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Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida. O impossível na raça humana são justamente as pessoas. Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes. Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida. Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka. Sempre teremos Paris.... Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues) Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes) A calma é inimiga da perfeição "Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett "Toda mulher devia ser a Sandra Bullock" "A Tsunami é Aqui!" "Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real" "O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..." "A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite." "A Internet, repito, imbeciliza as pessoas." "O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow. "Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise." "Dormir de dia é um suicídio inconcluso" "O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo "A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler "A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues "Ser me ocupa bastante" A. Gide "Nada como a brancura cadevérica de um Pé" "Acordar é como um renascer com as cartas marcadas "A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia". "Matar-se é fazer poesia!". "'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee "Só o suicida morre dignamente". Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança. Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. . O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. . |
31.12.06
Querido Diário: Estou no limiar da porta. Foi uma longa caminhada que se encerra aqui. Atravessei mais esse ano e vi um pouco das coisas que aconteceram. Chorei e sorri. Nem uma coisa mais do que a outra. Não tenho péssimas nem excelentes lembranças. Tudo normal. Foi o tempo da virada nos livros. Não lia há muito tempo e comecei a ler de novo. Ler febrilmente, tudo sobre o Oriente Médio e o Leste Europeu, lugares que eu conhecia ainda menos. Pensei em Borges, mas não fui capaz de dizer nada de útil sobre ele. Pensei em Ítalo Calvino, em Dali. Não tive ninguém por perto e a angústia aumentou muito. Foi um tempo de muita angústia (e é). Muito suor como se saísse de mim essa matéria triste, sentimento confuso, de não, de como assim? As pessoas vivem à minha volta e só sinto desespero. Os cigarros acendem-se uns nos outros como para aproximar o câncer. A medicação do dia a dia parece não fazer efeito, é como se estivesse só, como se nunca tivesse tentado, como se ninguém me visse. E se ninguém me vê é porque eu me escondo, porque entro nos desvãos, atravesso os espelhos e sinto-me personagem daquilo que não é mais. Ano, essa medida de tempo é, por si só, desesperadora. Engana o mundo fazendo com que pensem festejar, mas não é isso. Fogem têm medo, gritam, se embriagam, caem. O que é essa mudança de ano? Nada. Apenas a certeza de que continuamos no labirinto, dessa vez à pé, sem motocicleta, sem nada que me leve mais rápido adiante, apenas caminhando em uma ou outra direção, seguindo adiante quando na verdade estamos retrocedendo porque não existe nem a frente nem o atrás. Tudo ilusão. Todo mundo dormindo até mais tarde, todo mundo se preparando para gritar um tantinho mais nesse dia em que nada se ouve, nada se vê que parece, não o ano acabar, mas o mundo. E de certa forma, reconheço que o mundo acaba mesmo. Talvez seja isso. O mundo sempre acaba nesse dia e começa outro e a gente não vê, não percebe, não entende. Por isso as pessoas se acabam. O mundo acaba, moçada! O câncer vem aí! Meus amigos me ajudem e não compactuem com ele! Quem quiser as rédeas do Sobretudo é só falar! No mais..... é isso... 30.12.06
Sigo pelo corredor úmido. Estou quase chegando na ante sala e as vozes gritam nos meus ouvidos. Dizem que eu tenho que caminhar, não parar, sair daquele labirinto. Respondo às vozes que o labirinto não é ali, que é a minha vida, que estou sendo tragado, engolido por mãos escorregadias, que a menina linda de Niterói está sempre na minha frente, que a mulher que eu quero também não está segura, não sabe o que quer e o menino bonito não foi escolhido. Ninguém foi escolhido, ninguém está, continuo sozinho correndo entre ratazanas e água suja que escorre nas paredes. Não estou, não sou. Água escorre pelo meu chapéu de couro velho, minha barba está suja e consigo proteger o enorme volume da enciclopédia embaixo da minha camisa. Tudo em busca dessa mulher que me persegue pela vida e eu persigo e nos perseguimos sem chegar nunca. Chegarei ao bar com sua porta de vai e vem, sua cerveja quente e baratas espantadas em cima do balcão. É o meu lugar, insistem as vozes na minha cabeça. Meu lugar não tem fim nem início, não é simplesmente como um espelho virtual, como uma fonte seca de que dependo para respirar. Dou mais atenção às vocês do que ao ambiente e as mulheres não estão ali mais, devem ter seguido seus caminhos, porque as mulheres sempre têm um rumo, as mulheres não ficam. A dor no pulmão ataca. Quanto tempo mais para entrar na reta final? Quantos meses, dias? Eu sei que a morfina dá barato. Mas não quero ficar sem ar, não sei bem o que eu quero. As crianças correm pelo campo. Meus filhos são crianças e vão ficar sem mim. Qual a importância? O quanto temos de importância para o mundo? Acho que é muito pouca, é uma coisa mais familiar, da cultura, essas coisas. Pego o velho caderno e faço mais algumas anotações. Os jornais estão espalhados pelo chão.... falam de ônibus queimados, de pessoas mortas, de tragédias. Somente tragédias. O presidente toma posse depois de amanhã. Chego ao cômodo que pode ser o quarto e a única luz é uma fraca lamparina. Não é nada disso. Dor nas costas. Voltar ao caderno. Contar tudo o que está acontecendo e o medo de tudo. Tenho medo de tudo. Os remédios já não fazem efeito. Estou eu, de cara limpa, em frente ao espelho oval. Quem está lá? Acabou a velocidade da moto, acabou a força criadora, foi acabando uma coisa e outra, tudo aos pouquinhos, tudo deixando esse espaço vida jardim em que eu aprontei pra caramba... essas pessoas que foram me conhecendo, gostando e não gostando mais... esses sentimentos.... 27.12.06
Tudo, de novo, outra vez... Quando eu estou aqui Eu vivo esse momento lindo Olhando pra você E as mesmas emoções sentindo São tantas já vividas São momentos que eu não me esqueci Detalhes de uma vida Histórias que eu contei aqui Amigos eu ganhei Saudades eu senti partindo E às vezes eu deixei Você me ver chorar sorrindo Sei tudo que o amor é capaz de me dar Eu sei já sofri, mas não deixo de amar Se chorei ou se sorri O importante é que emoções eu vivi São tantas já vividas São momentos que eu não me esqueci Detalhes de uma vida Histórias que eu contei aqui Eu estou aqui Vivendo esse momento lindo De frente pra você E as emoções se repetindo Em paz com a vida e o que ela me traz Na fé que me faz otimista demais Se chorei ou se sorri O importante é que emoções eu vivi Mais? 26.12.06
A bestialidade da internet é absurda, chata, interminável e não vista. Eu falo, falo, escrevo, mando e recebo e.mails e não adianta nada. Como o computador é uma coisa recentezinha no mundo ninguém se atreve a falar mal da net até porque ela é facilitadora, no que imbeciliza as pessoas e, como tudo que facilita, as massas correm atrás e os intelectuais de plantão dizem amém e sim senhor. E fica esse blog repetindo isso todo dia, todo mês e as pessoas, vaquinhas de presépio, lendo e não falando nem fazendo nada. Claro que não é acabar com a internet, por impossível, mas tratar de melhorá-la porque tudo pode ser melhorado nesse mundo, até esse imundo texto. E quando as pessoas começam a perder espaço na grande mídia, tratam de fazer programinhas na internet que não acrescentam nada aquém assiste (pouquíssimos). E assim vai indo, todo mundo fingindo que sabe o quer, que sabe o que pensa e que pensa. Já disse um dia que não ia mais falar dessa bobajada toda, como disse outro dia que detesto orkut (pois eu quero mesmo é não ser lembrado!) e tudo o mais que eu fico repetindo e repetindo. To fora! Leiam o Sobretudo impresso em papel higiênico! E lambam os beiços 25.12.06
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24.12.06
.... do Diário O Natal é essa época em que o governo e os meios de comunicação oficializam a esmola. Todos dizem que devemos dar esmolas, fazem esse e aquele mais feliz. Como se as pessoas vivessem um dia apenas no ano. Eu não dou esmola, não dou nada, trato de pagar minhas contas e rezar pra essa época detestável passar logo. Desde a infância, que eu me lembre, abomino o natal. Uma chatice. Pra mim que tenho agorafobia já se vê que fico impossibilitado de colocar os pés no olho da rua. Acho que vai ter um empurra-empurra em cada esquina, assaltos em profusão e um não sei mais de rolos que acontecem nas multidões. Fico em casa, mas a ansiedade não me deixa ler nada, muito menos assistir televisão. Fico parado, tentando me tranqüilizar e ligando pra terapeuta. Mais. Imagino como será religar o computador na casa nova e como serão os dias sem telefone e sem televisão. Porque é isso: Natal e mudança. Tudo com data marcada. Nada pode dar errado e eu sei que essas coisas dão errado. Eu queria poder ajudar na mudança de outro, consolar, mas não: vai ser a minha. Queria dar palpites e ter esse olhar distante que é útil, que ajuda a ver as coisas. Nada disso.... Cada prego mal pregado será para meu próprio infortúnio. Claro que isso tudo é uma visão pessimista e que uma mudança é sempre tudo de bom, que a gente só a tem a curtir a casa nova e blá blá, blá. Tem gente que me afirma que adora mudar! Pode? Deve poder sim. Tem até aquela historinha de ano novo vida nova. Pois então! Todo mundo comendo aquelas coisas estranhas que se comem nas ceias de natal, inclusive o português que vai fazer a minha mudança. Imagino que ele esteja babando e afiando a faca. Não há muito do que falar se não da noite, as ceia de natal. É nisso que estão todos pensando. Ela está dormindo agora à tarde para estar bem acordada de noite, todo mundo com aquela expectativazinha mesmo sabendo que nada será diferente dos outros anos, que a história se repete como o dia do Zumbi. Fico eu aqui fazendo história com essa bobagem quando ninguém liga a mínima. Eu sou uma pândega meio patética. Nem tinha me dado conta que hoje é domingo, dia 24.... pouco a pouco o tempo vai passando. 23.12.06
Passagem rápida: "Uma outra passagem interessante foi quando ele teve um colapso nervoso. Não estava acontecendo nenhuma tragédia, nada que justificasse essa coisa grandiosa que é um colapso, mas ele teve.. Tudo porque ia se mudar de uma casa para a outra, sendo que o novo endereço era melhor em tudo. Coisa simples, sair de uma casa e ir para a outra. A médica foi aumentando as doses dos medicamentos, à medida que iam sendo necessários até que chegou ao máximo, dali pra frente não era mais questão de quantidade, era realmente um colapso. E nesse momento ele viu como é dura a solidão. A solidão achata. Te empurra contra a parede e parece que vai espremendo até não mais respirar." E aí ele saiu do ar 22.12.06
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20.12.06
Existem várias maneiras de se contar uma coisa não é? Eu mesmo posso contar de várias maneiras e a outra pessoa contará de forma ainda mais diversa. Isso me faz pensar que só mesmo as nossas histórias, vivenciadas por nós, sem nenhuma arte podem ser verdadeiras. Não é bem isso, mas acho que podem entender. E a vida não pode ser descrita num diário nu. Por isso criei o hábito de contar as coisas duas vezes ao mesmo tempo, em dois cadernos e quem quiser que escolha lá como vai ler. No caderno que não é diário, em que conto uma história, diz mais ou menos assim no capítulo 23: "Ele diz: Eu estava quieto, levando minha vidinha vivida, já habituado que estou ao meu gato [que me espera todos os dias], nas atividades de escrever textos aqui e ali, ler e responder correspondências [eletrônicas ou não], colocar minha leitura em dia, pensar nas atividades do dia seguinte, etc. Ela me surgiu assim, do nada, sem que eu esperasse ou dissesse um ai. Demonstrou e falou de sentimentos que eu não esperava, não contava, não imaginava que pudessem ainda ser. E aí vem a grande surpresa de ser humano. Quando a gente pensa que está equilibrado, compensado, quando a gente jura que nada mais vai abalar o mundinho que construímos, tudo desmorona, a gente se pega no vácuo, com sentimentos que juraria não ter jamais. Contado assim, parece uma história de amor, dessas de final feliz porque são baseadas em sentimentos, em amor mesmo. E não há como não acreditar no amor, não há como colocar em dúvida esse sentimento tão bárbaro que bota a gente assim, que nos joga pra lá e pra cá. A paixão não caminha ao lado dessa racionalidade toda que a gente pensa que tem. Somos racionais apenas até o momento em que surge o amor. Daí em diante tudo muda, me torno criança e não penso em como será isso ou aquilo, em como poderei realizar, como se sustentará, nada. Não penso, sinto. Ele me diz que o homem que ama ou se apaixona não tem idade. Pensa ter experiência, imagina que os cabelos brancos valerão alguma coisa e que desta vez isso ou aquilo. Nada. O estado de apaixonado não tem sexo nem idade, flutua entre alegrias e esperanças, conquistas e planos. E assim vai nosso menino caminhando em direção a um futuro mágico onde só o prazer e a felicidade podem ser vistos e sentidos. Ele ri: Mas o amor, meu amigo, pressupõe o outro. Você não conta que são dois, imagina que o que pensa será o mesmo que imagina o outro, que os dois são um. É o primeiro passo em falso. Perceber que não é assim é o cristal que trinca, o descompasso do coração, a sensação de que pisou no vazio, que deu um passo para o nada, entender que há outro, que não você, que não pensa igual, nem sente igual e que o gostar tem variados graus, que as pessoas têm exigências diversas, necessidades outras e tudo o mais. Com dor no coração e as lágrimas que não se sustentam no olhar vemos o cristal ir trincando mais e mais até um mar de caquinhos que se perdem no ar." Ele interrompe abruptamente sua narrativa. 19.12.06
Ainda o hipertexto Os sonhos. Caminho por um jardim, aqui e ali coberto de neve. Minha cabeça vai cheia, imagino o amanhã porque só imaginamos o amanhã, porque o presente escorre entre os dedos. Sento no banco da praça e concluo que o presente não existe, apenas o passado. Sou um homem sem presente. Falamos sempre em passado, presente e futuro, mas não é verdade. O presente é ver que nada acontece, perceber que estamos agindo, tomando atitudes, amando e sendo amados e não gozamos nada disso. Por isso, creio, as mulheres suicidam-se em Kars. Érica foi à Índia. Me contou suas aventuras, fiquei tentando imaginar, mas Bombaim é inimaginável. Simplesmente impossível da gente entender o que o outro conta. E aí mando um recado para Ane voltando aos hipertextos. Vejamos Bombaim: lá é uma cidade, virtualmente encontramos mil hipertextos que nos remetem ao lugar, mas nada nos faz sentir, perceber, entender a cidade e muito menos o povo. Perguntei ao Sergio Britto como é. Ele me respondeu com detalhes e eu entendi menos ainda. E mais: como entender que a índia cresce quase dez por cento ao ano no meio daquela miséria, daqueles hábitos, da religiosidade... como cresce mais do que o Brasil cem por cento ocidental? Então só posso perceber a Índia se for até lá, se morar lá ou, na pior das hipóteses ouvindo o relato dos que lá estiveram. Claro que vi na internet, mas nada me mostrou tanto quanto o livro A DIATÂNCIA ENTRE NÓS de Thruty Umrigar. Existe um fracasso atávico nos hipertextos, talvez por serem eles hipertextos e pecarem por ousarem algo que apenas a vivência permite. Fiquei interessado na história dos hipertextos no escrito de Ane. Comecei a pensar neles e a observá-los em minhas pesquisas na internet. Como são frágeis! Como são incompletos! Nasceram mesmo com uma espécie de morte anunciada [não que deixem de existir, mas falhos e decepcionantes], porque deles partiremos para algo concreto; deles saímos vazios e órfãos... Reparem que não há personagens em hipertextos tais como existem em notas de pé de página, não existe ação. Eu procuro complementar alguma coisa que escrevi aqui nas minhas caixas de recados, mas não é a mesma coisa. São experiências que, me parece, tendem ao retumbante fracasso. No meu caderno, de uma palavra puxo uma setinha e desenvolvo tais e tais conclusões ou ações paralelas que, acredito, é muito mais fácil e cômodo ler um caderno coberto de garranchos do que um texto limpo na internet. E não pensem que estou fazendo charme e desdenhando novas tecnologias porque não o faço, ao contrário, mantendo aqui esse diário que me dá enorme prazer. 18.12.06
"O jardim dos caminhos que se bifurcam é uma enorme charada, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção desse nome. Omitir sempre uma palavra,recorrer a metáforas inéptas e a perífrases evidentes, é quiçá o modo mais enfático de indicá-la" Borges Tem coisa melhor do ler uma história policial de Borges? Não tem! PAI Venho andando pela rua e observando as pessoas ao redor. Chama a atenção um homem que fala sozinho que parece contar com os dedos. Fiquei olhando para ele [um preto velho, simpático toda a vida]. Barba branca e um jeito alquebrado de ser. O que são essas pessoas nas ruas? Por que estão lá? Eu estava vindo do ponto do ônibus para a minha casa. E ele? Estaria indo para a sua casa também? Difícil. A região em que o vi é toda de imóveis caros, desses, pra idiotas como eu alugarem e depois não terem o que comer. Mas a barba branca eu já tenho e essa maneira alquebrada de andar não me deve demorar muito. Descontrole emocional? Há Há aposto que tomo mais remédios do que ele. Vou envelhecer sozinho, meus filhos seguirão lá os rumos deles [no que fazem muito bem]. Serei eu então um velho a contar nos dedos pelas ruas. Talvez mais estropiado que o homem que tanto reparei. Tive a impressão que era meu pai e poderia ser. Só me restava beijar-lhe a mão. Não o fiz para não atrapalhar suas contas. Não posso tudo, nunca pensei uma coisa dessas. Mas poderei transformar minha casa numa biblioteca pequena, onde estarei com meus livros. Terei a presença pouco freqüente daqueles que desejarem assim a minha companhia, sabendo que estou envolvido nesse meu projeto de vida, essa vida caminhante, de descobertas a cada dia. Como diz o Tom eu sou apenas um pobre amador apaixonado. Tem umas coisas que me tentam, mas acaba que sou obrigado a desistir no meio do caminho. Poderia citar uns exemplos aqui, mas não é conveniente. Essa história de Meu Querido Diário tem limites hehe. Muito trabalho aqui.... me aparece material do Tom Jobim de tudo quanto é lado e tem um esse pode e esse não pode que me deixa louco. Mas não me importo de não dormir e não comer direito. O trabalho vale à pena, vale ainda ficar sofrendo na ilha de edição sem saber o que cortar [da mesma maneira que sofri 18 anos atrás para fazer o Vinícius]. Fico pensando que a Globo vai de Faustão no dia 31 e a TVE vai de Tom Jobim... o máximo! Sobre o Olavo Ontem um novo amigo, o Sergio me falou da história do Olavo de Carvalho. Comecei a ler Olavo quando ele escrevia para a Revista BRAVO. Excelentes colunas. De filósofo de primeira. Tenho que reconhecer que, quando ele foi para o Globo caiu na política e aí ficou meio perdido e antipatizado. Antipatia é o melhor termo porque o Olavo é uma pessoa doce e que sabe muito bem das coisas. Todos os avisos que ele deu sobre um possível governo de quadrilha Lula se confirmaram. Fui na Universidade ouvir um pouco as palestras do Olavo e, para coincidência, a Érika tinha sido secretária dele. Isso tudo nos aproximou mais. Seus textos herméticos e sua aparente beligerância desaparecem quando você está em contato com o homem simples que é o Olavo. Sua home page é excelente, mas ele está um pouco fora da mídia. Dizem que ele é um homem de extrema direita, calúnia sem precedentes, ele apenas alerta para o golpismo e aparelhamento da esquerda radical e revolucionária. Olavo foi para o Globo porque o Roberto Marinho gostava muito dele e saiu logo depois da morte do empresário. Tem uma vida muito simples, quase franciscana porque não se vende em hipótese alguma para nenhum grupo. É uma pessoa completamente independente. Claro que tem lá suas idiossincrasias e momentos de maus bofes assim como tinha Paulo Francis e hoje tem o Diogo Mainardi. De resto, todos têm a mesma preocupação, percebem os movimentos revolucionários e os denunciam quando ninguém mais percebe o que está para acontecer. Meu Querido Diário Ontem foi um dia não. Desses que nada dá certo, você quer uma coisa e acontece outra ou você não quer nada e acontece tudo [de desagradável]. Vontade de tomar um litro de uísque como a Marina relata em relação ao Roberto Carlos, mas eu não sou ele, não posso. Estou com dor no nervo da perna, esses sintomas da velhice galopante que se aproxima. Dizem que não sou velho, mas eu sei que sou. Prova é que não me entendo com celulares e computadores. Fazer o quê? Recebendo muitas correspondências aqui neste espaço. Algumas pessoas acham bacana e eu fico contentem lógico. Não é o máximo dos máximos, mas sempre passa alguém por aqui. Fico procurando ser o mais fiel, ir contando as coisas que me acontecem sempre [porque me acontecem muitas coisas mesmo eu quase não saindo!]... Ocorrem pensamentos vários, reações e atitudes em relação a filmes e livros e por aí vai. Agora, a história da onda é a minha mudança. Vou mudar de Copacabana para o Centro da cidade, ali pertinho da Lapa. Vou ficar sem computador e telefone por um punhado de dias, meio incomunicável enquanto esses serviços são religados na nova casa. Estarei perto do meu trabalho e longe da zona sul, morando entretanto num imóvel completamente meu. Tive uma casa minha em Secretário e morei lá por quase um ano, vivendo com a Érica. Foi uma boa relação, uma boa experiência de vida. Além do mais estava pertinho do Tadeu e nos víamos sempre. Mas dessas experiências que acabam e a nossa acabou. Por motivos profissionais tive que voltar correndo para o Rio, abandonando a casa, o jardim, tudo. Levei quatro anos para conseguir vender a casa, já quase não tinha esperanças, mas por fim aconteceu. Agora, portanto, nova fase. Na minha infância morei no centro da cidade e a experiência foi péssima, não pela localidade, mas pelo clima de guerra que minha mãe e meu padrasto viviam. Passou. Agora estarei sozinho. De vez em quando, como ontem com a história da Patrícia, tenho vontade de morar com alguém, de ser menos excêntrico e essa coisa toda, mas realmente de perto ninguém é normal e vejo as dificuldades não só minhas como das outras pessoas e não quero perder a minha paz. Isso que eu chamo de paz foi conquistado ao longo de muito tempo e de muito sofrimento. Muitas sessões de terapia também, bem como quantidades inenarráveis de medicamentos. Agora estou assim: não sei bem o que eu quero. Parece que a solidão não é tão legal como eu imaginava, mas a paz é fundamental. Quam sabe não consigo unir as duas? 17.12.06
Pensando sobre a solidão... arranquei três páginas. Depois de cinco anos começa a me dar uma certa agonia. Pode ser passageira, claro. Pode não ser. Pode ter sido despertada pela ação de P. ou não. Muitas possibilidades. Não gosto de tantas possibilidades assim. Quando se está sozinho não há discussão, é sempre harmonia e fazemos o que bem entendemos. Gosto de ser só. Mas desde muito jovem eu digo que o homem é social, foi feito pra se agrupar e dessa realidade surgiu a humanidade. Não estou dizendo que sim nem que não Fiquei travado, com a caneta na mão... alguma coisa à espreita,, um grito preso no peito, uma emoção desarvorada e incomum. Não resta a muito a fazer se não gritar mesmo. Bobagem desdenhar das distâncias porque elas existem e nada se refaz assim, por decreto. Não. É paranóia. Como sou neurastênico e bipolar tenho muito medo das atitudes, do que virá com elas. Nem sempre tomo boas atitudes. Raramente o faço. Gritei que estava cansado de ficar sozinho e, ao mesmo tempo, me encolho. Não quero desavenças, discórdias e toda a sorte de desditas, toda a sorte de incompreensão, irritação, maus bofes e todos os penduricalhos que os relacionamentos trazem. Então por que uma força estranha se levanta e me faz dar esse grito, incapaz de conter? O que acontece no fundo do cérebro, do âmago do coração? Por que a máquina grita, apita como uma Maria Fumaça à ponto de explodir? Existe uma razão, um motivo e muito forte pra essa reação num fim de tarde de domingo, quando não se espera mais nada do dia, quando tudo (o nada) já foi feito? Por que o homem que se acasala regurgita dentro de nós num determinado momento pondo em desequilíbrio toda a quietude conquistada? Ela me revela: falou comigo por angústia, por não ter se encontrado. E é preciso se encontrar antes de qualquer coisa! Fim. As mulheres são a parte forte da humanidade. Lidamos com elas em várias situações, sempre em situações subalternas. As mulheres comandam todas as atividades. É por causa delas que temos os traumas, que somos neuróticos, inseguros e tudo o mais. Por causa da mulher se inventou o sutiã e depois ele foi queimado. Também por casa dela inventou-se as pílulas anticoncepcionais e o Viagra. No mais... o que dizer? Nada. Sem a mulher não existiríamos, o planeta não seria habitada por animais racionais nem existiriam barbeiras no trânsito. Não teria rolo de pastel na cabeça, calcinha rendada, OB, fofoca, TPM, nada. A Terra é uma mulher. Doce mulher. na pagina 46 da Revista de Domingo n° 125, ano 2 de 17 de dezembro de 2006 temos uma matéria dessas simples, tipo Entrando no Armário com Pérola Faria. Nada de mais, portanto. Mas existem coisas que não devem passar desapercebidas: vejam a perfeição dos pés da moça! JÁ TENHO COMENTÁRIOS. QUEM COLOCOU PRA MIM FOI O SÉRGIO... EU MESMO NÃO COLOCARIA NUNCA.... VALEU! (corrigindo : Sergio sem acento) Tem o dia normal, o bom e o barra pesada. Hoje é o barra pesada. Os motivos são inúmeros, mas eu acho mesmo que não é nenhum. Uns dizem que as coisas são como são e outros afirmam que nós fazemos a vida. Fico sem saber a quem dar ouvidos [acho que não escuto ninguém]. Não acredito nessas regrinhas simples. Se valessem, não teríamos problemas nunca. Tem o dia que é feito para dormir e não dormimos por nada desse mundo, nem com as drogas pesadas [legais]. Independe de sol ou chuva, calor ou frio e toda essa coisa. P. dá uns sumiços estratégicos e acho que estou assim por causa dela. Não tenho certeza [do quê temos certeza?] Ela aparece na vida assim, num belo dia, como se viesse do nada ou do tudo e fala um monte de coisas, mas não aparece com freqüência. Deve ser a maneira, os modos, os hábitos. O que tenho no momento é o teclado e o monitor. Deveria, portanto, estar ali. Mas não está. Com certeza ela não deve achar que deveria estar, deve ter outras maneiras de viver a vida e não pode compreender o que se passa por aqui. Como eu também não compreendo. Por tudo isso, acho bom eu baixar a bola e ficar mais na minha porque acaba vindo insegurança e ansiedade à toa. O problema é que não atendo às expectativas das pessoas, sei muito bem disso. Como ela diria, não estou disponível. Mas é necessário ler isso com um pouco de carinho e ver nessa disponibilidade não uma atitude e sim uma prisão. Daí vem as coisas que não posso dizer aqui, que estão lá no caderno de lombada vermelha. Fico me perguntando de que servem os blogs se não podemos dizer todas as coisas. Usamos metáforas ou simplesmente omitimos para não cair num espécie de texto ridículo de zeros e uns, confissões de adolescente de meio século agora virtual. Ou seja, nada se junta com nada nesse quebra cabeças que não está descrito publicamente em lugar nenhum, como aquele verbete perdido que se encontra em apenas um exemplar da enciclopédia britânica [já falei aqui, mas não prestaram atenção]. Fica sempre esse labirinto supra real, zona onde me perco sempre, dormindo ou acordado, por ou sem querer, consciente ou inconscientemente. Completamente perdido, completamente afastado dos muros que podem levar a algum tipo de resposta, dessas a que chamam realidade. Escrevo, escrevo e parece que não estou dizendo nada, parece que o texto está num guardanapo sujo que vai para a lixeira do sempre, do incondicional. Desisto. Calma, Sergio está me ajudando em tudo. porque eu sou uma anta com PCs.... além do mais, como todo pastel, coloquei um Norton que não me deixa navegar... Calma, digo pra mim em frente aos espelhos... 15.12.06
Ela senta meio de lado, não reta à escrivaninha e põe-se a olhar para o teto, como se eu pudesse ver o que ela vê. Vai dizendo suas coisas, insatisfações e medos, mostrando que não estou sozinho, que o mundo é louco e violenta. Falamos da cidade e do país, dessa degenerescência que vai desfazendo tudo, tirando os prazeres conquistados e tudo o mais. Não pode dar certo esse modelo em que temos que estar rindo o tempo todo, andar nas ruas escuras sem medo, ouvir a metralha como se fosse uma sabiá. Não é um sabiá, não são pássaros roxos, não é o córrego de um rio, não é a terra dos homens livres. Estamos todos usando drogas para suportar a violência que espreita á cada esquina, bomba que pode explodir à cada momento e não sabemos quem está ao nosso lado, quem realmente quer apenas saber as horas. Não tem governo, nada. É como uma selva, como animais... tudo cheira a sangue, medo à cada momento, pavor, pavor. Ela me olha e vejo o pânico em seus olhos. Não estamos mais ali na condição em que estávamos antes, somos apenas duas pessoas, dois sobreviventes da selva que ouvimos tiroteios em todas as madrugadas e não sabemos o que fazer, com quem falar. Somos pessoas que não conseguimos mais dormir naturalmente, não temos mais nada, nenhum bem, estamos assustados e, nem de soslaio, vemos o jornal,. Vivemos [ainda] no fim do mundo! | 10.12.06
Abro a caixa de madeira antiga que herdei da minha avó. Nada de muito especial. Mas é nela que guardo algumas cartas recebidas no tempo em que nos rebelamos contra a correspondência eletrônica. Uma bobagem, um exercício de desobediência civil. Todos nós temos esses rompantes na vida, mesmo quando o cabelo já está grisalho e a barba completamente branca. Porque na verdade não adianta de nada essa história de barba branca; isso não quer dizer absolutamente nada, é patético. Essas expectativas de amor malsão, terminam cambiantes, claudicantes, como pedras jogadas sem direção que caem aqui e acolá sem representar algo concreto para o céu e para o chão. Desço do bonde quase ainda em movimento por vê-la dobrar uma esquina, coberta por um guarda-chuva vermelho, caminhando apressada como se fugisse das grossas e desajeitadas gotas. Atravesso a rua, escorrego e um carro tira um fino com seu motorista de maus modos. Na calçada, aparentemente salvo, parece que vem um mar, uma onda gigante de gente contra mim... Vejo o guarda-chuva se afastando e quase grito enquanto peço licença e corro. Por momentos perco-a de vista para logo depois reencontrar numa curva de ruela, parecendo mais esse lugar com um labirinto onde cabeças aparecem e somem e meu coração pula, não é isso, ele rateia, meu coração rateia, faz que vai morrer e acelera novamente como a [me] avisar que alguma coisa está falhando, está escapulindo, quase escapando ao controle [na hipótese de que tivéssemos algum]. Umas pessoas vêem e outras vão, nesse embate de carnes e suores e chuvas e respingos e desculpas faz favor. Após uma corrida maior alcanço-a, seguro seu braço, o sobretudo e corro dando a volta à sua frente para me mostrar, molhado assim mesmo, com as gotas e escorrerem do meu rosto, outras empapando-me a camisa. E sempre a mesma peça, a mesma surpresa que vida vem pespegando, brincando com seu bailado lascivo, não é ela, mas outra a que está ali, tendo em comum apenas a sombrinha vermelha. Relembro que meu coração disparou, saltei do bonde andando e quase fui atropelado e agora aquela sombrinha me diz um nada, um desculpe faça-me o favor, um ai, foi engano! E de que valeu a barba branca demonstrando-me já entrado em anos? Nada! Ridículo como um rapazola imberbe, mais um desses tolinhos, desses salta pocinhas que pululam pela cidade como girinos, como nem sei... Então o tudo e o desbragadamente era um não sei, talvez, vá lá? Assim é a vida vivida e não a enfurnada atrás do encadernamento em couro marrom? O resultado de troca de análises, aprofundamento no inconsciente, aos anos de luta e auto ajuda para adentrar nisso que chamam mundo resulta numa multidão, chuva grossa e o engano de sombrinhas? 9.12.06
Em algum momento me desliguei de tal forma do trabalho mundano que achei mesmo que fosse enlouquecer. Mas não era. Deixei as fitas eletromagnéticas do poeta Tom e voltei correndo para a biblioteca buscar Uqbar. Busca praticamente impossível, eu sei, que já havia sido empreendida há sessenta anos atrás. Minha enciclopédia, claro, também não possuía o verbete, mas considerei que agora tenho a internet como mecanismo de busca. Em 0,22 segundos, a pesquisa eletrônica me apresenta 226.000 verbetes, grande parte falando de Bioy Casares e Borges. Vejo então que a busca não pode ser eletrônica porque os computadores apenas repetem, alimentados pelos homens, o que já foi descrito. E não é disso que estou falando. O mundo da internet é uma cilada pronta para enfeitiçar jovens, uma espécie de saber fácil e ilusório onde todos pensam que sabem, todos respondem e citam, sem ninguém conhecer a verdadeira origem, a origem antes do autor. É a idiotia moderna, o fim do livre pensar, o fim da possibilidade da novela. Tenho que abrir um parêntesis para explicar que esse texto foi escrito logo após a outro, sobre um certo recorte da minha retina de uma família feliz, texto esse que,foi abortado em conersa, não pude publicar por ser incompreendido antes mesmo de torná-lo público.*** [ver caderno 17 B] Então resolvo que devemos viver a novela porque somente através dela encontraremos alguma redenção seja amorosa ou seja o suicídio. O homem conversa comigo tomando cerveja sem parar enquanto eu me drogo legalmente. Temos alguns livros abertos, a maioria pela metade e o caderno de capa dura está ali, esperando que eu continue. Explico ao outro que é difícil para mim ler, anotar com a pena e, escolhido o mais banal, transcrever para cá. Temo não fazer nenhuma das coisas direito. Lembro por instantes da menina de pele tão clara que se entusiasma com tudo o que eu digo do poeta, como se ela não fosse capaz e ninguém o fosse, de como seus olhos crescem como a me devorar. Fico sem graça, quase me arrependendo de ter falado alguma coisa. Ela seria coadjuvante nessa trama, mas as novelas definitivamente não são conduzidas apenas pelo homem, mas pelo destino que ele ajuda a construir. Tento lembrar alguns dos livros e filmes passados no leste europeu e percebo-me um intruso nessa terra aqui, tão tropical, tão abaixo do equador, tão distante do cerne dos homens. Essa juventude continental faz com que tudo se torne frágil, mambembe, em eterno desenvolvimento e, ao espelho, sei que não posso mais esperar. Os jornais se amontoam num canto, todos falando da retirada dos americanos do Iraque [que não acontecerá]. Existe, claro, uma mulher. Na verdade, no início existem duas mulheres porque é assim [ou com dois ou três homens] que a novela se inicia. A partida é do encontro de pessoas narrada com o sentimento de alguma delas que, no caso, me arvoro a ser eu. Intervalo para falar de uma cartão em papel grosso, quase cartão, que recebo, carta essa que fala em ciúmes. Isso me lembra a conversa que tive sobre as relações abertas, mas preciso me ordenar, já que estou andando em círculos na praça central. Farei uma pausa para que reflitam se vale à pena ir em frente ou não, sabendo que falo de terras antigas, de novelas onde homens e mulheres tecem um destino movediço, onde nada será o que foi planejado ou por causa de um simples truque de espelhos ou por falta de conhecimento de um universo mais profundo do que esse tratado eventualmente em textos eletrônicos. E, por ver que o encaminhamento é falso, deixo de lado definitivamente Uqbar.Tudo é uma questão de tempo sabendo que, não sendo consumido, destruirei os cadernos em ardentes chamas que crepitarão sorrindo para o futuro. 8.12.06
REPORTAGEM A leitura me some, escapa entre os dedos embora esteja interessado. Mas foge. Me liga e diz que está com uma crise de pânico no centro da cidade. Quer apenas que eu saiba. Ok, eu sei. Esse ato desencadeia uma crise em mim. Abro o livro e o autor me diz que o jovem levará um tiro no olho em 51 minutos. Cinqüenta e um minutos. Ela poderá cair lá, no centro. Ele morrerá aqui, nessas páginas. Leio ou vou socorrê-la? Ligo, ela não atende. Terá sucumbido à crise? O suor escorre nas palmas das minhas mãos. Por isso a novela me escorria entre os dedos, era uma crise de pânico se aproximando, mal instalada. O telefonema deflagrou. Retorno a ligação e ela não atende. Tento, repito a ligação mais de vinte vezes e ela não atende. O que fazer? Ela me deu um endereço (vago) onde está. Posso ir até lá e ela não estar mais. Ou o contrário. E, pra ser sincero, entrei em pânico também. Ela me pediu ajuda e não consigo socorrer. Sobre as relações abertas é quando te encostam na parece e perguntam se é a favor do aborto e da eutanásia. São perguntas meio óbvias. Sou a favor de tudo, mas só teoricamente. Não sou o que eu digo [e muito menos o que eu não digo]. Sou uma incongruência só. Um percalço em cima de duas perninhas. O homem é o bicho do homem, não é? Pois então. Tenho o exemplo de Sartre que me basta: relação aberta e uma produção intelectual fantástica. E acabou drogado e louco pelas ruas de Paris. Não fui criado para ter uma relação aberta. Aprendi que a mulher tem que ser fiel (o homem também, mas a infidelidade é, hipocritamente, mais aceita até no homem o que também não concordo). Mas não é nada disso, a questão vem muito antes, essa é uma discussão estéril. As mulheres mulçumanas devem ser obrigadas a ir ao colégio sem o manto na cabeça? Elas não agüentam, não é? Estado laico pra quem aprendeu que a verdadeira mulher se cobre? Não quero me casar. Não sei mais o que é casamento. Leio páginas belas de minhas amigas descrevendo simbolicamente o ato sexual. Não tenho mais essa disponibilidade, perdi. O dilema existencial da solidão, esse é o dilema humano depois do suicídio [como diz Camus]. Sou um homem muito interessante, muito mesmo, mas exatamente por estar longe, daqueles que você pega e larga, lê e rasga, faz o que bem entender, mas não tem que conviver. A excentricidade é muito boa exatamente pela distância. Acho que estou sendo duro demais. Porque ainda não é exatamente isso. E nessa história de escrever cadernos e cadernos sempre alertando QUE NÃO É EXATAMENTE ISSO, entro no meu labirinto borgiano, no jogo de espelhos que ele mostrou sessenta anos atrás. Nem original, portanto. O que se espera de um homem que não é original? Que está longe? Sempre ali, um passo adiante? Olívia, no filme, diz que a vida é uma loucura e precisa de um pouco de estabilidade afetiva, mas ela tem uma pistola na cintura e vive um personagem. Verdade ainda que eu também vivo um personagem, só que mal interpretado. Diante disso, quero seguir, sem causar problemas ou constrangimentos. Sou um homem atavicamente só e me interesso muito mais por um leilão de uma enciclopédia antiga do que por uma mulher. O que realmente me preocupa na vida é encontrar o volume perdido com o verbete de Uqbar. Quero ainda descontar o tempo perdido [com esse receio do fim]. Não ser uma nota dissonante, mas aquele que não é facilmente encontrado, que está indisponível porque não cabe em si. Pagão. Busco a generosidade, já que não a possuo. Espero que o mundo fique ansioso porque sentirá a minha falta. Agora não sou uma pessoa, sou uma anotação de pé de página na vida de poucos. Viu? Não é nada disso, mas não vou recomeçar. 7.12.06
Em busca de Aguirre A divindade é um ponto de vista canhestro que oculto no degrau da minha estante e encontro invariavelmente nas madrugadas sombrias e chuvosas. Na verdade, são nesses momentos especiais que levantamos da cama escondidos da nossa sombra e vamos até a sala pé ante pé buscar exatamente o volume que falta na coleção ali à esquerda. Desdita, sentamos na poltrona com o livro menor, aquele que temos sempre [reservado criteriosamente] à mão para salvar a angústia do texto perdido. Fazemos isso uma vez por semana, sempre às segundas feiras [ou aos sábados], ritual acompanhado de um cálice de Porto e espírito de um Andersen. Na falta do que realmente procuramos, aquele que o sonho nos mostrou [tão claramente!], relemos a novela passada em Kars com o pensamento totalmente disperso, pensamento que vai de uma história antiga - porque nós sim, temos as boas e verdadeiras histórias antigas! - em busca de outra mais velha ainda. Após folhear duzentas e poucas páginas e ainda insatisfeitos, seguimos pela casa, esse labirinto auto construído, na esperança vã de alguma aventura que não a chuva e terminamos voltando, calçados em pantufas, ao ponto de parida, a enorme cama de casal onde a sombra, insuspeita, nos aguarda. 5.12.06
Das certezas inequívocas saio de lado, e percebo de soslaio que me deixou por um longo tempo. Verdade que deixamos todos, em função da pressa, da notícia, da emoção, do desterro, da fonte que parece renascer quando está morrendo. Não. Precisa segui um caminho único [e portanto, múltiplo], caminho dos caminhos que me diz incontinente um vai e um pára, ali, os dois, como um sonho, desses sonhos que eu tenho todos os dias, tanto acordado quanto dormindo, tanto naturais quanto induzidos.... sou um ai que não se acaba... Fullgás*** ====> do amor.com* [na verdade sem ponto com... com papel, tinta e cheiro..., o seu] Tudo o que escrevi aí em baixo é nada, frases [de] sem efeito, pros meus dedos ganharem velocidade no teclado (ou pro me cérebro ficar mais ativo? Uma espécie de ESTEIRA mental.) Ganhando tempo. A gente na vida precisa primeiro ganhar tempo. Aproveito meus cinqüenta e tais anos pra falar que, aos trinta, a gente está taxiando. Bobagem, né? E depois de taxiar pensam que eu vou escrever coisas lindas? Nada! Pego a pista, ganho velocidade e decolo. SAMBA DO AVIÃO às avessas, diáspora do Tom, essas coisas. Esperando o finde. Quero findes, muitos. Assim, canhestro mesmo. Vai acabar em bom rumo. Turbulências para aterrar em solo fértil. Saber quando se é fecundado. Fico pensando e repensando. Bacana demais, né? E eu? Quando fui fecundado nessa história? Naquele dia, naquela produção apressada onde apenas rolavam trocas de olhar? Talvez. Mas teve um momento. E depois os olhares pra sempre. Post com endereço haha. Só um entende. E depois o ciclo. Idas e vindas, experiências outras, tentativas com todas as aventuras e desventuras, mas a troca de olhar permaneceu. Como um símbolo, elo da certeza não verbalizada, muitas vezes nem racionalizada. E daí? Nada. A gente vai feito de barquinho de papel, seguindo o córrego aqui, a correnteza ali, a lama acolá. Frágil como o papel e forte bastante para chegar ao lago, à mansidão do agora. O agora é o centro, a certeza, a calma. Não sei falar e acho que não se deve falar mesmo. Falar pra quê? Existe um encontro real, maior, que não é comum, é raro como os flocos de neve que vêm mansamente na hora em que tudo é certeza e amor. Essa hora é única e não se conquista por projeto. É resultado da sorte. A vida é muita sorte. Eu tenho muita sorte. Nevo para ela e para nós. Me chegam umas cartinhas desaforadas por causa da música abaixo, me chamando de brega e outras delícias que só um jeka pode xingar. Vou em frente. Todo enrolado com os livros. Porque foi tanto tempo com bloqueio, sem conseguir ler nada que agora leio três ao mesmo tempo e sem parar e ainda assim sequer me atualizo. Fazer o quê? Porque eu sou a essência do que leio. Quando surto não leio e, portando, nem preciso levantar da cama, das as caras por aí nem nada. Afinal estarei apresentando um redondo NADA a quem já tem pouco. Falando isso porque eu estava lendo sobre ter pouco e me emocionei muito. Fico me repetindo aqui, mas dane-se, o blog é meu: a leitura de A DISTÂNCIA ENTRE NÓS é muito emocionante mesmo, a gente fica tão tocado, tão próximo de Bhima... Mas não adianta ficar falando disso se o Nobel está me atazanando com a matéria de primeira página do Prosa & Verso, como um cursor piscando, me dizendo que eu estou atrasado, por fora de tudo de bom que vem e está por aí. Porque é a tal coisa, pra ir pra lista dos mais vendidos é porque todo mundo já leu. Dã. Hoje, meio introspectivo, fico pensando nas coisas que tenho vivido. São coisas boas no fundo. Mesmo as coisas mais malucas são boas. São as minhas coisas. Ouvir Marina sempre foi um sintoma. Sempre achei isso. Ouvir Marina é uma bandeira => ahahahahahahahah. Venho sentado na janelinha do ônibus, pegando fresco na cara, desse dia em que todos estão suando, xingando, maldizendo a vida. Não sei se eu já falei aqui que andei vendo uns filminhos e lendo os livros que me deram um toque: para de maldizer a vida porque, apesar de tudo, ela é ótima e maravilhosa. Desde então tenho brindado a existência, a tudo o que me pinta na frente e essa coisa toda. E talvez uma coisa puxe a outra. Pelo menos é o que dizem gurus, místicos e mesmo agnósticos. Sei lá, quem sou eu pra saber! Mas ta rolando e essa hist´ria tem a ver com uma coisa que eu vinha falando há muito tempo. Coisas com HÁ MUITO TEMPO PAREI DE PERGUNTAR POR QUÊ e... OU NÃO.... e por aí vai Tudo tem o seu tempo, tudo rola... as coisas têm um tempo, a gente dá muitas voltas por esse mundinho, mas estando aberto, sabendo se perceber bem, olhar bem, pra fora e pra dentro... sei não. Porque tem aquela coisa toda de entendimento, de paciência e generosidade. Acho bacana essa palavra, GENEROSIDADE, bacana pra caramba de montão. É uma espécie de amadurecimento sentimental, mental, coraçãonal..rs . Essa coisa toda aqui não é nada, é mais ou menos o óbvio que todo mundo escreve e muito melhor do que. Mas o Sobretudo vai mudando.... por isso estou lançando o EX-SOBRETUDO, porque ele não morre, mas vai, vagarosamente se alternando. O outro vai comprar um barco e rodar o mundo, eu vou voltar a mim mesmo, em essência... tentar... a gente ta sempre tentando. Eu sinceramente acho que o EX-SOBRETUDO não vai vingar porque não estou me dividindo, é outra coisa. É uma mudança no mesmo espírito. [Existem mudanças quando não são no espírito? ATEU TEM ESPÍRITO*?] Então entendemos que não é nada disso, que o texto acima foi um ensaio mal sucedido e começamos agora, começamos usando uma lona mais clara para o sobretudo, deixando de lado as solitárias duas rodas, trocando-as pela confraternização do ônibus porque.... outras coisas fazem mais sentido e o tempo passa e.... como não sou poeta, Roberto Carlos diz tudo melhor: Quando eu estou aqui Eu vivo esse momento lindo Olhando pra você E as mesmas emoções sentindo São tantas já vividas São momentos que eu não me esqueci Detalhes de uma vida Histórias que eu contei aqui Amigos eu ganhei Saudades eu senti partindo E às vezes eu deixei Você me ver chorar sorrindo Sei tudo que o amor é capaz de me dar Eu sei já sofri, mas não deixo de amar Se chorei ou se sorri O importante é que emoções eu vivi São tantas já vividas São momentos que eu não me esqueci Detalhes de uma vida Histórias que eu contei aqui Eu estou aqui Vivendo esse momento lindo De frente pra você E as emoções se repetindo Em paz com a vida e o que ela me traz Na fé que me faz otimista demais Se chorei ou se sorri O importante é que emoções eu vivi 4.12.06
Querido Diário Não saí, fiquei por aqui falando, falando e falando. Um monte de coisas pra fazer e eu falando com ela. Exatamente o quê não posso contar, mas é a terceira vez. Não me importa o número de vezes e sim a qualidade e sim o que isso quer demonstrar de verdade. Verdade? O que é? A minha? Sim, a verdade é a minha porque é vista por mim, não poderia ser outra. Se outro tem a sua, muito bem, me convença. Estou leve. Parece que passou a onda negra e vem a onda boa. Dizem que é sempre assim e eu, que nunca acreditei nessas crendices populares, tenho que me render. Já me rendi a muitas coisas na vida e há muito tempo parei de perguntar: por quê? As coisas são porque são (claro que a gente conduz, planta). Putz, isso aqui ta com cara de Meu Querido Diário, mas tem coisas que não tem como contar de outra maneira. Contagem regressiva? Mais ou menos uns vinte dias para a casa nova. Agarrado com o meu A Distância Entre Nós de Thrity Umrigar. Muito, muito bom, todo mundo deveria ler. Acho emocionante. Sonhei com o Robinson me pedindo emprego. Sabe-se lá o que vai pelo meu inconsciente.... Talvez a percepção de que sem a minha gratificação por consultas ele cai em desgraça (o que é uma tolice, armadilha da cabeça). Dou uma lida na Marina W, mas não tem nada demais. Queria escrever outra resenha do livro dela, mas não vou fazer. Todo bipolar que leia. Estive com a Vera, minha psi. Não estávamos, os dois, com muita paciência. Tem dias que é assim. Caminho pelas ruas em busca de pontos de ônibus e estações de metrô. A vida sem carro é completamente diferente, pode acreditar. Parece que você está aleijado, mas é uma bobagem que já passa. A maioria das pessoas não têm carro e são felizes. Vou me incluir nesse rol. Se eu precisar, ela tem. Aliás, quando a conheci, ela tinha carro e eu não. E tudo deu muito certo. Prova está aí, esse garoto lindão. O que mais? Nada. Vou andar por aí. |