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Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida. O impossível na raça humana são justamente as pessoas. Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes. Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida. Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka. Sempre teremos Paris.... Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues) Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes) A calma é inimiga da perfeição "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett "Toda mulher devia ser a Sandra Bullock" "A Tsunami é Aqui!" "Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real" "O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..." "A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite." "A Internet, repito, imbeciliza as pessoas." "O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow. "Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise." "Dormir de dia é um suicídio inconcluso" "O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo "A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues "Ser me ocupa bastante" A. Gide "Nada como a brancura cadevérica de um Pé" "Acordar é como um renascer com as cartas marcadas "A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia". "Matar-se é fazer poesia!". "'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee "Só o suicida morre dignamente". Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança. Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. . O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. . |
29.10.05
"A voz das águas é mais bonita que a das estrelas. Diz coisas de tímido sabor, que o homem e as harpas não sabem dizer" Antônio Maria [Seja Feliz e faça os Outros Felizes} Tava ali deitado na cama e pensando na vida. Chove lá fora, como choveu muito ontem e deverá continuar chovendo no final de semana. Como vai a sua vida? Você está bem? Quando a gente abre o jornal e não tem vontade de ler porque só vai ler coisas ruins, procura na TV apenas os canais internacionais de filmes... o que essas coisas estão dizendo? Acho que nada vai bem porque falta amor. Falta carinho, companheirismo, entendimento. O que a gente está fazendo de verdade com a nossa vida vivendo um só dia sem carinho, amor e amizade? Uma parte do mundo está em guerra e dois terços da humanidade vive na linha da miséria. Eu e as pessoas que estão lendo não estão incluídas em nenhuma dessas situações. Estou contente com a vida? Não, a vida pode ser chata como pode ser divertida, mas convenhamos que não é. Temos lá os momentos de divertimento, de alegria, momentos que a gente se sente feliz e sorri. É a saída para o chope com os conhecidos, é o prazer da leitura agradável, do filme que distrai, é quando pensamos no que vamos fazer no futuro. Mas que futuro? Planejar o futuro não é um exercício mental arriscado? Como saber se estarei vivo daqui a um ano ou daqui a dez dias ou uma hora? Como saber se não estarei muito doente ou morto? O tempo não pára, as coisas vão acontecendo rapidamente e a gente não se dá conta de que está ali, bem no olho do furacão! Falta alguma coisa que ri, alguma coisa que chora, alguma coisa que cata e dá razão para tudo. Existem essas coisas? Chove lá fora. 28.10.05
O A.I. 6 não declarado O que mais há nesse mundo são pessoas erradas nos lugares errados. Ou pessoas ocupando lugares errados ou lugares errados para aquelas pessoas. Não sei bem como explicar porque vivemos um período de ditadura e se eu disser nomes e cargos,serei torturado (não aquela tortura honesta do DOI CODI). Serei torturado de outras maneiras. Não sei se vocês já reparam que somos censurados, que estamos em tempos bicudos, que não temos liberdade de expressão nem de ir e vir. Existem várias formas de controle. Você pode torturar, por exemplo, pela ameaça. É mais ou menos como ter um cutelo apontado para decepar o seu pescoço. Você continua vivo e fazendo as coisas. Se fizer alguma coisa que não agrade ao verdugo, ele te corta a cabeça fora. Para não desagradar ao verdugo você não faz nada ou quase nada. Evita dar opiniões, se manifestar, dizer o que pensa. Fica-se num constante estado de medo pelo que poderá acontecer. Não estamos no pau de arara levando choques nem etadas: estamos acuados sem saber o que pode acontecer no momento seguinte. Na época da ditadura militar você tinha dois lados, podia escolher por um deles e sabia muito bem o que aconteceria se fosse pego. Agora não. Agora não existem lados porque todo mundo finge que não existe ditadura. Assim nada é proibido. Só que a maioria das coisas é proibida, proibida sem lei, sem estar escrita, sem ser explícita. Vivemos o sombrio AI 6 não declarado. O terror e não saber de onde pode vir o descontentamento, é pensando que está numa democracia, não saber o que é proibido e em qual momento virá a punição e qual será ela. No tempo da ditadura militar a gente sabia que ia apanhar, ia sofrer afogamentos, ia levar choques elétricos, iam jogar bichos em nossos corpos nus e nos manter presos por anos a fio ou nos deportar. Agora não. Agora tiram o pão da boca dos nossos filhos quando nos tiram o emprego ou tornam, fazem com que o trabalho fique insuportável para que a gente tenha uma crise, um rompante (motivo para a punição). Não se iluda, caro amigo, a ditadura está instalada. O torturador mora, anônimo, ao lado. Salve, Gente! Anteontem, quarta feira, 26, morreu Roberto Moura. Quem era Roberto Moura? Poucos sabem. Antes de tudo e principalmente um artista. Um amante da MPB e do samba. Um estudioso e profundo conhecedor de nossa mais genuína música. Historiador talvez. Escreveu não sei quantos livros sobre nossa música popular. Querido nos meios do samba, da música. Professor universitário. Boêmio moderado. Fiz alguns programas musicais com ele. Tinha 58 anos e morreu assim, como um fósforo se apaga, de dengue hemorrágica. Estou chocado e pasmo. Ele fazia uma coluna no programa que dirijo. Começava a falar sempre com uma saudação malandra e gostosa, como quem chega numa roda de samba, "Salve, Gente!" Suas aparições eram sempre um alento de cultura popular, de conhecimento de música, o momento brasileiro do programa. Pois morreu. E quase ninguém sabe quem era, o que se perdeu. Brasil. Não sei bem explicar, mas alguma coisa se quebrou em mim que de uns meses para cá... fiquei completamente desatento. Não me interessam os jornais nem os noticiários, os debates e os livros.... os livros não me entram, estou lendo um monte ao mesmo tempo (não por fome literária, mas porque não me prendo a nenhum). Leio uma página ou duas de cada livro. Esqueço o que li. Não entendo. Estou começando a não entender as coisas. Com certeza é o início do fim Quando fui dirigir o programa 'Comentário Geral' não sabia nada do programa nem queria saber. Não queria saber da TV, dessas coisas que a gente faz lá... sem graça, sem motivação. Uma amiga me dizia que estava me faltando motivação e era (e é) verdade. Nenhuma motivação. Fui fazer o programa e consegui me inserir e colocar algumas coisas que estavam faltando. Falta ao programa, eu acho, cultura e arte. Não tem solução porque ele nasceu assim, é esse o seu formato. Coloco o que posso, mas sei que é nada. O programa está indo (dizem até que melhorou depois que eu entrei ¿ pode ser verdade ou não ¿ não me interessa). Faço porque tenho que fazer, porque é o que há para fazer. O que me preocupa não é um programa vazio (porque a TVE está vazia), mas a minha cabeça, isso sim, a minha cabeça vazia. 25.10.05
Anotações II O enfermeiro aposentado me diz que tudo isso são apenas alucinações dos remédios da juventude. Como saber se é verdade? O que me preocupa é o término da Igreja, essa Igreja que está sendo construída desde sempre! Não vi suas fundações, mas li 'Os Pilares da Terra' de Ken Follet [dois volumes]. Quem não leu 'Os Pilares da Terra'? O anão me puxa, chama a minha atenção, diz que estou na sua frente e que ele precisa passar pois tem um importantíssimo informe para o Rei. Estou atrapalhando o Mensageiro do rei. Acabo influindo em toda a mecânica, todo o ritual desse tosco reinado! Tudo por causa do pêndulo de um relógio. O velho da Ilha do Farol entra na água e, plácido, vai ultrapassando as ondas. É noite escura e o mar se pretende revolto. Ele vê o mar que o engole na passagem da luz do farol rotativo. Não tenho alternativa porque assisto tudo como a um documentário que passa na TV em preto e branco, TV invertida porque vista no espelho (todo esse espaço fala sim de espelhos!). O velho continua entrando no mar e, dependendo das ondas, ora o vejo, ora não. Ele não é suicida, mas vai morrer porque todos morrem quando entram no traiçoeiro mar. Todo mar é traiçoeiro, me diz a campônia, essa mulher de lenço na cabeça que não pára de varrer o poeirento ambiente do relojoeiro louco. Não sei o que essa mulher tem a ver com o homem da Ilha do Farol ou o homem que era da ilha e agora é do mar (será que ele vai em busca de Yemanjá?) Vejo apenas o mar quando olho naquela direção, e virando para o outro lado vejo o careca, careca como um ovo que tem apenas uma longa e fina trança de cabelo branco que lhe vem do cocuruto da cabeça. Esse personagem só não chama a atenção por causa do monóculo torto e quebrado do outro. Monóculo que prende mais a minha atenção do que a campônia. Volto para o outro lado e constato que o velho sumiu no marzão. O mar, interrompe a campônia, sempre leva as pessoas, o mar não perdoa ninguém. Era para perdoar? Era. Ela me explica que são as sereias e seus cantos, é Janaína (Yemanjá?). Todas chamam e os homens vão e o faroleiro foi feliz. Mas não. Numa das passadas da luz do farol vejo o velho. Ele está deliciosamente tragado pelas ondas do mar de papel crepom, sua cabeça está para fora, ele praticamente está boiando e rindo-se de nós. Está sendo jogado de lá para cá e chega mesmo a nos acenar não pedindo socorro, mas num cumprimento que me parece vampiresco. O relojoeiro ri do que vou descrevendo, diz que se espanta com o timbre da minha voz e meu olhar nervoso. Insiste que o velho se perdeu no mar porque não olhou mais o pêndulo em movimento e ele, relojoeiro jamais se perderia porque trabalhava, porque não deixava os relógios pararem, não deixava o padre esquecer o sino nem o capataz esquecer o apito da fábrica (do caderno 27 B) [continua] 23.10.05
Anotações Caminho entre mulheres nuas, mulheres que me dizem perdidas, que buscam um fim em si mesmas, mas dizem que não, que sou eu que vou solucionar suas vidas. Respondo que não sou ninguém, estou sonhando e não posso misturar todas as coisas ou não me deixarão sair do espelho (sempre ele!). A mulher sem dentes ri muito, diz que sou um fracasso tentando imitar Casares. Quem sou eu para imitar Casares? Não queria vir para o computador, esse texto, essa história é da vida do homem que desconstruiu o computador. Percebi que o computador não pode existir ao lado de Dom Quixote no original, em quatro volumes. Não esses que vocês conhecem mas o que teria sido escrito por Spinoza, nos tempos em que ele ainda não entregara a alma ao diabo. Tudo isso é a confusão de uma mente atribulada e doentia que busca saber mais e mais e não tem tempo. Tirei todos os meus relógios das gavetas (e eram muitos!). Levei-os ao relojoeiro (que dizem louco) e, um a um, os pus a funcionar. A casa é um tic e tac infindo, uma profusão de demonstrações que a vida se esvai. Não posso deixar de olhar e compará-los (porque existem diferenças na marcação dos segundos) e fico imaginando se algum deles está certo. São possibilidades. Podem estar todos errados. Como saber o que nem imagino? Como constatar algo tão sem importância se na minha juventude não li os clássicos óbvios?! Claro que sabia que o dia de hoje ia chegar, que estaria olhando esses relógios muito possivelmente errados através de um espelho sem aço e não poderia contar a verdadeira história que não foi escrita (oficialmente). Anoto tudo aqui, ao lado do relojoeiro e seu monóculo desajustado. Com esse monóculo ele não pode acertar um relógio (não posso dizer a ele, não dar essa impressão, não posso nada porque nessa cidade ele é o Senhor do Tempo, é o homem que vai dizer ao padre na igreja para badalar os sinos e ao capataz da fábrica para soar o apito). Do outro lado do espelho, em meu quarto meio sujo meio limpo tem os pêndulos que balançam sem parar, me apavoram a cada ida e cada volta. Não. Estou mentindo. Sempre me pego mentindo ou distorcendo a verdade. São muitos relógios e os pêndulos de (apenas) alguns estão realmente parados. Me confundo porque preciso explicar que me apavora ver o tempo parado e ver (ainda) que isso é uma ilusão. O grande engano! O derradeiro, o fatal! O erro do homem de cem anos que pensou ter oitenta porque trancou-se na Ilha do Farol e não soube consertar o relógio. A Ilha do Farol é minha estratégia última tão logo consiga sair daqui. A Ilha foi a primeira história e imagem que me recordo. Imagem num livro de histórias onde os homens usam barbas e gorros e (ainda) tomam rum. Sempre foi assim. Com Julio Verne foi assim e fui contemporâneo de Júlio quando ele previu a Volta ao Mundo (e sou testemunha que ele não previu e muito menos disse que seria em oitenta dias!). (do caderno 27 B) [continua] Ultrapasso o último portal com a guia branca, filho de Oxalá que sou. Caminho sem firmeza e com muita determinação, se isso é possível, atravesso a charneca, o pântano e as poças sulfúricas de um mundo em ebulição, um mundo que treme com as passadas do grande Minotauro que se esconde atrás de cada um de nós. Placas que se acomodam embaixo do solo e pensamentos que não se acomodam em minha cabeça provocam o terremoto e dos tubos de ensaios intelectuais transbordam as gosmas azuis e borbulhantes. Esse estado de ebulição não é mais sentido pelos homens que andam por aqui. Voltemos então! Se de nada adiantou os cantos de Homero, se o Banquete não serviu para aplacar a ignorância, se hoje ainda discuto os mesmos temas da Ilíada, se Doris Day, Dick Farney, May West, Elvis Preley e Mazaropi não serviram, de que serve então um espaço que não é? Tenho feito ultimamente a apologia da televisão porque todo mundo tem. As pessoas têm mais televisão do que livros e computadores. Ou igual. Pois então vejam televisão! Vejam o que outros homens lhes servem à la carte já que não sabem escolher no bandejão. Eu sou do bandejão Sabe aquela cesta de ofertas que os sebos botam do lado de fora das lojas? Pois é ali que eu gosto de futucar, é ali que eu fico feito pinto no lixo, ali que encontro coisas que nem o livreiro viu. Foi ali que encontrei a 'Crítica', de José Guilherme Merquior. Pois então é hora de fazer apostas. Aposto no Sobrenatural de Almeida [dele mesmo, rs], aposto no cartoon, aposto no homem que vende cocada e na baiana que veio de São Salvador pra cá. Sou o barro dessa área, sou o negão que virou neguinha, sou o caderno de anotações, sou um nada em si, sou folha virada, folha colocada no caderno, guardanapo, folha sobressalente, peça sobressalente para trocar no homem falho. Acredito na virada do mundo, na virada dessa raça que canta, que me encanta com cores e sons sem perder as anotações. São duas coisas: a música popular e a anotação íntima. Disso somos feitos, é nosso barro. Não troco meu gato por nenhuma mulher, não troco meu gato por nenhum dinheiro nem por nenhuma primeira edição. Sou fiel. Vejo no vidro de uma Brasília o adesivo 'Deus é Fiel'. Deus é fiel? Mas, ora bolas! Eu também sou fiel. Deus não tem que ser fiel, não tem que se prender a regrinhas humanas, para isso é Deus. Então, se realmente Deus for Fiel vou passar a ser infiel porque não posso ter os mesmos atributos de Deus. Mais um chope! 22.10.05
AINDA SOBRE TVE: PROPAGANDA ENGANOSA. ANUNCIARAM UM ESPECIAL E ESCONDERAM VINÍCIUS! Ontem me deixei tomar pela emoção e escrevi um texto sobre o programa exibido pela TVE sobre Vinícius. Parece que o programa era uma co-produção da TV Cultura com mais não sei quem e se resumia a depoimentos de Carlos Lira, Toquinho e Gilda Matoso, sua última mulher. Depoimentos, pequenas histórias sobre Vinícius. Como eu escrevi, dirigi e montei um programa especial chamado Em Verdade, Vinícius, fiquei indignado antes de tudo como cidadão. No programa que realizei, haviam inúmeros depoimentos, poemas, músicais, material iconográfico, trechos de filmes, artistas convidados e muito, muito Vinícius. Infelizmente o povo brasileiro não percebe o que é uma TV Pública, uma televisão que antes de anunciantes e lucro tem compromisso com a informação para o público. Em alguns momentos uma televisão assim pode ser chata, mas na maioria do tempo é interessante e tem uma programação diferenciada, mais inteligente, informativa. Tendo em seus arquivos o programa Em Verdade, Vinícius e exibindo uma colagem de depoimentos de 3 pessoas que conviveram com ele, a TVE prestou um desserviço, sonegou ao telespectador a qualidade de um documentário completo. O telespectador e a família de Vinícius deveriam cobrar da atual administração da TVE o porquê da veiculação de um programa pior tendo um melhor. O documentário Em Verdade, Vinícius tinha o mesmo Toquinho que ontem falou de Vinícius ao lado dele, cantando com ele. Se não tinha o depoimento de sua mulher, tinha o das suas filhas, se não tinha Carlos Lyra, tinha Paulo Mendes Campos. E, sobretudo o programa em questão tinha Vinícius, muito Vinícius. Quais os critérios da TVE do Rio? Por que a colagem produzida pela TV Cultura de São Paulo ao invés do programa produzido por ela mesma, por seus profissionais? Como falar de Vinícius e não mostrá-lo? O que é mais importante do que ouvir do próprio, Vinícius dizendo que era o branco mais preto do Brasil e que se pudesse, queria ser Pixinguinha? (que participa do documentário!). O telespectador precisa cobrar e saber quais são os critérios da administração de uma televisão que não é deles, atuais administradores, é Pública. 21.10.05
TVE ENGANA O ESPECTADOR E ESCONDE VINÍCIUS! Os diretores da TVE do Rio de Janeiro deviam ser chamados a explicar como anunciam um especial sobre Vinícius de Morais, num programa chamado Sexta Independente e na verdade não mostraram nada. O que chamam de programa é uma colagem de depoimentos de Gilda Matoso, Calos Lira e Toquinho. Sem dúvida depoimentos importantes, sinceros e emocionantes, mas aquilo não foi um programa sobre Vinícius. Sobre ele fiz eu há quinze aos atrás um programa Especial que chamei de Em Verdade, Vinicius. Aquilo que eu fiz foi um programa sobre o poeta porque tinha os depoimentos dos amigos, tinha o Vinícius com sua poesia, com sua música, tinha um Vinícius pleno. O que a atual gestão da TVE exibiu hoje foi uma empulhação, uma enganação, uma negativa de informação ao público. Uma TV Pública tem o dever, a obrigação de mostrar o que há de melhor sobre seu poeta maior, nosso poetinha querido. A fita está lá, eles podiam programar e exibir ou ainda podiam reeditar acrescentando um pouco do que foi mostrado hoje, mas nunca os depoimento de três pessoas sem nenhum aprofundamento sobre a vida e a obra do poeta. Foi um desserviço vergonhoso e absurdo que a TV Pública do Rio de janeiro prestou ao público e devia ser cobrada por esse mesmo público. Devia ser cobrada a explicar o que pretendeu com aquilo. O público, os espectadores da televisão foram enganados exatamente por quem não podiam, por sua Televisão Pública. O programa que eu escrevi e dirigi sobre Vinícius contempla todas as áreas da vida do poeta, mostra o poeta em shows, com a família, dando entrevistas, tem depoimentos de quem esteve e fez tudo a seu lado. Não mostrar o Em Verdade, Vinícius e sim a enganação de depoimentos de 3 pessoas é amputar, negar informação, ceifar a cultura que poderia ter sido veiculada. Repito indignado: A TVE é uma Televisão Pública e devia ser cobrada pelo público, deveria ser ainda cobrada pelos órgãos que regulamentam a programação. Como os gestores da Televisão Educativa, pública, sonegam informação, mostram o pior tendo o melhor? Qual o critério? Foi por descaso, por desconhecimento do acervo da Casa? A própria família de Vinícius deveria questionar e interferir junto à televisão. Por que impediram aos telespectadores de verem um show, uma espetáculo alegre, emocionante e informativo em troca de depoimentos? E como chamam aquilo de programa. Onde vai parar a TVE? Cérbero é o cão de guarda e de Mitologia não posso falar, mas depois de tanto tempo esse espaço vai todo para cadernos com numeração extra e vai virar Cadernos Especiais, de um tempo que não, um maluco que andou e deitou falação pra todo mundo na praça [onde se forma a roda] Quando sento aqui tenho o cuidado de antes de pintar carregado e botar a bola vermelha no nariz porque o que faço é palhaçada pra provocar riso ou desdém [mais o último]. Todo mundo com pressa, todo mundo correndo como se aqui lá tivesse onda grande, nesse país que não dá nada em se plantando. Nem criticar eu vou porque tem a rodinha e a cerveja no copinho descartável e é ali que estão meus amigos e o homem magro, negro de brancos e luzidios sapatos que me deu as guias brancas e azuis. Vou com fé eu vou que a chuva não costuma faiá! Olerê! Crioula [sou] Entro no métrica de dizer o samba composto por ela e por mim, caixa de fósforos no trem que range, range no caminho.... sou bússola cibernética em busca da roda e da placa que indica o lugar que passou e não vi... sou ainda caderno fechado em armário aberto, bagunçado como a crioula só, porque ela passa a roupa do dia em cima da cama todas as madrugadas, quatro da matina certinho... E me visto de rei para reverenciar o santo que chega na noite para abençoar seu povo, seus filhos que vivem na beira do mar, sua Mãe, Senhora, essa mesma de São Salvador... sou ainda poeta de botequim, sandália havaiana com rima certa pra quem quiser entrar na minha cadência e morrer de amor porque poeta que é poeta tem que morrer de amor. Marmita de lata na lata jogo pela janela do trem porque tenho muita fibra e homem de fibra não come, olha apenas a lama do chão, o cogumelo que cresce e pensa que recebe a energia de tudo e todos e transforma tudo num samba exaltação pro povo ensaiar e desfilar no grupo de acesso que é o grupo da velha guarda [nova] que ronda a cidade de madrugada Ando com os malandros da Gamboa porque é lá que está minha raiz, é do bairro de Fátima e do morro ali perto onde aluguei um barraco, lugar com chão vermelho, onde bandido era respeitador e a vizinha me fez um bolo de boas vindas... e calo o meu batuque para ver o cortejo passar com o caixão branco e mãe chorando mais esse anjinho que partiu. 20.10.05
Qual a relação verdadeira de 'A Tempestade' com o Próspero's Books? Vamos estudar isso? Não, vamos nos divertir. Faço melhor, escrevero eu, o meu Própero's. Ousadia? Sem dúvida. Mas por que temer? Shakespeare? Sim, ele mesmo, ele e mais Homero ou Borges [ou Ítalo Calvino?] ou quem mais chegar. Se todos têm um celular e temos um fotógrafo em potencial entre as muitas dezenas de milhões de usuários de celulares, o que pode acontecer se milhões de pessoas esreverem os seus Livros de Próspero? Como será o mundo que todas as pessoas têm o seu livro fantástico e aprisiona o tempo em fotos vulgares e reveladoras? Pensar nisso, é pensar a possibilidade num mundo paralelo e rico, um livro omo nunca houve antes. É a mudança, a revolução definitiva dessa Humanidade (que poderá se perder e virar uma outra, o que também acho ótimo)! [Explico depois] Prospero's Books As Noventa e Duas Concepções do Minotauro O livro reflete sobre a experiência do Minotauro, a mais célebre estirpe da bestialidade. Ele traz uma impecável mitologia clássica para explicar procedências e pedigrees que incluem Leda, Europa, Dédadus, Teseu e Ariadne. Caliban, que assim como os centauros, as sereias, as harpias, a esfinge, os vampiros e os lobisomens, é um filho da bestialidade, teria grande interesse nesse livro. Zombando d'As Metamorfoses de Ovídio, ele conta a estória de noventa e dois híbridos. Na verdade, deveriam ter sido contadas cem, mas o puritano Teseu, que já tinha ouvido o bastante, aniquilou o Minotauro antes que este tivesse terminado. Quando aberto, o livro exala um vapor amarelo e cobre os dedos do leitor com um óleo negro. Prospero's Books Um Livro de Mitologias Este é um livro grande. Em algumas ocasiões, Próspero o descreveu como tendo quatro metros de largura e três metros de altura. É encadernado em um pano amarelo brilhante que, quando polido, reluz como latão. Trata-se de um compêndio, em texto e ilustração, de mitologias com todas suas variantes e versões alternativas; ciclo após ciclo de estórias entrecruzadas, que tratam de deuses e homens de todo o mundo conhecido - do Norte gelado aos desertos da África -, com leituras explicativas e interpretações simbólicas. De reconhecida autoridade, suas informações são as mais ricas que há no Leste Mediterrâneo, na Grécia e na Itália, em Israel, em Atenas e Roma, Belém e Jerusalém, onde são suplementadas com genealogias naturais e não-naturais. Para o olhar moderno, o livro é uma combinação das Metamorfoses de Ovídio, O ramo de ouro de Frazer e O livro dos mártires de Foxe. Cada estória ou anedota tem uma ilustração. Usando esse livro como um glossário, Próspero pode reunir, se assim desejar, todos os deuses e homens que alcançaram fama ou infâmia através da água ou através do fogo, através do engano, em associação com cavalos ou árvores ou porcos ou cisnes ou espelhos, orgulho, inveja ou gafanhotos. Prospero's Books Um Livro de Espelhos Encadernado em tecido de ouro e bastante pesado, este livro tem umas oitenta páginas espelhadas e brilhantes: algumas foscas, outras translúcidas, algumas manufaturadas com papéis prateados, outras revestidas de tinta ou cobertas por um filme de mercúrio que pode rolar para fora da página se não for tratado com cautela. Alguns espelhos simplesmente refletem o leitor, alguns refletem o leitor tal como ele era há três minutos, alguns refletem o leitor tal como ele será em um ano, como seria se fosse uma criança, uma mulher, um monstro, uma idéia, um texto ou um anjo. Um espelho mente constantemente; outro espelho vê o mundo de frente para trás; outro, de cima para baixo. Um espelho retém seus reflexos como se fossem momentos congelados infinitamente relembrados. Outro simplesmente reflete um outro espelho através da página. Há dez espelhos cujos propósitos Próspero ainda precisa definir. 19.10.05
Enquanto é noite corro com as coisas para sentar à escrivaninha e deitar falação no caderno vermelho. Preciso contar o que (não) aconteceu ontem. É muito importante ter anotado tudo o que se passou, sem deixar escapar nada. Minha memória está cada vez mais comprometida e meus cadernos de diários são a minha história, onde posso ver o que ocorreu no passado recente. Falo isso e lembro do filme 'Efeito Borboleta' por causa dos diários e dos esquecimentos ou ainda do 'Amnésia'. São bem feitos, roteiros muito bacanas, mas não retratam exatamente o que acontece com a perda da memória (muito embora possam haver vários tipos de perda de memória). Comigo é interessante ler detalhes de ontem ou antes de ontem, mas o duro da falta de memória mesmo é o imediatismo, é você se virar para uma pessoa para dizer uma coisa e não saber, sumir em um segundo o que ia dizer. Pesquisei que isso pode acontecer eventualmente com todo mundo de vez em quando (e acontece), mas com muita freqüência é complicado porque a gente acaba mesmo com um bloquinho na mão anotando tudo o que tem para fazer. Se isso é uma doença? Deve ser, mas não é nada tão grave, basta a gente estar atento todo o tempo a tudo, basta entender que a memória é um mecanismo abstrato. No meu caso, sei lidar muito bem com abstrações. De certa forma, as abstrações podem ser muito mais interessantes, muito mais ricas, vivas e alegres do que a rotina cinzenta dos dias sem imaginação. Falo tudo isso porque estava pensando num enredo de escola de samba, pensando nas oferendas aos orixás africanos e numa certa ópera vienense. Tudo isso são abstrações, são produtos da fantasia, da capacidade de criar, imaginar e vivenciar modos de arte. São criações e projetos que só existem graças à sensibilidade do que não é concreto. O que é concreto é feio, pesado e cinza. Não sou e não gosto da rotina concreta da vida. Prefiro o livre pensamento e os vôos que a substancia etérea da mente propicia. Sou borboleta. 18.10.05
Barato trabalhar com Milton Cunha, mágico de cores, luzes e estilos, carnavalesco de primeira, ativista homossexual, psicólogo, discorre sobre qualquer assunto defendendo suas opiniões fortes e, às vezes, contraditórias. Sentado no computador, em meio à zorra geral, Milton escreve textos modernos e arrojados. Na TV seus olhos brilham ao expor e defender idéias e têm um quê de sensual. Camaleônico, faz croquis de carros alegóricos, estuda os santos do candomblé e corrige a fantasia mal acabada. Vê para que tudo seja alegre, para que haja purpurina, arco íris. No rádio e na televisão dá entrevistas e participa de debates tratando desde a primeira grande guerra até a inseminação artificial, desde o início da História do Brasil até o futuro do governo alemão. Trata de santos e miçangas, da cultura popular brasileira à tragédia grega. Muito bacana conviver com Milton Cunha. 17.10.05
Paredes de ladrilhos brancos não cheiram a boa coisa. Hospital, sala de torturas? Os ladrilhos brancos estão prevendo que haverá sujeira, deixará as marcas mais expostas para serem novamente [e mais facilmente] lavadas. Quando me vejo deitado e só enxergo ladrilhos brancos, que me ardem os olhos e sei que alguma coisa está errada.... e minha primeira vontade é fugir dali. O que acontece é que não nos damos conta de que não é possível fugir de nada, nunca. A fuga é uma ilusão. Temos a ilusão e a fantasia de que podemos fugir. Não. Nunca escapamos de nada, nunca fugimos. Se fosse possível escapar, fugiríamos antes de mais nada de nós mesmos. A única fuga real é o suicídio. Mas o suicídio, embora seja a única, é o exagero da fuga. É o dar-se um fim. Fim. Fuga não é necessariamente um fim, pode ser uma saída provisória, um descanso de algo, alguma coisa e é essa fuga que não existe. Andamos em nossos carros com uma muda de roupa, uma escova de dentes e uma pequena garrafa de uísque barato achando que podemos seguir sempre em frente. Não podemos. A vida tem paredes. Corremos um bocado e batemos numa parede. Dos quatro lados e em cima e em baixo existem paredes. Somos prisioneiros de um corpo, uma vida, um mundo e das situações que se apresentam (sejam provocadas ou não por nós). O que resta é aceitar. O que resta ao homem é aceitar placidamente o que foi dado. Ao homem é dado nessa vida a possibilidade de aceitar o que está posto. Luta sim, mas em vão Olho no espelho e penso que as coisas poderiam todas terem sido diferentes e que agora nada seria como é, a vida seria outra, as situações outras, meus sentimentos estariam em harmonia com um outro campo energético. Tudo poderia sempre ser diferente, mas não é. Não podemos fugir do que é, dessa loucura que cabe a cada um de nós, dessa impossibilidade absoluta de ser realizado plenamente porque não existe essa realização e fugimos apenas de um estado mentiroso para outro, falso. Não tenho mais nada a não ser os bonés que estão no armário. Troco um pelo outro, troco para ver com qual me sinto melhor. Acendo um cigarro e tomo uma caneca de café. Lembro do Rio Grande do Sul, lembro do povo com seus hábitos e fico pensando nisso: como todos nós temos hábitos, sempre, como criamos maneiras de viver, maneiras que nos facilitam e ordenam. Nada é mais concreto do que o hábito na vida de uma pessoa. Não é possível fazer a barba começando pelo lado errado, nem escovar os dentes partindo do centro ou direita quando o certo seria da esquerda. Eu carregava as minhas poucas coisas na mala do carro, achando que estava sempre indo de encontro a algo novo ou que podia fugir de algo que não me agradasse. Hoje me entrego a tudo sem resistência porque o mundo é assim, a vida é uma forma de dizer sim a tudo o que nos rege, ao desconhecido, é dizer sim ao próprio ar que respiramos e água que bebemos. Portanto, fico nesse ambiente de ladrilhos brancos certo de que alguma coisa virá. Espero pacientemente por um dia, dois, três. Nada acontece, apenas estou deitado ali. Não me é dado sair. Volto à cama e espero. Sei que virá. A vida, afinal, é um esperar constante, (quase) eterno. 16.10.05
Fico pensando na possibilidade do sono ter outras funções além das já conhecidas. Dizem que descansamos enquanto estamos dormindo, mas nosso cérebro continua trabalhando quando temos as alucinações que chamamos de sonho. Nos sonhos tudo é possível e aceitável. Se no dia a dia vivenciássemos o que vivenciamos no sono, seríamos considerados doentes mentais. Ou seja: o que nos impede de viajar, de delirar não é a vida propriamente, mas o estado de vigília. Penso que se alguém consegue trocar propositalmente seus estados de sono e vigília e a viver seus sonhos, tratando o que acontece quando está acordado como um sonho existe a possibilidade de viver uma vida mais livre, com mais fantasia. No sonho a ação não é nossa, é aleatória, uma aventura em cada dormir. Ficamos num mundo de surpresas onde a imprevisibilidade das coisas torna o existir mais curioso, a vida uma aventura não errante como dizia Vinicius. Serão aventuras não errantes porque não cometeremos erros e sim nosso cérebro que está trabalhando independentemente da nossa vontade ou de um intricado sistema de planos e ações pré concebidas.. Só condenamos, chamamos de loucos e levamos para a prisão pessoas que estão acordadas, às vezes por motivos menores. Num sonho podemos ter um mar de papelão, bruxas voando em vassouras, podemos ainda assaltar um banco ou mudarmos de sexo sem que nada disso chama a menor atenção. E de qualquer maneira estamos vivos. Assim, é só uma questão do ponto de vista que estamos olhando as coisas. A vida é a mesma e nós somos os mesmos, nosso CPF não muda (e se mudar no sonho também não tem problema). Talvez o homem venha buscando sua liberdade e conquistas num estágio errado da vida, talvez a vida real seja a sonhada sendo a vigília uma espécie de karma ou o inferno em vida. Viver o sonho e desprezar a vigília. Deixar-se levar por todas as possibilidades que o cérebro e espírito nos oferecem, num estado em que reagimos virtualmente, mas nossos corpos estão fisicamente nas camas. Encontramos a solução para os crimes, delírios, loucuras e comportamentos estranhos. Bizarro é acreditar que a vida, o que vale é aqui. 14.10.05
Assim como com o caso do Peninha, Caetano de vez em quando saca uns caras geniais que a gente perde no tempo. Olha essa canção de Rossini Pinto que caetano canta como ninguém: "De hoje em diante Vou modificar o meu modo de vida Naquele instante que você partiu Destruiu nosso amor Agora não vou mais chorar Cansei de esperar De esperar, enfim E pra começar Eu só vou gostar de quem gosta de mim Não quero com isso dizer que o amor Não é bom sentimento A vida é tão bela quando a gente ama E tem um amor por isso é que eu vou mudar Não quero ficar Chorando até o fim E pra não chorar Eu só vou gostar de quem gosta de mim Não vai ser fácil, eu bem sei Eu já procurei, não encontrei meu bem A vida é assim, eu falo por mim Porque eu vivo sem ninguém" Imagine só: Há um tempo me disseram que a Sociedade Brasileira de Autores teatrais tinha sido extinta e eu acreditei. Agora, por causa da remontagem da peça A Canção Brasileira do papai (classificada pela toda poderosa Bárbara Heliodora de "ingênuo libreto" e "texto de incontestável fragilidade"), acabei dando de cara de novo com a SBAT. Surpresa: Tem cinco peças teatrais minhas, da década de 70, todas elas 'revolucionárias', mal escritas mas com forte teor "anti-militar", todas tolinhas e infantilmente pedindo 'Anistia Ampla Total e Irrestrita!' Ainda bem que jamais serão encenadas! :) Ao falar [e pensar] sobre a campanha sobre o desarmamento, perco as estribeiras, não consigo escrever. Então, me permito transcrever o texto opinião de Marina W, que assino embaixo: "Eu não li nenhum e-mail das dúzias que recebi sobre desarmamento. É um assunto delicado que também não acompanhei pelo jornal, nem vi anúncio na TV. Simplesmente tenho horror à armas. Mas já que sou obrigada a votar, vai ser contra. Existem dois tipos de pessoas, as que adoram armas e as que detestam. Com o desarmamento o que acontecerá? Nada. Porque quem gosta de ter um revólver em casa vai continuar tendo, existem mil maneiras de se comprar um, de qualquer tipo. Basta esticar o braço. No outro dia, um cardiologista que eu conheço estava no consultório quando entraram uns assaltantes, evidentemente armados até o dentes. Logo depois chegou a polícia e, mesmo a vítima estando com roupa de médico, o policial lhe deu um tiro de fuzil. Essas pessoas vão continuar armadas? Vão. Evidente. Quem não vai ter armas: pessoas que não curtem armas. Nada vai mudar. Essa eleição é a maior enrolação, coisa pra chamar atenção da classe média, enquanto tentam consertar as coisas nos bastidores. Um showzinho durante a troca de cenários. Eu sou a favor do desarmamento amplo, geral e irrestrito, derreter todas as armas. Óbvio. Mas isso só existe num país inventado. O comércio de armas é uma coisa nojenta. Mas vai existir sempre, só o dinheiro pode vir a trocar de mãos. Ninguém vai sair por aí comprando revólver se não der desarmamento. Um revólver deve ser caro, imagino. Comprar um revólver numa loja. Acho. Com o desarmamento vai ficar bem mais barato. E ao total alcance. Então se a idéia é essa, o tiro vai sair pela culatra. Essa história é uma cortina de fumaça, um brinde pra classe média se sentir patriota e ir às urnas. Me engana que eu gosto. Um filme que faz a minha cabeça, e muito, é Hair, do Milos Formam. Não consigo tocar num revólver, mesmo se ele estiver sem balas. Mas eu não sou tão ingênua assim. Mas que é muito mais legal você ser contra é. Porque é meio hippie, é uma bandeira branca. É não precisar meter a mão na lama, muito mais prático: não gosto de armas, então voto pelo desarmamento. Simples. Mas não vai existir desarmamento nenhum. Votar a favor é só um lava-alma, é mostrar que é da paz. Mas o voto de ninguém vai mudar a realidade. Estou falando como uma carioca, porque faz parte de mim ser carioca, e da experiência com a minha cidade. São como os lençóis brancos numa janela ou outra da Lagoa, escrito em letras vermelhas e exclamação: Basta!. Basta de quê? O que aquele aviso vai mudar? Basta de Rosinha? Ahn. Ela ainda está lá. É pra votar? Então que ao menos não fosse obrigatório, essa coisa antiqüada. Seria muito mais jogo pra mim escrever sobre os vários tipos de rosas. Porque eu não fui hippie, mas tenho coração paz e amor. O Brasil só tem um problema: a impunidade, essa é a sua raiz central, e todo o resto, incluindo a fome, é fruto de uma mesma árvore podre. O resto é onda. Desarmar o Rio significa dar ainda mais poder pros traficantes, que têm toneladas delas. Muitas. E bolivianos treinam a mais famosa favela carioca ensinando táticas de guerrilha. A coisa que menos quero é influenciar a opinião de alguém sobre este assunto, não tenho o menor interesse. Só vou votar porque sou obrigada. Cada um que faça sua escolha, vá a zona eleitoral e peça a Deus pra não chover. Porque vai ser feriado, não vai?" Marina W Ela me conta que existe o relacionamento absolutamente virtual e eu demoro um pouquinho para compreender. Porque parto da premissa errada. Não se deve chamar de relacionamento virtual e sim apenas de relacionamento. Esse é o paradoxo que eu falava dia desses onde os futurólogos quebraram a cara não prevendo a internet tal como ela é. Não é mais nem é menos. Não é moderna nem atrasada. É simplesmente outra. Não perceberam que não caminharíamos para a frente, não desenvolveríamos robôs nem foguetes para nos facilitar esse mundo, mas sim que criaríamos um outro mundo onde todas essas coisas fossem dispensáveis. A internet não é melhor nem pior, é outra, é um mundo onde não preciso de máquina de lavar nem de ovo mexido. Nem de mulher nem de flanelinha pra me ajudar a estacionar. Entro num mundo onde as coisas são possíveis, onde vale apenas o que eu sei ou o que é sabido nesse mundo e me relaciono com outras pessoas que estão em condições iguais à minha. Pessoas que escrevem, escrevem e escrevem. O teclado ocupa o lugar das minhas pernas, olhos e cérebro. Não me interessa se chove ou faz sol ou se tem sal demais na comida. Preciso é ver onde estou, com quem estou falando, do que estou tratando. As pessoas tratam de assuntos, discutem. Talvez a internet forneça a grande possibilidade para o Não virar o referendo do desarmamento. É o mundo daqui interferindo no daí porque aqui mesmo a arma de fogo mais letal é uma tecla chamada Delete. O mundo de fora não interfere aqui. Pode trazer algumas questões para cá, mas não interfere. A internet é que pode interferir nesse mundão analógico onde chove e faz sol, onde as pessoas param os carros nos postos de gasolina. Sogra aqui é uma coisa contada, é uma história, uma percepção e não uma realidade. E a vida... a vida basta que eu a escreva, que eu repita a de lá ou recrie uma, é indiferente. O conceito de vivência é (ou pode ser) diferente. É a possibilidade não da imortalidade mas de dobrar a vida por ter duas. Bom, tudo mais ou menos óbvio O homem é, antes de tudo, um perdido. Estamos aprisionados num corpo que não é a embalagem perfeita para a nossa complexidade. As pessoas não percebem isso por um simples motivo: não pensam no assunto. O ser humano transcende essa máquina de carne e osso que dispomos e limitado, se droga de qualquer coisa (mais e mais) para não enlouquecer. Leio Lacan e não sei qual é o conceito moderno de enlouquecer. Existe o pensamento fixo na perda da razão sim, porque as outras doenças são cristalinas. Continuo insistindo na tese de que o homem só é viável vivendo numa sociedade de castas. A mistura não dá certo e achar que não quero me misturar ao povo é um pensamento ordinário e raso. Posso estar no último estágio, no dos escravos talvez, mas preciso ter meus pares, meus iguais. O convívio dos 'diferentes' e suas 'trocas pessoais' é uma utopia tolinha, uma bobagem criada pelos 'politicamente corretos' que sequer anotam o quie se passa para relerem um tempo depois e não se dão conta de como atravessam a vida. Falta ao homem moderno a modernidade. Vivemos como há cem anos atrás. Depois da revolução industrial não aconteceu nada de significativo até nos cair como uma bomba, a internet no colo e não sabemos o que fazer com ela. Tudo foi previsto, todos os avanços e descobertas, mas não a internet tal como ela é. Existe uma relação de amor e ódio entre a humanidade e a internet (que cada vez mais, cria vida própria). Quando isso se estabelecer perderemos a parada, seremos párias da rede. Não está longe. Preciso (e acho que todos precisam) me desconstruir e reconstruir à cada momento. O exercício cerebral, emocional, a sensibilidade têm que ser exercitados a cada momento, como um músculo que sem isso se atrofia. Sistole e diástole mental e espiritual! Olho as pessoas, converso com um monte de atrofiados, um monte de amputados mentais. Nascemos e vamos ao longo do tempo amputando nossas 'chaves de informação' e pensamento. Olhe bem em volta e perceba que é tudo mentira, que não nos damos com os outros como imaginamos! Queremos todos renascer e pobres dos que não têm essa consciência! 12.10.05
Desde muito criança tenho problemas com o sono. Meu dormir sempre foi problemático e descontrolado. Sempre tive insônia e sono agitado. No início da adolescência eu dormia demais (até duas da tarde), mas foi por um breve período, acho que fazia aquilo mais para chamar a atenção do que por qualquer outro motivo. Tem gente que é absolutamente saudável, outros têm asma, bronquite, são alérgicos. Meu problema sempre foi com o sono. Me lembro de, ainda na juventude, o fim da tarde começar a me angustiar ao pensar que a noite chegaria e com ela a hora de dormir e o início do que me parecia na época um martírio. Fiz exames, fui a médicos e acabei sempre na velha história de tomar remédios por um tempo para ajudar, remédios que ficam para toda a vida, que carregamos como quem carrega seu embornal para sempre. E seguimos assim, sempre procurando regular o dormir, sempre vendo qual será a melhor solução para cada determinado momento. Samuel Beckett foi o autor que me fascinou desde que, em criança, ia com a minha tia para o teatro esperar e me distrair enquanto ela interpretava 'Fim de Jogo'. Já contei essa história inúmeras vezes. E falo disso porque minha relação com o teatro sempre foi ambígua e estranha, de distanciamento. Lembro-me perfeitamente de Sérgio Brito em frente ao espelho, fazendo ele mesmo sua maquiagem, a do desfigurado homem que não se levanta da cadeira enquanto lá fora o mundo acaba. Para escapar do Juizado de Menores eu entrava pela coxia, sentava numa cadeira antes do público entrar, num ambiente escuro e com música sinistra. Sentia medo no início (depois passou). Eu conhecia muito pouco de teatro, como até hoje não conheço nada, mas achei que teatro era o o que Beckett fazia, não imaginava nada pior. Depois, decepcionado, percebi que tudo era pior, que Beckett era o melhor, era gênio, que eu comecei pelo melhor. Anos depois, na fase em que me dediquei a conhecer Sartre, a admirá-lo, assisti sua peça 'Entre Quatro Paredes' algumas vezes. Novamente um espetáculo muito bom, a genialidade de Sartre no palco. (Dia desses vi numa livraria um exemplar do 'Diário de uma Guerra Estranha', mais volumoso do que o meu. Fiquei olhando não abri, folheei. O livro de agora tem o dobro da grossura do meu exemplar. Por que? Preciso voltar lá. Preciso ver se encontraram outros cadernos daquele diário de Sartre, se colocaram observações, críticas... Enfim, porque a obra dobrou de tamanho.). Ainda assisti Tchekov deliciado com a dramaturgia russa (talvez estivesse entusiasmado demais com a descoberta da literatura de Dostoievski). Tudo foi assim, uma coisa que ligava a outra, uma descoberta que me levava a outra me deixando desbundado com a arte, com a capacidade dos homens escreverem e descreverem o mundo com tanta verdade, com tanta genialidade. Sempre fui assim e morrerei assim porque não gosto de comédias (alguns desavisados acreditam que a comédia alegra o espírito e a tragédia deprime a alma, um pensamento infundado que não admite discussão). 'Hoje é Dia de Maria' é teatro na televisão. Ontem começou a segunda temporada do seriado de cinco capítulos, obra que espero há meses e não vi porque dormi. Não sei como, mas dormi. Durante a madrugada acordei algumas vezes angustiado por não ter visto e sonhei que não tinha visto, mas que era um sonho, tinha assistido sim. Não foi um sonho. Perdi mesmo. Sérgio Brito e Fernanda Torres. Ainda que entrecortado, sonhei com os dois. Estávamos numa rua movimentada e não me lembro se ensaiávamos uma peça ou fazíamos vídeo ou cinema. Era uma cena em que eu atravessava uma avenida com Fernanda ou de encontro a ela e seguíamos juntos. Quem dirigia, entusiasmado, era Sergio Brito e eu e Fernanda ríamos muito nos intervalos, ríamos da nossa atuação, da graça daquela situação inusitada e de como nossas personagens se comportavam naquela avenida movimentada. Sou jogado pra a fora da cama. Não desperto normalmente, sou mais ou menos jogado para fora da cama. Já tentei inúmeras vezes levantar com calma ou ficar de bobeira na cama, mas não consigo. É como se uma potente mola me jogasse longe. Dom Artur já se acostumou (não sei se com ele é assim também), mas levanta-se junto comigo e falamos um pouco enquanto tomos meus vários copos de café, Entre um cigarro e outro, penso em Beckett, Sartre, Fernandinha Torres (40 anos!) e Sergio Brito que, na TV, me abraça freqüentemente. O mais? É a vida. 10.10.05
Ontem do Manhattam Connection o Lucas Mendes contava (não me lembro de que Estado dos EUA) que não só a compra de armas é liberada como o Estado estimula que a população ande armada. O número de assaltos na rua e a casas diminuiu não sei quantos por cento. Mesmo contando com o elemento surpresa a seu favor, o bandido sempre pensa duas vezes antes de atacar uma pessoa que ele sabe que está armada também. Parece óbvio (como o exemplo da Suíça). Aqui, para eu comprar uma arma, terei que recorrer a traficantes porque o Estado não me venderá. Mais uma estupidez do petismo, mais uma herança nefasta que Lula deixará ao país, essa mais bem urdida porque, dependendo do resultado do voto, será referendada pelo povo (que não tem emprego, saúde, educação nem comida). De tudo o que penso, o que mais me incomoda é o empobrecimento da linguagem, o embotamento. Onde se acerta o relógio do blog? (4:45 AM) Estaciono perto do grande armazém. Imagino que ainda faltem duas horas para amanhecer. Um mendigo que dorme ali abre um olho, me observa e volta a dormir abraçado com sua garrafa de aguardente barata. Não tem nada a dizer. Se falasse alguma coisa eu o matava. Desligo o farol e o motor. Só pode ser aqui o local onde as pessoas se encontram para falar de nada, para não se sentirem tão sós. Sei de gente que nem sai mais daí. É como se tivesse se internado nesse lugar. Outros, como eu, vêm esporadicamente. Toma-se café com bolachas, contam-se os sonhos, fala-se da vida, lamenta-se. Antes de tudo, esse armazém velho reúne homens e mulheres que não dormem nem acordam, vivem em pesadelo e não sabem mais o que fazer. Conversam então. (O relógio do servidor está errado. São 4,44 h AM) 9.10.05
Vida em Rede? Em 2001 ou 2002 parei de escrever sobre novas tecnologias e novos meios de comunicação. Já tinha lido todo o Perri Lévy, o Negroponte e Alvin Toffler pra ficar nos mais conhecidos. Eu estava tratando naquela época dos novos meios de comunicação, de como a internet se acoplaria à TV ou o que fosse, como a educação a distância, por exemplo, seria beneficiada e praticada. Os teóricos correram demais. Não haviam cabos, bandas largas... Era dificuldades de toda espécie em países pobres e médios. A coisa andou, mas não como eu esperava. Consegui misturar televisão e internet fazendo gente falar na TV via internet e outras coisas pioneiras (a TV Globo veio fazer isso agora, na última ou penúltima guerra). Mas achei que talvez não fosse esse o caminho, que o caminho fosse o da pesquisa, que a internet se prestasse mais a pesquisa e segui por aí também. Em 2004 eu já conhecera algumas pessoas pela internet, tinha minha home page e uns dez blogs. Escrevia sem parar e recebia grande correspondência. Depois mudei de novo ao ver a enorme quantidade de informações erradas, um mar de ignorância na rede e as pessoas, principalmente crianças e adolescentes, deixando livros, cinemas e teatros viciados que estavam no computador. A internet tem tanta informação errada, é uma enxurrada tal de besteiras que comecei a fazer campanha contra, usando apenas meu e.mail e escrevendo esporadicamente nesse blog. Conheci algumas pessoas na internet. Tive alguma relação, sempre fortuita. Acho que hoje as pessoas vão para a internet (para as salas de encontros) quando desanimaram do mundo não virtual, quando estão tristes, deprimidas, não querem sair de casa. A conversação na internet em 2005 é o C V V de muitos anos atrás. Hoje tive uma longa conversa sobre isso. Conheço o caso de um homem e uma mulher que se encontraram na net e mantiveram uma longa e intensa relação. Sempre na internet. Passaram a se conhecer aos poucos e em alguns meses tinham uma intimidade maior do que muita gente consegue com amigos que estão diariamente a seu lado. Esse casal tinha uma série de outros relacionamentos: afetivos, tratavam de doenças e alegrias, auto-análise, a própria análise que um fazia do outro. Ensinaram-se coisas e se ajudaram de forma importante e séria. A pergunta que não quer calar. Faziam sexo? Sim, também virtual. (Falando com outro internauta descobri que o sexo virtual é muito mais comum do que eu imaginava). Mas um dia eles começaram a questionar tudo aquilo. Tanta amizade, solidariedade, carinho, respeito, brincadeiras, ajudas.... Por que ainda não haviam se conhecido pessoalmente? Porque havia uma relação estável, forte mesmo! Mas era uma relação virtual! Nascera no computador e lá continuara. Um deixava de dormir se o outro tinha um problema, se aconselhavam, trocavam endereços de lojas, indicavam médicos, se presenteavam, mas.... tudo era virtual. Até o dia do questionamento inevitável. Por que não pessoalmente? Medo? Vergonha? Aquilo tudo não seria irreal, fantasia? Por que não viviam na vida real e sim na virtual? Sempre atrás de um computador? E logo a dúvida plantada, a incerteza. Um dizia que o virtual é real. O outro tinha dúvidas. Não havia meios de provar de auferir, de comparar. Não conheciam ninguém em situação igual nem parecida. Começaram a desconfiar que estavam se iludindo, fantasiando uma coisa que não existia. Ou procuravam motivos para não se encontrarem certos de que o encontro desfaria toda a magia e tudo iria por água abaixo? Não sei como estão nem por onde andam, se ainda se falam ou se trataram de se conhecer. Apenas fico pensando nessa história e vendo que o virtual pode ser um mundo a parte, que talvez novos mundos não sejam novos planetas e sim novas possibilidades de vida aqui na Terra. Como o blog é meu, faço o que quero. Se o resultado for razoável as pessoas que gostem podem voltar a ele. Se não for entendo e estimulo a que não voltem. Digo isso porque ele é um misto grande de coisas: as vezes opinativo, as vezes com "fumaças" literárias e por aí vai. Digo as coisas que quero dizer naquele momento mesmo que estejam em contradição com o que disse no dia (ou post) anterior, desconstruo minhas idéias e atribuo a outrem (espécie de alter ego), coisas que sou eu mesmo que penso. E por que não assumo tudo? Ora, se está no meu blog já está, implicitamente, assumido por mim. Cabe ao visitante perceber se estou falando de mim mesmo ou se criei personagens para dizer o que penso (ou o que não penso). Muitas vezes invento que autoria é de outro quando é minha. Muitas vezes, o autor citado realmente existiu, mas não disse aquilo e ainda, outras vezes disse. E por quê tudo isso? Por nada. Porque eu sinto vontade, porque quero que seja assim. Não me preocupo se pareço honesto (não há honestidade na livre escrita), se as pessoas levam a serio. Escrevo como me passa na cabeça na hora e publico. Quem me conhece, bem. Quem não me conhece, bem também. Só pega pra quem pensa que me conhece. Quem pensa que me conhece interpreta todos os textos erradamente. Aí... azar. Acho que sempre tive pouca força de vontade. Eu tinha jurado de pés juntos que não ia falar nessa famigerada campanha de desarmamento, nesse referendo para aprovar a proibição de comercialização de armas e tal. E no fundo, eu fico pensando, não tenho mesmo nada a falar. Acho que tudo já foi falado. As campanhas pelo SIM e pelo NÃO, os órgãos de imprensa já se posicionaram (O Globo à favor da proibição, a VEJA contra), etc. Já vi na televisão também alguns programas de debates e outros que tentavam explicar a população o que é isso, em quê estão votando e porquê. A televisão não é explicita porque é bundona (como a TVE que não aprendeu a ser uma TV Pública e continua dependendo das verbas do governo é parcial e não cumpre seu dever de informar corretamente, é tolamente tendenciosa. Uma vez que o Lula novamente joga areia para cima com essa história, muda o foco dos escândalos das suas maracutaias, do seu governo corrupto para a questão de comercializar armas, a TVE chapa branca não trata do assunto com imparcialidade). O que eu sei é que o povo ainda não entendeu direito. Ainda vejo gente boa achando que vai diminuir a criminalidade se votarem pela proibição da comercialização de armas. Qualquer retardado de seis anos sabe que isso não é verdade. Qualquer lesma sabe que o contrabando de armas vai aumentar, que homens de bem vão comprar armas de bandidos e toda essa coisa porque hoje a polícia, as forças armadas etc. já desviam armas para a bandidagem. E os órgãos de Segurança Pública são inoperantes e corruptos. Países totalitários e atrasados proíbem a comercialização de armas e países onde não há violência, não proíbem. Os crimes domésticos também não vão diminuir porque quem quer matar, mata com faca, barra de ferro, por esganadura e tal. Enfim, é uma bobagem tão grande que não dá pra escrever um post mediano. O povo errou de forma absurda ao eleger Lula para a presidência da República. Será que vai errar novamente votando a favor da proibição da comercialização de armas? 8.10.05
O despertar da loucura é uma frase que diz tudo e não explica nada. A noite, com seus mistérios, segredos e toda a sorte de habitantes é, por si assustadora, traz os sonhos maus e as lembranças de tudo o que há de ruim na vida e na Terra. O louco tem tudo isso e muito mais, ele acorda sem respirar, preso de tremores e medos que só o deixam horas e muitos comprimidos depois. Não acho que o despertar da loucura seja um privilégio dos loucos. Não. Todos nós somos eventualmente sujeitos a esse despertar, a esse pavor, a essas manhãs de desespero, onde parece que estamos nos afogando num mundo absurdo, irreal, um mundo que nos devora por fora e por dentro, que nos engole, faz andar desesperados, sugar com força o ar pastoso que teima em não entrar. Acordamos com a sensação de morte. Morte no corpo físico e morte na alma. Uma morte que transcende a morte, que é mais do que o deixar de viver, é viver sim em constante estado de quem está deixando a vida para trás mas, ao mesmo tempo, ela não vai, fica ali impondo a dor. É como uma pesadelo acordado inexplicável que muito poucos têm a sensibilidade de entender (quando se relata) Entender relatos de loucura é um ato de generosidade. Meço o caráter das pessoas por sua capacidade de compreender relatos do inexplicável. As pessoas que não conseguem entender aquilo que estamos falando simplesmente porque não conhecem, porque lhes parece absurdo qualquer coisa relato que não faz parte do seu dia a dia são medíocres, são incapazes de imaginar, de sonhar. Como eu conheço gente assim! Em Verdade, Vinícius Miguel faria Jr. lança seu filme sobre Vinícius e me voltam todas aquelas histórias. Olhando agora, eu me toco que descobri Vinícius muito cedo, que fui precoce porque tenho 50 anos e a turma que percebia ele melhor, tem hoje 60. Então eu fiquei no limbo, eu era jovem demais, estava distante temporalmente do Vinícius e o amei de uma maneira arrebatadora. Se me fosse dada escolher uma única graça, eu escolheria ter sido Vinícius. (Imagine!) Claro que eu já estava mais pra cá no tempo, que meu grande ídolo na vida foi o Caetano, que o mundo que eu vivi, o meu tempo era o do Caetano, do Carlinhos Lyra e da turma toda que veio depois. O Tom é diferente. Tom é Deus, está acima do bem e do mal e não posso escrever sobre ele, comparar ele com nada nem ninguém. O João Gilberto talvez seja um irmão gêmeo de Deus ou o seu inverso, talvez o João seja meu Satanás mais querido. Tudo é diferente. Mas tem umas coisas engraçadas porque na minha boçalidade da juventude eu não gostava porque não entendia a poesia. Minha formação literária é toda em prosa e somente o Vinícius conseguiu quebrar isso e eu confesso que talvez tenha quebrado por causa da música, talvez ele tenha encontrado a forma de me mostrar a poesia. O meu trabalho permitiu que eu me aproximasse das filhas do Vinícius e, juntando ao que eu já descobrira sozinho.... Não, não foi isso. Eu realmente descobri o Vinícius na juventude, sozinho e minha profissão, meu trabalho viabilizou fazer o que eu mais queria, alguma coisa sobre ele. E fui fazendo pequenos documentários até o momento de escrever, produzir, dirigir e montar um grande programa de televisão que chamei de "Em Verdade, Vinícius". E para isso eu me aproximei das filhas dele e o elo se fechou. Eu passei um tempo grande estudando mesmo Vinícius para fazer o programa 'Em Verdade, Vinícius' que é a melhor coisa que eu fiz na vida, a mais bem feita, a mais completa, a que meu mais prazer. Eu lembro do dia em que eu finalizei a edição do programa, lembro do orgulho, eu parecia um pavão, fiquei andando como se pisasse em nuvens. Porque fizeram programas antes de mim e depois de mim sobre ele, mas realmente acho o meu o melhor (diria MUITO melhor). Suzana de Moraes, sua filha mais velha foi de um carinho imenso comigo, praticamente me deu o seu documentário "Vinícius, um Rapaz de Família", filme que me deixou deprimido por mostrar o grau de alcoolismo do meu ídolo. Então eu digo que o meu é melhor porque nenhum outro foi, apesar das adversidades de material de arquivo, de equipamentos, etc., sei que nenhum outro foi feito com tanto amor. Esse Vinícius (que foi um mastro em minha vida, um farol, minha referência) desaguou no programa de televisão, a transformação desse sentimento (de amor, adimiração que chega a veneração), a transformação em obra mesmo. Lembro que algum tempo depois do 'Em Verdade, Vinícius' ter ido ao ar, a Georgiana de Moraes também fez um especial sobre ele, com material de melhor qualidade (do arquivo da TV Globo) e eu fiquei muito invocado, achei uma competição covarde, desigual. Eu trabalhei com um material muito ruim do Vinícius, material da TVE e depois foram fazer outra coisa com material da TV Globo, mas eu lembro bem que a estrutura do programa e, inclusive o final, foi copiado do meu. Sentimento ambíguo, Georgiana me ajudou a fazer o 'Em Verdade' e depois fez o dela com mais material. Na hora eu fiquei com raiva, mas depois passou. Na época, tomando uísque e comemorando a finalização do programa, eu tive a imodéstia (sincera) de dizer que o meu 'Em Verdade, Vinícius' era a obra definitiva sobre ele em televisão. E acho isso mesmo até hoje. E vão continuar a produzir filmes, programas, livros e tudo o mais sobre Vinícius porque ele é inesgotável, é gênio, estava muito à frente do seu tempo, tem uma qualidade literária comparável à de qualquer mestre clássico mundial da poesia, mas tinha músicas sérias, músicas de uma beleza incomparável e, ao mesmo tempo, todas populares, todas acessíveis ao povo. Se não através da poesia escrita, na música Vinícius contemplou todas as classes, levou a poesia a um país de iletrados. Eu, um deles, talvez seu maior beneficiário. 6.10.05
Sem querer, sem ter opção de sair do local, ontem fiquei ouvindo a conversa de duas mulheres: uma separada já há algum tempo e outra que está se separando por agora. A que está se separando estava revoltada com tudo, a separação, a vida, o ex marido. A outra, já mais tarimbada na arte de viver só, escutava e dava conselhos raivosos do que tinham que fazer com o camarada. Ele fez isso, ele fez aquilo, é assim e assado, não se separou quando ela quis, foi egoísta, agora queria se separar, agora ela estava gorda e por aí foi. Me senti meio constrangido, queria não estar ali, mas as circunstâncias me obrigavam. Até porque, acaba havendo uma certa generalização. Não era mais aquele cara, eram os homens. E, de repente, me vi, eu, um desses homens que tripudiam das mulheres, mais um desses bandidos sem caráter que maltratam a espécie feminina. Sem saber porquê, virei um vilão também. Lembrei rapidamente da minha 'vida doméstica', eu e Dom Artur que vivemos há anos sozinhos e na maior harmonia, numa vida calma, amiga e metódica. Dom Artur não falaria aquilo tudo de mim e me senti, subitamente feliz por viver com ele apenas, por não ter mulher, ninguém. Sempre disse que o homem é um ser essencialmente social, que se acasala, se casa e precisa constituir um núcleo familiar. Realmente acreditava nisso. Não mais. A família acabou. Só escuto relatos deprimidos e deprimentes de pessoas que mantém à duras penas um casamento sem sentido, mantém por causa de filhos, dinheiro, medo da solidão. Então me permito mudar de idéia. Homens e mulheres não devem mesmo viver juntos. A liberdade da solidão é melhor do que a companhia do casamento. Acordo e durmo a hora que quero, como se e quando quero, trabalho de acordo com meus interesses, não me interessa se minha cara está desse ou daquele jeito. Posso passar cinco horas lendo sem me preocupar em dar atenção a ninguém e não me vejo obrigado a ir a cinemas e barzinhos quando não estou com vontade. Verdade que de vez em quando bate uma solidão e eu queria ter ali, naquele momento uma pessoa para conversar? Claro que sim, mas trato de fazer outras coisas, escrever meus diários, dar uma volta ou mesmo dormir. Verdade que as pessoas à minha volta acham estranho meu modo ermitão de vida? Sim. Mas não me interessa. Não acredito mais nesse papo cabeça de companheirismo, cumplicidade e parceria. Não é verdade, não é assim que rola. O que acontece mesmo são pessoas vivendo juntas, cheias de obrigações umas com as outras, tendo que "recriar' a relação a cada dia [Pode coisa mais entendiante e infudada?]. Porra! E eu lá quero recriar relação a cada dia? Eu quero dormir e acordar, rir e chorar, sair ou ficar em casa, me embriagar ou ficar sóbrio como um bispo. Não quero "cumplicidade nem parceria" porque isso dá trabalho, cansa, não paga a pena. O que atrai o homem, como bom macho da espécie, é essa pulsão sexual. O homem quer ter uma mulher para ter o sexo garantido [e idem para a mulher!]. Quando o sexo deixa de ser bom, o casamento vira um inferno. Ora, se é assim, porque não busca o sexo numa casa de tavolagem, de saliência? Homens e mulheres precisam dar vazão a impulsos sexuais... pois que o façam sem se prenderem, sem entregarem sua vida em troca disso! Necessitamos também de uma privada e nem por isso casamos com um vaso sanitário! Todo mundo devia se separar de uma vez. A instituição do casamento tinha ser exterminada radicalmente e homens e mulheres deveriam viver sós, encontrando-se apenas para se 'aliviar' sexualmente, assim como vamos ao banheiro diariamente. Porque é isso, no fundo, que move as pessoas em direção a união. 'Amizade', 'parceria' e 'cumplicidade', como já disse, são palavras da moda, que não acontecem de verdade. O homem que vive só é mais feliz e mais saudável emocional e psicologicamente. É isso. 5.10.05
" Os seres que em mim habitam vêm de lugares diferentes e distantes. O mais distante vem do coração que é a parte mais inalcançável do meu ser, mais difícil de ser dominada. Meu coração tem vida própria e dita regras que minha consciência não domina (explico melhor adiante). Outros seres me parecem de uma origem que eu chamo de espiritual porque não são pessoas nem influência delas, mas algo mágico que me chega e se instala utilizando-se muitas vezes não apenas do meu eu como dos meus sonhos. Os sonhos são uma parte reservada, uma categoria extra, inexplicável (ou explicável de tantas maneiras diferentes que eu precisaria de mil credos diferentes para analisar). Não. O sonho é o terreno do absurdo possível, do absurdo impensável, mas exeqüível, fonte de inspiração, lembrança, dor, alegria e um oráculo consultado independente do meu eu. Já falei aqui dos elfos, duendes, fadas, pirilampos, pequenos magos, espíritos de todas as espécies e matizes que fazem do homem sua morada, sua passagem, divertem e, ocasionalmente, preocupam nosso caminhar. Pois a mim não. Quero ser a morada do maior número possível desses pequenos deuses risonhos que brincam vagueando pelo meu mundo. Não duvido mais de que sou um mago. Não com a pretensão que o mal intencionado possa ver na afirmação, mas apenas no sentido de explicar que magia emana e converge em mim e para mim de forma tão forte e constante que após 50 anos de lógicas negativas, obriga-me a reconhecer o fato, alertando sempre não se tratar de uma qualidade. Sou porque sou. Como tenho astigmatismo, por exemplo. Nada de mais. Magos têm vidas um pouco mais complexas (e não é tão raro assim encontrarmos um mago, eles existem em maior número do que imaginamos). O que pode diferenciar é que os anjos me falam assim como me atormentam os demônios e a todos procuro ouvir e atender buscando nas divindades sabedoria para não cair na injustiça para com os homens. Estou aqui de passagem como todos, não possuo nenhuma vantagem. O mundo espiritual (e isso é muito difícil de explicar) pede, exige oferendas e rituais, assim como momentos de oração, silêncio e solidão. Mas não é tudo. Fico às vezes imaginando que o grande diferencial entre os que se dizem isso ou aquilo é o que lhes custa ao coração. Temos um coração fraco, dado a sofrimentos, sentimentos de perda. Todos no mundo estão sempre perdendo, é bem verdade. É o famoso efeito Ampulheta. Mas sou aprisionado no coração, isso mesmo, ele está cheio de lembranças. As lembranças definitivamente não estão circunscritas ao cérebro. Não. O coração é o velho timoneiro que em noites de tempestade, me ajuda a atravessar bons momentos ou na calmaria me aflige pelo que se foi. Imagino que seja assim com todos." (continua) Do caderno 17 B 4.10.05
Pensei em virar a página do mundo. Virar a página. Viro páginas de jornais, de poesias, de prospectos, tantas coisas. Melhor virar as páginas do mundo. Tava pensando nisso na cama, antes de levantar. Doideira? Sempre, mas lógica. O mar vem em ondas, as notícias más vêm parcimoniosas, a respiração é um movimento constante do pulmão. O tempo passa e arranco folhas da folhinha como viro as folhas do meu diário. Pois que seja assim com o mundo. Que eu possa, na medida das coisas, que eu possa virar as páginas desse mundão. Acho que só agora descobri que ele é um livro grande, de encadernação pesada e grossas páginas. Que as histórias vão se desenrolando, [que existem] personagens fixos, outros passageiros e tudo ali, se expondo a mim, interferindo na minha vida. Não posso parar e, cada vez mais, com o passar do tempo, vou ficando mais ávido para virar as páginas para saber o que vem ali adiante. Num livro comum, a gente vai lendo, começa fino na frente, grosso atrás, com muitas páginas a virar e à medida que lemos o volume se altera: a parte grossa fica para trás (já lida) e a fina para frente. O Livro do Mundo não. Ele tem sempre muitas páginas a virar, não percebemos que estamos avançando até o dia em que, como que por milagre estamos na última página e o texto termina com o FIM. Não sei de onde me veio esse idéia [e essa necessidade]. A imagem do livro me é clara, me vem de um exemplar de Cervantes, encadernado em couro que vi num livreiro da cidade, livro muito além das minhas posses. Mas ficou a idéia. Deixei de ver o mundo como um globo a girar no espaço, mas como um livro aberto em uma mesa. Vi até que posso eu mesmo fazer anotações de pé de página ao texto já escrito. E, principalmente, que há sim um texto já escrito. Talvez ao fim e ao cabo eu tenha que levar esse livro embaixo do braço e apresentá-lo a alguém. Pode ser que, ao contrário, ele fique na mesa, seja fechado para no futuro ser novamente reaberto como num palimpsesto todo especial apenas para leituras. Não sei. Há um anjo barroco pintado no teto do meu quarto que, rechonchudo, me olha todas as manhãs. Até quando? 1.10.05
Pânico É bom explicar que a Crise de Pânico é uma descarga de ansiedade que tanto pode ser provocada por depressão como pela própria ansiedade. Quando começa uma crise dessas a gente acha que vai morrer. De verdade. O primeiro impulso é correr para o CTI de algum hospital. Você começa a suar frio, tremer descontroladamente, o coração dispara, começa uma enorme dificuldade de inspirar e expirar, uma falta de ar terrível, frio na barriga e a impressão de que um desmaio virá em seguida. Mesmo sabendo que está tendo uma Crise de Pânico, na hora você se desespera da mesma maneira. Não tem como se acalmar. O que existe hoje é o tratamento com antidepressivos e ansiolíticos de forma preventiva e um aumento de ansiolíticos no início da crise. Tem que ser assim. Nenhuma outra forma funciona. Uma pessoa sujeita a colapsos como esses nunca sabe em que momento poderá ter um, mas sabe que ele virá, que pode acontecer a qualquer momento em qualquer situação. E como não existe outro tratamento, é aquilo: medicação preventiva e tranqüilizantes de reserva para tomar se a crise vier. Tomados os remédios ansiolíticos, a crise passa mais ou menos em uma hora ou menos, dependendo da sua intensidade. Aos poucos os suores vão diminuindo, baixa a taquicardia e você volta a conseguir respirar novamente. Milhões de pessoas sofrem de Crise do Pânico e, por ignorância (porque quem não reconhece é ignorante e ponto final), não se tratam. Acabam parando em hospitais de emergência sem necessidade. Nem os médicos de Unidades de Emergência estão preparados para diagnosticar essas crises. Eu tenho essas crises. Acho legal as pessoas saberem que não estão sozinhas. Tenho algumas dívidas com Marina W. Sempre digo aqui que seu blog é o melhor na minha opinião. Mas tem uma coisa que ela fez uma vez que eu achei bacana, que eu nunca tinha visto ninguém fazer. Descrever um Colapso de Depressão. Li e reli aquele post dezenas de vezes. Bem sei o número de pessoas que sentem exatamente aquilo, mas escondem, têm a maior vergonha. Tudo bem, eu entendo que uma pessoa ache que aquilo é uma particularidade dela e não deva ser dividida. Até porque (eu comprovo, impressionado), as pessoas não entendem, não querem, na verdade, entender. Hoje dormi um pouco de tarde porque há muitas e muitas noites venho dormindo mal, muito pouco. Dei uma cochilada e acordei com uma Crise de Pânico. Estou descendo uma escadaria. Vejo alguns degraus, uns dez mais ou menos para baixo, o resto está escuro, mas sei que a escada continua. Levo uma vela que ilumina meu caminho (antes levei uma lamparina que se perdeu). Coço a barba me perguntando porquê estou descendo. Antes eu estava num campo. Havia gado, árvores frondosas e uma relva linda. O céu estava azul e o sol agradável. Não sei exatamente o que aconteceu. Onde estou é escuro e úmido. Imagino que tenham pequenos bichos por aqui (ratos, baratas, sei lá). Por que estou descendo? Estou indo a algum lugar, do contrário estaria subindo, não é? Mas não quero subir, quero descer mais e mais para encontrar. Não sei o que vou encontrar (ou sei, mas não me vem à cabeça). Talvez, penso, tudo isso seja um símbolo, uma alucinação, mas pode não ser. Pode ser magia, mas pode também ter ocorrido alguma coisa entre esses dois momentos que não me lembro agora. Pode ter alguém atrás de mim, no meu encalço, mas por que? E se fosse eu estaria apressado. Não estou. Estou indo com firmeza para algum lugar. Talvez eu saiba muito bem onde estou indo, talvez saiba o que me espera e penso e continuo descendo, degrau por degrau, sem me deter. Poderia também estar sonhando. Isso é muito material para ser um sonho. Mas não estou (Estou?). Estou acordado, localizado, consciente. Me lembro da carta O Eremita. Sou eu? Aparentemente poderia ser, mas por que? Não acho que esteja guiando ninguém (só a mim mesmo). Um eremita de mim? Sim, viável, mas pensando com mais calma entendo que todos são eremitas de si, apenas não percebem. Ou estou completamente errado porque se todos fossem eremitas de si, não haveria o simbolismo na carta. O Eremita simplesmente não existiria. Tem água escorrendo por essas paredes (embora não possa ver claramente). Continuo descendo sem parar nem uma vez e mais e mais degraus vão aparecendo à minha frente. Talvez seja uma descida infinita, talvez seja a descida aos infernos ou talvez seja uma descida falsa. Posso estar com a impressão de estar descendo, mas estar, na verdade, subindo. Por que eu subiria pensando que desço? Qual o truque, o símbolo, a ilusão? Mais simples não ser nada disso Pode ser uma alucinação. Pessoas têm alucinações. Estou tendo uma? A alucinação é uma coisa assim tão leve, tão comum, tão real? Sim e não. O maias estranho é eu estar transcrevendo aqui essas anotações que fiz em páginas esparsas, já amareladas pelo tempo. Páginas de um tempo em que eu ainda sabia o que estava acontecendo. Agora o tarô está todo virado, as velas todas acesas, mas nada acontece. Pego essas [e outras] folhas com anotações e não sei de quando vieram e nem mesmo de quem. Possivelmente são minhas, é a minha letra, mas assim como aqui, pode ser uma transcrição também. Tudo pode ser. O grande dilema da humanidade: tudo pode ser. |