que poderia ter sido. Porque eu tenho uma vida aparentemente não vivida, uma vida paralela que é tão minha quanto essa, conhecida.

Tentei seguir o caminho da esquizofrenia, mas não me foi permitido. Esquizofrenia tem prazo de validade. Eu passei do prazo e não posso me valer dela. Fiquei inconsolável, mas terminei por resolver o problema [com a ajuda da literatura] de uma forma simples: mesmo sem ter uma doença que me proporcionasse uma atitude assim, rompi de qualquer maneira com a realidade e criei uma outra vida para mim.

Borges ou Casares abriram esse caminho. Existe uma outra vida em que mandamos cartas e escrevemos com pena, que temos tempo para ler e que a cultura não está no Google. A Britânica ainda está no centro da estante e posso ouvir Piaf sem medo porque estou num outro tempo, num tempo em que a vida dá reviravoltas e hoje faço uma coisa e amanhã outra, em que o tempo passa mais devagar.

Porque o que mais nos incomoda mesmo sem percebermos é a velocidade das coisas nessa vida. Não temos tempo para ver, perceber tudo como deve ser. Não podemos sentir todas as coisas que estão dispostas. Depois eu explico, mas não vou arriscar uma reencarnação em que não acredito. Vou viver duas vidas nessa aqui.

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