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Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida. O impossível na raça humana são justamente as pessoas. Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes. Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida. Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka. Sempre teremos Paris.... Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues) Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes) A calma é inimiga da perfeição "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett "Toda mulher devia ser a Sandra Bullock" "A Tsunami é Aqui!" "Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real" "O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..." "A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite." "A Internet, repito, imbeciliza as pessoas." "O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow. "Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise." "Dormir de dia é um suicídio inconcluso" "O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo "A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues "Ser me ocupa bastante" A. Gide "Nada como a brancura cadevérica de um Pé" "Acordar é como um renascer com as cartas marcadas "A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia". "Matar-se é fazer poesia!". "'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee "Só o suicida morre dignamente". Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança. Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. . O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. . |
30.9.06
Dia de cão Fui ao super mercado. Por causa da minha fobia, vou no Pão de Açúcar que é mais caro e tem menos gente. Todos sabem que eu não posso com multidão (nem aglomerado). Pois muito bem, vejam só o que a vida me apronta: entro eu no raio do super mercado e vejo que está cheio.... muito cheio. Pensei que é assim mesmo, hoje é sábado, amanhã é início de mês e tal... continuei entrando (meus remedinhos têm que fazer algum efeito uma hora, né?)... Gente... quando vi, tava no meio de uma multidão de mulheres gordotas e violentas... não... foi mais que isso: mulheres enormes, brancas, negras, amarelecidas, violentas todas, gordas umas, magras outras, com bocas cheias de dentes (muitas sem dentes também), babando, cada uma empurrando três carrinhos abarrotados... não tinha espaço pra andar, me jogaram quatro vezes de encontro às gôndolas.... Uma velhinha estranha (e de guarda chuva) me tascou dois violentos beliscões na bunda. Foi me dando desespero, eu procurando a saída que tinha perdido, levei um encontrão de uma mulher gorda, bigoduda e suarenta, depois um pisão no pé de outra mulher enquanto outras duas brigavam cada uma delas puxando um carrinho para si (quase partiram o carrinho ao meio!)... as filas para os caixas eram enormes, serpenteavam aqui e ali e alcançavam o meio do supermercado (não dá pra saber o que é fila ou gente andando e abarrotando os carrinhos!)... comecei a ver tudo rodar, mulheres, mulheres verruguentas, mulheres horrendas (sim todas as mulheres no super mercado são horrendas, monstruosas), homens também, homens de bermudão e sandália Rider, óculos fundo de garrafa... todo mundo se esbarrando... postas imensas e sangrentas de carne gotejavam pra tudo o que era lado, pacotes de açúcar se espatifavam, ovos caíam ao chão aumentando a cagada, criancinhas puxadas pela mão (algumas arrastadas!) gritavam também (por que no mercado todo mundo grita?)... de repente tocava uma sirene e uma voz histérica gritava por um alto falante que não sei o quê estava em oferta por dez minutos e uma nuvem de pessoas corria em determinada direção aos gritos (parecia distribuição de comida na Etiópia) e tudo rodando.... Fechei os olhos e fui saindo devagar, ainda levando safanões por todos os lados e consegui ver a rua. Corri. Do lado de fora parei para respirar e me recompor (a tremedeira não passou)... depois consegui ver que o mercado mudara, que agora ali é um Mundial. 27.9.06
Não me interesso pelo que eles vão dizer. Não há nada de novo. Sinto falta do meu antigo grupo de criação. No casarão, à noite, leio um pouco e tomo rum. Estranhas paredes, estranhas sombras, estranhos sentimentos. Esses tempos foram como uma maldição que se abateram sobre a pequena cidade. Existe um homem que caminha solitário pelas ruas, ela me diz, que nunca fala com ninguém, pára aqui e ali e fuma cigarros fedorentos. Resolveu seguir o homem porque não lhe pareceu tarefa perigosa e não viu nada de anormal: apenas um homem que caminha bastante, que pára de vez em quando, homem que leva uma mala numa das mãos e um jornal na outra. Leio mais. Na verdade, não consigo parar de ler como se fosse literatura. O que se faz nessas ruas? Nessas ruas de faz tudo, é nas ruas que todas as coisas acontecem, é lá que os corpos despencam, que cavalos e motocicletas disputam, que travestis se prostituem. Passo sempre pelos travestis e olho de perto e vejo a barba mal feita e o desespero da pobreza a lhes afligir o olhar. Entro em outro cômodo, em que a televisão está sempre ligada, um filme atrás do outro, televisão posicionada em frente a cadeira velha, de estofamento rasgado. Tudo lembra fracasso. Cinzeiros cheios, copos vazios, chão de madeira carcomida e um ar que parece esperar o fim. Porque fingimos que não e procuramos não lembrar que tudo é para esperar o fim. De fim, me diz ela também na sua carta que o homem não é jovem, que o homem caminha lentamente e tem os ombros curvados. Quer se aproximar dele, mas não tem motivo. Sabe que ele a percebeu e não parou. Diz com sua letra trêmula que é um homem desesperançado, um homem que já viu tudo e só quer caminhar. Por que sempre com a mesma pasta e o jornal? Termino de ler e me aproximo da janela. Está muito escuro lá fora e hoje faz muito frio. Mais uma carta dela fazendo a mesma descrição. Antes de sair me pergunto quantas criaturas se arrastam pelas noites, quantos cavalos, capotes, chapéus... quantas almas vagam buscando, buscando não sei bem o quê, mas sei que é necessário. Sei que é lá fora que exorcizamos os demônios, enquanto outros tomam conta de nossas almas. Tiro uma carta do tarô: O Diabo. 24.9.06
Abro a porta para pegar o jornal e embaixo, lá está ele, o embrulho em papel cinza amarrado com barbante. Normalmente esse tipo de correspondência me é entregue pelo porteiro e não deixada na porta. Abro rapidamente. É um caderno manuscrito. Folheio. Muita coisa escrita com letra irregular e em várias cores de tinta. Alguns desenhos ruins, infantis. Fecho a porta e venho lendo. Trata-se do diário de alguém muito deprimido, que fala várias vezes em se suicidar. Corro à última página e ele diz que eu devo continuar a escrever, mas não fala em suicídio. Imagino, portanto, que o autor não se matou. Mas porque deixar na minha porta? Logo eu? Não consigo ler o jornal. Passo a ler o diário com mais atenção. Não é bem escrito, é de autoria de uma mulher jovem e faz referência a lugares comuns a mim mesmo. Com certeza, alguém que eu conheço. Hoje vou almoçar fora com uma amiga e não posso perder a manhã inteira lendo um diário maluco. Passo ao jornal que é mais doido ainda com essas maracutaias todas do governo. Gente morta, gente com fome, frio. Um desfiar sem fim de notícias desagradáveis... Volto ao caderno manuscrito. Pelas datas no alto das páginas e a grafia vejo que foi escrito à muito tempo, coisa de cinqüenta anos. E por que mandam para mim? Vou ao banheiro e incendeio o caderno. Com o jornal imprestável, embrulho o peixe da alma. 18.9.06
Diário de K. Queria falar de K. Sobre ela, tudo está anotado nos meus manuscritos: seu olhar de mel, de soslaio... seu andar leve e deslizante como a calmaria do mar, o frescor da sua pele e do sorriso franco de quem nunca perdeu a paixão, de quem nunca perderá. Ambígua, menina mulher, que olha e sorri suave e profundo, doce caminho que dela virá. Sim, isso aqui é um "Meu Querido Diário". Nada mais. Nenhum compromisso. Nada. Assim. Seco. Radá me fala da vida, dos seus judeus, paixão recente. É um Doutor em judeus, judaísmo, tudo... podia ser assessor de Hitler. Estou com meu carro parado quase na esquina. Resolvi dar um tempo pra desaquecer as turbinas depois de doze horas de trabalho. Fico pensando como vou me drogar porque assim, de cara limpa, não pego no sono. Um carro pára na minha portaria... reconheço: é do Radá. Uma mulher misteriosa e bonita salta do carro. Signos no ar. 17.9.06
Um dia nascer feliz O Sobretudo de Lona acabou há muito tempo, vem aqui quem ainda não percebeu isso. É verdade sim. Foi uma conjunção de situações, motivos e modos de viver que conspiraram para que o blog fosse bacana. Foi. Acabou. Na verdade também porque eu sou outro, minha vida é outra. Passei mais de um ano enclausurado, não saí, não li, não soube de nada. E as coisas hoje me chegam com outras cores. Tudo é mais preto e branco. Isso não se refere a depressão ou coisa assim não, o mundo é mais preto e branco, é menos poético, me parece. Ando pelas ruas de automóvel, caminho menos, tenho menos contato com pessoas, aquelas situações de antes são mais raras. O brasil piorou sob o governo Lula e agora, às vésperas das eleições, sabemos que ele ganhará de novo, muito possivelmente no primeiro turno, e teremos mais quatro anos de governo Lula. O país, embora bem maquiado, está pobre. Continuam os chopinhos, as gargalhadas desdentadas, os pagodes e os sambinhas em cada esquina não porque o povo seja alegre, mas porque é ignorante. A chuva é ácida, ácidas são as pessoas que caminham pelas ruas com guarda chuvas negros. Nada diferente. Descubro uma coisa interessante... que conheço e conhecem sempre as mesmas pessoas on line porque existe um grupo que está sempre ali, pronto para conhecer. Não é coincidência, explico a um amigo desavisado que se espanta com o inusitado. O inusitado não existe. O que temos são os mesmos como que esfarrapados da crença, tristes da solidão. E somos muitos, muitos, mas não tantos; uma panela com a mesma sopa. O cara me olha como que não querendo acreditar, mas é isso... pode ter certeza... Aliás, se você for sempre ao mesmo bar, encontrará sempre os mesmos solitários bebericando desesperançados. E assim vamos ensinando ao outro o que é esse mundo preto no branco. Variante? Cinza. Mas a vida é boa, eu creio nisso. Acredito que cada dia deve ser vivido com vontade, cada dia é único, temos muito que aprender, que gozar e essas coisas todas. Não chego ao pagode, mas estou longe da tristeza. As pessoas deviam encontrar um meio termo pra vida ter mais sentido e serem mais felizes. 16.9.06
a manca não existe É preciso dar asas a imaginação. Não é isso. Temos um ser contador de histórias porque sem contarmos histórias, sem lendas nem nada simplesmente enlouquecemos. Em razão da fratura na perna, fiquei um tempão de molho e depois comecei a mancar. Manco até hoje porque ainda não fiz fisioterapia. Daí me nasceu a idéia de conhecer uma mulher manca. Mas a vida real é muito pouco inventiva, as coisas demoram a acontecer. Achei por bem inventar uma história em que conheci uma mulher manca e procurei acreditar ao máximo nessa mulher, nessa situação que descrevi nos posts abaixo. Missão cumprida. A mulher manca não existe. Não estive em Santa Tereza, não encontrei uma mulher mancando nem nada. Mas foi divertido. Temos que procurar os nossos pares e para um homem de perna fratura, nada mais adequado do que conhecer uma mulher manca. Não tenho culpa se a vida, às vezes, é pouco criativa. Bom, talvez não seja culpa da vida, talvez eu devesse ter rodado mais tempo pela cidade procurando a tal mulher.... Mas havia uma grande chance de eu não encontrar, o que seria uma perca de tempo. Tenho cérebro afinal e posso contar o que bem entender. De qualquer forma não gostaria que meus três leitores se sentissem enganados. Não. Eu não enganei. Eu vivenciei toda a experiência narrada com a mulher manca. Apenas vivenciei aqui, na minha cabeça e resolvi dividir essa experiência com meus três ou quatro leitores. Sendo assim, tudo explicado, volto à real, navegando por sites interessantes e outros nem tanto, continuo descrevendo aqui o que vai me acontecendo acerto de que não perdi a confiança depositada em mim. Afinal, qual de nós não é um contador de histórias?... 11.9.06
Todo encontro parte de um encontro na net. Esse é o mundo em que vivemos. Conhecemos muito mais gente entre sites e relacionamentos do que andando na rua. Quando conhecemos alguém diretamente das ruas não virtuais elas aparentam ser perigosas. Mas o que tem isso a ver com Mark Twin? Tem que ela tem um exemplar do livro em inglês. Lê para mim com desenvoltura, traduzindo. E não é nada do que eu imaginava. Não está diretamente envolvido na história do Lost. Tenho que quebrar a cabeça para ver algum envolvimento e só em nossa imaginação pode ter. Senti calor, muito, essa noite. Não havia bruma e sim lua e estrelas. Não tomei cachaça, mas vinho, não falei desse mundo, mas de outro. Parece que estou no melhor dos mundos quando posso falar das coisas não vistas, do Aleph. E fico pensando que esse conto de tantas décadas atrás já determinava tudo. Digo a ela que Borges iniciou verdadeiramente o mistério e que não foi entendido em sua época nem nas décadas posteriores. Se olhar de vampira sobre do livro até meus olhos. Ela parece concordar, mas não diz nada. Ela tem muitos, vários momentos de silêncio e eu gosto disso. 10.9.06
Apesar da melhora do tempo, havia névoa ontem em Santa. Por volta de duas da manhã saímos para dar uma volta, escapando dos lugares de sempre onde encontraríamos conhecidos. Meus e dela. No mirante paramos um pouco pra dar uma sacada no visual. Minha dama de preto falou alguma coisa sobre experimentarmos um certo comprimido... não topei. Falei um pouco do seriado e de Cathy Hapka, mas ela não deu bola. Falou de Irvin D. Yalom e seu Nietzsche. Fico pensando... minha amnésia não sumiu completamente. Nada, continua forte e tenho que reler as coisas. O que eu escrevi outro dia nos manuscritos foi apenas que estou melhorando, apenas isso. Não ia contar, mas vá lá. Fiz um mapa como o cara do Amnésia. Junto ao mapa trago um caderno com anotações e isso está me ajudando a não dar muitas mancadas. Tenho pequenos resumos das coisas e não preciso rever a coisa inteira. Parece que uma parte do meu cérebro foi muito afetada, coisa sem volta... Ela trás uma pequena garrafa de bolso e sorve de vez em quando. Não estou mais nessa, não agüento mais, mas tudo bem, ela entende, sabe que já estou na fase não de fazer, mas sim de pagar a conta. Ela entende bem o que eu falo, nos entendemos. Tira os óculos meio escuros e seu olhar tem a mansidão dos inocentes. Sei que essa história é muito pouco compreendida ou acreditada e acho bom. Quem sabe não estou escrevendo uns capítulos vagabundos de uma novelinha barata? Tanto faz. Os motociclistas chegam. Param a uma certa distância. Sei que o lugar é deles. Ela está encostada em mim, com frio. Partimos na bruma. 9.9.06
A mesma rua de paralelepípedos. Tocha de lume bruxuleante. Um certo mau cheiro geral. Fico me perguntando se é da rua ou de mim mesmo. Todo mundo que sente mau cheiro deve antes olhar para si. A mesma mulher, a mesma taberna. Sou gregário... jamais seria um bom vampiro. Ela me diz que é vampira sim (e prova), mas o que são provas? O que são caninos e o que é sangue? Não tenho mais sangue em mim e o que ela suga é uma mistura de líquidos que todo corpo humano tem. Estranhos fluidos! A chama é amarela e a bebida vermelha O livro tem capa de couro. Leio enquanto ela dorme. Ela deve estar dopada ou muito cansada. Quero que durma, que repouse porque só eu entendo a saga das mulheres da madrugada e a discriminação contra elas. Descanse em paz. Estarei aqui.. devorando o livro e tomando o fluído vermelho. Reparei na rua que havia névoa. Não sabia que tínhamos tanta névoa bem aqui, tão pertinho. Quero vir sempre aqui onde estou mais protegido, onde estou amparado como no quarto róseo, no útero de Michelle em...esqueci...Ah! A Idade da Razão...rs... esqueci. Estou exausto também e logo vou dormir até o cantar do rouxinol. Sei que preciso dar descanso a meu corpo e paz a meu espírito, preciso me encostar em alguém que esteja entendendo o que eu não escrevi. Está tudo aqui, exatamente onde não escrevo, onde morcegos voam, coelhos correm e vampitos são solidários. O que eu espero do mundo? Um vampiro solidário. 8.9.06
Ontem à noite, início de madrugada saí de casa por desespero completo. Não agüento mais ficar na cama com esse maldito frio. Queria estar de motocicleta, mas fui de carro mesmo. Segui para Santa Teresa (mais frio ainda). Estava enrolado no meu casaco de lona e fumava adoidado dentro do carro fechado (parecia uma câmara de gás). Não morri. Sei que estou aprontando e que depois vem a conta, depois chegarão as doenças e finalmente a CTI. É bom que eu vagueie pela madrugada enquanto ainda posso. Vi uma mulher caminhando pelas ruas escuras do bairro. Ela subia e descia como se andasse à beira do meio fio, ora pisando na calçada, ora na rua. Uma prostituta? Possível. Aproximei o meu carro. Era uma mulher de trinta anos, bonita, sem maquiagem. Parei a seu lado e ela entrou no carro sem dizer nada. Fomos até o largo e saltamos num barzinho pra tomar cachaça. Andando entre as cadeiras vi que a mulher mancava, era manca. Ela disse que ia fazer a brincadeira do Matrix comigo e, quando nos aconchegamos na mesa e tomamos a primeira dose de cachaça, abriu as duas mãos, cada uma contendo uma pílula. Uma era amarela e a outra preta. Escolhia amarela e tomei com minha segunda dose. Conversamos muito, rimos um bocado, ela disse que tinha ficado manca ao ser atropelada, que era artista plástica e que tinha brigado com o marido. Uma história comum para uma mulher comum numa noite comum. Ficamos até de madrugada marcando minha saída de casa após muitos e muitos meses, talvez anos. Acabamos num quarto não muito limpo (não sei de quem) e hoje de manhã cedinho, quando acordei, ela não estava mais. Fiquei frustrado, mas vi, na mesinha de cabeceira um papel com um número de telefone celular rabiscado. Estou dando um tempo e mais tarde vou ligar para essa estranha mulher manca de Santa Teresa. Mulher que me entreteu o bastante para ficar horas numa mesa de bar e ainda cumpriu a árida missão de me levar para a cama. 7.9.06
perdido Acordo no meio da noite e vejo a vela já gasta. Aviões. Por onde passam? Ela me disse que passaram dois aviões, não me disse por onde.. tenho muito frio, muita fome e sono. Acabo então por dormir que é o mais fácil. O livro está próximo à fogueira, muito próximo para o meu gosto. Penso que pode acontecer um acidente que nem acidente seria. Ontem eu terminei de ler o livro vagabundo, de bolso, oleoso, seboso. Acordo rapidamente, nem sei se dormi. Havia uma experiência em andamento, eu tinha que experimentar agora que não conhecia mais os meus limites. Me pergunto agora até quando conheci meus limites ou mesmo se um dia tive controle. Acho que não ¿ ou sim. O que é ter controle? Me olho no espelho e sei que ali está um esqueleto.. quando serei apenas esqueleto? Muitas noites acordo suando pensando que estou morrendo, que estamos morrendo, que cada vez que respiramos é menos uma vez e pode ser a qualquer momento, a qualquer momento... ela levanta os olhos dos escritos e me observa. Somos mortais, diz. Eu sei, claro que eu sei.. o que não alivia essa angústia existencial. Existo até quando, até onde? Acordo, acordo, acordo.. até onde estou acordando? E quando saberei que não acordo mais e porque não controlo o momento de não acordar. Malditas CTIs! (alguma coisa está mudando... precisamos manter o controle...)* Lost Tava falando com um amigo sobre o Lost. Acho que não perdi nenhum capítulo, mas pesquisando na net, nos sites e blogs vejo que eu mesmo não sei nada, que tem muito mais coisas acontecendo, que as pessoas estão estudando à sério, que tem implicações paralelas. Fico me perguntando se não é hora de uma irmandade, de uma seita. É preciso reagrupar de forma mais organizada as pessoas que acompanham Lost ao redor do mundo. 5.9.06
O que eu mais sinto falta é de andar por aí chutando latas. Sempre me fez bem entrar em becos escuros e chutar latas. Deveria ser uma terapia. Não tenho mais fisicamente a motocicleta, mas continuo um motociclista. Continuo vendo a roda da frente correndo pelo asfalto, continuo vendo tudo como era antes, os postes, as calçadas e os vagabundos e vagabundas que sempre povoaram o meu mundo. Eu seria uma espécie de lorde dos vagabundos, mas parece que já fizeram um desenho animado assim. Ta vendo? Tudo já fizeram. Resta-me acompanhar esse mundo já todo pronto e não ser nada de novo, de diferente. Sou um igual que brada. No fundo me parece mais coisa de maluco mesmo, alguma coisa parecida com Dom Quixote, enfim, essas paranóias. Não me importo também não. Que seja. Tava pensando em fazer alguma coisa com quadrinhos, com revistas em quadrinhos, mas ainda não sei bem o quê 4.9.06
Não deve ser fácil a vida de escritor ou de editor ou de qualquer dessas coisas que obrigam o cara a sentar diariamente em frente ao teclado e deixar lá um texto mediano que seja. Eu passo meses pensando que talvez devesse escrever alguma coisa, alguma coisa legal porque todo mundo deve ter alguma coisa legal pra dizer. A gente até diz coisas legais, mas não escreve cara, não escreve. Você é capaz de tomar uma bebedeira, de rodar uma cena de um filme ou de se casar, mas não escreve. Quando dá essa secura intelectual acontece isso de aqui e agora: ficar escrevendo sobre a incapacidade de escrever enquanto lá fora chove uma chuva interminável e o frio entra pelos ossos [no meu caso, quebrados]. Fico sabendo das coisas bobinhas que os panacas fazem na minha ausência do trabalho. Risível como querer brincar de ser Geraldo. E o que eu sou de tão especial? Ah, me desculpem, mas eu não posso deixar de dizer que sou único mesmo, que sou especialíssimo e não existe outro igual. Por isso me irritei quando vi uma mudança de comportamento em relação a mim por causa de outra pessoa. Não são aqueles recadinhos bestas não, é uma opinião fundada na verdade de que não se deveria perder a oportunidade de me ter digamos... completamente. Brincadeira. O que me importa realmente é a reunião de criação e as asneiras que dizem os que pensam que estão no meu lugar. Ora bolas, meu lugar é somente meu, mesmo que eu morra e seja enterrado. Eu sou insubstituível. Aliás, bom que se diga, todo mundo é insubstituível. Mas também não era nada disso. Era a história de tentar pensar algo novo e moderno para a televisão porque a televisão ainda é o grande veículo, ainda é o grande motor que move a humanidade. Não é possível imaginar um homem, uma família, um trabalho, um lazer ou um crime sem a televisão. A televisão é o altar, meca moderna, filha e mãe do século XX. Nada existe sem televisão e a gente tem que estar ali, vendo o que vai fazer, como acrescentar mais, como continuar entretendo e informando porque são milhares de cabeças pensando a mesma coisa cada hora do dia, bicho. E quando você faz uma reunião e vê que as pessoas não estão acompanhando, não estão entendendo, não estão nada do que você está.... Caramba, é desesperador. Tudo isso porque eu preciso marcar uma reunião, mas tenho uma enorme preguiça de falar. Mas não me interessam só os malefícios da internet não. A verdade é que em dias chuvosos quando o mundo parece uma mistura de NY, cemitérios vazios e mangueiras de plástico incolos, nesses dias dico quieto onde me escondo, em frente ao monitor e teclado e lá vou escrevendo as coisas que me passam pela cabeça, falo ainda com pessoas que estão distantes e tomo doses descomunais de café. Enquanto chove lá fora leio trechos de livros em separado [já que não me concentro em nenhum], ando aqui e ali, mas o centro de tudo é o computador. Não é nada disso. Não acho o computador centro de nada. É um eletrodoméstico como uma batedeira velha, mas me permite ler e escrever, falar e calar,a companhia dos quem não querem ter companhia. Não existe ninguém mais só do que eu. Uma vez eu li uma história em quadrinhos que o personagem lá tinha relações sexuais com a televisão dele. Naquela época eu não imaginava que um dia existiriam computadores em casa e seriam muito mais do que amantes, mas verdadeiros casamentos, relações de todos os tipos... até psicanalíticas. Penso ainda que existe alguém do sul desse país grande e bobo que vem aqui de vez em quando e gosta do que lê. Acho que gosta de mim porque conheceu o que eu escrevi. Uma relação complicada porque a loucura avança e nos corrompe. Eu sei que já fui corrompido pela loucura que é um caminho sem volta. Mas ainda assim as coisas vão sendo escritas e me dá enorme agonia não saber ao certo se estão indo ao ponto correto. Principalmente quando fico muito tempo sem escrever e crio o hábito de não ser visitado. Porque falar de imortalidade é isso, é preocupar-se com a morte, morte que vem chegando e eu desesperado porque não estou conseguindo escrever! Que saco! Talvez fosse melhor mandar cartas, e.mails do que publicar aqui. Pra que arriscar? Qual a vantagem do risco? Por que colocar-se sempre em risco é o que me pergunto todos os dias e me respondo que estou em risco de qualquer maneira, de que sou covarde e não me arriscaria se fosse possível, mas não é, é bobagem tentar, sou uma bomba pronta a explodir! Parece oportuno falar da [falta de] sexualidade de Borges numa resenha que fala da sua obra [efeitos] na América Latina. Não pensem que estou querendo fazer auto-comparações e outras besteiras. Não. Estou falando dessas coisas que nos latinos escrevem em seus blogs, publicam [o mistério de publicar, publicar!] sem talento muitas vezes, só pra ver que os textos estão aí, flutuando pelo espaço. Li um blog português [esqueço o nome], que é pura literatura enquanto o que é o Sobretudo de Lona? Lixo. Lixo virtual de uma cabeça doentia que mal sai de casa e pensa em barbaridades tolas. Como é triste ter para si barbaridades tolas! De certa forma, com talento, Borges também tinha suas barbaridades tolas, mas que foram bem aceitas nos círculos intelectuais do continente e depois em mais algumas [poucas] partes do mundo. E tudo isso pra quê? Pra muitas coisas, pra das vazão ao ID desesperador dele e [sempre!] para publicar. O homem não consegue ser anônimo, só, caminhante da multidão. O homem é antes de tudo um publicável. Todos nós temos certeza que somos publicáveis e achamos injustiça não o sermos. E eis que chega a internet salvadora, redentora da raça humana que permite que homens deixem de produzir pra publicarem Sobretudo de Lona. Não estou cortando lenha, não estou apertando parafusos numa fábrica nem anestesiando um canceroso porque estou escrevendo posts [nome bacaninha] para duas ou três pessoas lerem. Deixei de ser pessoa e tornei-me um publicado, um publicável, um lido. Tem gente que lê essas tolices e me diz que gostou e eu fico todo me achando por meio minuto. Depois olhos minha cara de bolacha no espelho, minhas olheiras e minhas rugas e sei que não estou fazendo o que deveria. Eis a grande verdade da net: todo mundo pode escrever, pode contar suas coisas, suas intimidades, pode inventar. A net tornou a população mundial criativa, artística. Dã. Essa vida é muito engraçada mesmo, só rindo. Eu a vida inteira tentei tomar os comprimidos que o personagem Joe Guideon toma em All that Jazz e nunca, jamais consegui. Achei mesmo que era um tipo de anfetamina que não era produzido no Brasil. E agora, tantos anos depois e já nem lembrando de nada disso, vem minha psiquiatra e receita pra mim, pra que eu tenha mais força, vigor em me concentrar e sair de casa. No começo eu fiquei até com medo de tomar e só após uma exaustiva pesquisa da internet vim a ver que era a mesma substância. Pensar que há 15 anos, sei lá atrás, eu tentei comprar aquilo de todo jeito, nem que fosse como droga e nunca consegui e agora o remédio me vem parar as mãos. No filme, em inglês é Dexedrine e no Brasil é Ritalina. E tomo e melhoro, me sinto muito mais bem disposto, longe dos dias acabrunhados que passei quando os antidepressivos não faziam efeito. Minha terapeuta arriscou e acertou. Preciso contar essa história desse amor antigo meu com os remédios que Joe tomava. Quá, quá. Sonhei com as incríveis torres de pedra construídas há mil anos atrás que não se sabe se eram fortalezas ou silos, mas são estranhas. Duram mil anos numa região on há terremotos, a população as cultua, populações estranhas elas também, no Tibete. Assisto com interesse ao documentário e olho para o ovo da minha perna quebrada. Nas torres [volto a elas], as portar ficam a cinco ou dez metros do chão. Por que? Fortalezas? Não se sabe. Uma casa ou torre que tenha a porta a cinco metros do solo me lembra logo Borges [ainda não li todo o Borges que comprei tão entusiasmado!] e do Borges venho pra esse jornalista inglês, Christopher Hitchens e seu AMOR, POBREZA E GUERRA, livro interessante onde ele atira pra todo lado e nos dá alguns socos no estômago. Podem ser socos falsos como quando diz que Churchill namorou o nazismo, mas são socos. Salto capítulos e vou até onde Hitchens fala de Borges, fala de maneira oblíqua, pra fazer pensar e me forçar a reler alguns contos do argentino. Ta, é um livro complicado, meio prolixo e sei que não é o ideal pra quem anda seco de leituras, pra quem não consegue entender nem uma revista em quadrinhos. É uma experiência que estou fazendo comigo mesmo, uma espécie de voltar por cima ou me afundar mais e mais na lama do empobrecimento cultural. Esse A MOR, POBREZA E GUERRA é pra ser um livro de cabeceira por um tempo porque é de difícil leitura e de opiniões controversas [o que não assusta em nada, poderá ser tolinho ¿ mas isso você tem que ver]. Se as opiniões controversas forem boas bem, caso contrário, serve pra embrulhar peixe. 1.9.06
Pois eu sempre disse mal de tudo e de todos, não tive escrúpulos com nada nem ninguém e conseguia ver no mundo uma jekísse sem fim. Qual nada! Jeka é quebrar a perna. Não sei como, uma bicha velha e gorda, me estatelei num prosaico banheirinho sem fetiche e pimba! Quebrei a canela. Num primeiro momento, machão que sou, não procurei o médico e suportei galhardamente as dores na perna por uma semana. E como dói. Dói, incomoda e enjoa! Acho que a pior coisa do mundo é ficar impedido de andar, ter que pedir um copo d¿água ou que alguém alcance aquela revistinha sem graça que está ali na frente e que você não ia ler mesmo. Perna quebrada e não engessada é pior ainda porque, vejo agora, o gesso tem um profundo efeito psicológico que te diz: estou quebrado! Sem gesso então é o diabo! Você vira um fresco salta pocinhas que está ali deitado com um saco de gelo em cima da perna. Todo mundo deseja que você melhore, mas todos perguntam como está o gesso e fazem um silêncio constrangedor, sepulcral, se você responde que não tem gesso. Um quebrado sem gesso não é um quebrado, é um farsante! É macarrão sem queijo. Minha mãe, coitada, estava me atendendo com boa vontade e à todo segundo me perguntava se eu queria água. Porra, eu tenho cara de quem tá com sede? Toda hora ela perguntava se que queria que trocasse o gelo. Deus! Gelo é gelo, foda-se! Quem te atende fica perguntando tentando adivinhar o que você pode estar querendo , mas você só queria não estar quebrado. Não, fala sério. Quebrar a perna é o ó do borogodó, é a lama, é a lama.E tem mais: dizem assim pra você: poxa, como você vai ver televisão, heim? Puxa, ainda bem que você gosta de ler, vai ler pra caramba! No cú. Não li uma linha, quase não vi TV, fiquei lá feito um pastel olhando o relógio e vendo que o tempo não passa. E os médicos? Quando você está doente e vai ao médico ele fala que no dia seguinte estará melhor. Se for mais grave ele fala em dois ou três dias... Ortopedista fala pra voltar em vinte (!) dias pra ver como vai indo e quando você volta, ele manda voltar em mais trinta! |