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Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida. O impossível na raça humana são justamente as pessoas. Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes. Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida. Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka. Sempre teremos Paris.... Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues) Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes) A calma é inimiga da perfeição "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett "Toda mulher devia ser a Sandra Bullock" "A Tsunami é Aqui!" "Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real" "O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..." "A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite." "A Internet, repito, imbeciliza as pessoas." "O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow. "Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise." "Dormir de dia é um suicídio inconcluso" "O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo "A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues "Ser me ocupa bastante" A. Gide "Nada como a brancura cadevérica de um Pé" "Acordar é como um renascer com as cartas marcadas "A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia". "Matar-se é fazer poesia!". "'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee "Só o suicida morre dignamente". Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança. Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. . O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. . |
30.11.06
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28.11.06
Entro na taberna com o suor misturado à água da chuva. Meu corpo banhado em líquido sabe muito bem diferenciar o que é o meu fluído e o que vê, de fora. Não se misturam. Sinto calor na chuva. Sempre sinto muito calor na chuva. O homem de barba confusa me oferece uma caneca destoante de rum e tomo sem pensar, sem sofrer pelo que me queima, pelo que vou delirar. Não tenho noção agora, não quero saber que o pé direito alto vai na verdade, me fazer rodar. Não sei o porquê daquela adega nem do rapazinho imberbe que me olha provocadoramente. Como um menino que se insinua, que quer se entregar, quer um esposo. Vejo-o com uma tiara de flores brancos e olhos pintados além do discreto baton. Felini. Do outro lado está o balcão com seus homens típicos, seus verdadeiros personagens, carecas uns, barbudos outros, caolho aquele ali e anão e perneta o acolá. Pontos de luz, velas que se derramam em garrafas e garrafões. Não me interessa apenas aquilo... subo os três degraus e estou na rua. Caminho vagarosamente e hoje, seguindo Clarice Lispector, ando por ruas diferentes. Sim, elas sempre existem! Passo na Tabacaria e compro um pacote dos meus cigarros, uma pequena embalagem de pedras e uma lata de fluído para isqueiro. O português de longos e brancos bigodes me sorri agradecendo (e, certamente, pensando no bom câncer que estou acalentando). Começa a chover e desço a escadas para o metrô. Logo chega o comboio e entro deixando na estação o homens de chapéu que lia o jornal. Se estava ali, naquela estação, por que não embarcou? As portas se fecham e, com ruídos e rangeres, os trens partem. Seguro no ferro e penso que ali não existem freadas bruscas, salvo um ou outro suicida, não é preciso desviar-se de pedestres incautos. Não. Nos túneis do metrô tudo segue sua rota litúrgica mesmo, como um grupo de frades caminham pelos corredores entoando os cânticos gregorianos. No meu vagão, não posso deixar de ver dois homens carecas com brincos no nariz e coturnos a parecerem militares, como também observo a velha de pernas estropiadas pelas varizes, velha de lenço mal amarrado na cabeça a deixar um tanto de cabelo crespo e sujo a sair-lhe pelo lado. 22.11.06
"O sexo se intromete com seu lixo e interfere nas negociações dos estadistas e nas pesquisas dos eruditos. Destrói os relacionamentos mais preciosos e tira os escrúpulos dos que antes eram honestos e direitos" Arthur Schopenhauer Ela me contou ontem que reatou com o namorado que parecia caso perdido e está super feliz. Fiz cara de feliz para ela também e conversamos um bocado tomando um café. Explico que fiz cara de feliz não por estar infeliz, nada disso, estou ótimo, mas por ver que a felicidade dela está ligada ao namorado, a outra pessoa. Tal como o personagem central de A CURA DE SCHOPENHAUER, vejo a felicidade exatamente no oposto, na solidão. Entendo melhor porque P. me indicou o livro: para que eu me identificasse com o personagem. Ela está calmo e tranqüilo, certo de ser feliz sozinho, lendo seus livros e ouvindo sua música. Claro que não faltarão os detratores de primeira hora a dizer que isso é doença, uma neurose profunda, psicose talvez, que o homem precisa se relacionar, ter e dar afeto e toda essa coisa. Não discuto, talvez seja essa a verdade, mas não posso me abandonar. A análise e a medicação moderna já me deram o que tinham que dar e agora me resta enfrentar minha própria personalidade, meu gosto peculiar e estranho. Isso tem uma palavra característica que não me lembro agora (resultado colateral dos estabilizadores do humor... Excêntrico, lembrei! Ou demente, não importa que rótulos vão me dar por aí, importa que estou bem aqui, com meus livros, minha internet, meus pacotinhos de Miojo rs. As pessoas que têm TOC passam a vida arrumando as coisas de um jeito simétrico e por í vai... fazer o quê? Portanto é isso... não vou a reuniões de fim de tarde, não gosto de sair à noite....Melhor dizendo: não gosto de sair e está acabado. No mais, cuido da minha vida, cumpro meus compromissos, não prejudico ninguém a não ser os que não me compreendem (apesar de minhas claras explicações), não entendem porque estou ausente em momentos mais ou menos importantes, etc. E acho que não tenho que ficar postando coisas semelhantes à toda hora, não é? 21.11.06
Acho que um dos homens com maior visão política e prática de uma televisão pública no Brasil é o Mauro Garcia (hoje na TV Cultura de São Paulo). Já escrevi muito sobre a TV pública e vejo hoje as diferenças nas televisões do Brasil. O público se deixa enganar facilmente com a indústria da propaganda de filmetes e prêmios de origem duvidosa para a realidade brasileira. Foi o Mauro que me despertou para a prática da TV Pública. Eu vinha de uma experiência num canal pequeno que estava voltado para pequenas produções, poucos programas, todos visando a participação em festivais bolorentos. Era 1999, 2000. Mas tenho que falar de um programa especificamente. ARTE COM SÉRGIO BRITO, produzido e exibido pela TVE do Rio de Janeiro. Produzido é maneira de falar, né? O Sérgio exibe parte de sua filmacoteca , fala de livros que leu e de peças que assistiu. Qual a produção ? Três câmeras e um estúdio.O programa é o Sérgio Brito. De qualquer forma, imperdível. Cada vez mais a questão das castas se impõe [salve Bombaim!]. No ocidente e nos dias de hoje as castas culturais estão aí, barreiras invisíveis que os incautos pensam poder ultrapassar. Não precisamos ir longe, vemos isso aqui, na internet. Você conhece pessoas de todas as castas, uma espécie de comunismo na acepção da palavra. Fala com todas as pessoas. Diz Oi a todos. A internet não tem filtros*[ver adiante]. Faz as pessoas se conhecerem aos poucos. Eu ia escrever uma coisa, mas não, mudei de idéia. Eu ia dizer que a gente se envolve com toda a escumalha, toda a jekice da face da terra, mas não é verdade. Antes nos separávamos por países, cidades, bairros, pessoas afins, educação, etc. Agora as pessoas se escolhem pelo filtro da internet [sim, a internet é o gigantesco filtro!!]*** e para isso é preciso avaliar e dar tempo. O tempo é um fator primordial. Na vida ofline a gente vai tomando decisões à torta e à direita. Na internet, como um budista, deve-se observar o tempo porque é através dele [nas conversas] que avaliamos educação, formação e caráter do interlocutor. Uma amiga minha, bem formada, estava dia desses especulando se os relacionamentos na internet são passageiros porque sempre podemos encontrar parceiro melhor. Discordo: são passageiros quando os interlocutores são de castas diferentes. É necessário, eu acho, que se tenha cuidado com as primeiras impressões [se a gente entende que os relacionamentos são construídos com entrega mútua]. E tudo isso vem à minha cabeça à partir de uma explicação que B. me deu ontem à tarde sobre o processo de zeros e uns. 20.11.06
"Uma vida feliz é impossível. O máximo que se pode ter é um vida heróica". "Talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem" Schopenhauer | 19.11.06
Espelho. Aparar a barba com a máquina elétrica é melhor. Fica sempre um pouco de barba, nada de rosto liso nem tampouco [um] Papai Noel. Estilo a gente procura quando tá desocupado... mas somos desocupados. Basta observar a quantidade de livros lidos, as canecas de café, a Coca-Cola... Tudo faz de mim uma pessoa que tem tempo. Aparando a barba, narcísicamente vendo os fios brancos no rosto, me lembro do PDV falando que temos que aproveitar o tempo... quanto tempo ainda temos? Quando a gente passa dos cinqüenta acende um alerta vermelho, somos uma bomba viva, caminhando daqui pra lá! Então se é isso mesmo, deixa ele delirar sobre o barco (vai que compra mesmo?), deixa eu ler tudo que me pára na mão, me endividar com mais e mais armações de óculos... cada livro que compro custa o preço equivalente a cinqüenta volumes que vendi, mas vou refazer minha estante! V. acertou com o estabilizador do humor e o antideprê... ela me deixou pronto pra viver um pouco melhor [BEM MELHOR!]. Converso com a menina do outro lado... ela está mal, se enterrando... quero fazer alguma coisa, mas como se ela não está medicada? Não posso mandar remédios pra SP. De toda forma, conversamos muuuuito! De vez em quando falamos em grupo, todo mundo contando seus casos.... foi idéia dela... às vezes ajuda e outras atrapalha... mas são os passos que aparecem pra mim... é a vida a ser vivida... termino 101 dias em Bagdá* e já me espera A Cura de Schopenhauer** [entre os dois, a leitura meteórica da Marina rs]... O Iraque, o Iraque... livros e jornais, montes de informações... agora estou entendendo um pouco melhor, vendo de outra perspectiva. Muito sangue, chega a dar agonia ler toda a tragédia. O mundo ocidental não viu, não assistiu ao que realmente aconteceu. Leio uma grande reportagem. Um livro com uma enorme, dura reportagem. Asne Seierstad estava ali, no meio das explosões, dos estilhaços, das crianças e adultos mortos, decepados... num mar de sangue. Fico pensando. Tudo por causa do petróleo? Será possível? Tenho dificuldade de aceitar que Bush tenha feito tudo isso [e continue fazendo] apenas com interesse no petróleo. Mas parece que é, há um consenso mundial... a ONU não tinha autorizado... Por que ele não ataca a Coréia do Norte por exemplo? Não entendo nada de guerras, de política, de seres humanos, de nada. Ou não quero entender pra não comentar? Tenho minha parcela de culpa? O mundo inteiro tem sua parcela de culpa por aquelas crianças todas destroçadas? Yé! Falo com ela depois de uma espera interminável. Não sai da cama e muito menos quer falar comigo aqui. Não há nenhum assunto que a interesse, claro. Torno-me um chato bobo. E eu sei que qualquer coisa que diga, soará tola, ou seja, melhor não dizer nada. Não dizer nada é empurrar pra cama novamente... vira um dilema, um paradoxo. Tenho que deixar rolar, deixar ficar de cama, deixar querer morrer. Onde começa e onde termina? Onde começamos a querer e onde realmente morremos? Eu não sei. Quando as pessoas morrem? E nós, à volta? O que fazemos? Vamos ao cinema? 18.11.06
Mãe. Qual a nossa influência um no outro? O que a minha mãe fez de mim [quando podia] e o que eu faço dela [agora que posso]? As mães são o dilema da humanidade, não porque sejam más, porém porque Freud assim o disse. Mero aluno de Bauer, pode muito bem ter sido um charlatão, um incompetente numa era de obscurantismo, época em que as pessoas queriam ouvir aquela teoria, explicação. A humanidade precisava de Freud como um Messias, aguardava que lhe fosse dada a chave para todas as coisas. Freud cheirava pó e, excitado, deu uma pernada na psiquê e mandou ver em cima das mães. O negócio pegou feito rastilho de pólvora. Freud é como o Cristianismo: é porque é. Nesse fogo cruzado ficaram as mães: culpadas antes de tudo, megeras, figuras monstruosas que deturpam seus filhos, toda a humanidade. E acho que foi a tal coisa: já que elas tinham fama mesmo, que Freud pespegou essa rotulação em todas, aproveitaram pra chutar o pau da barraca e mandaram ver em cima das criancinhas, a meia idade do século XXI. hahahahahaha Pois então peço ao A. para montar minha estante. Puxa, naufraguei (!), mas não morri, sabe como é? Tive um grande baque, perdi meus livros, mas não foram todos. E agora, com a estante montada, vou, aos pouquinhos, fazendo novamente minha bibliotecazinha. Nada de grandioso, quem sou eu, mas pra eu ir me sentindo melhorzinho, com meus livros à mão. Porque é isso, né? A gente tem que recomeçar, tem que ir aprendendo a cair e levantar. Posso não estar me levantando de grana [continuo duro]*, mas vou indo em frente, vou ajeitando as coisas, mexendo com a minha cabeça. Ela me diz que a gente tem que estar legal, me pergunta se estou conseguindo e fica feliz de saber que sim... e me conta que ela também está, toda feliz com a viagem que fez**. Fico feliz por ela... essas felicidades são assim, sabe? A gente vai ouvindo, conseguindo e contaminando a outra com a alegria [que pode ser pequena] e a outra pessoa ri e assim vai numa cadeia, passando de um a um... Nada a ver com aquela coisa de salvação religiosa. Não, melhora mesmo e a contaminação com a melhora dá alegria. É uma corrente que vai fazendo todo mundo ficar bem.====>>> [ver notas de pé de página no caderno 14 B] "Oi.... rsrsrsrs! Tava lendo o outro e.mail que te mandei.... parece um memorando do serviço público. Não era nada daquilo que eu queria dizer. Queria falar que fiquei reconfortado ao ler tantas passagens e sentimentos que eu tenho também.... as dificuldades pra se concentrar, as noites em claro, as mudanças de medicamentos, a incapacidade dos outros entenderem..está tudo ali, não faltou nada... queria dizer que você fez muito bem de botar tudo pra fora e tal. Li rapidinho.... de uma tacada. Agora vou ler novamente, com mais calma.. Beijo Geraldo" Correspondência para Marina W.: "Maria Adriana Marina W. São dez horas da manhã de sábado. Ondem, sexta à noite comprei teu novo livro. Estava desesperado procurando de livraria em livraria.... Claro que não fui em todas por causa da agorafobia rs. O que dizer? Não vou falar muito porque basta você saber: é um livro raro, uma oportunidade da gente se encontrar, saber que não acontece só conosco. Não é um livro triste, ao contrário, dei boas risadas. Mas você conseguiu transcrever tudo, tudo como é. Ajudará aos que ainda não buscaram tratamento e aos que não sofrem da doença e não a entendem no próximo. Literatura e informação. Vai pros 10 +. Passa à partir de hoje a ocupar espaço na minha cabeceira. Muito sucesso (que é certo)! Beijos Geraldo Iglesias" | 17.11.06
PDV manda notícias... fala de um livro. Compro. Faço qualquer negócio. Essa é a vantagem de ficar velho e louco: você faz qualquer negócio! Ou não? Ou sempre fiz qualquer negócio, sempre prostituí meu espírito? Acho que sim e acho que não. Talvez apenas boas intenções, talvez apenas essa rapazinho pardo da América do Sul, apenas pensando na possibilidade de ser... É o preço que se paga por demorar muitos anos pra encontrar o lítio, mas isso é outra história. Afinal, não tinha Word também e depois, como ela, o lítio se mostraria ineficaz. Maremoto. Enormes ondas que me engolem, me encobrem... luto, luto, mas não sei nadar e logo canso...ela tinha me avisado pra não deixar e eu disse que não, não era... insisti em levar a criança, em deixar a criança ir, se aventurar. Ela dizia que aquilo tudo era muito perigoso, que não daria certo e eu insisti até o fim. Final trágico. Grito. Todos gritam. Por que essa gritaria? É um fantasma ou um pesadelo? Acho que um pouco dos dois, mas não importa agora porque não consigo despertar e as ondas continuam a cobrir tudo e os gritos a ensurdecer minha alma... No fundo da caneca de vinho, quando vejo a porcelana e sinto o aquecimento agradável que me sobe da espinha, quando penso no meu signo e vejo que sou guiado por ele, que os astros conspiram, que a vida na aldeia é melhor, reconheço que o sinal foi bem vindo. Nada melhor poderia ter me acontecido do que sair do gueto e vir para a aldeia. Não sei mesmo como as pessoas moram nas cidades grandes, como conseguem entrar nos transportes super lotados, como andam pelas ruas com a bolsa a tiracolo e os celulares no ouvido. Como se permitem se amarrarem ao banco do carro com o sinto de segurança, como dormem sabendo que seus filhos estão nas ruas. Um filho criado por mim seria um deficiente não só mental como em tudo porque não sairia jamais de casa, assim como eu, me conta a mulher ao lado do espelho. Ouço como deve-se ouvir a todos, aos caminhoneiros, as lavadeiras e os banqueiros, embora esses não falem assim com pessoas rudes como eu. Imagino que o mundo esteja ainda dividido e tenho a Colômbia para mostrar que aqui não é o pior. Não estou completamente convencido. No livro, Bioy Casares fala de determinado homem gordo e barrigudo, com bigodinho elegante que falava ele sim e com pessoas humildes. Esse relato é atribuído a Borges num diário apócrifo. Não vejo muita necessidade de ter essa certeza toda, afinal. São homens, são latinos e sabem muito bem o porquê de todas as considerações sobre idas e vindas e cantos e reflexos e multidões e solitários e anônimos e famosos. Tudo isso me remete a conceitos inexplicáveis porque ainda estão sendo criados. Uma nova casta, uma nova linhagem de gente, talvez a maior mutação que a raça humana já teve. Alguns idealizadores me dizem que podemos mesmo falar que não é mais a humana, é outra. Não sei. E depois 12.11.06
Existe sim uma forma maníaca, ao contrário do que eu disse dia desses. Pensando bem, existe essa fase maníaca e ela é bem acentuada. Ela se mostra, acontece em pensamentos, eu não caio na prática, mas, invariavelmente, me pego pensando em coisas do outro mundo, planejando atividades e atitudes muito distantes desse EU aqui. Ela não estava errada então ao falar na bipolaridade. O que acontece é que vou encontrando uma, dez, cem pessoas que me dizem serem bipolares. Quase todo mundo. O que está acontecendo? Foi a descoberta da doença agora ou ela está aumentando? Se está, por que está? O consumo de drogas antidepressivas vai aumentando, a pesquisa nessa área também e, como um vestido novo, as drogas vão entrando em temporada, ficando famosas para, depois de algum sucesso, irem se apagando em função de outras, mais novas, mais interessantes por isso e aquilo. Tem gente que discute comigo a bipolaridade, que pertence a grupos, comunidades, pessoas que ainda nem foram ao médico ainda! Conversei ontem com um rapaz que poderia ser meu neto. Ele faz parte da comunidade e me descreve todos os seus sintomas, trocamos informações várias. Depois, me diz, já auto diagnosticado, vai procurar um médico para pegar as receitas do remédio. Na comunidade todos trocam informações sobre suas dificuldades, dramas, situações estressante ou engraçadas, alardeiam seus medicamentos como sendo melhores e, sempre, diagnosticam uns aos outros. Chegam mesmo a insistir com os companheiros de comunidade para que procurem seus médicos e tentem trocar a medicação, que use a dele e não a receitada! Na verdade a bipolaridade é um jeito de ser, uma enorme tribo global que se auto-regula, que tem suas vontades, suas regras, seus amores. Imagino que os amores devam ocorrer entre pares como numa religião milenar. Só é possível se relacionar com alguém que tenha os mesmos problemas porque assim os potes de medicamentos que um carrega não causarão estranheza ao outro que tem também sua farmácia particular. Não ir à balada nem freqüentar lugares altos não será motivo para a discórdia, já que ambos têm pânico de multidão. Poderão se ajudar em pequenas saídas, com o apoio do outro conseguirão ir a um cinema de tarde, voltando correndo para casa em seguida. Sem contar a possibilidade de um experimentar os medicamentos do outro e levar a experiência seus respectivos psiquiatras. Ufa! E assim vai. Cria-se uma nova ordem mundial, uma nova tribo que se espalha e se comunica, troca correspondências, sugere livros e filmes e tudo o mais. Uma espécie de Islã químico onde todos têm horários rígidos para seu compromisso com a farmácia como lá são as orações em direção à Meca, tratam a farmacinha como o Alcorão. Todos suam nas mãos, todos têm um olhar desconfiado, todos adoram a segurança da conversa na internet, todos são verdadeiramente irmãos. Em breve o mundo inteiro será assim, o que deixará de ser uma doença. Falta pouco. Em vez de lojas de grife, farmácias. Em vez de excursões, MSN. Ao invés de baladas, grupos de auto-ajuda. E grávidas, as mulheres promoverão seus chás de bebê onde cada um de nós contribuirá levando remédios infantis, com cartões desejando que o pequeno tenha essa ou aquela fobia em seu futuro promissor. E em vez do leite materno, o governo fará campanhas pelo aleitamento com Prozac. 11.11.06
VOLVER. Muito legal. Achei que não ia gostar por um monte de motivos. Todo mundo gosta e a unanimidade é burra...rs Brincadeira. Mas achei mesmo que não ia gostar porque fiquei viciado em filmes policiais. Quem diria, né? Mas acho que com a velhice meu cérebro entrou em stand by. Lindas as cores de Almodóvar, um roteiro bacana... as pessoas saem do cinema leves. Na verdade o filme não tem nada de leve, ao contrário é barra pesada. Isso é muito legal: uma história barra pesada contada de uma maneira... Bom, vão assistir! Em casa, contente comigo mesmo, assisto a um bom policial na TV. Pronto. Assim consegui me dividir. Fui politicamente correto e dei vazão à minha fúria assassina 9.11.06
Conclusões, conclusões, onde chegar? Arrumo as coisas, todo banho, me preparo para sair. Teve o telefonema dela que me deixou preocupado. Sempre me deixa preocupado. Dá a impressão que as coisas não são sólidas, de que eu não tenho o controle do que deveria ter e é verdade mesmo, não tenho controle sobre minhas coisas. Estou deixando algumas coisas correrem, mas sei que numa hora virá a conta com juros e correção monetária. Não posso estar de férias da vida porque não estou, ninguém está. Quero as respostas: por que desejo tanto estar de férias da vida, não estar em contato com o que necessita, não olhar o que se apresenta? Não sei. Procuro respostas em fraquezas causadas por A e b, mas será mesmo? Fico pensando em como somos falhos [e fracos], como não percebemos que o tempo está passando e as coisas têm que ser feitas agora. O que é o amanhã? O amanhã, não existe, é um hoje planejado, adiado, só isso. Não temos amanhã. Portanto, todas as necessidades que creditamos ao amanhã estamos, na verdade jogando fora, adicionando ao ontem não realizado. Esse raciocínio deve me levar à beira do rio onde sentarei o jogarei pedras n¿água durante o tempo que for necessário para que eu me compreenda, entenda o céu e, finalmente, limpe bem embaixo do tapete. ainda considerações... Meu alter-ego entrou num site de relacionamentos de discussão das neuroses. Ele me diz que ficou impressionado com a barafunda geral instalada, que as pessoas entram e falam qualquer nota, vão derramando suas queixas, algumas pífias. Misturam tratamento com religião, doença com educação e vão falando sem parar, sufocados todos, por uma indisposição geral, maior. Entrei aconselhado por uma amiga e logo saí, deixando parte de mim como representação. Consigo bem me dividir em dois. Ou três. Nesse caso fiquei decepcionado, ninguém está se entendendo.... Fico me perguntando se essas pessoas realmente conversam com seus psiquiatras, se realmente são informadas do que está acontecendo e o porquê de tudo. Não sabem nada. Tem gente que busca sites de relacionamento assim para descobrirem se os seus problemas se enquadram ali. Loucura. Tinha a tal proposta de criar um grupo de discussão, um grupo que falasse dessas coisas e aí eu concordo que a internet é um fórum privilegiado, perfeito porque todos falam de suas experiências no anonimato das suas casa e isso pode progredir para encontros outros. Ta tudo muito bom, mas a coisa não é simples. Eu mesmo não tenho paciência com quem não sabe do que estou falando. Estou falando do TERROR. É preciso falar do terror com tranqüilidade, sabendo que ele faz parte das nossas vidas, que convivemos com ele e sobrevivemos. Teve uma mulher que me perguntou se eu era louco. Ora bolas! Sou, respondi. Ela me disse que tinha medo de ser rotulada de doente mental pela família e por isso não ia ao médico. Foda-se. Excluí essa besta dos meus contatos. Por outro lado recebi algumas correspondências interessantes, gente com muito tempo de estrada, que já conhece seus limites e nem tenta mais ultrapassá-los mas antes, conviver com eles. Eu sei que estou atrasado no processo, a Marina ta lançando [e sendo dela, com certeza é ótimo] um livro contando suas experiências... Li os trechos que ela disponibilizou no blog. Mas tem outras questões que eu acabei levantando. Percebo que a maioria dos médicos rotulam logo de bipolares pessoas que muitas vezes tem apenas um dos pólos em pandarecos. Acho que sou um deles. Esse texto é a base para a minha próxima consulta. Mas a coisa não é tão simplista assim, é muito maior. Porque tem essa questão dos medicamentos que são fundamentais. O pior: eles vão até um determinado ponto, à partir daí não fazem mais efeito, quer dizer, você melhora, vai melhorando, mas continua limitado, não fica cem por cento. Essa é uma das coisas que mais mexem com as pessoas, elas deixam de se medicar, muitas fazem partem para a bebida e assim por diante. Não há literatura, nada. Imagino que os fóruns sejam uma alternativa bacana, mas não vejo ainda os caminhos para chegar lá. O momento da mobilização. Troco idéias com uma menina, jovem ainda, na faculdade e ela é bem consciente dessa coisa toda. Trocamos informações interessantes, mas de maneira nenhuma isso pode ser considerado uma troca tal como penso. É preciso mais gente ousada! Bom.... deixo esse bilhete aqui.... sei que talvez umas trinta pessoas vão ler e o prognóstico de que se enquadrem é quase nenhum. Fazer o quê? É o meio que eu disponho 8.11.06
Céline Curiol Oi. Não ia aparecer. Não quero mais aparecer em nada. Desisti. Me achei um escritor e estou mais para fritar bolinhos. Ele me fala do Meio Ambiente assim, com letras maiúsculas e eu aceno como cãozinho vira-latas. Rolo na cama e não durmo. Acendo a luz.... leio um pouco de Céline Curiol. Essa mulher me enlouquece. Pouca gente conhece, mas quem não ler não sabe o que está perdendo. Acho que olhamos o mundo de maneira diferente ao terminar de ler VOZ SEM SAÍDA. Eu li duas vezes. Seguidas. Acabei de ler e li novamente. Está na minha cabeceira. Dou uma olhada de vez em quando. Levando e saio lendo em voz alta. Parece que escuto Céline. Mas na verdade não é ela quem está ali. Sou eu andando. Me escondendo de mim, com as mãos suando frio, os pés gelados e um tremor por dentro. As pílulas fazem menos efeito. Sei que tem uma livreira mais na frente e que posso ir até lá, conversar com ela, ela que escreveu um livro dizendo que não é a única bipolar. Tenho que falar com ela! Pela milésima vez digo a mim mesmo que vou amanhã, que vou durante o dia. Digo isso e rezo para chover, para que aconteça qualquer coisa que me justifique não sair. Sábado estarei coma médica e ela novamente, mais uma vez vai me perguntar como eu estou. Eu pela milésima vez direi que estou bem, mas não saio. Nem ela entende direito. É o fim do poço da agorafobia. Vai aumentar a dose dos remédios, já sei. Semana que vem, portanto, estarei mais dopado do que estou agora, nessa madrugada fria em que sinto calor. Tentei na internet como sugeriram, mas não deu certo, a conversa fica trunca e os fóbicos metem os pés pelas mãos. Preciso ter uma voz dentro de mim, uma voz que me enlouqueça, mas que me diga o que fazer. Quero a voz da esquizofrenia, não me iludo, quero ouvir opiniões, ordens, quero não suportar todos eles e gritar e ser amarrado. Porque é assim que vi acontecer. Não acredito em ninguém que não ouça vozes. Uma pessoa razoável, uma pessoa que lê, que conhece alguma coisa não pode ser padrão. Crio um personagem que enlouquece e se suicida, mas antes escreve um caderno inteiro, não, dois, três cadernos grossos inteiros com as anotações da sua agonia, com a vontade de mudar o teatro qual como ele é, de mudar o entendimento. É só isso o que eu quero mudar a forma de entendimento, que existam outras maneiras de compreender o outro, de aceitar o não como um sim, de festejar a morte e rir do nascimento. Brincar com o soro da vida porque ele é grátis, ele está aí pra todo mundo independente do aquecimento global e não me venham com essa história porque ninguém vai parar de produzir nada... porque nenhum de nós quer viver num mundo sem a produção das coisas. É nisso que dá ficar lendo muito jornal, vendo muita televisão... melhor ser menos informado e conhecer mais as coisas belas, as artes, sei lá... tem tanta coisa nesse mundo que podemos ver e nos encantar e gargalhar e continuar rindo mesmo depois de gozar porque é tudo uma questão de ponto de vista, me diz a voz dela, agora familiar a mim. É uma questão de entender que posso me dedicar ao belo, a essas coisas que nem damos importância, mas estão ali, na nossa cara. Vou com ela em direção a isso. Pronto. Opção Final. Claro que não estará escrito aqui porque vou escrever naquele caderno que está bem ali, aberto desde anteontem. Ninguém vai ler porque a voz me manda incendiá-lo quando terminar... A minha vida acaba por terminar em chamas como terminaram os tempos. Não é assim que está escrito? 7.11.06
Não existem doenças do lado de baixo do Equador. O que existe é essa coisa chata da falta de imaginação, de querer fazer igual quando tem tantos caminhos diferentes. Escrever o que se vê, o que se sente todos os dias, todas noites insones ou com sonhos pavorosos. Não precisamos mesmo copiar nada porque a vida já é um prato cheio. Não vou dar nome pra não fazer propaganda, mas fui alertado que um cara começou a escrever uma coluna num jornal, Sobretudo, nos mesmos moldes deste humilde escrevinhador. Tudo bem, se ajuda a ele, melhor. Quem sabe eu às vezes não estou copiando também? Afinal, quem não copia? Passo adiante com o desespero da batida de carros. O meu e o dela se chocaram com força deixando amassados e faróis quebrados para todos os lados. Claro que foi culpa dela, dela sim essa mulher que já foi minha, mas agora diz que não, que foi imprudência da minha parte. No sonho, como na vida real, o policial diz que não, diz que eu errei e terei que bancar ambos os prejuízos. Grito, provo, esperneio, mas não adianta. Acordo assustado. O sonho é a doideira. É a bebedeira sem beber. Fico pensando que se a gente lembrasse de todos os sonhos não precisaria beber. Não, não é nada disso. O que eu penso mesmo é que vivemos num estado de transe constante, acordados ou dormindo, estamos sempre dopados, sempre embriagados por essas coisas que vão rolando dia após dia, coisas que nos jogam de lá pra cá, encontros e desencontros com não pessoas misturando vidas e estradas virtuais com outras mais virtuais. Não é a internet que é virtual, é a vida. A VIDA DEVE SER VIRTUAL PORQUE FINITA E NÃO SE PODE ACEITAR NADA FINITO, NADA COM DATA DE VALIDADE. ACEITO QUE ME QUEIRAM NÃO PORQUE GOSTEM, MAS POR FALTA DE OPÇÃO. NA VERDADE O QUE DEVERÍAMOS ESPERAR ERA A ETERNIDADE POIS SÓ NO ETERNO O HOMEM SE REALIZA. O CONCEITO DE FINITUDE DESARMA O ARCABOUÇO DA IDEOLOGIA [SIMPLESMENTE] PORQUE NÃO POSSO SER IDEÓLOGO SOMENTE ATÉ DETERMINADA DATA. ALIÁS, AS DATAS NÃO EXISTEM COMO JÁ FALEI, O QUE EXISTE É UM SIMULACRO DE CONTAGEM EMBRIAGANTE DO SER, UMA PREPARAÇÃO PARA O NÃO, UMA FORMA DE RELATIVISAR TUDO O QUE FIZEMOS E PREPARAR PARA O NÃO VIRTUAL. NÃO EXISTO TAL COMO PODERIA SE IMAGINAR. EXISTO NUM SUSPIRO [ÚLTIMO] DE TENTATIVA DE SER, CAMINHANDO POR DUAS ESTRADAS CONCOMITANTEMENTE, SENDO UMA DELAS NOVA, DE PLASMA [QUE NEM SEI O QUE É] E OUTRA SUARENTA, CARNAL, SUJA. TODOS CAMINHAM EM DIREÇÃO À NÃO VIRTUALIDADE, ACREDITANDO CADA UM EM UMA FORMA DE EXISTÊNCIA, NUM MISTÉRIO MAIOR DO QUE PODE SER. FICO PENSANDO SE O MISTÉRIO [MAIOR] NÃO É A CORRIDA DOS ESPERMATOZÓIDES OU A IDA A UM SUPERMERCADO 5.11.06
Converso com ele por duas horas. Esse é o tempo que temos, nem mais um minuto. A ampulheta está ali, ao lado, guardiã do nosso tempo. Tempo. Faço um resumo de tudo, penso em tudo e em nada, no porvir que me soa patético e tenho muito medo de só pensar em Hoje, mas é isso: só posso pensar no hoje porque posso ter um derrame aqui, em cima do teclado. E como serei eu com um derrame? Se eu tiver [ou quando eu tiver] um derrame quero que seja bem feito, quero perder a consciência, ficar doidão, não saber mais desse mundo daqui. Nada de sofrimento nem fisioterapia nem vontade de palpitar sem conseguir, nada disso. Quero passar a outra dimensão e quem ficar por aqui que se dane. Não é draminha não, é querer um barato total, o estupor para sempre, independente de comprimidinhos, receituários coloridos e todo o resto... Tem sempre a possibilidade de ficar sóbrio... esta custa mais caro. Um homem sóbrio custa mais caro do que um homem dopado. Escrevo tudo isso sóbrio porque a natureza já me mandou com um grupo de acessórios mentais que fazem de mim muito mais desequilibrado do que esses iniciantes bobinhos que fumam maconha e essas coisas todas. To fora, polícia não! A lâmina de barbear passa perto da aorta e penso que se [na hora] eu tiver um espasmo, corto a bicha e pimba! vou me embora. Os homens que se barbeiam diariamente correm percentualmente mais riscos de morte do que os barbudos. Leio no jornal a paranóia instalada na cidade. As pessoas não saem de casa, têm medo de fazer programas, de se divertirem. Vão a locais de divertimento nos seus próprios bairros, pedem comida em casa ao invés de jantarem fora. O investimento da hora é colocar grades nas janelas e, os mais poderosos, blindagens em seus carros. Uma navegada por esse pífio blog fala de madrugadas passadas entre indigentes, excluídos, prostituídos, a escória da humanidade.... Como essa narrativa parte de um portador de agorafobia? |